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“(...) A globalização, como em muitas outras áreas, tem sido simultaneamente generosa e cruel com os tradutores. Por um lado, facilita o contato com clientes localizados a milhares de quilômetros de distância e oferece visibilidade planetária através da internet. Por outro lado, abre as portas do mercado para gente despreparada que o inunda com mão de obra barata. Muitas vezes, aliás, a mão de obra pode ser barata, mas a qualificação nem sempre é baixa. Um tradutor profissional que trabalha na Índia precisa de muito menos dinheiro para viver que um tradutor profissional vivendo no Brasil, que, por sua vez, precisa de muito menos que um tradutor profissional vivendo na Holanda. Infelizmente, o piso de rendimentos é que costuma determinar o valor dos serviços de freelancers pelo mundo afora, que fazem um cálculo pouco ambicioso. As empresas de tradução sabem disso e muitas procuram mão de obra nos lugares onde ela é mais barata. (...)”


Fabio M. Said

Fidus interpres A prática da tradução profissional

2a edição

São Paulo Edição do autor 2011


Copyright ©2011 by Fabio M. Said Arte da capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Fabio M. Said Imagem da capa: detalhe de pintura em óleo sobre tela atribuída a pintor flamengo desconhecido do séc. XVI, representando São Jerônimo, o santo padroeiro dos tradutores, em sua mesa de trabalho (Museu Nacional de Belas Artes da Moldávia)

Todos os direitos desta edição reservados a Fabio M. Said, Hauptstr. 47, 53359 Rheinbach, Alemanha

Para saber como e onde adquirir um exemplar deste livro, acesse fidusinterpres.com

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP): Said, Fabio M. Fidus interpres: a prática da tradução profissional / Fabio M. Said. 2a ed. – São Paulo: edição do autor, 2011. Inclui índice remissivo. ISBN 978-85-910098-7-9 (impresso nos EUA, 15,24 x 22,86 cm) ISBN 978-85-910098-6-2 (impresso no Brasil, 14,8 x 21 cm) ISBN 978-85-910098-5-5 (e-book)

1. Tradução e interpretação – prática profissional. 2. Tradução e interpretação – tradutores. I. Título. CDD – 418.02 CDU – 81.25

As informações, dicas e sugestões dadas neste livro não devem ser interpretadas como padrão absoluto do mercado de tradução, nem como modelo de conduta ditado pelo autor, mas como resultados de experiências e observações do autor durante quase duas décadas de atuação profissional.


Sumário

Prefácio à 1a edição (2010) .......................................................11 Prefácio à 2a edição (2011) .......................................................15 Introdução................................................................................17 1. A tradução profissional ........................................................21 Tradução e versão ...................................................................... 21 Tradutores e intérpretes ............................................................. 22 O mito da tradução 100% fiel ..................................................... 23 Tradutor não é autor.................................................................. 26 O princípio do tradutor nativo .................................................... 27 Tradução e voluntariado ............................................................ 29 Um típico projeto de tradução .................................................... 32 2. O tradutor profissional.........................................................39 O que as pessoas pensam dos tradutores? ................................. 39 “Meu sonho é traduzir”............................................................... 41 O que é um tradutor profissional? .............................................. 42 Habilidades básicas do tradutor ................................................. 45 Traduzir com consciência cultural.............................................. 47 O círculo virtuoso do tradutor .................................................... 49 Tradutor escolhe o que traduzir?................................................ 50


Tradutor, a melhor profissão do mundo ..................................... 51 Cursos de tradução.................................................................... 57 A concorrência no mercado de tradução ..................................... 57 Regulamentação da profissão de tradutor................................... 59 Associações profissionais de tradutores...................................... 60 Tradutores, classe desunida? ..................................................... 62 A ética do mercado de tradução.................................................. 65 3. O mercado de tradução ........................................................67 Os tradutores movem o mundo .................................................. 67 A realidade do mercado de tradução........................................... 69 Tradução-meio e tradução-fim.................................................... 71 Tradução para editoras .............................................................. 72 Tradução audiovisual................................................................. 75 Localização ................................................................................ 76 Tradução técnica........................................................................ 77 Os verbos na tradução especializada .......................................... 79 Tradução para órgãos públicos................................................... 80 Subcontratação, terceirização .................................................... 82 Quanto ganha um tradutor? ...................................................... 83 Produtividade............................................................................. 85 Testes de tradução – prós e contras............................................ 88 Indicações de colegas ................................................................. 91 Estratégias para agregar valor ao serviço.................................... 93 4. Especialização do tradutor ..................................................95 A cultura geral do tradutor......................................................... 95 Tradutor especializa(n)do ........................................................... 96 Especialização: exigência do mercado......................................... 98 O caminho para a especialização................................................ 99 Português brasileiro x europeu................................................. 102 O cliente paga mais para não ser o primeiro ............................. 104 5. Tradução “juramentada”....................................................105 Tradução jurídico-comercial ..................................................... 105 Tradutor público (“juramentado”) ............................................. 107 Concursos e tradutores ad hoc................................................. 110 6. Técnicas de tradução .........................................................113 Tradução literal........................................................................ 113 Tradução semântica (equivalência) ........................................... 114 Tradução formal....................................................................... 114


