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Fragmentos de Uma Vida de Trabalho

Jorge Silveira Lopes

Ă minha esposa e meus filhos.


Prefácio Homem talhado na rudeza da pedra ancestral Jorge Lopes gizou os seus actos pela nobreza dos códigos de parcimónia que moldaram as gentes da ilha de São Jorge. Da sua vida feita de episódios ora tristes e angustiantes ora alegres e divertidos, longamente associada ao trabalho, nos Serviços Florestais, decidiu o que queria contar, bem como a forma a dar-lhe e a quem transmiti-lo. Por isso, nesta oratória, a duas vozes, com o seu filho Filipe Lopes, a quem delegou a responsabilidade de rescrever e organizar o seu testemunho, cumpriu-se a passagem ritual de pai para filho de dar continuidade aos valores culturais, morais e éticos que nortearam a sua vida. A mesma herança que quis legar às gerações futuras, ao tornar públicas as suas memórias, para que compreendam e conheçam melhor a sua terra e possam dar-lhe o valor que ela merece, num encontro harmonioso entre Passado e Presente. A história da vida de Jorge Lopes é diferente da dos outros, mas também semelhante à de muitos outros homens e mulheres da ilha de S. Jorge. A sua história poderia ser a de outras pessoas com as suas próprias histórias nem melhores ou piores, nem mais ou menos importantes, mas todas merecedoras de serem preservadas, para o futuro. Histórias que não devem somente ser contadas, mas também ouvidas e usadas porque, afinal, a história de cada um diz respeito à História de toda a sociedade. Na verdade, a valorização das histórias de vida das pessoas traduz uma forma de entender o que é, como se faz e para que serve a História. Porque são narrativas como esta, produzidas por diferentes pessoas, grupos e instituições que, organizadas numa extensa rede, tecem aquela que é uma nova memória social, plural e democrática da Ilha de S. Jorge. Possa, pois, esta comovedora narrativa autobiográfica, que em boa hora vos é dado ler e que tenho o grato privilégio de prefaciar, ser a primeira de uma longa e profícua série de muitas outras contribuições memorialistas para a História da nossa ilha! Maria da Conceição Bizarro Velas, Abril 2010


Introdução Uma história verdadeira, um legado para a malta mais nova. É assim que considero esta pequena colectanea de aventuras e episódios da minha vida enquanto funcionário dos Serviços Florestais. Cedo fui forçado a abandonar a vida de criança, não tendo tido a oportunidade de estudar mas a vida deu-me uma “Licenciatura”, por todas as dificuldades e exigências que foram surgindo. A possibilidade que tive de trabalhar com pessoas muito desenvolvidas também me deu muita “bagagem” para enfrentar muitas situações de dificil resolução. Decidi, em conjunto com o meu filho Filipe Lopes, escrever esta pequena obra, para poder, também eu, reflectir como foi a evolução duma ilha que me enche o coração. Lembrar o passado é também importante para a malta mais nova, assim é possível encarar com mais carinho o que se conseguiu atingir, não o digo apenas pela dificuldade daqueles tempos, onde tudo era feito há força de homens, mas principalmente por se constactar que quem lutou pelos Serviços Florestais nesta ilha foram homens dignos e que em qualquer circustância estiveram entregues de corpo e alma em prol do desenvolvimento da sua ilha. Peço desde já desculpa pela simplicidade desta pequena obra, e pelas histórias que possam não achar piada.


I . OS PRIMEIROS PASSOS Nasci no dia 16 de Janeiro de 1950 filho de Maria da Conceição Catarina e João Lopes Maciel, o quinto de nove irmãos. Morava com os meus pais, 8 irmãos, 1 irmã e os meus avós paternos, todos numa casa com apenas 3 quartos de cama. O chão da cozinha era de terra batida, no tecto havia “tesouras” de faia, acartadas da “rocha” (Fajã), com o forro pregado muito ralo... quando se olhava para cima conseguia-se ver a lua e as estrelas, e quando chovia era muito triste. Eu e os meus irmãos fizemos uma retrete, no quintal, para as nossas necessidades pois não havia casas de banho naquela época, nem electricidade e a gente alumiavase com um candeeiro, com uma lanterna ou com uma luz de folheta. Era triste viver assim. A nossa alimentação compunha-se de uma açorda a meio da manhã, sopas de leite ao almoço e uma sopa de couves, ao jantar; às vezes comia-se pão torrado, para não ter bolor, com 2 ou 3 chicharros secos assados e bebia-se café de cevada preto. Matava-se um porco por ano e era comido numa semana. Durante as tardes ajudava os meus pais nos trabalhos que eram necessários como acartar água do chafariz, num barril, (que ainda tenho como recordação) semear as batatas, no quintal, trabalhar as terras com os bois e no mais que fosse preciso. As nossas idas às 7 Fontes, com a minha Mãe e meus irmãos não eram para passear, pois muitas das vezes lá íamos apanhar musgão para ser vendido, nas Velas. Com o musgão se faziam almofadas e colchões porque não havendo, naquele tempo, os materiais que existem, hoje, aproveitávamos o que a mãe natureza dava para conseguirmos sobreviver.


Aos Domingos ia com um dos meus irmãos ajudar o nosso avô a limpar as ervas daninhas de entre o linho. Quando este estava pronto a ser colhido ia com o meu avô às 7 Fontes e colocávamos o linho de molho, num lago que lá existia, durante umas horas, para o tornar mais suave e conseguir manuseá-lo melhor. Também aos Domingos, depois de ir à missa, íamos jogar à bola para a terra dum moço, que servia de campo de futebol; apareciam muitos e alguns deles bastante habilidosos. Jogava-se, também, muitas das vezes ao bilro. Assim se passavam as tardes de Domingo. Mas eram tempos difíceis, andávamos descalços. Ás vezes digo aos meus filhos que, naquele tempo, nem as galinhas sabiam pôr ovos. Entrei para a escola, em 1957, e éramos 26 colegas na mesma classe. A regente era muito rigorosa e batia-nos quando errávamos nos afazeres da escola. As aulas eram na própria casa da Sra. Professora. Ali, rezávamos todas as manhãs e tínhamos que saber as matérias todas, na ponta língua. Um dia, a Sra. Professora colocou de castigo um rapaz, (a quem chamávamos de José Cabrito), por este se ter comportado mal mas, num ataque de fúria, ele partiu a régua e o vime que a Sra. Professora tinha para nos castigar, saltou para uma secretária e ainda lhe arranhou a cara e lhe partiu os óculos. Quando, finalmente, o moço se acalmou, a Sra. Professora conversou com ele e tudo se resolveu. Como ficámos todos nervosos houve um dos colegas que deu a ideia: - “Sra. Professora, eu amanhã trago um vime para a Sra. Professora bater nos meninos.” E assim foi. Como o prometido é devido o colega não se esqueceu de trazer o dito vime...porém, azar dos azares, foi o primeiro a levar com ele!


