Pega de Boi no Mato - Vaqueiros Nordestinos

Page 1


Organização Eraldo Peres
Vaqueiros Nordestinos
Serrita - PE
Pega de Boi no Mato
Rota dos

1a edição Brasília, 2025 Editora

Pega de Boi no Mato
Serrita - PE

Copyright 2025 by Eraldo Peres

[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro – sem autorização prévia dos detentores dos direitos autorais.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo

EraldoPeres

Texto e pesquisa de conteúdo

ClovisBritto

Texto e coordenação de pesquisa

AngélicaMadeira

Pesquisa e produção executiva

CarolPeres

Preparação de texto e revisão

TeresaMello

Projeto gráfico e direção de arte

JoãoCampello

Ilustrações, legendas e referências

GeovanaPeres

Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF

CEP: 72.006-345

Tel: (61) 99932-7158

Instagram - @photoagenciadf

YouTube - @PhotoAgencia www.photoagencia.com.br

Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra

Roteiros para o Brasil

Angélica Madeira

Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.

Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.

Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.

Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do

Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.

Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.

A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.

Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem

Rota

• Saída: Brasília - DF

Destino: Serrita - PE

• Período: 2015

• Cultura: Pega de boi no mato e tradições vaqueiras sertanejas

• Produção: Photo Agência

Registro

• Objetivo: documentação etnográfica da prática da pega de boi no mato e da Missa do Vaqueiro, no contexto da cultura sertaneja do Nordeste.

• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.

Equipe

• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres

• Assistente de fotografia: Sérgio Almeida

• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira

• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto

• Produção executiva: Carol Peres

Notas

• Serrita – Cidade símbolo da cultura do vaqueiro e palco da Missa do Vaqueiro.

• Pega de boi – Tradição herdada do manejo de gado na Caatinga, passada de geração em geração.

• Missa do Vaqueiro – Celebração criada em memória de Raimundo Jacó, símbolo da fé e da devoção sertaneja.

• Gibão, perneiras e chapéu – Indumentárias de couro usadas como proteção na Caatinga.

• Aboios e toadas – Cantos dos vaqueiros para conduzir os animais.

• Sertão vivo – A cultura vaqueira resiste, recriando vínculos entre homem, animal e natureza.

• Patrimônio cultural – A pega de boi como expressão imaterial da identidade nordestina.

• Futuro – Jovens vaqueiros seguem os rastros da tradição.

Entrevistas

• João de Cazuza – Vaqueiro veterano que é um registro sobre memória, gado e resistência.

• Jovens vaqueiros locais – Continuidade e orgulho da

Pega de Boi no Mato

O último laço do sertão

O vaqueiro nordestino é um dos heróis mais autênticos da formação do Brasil. Homem rude e nômade, moldado pela terra seca e pelo gado, foi ele quem ocupou o sertão, entrelaçando seu destino com a imensidão agreste do interior. Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro

Era julho de 2015 quando cheguei a Serrita, no sertão de Pernambuco, para documentar a pega de boi no mato e acompanhar a Missa do Vaqueiro. O que encontrei ali não era um simples evento, mas um ritual que atravessa gerações.

O dia mal começava quando os primeiros raios de sol douravam a Caatinga, revelando as figuras imponentes dos vaqueiros, já montados e envoltos em gibões de couro talhados pelo tempo. Entre uma golada de café forte e o ajuste final dos arreios, as vozes roucas rompiam o silêncio da manhã com os aboios [cantos para guiar a boiada], entoados como lamento profundo e arrastado.

O aboio não é apenas um canto: é chamado, comando e oração. É um diálogo entre homem e gado, um som transmitido ao longo do tempo como o próprio vento que dobra as árvores do sertão. Carregado de saudade e vivência, ele guia os animais, embala os vaqueiros e marca o compasso da vida no sertão.

Entre os homens prontos para a lida, encontrei João de Cazuza, vaqueiro de rosto curtido pelo sol e mãos marcadas pela lida. Enquanto vestia o gibão, ajustava a perneira de couro e colocava o tradicional chapéu, falava sobre os tempos

de menino, quando acompanhava o pai e o avô nas primeiras pegas. "Aprendi pequeno", disse, com o olhar perdido no horizonte, como se voltasse ao passado.