Evitar cacofonia ....................................................................... 115 Amplificação (tradução explicativa)........................................... 115 Original entre parênteses/colchetes ......................................... 116 Redução/supressão ................................................................. 116 Tradução por aproximação ....................................................... 117 Generalização x particularização .............................................. 117 Decalque.................................................................................. 117 Empréstimo ............................................................................. 117 Nominalização de verbos/adjetivos........................................... 118 Verbalização/adjetivação de substantivos ................................ 118 Transposição de advérbios ....................................................... 119 Modulação ............................................................................... 119 Evitar sequência de sinônimos ................................................. 119 Evitar repetições ...................................................................... 120 Cognatos, falsos cognatos, falsos amigos .................................. 120 Adaptação de sinais de pontuação............................................ 121 Reorganização sintática............................................................ 121 Nota do tradutor ...................................................................... 121 Língua de apoio........................................................................ 122 7. Ferramentas do tradutor ....................................................123 Escritório virtual do tradutor.................................................... 123 A biblioteca do tradutor............................................................ 125 Equipamentos.......................................................................... 127 Memória de tradução ............................................................... 130 Ferramentas CAT ..................................................................... 133 PDF, o inimigo número um do tradutor .................................... 139 Uso avançado de tecnologia...................................................... 141 Tradução automática ............................................................... 149 8. Terminologia e tradução ....................................................153 A importância da terminologia.................................................. 153 Terminologia própria x importada ............................................ 155 Linguagem controlada.............................................................. 156 Gestão de terminologia............................................................. 157 Pesquisa de terminologia na internet........................................ 158 O mito do bom glossário e do “termo consagrado”..................... 163 9. Qualidade em traduções .....................................................165 O que é uma tradução de qualidade? ....................................... 165 A qualidade do original influencia a tradução ........................... 166 O perigo do “tradutorês”........................................................... 167


Controle de qualidade em traduções......................................... 170 Norma de qualidade em traduções ........................................... 173 Códigos padronizados de idiomas ............................................. 175 10. Tradução como atividade econômica................................177 Tradutor freelancer x assalariado ............................................. 177 Tradutor autônomo x empresário ............................................. 179 Agências de tradução ............................................................... 180 Custos e investimentos ............................................................ 184 11. Marketing para tradutores ...............................................187 Captação de clientes: tarefa constante...................................... 187 Currículo de tradutor ............................................................... 189 Estratégias de marketing on-line .............................................. 191 Estratégias de marketing off-line .............................................. 198 A Web 2.0 como ferramenta de marketing ................................ 203 Como fazer um site profissional................................................ 209 Como fazer um blog profissional............................................... 213 Estratégias para tirar proveito do ProZ.com.............................. 220 Efeitos colaterais do marketing ................................................ 226 Como educar os clientes........................................................... 228 12. Tradução e finanças.........................................................229 Tradutor administrador............................................................ 229 Métodos de cobrança ............................................................... 231 Política de preços ..................................................................... 233 Clientes diretos x indiretos ....................................................... 235 “Leilão às avessas” e concorrência de preços ............................ 237 Orçamento de serviços de tradução .......................................... 238 Faturas e prazos de pagamento................................................ 241 Métodos de pagamento............................................................. 242 Cliente mau pagador ................................................................ 243 E as férias? .............................................................................. 245 Referências bibliográficas(?)...................................................247 Índice remissivo......................................................................249


O ensino da tradução só pode partir de exemplos concretos e deve ter em vista, sobretudo, flexibilizar a mente do tradutor e mantê-la em estado de alerta para que saiba lembrar precedentes ou, se for o caso, inventar novas soluções. Paulo Rónai, A tradução vivida


Prefácio à 1a edição (2010)