II NEGOCIANTE DE QUEIJOS No ano de 1958 comecei a tratar de umas cabras que meu Pai tinha, e no ano seguinte, com apenas 9 anos iniciei a minha aventura de negociante de queijos de cabra. Era a 1 escudo cada um. Três vezes por semana ía às Velas e levava comigo 17 ou 18 queijos de cada vez, pois tinha fregueses certos. Com o dinheiro que me pagavam comprava 1 escudo de sabão azul e branco, ¼ kg de açúcar, 1 serrilha de temperos, uma garrafa de petróleo, 50 centavos de café de cevada, 1 litro de sal e um maço de cigarros da marca Capelo, para o meu Pai. Levantava-me cedo. Às 6.30 já estava fora da cama. Preparava-me para ir ordenhar as cabras que ficavam perto de casa. Subia uma canada para apanhar folhas de conteira que serviam para colocar os queijos depois de se tirarem dos cinchos. Estes eram feitos de folha de piteira verde, cortada, na parte mais larga, com uma tesoura, unida nas pontas e cozida com uma agulha. Antes de ir para a escola, de manhã cedo andava 14 km a pé e descalço até às Velas, sem ter nada para comer ou beber, ao pequeno-almoço. Levava os queijos e trazia as compras. Quando voltava apanhava a ardósia e o lápis e, às nove horas, já estava, com os meus colegas, pronto para aprenderUm dia, correu o boato de que um homem, chamado “Labareda”, provocava as senhoras e as crianças. Como comecei a ter medo de ir sozinho, às Velas, passei a ir com outros grupos. Mas, num belo dia e apesar de todas as cautelas, demos com o tal indivíduo (que afinal era uma pessoa desequilibrada) sentado na berma da estrada, com as partes intímas à mostra apenas com umas flores a enfeitar, ao seu redor. Enquanto passávamos, apressadamente, ainda o ouvimos dizer: - “Olha; mesmo enfeitado, ninguém te liga.”


III. CAÇADOR Com apenas 10 anos de idade tinha a meu cuidado o “rigo” da caça. O aljábre, o guizo, o assame e as redes eram uma parte fundamental das caçadas. O meu pai tinha uma matilha de cães e uma “foroa”. Era impressionante assistir às caçadas. Os cães depois de avistarem coelho corriam atrás dele até este se esconder na toca; a seguir, inspeccionava-se para encontrar a saída da toca e ali, o meu pai armava as redes. Na entrada, colocava a foroa que entrava e forçava o coelho a procurar a saída ficando preso, nas redes. Algumas vezes, a foroa, não contente com apenas perseguir o coelho, tentava comê-lo e, nessas alturas, o meu pai fazia uma pequena fogueira, à entrada, obrigando a foroa a sair, por causa do fumo. As foroas eram muito usadas para a caça mas eram perigosas... quando davam uma dentada não largavam! Um dia, o meu Pai levou uma dentada num dedo e calhou que a foroa só apanhou a ponta, mesmo assim ele ficou com um corte enorme. Então, para que isso não acontecesse, quando a foroa estava na sua gaiola, íamos com a ponta da navalha e ela pregava-lhe uma dentada; como era um objecto duro, ficava meia atordoada e depois de o fazer várias vezes já não mordia, quando via os nossos dedos.


IV . FUNCIONÁRIO DO ESTADO Após acabar o meu tempo de escola, em 1961, iniciei o meu primeiro trabalho, no ano seguinte, com apenas 12 anos de idade. Foi no dia 2 ou 3 de Janeiro de 1962, no baldio das 7 Fontes. Ali era o terreno dos pobres onde os que não tinham terras deixavam os seus animais a pastar. Viam-se muitos animais: vacas, gueixas, ovelhas, burros, cavalos. Havia um abrigo, em pedra, com o tecto feito em lajes, onde muitos animais se abrigavam, mas foi destruído com os abalos de 1964. Aquele terreno era muito barrento e não era muito cultivável. Ali crescia musgão, junco, urze e queiró que muitas pessoas aproveitavam para colher e fazer negócio, principalmente com o musgão, para ser utilizado em colchões. O acesso ao meu local do trabalho era muito mau e eu tinha de subir uma Canada, que ficava junto à minha casa, e que dava à 7 Fontes. Infelizmente, como sofria de asma, quando subia a dita Canada ficava quase sempre aflito. Por isso aconteceu atrasar-me, algumas vezes, porque com os ataques de asma tinha que parar para recuperar a respiração e, como não havia medicamentos, tinha mesmo que aguardar. Nessas alturas, o Encarregado do Serviço punia-me por chegar atrasado 4 ou 5 minutos e eu só ganhava ¾ de dia. Chamava-se José de Sousa e era muito rigoroso. O Chefe de ilha, à época, era o Sr. Engº. Cota, da ilha Terceira.Trabalhávamos a semana toda incluindo os Sábados; a hora de início era no corte de serviço, assim como o final do dia. Aconteceu várias vezes, eu e os meus colegas, irmos para o trabalho e começar a chover de manhã; se por acaso chovesse o dia todo, não ganhávamos nada, ficávamos abrigados à espera do tempo melhorar. Mas o meu rendimento, enquanto funcionário do Estado, era de 14$00 por dia (pago quinzenalmente), o que, para um miúdo de 12 anos, era um bom vencimento.


V. OS ANOS SESSENTA O Sr. Engº. Cota foi-se embora, para a sua terra, em Agosto de 1962 e, nessa altura, surgiu um novo chefe, o Sr. Engº. Taveira, de 22 anos, natural da ilha de S. Miguel. Este homem não foi um chefe, foi um professor, um amigo, um homem cheio de ideias, um homem de coragem. Posso afirmar, e peço perdão pelo termo, que este homem foi um “gigante”, fez uma obra inigualável em S. Jorge. Principiámos sem ter máquinas, trabalhando-se alguns terrenos com uns bois que a Florestal tinha; outros serviços eram feitos à força de braços, pelos homens e rapazes que ali trabalhavam, naquela altura. Construímos o viveiro, em 1963, os abrigos eram de giesta que eu e um primo meu semeámos. Começaram as sementeiras: pinheiros, acácias, eucaliptos, criptomérias, japoneiras, entre outras. No baldio plantaram-se criptomérias, que vinham de outra ilha, e a vedar, em algumas zonas, com pedra partida à mão, carregada também manualmente, para os carros de bois, enquanto, noutros locais, se vedava com estacas e arame farpado. Em 1964, já havia plantas lindas mas, infelizmente, teve início a crise sísmica e, em 17 de Fevereiro, desse mesmo ano, tivemos que abandonar a freguesia que se encontrava parcialmente destruída. As pessoas iam em romaria, a rezar, desde Rosais até Santo António, numa marcha de 12 quilómetros. O tempo era terrível, muito vento, trovões, muita chuva e de vez em quando um tremor de terra. Foi assustador; parecia o fim do mundo.


Em Santo António tivemos boleia para a Calheta, por ser a zona da ilha onde menos se sentiam os abalos. Fiquei numa garagem de uma pessoa que nos abrigou. Éramos 17 pessoas, num espaço de cerca de 20 m2, dormindo, no chão frio, alagados. Passámos dois dias e duas noites sem ter nada para comer nem beber, o tempo sempre mau, o mar muito alteroso... mas com a graça de Deus o tempo melhorou e, no porto da Calheta, atracou uma fragata com mantimentos, para nos socorrer. Foi montada uma tenda de campanha onde davam roupa e comida: havia sopa, café, atum, pão e água. Aos poucos, as pessoas começavam a encontrar os seus familiares que tinham vindo em grupos separados. Houve pessoas que deixaram os animais à solta e muitos dos donos vinham, na camioneta da Lacticínios, para ver os seus animais e ver se as réplicas já tinham acabado. Como os animais estavam soltos deram prejuízo no plantio que já havia nas 7 Fontes. Entretanto, terminada esta crise sísmica deu-se inicio à reconstrução, e eu, um jovem cheio de energia e força, deixei a Florestal para trabalhar na construção de casas uma vez que o vencimento era muito superior. No ano de 1969, porém, regressei à Florestal. Numa época em que não havia muito dinheiro, apenas se trabalhava 4 a 5 meses por ano.