A pega de boi começava no rastro do animal, um traço quase invisível na terra ressequida. De repente, um grito cortava o ar e, num instante, tudo se transformava em velocidade e instinto. O vaqueiro disparava pela mata, desviando-se de galhos secos, enquanto o gado tentava escapar entre as árvores retorcidas. No momento exato, sem hesitação, ele saltava do cavalo sobre o boi, agarrando-o pelas ancas para dominá-los. Os corpos se chocam, levantando poeira, suor e história.

Era impossível não sentir a força ancestral daquele gesto, repetido há séculos, desde os tempos em que os primeiros vaqueiros reuniam o gado desgarrado nas vastas fazendas do sertão. Ali, percebi que a pega de boi no mato não é apenas uma prática, mas um código de honra. O jovem que domina a arte não recebe um troféu, mas um lugar na história de seu povo.

Diferentemente da vaquejada moderna, a pega de boi no mato permanece fiel à sua essência. São apenas os homens, os cavalos, o boi e a terra — em um laço tão indissociável quanto o próprio sertão. O bailado do animal entre as matas da Caatinga, os vaqueiros que o perseguem, os rostos cortados pelos espinhos e as vozes roucas entoando aboios ancestrais compõem um cenário que resiste ao tempo.

Em Serrita, entendi que ser vaqueiro não é apenas um ofício, mas uma identidade construída pelo vento, pelo couro e pela poeira. A cada laçada, os vaqueiros reafirmam sua existência em um Brasil profundo, onde tradição não é apenas memória, mas continuidade.

Nessa prática secular ligada ao trabalho dos vaqueiros, as multidões se juntam para celebrar e manter viva uma cultura que só os mais fortes sustentam. E, como bem disse Darcy Ribeiro, o vaqueiro nordestino é um dos heróis mais autênticos da formação do Brasil.

Pega de boi na área rural de Serrita (PE)

Vaqueiro de couro cravejado

A pega de boi na Caatinga

Numa tarde bem tristonha

Gado muge sem parar

Lamentando seu vaqueiro

Que não vem mais aboiar

Não vem mais aboiar

Tão dolente a cantar

Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, lengo, tengo

Ei, gado, oi.

Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho

“Vaqueiro de seu couro cravejado” é um dos versos de Ariano Suassuna sobre a vida da população sertaneja. Eles se tornaram uma das figuras representativas de diversos rincões brasileiros, atravessando os sertões: das charqueadas sulistas, passando pelas comitivas pantaneiras até as regiões do sertão nordestino.

Em estudo sobre a essa categoria, Custódia Sena e Mireya

Suárez (2011) informam que desde a colonização brasileira o termo designava terra vazia, área inóspita e desconhecida, contrapondo-se ao mar e, ao mesmo tempo, região abundante e promissora. No século XIX, teria adquirido conotação negativa, atrelando ao espaço a presença de sertanejos, cujos costumes “bárbaros” se contrapunham ao do litoral “civilizado” pelo colonizador. Surge, assim, um lugar imaginário de confronto. Todavia, ao longo do século XX, houve uma ressignificação que o reconheceu como local de alguns dos valores autênticos da nacionalidade como fronteira interna brasileira: “(...) com as negatividades de rudeza e barbárie atribuídas anteriormente ao sertão e, por outro, com as positividades de abundância, fertilidade e prosperidade” (p. 7).

Portanto, é inegável que essa zona árida, enquanto uma espécie analítica, acompanhou a configuração do pensamento social brasileiro, com múltiplos sentidos: terra adentro, longe do mar, vastidão, isolamento, barbárie, forma de orientação social e organização cultural. Por essa razão, Durval Muniz de Albuquerque Júnior (2014) visualiza a existência de uma pluralidade de sertões, reconhecendo que “este recorte espacial, que essa identidade regional guarda em seu interior a diferença, a diversidade, a multiplicidade de realidades e, talvez, de representações” (p. 42). Por isso, podemos reconhecer o sertão e, consequentemente, o sertanejo, como uma invenção.