Este livro foi inspirado por minha atividade de mais de dois anos como editor do blog de tradução Fidus interpres (http://fidusinterpres.com). Foi inspirado também pela interação online e off-line com tradutores profissionais, estudantes e aspirantes a tradutores. O assunto aqui é a tradução como atividade profissional, prática, cotidiana, com problemas e desafios concretos – inclusive financeiros e organizacionais – e vinculada à sobrevivência do tradutor. Este não é, portanto, um livro sobre a “arte de traduzir”, nem sobre a (in)traduzibilidade de certas expressões. Ele não contém exercícios de tradução, que ficam a cargo das universidades e cursos. Tampouco haverá aqui exemplos anedóticos de erros de tradução – isso fica para os diletantes que nunca se envolveram de fato com o universo da tradução e, portanto, preferem abordá-lo de um ponto de vista jocoso, irônico ou demasiadamente crítico. Escrevi este livro pensando principalmente naqueles que pretendem seguir a carreira de tradutor e naqueles que já a iniciaram, mas ainda estão tomando os primeiros passos rumo à profissionalização. Sei muito bem a importância que tem esse tipo de leitura no início da carreira. Eu próprio me beneficiei muito de livros como Escola de tradutores e A tradução vivida, ambos do mestre Paulo Rónai. Não tenho


Prefácio à 1a edição

como calcular o valor do aprendizado (e do prazer) que tive, naquela época, lendo sobre minha futura profissão de um ponto de vista concreto e pessoal, em vez de teórico e didático, como era de se esperar. No Brasil, Rónai foi o pioneiro nesse tipo de literatura, do qual, atrevome a dizer, fazem parte também os diversos blogs de tradução que proliferam na internet hoje em dia. A diferença entre o pioneiro Rónai e os atuais blogs de tradução – descontada, obviamente, a sapiência insuperável do mestre – é que os blogs têm impacto imediato e se tornam instantaneamente acessíveis a qualquer pessoa em todo o planeta, permitindo uma interação igualmente instantânea entre autor e leitores, coisa que o velho Rónai certamente nem sonhava nos idos de 1952, ao publicar o ótimo Escola de tradutores. Acontece, porém, que o blog pode ser um veículo extremamente caótico e apressado. E é por essa razão que volto agora ao bom e velho formato “livro”, que é mais sereno e cuidadoso, para fazer um registro um pouco mais aprofundado de muitos temas que são tratados apenas rapidamente no Fidus interpres. Além dos tradutores em formação ou em início de carreira, os tradutores de um modo geral também compõem o público-alvo deste livro, uma vez que ele foi pensando como uma “carta aos tradutores”, expondo minhas visões pessoais sobre a tradução profissional, com reflexões relevantes para profissionais da área, independente do grau de experiência. Aliás, desde já, fica aqui o alerta de que muitas dicas e informações contidas neste livro podem parecer óbvias a certos leitores, mas tenho certeza de que muitas outras serão novidade para os demais. O livro é dividido em três grandes partes. Na primeira (capítulos 1-5), ofereço uma introdução ao universo da tradução profissional, tentando responder a perguntas como: o que é um tradutor profissional? Em que áreas atuam os tradutores e o que traduzem? Como alguém se torna tradutor? Como é um típico projeto de tradução? Por que as agências internacionais só querem tradutores falantes nativos da língua de chegada? Vale a pena se associar a entidades de tradutores? Como se especializar? O que é tradução “juramentada”? Na segunda parte (capítulos 6-9), o assunto é a tradução como ofício. Nela trato de aspectos do dia-a-dia do tradutor profissional: as técnicas para resolver problemas de tradução, as ferramentas tecnológicas e de auxílio à tradução, a questão da pesquisa e gestão de terminologia especializada, o perigo do “tradutorês” e alguns métodos de controle de qualidade em traduções.

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Fidus interpres: a prática da tradução profissional

Na terceira e última parte (capítulos 10-12), dedico-me à tradução como negócio, tentando mostrar a faceta comercial do profissional da tradução, que normalmente é visto apenas como “artista” ou “artesão”, e esclarecer as diferenças entre os formatos comerciais dessa atividade econômica. Aqui discuto os itens nos quais se deve pensar quando se quer abrir um escritório de tradução, a questão da política de preços, algumas estratégias de marketing on-line e off-line para captação de clientes e socialização com colegas, os elementos mais importantes do currículo de um tradutor, certas práticas negativas do mercado de tradução e tópicos de administração financeira aplicada à tradução profissional. Concluo com um Índice remissivo, pensado como instrumento para facilitar a busca de assuntos específicos nesta obra, mas também como uma espécie de glossário da tradução profissional e chave para se aprofundar nesse universo. Espero que este livro seja útil a tantos quantos se interessarem pela carreira de tradutor. Faço, porém, a ressalva de que as informações, dicas e sugestões que dou aqui não devem ser interpretadas como padrão absoluto do mercado, nem como modelo de conduta ditado por mim, mas como simples resultados de minhas experiências e observações em dezessete anos de atuação profissional. Lembre-se sempre disso, mesmo quando minhas observações forem especialmente categóricas. Não que eu tenha credencial melhor que outros para escrever uma obra como esta, mas o fato é que eu passei por uma boa escola de tradutores e ganho a vida como tradutor profissional desde os dezoito anos de idade (metade da minha vida), percorrendo desde então uma estrada relativamente longa e larga (em vários ramos de atuação como tradutor, conforme relatarei mais adiante). Além disso, sou grande fã da profissão que escolhi e tenho muito a dizer sobre ela. Quero vê-la valorizada, principalmente por aqueles que se interessam em abraçá-la como modo de ganhar a vida. Quero que as pessoas vejam a tradução como atividade prática e especializada. Quero ver o profissional da tradução reconhecido não como um artista solitário e cercado de livros, que passa horas ou dias apenas pensando em como traduzir determinado termo, mas sim como um sujeito antenado com a realidade cultural e tecnológica do mundo e que usa seus conhecimentos de línguas e de comunicação a serviço de clientes com necessidades específicas e muitas vezes imediatas – enfim, como profissional inserido em um mercado competitivo e que é forçado a tomar decisões rápidas e eficazes, como alguém que está nesta profissão não