VII. OS ANOS SETENTA Em Janeiro de 1971 fui cumprir o serviço militar, em Angra do Heroísmo. Estive por conta do Exército até Março de 1974, tendo cumprido 15 meses de tropa efectiva e o restante tempo de licença registada. Por isso, em 1972 voltei, ao abrigo da licença, para S. Jorge trabalhando para a Florestal, ao dia, e sempre que precisavam. Em 1976, tive a sorte de ficar a trabalhar a tempo inteiro para a Florestal como Encarregado de Serviço. Auferia um vencimento de 3.300$00 por mês. Nesta altura já se notava desenvolvimento, foi no tempo do PPA. Já havia camiões, Caterpillars, pás carregadoras, tractores e Fiats (máquinas de lagartas). Fizeram-se muitas pastagens, recuperaram-se outras, construiram-se estradas, acessos a pastagens, bebedouros para animais e plantaram-se muitas cortinas de abrigo, em criptoméria. Naquele tempo, pela ilha, havia mais de 100 trabalhadores ao serviço da Florestal e apenas 2 Guardas Florestais, a coordenar. Eram eles o Sr. Cristovão da Paz e o Sr. José Braga, que mais tarde foi transferido para Santa Maria. Eram pessoas muito respeitáveis e davam-me muito apoio nos trabalhos realizados em toda a ilha. Com a idade de 27 anos eu era um jovem com muita força e resistência, fruto da vida de trabalho que fui obrigado a ter. Habituado a grandes caminhadas e idas às “rochas”, sempre “carregado”. Para “dentro” com batatas para semear, para “fora” com lenha para a cozinha. Enfim, uma má vida que quase ninguém de hoje em dia compreende. Naquela idade não havia medo de nada e qualquer desafio era enfrentado sem problemas. Num belo dia do ano de 1977, estava eu nas 7 Fontes e apareceu um tractorista, que apelidávamos de Pélé, que vinha buscar uma máquina agrícola, uma Fresa. Como estava com muita pressa para ir a um funeral dum familiar, lançoume o desafio: - “És homem para carregar aquela Fresa comigo, para cima da trela, à mão?”


E eu, claro que disse que sim. Fomos à aventura! Pegámos cada um na sua “cabeça” e, no meio, um rapaz, que trabalhava nas 7 Fontes, segurava uma parte metálica para não nos atingir. Até meio ainda foi mas, chegando a dada altura, tivemos que fazer a força que tínhamos e a que não tínhamos, pois se deixássemos a alfaia cair, havia o risco de ficarmos gravemente feridos! Por fim, lá conseguimos colocar a alfaia, na trela, mas ao cabo de um mês ainda me doía o peito e os braços! Isto parece história mas é a pura da verdade. Nesse tempo, o Sr. Eng.º Ilídio Gonçalves vinha passar férias a S. Jorge. Trabalhava na ilha Terceira, na Administração, e adorava passar férias cá. Um dia fui entregar uns documentos ao escritório dos Serviços Florestais, nas Velas, e lá estava o Sr. Engenheiro. Começámos a conversar e ele, a dada altura, perguntou-me se eu conhecia alguém que vendesse ovos caseiros;ora como eu morava numa freguesia, lembrei-me logo de algumas pessoas e lá fui comprar 2 dúzias de ovos ao Sr. Eng.º Gonçalves. O meu transporte, de então, era uma mota, uma V5 e eu, novo e sem pensar no que estava a fazer, coloquei a cesta dos ovos, no porta bagagens e ala de regresso às Velas. É claro que em chegando lá, nem um ovo sobrou para contar a história... ! tive que ir comprar mais.


Com o passar dos anos os Serviços Florestais foram ficando mais organizados, sendo tudo muito bem coordenado pelo Sr. Eng.º Taveira que possuía uma capacidade de trabalho impressionante e colocava no terreno muita dinâmica, exigindo rigor e desempenhos de excelência. Ao longo dos anos tivemos visitas de muitas pessoas que se interessavam pela beleza da nossa ilha. Estou-me a lembrar que quando, em 1977, esteve cá a Sra. Eng.ª Manuela Soares, tive o previlégio de a acompanhar, na volta à ilha, na busca de camélias. Porque ela queria apenas os melhores exemplares, colhemos a estacaria de muitas cores e variedades para plantar, nas 7 Fontes e no Parque da Silveira, na Ribeira Seca. Muita gente pergunta-me, hoje em dia, ao visitar o Parque das 7 Fontes, como temos tantas variedades de camélias, ao que eu outra coisa não posso responder, senão que esta beleza se conseguiu com o muito empenho e a dedicação de muitas pessoas. Nos anos de 1977 a 1980 produziamos, sensivelmente, 100 mil pés de criptoméria por ano. Plantas que eram utilizadas para cortinas de abrigo e para serem plantadas, em muitos locais, um pouco por toda a ilha. Durante esses anos trabalharam cerca de 24 pessoas no Parque das 7 Fontes. Entre eles havia uma dúzia de rapazes novos com 13 e 14 anos de idade. Ensinei-os na repicagem e no cultivo da criptoméria e porque eram muito empenhados, graças aos seus esforços, tínhamos um canteiro digno de se ver. Rapaziada nova...! Às vezes, também, me davam dores de cabeça...quando acontecia haver uns desentendimentos entre eles, era logo porrada! Lá ia eu, sendo o Encarregado, acalmar os ânimos! Mas eram situações pontuais que surgiam muitas vezes de coisa pouca.


Um acontecimento muito marcante na vida do Parque das 7 Fontes deu-se no dia 18 de Agosto de 1978, com a inauguração da Ermida de S. João. Mas tudo começou, no ano anterior, com a ajuda financeira de alguns emigrantes nos Estados Unidos da América, para o inicio da construção da Ermida. Tive o privilégio de acompanhar aquela construção, desde o seu início. As fundações foram muito difíceis, pois não havendo máquinas retro-escavadoras tinha de se utilizar a força de homens. Apesar disso e logo após alguns meses já se via a obra ganhar vida. Foi muito empolgante ver crescer um monumento que, mais tarde, seria uns dos ícones do Parque bem como da minha vida, pois, foi ali, a 30 de Dezembro 1978, que me casei. Concluida a construção da ermida e havendo sobrado algum dinheiro, as pessoas encarregues da gestão dos fundos tiveram a ideia de fazer um tributo aos emigrantes mandando fazer o Bote Baleeiro, que se encontra junto à ermida.


No início foi complicado porque não se conseguia fazer um molde suficientemente robusto: usava-se barro, mas com o calor do sol este secava e caía...! Então, depois das horas do trabalho, comecei a ir para lá tratando de imaginar qual seria a melhor forma de ajudar naquela tarefa. Pus-me a fazer algumas experiências com barro e cimento e finalmente consegui uma solução de que falei aos responsáveis pela obra. Foi assim que utilizando a minha ideia finalmente se conseguiu construir o Bote Baleeiro! No final dos anos 70 não possuíamos ferramentas mecânicas e, quando se fazia o desbaste das criptomérias, utilizávamos machados. O Sr. Eng.º Taveira marcava o plantio, que teria que ser cortado, e nós íamos depois e fazíamos o desbaste. Num desses dias, um dos trabalhadores tinha ido à ilha Terceira e comprara umas calças à boca-de-sino, que naquela altura estavam muito na moda, e foi trabalhar com as suas calças modernas, no dia do desbaste. Tropeçava

em

tudo,

caiu

algumas

vezes

e,

a

dada

altura,

far-

to das calças, colocou a parte larga em cima duma cepa e desafia: - “Não és homem não és nada se não cortas esta perneira”. Claro. Mandei o machado acima das calças que cortou um grande bocado! O homem ficou todo nervoso: - “Se te mando cortar a perna não tinhas dúvidas....” Maluquices de malta nova.