O vaqueiro é um desses personagens emblemáticos que reinventam o espaço simbólico e geográfico, marcado por múltiplos trânsitos entre lugares, assim como descrito por Guimarães Rosa: “Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros…”. No caso do homem da Caatinga, ele se torna o exemplo da resistência nesse ecossistema brasileiro marcado por solos pouco férteis, vegetação arbustiva e densa, clima semiárido com elevadas temperaturas e escassa disponibilidade de água, ao edificar aquilo que Capistrano de Abreu (1907) denominou como civilização do couro, demonstrando a importância da pecuária no período colonial para a consolidação de uma economia do pastoreiro ligada a trajetos de boiadas, locais de criação e núcleos consumidores.

De acordo com Mônica Meyer (2008), o vaqueiro, em virtude da singularidade do trabalho, estabelece uma íntima relação com cavalos, mulas, burros e bois. E além de ser o responsável

por domar o animal, por sua domesticação, alimentação e manipulação com laços e cabrestos, ele o monta. Concluindo que o contato entre cavalo e cavaleiro contribui para a vivência de situações simultâneas – vento, chuva, sol, locais acidentados ou tranquilos. Com essas características, Mário de Andrade (1989) também destaca que, ao conduzir o gado pelas estradas, esse personagem entoa “um arabesco, geralmente livre de forma estrófica, destituído de palavras, as mais das vezes, simples vocalizações, interceptadas quando senão por palavras interjectivas, ‘boi, êh, boi’, boiato etc. O ato de cantar assim chama de aboiar. Ao canto chama de aboio” (p. 1-2).

Segundo Nata Vieira (2007), o couro que garante a lida é o que compõe a vestimenta, geralmente feita de pele de carneiro ou de boi. Chapéu em forma de cuia com dois cordões nas extremidades amarrados ao queixo; o corpo revestido por duas peças (guarda-peito) até a cintura e gibão com mangas até os pulsos e, em época de festas, ainda é utilizado um colete de lã; o dorso das mãos revestido por luvas que deixam livres os dedos para manuseio das rédeas; calça comum coberta de perneiras fixas na cintura, estendendo-se da virilha até os pés, deixando livre o movimento das pernas; alpercata ou botinas de cano curto. O cavalo também é recoberto por peças em couro, independentes, que cobrem face, peito, pescoço e metade das pernas, além do assento do vaqueiro composto por três partes.

Dentre as práticas em torno do boi na Caatinga ainda são comuns os desafios, em que os vaqueiros utilizam improvisos e cantos, os rituais das ferras das reses [marcação com ferro em brasa] e das castrações, as práticas das pegas de bois e um conjunto de “habilidades desenvolvidas nessas sazonalidades e espacialidades: aboiar, correr boi, traquejar, descobrir, estrumar, rastejar” (Pereira, 2021, p. 20). Em alguns locais, vaquejada diz respeito à perseguição do boi em uma arena fechada. Em outras localidades, é um nome genérico que se refere às festas de apartação, às pegadas ou pegas de boi e às corridas de mourão ou morão.

Com a ausência de cercas a separar as propriedades, o gado se embrenhava na Caatinga e se misturava às reses de outros proprietários. Ao longo da estação chuvosa ou no momento de comercialização, os criadores realizavam as festas de apartação, oriundas do século XIX. Nelas, os vaqueiros demonstravam as habilidades para reaver o rebanho, separando o gado misturado entre o dos vizinhos e também os que seriam vendidos, ferrados ou castrados. Na apartação, alguns animais bravios –conhecidos como marueiros ou barbatões – fugiam, sendo perseguidos por dois ou mais homens para serem derrubados pelo rabo. Esse gesto ficou conhecido como pegada de boi ou pega de boi e, aos poucos, se transformou em um ritual festivo conferindo ao vaqueiro fama, recompensas em dinheiro ou o próprio animal vencido. Essas práticas, quando transferidas

para o pátio das fazendas, são conhecidas como corridas de morão ou mourão. Nessa modalidade, eles correm, um de cada vez, atrás do boi, visando demonstrar destreza e vigor físico em prol da melhor puxada.