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Prefácio à 1a edição

só por amor ou deleite pessoal, mas também para ganhar dinheiro e se dar bem na vida. Quanto ao título do livro, tomei-o emprestado de Horácio, que escreveu, no ano 18 a.C., em sua De arte poetica liber (também conhecida como Ars poetica): ... nec verbo verbum curabis reddere fidus interpres... [… nem traduza palavra por palavra, como um fiel intérprete...] Em latim, fidus interpres significa, literalmente, “fiel intérprete” ou “fiel tradutor”. Embora esse termo seja usado por Horácio com conotações negativas e remeta à fidelidade excessiva do tradutor sem imaginação que traduz literalmente, outros autores usaram-no com um sentido positivo – São Jerônimo, o padroeiro dos tradutores, por exemplo. Além disso, o termo sozinho pode denotar fidelidade em um sentido mais amplo: fidelidade ao texto de partida, muitas vezes na contramão da tradução palavra por palavra, exigindo que o tradutor tome certas liberdades e faça certas adaptações. Um terceiro sentido, livremente interpretado, da expressão fidus interpres é o de “vosso fiel tradutor”, como se um tradutor estivesse escrevendo uma carta na qual expõe sua visão particular de seu universo profissional – e isso é exatamente o que acontece tanto no blog Fidus interpres como neste livro que você tem agora em mãos. Aproveite e boa leitura!

Fabio M. Said

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Rheinbach/Alemanha, abril de 2010


Prefácio à 2a edição (2011)

É muita audácia fazer uma segunda edição de um livrinho como este apenas um ano depois da primeira, não é? Pode ser, mas os tradutores, perfeccionistas por natureza, sabem muito bem que assim que acabamos um projeto vem aquela sensação de que ele poderia ter ficado melhor, mais abrangente ou mais específico, mais copioso ou mais sucinto. Já no primeiro dia depois do lançamento comecei a compilar uma lista de “ideias para a segunda edição”, contendo desde pensamentos soltos até esquemas específicos de assuntos que mereceriam ser desenvolvidos no livro – parte deles, aliás, foi publicada como artigos do blog Fidus interpres em meus períodos de maior motivação. Além disso, em conversas que tive com colegas nos últimos doze meses, recebi não somente elogios pela empreitada como também inúmeras sugestões para que o livro agradasse ainda mais. Foi nesse contexto, portanto, que resolvi fazer esta segunda edição. A principal diferença desta segunda edição em relação à primeira é que nela eu implemento a sugestão mais frequente dos leitores até agora: uma versão digital. Não quis fazer um e-book da primeira edição porque a proposta, conforme está no prefácio à 1a edição, era fazer a passagem de um meio digital (blog) para um meio analógico tradicional (livro). Mas sempre houve a ideia de fazer um e-book, de olho


Prefácio à 2a edição

no crescente mercado de livros digitais no Brasil e em todo o mundo e de olho também na praticidade, pois muitos tradutores são fãs de tecnologia e gadgets e há muito aderiram à leitura de livros eletrônicos (desprezar esse público seria burrice). As demais diferenças estão no conteúdo: vários capítulos foram ampliados, ganharam novos tópicos; outros foram encurtados e perderam certas passagens redundantes ou de menor interesse. Mais especificamente, esta edição contém, por exemplo, uma longa discussão sobre melhores práticas de uso do portal para tradutores ProZ.com, que é muito criticado por incentivar práticas negativas, mas pode, sim, ser parte de uma estratégia de marketing de tradutores com perfil voltado para clientes de alto nível (meu argumento é: se deu certo para mim por que não daria certo para você?). Outro acréscimo é uma discussão sobre a ética dos tradutores – nada de julgamentos morais, mas somente alguns pontos para se refletir. As técnicas de tradução ganharam alguns acréscimos, assim como os capítulos sobre qualidade e marketing. Espero que esta segunda edição agrade tanto ou mais que a primeira! Boa leitura!