Para além dos machados, para fazer o corte de madeira, também usávamos as foices d´América para cortar erva, mas era um trabalho muito pesado. Era muito desgastante utilizar essas ferramentas por isso quando, finalmente, nos inícios dos anos 80 surgiram as moto-serras e as máquinas de roçar, o trabalho ficou muito mais facilitado. Conseguia-se fazer muito mais e melhor trabalho! Quando havia vento e se partiam troncos era muito simples removê-los, assim como era mais simples manter as relvas aparadas; foi um grande passo!

VII . OS ANOS OITENTA Em Janeiro de 1980, São Jorge foi, novamente, assolado por sismos de elevada magnitude. Naquele tempo existiam muitos palheiros, um pouco por toda a ilha. As pessoas utilizavam os palheiros para abrigar os animais de Inverno e para guardar os seus alimentos.Os palheiros eram feitos de pedra e alguma muito bem “trabalhada” mas o sismo destruiu muitas dessas obras e as pessoas não queriam recuperá-los por ser mais caro fazer em pedra do que em cimento. Por isso os Serviços Florestais trocaram blocos e cimento por pedra e eu fiquei responsável por esses negócios, na freguesia dos Rosais. O transporte era feito num tractor com atrelado e as pedras carregavam-se à mão, pois a maquinaria estava ocupada, noutras zonas, na reconstrução pós-sismo. Para entusiasmar o restante pessoal, eu com os meus 30 anos, cheio de resistência e força, começava a fazer disputas para ver quem enchia o atrelado o mais depressa possível.


A competição era feita com equipas de 2 homens e marcava-se o tempo pelo relógio. Na minha equipa, com cerca de 15 trabalhadores, apenas 2 foram tão rápidos quanto eu. Levámos 8 minutos a encher um atrelado de pedra. Isto parece história mas é a realidade! Mais uma daquelas asneiras que se fazia... e o corpo é que paga! O mês de Março de 1983 foi um mês muito especial para mim. Fui

promovido

a

Guarda Florestal ! Houve uma vaga para o posto e o Sr. Eng.º Taveira incentivou-me,

dizendo

que teria jeito para tal missão e que os trabalhadores já estavam

habituados

à minha maneira de trabalhar.

Concor-

dei, fiz um exame e fiquei. Fui para S. Miguel onde estive durante 3 semanas, em estágio, percorrendo a ilha, em muitas operações de fiscalização de caça. Aprendeu-se muito, tínhamos formação sobre plantas, árvores, caça, manuseamento das armas, e muitas outras coisas. Estive duas vezes em estágio, no ano em que me iniciei como Guarda Florestal: a primeira em Março e a segunda, no mês de Setembro. Foram estágios muitos produtivos. Gostei muito. Nos inícios dos anos 80 procederam-se a algumas asfaltagens. Recordo as asfaltagens do Caminho das 7 Fontes, Terreiro da Macela e Cancela Grande (acesso às 7 Fontes).


Era um trabalho terrível! A brita era toda espalhada à mão, o alcatrão retirado dos bidões com o uso de um maçarico a gás e, quando pronto a utilizar, “espalhado” à mão com uma mangueira. Como estive a coordenar estas esfaltagens lembro-me que saía pela mangueira uma espuma que se “pregava” na roupa e que a deixava estragada... Não existe comparação com os tempos de hoje em que há máquinas boas e materiais muito bons. Ao longo do tempo da “criação” do Parque das 7 Fontes foram surgindo ideias que eram logo postas em prática. Estou a recordar-me do lago no interior do Parque. Ora como isto se passava no principio dos anos 80, para se aproveitar uma pequena zona com água já existente, iria ser preciso usar os bois e a escrepa, uma ferramenta que “arrastava” a lama para fora permitindo aumentar a aquele espaço. Foi um trabalho difícil de fazer mas a partir de um certo momento não se podia fazer mais com aquela ferramenta, tendo que ser à força de braços. Homens com pás retiravam o resto da lama que a escrepa não conseguira retirar, e colocavam-na nas laterais do lago. O trabalho era feito por 2 homens que já tinham prática. Eu, para lhes dar um certo incentivo e objectivo, marcava-lhes uma determinada área que, no final do dia, tinha que ser cumprida. Após alguns dias de trabalho pude constatar que algo não estava certo. A área marcada era igual à dos dias anteriores e os homens não tinham cumprido o objectivo, sendo que o material fora do lago não correspondia ao que tinha sido marcado. Não disse nada. No outro dia, marquei novamente a área a ser “trabalhada” e fui-me embora. “Saltei” para o meu transporte, que era uma moto, e abandonei a área. Passados uns metros parei e regressei ao local, desta vez, a pé.


Aproximei-me do lago, em silêncio, por entre as árvores, a fim de ver o que “conspiravam” os trabalhadores. Vi, então, que os indivíduos após cavarem a área pré-determinada, padejavam uma vez para fora do lago e outra, para o meio, onde havia alguma água que disfarçava. Apareci, então, de surpresa, e perguntei: -“O que é que se passa aqui?” -“Mas, mas.....” balbuciaram nervosos ao verem-me ali. -“Agora vamos lá retirar todo esse material para fora !” E foi assim que tiveram que trabalhar o dobro. Aprenderam que comigo tinham que trabalhar com seriedade e que não valia a pena tentarem enganar-me. Por tradição e nas festas da padroeira da Freguesia dos Rosais faz-se, no 1º Domingo a seguir ao dia 15 de Agosto, uma festa nas 7 Fontes, uma espécie de piquenique em que as famílias trazem as suas merendas para almoçarem no parque. Desfilam grupos folclóricos, bandas filarmónicas, até Marchas. Há a tradicional missa campal na Ermida de S. João. Enfim, é um dia muito preenchido e nós trabalhamos para que tudo corra bem no Parque e não surjam complicações. No dia seguinte, temos sempre muito lixo para recolher apesar dos muitos recipientes que colocamos. Em 1984, recolhiamos o lixo da festa e tal como em anos anteriores encontrávamos objectos perdidos, como brinquedos, canetas, toalhas e até notas. Naquele ano, porém, ninguém tinha encontrado dinheiro e, a dada altura, um dos funcionários mais idosos a trabalhar nas 7 Fontes piscou-me o olho em jeito de “vou fazer uma brincadeira; alinha comigo” e retirou da sua algibeira uma nota de 500$00 começando a dizer que a tinha encontrado. Os outros trabalhadores começaram na folia com ele. -“Vais pagar alguma coisa....” Como estava na hora de almoço vim a casa, já que era muito perto e possuía viatura própria, enquanto o pessoal ficou no Parque. No entretanto, apareceu uma senhora, muito aflita, porque tinha perdido a sua carteira contendo os seus documentos e algum dinheiro.