A pega do boi consiste em uma das manifestações que integram a Festa do Vaqueiro de Serrita (PE), no alto sertão do Araripe, conhecida como a Capital do Vaqueiro. No terceiro final de semana de julho, ocorre um conjunto de atividades em celebração ao universo desses profissionais, marcado por lendas, a exemplo do boi Aruá, animal encantado e inalcançável. Na pega de pé de porteira, ele é preso em um curral e solto para que as duplas capturem no menor tempo possível o cordão de couro que carrega no pescoço. Na pega de boi no mato, a boiada é solta e quem conseguir recuperar os animais é o vencedor.

Essa manifestação sertaneja também é atravessada, na maioria das vezes, por uma profunda religiosidade. Antes da atividade, o vaqueiro faz orações em busca de proteção. No caso de Serrita, ganham força as marcas do catolicismo, cujo ápice é a Missa do Vaqueiro. O motivo da celebração foi o assassinato de Raimundo Jacó, em 1954, quando ele exercia o ofício no Sítio das Lages – local que tornou-se destino de constantes romarias. Criada em 1970, a missa fica no lugar onde o homem foi

encontrado morto. Tem um altar rústico e é acompanhada por aboiadores. Primo de Jacó, um dos apoiadores foi o músico Luiz Gonzaga, que compôs a canção A morte do vaqueiro, em parceria com Nelson Barbalho (Lima, 1991).

Nos últimos anos, a vaquejada tem sido objeto de discussões suscitadas pelos defensores dos direitos dos animais, que a consideram uma crueldade. Todavia é uma prática distinta da pega do boi, em que ocorre uma ritualização da luta do vaqueiro: “As pegas são competições em que os vaqueiros, em duplas ou sozinhos (na solta), numa corrida contra o tempo, têm de alcançar o gado, retornar ao curral ou ao palanque onde estão os cronomistas, e entregar a esses, ou ao promovente da pega (no caso da solta), a tabuleta, outrora presa no pescoço da rês” (Pereira, 2021, p. 145-146).

Com o couro cravejado e os rostos cortados pelos espinhos da vegetação, profissionais de diversas partes do Brasil continuam anualmente se reunindo na Festa do Vaqueiro de Serrita – famosa pela pega do boi e pela Missa do Vaqueiro –, reconhecida como patrimônio imaterial de Pernambuco pela Lei n.º 13.746∕2009. A manifestação sintetiza uma série de rituais que ocorrem em todo o país e cujo objetivo é traduzir a mística relação entre o homem e o sertão.

Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Dona Neuma caminha ao lado do altar na sala de sua casa, em Serrita (PE)
Trajes de couro: gibão, peitoral e perneiras
João de Cazuza, veterano vaqueiro em trajes de gibão
A tradicional Missa do Vaqueiros em Serrita (PE)
Deda Carvalho e o filho Thiago em cerca de curral na pega de boi
Vaqueiros chegam para a pega de boi
Vaqueiro João de Cazuza
Vaqueiro João do Dito
Colares de couro para identificar os bois durante a pega
Pega de boi em Serrita (PE)
Vaqueiro, em gibão e chapéu de couro, ecoa o berrante durante a Missa do Vaqueiro

Referências culturais

Rimas de aboio: cânticos de vaqueiro embalam a resistência sertaneja

Arte e cultura

Por volta de 1974, durante o costumeiro show realizado por Luiz Gonzaga um dia antes da Missa do Vaqueiro, o sanfoneiro pediu ao amigo Janduhy Finizola que criasse uma música especialmente para a celebração. Nem um pouco intimidado, Janduhy declarou que não faria apenas uma, mas todas as músicas da missa. Assim nasceram as Rezas do Sol, um conjunto de nove canções compostas em seis meses, seguindo a estrutura dos ritos da Igreja Católica, com o vaqueiro e a fé sertaneja como protagonistas: Canto de Despedida, Comunhão, Glória, Jesus Sertanejo, Kyrie Eleison, O Credo, Ofertório, Pai Nosso e Sanctus Sanctus.

