Festa do Carro de Boi - História no Interior Mineiro

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Mineração

Organização
Peres
Rota da
História no Interior Mineiro Vazante - MG Festa do Carro de Boi

Mineração

1a edição Brasília, 2025

Rota da
História no Interior Mineiro
Vazante - MG
Festa do Carro de Boi

Copyright 2025 by Eraldo Peres

[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro – sem autorização prévia dos detentores dos direitos autorais.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo

EraldoPeres

Texto e pesquisa de conteúdo

ClovisBritto

Texto e coordenação de pesquisa

AngélicaMadeira

Pesquisa e produção executiva

CarolPeres

Preparação de texto e revisão

TeresaMello

Projeto gráfico e direção de arte

JoãoCampello

Ilustrações, legendas e referências

GeovanaPeres

Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF

CEP: 72.006-345

Tel: (61) 99932-7158

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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra

Roteiros para o Brasil

Angélica Madeira

Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.

Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.

Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.

Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do

Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.

Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.

A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.

Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem

Rota

• Saída: Brasília - DF

Destino: Cachoeira, Vazante - MG

• Período: 2017 e 2019

• Cultura: Festa do carro de boi, celebração que reúne carreiros, famílias e animais em torno da história mineradora e rural de Minas Gerais

• Produção: Photo Agência

Registro

• Objetivo: documentação fotográfica e etnográfica da Festa do Carro de Boi, registrando práticas tradicionais, expressões de fé e aspectos do patrimônio material e imaterial local.

• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.

Equipe

• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres

• Assistente de fotografia: Sérgio Almeida

• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira

• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto

• Produção executiva: Carol Peres

Notas

• Vazante – Cidade mineradora que preserva os saberes dos carreiros e a memória rural

• Carros de boi – Carroças puxadas por animais e que trafegam em comboios durante longas jornadas

• Bênção de bois e carreiros – Momento religioso que expressa a devoção e a proteção aos participantes

• Toques e cantorias – Música sertaneja e toadas que

• Família e transmissão – Crianças e jovens aprendem com os mais velhos e garantem a continuidade da tradição

• Sabores – Cozinha mineira, almoços comunitários e

• Resistência cultural – O carro de boi como símbolo da

• Joaquim Silveira – Testemunho da história, dos desafios e das memórias sobre as longas travessias em carros de boi

• Irmãos Harley e Eduardo Nunes – Jovens que traduzem a continuidade das tradições herdadas da família

• Dionísio do Acordeon – Músico que compartilha histórias e costumes da região e toca durante as danças

Festa dos Carros de Boi

O tempo que canta sobre rodas

Os sertões e as veredas guardam histórias de homens e bois, de rodas que riscam o chão e de cantos que ecoam na paisagem. São testemunhos de um Brasil que se fez em jornadas, poeira e fé.

Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro

Nos meses de julho de 2017 e 2019, acompanhei em Vazante, Minas Gerais, a Festa dos Carros de Boi da comunidade Cachoeira, uma celebração que parece arrancada das páginas de um tempo em que o Brasil ainda se movia ao som do ranger das rodas de madeira e do estalo dos arreios.

Cheguei ao entardecer e logo vi o espetáculo que dá início aos festejos: tropeiros e carreiros reunidos em torno da fogueira, embalados pelo som da moda de viola, pelo tilintar dos copos e pelas conversas que relembram velhas jornadas. O baile caipira segue madrugada adentro, aquecendo corpos e corações antes da grande caminhada do dia seguinte.

Com os primeiros raios de sol, os homens deixam o acampamento para reunir juntas de bois. As tropas são formadas, os carros de boi carregados, e os viajantes se preparam para a jornada. Mais do que um desfile, é um rito de devoção e resistência, onde a força dos animais e a habilidade dos carreiros são colocadas à prova. “É um momento em que revivemos o nosso passado e relembramos a importância do boi, porque sem ele não vivemos”, contou Joaquim Silveira, um carreiro de 74 anos, que participa do festival desde os 12 anos.