Alguém lhe disse, então, ter um dos trabalhadores encontrado qualquer coisa pelo que a senhora, esperançada, se dirigiu, sem o saber, ao nosso colega brincalhão. Ele, que era uma pessoa muito séria, contou-lhe que tinha feito, apenas, uma graça e que eu também sabia que ele estava a dizer a verdade. Mas a senhora não o acreditou e veio até minha casa tendo-lhe eu dito o mesmo, que não senhor, não tínhamos encontrado nada mas, que se ela quisesse, como havia ainda muito lixo para recolher, lhe telefonaria caso se encontrasse a sua carteira. A senhora ficou com o meu número de telefone e eu com o dela e, no final do dia, quando terminámos os trabalhos, nada tinha sido encontrado, por nenhum dos trabalhadores. A senhora, nessa noite, vendo que eu não dizia nada, telefonou-me a saber noticias e eu, claro, disse-lhe que não tínhamos encontrado a carteira. Ela, então, muito exaltada disse-me: -“Você está a encobrir um ladrão....” Fiquei incomodado com aquela conversa pois estávamos a dizer a verdade. Passados 3 ou 4 dias, à noite, o telefone tocou. Era a dita senhora toda chorosa, a pedir perdão por ter sido injusta para com pessoal dos Serviços Florestais, pois tendo guardado a sua carteira, num local diferente do habitual, tinha acabado por encontrá-la. Em 1985 eram plantadas muitas criptomérias um pouco por toda ilha. Certo dia fui com 4 ou 5 homens, da minha equipa, plantar uma quantidade grande de plantas; entre os homens estava um trabalhador que se tinha magoado numa mão, enquanto estava de férias e a trabalhar por conta de outra pessoa. Este trabalhador queria que os Serviços Florestais lhe pagassem os dias que esteve em casa, sem poder trabalhar, mas como isso não aconteceu ele andava revoltado e tentava a todo o custo criar conflitos e confusões comigo e com os outros trabalhadores. Levei as plantas, as ferramentas e os homens e dei-lhes as indicações necessárias. A missão, para aquele dia, consistia em plantar aquelas centenas de plantas, naquele local.


Mais tarde, fui ver como estavam a progredir, naquela tarefa e em chegando, reparei logo que não tinham restado plantas o que era impossível porque o plantio que lá tinha deixado era suficiente para cobrir uma área superior. No dia seguinte, continuando-se a mesma tarefa, fui mais cedo para o viveiro e fiz, pessoalmente, a contagem do plantio a levar naquele dia. Fiz o mesmo do dia anterior: levei as plantas, as ferramentas e os homens e dei-lhes as indicações necessárias. Regressei, posteriormente, e contei as plantas que tinham sido plantadas. Ali havia aldrabice. Faltavam muitas dezenas de plantas! Questionei o pessoal quanto a isso e, em coro, numa frase ensaiada responderam: -“Estão todas plantadas.” Então disse-lhes: -“Meus amigos, segundo as minhas contas, e verificando na minha agenda, vejo que vocês tinham que ter plantado uma certa quantidade mas depois de contar as plantas, no terreno, vejo que faltam muitas. Quero saber o que se passa.”. Todos negaram. Chamei o mais novo, de parte, e tive uma conversa séria com ele. Disse-lhe que só queria a verdade para o bem de todos. Ele concordou e fazendo um gesto com a cabeça, como quem diz venha cá, deslocou-se para um local mais afastado onde se podia ver terra recentemente remexida. Pegou numa enxada, começou a cavar e debaixo da terra lá estavam as benditas plantas. Retirou-se o plantio todo para fora e eu disse: -“Meus amigos, não saímos daqui enquanto estas plantas nãoestiverem plantadas.” Nenhum refilou apesar de já estar na hora de irem embora... !á ficamos até quase ser noite mas o trabalho ficou feito! Mais tarde, em conversas com um dos trabalhadores, soube que o “mentor” daquela asneirada tinha sido o tal trabalhador que se tinha magoado.


A ilha de São Jorge sendo muito alta e estreita é muito propícia a ventos e, por isso é muito usual haver árvores partidas. Em 1987, houve uma tempestade com ventos muito fortes que causou muitos prejuízos nas 7 Fontes. Árvores de porte considerável foram derrubadas, muitos ramos partidos, as estradas ficaram intransitáveis. As nossas equipas foram logo para o terreno para a remoção de toda aquela lenha. No dia seguinte, todos estávamos desolados com a destruição, tantas eram as árvores partidas por todo do lado! por isso quando o Sr. Director Regional na altura o Eng.º Hernâni disse: - “Há males que vêm por bem” , não percebi! Mais tarde, porém, quando iniciámos a plantação de outras variedades, no Parque, vi que realmente o Sr. Director Regional tinha razão. O Parque ficou com um equilíbrio fantástico!

De entre as variedades de plantas que foram introduzidas, depois do prejuízo da tempestade de 1987, destaco os fetos. Muitas vezes fui com o Sr. Eng.º Taveira para o Topo, muitas grotas e ribeiras foram percorridas por mim até encontrar os exemplares que achavamos indicados para as 7 Fontes.


Plantas lindíssimas foram plantadas nas 7 Fontes e no Parque da Silveira! e muitos ainda lá estão, dando um toque especial aos Parques. Durante as plantações, no Parque da Silveira, na Ribeira Seca, fui com a minha equipa para que o serviço fosse feito mais rapidamente. O horário era cumprido na íntegra. A manhã começava no corte de serviço e isso implicava a saída dos Rosais, bastante cedo. Para mim, todavia, o dia começava ainda mais cedo. Levantava-me às 5 da manhã pois possuía uma pequena exploração agro-pecuária e tinha de ir, todos os dias, mugir as vacas e colocar o leite na Fábrica (Empresa de Lacticínios dos Açores) tendo de estar tudo pronto quando o transporte dos Serviços Florestais chegasse, no Inverno, ainda de noite. A minha equipa participou, também, na construção de muitas pontes aquando da abertura de estradas. A construção de pontes era sempre um trabalho difícil, muitas vezes a correr água e nós a trabalhar, dias de chuva, nevoeiro, locais de muita humidade e muitos frios...agora, passados tantos anos, é que se nota na nossa saúde... Lembro-me perfeitamente de trabalhos que fizemos: o alinhar do caminho do Atalho, pelo lado Sul das montanhas da Serra, onde existem ribeiras muito fundas e perto umas das outras... muitas vezes eram preciso subirmos as encostas até encontrar local seguro para atravessar as grotas! chegavamos a andar mais de 400 metros para encontrar local e tínhamos que usar cordas para fazer algumas travessias. Íamos carregados encosta acima. Atravessando as grotas, com canas com sinalização numa das extremidades para o operador de máquina se poder orientar na abertura das estradas. Numa noite fria, dum Inverno nos anos 80, estava eu numa operação de fiscalização de caça, com o Sr. Eng.º Carvalho, quando por volta da uma e meia da manhã, decidimos abordar um caçador que se pôs em fuga, dando azo a uma perseguição a alta velocidade. Malgrado os nossos esforços o individuo cada vez se afastava mais pois tinha uma viatura mais veloz que a dos Serviços. A dada altura, em alta velocidade, numa curva fechada,encontrámos um carro em contra-mão.