Fabio M. Said

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Rheinbach/Alemanha, maio de 2011


Introdução

Quando um tradutor aparece na mídia, quase sempre é para falar de tradução literária. Quando uma revista ou suplemento cultural faz uma reportagem sobre tradução, costumam ser chamadas as figuras de sempre da intelectualidade tradutória, geralmente para discutir a questão da invisibilidade do tradutor diante da figura venerável do autor ou algum problema de (in)traduzibilidade, com exemplos de frases belíssimas e muitas elucubrações sobre a melhor tradução de determinados conceitos. Nada contra a instituição cultural que é a tradução literária, tão importante para a formação de um país como o Brasil. Também nada contra o fascínio que a tradução de belas-letras provoca nas pessoas. O que incomoda mesmo é ver a figura do tradutor aparecer na mídia predominantemente como alguém alheio ao mundo tecnológico e econômico, movido mais pelo deleite pessoal em traduzir. Por que os médicos ou engenheiros aparecem na mídia para dar consultoria, falar sobre certos perigos, orientar as pessoas – enfim, para ajudar os outros e, ao mesmo tempo, fazer marketing de seu trabalho –, e os tradutores aparecem para exibir sua própria sapiência intelectual, muitas vezes financiada por um trabalho bem mais prosaico que a tradução literária (ensino, cargo público, secretariado, medicina etc.)?


Introdução

Tudo bem que para ser bom tradutor – de qualquer especialidade, em qualquer área – é preciso ler muito e ter grande curiosidade intelectual. Tudo bem que a maioria dos tradutores que eu conheço sejam tão ou mais fascinados pelas palavras quanto as figuras que sempre comparecem em matérias da mídia. Mas a grande – a imensa – maioria dos tradutores em atividade não me parece devidamente representada na mídia. Refiro-me aos tradutores de contratos, aos tradutores de manuais técnicos, aos tradutores de notícias, aos tradutores de documentos, aos tradutores de boletins médicos etc. Essas categorias de tradutores são muito mais numerosas que os literários e ajudam a movimentar uma economia assombrosa. Mas são os literários, a minoria, que mais aparecem na mídia. É verdade que esse quadro tem mudado desde a virada para o século XXI, com a propagação da internet versão 2.0 e principalmente com o surgimento dos blogs, a mídia feita pelo próprio usuário. Foi aí que os tradutores profissionais não-literários começaram – mas só começaram – a chamar atenção da mídia tradicional e povoar o imaginário das pessoas de forma mais palpável. A Web 2.0 fez os tradutores sair da toca e mostrar a cara ao mundo. Nos blogs, no Twitter, no Orkut, Facebook e outras redes sociais, os tradutores profissionais comparecem em peso e mostram que são pessoas antenadas e com os pés no chão, diferentes da imagem intelectual que ainda predomina na mídia. O comparecimento maciço dos tradutores nas redes sociais é, na verdade, sintoma das transformações do mercado de tradução como um todo, nos últimos anos. Em meio a essas transformações, aparecer e dizer a que veio passou a ser uma necessidade para a sobrevivência profissional. O mercado de tradução é hoje extremamente fragmentado, com tantas especialidades e tanta diversidade quanto a própria diversidade humana, e ter uma voz nessa imensidão é questão estratégica e vital. Nos últimos dois anos, como editor do blog de tradução fidusinterpres.com, pude não apenas usar a minha própria voz como também ouvir a voz dos tradutores, inclusive a dos tradutores em formação ou em início de carreira. A ideia inicial era usar o blog como ferramenta de captação de clientes, mas logo criou-se uma verdadeira comunidade informal de tradutores em torno do blog, trocando informações, relatando casos do cotidiano, reclamando da vida (clientes maus pagadores, tarifas em baixa, projetos desinteressantes etc.),

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Fidus interpres: a prática da tradução profissional