Ao deixarem a planície, a marcha segue pelas trilhas íngremes da Serra da Boa Vista, onde a terra seca se esfarela sob as rodas e a

poeira sobe em redemoinhos ao toque dos cascos e das madeiras rangentes. Nas subidas mais difíceis, os homens se inclinam para trás, fincando os pés no chão para equilibrar o peso do transporte. Cada comando ecoa no ar quente, cada boi obedece com esforço, sentindo a tensão da canga puxando o carro morro acima. As rodas escorregam na terra solta, e o condutor precisa de pulso firme para evitar que ele tombe na descida. O ritmo da viagem se ajusta ao da solo: um compasso de paciência, força e destreza.

O som dos carros de boi é como um canto primitivo, um lamento profundo que se espalha por vales e encostas. É o mesmo ruído que ressoava nos caminhos da mineração séculos atrás, quando o ouro e o gado cruzavam essas estradas, conectando arraiais e cidades. Cada estalo da canga, cada comando lançado ao animal, carrega uma sabedoria transmitida de pai para filho.

Durante a pausa no meio da travessia, os carros são descarregados, os bois descansam e o fogo de chão é aceso para assar a carne. Os carreiros se sentam em roda, compartilham um gole de cachaça e relembram histórias de caminhos antigos. Ali, encontramos os irmãos Harley e Eduardo Nunes — jovens que, entre risos, conversas e o animado forró no rancho da Cachoeira, falam sobre a continuidade das tradições herdadas dos mais velhos e a importância de manter viva essa memória rural.

Quando a tarde cai, os carros chegam ao destino. O último giro das rodas sobre a terra marca o fim da jornada, mas não da tradição. Enquanto houver quem conduza as juntas e quem escute o canto dos carros, o passado seguirá ecoando pelo sertão mineiro, como uma prece feita de madeira, ferro e poeira.

Jovens no acampamento dos carreiros, na véspera da Festa do Carro de Bois, em Vazante (MG)

Entre o trabalho e a festa

A paisagem sonora dos carros de bois

Meu véio carro de boi, a sua cantiga amarga

No peso bruto da carga, o seu cocão ringidor

Meu véio carro de boi, quantas coisas ocê retrata

A estrada e a verde mata, e o tempo do meu amor

Tonico e Tinoco (Carro de boi, 1959)

O carro de boi é uma das imagens que povoaram o pensamento social brasileiro, remetendo a diferentes transformações sobre o universo rural. Está presente nas memórias da população do campo como um símbolo de resistência e de saudade. De acordo com Leandro Valentim e Ulisses Infante (2018), trata-se de um dos elementos que traduzem as práticas culturais no interior brasileiro e, em suas representações na música caipira, muitas vezes se mescla com o próprio sentimento do sertanejo: “(...) num plano coletivo, como alegoria da ruína do mundo rural ante a urbanização, e, num plano individual, como alegoria do envelhecimento e da solidão do carreiro” (p. 145).

Na análise da música de Tonico e Tinoco em epígrafe, fica claro que o carro de boi “é saudosamente lembrado como ferramenta do progresso tanto pela constituição de novos povoados quanto pelo transporte de modo geral no passado. Ou seja, a marcha do progresso, que lhe conferiu destaque num determinado período, seguiu e acabou por tirá-lo de circulação” (p. 152).

Esse meio de transporte tracionado pela junta de bois treinados conduzia mantimentos variados e tem origens no Império Romano. De acordo com Bernardino José de Souza (1958), o carro de boi descende do plaustrum romano (plaustrum gemedor), difundido para a Península Ibérica. É conhecido em Portugal como carro boeiro – onde recebeu distintas

nomenclaturas em decorrência das peculiaridades regionais em sua construção, a exemplo dos carros de bois saloio, ribatejano, beirense e minhoto. O autor informa que foi trazido para o Brasil com Tomé de Souza e, no período colonial, era reconhecido por diversos nomes: carreta, carretão, cambona, carroça, carroção e carro de boi. Além disso, sublinha que o veículo artesanal era classificado quanto ao formato da mesa ou leito (retangular, afilada na dianteira e em proa retangular), quanto à rodagem (de duas ou quatro rodas, de rodas maciças ou radiadas, e de eixo móvel ou fixo), quanto à serventia (transporte de mercadorias ou pessoas) e quanto à presença ou ausência do canto (carros silenciosos ou cantadores).