Como o Sr. Eng.º Carvalho, graças a Deus, era uma pessoa muito activa, conseguiu passar pela faixa oposta, para não bater de frente. Mal refeitos do susto, parámos a viatura uns metros mais à frente e ficámos uns segundos em silêncio. Logo a seguir o Sr. Eng.º Carvalho disse: -“Vamos mas é para casa já que escapámos desta! Temos filhos para criar e já não conseguimos apanhar o caçador.” Concordei imediatamente com ele e lá fomos com o coração aos pulos para casa. Não sei precisar a data mas seguramente a meados dos anos 80, havia uma senhora, em Rosais, que vivia do rendimento de um grupo de cabras que possuía. Como pastava os animais nas imediações do Parque das 7 Fontes estes acabaram por atravessar os seus limites e vir comer as plantas e roer muitos troncos. Assim que detectei aquela situação informei-me sobre a propriedade dos animais e fui à procura da sua dona. Já em casa da senhora avisei-a de que aquilo não se podia repetir ao que ela respondeu simpaticamente que acautelaria as suas cabritas. E, assim o fez, mas a verdade é que, dias depois, aconteceu exactamente a mesma coisa : os animais voltaram a soltar-se e deram novamente prejuízo. Voltei a casa da senhora para um novo aviso mas desta vez ela foi muito antipática, portando-se mal e até me ameaçando de que iria soltar o seu cão, caso eu ali regressasse. Face a isto decidimos que se os animais entrassem outra vez, no perímetro dos Serviços Florestais, iríamos tomar sérias previdências. Pois bem, passados poucos dias, as cabritas da senhora estavam de volta! E nós não estivemos com meias medidas: nesse mesmo dia apresámo-las numa cerca bem segura e fechada a cadeado! A “infractora” viu-se, assim, obrigada a dar o seu melhor animal ao genro para este pagar a multa e reaver as cabritinhas. Regularizada a situação veio o homem às 7 Fontes buscar os animais da sogra e eu tendo de o acompanhar até à cerca descobri, para meu espanto, que alguém tinha roubado uma das cabritas. Que problema, que situação embaraçosa!


Levei 2 anos até descobrir o ladrão, mas o animal já tinha sido vendido várias vezes pela freguesia andando de dono em dono!

VIII .OS ANOS NOVENTA No ano de 1990 trabalhavam alguns velhotes no Parque das 7 Fontes e de entre eles, havia um que era da Graciosa e morava em S. Jorge, há uns anos; solteiro, ao fim de semana, gostava duma “pinguinha” de vinho. No trabalho, os colegas começaram a não querer trabalhar com ele. Cheirava muito mal. Não se lavava. Na hora de almoço costumava comer atum e quando terminava limpava a mesa com a manga do casaco, usando a mesma roupa semanas seguidas. Os colegas de serviço já nem almoçavam perto dele, com nojo. Era, realmente, difícil estar perto dele. Até pulgas tinha! Comecei, então, a dizer-lhe que teria de ter maior higiene pessoal e que tinha de se lavar porque as pessoas começavam a falar e aquelas que passavam no parque poderiam comentar e eu não queria isso. Era a imagem dos Serviços Florestais que estava em causa. Deu-se o caso que algumas pessoas, que passeavam no Parque, ao passar por ele enquanto estava a trabalhar, deram pelo cheiro intenso e comentaram comigo. Voltei a chamar-lhe a atenção. Disse-lhe que não era tolerável estar perto dele por causa daquele cheiro nauseabundo e por causa das pulgas. Ficou ofendido e chateado comigo. Num dos dias seguintes destinei o serviço ao pessoal, logo de manhã, e o dito senhor foi, com um grupo de trabalhadores, para o interior do Parque enquanto que eu fui, com a restante equipa, para outra zona, com uma vista privilegiada sobre o Parque. A dada altura vi que havia fumo negro no ar e não sabendo o que se estava a passar, fui logo em direcção a essa zona para perceber o que tinha sucedido. Tinham, então, os colegas do velhote da Graciosa despido este, deixando-o apenas em cuecas, dado banho e uma toalha para se secar, enquanto as roupas e as botas de borracha ardiam mais ao largo.


Depois de o lavarem deram-lhe instruções para comprar veneno para as pulgas, lavar-se todos os dias e usar roupa limpa senão iria ter uma surpresa. Não intervi, pois, apesar do homem ter ficando apenas em cuecas, pareceu-me ter sido a lição certa, para quem tão desagradável cheiro emanava todos os dias! O homem esteve sem aparecer ao serviços uns 3 ou 4 dias e quando, finalmente, regressou estava uma beleza de homem; roupa nova, lavado. Só lhe faltava a gravata. No mesmo ano, 1990 portanto, havia um outro velhote, funcionário nas 7 Fontes que era pedreiro. Este indivíduo tinha uma “paixão”, não podia ver ovos sem os desejar! Roubava-os todos e comia-os, mesmo crús, fazendo dois furos, no ovo, com a ponta da navalha, um em cima e outro em baixo, para a seguir “beber” o seu conteúdo. Ora, no “fundo” do Parque junto aos veados, construiram-se uns pequenos lagos e aí se colocaram umas patas. Quando mais tarde se decidiu fazer um desvio nas águas, para outros lagos, numa espécie de queda de água, foi o dito homem encarregue de fazer aquele serviço. O servente daquela obra era o tratador dos animais e uma manhã antes de ir trabalhar, foi tratar dos veados e deitar milho às patas; como estas ficavam num local mais em baixo, o tratador, vendo que havia 3 ou 4 ovos pensou ir buscar a ferramenta e recolher os ovos, quando viesse para cima. No entretanto, chegou o pedreiro que vendo os ovos logo os apanhou, escondendo-os em local “seguro”. Regressando o servente com a ferramenta e procurando os ovos já lá não os encontrou! Voltou para junto do pedreiro e começou a “apertar” com ele: -“Já roubaste os ovos.” - “Não roubei nada! ‘Tás a mentir! ‘Tás sempre a implicar comigo! Sou sempre culpado, vou dar-te com este martelo!” – zangou-se o pedreiro. Felizmente tendo eu chegado quando estavam quase à pancadaria, um com o outro, comecei a falar com eles a ver se acalmava aquela situação. Disse, então, ao servente: -“Se calhar podes ‘tar enganado, porque as patas quando vieram comer podem ter tocado nos ovos e estes terem caído à água...”


-“ ‘Tás a ver, até o Sr. Guarda está do meu lado!” – exclamou o pedreiro todo ofendido com o colega. Neste entretanto, passados uns 20 minutos, começou a chover e eu para não me molhar fugi para um local mais abrigado onde já estava o casaco do pedreiro. Encostando-me, para não sujar a farda, ao casaco que estava pendurado pela parede abaixo, deu-me a sensação de ter partido algo. Olhei para trás, para ver o que era, e lá se me depararm os ovos, na algibeira do casaco. Nessa altura digo: -“Afinal o mestre tem razão. Estou mesmo do seu lado, porque com os ovos aqui no seu casaco o seu colega tinha mesmo de o atirar ao lago.” Foi uma situação pouco grave mas mesmo assim, foi-me muito difícil conseguir manter a calma pois o servente, homem muito forte e de coragem, queria mesmo meter o velhote, no lago. Neste local como havia sempre muitas patas, era fácil ver, todos os dias, ovos junto aos lagos. Mas, às vezes os ovos desapareciam e estavam-se 2 ou 3 dias sem haver ovos de pata. Por isso um dos trabalhadores decidiu testar uma teoria para “ensinar” o ladrão dos ovos. Assim, um dia, foi bem mais cedo para o trabalho, recolheu os ovos que encontrou e substituiu-os por ovos podres que trouxera de casa. E ficou, escondido, à espera. Foi então que viu chegar, também mais cedo, o velho pedreiro. Deixando o saco da comida, no chão, saltou ao reduto onde estavam as patas, apanhou os ovos, sacou da sua navalha e iniciou o ritual em que se tinham viciado. Só que, desta vez, como os ovos eram podres teve uma desagradável surpresa! Coitado, ao colocar o ovo à boca depressa vomitou todo o seu conteúdo, enojado com tão terrível gosto! E, de tal maneira ficou enojado que nunca mais demos por falta de ovos, nas 7 Fontes.


Corria o ano de 1991, quando o edifício dos Serviços Florestais, nas 7 Fontes, foi assaltado. Roubaram uma roçadeira em bom estado e algumas miudezas, como velas e umas poucas ferramentas. Abrimos uma investigação para tentar descobrir quem teria sido o autor do roubo mas só passado cerca de um ano é que consegui descobrir quem tinha sido o autor da proeza. Transmiti essa informação ao Chefe de Divisão, o Sr. Eng.º Taveira, e solicitei ajuda no sentido de ir recuperar os objectos roubados. Quem foi comigo a casa do “ladrão” foi o meu colega Agostinho, homem de muita coragem e lealdade. O individuo nervoso, pressionado pelas nossas questões, lá acabou por admitir a culpa e quando estávamos na cozinha da casa revelou-nos estar a máquina toda desmontada e que ia “lá dentro” buscar as peças enquanto nós esperávamos. Olhámos um para o outro (até parecia que liamos o pensamento um do outro!) e sacámos das nossas armas por sabermos que aquele era um indivíduo capaz de qualquer coisa! Avançámos rápido e atrás do ladrão, casa dentro, ouvíndo os seus passos (o chão e as paredes eram madeira) e, sem sabermos se ele nos tinha preparado alguma “surpresa”, não lhe demos tempo nem de fugir nem de “armar” alguma. Recuperámos as coisas e fomos embora.


Estava eu de Serviço, num dia de Outono de 1994, e ia a passar pela freguesia de Santo Amaro quando vi um sujeito que me pareceu estar

em

transgres-

são. Parecia estar a recolher coelhos de “laços”

(armadilhas

usadas

para

apa-

coelhos

pelo

nhar

pescoço) que tinha armado, numa encosta de um terreno. O homem apercebendo-se de que eu o estava a ver, começou a disfarçar. Não arredei pé. Saí da viatura e fiz que estava a podar um arbusto na berma da estrada pois tinha por hábito ter, sempre, uma tesoura de podar, no carro. Alguns minutos depois o sujeito desceu a encosta com um pequeno “molhe” de lenha às costas. Quando o vi, pela estrada abaixo, entrei na viatura e fui no seu encalce. Aproximei-me dele, parei e perguntei-lhe: -“O senhor quer boleia? É que vai muito carregado...” Ao que ele respondeu muito aflito: -“Nã senhô....” Pensei: Aqui há gato!... Saí da viatura e comecei a meter conversa até ele colocar a lenha no chão, para fumar um cigarro. Pedi-lhe, delicadamente, se podia ver que tipo de lenha era aquela que ele ali trazia. Com muito custo, concordou. Soltei a corda, remexi a lenha e no meio lá estavam 4 coelhos e 20 laços. O homem, branco como a cal e muito nervoso, quase desmaiou!


Gostaria de mencionar um acontecimento muito especial para mim. 1997. Dia 25 de Maio. O 1º dia do Guarda Florestal. Foi com muito orgulho que vi reconhecida uma carreira profissional, muitas vezes, desprezada pelas pessoas. Foi um prazer enorme participar numa festa com o Sr. Presidente do Governo Regional dos Açores, o Dr. Carlos César, assim como com alguns dos seus Secretários e todos os Chefes de Divisão de todas as Ilhas, contando também com a presença dos meus colegas Mestres Florestais e Guardas Florestais de todos os Concelhos dos Açores. Foi um acontecimento extremamente gratificante por conseguir partilhar experiências, conhecer novos amigos e ouvir elogios como foi o caso de me perguntarem como era possível ter tamanha organização e Serviço bem feito, apenas com 3 Guardas, na minha Ilha. Adorei conhecer pessoas que como eu têm muitas histórias de dificuldades para contar. Lembro-me muito bem do dia em que conheci o Mestre Ferreira, já velhinho, com 80 anos. Conversei muito com ele. A dada altura ele perguntou-me: -“Sabes porque é que a Florestal tem uma obra tão grande e bonita por essas ilhas dos Açores? É porque somos todos uma família. Trabalhamos todos unidos.” Realmente o Mestre Ferreira tem razão. Trabalhamos com empenho e dedicação como se de uma família se tratasse.


Durante muitos anos tínhamos por missão fazer fiscalizações, por toda a ilha. Num dado dia de 1998, saímos para fazer fiscalização da caça e para atender a algumas máquinas que estavam em local isolado e onde havia muitos roubos de combustível. Éramos duas equipas. Eu e o Sr. Eng.º Taveira estávamos junto ao Ramal de acesso à Fajã João Dias e a outra equipa, formada pelos meus colegas Agostinho e Carlos Azevedo, estava colocada numa zona mais alta, avistando uma grande área. Junto ao local onde eu me encontrava existia uma “ensaibreira” onde estavam máquinas dos Serviços Florestais. Por volta da uma e meia da manhã, fomos alertados, via rádio, pelos nossos colegas, de que uma viatura suspeita se aproximava do local onde se encontravam as máquinas. Estávamos a cerca de 500 metros do local. O Chefe preparou a sua arma, assim como eu, e arrancou em direcção ao local. Íamos a pensar: é desta que apanhamos os ladrões do gasóleo! Chegando ao local vimos um casal: ela deitada em cima do capô do carro e ele a “brincar” com ela. O Sr. Eng.º Taveira olhou para mim e com um sorriso disse: -“Vamos embora Jorge que o gasóleo é outro.” O ano de 1999 vai ficar marcado, para sempre, nos nossos corações, pela terrível tragédia da queda do avião da Sata, em S. Jorge. Sábado, dia 11 de Dezembro. Muita chuva, vento, muita nebulosidade. Fomos avisados da ocorrência pelas dez horas e meia. O nosso chefe coordenou o serviço com os Guardas, que éramos apenas nós os três: eu, o Mestre Agostinho Constantino e o Guarda Carlos Azevedo. Avançámos logo. Eu fui controlar o trânsito, com um elemento da PSP, no cruzamento do Pico do Pinheiro com o Caminho do Atalho.Apesar do tempo estar muito mau, chuva torrencial, nevoeiro, vento muito forte, as pessoas insistiam em ir ver o acidente, sem pensarem que estavam a atrapalhar o trabalho dos profissionais. Fomos maltratados pelos condutores curiosos que ficaram chateados por não os deixarmos passar.


Nesse dia cheguei a casa às 23.00 horas; só tinha tomado um café às 7.00 horas da manhã. No dia seguinte, voltámos ao local e aí tívemos que permanecer muitas horas para controlar a curiosidade dos populares e ajudar as outras entidades. O tempo piorou ainda mais. Foi um horror! O cheiro a combustível, no ar, era terrível! Tínhamos que aí ficar toda a noite, em conjunto com outras entidades no local. Durante a noite, chuva, muito vento, trovões e relâmpagos eram uma constante. O jipe, onde estava com outras pessoas, “mexia-se” com a força das rajadas de vento. A dada altura um Agente da PSP, que estava connosco, no jipe, todo nervoso, só dizia: -“Só me apetece chorar.” Era um cenário dantesco. Eu e os meus colegas fazíamos o transporte, dentro do perímetro Florestal, porque como a estrada era “ensaibrada” de preto e como havia sempre muito nevoeiro, era praticamente impossível, para quem não conhecesse bem o local, conseguir deslocar-se. Nós, por conhecermos muito bem a zona, é que “guiávamos” as outras Entidades. Passado alguns dias após o resgate dos restos mortais dos passageiros, mas havendo ainda destroços do avião, a estrada foi vedada, com umas correntes, para não haver circulação de viaturas não autorizadas. Ainda fizemos muitos dias e noites de prevenção, no local, a “guardar” os destroços do avião porque eram muitos os grupos de pessoas que ali iam a pé e traziam o que por lá encontravam: sacos, canetas, cintos, etc. objectos que nós apreendíamos, quando as pessoas regressavam às suas viaturas. Muitas ficavam zangadas. “Mandavam bocas”. Mas estávamos apenas a cumprir o nosso serviço.

IX . O SÉCULO XXI Estava de serviço com o meu colega Agostinho, num dado fim de semana, do ano de 2001. Indo com destino à Serra e no caminho das 7 Fontes-Terreiro da Macela encontrámos um camião, parado, numa curva, e o condutor, fora da viatura, agarrado a um Metrosidero tentando arrancá-lo. Parámos e fomos em direcção ao individuo que, ao aperceber-se da nossa presença, ficou surpreendido e exclamou: -“Como é? Já não se pode fazer chichi?“


Achamos uma certa piada à desculpa e respondemos: -“Está bem. Faz lá o teu chichi, mas com cuidado, não te vás “molhar!!!” Outra situação, um tanto mais complicada, ocorreu no mesmo ano. Fui fazer o transporte de pessoal, para um local nas imediações do Parque e, quando voltava para as 7 Fontes, deparei-me com dois indivíduos que estavam em transgressão, agindo contra as leis de protecção da natureza, ao cortarem cedro do mato e urzes com muita idade. Abordei (sozinho) os senhores, com calma e educação, como aliás em centenas de outras vezes em situações idênticas, mas eles tentaram agredir-me. Enquanto procurava refugiar-me, na minha viatura, eles continuaram a tentar consumar a agressão e como não tive tempo de fechar o vidro, colocaram a mão para me atingir na cara que ainda conseguiram arranhar. Não hesitei. Saquei da minha arma e fiz impor a autoridade, no local. Afinal a autoridade, ali, era eu! Ordenando que se afastassem da viatura, chamei o meu Chefe, via rádio. Pouco depois chegou ele com o meu colega Agostinho. Os outros, então, envergonhados com aquela situação, quase que choraram. Pediram desculpas. Tinha sido um mal entendido. Graças a Deus resolveu-se tudo pelo melhor. Mas também havia outras histórias que não nos diziam respeito...Numa manhã de Primavera do ano de 2003, tendo chegado um pouco mais cedo ao Parque das 7 Fontes, dei uma volta para ver se estava tudo bem quando avistei um jovem. Aparentando uns 18 ou 19 anos, cabelo curto e completamente nú, apresentava uns arranhões na cara e umas escoriações pelo corpo. Quando me avistou foi como se tivesse visto Deus. Abordou-me a pedir ajuda. Dei-lhe um lenço para ele limpar o sangue da cara e encontrei um plástico preto que utilizou para arranjar em volta da cintura e ficar composto. Pediu-me para o levar à Polícia. Disse-lhe que não podia mas que o levaria a um Café de onde poderia telefonar para o virem buscar. Mais tarde soube o que tinha acontecido. O jovem armado em negociante, comprou diversos animais a vários agricultores e não pagou. Pois os senhores juntaram-se e deram-lhe uma “lição”. Foram até ao Farol dos Rosais e tiveram uma “conversa” com ele. Foi assim que ele chegou às 7 Fontes.


Ao longo de todos estes anos, tivemos as nossas vidas, muitas vezes, em perigo. Recordo-me, por exemplo, de uma noite de fiscalização da caça. Estávamos uma zona a fazer uma operação de Stop a uma viatura que, ao chegar perto de nós, acelerou na nossa direcção. Tal era a velocidade que levava que tivemos de nos atirar para a berma da estrada, para não sermos atropelados! Tive também muitas ameaças, até de morte. No Parque da Silveira, na Ribeira Seca, houve quem me quisesse matar, com uma foice muito afiada, porque tinhamos tapado um caminho para ir às vacas, apesar de termos aberto outro de maior qualidade e mais fácil de chegar às pastagens! Ou ameaças de Tribunal, como quando fizemos alguns ramais, em Rosais, e um proprietário não queria deixar passar o caminho, porque lhe cortava o terreno ao meio. Mas como aquela obra era de muita utilidade à população, as pessoas da freguesia juntaram-se e pagaram a quantia que ele pretendia, em troca do direito de passagem. Mas foram muitas as ameaças e o que me valeu foi ter sempre comigo colegas de muita calma e de coragem e ter um Chefe que era perfeito em tudo o que fazia e decidia.


Aprendendo com o menino Guilherme Augusto – O que é uma memória? – perguntou Guilherme Augusto. Ele vivia fazendo perguntas. – É algo de que você se lembre – respondeu o pai. Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então ele procurou a Sra. Silvano, que tocava piano. – O que é uma memória? – perguntou. – Algo quente, meu filho, algo quente. Ele procurou o Sr. Cervantes, que lhe contava histórias arrepiantes. – O que é uma memória? – perguntou. – Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo. Ele procurou o Sr. Valdemar, que adorava remar. – O que é uma memória? – perguntou. – Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar. Ele procurou o Sra. Mandala, que andava com uma bengala. – O que é uma memória? – perguntou. – Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir. Ele procurou o Sr. Possante, que tinha uma voz de gigante. – O que é uma memória? – perguntou. – Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro. Do livro Guilherme Augusto Araújo Fernandes, de Mem Fox, com ilustrações de Julie Vivas. Tradução de Gilda de Aquino. São Paulo: Brinque-Book, 1995.


Agradecimentos

Esta pequena obra não teria sido possível realizar sem a colaboração de algumas pessoas, de entre as quais destaco, o meu filho Filipe Lopes, a Dra. Maria da Conceição Bizarro, a Sra. Engª Carla Moutinho e a Sra Directora Regional dos Recursos Florestais Eng.ª Anabela Isidoro. Ao longo da minha carreira profissional conheci pessoas que jamais me esquecerei e que queria mencionar; O Sr. Eng.º Taveira pela dedicação, visão e amizade, o Eng.º Sérgio Marçal que desapareceu tragicamente das nossas vidas, mas que nos deixou marcas muito profundas nos nossos corações pela sua capacidade, a Chefe de Divisão dos Serviços Florestais de São Jorge Eng.ª Carla Moutinho pela sua sempre disponível atenção, pelo seu empenho e simpatia, o Sr. Eng.º Eduardo Franco, os meus colegas Guardais Florestais de todas a ilhas com destaque para a equipa de S. Jorge, o pessoal dos escritórios, o Dr. Carlos César que valorizou e reconheceu o empenho da carreira de Guarda Florestal, e todos os seus Secretários Regionais.


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