Das nove composições, três foram gravadas por Luiz Gonzaga e, em 1976, o Quinteto Violado registrou o conjunto completo com autorização de Gonzaga e Janduhy. Até hoje, essas canções são tocadas na abertura da Missa do Vaqueiro, reafirmando a conexão entre religiosidade, música e cultura popular.

Nesse contexto de reverência, a música A Morte do Vaqueiro, composta por Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho em 1963, também se tornou um dos momentos mais emocionantes da cerimônia. É tradicionalmente executada durante a missa em Serrita (PE), evocando a memória dos vaqueiros e reafirmando a força simbólica desse personagem. As rimas de aboio, o cotidiano simples e a vida no sertão foram perpetuados na música, na literatura de cordel, nas xilogravuras e também nas lendas populares, no artesanato e em outras formas de expressão cultural.

O vaqueiro veterano João de Cazuza prepara o gibão antes da pega de boi no mato em Serrita

Filmes

• CoriscoeDadá, de Rosemberg Cariry

• DeuseoDiabonaTerradoSol, de Glauber Rocha

• GrandeSertão, de Guel Arraes

• OAutodaCompadecida, de Guel Arraes

• VidasSecas, de Graciliano Ramos

Livros

• Caatinga-APaisagemeoHomemSertanejo, de Samuel Murgel Branco

• DicionáriodoFolcloreBrasileiro, de Luís da Câmara Cascudo

• GrandeSertão:Veredas, de Guimarães Rosa

• OPovoBrasileiro, de Darcy Ribeiro

• OsCaminhosdoSertão, de João Guimarães Rosa

• AcademiaBrasileiradeLiteraturadeCordel http:// www.ablc.com.br/cordeis.html

• CordeldeSaia http://cordeldesaia.blogspot.com.br

Músicas

• CoralAboios http://www.suamus ica.com.br/EdgardeCedro/ cd-coral-aboios

• JanduhyFinizola http:/cliquemusic.uol.com.br/fonogramas/ pesquisaporautor/autor:16174/nome:Janduhy%20Finizola

• LuizGonzaga http://letras.mus.br/luiz-gonzagaQuinteto Violado / http://www.forroemvinil.com/quinteto-violado-amissa-do-vaqueiro/

• RezasdoSolparaaMissadoVaqueiro, vários intérpretes, no Spotify

• Xangai https://letras.mus.br/xangai/

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.

Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.

Linha do Tempo

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Cultura Açoriana

Palhoça - SC

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Pega de Boi no Mato

Serrita - PE

Tropeiros do Sul

Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas

Corumbá - MS

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Congada

Catalão - GO

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Congada

Catalão - GO

Marujada

Bragança - PA

Santo Daime

Céu do Mapiá - AM

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Wyra’ Uhaw

Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo

Quilombo Vão de AlmasGO

dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração

da Costa Atlântica

Glossário

Aboio – Canto entoado pelo vaqueiro para conduzir o gado ou expressar sentimentos. Traz sonoridade melódica e simbólica do sertão.

Arreio – Conjunto de equipamentos usados para montar o cavalo: sela, estribo, peitoral e outros itens fundamentais para a montaria segura.

Barbatão – Boi arredio, valente, difícil de ser laçado. Alvo preferencial nas pegas por representar mais desafio e prestígio.

Caatinga – Bioma típico do sertão nordestino, marcado por vegetação seca e espinhosa, onde os vaqueiros demonstram a habilidade.

Cordão do boi – Alça de couro colocada no pescoço do animal, utilizada na competição como prova da captura.

Cultura do couro – Expressão do modo de vida sertanejo. Inclui a produção de vestimentas, utensílios e instrumentos em couro curtido artesanalmente.

Encourado – Nome dado ao vaqueiro completamente vestido com indumentária de couro: gibão, perneiras, guarda-peito, luvas e chapéu.