Os carros produzem um som característico chamado de canto, gemido ou lamento: “São assim chamados porque emitem continuamente um sonido de notas alternativas, são os carros de bois típicos, que desde os nossos primórdios vibram os rechinos no âmago das nossas terras; são os velhos carros de rodas maciças, de cubo prismático, conjugadas por um eixo de madeira” (Souza, 1958, p. 204). Para tanto, integram paisagens sonoras como apresentados por Murray Schafer (2001), entendidas como “o nosso ambiente sonoro, o sempre presente conjunto de sons, agradáveis e desagradáveis, fortes e fracos, ouvidos ou ignorados, com os quais vivemos” (p. 367), observando, consequentemente, os efeitos de sua presença na transmissão das heranças culturais locais.

Instrumento que encurtava as distâncias e unia localidades, o carro de boi ajudou na criação de novos povoados e acompanhou as mudanças econômicas no interior brasileiro, especialmente a transição da mineração para a agropecuária.

“(...) foi introduzido no Brasil pelos colonizadores portugueses e sofreu diversas modificações para se adequar às distâncias do território em que passou a ser imprescindível nas lidas do trabalho rural” (Brasil, 2015, p. 9). Todavia, na segunda metade do século XVIII, experimentou a concorrência com outros meios de condução, especialmente com os tropeiros em Minas Gerais: “As aglomerações de mineiros exigiam vultosos transportes de artigos para consumos e instalações; na própria exploração das minas usava-se gado muar em abundância e o transporte de ouro, com a comitiva de guardas, incrementava a sua utilidade. Acentuou-se, então, a vantagem do emprego das mulas, surgindo a figura do tropeiro” (Simonsen, 2005, p. 225), sendo acrescidos, posteriormente, por comboios de carros, carroças e carruagens.

Com a decadência da mineração, a pecuária extensiva contribuiu para o fortalecimento dos carros de bois, visto que os tropeiros se tornaram uma opção mais dispendiosa. De acordo com Souza (1958), o carro de boi se revelou mais econômico: “por efetuar transportes mais concentrados, exigir menos trabalho, e melhor resguardar as cargas contra as intempéries. Na carga, uma vez arrumada não se mexia mais até o seu destino (...). O couro de tolda protegia contra o sol e a chuva. A mesa do veículo, elevada acima do solo, impedia que se umedecessem, ou se sujassem as mercadorias” (p. 120).

Situação alterada no início do século XX, com o incremento de rodovias e ferrovias. Nesse contexto, os carros de bois perderam o protagonismo, tendo algumas localidades inclusive criado leis proibindo a sua circulação “no centro das cidades, ficando o uso restrito ao meio rural. (...) Contudo, artesãos continuaram a construí-los e a aperfeiçoá-los e, graças a eles, o carro de bois persiste na sua marcha pela história” (Scavacini, 2013, p. 2-3).

Esses artesãos habilidosos na técnica de construção dos carros são chamados de carapinas – carpinteiros especializados na junção entre rodas, eixo e mesa articulados por peças menores. Além desses saberes relativos à construção do transporte, também existem conhecimentos relacionados aos ofícios de carrear e guiar os animais, atribuições dos carreiros e dos candeeiros, conforme detalhado por Túlio Fernando de Oliveira (2021): “Posicionado na frente das juntas de bois, o candeeiro é responsável por fazer a trilha que vai ser percorrida, de modo que os bois da guia seguem seus passos e obedecem aos seus gestos. Quando é necessário parar o carro, estabelece-se uma comunicação entre candeeiro e carreiro através do aboio, mas também através das guiadas” (p. 201).

Na década de 1970, o mundo rural sofreu novas transformações econômicas a partir da modernização agropecuária que

alteraram o imaginário em torno de manifestações como os carros de bois, de utilitário para elemento identitário. Desse modo, as festas de carros de bois se tornaram elementos de resistência tendo o rural como referência e cosmovisão. São instantes de pausa nos dramas cotidianos, de rememoração de um tempo marcado por saudosismo, pelo comunitarismo e pela economia rural de subsistência.

É significativo perceber uma reinvenção ou atualização da tradição dos carros de bois como festividade, em romarias e outras celebrações religiosas, a exemplo da romaria de Trindade, em Goiás, e como comemoração de períodos de colheita, a exemplo das que ocorrem no Triângulo Mineiro e no Alto Parnaíba (MG). Nesse contexto se destaca a Festa de Carro de Boi da Cachoeira, em Vazante, noroeste de Minas Gerais, também conhecida como carreata de bois. A festa, criada na década de 1990, tem como mito fundador o transporte da colheita de milho até a fazenda Cachoeira através de um mutirão de carros de bois.

Precedido pela plantação e colheita do milho, o festejo ocorre durante três dias em julho sob a coordenação da Associação dos Carreiros da Comunidade da Cachoeira. Mais de duzentos homens se deslocam para participar do evento, marcado pelo

carregamento dos carros, pousos em fazendas, subida da Serra da Boa Vista, mutirão, catira, rodas com violeiros e sanfoneiros, alvoradas, homenagens e Missa do Carreiro. O som dos carros costura a paisagem, acionando memórias de um campo que resistem entre as comunidades Carranca, Amoreira e Cachoeira.

O ofício dos carapinas, carreiros e candeeiros, o modo de fazer carros de boi e as celebrações configuram significativas heranças culturais no interior brasileiro. Algumas dessas manifestações foram patrimonializadas, a exemplo da Romaria de Carros de Boi da Festa do Divino em Trindade (GO), registrada em 2016 como patrimônio imaterial brasileiro no livro das celebrações, e das diversas iniciativas de reconhecimento das festas, mutirões, encontros e desfiles de carros de bois como patrimônios dos municípios mineiros de Crucilândia, Ervália, Formiga, Ibertioga, Ipuiúna, Matutina, São Francisco do Glória, São Pedro da União, Senhora dos Remédios, Vazante e Unaí.

Entre o trabalho e a festa, os carros de bois acionam festejos comunitários singulares em prol dos plantios e das colheitas, da valorização das referências culturais e dos ofícios que traduzem um mundo rural, fundindo em uma mesma paisagem os sons dos carros, dos carreiros e dos bois.

Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Bailão sertanejo no acampamento dos carreiros
Preparação do café da manhã
Carreiro Joaquim Silveira se prepara para a Festa dos Carros de Bois
Roda típica de madeira conhecida por emitir o característico canto do carro de boi
Carreiros conduzem os carros de boi no início da trilha da Serra da Boa Vista
Carreiros chegam ao ponto alto da trilha na serra
Irmãos Harley e Eduardo Nunes, durante o ranchão do almoço
Carreiro comanda o carro de boi em frente à Serra da Boa Vista

Referências culturais

Festa do Carro de Boi: História no Interior

Mineiro

Na comunidade Cachoeira, em Vazante, Minas Gerais, a Festa do Carro de Boi é uma celebração anual que reúne carreiros, tropeiros, famílias e curiosos em torno de um rito que atravessa séculos. Herança direta das antigas rotas da mineração e do transporte de cargas pelo interior do Brasil, os carros de boi carregam não apenas mercadorias, mas memórias: o som das rodas de madeira, o estalo das cangas, os comandos firmes dos carreiros compõem um cenário de resistência e identidade.

A festa inclui encontros de comitivas, desfiles de carros de boi, forrós, rodas de prosa e partilha de alimentos. Mais do que um espetáculo visual, é um testemunho vivo da cultura sertaneja, que valoriza a relação homem-animal, os saberes transmitidos oralmente, a convivência coletiva e o respeito ao trabalho da terra.

Nos caminhos poeirentos da Serra da Boa Vista, a marcha lenta dos carros é um ritual que conecta gerações.

Assim como outras celebrações tradicionais de Minas Gerais — como a Festa do Divino e os encontros de Folias de Reis —, a Festa do Carro de Boi de Vazante é um patrimônio imaterial que afirma a relevância das expressões rurais na construção do Brasil profundo. Resgata a paciência, a força e a destreza que marcam os sertões e reafirma a continuidade de práticas que sobrevivem ao tempo.

Arte e cultura

“As rodas do velho carro

Deixaram marcas no chão

Num passado bem distante

Que hoje é recordação

Assim é a minha vida

Nas marcas da ilusão

Sou roda que ainda roda

Na estrada solidão”

Trecho da música Carro de Boi, de Ronaldo Viola e João Carvalho

O som do berrante ecoa nas comitivas de carros de boi em Minas Gerais, guiando os tropeiros pelas trilhas antigas e mantendo viva a história do interior

Filmes

• CarrosdeBoi:PatrimônioVivo, curta-metragem do IPHAN

• MinaseosCarrosdeBoi, série do Canal Futura

• NosCaminhosdoSertão, série do Canal Brasil

• OSertãodasGerais, documentário de Renato Barbieri

Livros

• ALidacomoGado, de Ricardo Gontijo

• CarrodeBoieOutrosEnsaios, de Vilmar Silva

• MemóriasdeumCarreiro, de Sebastião Barbosa

• OPovoBrasileiro, de Darcy Ribeiro

• SabereseFazeresSertanejos:Tradiçãoe ModernidadenoBrasilRural, de José Carlos Reis

• SertõesdasGerais, de José Osvaldo de Meira Penna

Músicas

• BoiadeiroErrante, com Sérgio Reis

• Caminheiro, com Jack e Álvaro

• CarrodeBoi.In:NaBeiradaTuia, com Tonico e Tinoco. Continental, 1959. LP, faixa 11

• ModadoCarreiro, com Liu & Léu

• PagodeemBrasília, com Tião Carreiro e Pardinho

• RodadeCarrodeBoi, composição tradicional sertaneja

• Romaria, com Renato Teixeira

• TocandoemFrente, com Almir Sater e Renato Teixeira

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.

Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.

Linha do Tempo

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Cultura Açoriana

Palhoça - SC

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Pega de Boi no Mato

Serrita - PE

Tropeiros do Sul

Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas

Corumbá - MS

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Congada

Catalão - GO

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Congada

Catalão - GO

Marujada

Bragança - PA

Santo Daime

Céu do Mapiá - AM

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Wyra’ Uhaw

Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo

Quilombo Vão de AlmasGO

dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração

da Costa Atlântica

Glossário

Aboio – Canto entoado pelos carreiros para guiar, acalmar ou dar comandos aos bois durante a lida no campo ou nas jornadas.

Associação dos carreiros – Organização comunitária responsável por coordenar festas, encontros e preservação das tradições como na comunidade da Cachoeira, em Vazante.

Boiadeiro ou carreiro – Pessoa encarregada de conduzir os bois e os carros durante as jornadas, responsável pelo manejo dos animais e pelo equilíbrio das cargas.

Candeeiro – Condutor posicionado à frente das juntas de bois, que abre caminho e orienta os animais-guia com gestos e sinais a fim de manter a direção.

Carapina – Artesão especializado na construção manual de carros de boi, dominando saberes transmitidos por gerações para produzir rodas, eixos e mesas de madeira perfeitamente encaixados.

Carreta ou carroção – Nomes alternativos para o carro de boi, dependendo da região, referindo-se a diferenças de tamanho, formato e uso.

Carro de boi – Veículo tradicional do interior brasileiro, de origem ibérica, composto por duas rodas grandes de madeira, eixo fixo e mesa, tracionado por bois para transporte de cargas.

Carro cantador – Tipo específico de carro que emite um som característico, conhecido como canto, gemido ou lamento, produzido pelo atrito entre peças de madeira.

Catira – Dança tradicional sertaneja, presente nas festas rurais, marcada por palmas, sapateados e ao som da viola.

Festa do carro de boi (ou carreata de bois) – Celebração rural que reúne carreiros e candeeiros para jornadas coletivas que incluem desfiles, missas, danças e partilhas comunitárias, como em Vazante.

Mesa (do carro) – Estrutura superior do carro de boi, onde são acomodadas as cargas e de formatos variados.

Missa do carreiro – Celebração religiosa que integra a festa a fim de homenagear carreiros e famílias, pedir proteção para as jornadas e agradecer pelas colheitas.

Mutirão – Trabalho coletivo em que membros da comunidade se reúnem para fazer tarefas comuns, como carregar e descarregar os carros ou preparar o local das festas.

Plaustrum – Termo latino que designa a origem romana do carro de boi, ancestral direto do modelo introduzido no Brasil por colonizadores portugueses.

Rodas maciças – Rodas inteiramente feitas de madeira, sem raios, próprias dos carros antigos, responsáveis pelo característico canto do carro de boi.

Romaria – Deslocamento coletivo de caráter religioso, onde os carros de boi são usados para transportar oferendas e participantes, como na romaria de Trindade (GO)

Sons do carro – O som gerado pelo carro de boi é considerado parte do ambiente sonoro rural, evocando memórias e emoções ligadas ao trabalho e à tradição.

Tropeiro – Condutor de tropas de mulas, importante figura histórica que competiu com os carreiros pelo transporte de mercadorias e riquezas durante o ciclo minerador.

bibliografia

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Storni, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).

BRASIL. Dossiê descritivo – A romaria de carros de boi da Festa do Divino Pai Eterno, Trindade, Goiás. Goiânia: Superintendência do IPHAN em Goiás, 2015.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.

COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Éditions Macula, 1990.

OLIVEIRA, Túlio Fernando Mendanha de. “O carro de boi é a minha vida”: técnicas e expressões culturais entre carapinas e carreiros no interior de Goiás. Tese (Doutorado em Antropologia), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2021.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.

SCAVACINI, Bruna. Carro de boi: a origem do transporte. 2013. Disponível em: http://naboleia.com.br/carro-de-boi-a-origem-dotransporte/. Acesso em: 2 abr. 2018.

SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

SIMONSEN, Roberto. História econômica do Brasil: 1500-1820. 4. ed. Brasília: Senado Federal, 2005.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.

SOUZA, Bernardino José de. Ciclo do carro de bois no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.

VALENTIM, Leandro Henrique Aparecido; INFANTE, Ulisses. Representações do carro de boi na música caipira. Revista Rascunhos Culturais, Coxim/MS, v. 9, n. 17, p. 145-169, 2018.

Agradecimentos

Nosso sincero agradecimento à comunidade da Cachoeira, em Vazante, Minas Gerais, que nos recebeu com bondade e confiança durante os registros realizados nas rotas da Serra da Boa Vista, nos anos de 2017 e 2019.

Agradecemos ao senhor Joaquim Silveira, memória viva da tradição dos carreiros, que nos acolheu com histórias, sabedoria e generosidade, em especial ao parceiro Willian Navarro, que nos apresentou à comunidade e nos guiou durante toda a jornada, tornando possível cada encontro, cada história e cada passo deste trabalho.

A todos os carreiros, tropeiros, famílias e moradores que abriram suas casas e partilharam seus saberes, deixamos registrado nosso reconhecimento. Este caderno é, acima de tudo, uma homenagem à força coletiva que preserva o patrimônio cultural do sertão mineiro.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015

Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.

Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura

O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.

Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi Divino Espírito Santo

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