mas também comemorando vitórias (conquista de clientes importantes, traduções publicadas, cumprimento de metas de rendimento etc.). A ajuda mútua em terminologia e apoio moral são coisas comuns, assim como a troca intensa de links para glossários, artigos interessantes e oportunidades de profissionalização e aperfeiçoamento profissional. A comunidade virtual dos tradutores vai muito bem, obrigado, e veio para ficar. Mas a mesma internet que favorece a criação dessa comunidade e o estabelecimento de contato entre tradutores e clientes localizados a milhares de quilômetros de distância uns dos outros é responsável também por fenômenos como o crowdsourcing, forma de contratação em massa de força de trabalho on-line, quase sempre com base em exploração de voluntariado. Ou então pela proliferação do fenômeno do “leilão às avessas”, a prática nociva da concorrência pelo menor preço que tem derrubado os preços de traduções em todo o mundo. Alguns dizem que o futuro da tradução é um retorno ao amadorismo, com mais pessoas sem treinamento tradutório entrando no mercado de trabalho e assumindo tarefas que hoje são realizadas por tradutores profissionais com qualificação formal. Outros apontam que devido à evolução da tradução automatizada por computador o futuro dos tradutores é se transformar em revisores de textos traduzidos por máquinas. E ainda outros apostam na extinção total da profissão de tradutor, porque o inglês, como língua internacional, evolui cada vez mais como lingua franca falada por todos que desejam algum sucesso na vida e, portanto, a economia com o tempo prescindiria de profissionais para traduzir essa língua para os idiomas nacionais ou viceversa. O futuro da tradução profissional parece sombrio e pode assustar os mais fracos de espírito. Mas nem tudo está perdido. Afinal os tradutores movem o mundo: influenciam a língua e os modos de pensar, constroem pontes comerciais e ajudam a ciência a evoluir. Se isso não for argumento suficiente para convencer alguém da importância dos tradutores, nada mais convencerá. Os tradutores têm e merecem ter espaço de destaque na sociedade. Só não aparecem na mídia – pelo menos não com sua face majoritária! A ambição deste livro é tentar mudar um pouco esse quadro, mostrando a face menos conhecida dos tradutores profissionais e pintando um quadro mais ou menos realista do mercado de tradução, com seus aspectos fascinantes e sombrios. Se pelo menos um tradutor em formação ou em início de carreira conseguir enxergar esse mercado com uma visão mais ampla e conscientizar-se do papel que

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Introdução

lhe cabe no mundo e da necessidade de se comprometer com a profissão no longo prazo, a ambição já terá se concretizado. Afinal, no mundo conectado de hoje, uma ideia ou comportamento se propaga muito mais rapidamente e tem muito mais possibilidades de influenciar os outros.

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Índice remissivo

ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), 61, 85, 220 across, 99, 138 agências de tradução, 69, 86 alemão, 24, 47, 102, 103, 116, 119, 132, 145, 175, 182, 232 alinhamento, 134 amplificação, 115 antivírus, 128 Archivarious, 146 ATA, 60, 220 authorSTREAM, 196, 203 back-up, 144 BDÜ, 60, 220 biblioteca do tradutor, 125 BIC (Bank Identifier Code), 242 Blogger, 215

blogs, 12, 192, 206, 214, 217 criação e instalação, 214 de tradutores, 206 listas de melhores, 193 monetização, 219 blogs:, 194 BlueBoard, 221, 224 cacofonia, 115 captação de clientes, 188 CAT (Computer-Aided Translation), 34, 86, 99, 131, 133, 139, 144, 158, 166, 171 Certified PRO Network, 225 clientes, 32, 47, 59, 68, 125, 155, 157, 189 como educar, 228 diretos, 235, 236 maus pagadores, 244 cobrança, 84, 231


Índice remissivo

códigos de idiomas, 175 códigos de países, 176 cold contact, 188 common law, 106 computador, 128 concorrência, 58 de preço, 58, 108, 222, 225, 237 concurso para tradutor, 85, 101, 105, 110 contador, 220 contratação de colegas, 66 contratos de tradução, 74 convenções tipográficas, 171 corpora, 162 corretor ortográfico, 87, 145 crédito proteção ao, 221, 224 crowdsourcing, 19, 30, 60 cultura geral, 95 cursos, 51, 57 decalque, 117 Déjà Vu, 99 descontos, 41, 108 tabela de, 133, 182 dicionários, 97, 147 bilíngues, 77, 79, 126 monolíngues, 79, 126 Digg, 203 DOC, 35 DOCX, 35 Dropbox, 144 DTP (desktop publishing), 140 e-mail, 141, 245 assinaturas de, 141, 195 domínio, 142 provedor de, 141 várias contas, 142 webmail, 141 emprego de tradutor, 177 entidades profissionais, 43, 60, 62, 198

250

ABRATES (Brasil), 61, 220 ATA (Estados Unidos), 60, 220 BDÜ (Alemanha), 60, 220 ITI (Reino Unido), 60 SINTRA (Brasil), 61, 220 equipamentos, 127 equivalência, 114 escritório virtual, 123 infraestrutura, 124 espanhol, 55, 111, 162, 175 especialização, 96, 97, 98, 99, 100, 101 valorização financeira, 104 estágio, 55 estilo, 33, 50, 65, 78, 79, 99, 116, 118, 153 ética, 65 cliente mau pagador, 243 comprometimento com prazos, 65 comprometimento com texto e autor, 65 concorrência de preços, 237 de categorias diversas de tradutores, 43 em ambientes on-line, 83 na contratação de colegas, 66 prazos de pagamento, 242 respeito ao jargão, 66 respeito aos colegas e à profissão, 66 sigilo, 65, 150, 209 Facebook, 87, 196, 203 falsos amigos, 120 falsos cognatos, 120 fatura, 36 fax, 129 férias, 245 avisos de, 246 ferramentas, 47, 93, 125


Fidus interpres: a prática da tradução profissional

de busca, 146 de gestão de terminologia, 145 para navegadores, 146, 148 fidelidade, 14, 25 finanças planejamento, 229 Firefox, 146 flickr, 197, 203 formação, 42, 51, 57 fóruns de tradutores, 194 francês, 25, 55, 175 FTP (File Transfer Protocol), 148 fuzzy match, 134, 182 gerente de projeto, 178, 182, 183 globalização, 58, 70, 106, 237 glossário, 34, 97, 153, 163 bilíngue, 78, 163 monolíngue, 163 Google, 83 AdSense, 220 Books, 161 Desktop, 146 Gmail, 142 Images, 161 News, 161 Places, 198 Scholar, 161 Talk, 129 Translate, 136, 150 heterossemânticos, 120 HTML (Hyper Text Markup Languague), 210 IBAN (International Bank Account Number), 242 impostos, 36, 180, 185 impressora multifuncional, 129 indexadores programas, 146

indicações de colegas, 91 inglês, 19, 22, 27, 28, 52, 78, 103, 108, 114, 118, 145, 168, 172, 175 internet, 12, 19, 30, 58, 102, 110, 123, 128, 158, 163, 192, 197 banda larga, 129 interoperabilidade, 138 intérprete, 109 definição, 22, 23 ITI, 60 jargão, 34, 66, 80, 98 Junta Comercial, 109 KudoZ, 221 lauda, 74, 84, 232 leilão às avessas, 19, 80, 237 língua de apoio, 122 língua de chegada, 21, 22, 86, 168 língua de partida, 21, 22 língua materna, 28, 40, 102 língua passiva x língua ativa, 103 linguagem controlada, 156 LinkedIn, 30, 31, 130, 205 links, 193 localização, 76 LSP (Language Service Provider), 175 lucro, 181 marketing, 187 adesivo para laptop, 201 brindes, 201 cartão de visita, 200 efeitos colaterais, 226 eventos profissionais, 199 off-line, 198 on-line, 191, 197, 220 mecanismos de busca, 147, 162, 192, 197, 213 meme, 208

251


Índice remissivo

memoQ, 138, 145 memória de tradução, 130, 134 100% match, 134 fuzzy match, 134 repetições, 133 segmento, 86, 130, 131, 132, 133, 134, 144, 166, 171 unidade de tradução, 130 memória RAM, 128 mercado de tradução, 69, 98 mídias sociais, 196, 205, 207 mito da tradução fiel, 23 do bom glossário, 163 do termo consagrado, 164 mobilidade, 148 modulação, 119 Moneybookers, 243 MSN, 47, 82, 124, 129, 208 MySpace, 196, 203 NDA (non-disclosure agreement), 128 networking, 185, 199 nominalização, 118 normas EN 15038, 173 ISO 1087, 175 ISO 12616, 175 ISO 639-1, 175 ISO 639-2, 175 nota fiscal, 36, 75, 180 notas do tradutor, 121 notebook, 148 OCR (Optical Character Recognition), 140, 143 orçamento, 33, 66, 238 ordem de serviço, 66, 241 Orkut, 196, 203 padroeiro dos tradutores, 14 pagamento, 74

252

em conta bancária, 242 instruções, 240 on-line, 243 prazo, 36, 236 panelinha, 92 PayPal, 243 PDF, 139, 143, 233, 239 política de preços, 233 POP (Post Office Protocol), 142 prazos de entrega, 70 preço, 70, 235 métodos de cobrança, 231 política, 235 Prezi, 196 princípio do tradutor nativo, 27, 28, 83, 102 procrastinação, 87 produtividade, 85, 86, 148, 230 projeto de tradução, 32 ProZ.com, 195, 204, 220 vantagens, 226 qualidade, 23 controle de, 135, 170 definição, 165 normas, 173, 174 qualificação, 58 redes sociais, 18, 203 para profissionais, 205 para tradutores, 204 redução, 116 relação contratual, 65 revisão, 89 revisor, 63, 169, 238 RPA (Recibo de Pagamento a Autônomo), 75, 180, 241 RTF, 35 scanner, 128 SEO (Search Engine Optimization), 191, 211, 215 sigilo profissional, 65, 150


Fidus interpres: a prática da tradução profissional

SIMPLES, 180 SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores), 61, 85, 220 sites, 192 como criar, 210 domínio, 211 estrutura, 209 hospedagem, 212 manutenção, 213 rastreamento, 213 Skype, 47, 124, 129, 198, 208 SlideShare, 196, 205 socialização, 47, 60, 61, 91, 93 soft marketing, 191 supressão, 116 SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications), 242 synonym strings, 119 taxa de urgência, 233 técnicas de tradução, 113, 121 amplificação, 115 decalque, 117 empréstimo, 117 equivalência, 114 evitar cacofonia, 115 evitar repetições, 120 evitar sequências de sinônimos, 119 generalização x particularização, 117 modulação, 119 nominalização de verbos/adjetivos, 118 redução, 116 tradução explicativa, 115 tradução formal, 114 tradução literal, 113 tradução por aproximação, 117 tradução semântica, 114 tradução supressão, 116

transposição de advérbios, 119 verbalização/adjetivação de substantivos, 118 terceirização, 66, 82, 178 terminologia, 153 fontes confiáveis, 163 gestão, 134, 145, 157 importada, 155 mecanismos de busca, 147 própria, 155 técnicas de pesquisa, 158, 159, 160, 161, 162 uniformidade, 131, 170 termos consagrados, 164 termos técnicos, 45, 64, 77, 78, 79, 99, 153, 163, 164 teste de tradução, 88, 89, 90 Trados, 99, 137 tradução audiovisual, 75 automática, 134, 136, 149, 151, 156 consagrada, 66, 116, 164 definição, 21 e consciência cultural, 47 editorial, 43, 68, 72, 73 especializada, 80, 106 fidelidade, 23 financeira, 68, 231 formal, 114 futuro, 19 juramentada, 67, 107, 202 jurídica, 25, 48, 68, 101, 105, 106, 109, 119, 188 jurídico-comercial, 102, 105 literal, 113 literária, 17, 71, 72, 77 mercado, 69 para ONGs, 49 para órgãos públicos, 80, 81 por aproximação, 117

253


Índice remissivo

regulamentação, 59 semântica, 114 técnica, 25, 64, 68, 71, 77 técnicas de, 23 tradução-fim, 71 tradução-meio, 71 tradutor assalariado, 177 autônomo, 179 de belas-letras, 64 definição, 22, 23, 26 e cliente (relação contratual), 65 editorial, 68 financeiro, 68 freelancer, 46, 47, 84, 85, 123, 124, 125, 177, 178, 181 habilidades básicas, 45 importância, 19 jurídico, 64, 68 na mídia, 17 profissional, 12 regulamentação, 169 rendimentos, 83 técnico, 64, 68

254

Tradutor Público e Intérprete Comercial, 107, 108, 109 ad hoc, 111 concurso, 110, 111 requisitos, 107 tradutorês, 167, 168 TranslatorsCafe, 195, 204 transposição, 119 Tumblr, 203 Twitter, 31, 87, 130, 196, 197, 203, 207, 208, 209, 214 DM (direct message), 208 hashtag, 207 RT (retweet), 208 USB, 128 versão, 22 voluntariado, 29, 101 Web 2.0, 18, 193, 203, 214 webmail, 141 Wikipedia, 161 Word, 35, 131, 138, 144, 190 Wordfast, 99, 137, 145 WordPress, 215 Xing, 205 Xoom, 243 YouTube, 197, 203


FABIO M. SAID é tradutor profissional desde 1993 e reside na Alemanha. Trabalha com os pares de idiomas alemão/português e inglês/português, traduzindo sobretudo textos de direito e economia. Foi tradutor público e intérprete comercial “ad hoc” para o idioma alemão na Bahia. Várias traduções suas de livros de ciências humanas foram publicadas no Brasil, entre elas “Os pioneiros do pragmatismo americano”, “Salvador/Hamburgo: passado e presente da globalização” e “2012: o ano da profecia maia”. Além de traduzir em tempo integral, é editor do bem-sucedido blog de tradução fidusinterpres.com, que em pouco mais de três anos de atividade atingiu a marca de um milhão de visitantes únicos.

Contatos com o autor: livro@fidusinterpres.com


Esta é a segunda edição de um livro derivado de um blog de tradução com audiência de um milhão de visitantes em três anos. É voltada sobretudo para tradutores em formação ou em início de carreira, mas também para qualquer pessoa interessada nas práticas do mercado de tradução. Com linguagem direta e concentrando-se na tradução como atividade profissional e meio de subsistência, o livro não discorre sobre a “arte de traduzir”, nem contém anedotas sobre erros de tradução. É um verdadeiro manual prático do tradutor

profissional,

com

informações

e

dicas

sobre

especializações do tradutor, o princípio do tradutor nativo, o papel das associações profissionais, tradução juramentada, tradução literária, técnicas de tradução, ferramentas de tradução, gestão de terminologia, controle de qualidade, requisitos jurídicos e fiscais da atividade de tradutor, métodos de cobrança, estratégias de marketing, ética no mercado de tradução e outros temas relevantes.


Fidus interpres: a prática da tradução profissional - 2a. edição (PDF)