Estribo – Apoio onde o vaqueiro firma os pés para montar e conduzir o cavalo. Essencial para equilíbrio e manobra nas trilhas.

Gibão – Casaco de couro de mangas longas que protege o tronco e os braços dos espinhos e da vegetação fechada.

Guarda-pé – Peça de couro usada nos pés para reforçar a proteção, muitas vezes cobrindo a bota ou substituindo-a.

Lida do vaqueiro – Trabalho cotidiano com o gado: tocar, reunir, vacinar ou apartar os animais em grandes extensões de terra.

Missa do Vaqueiro – Celebração religiosa que homenageia a figura do vaqueiro e sua espiritualidade. Em Serrita, ocorre desde 1970.

Pega de boi no mato – Prática sertaneja em que o vaqueiro captura o boi solto na Caatinga. Mantida viva como tradição de identidade, coragem e coletividade. Competição em que o boi é solto de um cercado e uma dupla de vaqueiros deve pegar o cordão no menor tempo.

Perneira – Parte da roupa de couro que protege as pernas, fundamental para atravessar os espinheiros do sertão.

Raimundo Jacó – Vaqueiro assassinado em 1954. Sua memória inspirou a criação da Missa do Vaqueiro de Serrita, símbolo de fé e resistência.

Retirada – Ato de reunir o gado disperso pela Caatinga. Requer habilidade, conhecimento do território e entrosamento entre homem e cavalo.

Serrita – Cidade sertaneja de Pernambuco, reconhecida nacionalmente como a Capital do Vaqueiro.

Tropeada – Deslocamento do gado em grupo, conduzido por grandes extensões de terra.

Vaqueiro – Figura emblemática do sertão nordestino. Mais do que um trabalhador, é um símbolo cultural ligado à terra, ao gado e à fé.

bibliografia

ABREU, José Capistrano de. Capítulos de história colonial (15001800). 4. ed. Rio de Janeiro: Briguiet, 1954.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Distante e/ou do instante: “sertões contemporâneos”, as antinomias de um enunciado. In: FREIRE, Alberto (Org.). Culturas dos sertões. Salvador: EDUFBA, 2014.

ANDRADE, Mário de. Dicionário musical brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: Ministério da Cultura; São Paulo: Editora da USP, 1989.

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Storni, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.

COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.

LIMA, Janirza Cavalcante da Rocha. Rezas ao sol: memória e tradição na Missa do Vaqueiro em Serrita (PE). Cadernos CERU, n. 3, 1991.

MEYER, Mônica. Ser-tão natureza: a natureza em Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

PEREIRA, Amalle Catarina Ribeiro. Vida de gado: vaqueiros entre a lida e a palavra em Serrita (PE). Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade de Brasília, Brasília, 2021.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.

SENA, Custódia Selma; SUÁREZ, Mireya (Orgs.). Sentidos do sertão. Goiânia: Cânone Editorial, 2011.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.

VIEIRA, Natã Silva. Cultura de vaqueiro: o sertão e a música dos vaqueiros nordestinos. In: III Encontro de Estudos

Multidisciplinares em Cultura, Salvador, 2007.

Agradecimentos

Nossa profunda gratidão a todos e todas que nos acolheram em Serrita e contribuíram generosamente para a realização deste caderno. À comunidade local, que compartilhou saberes, histórias e vivências, nosso reconhecimento pelo carinho e confiança.

Um agradecimento especial ao vaqueiro João de Cazuza, que, com sabedoria e generosidade, nos guiou pelos caminhos da Caatinga e pelos sentidos da pega de boi no mato. Com ele, aprendemos mais do que gestos de manejo: ouvimos sobre o sertão, sua cultura, sua fé e sua resistência.

Estendemos nossos agradecimentos aos organizadores e aos participantes da tradicional Missa do Vaqueiro, celebração que reafirma os laços entre fé, memória e identidade sertaneja. A todos os que colaboraram com a programação e acompanhamento em campo, nossa admiração e respeito por manterem viva a tradição dos vaqueiros nordestinos.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015

Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.

Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura

O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.

Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Maracatu

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook