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eSaude Magazine dos Sistemas de Informação na Saúde Setembro 2012

eHEALTH WEEK 2012 CONFERÊNCIA E EXPOSIÇÃO decorreu em Copenhaga

A SUA REVISTA DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO NA SAÚDE O eSaude é um magazine eletrónico, de profissionais para profissionais, destinado a partilhar e promover o conhecimento e as boas práticas no domínio do eHealth.

A Ehealth Week 2012 decorreu este ano em Copenhaga, de 7 a 9 de Maio subordinada ao tema “'The continuity of care and patient centric health services through the use of innovative eHealth solutions”, tendo contado com a presença de mais de 3 mil profissionais. A eHealth Week associa dois eventos neste domínio: a “eHealth High Level Conference” e a WoHIT (World of Health IT Conference & Exhibition) organizada pela HIMSS Europa (Healthcare Information and Management System Society Europe). (pág. 3)

6 Questões a ... RAUL MASCARENHAS O presidente da SPMS acedeu a responder a 6 perguntas sobre a atualidade dos Sistemas de Informação na Saúde, livremente colocadas pelos editores. Esta é certamente uma boa forma de iniciar uma secção regular na eSaude, na qual personalidades de relevo nestes domínios serão convidados a responder a questões de interesse generalizado. (pág. 4)

Os profissionais de Saúde e as TIC: LUÍS MANUEL CUNHA RIBEIRO Para Luis Manuel Cunha Ribeiro, Presidente do Conselho Diretivo da ARSLVT, as TIC desde longa data foram estruturantes para os ambientes multidisciplinares em que esteve envolvido. Veja a entrevista neste primeiro número do magazine eSaude.

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Indíce Editorial Seis Questões a… Raul Mascarenhas eHealth High Level Conference and Exibithion 2012 Análise dos Requisitos Técnicos dos Cadernos de Encargos Profissionais de Saúde e as TIC: Luis Cunha Ribeiro Estudo OMSIS: A Visão dos Hospitais Públicos As TIC numa Transição para uma Economia de “Low-Carbon” Adotando o referencial ITIL no Centro Hospitalar do Alto Ave A Norma OpenEHR

Créditos

SINUS: Comunicação Utilizando Normas Aconteceu... A Informática na Saúde no Instituto Politécnico de Leiria Corner of the Speakers: Luís Vidigal

Wilson Oliveira (Produção, WebSite)

Tome Nota...

VOLUME: 1 NÚMERO 1 ISSN: 2182-7192 PUBLICAÇÃO: Eletrónica PERIODICIDADE: Trimestral DESIGN: FullScreen DISTRIBUIÇÃO: Gratuita

Web: www.esaude.pt Email: esaude@esaude.pt

Os textos publicado nesta revista podem ser copiados e distribuídos desde que o autor e a revista que os publica, eSaude – Magazine dos Sistemas de Informação na Saúde, sejam citados.


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Editorial

V

ivemos um momento e um movimento relevantes no domínio dos Sistemas de Informação na Saúde. Este sentimento surge instanciado nos muitos eventos em que como profissionais temos participado, nos fóruns que nas diversas manifestações da Web 2.0 estão disponíveis, nas iniciativas e nos projetos que decorrem, no âmbito local, regional, nacional e internacional.

O entusiamo que sentimos no lançamento do livro ‘Sistemas de Informação na Saúde’ reforçou a nossa convicção que seria oportuno e útil dar corpo a um novo projeto centrado nesta temática, que pudesse promover este entusiasmo e gerar sinergias, envolvendo de novo vários tipos de atores: profissionais de Sistemas de Informação, profissionais de Saúde, gestores, entidades e organizações, academia, fornecedores,... Com a equipa reforçada, iniciamos o lançamento de dois ‘artefactos’: 1. o www.esaude.pt, um sítio que se quer dinâmico e atual, que vá dando conta de eventos relevantes e que permita à comunidade uma troca de ideias e conhecimentos ágil e espontânea. 2. o eSaude, um magazine em formato digital, para o qual se pretende uma periodicidade trimestral, de distribuição gratuita, com conteúdos mais pensados e estruturados. Por razões operacionais - e porque era importante dar o “pontapé de saída” - este primeiro número do eSaude assenta ainda uma boa parte nos contributos da equipa. Mas esta será historicamente a exceção, já que este projeto foi criado para a comunidade e é a partir dos seus membros, da sua experiência e do seu conhecimento que se esperam os contributos e a criação de valor. Por tudo isto boa leitura mas também... boa escrita!

OS EDITORES

Domingos Pereira (CHVNG)

José Carlos Nascimento (U.Minho)

Ricardo Correia (FMUP)

Rui Gomes (HFF)


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O presidente da SPMS entrevistado sobre a atualidade dos SI na Saúde

SEIS QUESTÕES A… RAUL MASCARENHAS O presidente da SPMS acedeu a responder a 6 perguntas sobre a atualidade dos Sistemas de Informação na Saúde, livremente colocadas pelos editores. Esta é certamente uma boa forma de iniciar uma secção regular na eSaude, na qual personalidades de relevo nestes domínios serão sempre confrontados com igual número de Questões.

1. O que mudou com a passagem das TSI (Tecnologias e Sistemas de Informação) da ACSS para a SPMS? É necessário clarificar que não se tratou de uma (mera) passagem das TSI da ACSS para a SPMS, EPE. A SPMS, EPE passou a incluir na sua missão a prestação de serviços partilhados na área das TSI, passando a deter competências de autoridade neste campo, com serviços que pode ser determinada a obrigatoriedade para todas as entidades do SNS. Isto é muito mais do que as competências originárias da ACSS. E obviamente para desempenhar estas funções, que ficaram reforçadas com a determinação de que a SPMS, EPE é o representante sectorial do Ministério da Saúde no GPTIC., a SPMS, EPE herdou o património intelectual e material do SNS em matéria de TSI. Com a estrutura empresarial dotou-se assim o SNS de uma entidade com uma agilidade e capacidade de contratação condizente. 2. Quais são os principais objetivos definidos para a SMPS para este seu mandato? A principal preocupação da SPMS, EPE é instrumental: Fazer mais com menos. Para isso recorre aos mecanismos de racionalização de compras, a agregação e disponibilização generalizada ao menor custo e maior qualidade. É assim na aquisição de medicamentos e dispositivos médicos para consumo hospitalar ou nos cuidados primários, como é assim nas TSI. Neste campo específico são emblemáticos os projetos de: 

Plataforma de Dados de Saúde;

Prescrição Eletrónica e sua Desmaterialização no contexto DCI;

Melhoria dos registos centrais (Utentes, Prescritores, Locais de Prescrição);

Suporte generalizado 24*7 com progressiva coordenação de infraestruturas, melhoria da rede da saúde;

Atualização do património aplicacional existente num enfoque em suporte ao utente independente da estrutura corporativa e organizacional;

Enfoque em serviços do utente, nomeadamente o seu portal, eAgenda, marcação de consultas com call-centre de suporte, eVacinas, etc.

3. Como se distribuem as responsabilidades e competências entre a SPMS e a CIC (Comissão para a informatização clinica)? A SPMS é membro da CIC, participando empenhadamente no sentido de poder executar os desideratos mais exigentes numa partilha de objectivos que se sobrepõe a qualquer distribuição de responsabilidades. 4. No eHealth há vida para além do SNS… Como posiciona o papel da SPMS fora do SNS, tendo em conta a centralidade no cidadão e o papel dos serviços de saúde privados e de natureza social… Sendo o nosso enfoque no utente, o papel crucial do SNS é fornecer uma base universal e acessível, complementada pelo resto do sistema de saúde.


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5. O mercado global das TIC saúde é um mercado importante, atrativo para as empresas nacionais e ainda em estabilização. Que papel atribui à SPMS como potenciadora de produtos TIC desenvolvidos nacionalmente e que possam competir internacionalmente?

“A principal preocupação da SPMS é instrumental:

O melhor papel que a SPMS, EPE pode realizar situa-se a dois níveis:

“Indicar que vai continuar a apostar no património

Primeiro do ponto de vista estratégico ao indicar que vai continuar a apostar no património do SNS, indica claramente como a indústria se deve posicionar para complementar esta oferta.

Fazer mais com menos“ *** do SNS” *** “Definir um standard de serviços de excelência que poderão e deverão ser usados como credenciais globais.”

Em segundo lugar do ponto de vista operacional, ao manter elevados padrões de exigência e competitividade, não pactuando com complacência ou favoritismos, está a definir um standard de serviços de excelência que poderão e deverão ser usados como credenciais globais.

6. Como vê o papel do CIO ou diretor de informática nas ARS, nos ACES ou nos Centros Hospitalares e ULSs do SNS? Não vejo o papel como um título. Vejo que em cada entidade do SNS tem de existir quem no ecossistema mais próximo seja capaz de interpretar as necessidades locais com a compatibilização e racionalização global, e atuar nessa conjuntura. E esse papel é chave no sucesso futuro do SNS.

*** “Com a estrutura empresarial dotou-se assim o SNS de uma entidade com uma agilidade e capacidade de contratação condizente” *** “Não vejo o papel [do CIO] como um título”.


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A “eHealth Week 2012” decorreu em Copenhaga, de 7 a 9 de Maio

WoHIT e eHEALTH HIGH LEVEL CONFERENCES

Sessão de Abertura: Presidente da Estónia, os Comissários Europeus Neelie Kroes e John Dalli e a Ministra da Saúde da Dinamarca.

A Ehealth Week 2012 decorreu este ano em Copenhaga, de 7 a 9 de Maio, subordinada ao tema The continuity of care and patient centric health services through the use of innovative eHealth solutions, tendo contado com a presença de mais de 3 mil profissionais. A designação eHealth Week associa dois grandes eventos neste domínio, que ocorrem em paralelo: a eHealth High Level Conference coorganizada pela União Europeia e pela Dinamarca, (atualmente na Presidência Europeia) e a WoHIT (World of Health IT Conference & Exhibition) organizada pela HIMSS Europa (Healthcare Information and Management Systems Society Europe). A eHealth Week 2012 associa eventos complementares, aproximando a dimensão política da dos profissionais e das empresas. A eHealth High Level Conference teve este ano a sua 10ª edição, sendo anualmente o principal ponto de encontro das autoridades Europeias, dos representantes dos EstadosMembro e dos “stakeholders” Europeus no domínio do eHealth. A eHealth High Level Conference assume um relevante papel na sensibilização e mobilização dos países, das autoridades e das organizações europeias, afirmando-se com um momento de apresentação pública de novas iniciativas de âmbito Europeu e um palco preferencial para a mostra de resultados e/ou conclusões de projetos anteriores. Por seu turno, a WoHIT (World of Health IT) constitui o ponto de encontro dos profissionais relacionados com o eHealth, tanto na ótica dos profissionais que trabalham nas instituições de saúde, como na ótica das empresas que fornecem soluções ao sector. É, aliás, este encontro que dá significado à feira/mostra de soluções que decorre em paralelo com as conferências.

Acerca da edição deste ano aqui ficam, entre factos e perceções, alguns destaques, visando propor linhas de aprofundamento dos assuntos e temas abordados. eHealth High level Conference A conclusão principal que resulta da conferência é que há uma maturidade crescente das políticas Europeias, notando -se agora uma dinâmica sustentada, depois de muitos anos “a um marcar passo”. A perceção de que o eHealth surge hoje em patamares mais consolidados resulta de um maior envolvimento político da Comissão Europeia e dos países membros, dos esforços para a obtenção de consensos e da operacionalização de projetos de âmbito alargado. Esta maturidade percebida é um bom indício quando se inicia o novo eHealth Action Plan, para o período 2012-2020.


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Ao nível do compromisso político assistiu-se ao desenvolvimento da eHGI (eHealth Governance Initiative) - na qual Portugal está representado - e à apresentação do relatório da eHealth Task Force sob a designação Redesigning health in Europe for 2020, que culminou o trabalho da task force de alto nível criada na eHealth High Level Conference de 2011. Com cerca de 20 páginas, este é um relatório suja leitura se recomenda. Numa componente mais infraestrutural e de operacionalização, destaca-se a posição de referência que o projeto epSOS assumiu em todas as dimensões da conferência. Destaque que advém da larga escala do projeto-piloto, do número de países envolvidos em testes em ambiente real, da sua capacidade para validar conceitos e normas e, em larga medida, do facto de surgir como precursor de uma plataforma europeia de circulação de informação de saúde. Nesta linha, refira-se também o aumento da pressão resultante da diretiva 2011/24/EU, do Parlamento Europeu e do Conselho da Europa, relativa ao exercício dos direitos dos doentes em matéria de livre circulação e cuidados de saúde transfronteiriços. World of Health IT Ao nível da WoHIT foram percetíveis evoluções que mostram o amadurecimento do setor. Por um lado o teor das sessões ganhou em maturidade, sendo já passados os tempos de brainstorming e wishful thinking, que cederam o lugar a sessões concretas, focadas na avaliação de experiências de implementação, da adoção de normas e nos processos de certificação.

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Para além da maturidade da reflexão e das questões de normalização e a certificação, refira-se outras marcas fortes do evento, designadamente: O espaço e a importância atribuída às questões do envelhecimento da população, ao “Ambient Assisted Living” e ao papel das TIC no aproximar dos serviços de saúde às populações; Um peso relevante, associado ao ponto anterior, para as soluções e as abordagens centradas na mobilidade e na rentabilização dos dispositivos móveis; Um espaço de debate sobre a cooperação EU-US, traduzindo por um lado as fortes apostas feitas nesta área pela administração Obama (designadamente ao nível da normalização e certificação) e, por outro lado, a noção de que o alinhamento EU-US pode constituir a massa crítica necessária para a criação de referencias a nível mundial. Uma última referência para a feira e a para presença das empresas, que sugeria duas mensagens apenas aparentemente contraditórias: por um lado uma forte presença de empresas dos países nórdicos, ilustrativo da natureza regional de grande parte das empresas e soluções no domínio do eHealth; por outro lado, uma afirmação crescente de algumas presenças globais, ilustrando a movimentação para a globalização que também se assiste neste setor. A concluir fica a nota de que, desta vez, a participação dos profissionais de eHealth nacionais foi bastante reduzida… Esperemos que em Dublin soprem ventos mais favoráveis!

Exposição da WoHIT

Esta evolução explica o protagonismo referido para o epSOS mas outras referências podem ser feitas. Por exemplo, a evolução da discussão em torno dos níveis de certificação associados aos HIMSS European EMR Adoption Model (EMRAM), que cruzava transversalmente todo o evento, envolvendo naturalmente a HIMSS mas também os profissionais e as empresas.

José Carlos Nascimento Professor Auxiliar no Departamento de Sistemas de Informação da Universidade do Minho. Presente na eHealth High Level Conference como Membro do eHealth Stakeholders Group, em representação da União Europeia de Hospitalização Privada (UEHP)


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As melhores recomendações para a produção de Cadernos de Encargos

ANÁLISE DOS REQUISITOS TÉCNICOS DOS CADERNOS DE ENCARGOS DESTINADOS A SISTEMAS DE INFORMAÇÃO HOSPITALARES

Introdução Este trabalho centra-se na análise dos requisitos habitualmente presentes no anexo técnico dos cadernos de encargos destinados à escolha de um Sistema de Informação Hospitalar (SIH). Pretende-se saber se os requisitos expressos se centram mais na descrição das necessidades e características pretendidas ou avançam já na especificação do software da solução. Pretende-se ainda saber se os requisitos expressos já levam em linha de conta os requisitoscritérios das entidades certificadoras de SIH. Partindo da abordagem filosófica do realismo critico, estabeleceu-se uma metodologia de investigação para este trabalho, que incorporou técnicas de entrevista, análise de documentos e reflexão sobre a própria experiencia do autor no desenvolvimento de um caderno de encargos e respectivo anexo técnico para a selecção de um sistema de informação hospitalar. Os dados empíricos recolhidos são convergentes e permitem identificar alguns riscos que deverão ser minimizados ao nível do anexo técnico, do restante caderno de encargos e do processo concursal que lhe está inerente. Tipicamente os anexos técnicos centram-se na descrição das necessidades e características pretendidas para o SIH. O risco de se obter uma solução funcionalmente satisfatória, mas que implique uma organização de trabalho distinta do que o hospital pretende, é real e acontece. O nível de descrição dos vários componentes que compõem o âmbito funcional do caderno de encargos é habitualmente desequilibrado. Nem sempre os utilizadores chave do hospital são chamados a participar activamente no desenvolvimento do caderno de encargos e do seu anexo técnico. O que são requisitos? Explica (Wiegers, 1999) que um problema da indústria de software é a falta de definições comuns para os termos que são usados para descrever aspectos do trabalho que aí se faz. Isto deve-se na opinião do autor, no que respeita ao termo ‘requisitos’, ao facto de existirem múltiplos níveis nos requisitos de software, todos eles legítimos, e que representam cada um perspectivas diferentes e graus distintos de detalhe e precisão. Wiegers, cita exemplos de várias definições de requisitos, como a definição do IEEE (1997),

que define requisito como: • Uma condição ou capacidade necessária pelo utilizador para resolver um problema ou atingir um objectivo; • Uma condição ou capacidade que tem de ser satisfeita, ou possuída pelo sistema, ou componente, para satisfazer um contrato, uma norma, uma especificação ou outra qualquer formalidade imposta.

Existem tipicamente dois tipos de requisitos, os funcionais e os não-funcionais. Os funcionais descrevem: O processamento (i.e. as funções a serem suportadas) do novo sistema; • As entradas (inputs) que irão chegar ao novo sistema; • As saídas (outputs) que o novo sistema irá produzir; • Os dados que o novo sistema terá de gerir. 

Os não-funcionais descrevem: o modo (how well) como o sistema deverá suportar os requisitos funcionais, e daí que sejam também designados de requisitos de qualidade. Esta descrição pode incluir: • Critérios de desempenho • Requisitos de fiabilidade (Reliability) • Considerações de segurança • Requisitos de usabilidade • E outros.


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O modelo Zachman e a especificação de requisitos Dada a abrangência de um SIH no suporte à actividade de um hospital, o ‘framework’ de Zachman surge naturalmente como algo a contextualizar ainda que de modo breve nesta revisão bibliográfica.

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conclui que, no que respeita à fase de análise, introduz duas perspectivas distintas, uma que descreve a situação em termos da linguagem do negócio (Model of Business), enquanto a segunda embora não falando ainda de tecnologia, descreve a situação já na linguagem dos sistemas de informação (Model of Information System). .

Framework de Zachman

David Hay, na comparação que efectuou da matriz de Zachman com o tradicional ciclo de vida do desenvolvimento dos sistemas de informação (SDLC), que compreende as seguintes etapas: 

Estratégia – Planeamento global do desenvolvimento dos sistemas de informação de que a empresa necessita;

Análise – A documentação dos requisitos de uma determinada área de negócio

Desenho – A especificação do mapeamento dos requisitos da análise, nas tecnologias concretas a utilizar

Construção – a construção dos vários objectos que vão dar corpo à solução

Documentação – a preparação dos manuais de utilizador e de referência para descrever o sistema aos vários actores

Transição – a implementação do sistema, como mais um elemento articulado da estrutura tecnológica da empresa em termos das TIC.

Produção – O acompanhamento do sistema no dia a dia de modo a avaliar se continua a satisfazer as necessidades dos vários actores.

No entanto a matriz de Zachman não se limita à especificação dos dados e funções na descrição do sistema a desenvolver. Incorpora também a necessidade de descrever os aspectos relacionados com o local onde as operações acontecem, as pessoas que as executam, os momentos em que devem acontecer e o que as justifica (motiva) na óptica da empresa. As entidades certificadoras A preocupação com a qualidade e abrangência das aplicações informáticas que suportam os registos de saúde dos cidadãos, levaram à emergência de entidades certificadoras de aplicações ditas EHR. Pretendem estas entidades estabelecer um conjunto de requisitos mínimos que devem ser observados pelos aplicativos em certificação no âmbito específico a que se destinam. Duas das entidades certificadoras mais conhecidas são a CCHIT (CCHIT, 2011) dos EUA, e a EuroRec (EuroRec, 2011) da EU. Do lado dos organismos de saúde compreende-se facilmente que gostariam que as suas escolhas possuíssem o selo de entidades certificadoras internacionais para as áreas clínicas que não necessitem tanto de ‘localização’, o que a somar aos seus próprios requisitos, os tranquilizaria mais na sua escolha de modo a evitar falhas graves na solução escolhida e que só mais tarde no processo de implementação seriam detectadas.


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Recomendações e conclusões

Referências

Do conhecimento adquirido é possível extrair um conjunto de recomendações que podem ser consideradas úteis na produção de anexos técnicos de um caderno de encargo com vista à escolha e implementação de um Sistema de Informação Hospitalar.

 Pereira. D. 2011. Analise dos requisitos técnicos dos cadernos de en-

A lista de recomendações proposta pode ajudar a equipa responsável pelo desenvolvimento do caderno de encargos destinado à selecção de um sistema de informação hospitalar, quer na construção do seu anexo técnico quer no processo de seriação e escolha do parceiro adequado para a sua implementação. E importante no entanto ter presente que no domínio da gestão os mesmos estímulos nem sempre produzem os mesmos eventos, a reprodutividade não está assegurada, porque as estruturas que constituem a realidade do domínio e o modo como respondem aos estímulos, dificilmente emergem com plena clareza e compreensão. Este é o domínio da perspectiva filosófica do realismo crítico.

cargos destinados a sistemas de informação hospitalares. Tese Mestrado em Informática Medica (MIM). Disponível em: http:// www.slideshare.net/DomingosPereira1/o-texto-da-tese20111010vfad?from=share_email

 CCHIT – Certification Comission for Healthcare Information Technolo-

gy. www.cchit.org

 David Hay. 2003. Requirements Analysis: From Business Views to

Architecture.(Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice Hall PTK).  David Hay. (2011). THE ZACHMAN FRAMEWORK: AN INTRODUCTION  EuroRec – EuroRec Institute. www.eurorec.org  Wiegers, K. (1999). Software Requirements: Microsoft Press.  Zachman, J. (1987). A Framework for Information Systems Architectu-

re. IBM Systems Journal 26(3).

Domingos Pereira Director do Serviço de Sistemas de Informação do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia (CHVNG) «Resumo de dissertação de tese de mestrado»


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Recomendações consideradas úteis na produção de anexos técnicos de um caderno de encargos com vista à escolha e implementação de um Sistema de Informação Hospitalar 1. Construir sobre o que já existe  Aproveitar o trabalho já realizado noutros hospitais e no do próprio, ainda que para tal se tenha de contratar serviços de consultoria com provas dadas. Fazer chegar à equipa de projeto os requisitos-critérios relevantes das entidades certificadoras de soluções SIH, como a CCHIT e a EuroRec de modo a analisar a sua adequação às necessidades do hospital, e gerar novas oportunidades de melhoria na solução a implementar;  Efectuar um levantamento dos principais processos, tal como eles existem e identificar claramente quais podem ser alvo de reengenharia e os seus limites. 2. Gerir o projecto  Gerir o processo com o rigor e exigência de um projeto crítico;  Identificar um gestor do projeto que deve ser um consultor sénior com experiência neste domínio. 3. Equipa do projecto  Assegurar que na equipa de projeto estão presentes os utilizadores chave, das várias áreas, competências e domínios que o âmbito do caderno determinar;  É importante que o anexo reflita a experiência e visão dos agentes mais empenhados e liderantes do hospital;  Produzir uma imagem síntese (um diagrama/esquema) com todos os componentes/processos para os quais se vão estabelecer requisitos para focar a equipa. 4. Cronograma do projecto  Produzir um cronograma de projeto que permita várias versões do documento a produzir pela equipa;  Garantir um intervalo de tempo para amadurecer os requisitos documentados. 5. Formação da equipa de projecto: framework de Zachman  Promover uma sessão de formação à equipa do projeto para apresentar o ‘framework’ de Zachman e explicar o que se pretende com cada célula associada à linha do ‘owner’;  Sensibilizar a equipa para a importância de integrar na documentação dos requisitos, aspectos ligados à sequência das operações (workflow e information flow), bem como as classes de dados mais utilizadas nas funcionalidades que vão descrever e detalhar. Procure que por esta via, o risco de obter uma solução funcionalmente satisfatória, mas que altera substancialmente o modo como o hospital pretende trabalhar venha a acontecer em domínios sensíveis. 6. Utilizar linguagem não técnica  Aceitar o facto do anexo técnico se centrar sobretudo na descrição das necessidades e características da solução pretendida e ser produzido em linguagem corrente, porque é nessa que os utilizadores melhor se expressam. 7. Visitar organizações que tenham adoptado soluções dos candidatos  Criar condições para conhecer as soluções propostas que vão além da leitura da informação disponibilizada pelos fornecedores;  Formalizar no caderno de encargos a obrigatoriedade dos fornecedores assegurarem visitas e demonstrações da solução que propõem, de modo a que a equipa de projeto possa perceber/sentir a usabilidade da solução e o seu desempenho. 8. Grau de conformidade com os requisitos  Estruturar o anexo técnico de modo a exigir aos fornecedores que, para cada requisito identificado e indexado, digam qual é o grau de conformidade da solução proposta, à data;  Exemplo de escala para cada requisito: respeita o requisito; respeita parcialmente; em desenvolvimento; a desenvolver; não respeita o requisito. 9. Fase de avaliação prévia dos candidatos  Considerar impor uma fase de avaliação prévia no concurso, se for obrigado a abrir um concurso internacional;  Estabelecer critérios de avaliação dos candidatos, que evitem analisar propostas, que não dão garantia de continuidade num projecto desta natureza 10. Negociar os limites financeiros disponíveis para o concurso e para a negociação pós-concurso  Negociar com o Conselho de Administração as regras do jogo no processo de seleção, quer em termos dos critérios económicos que vão servir à avaliação das propostas, quer em termos da negociação posterior que habitualmente se segue à primeira seriação  Tente limitar a segunda e ultima ronda de negociação às três melhores propostas, de modo a evitar os volte-face das propostas pior avaliadas economicamente na primeira ronda.


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Profissionais de Saúde e as TIC: Entrevista a Luis Cunha Ribeiro

AS TIC: DESDE LONGA DATA E EM AMBIENTES MULTIDISCIPLINARES O atual presidente da ARS Lisboa e Vale do Tejo, Luis Cunha Ribeiro, foi a personalidade escolhida para inaugurar a secção de entrevista na revista eSaude, que se pretende um espaço regular de apresentação das diversificadas relações que os Profissionais de Saúde têm com as tecnologias de informação e do trabalho que neste domínio têm vindo a desenvolver.

Para quem não sabe bem ao que vai, conversar com o Dr. Luís Manuel Cunha Ribeiro (LMCR) é um misto de espanto, de aprendizagem e de agrado. De espanto, porque expressões como Kernel, Pascal, C, lógica fuzzy, Unix, algoritmos, BI, agentes inteligentes, cluster, bases de dados, SAP, simulação, RDIS ou modelos matemáticos surgem com a mesma naturalidade com que surgiriam numa reunião de profissionais de SI, se daqueles já com experiência assinalável. De aprendizagem, porque os projetos e as ideias não apenas se sucedem em catadupa mas sobretudo porque verificamos a consistência estrutural e o carácter inovador que lhes estiveram/estão associados. E de agrado, porque LMCR não só é um exímio contador de histórias como é mestre em ilustrar o seu pensamento com exemplos da vida, do professor Joaquim Maia a Steve Jobs, passando por Rudolph Giuliani. Tudo isto sem perdermos de vista que - como faz questão de sublinhar - “as tecnologias são o meu hobby. A minha profissão é a de médico, que sempre exerci a 100% ” e que nos últimos anos tem assumido diversos cargos de gestão de topo. Vamos então à impossível missão de tentar resumir o nosso encontro… In illo tempore… Como muitas pessoas da sua geração, o contacto de LMCR com as TIC ocorre com um computador ZX Spectrum. Não como uma mera consola mas utilizado para programar: primeiro em Basic e depois, quando este se mostrou insuficiente, em Pascal”. E embora tenha sido monitor em Medicina desde muito novo, foi curiosamente a vender um programa de bioestatística, desenvolvido em Pascal e com uma forte componente de cálculo, que obteve o seu primeiro rendimento profissional. Mas foi com os INESCs – Porto e Aveiro – que as coisas começaram verdadeiramente a sério, em meados dos anos 80. Numa época em que nele colaboravam figuras que vieram a ocupar um espaço importante na área das TIC (Pedro Guedes de Oliveira, António Salcedo, Borges Gouveia, Mário

Jorge Leitão) LMCR desenvolveu lá os seus primeiros projetos na área da saúde. Sem verbas, com alunos de mestrado, com muita boa vontade – em parceria com a Unysis que “emprestou” o hardware - começaram a desenvolver o primeiro software para informatizar um serviço hospitalar numa lógica “paper free”. Neste caso, o Serviço de Sangue do Hospital de S. João e uma aplicação designada por SIBAS (Sistema de Informação do Serviço de Sangue), que deu origem a um “spin-off” do INESC e à criação de uma empresa que continua presente na área da saúde: a Medidata. Mas foi com a passagem pelo King’s College em Londres e depois por Oslo (1990-92) que se lhe abriram outras perspetivas e que se dotou de outra visão. Ao regressar a Portugal, foi convidado pelo INESC para responsável clínico de um projeto que se tornou emblemático no final do seculo XX - o Hospital 2000 - e que ainda hoje tem “herdeiros” espalhados em múltiplas frentes, seja nas aplicações, seja no conhecimento gerado nos profissionais que ajudou a formar. Foi uma primeira tentativa de criar um PCE (Processo Clínico Eletrónico) em ambiente hospitalar, em colaboração com João Neto e João Ranito, que mais tarde estiveram na fundação daNovabase Saúde. Foi este um período de projetos de maior escala, designadamente na sua ligação ao projeto da rede telemática da saúde para o Ministério da Defesa, que integrava os hospitais militares, as unidades deslocadas em missões no estrangeiro e as unidades navais. Este foi ainda o tempo da investida, numa perspetiva clínica, dos modelos de apoio à decisão. Um período de aposta nos modelos neuronais, nos algoritmos genéticos e nas redes fuzzy, com bastantes publicações neste domínio e muitas apresentações por esse mundo fora.


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Durante a entrevista na ARS-LVT

Na gestão, as TIC ao serviço da saúde Tendo assumido funções na administração do Hospital São João, em 2000, estimulou um conjunto de novos projetos, enquadrados por uma ótica de integração de informação, com recurso às tecnologias que por essa altura despontavam: intranet, WEB, BD distribuídas, PACS, e laboratórios. Respeitando a heterogeneidade dos sistemas existente, “queríamos ter um primeiro integrador, sem alterar os ambientes locais de cada um dos serviços mas definindo uma semântica comum, que seria respeitada pelas aplicações já existentes, criando globalmente no sistema uma “shell” integradora, que, de forma padronizada, possibilitasse a distribuição da informação”. Projetos que contaram, uma vez mais, com uma forte preocupação clínica, tendo sido alguns desenvolvidos em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Porto (FMUP). É pelas experiências realizadas neste período que desenvolve a dolorosa convicção de que em Portugal se faz muita coisa de bom mas também que se está sempre a repetir as experiências e a reinventar a roda, sem que se criem oportunidades de produzir resultados em larga escala. “Há coisas que surgem, que se implementam, que têm verbas, que há pilotos, que já se tinham falado há 10 anos e com as quais se conseguem fazer fogos-fátuos. Mas depois não temos adquirimos consistência para dar o “salto” No INEM Chegado ao INEM (2003-2008) as TIC tiveram de novo um papel fundamental, tanto do ponto de vista da gestão mais tradicional, ao nível dos ERPs, como do ponto de vista da inovação do serviço, como é o exemplo do desenvolvimento do Call Center específico para o tipo de missão do INEM, o que implicava uma integração com bases de dados georreferenciadas e com tecnologias de localização e seguimento dos meios. Mas, destaca LMCR, porque “as ambulâncias são para salvar pessoas, eu tenho de estar, em cada momento, onde estão as pessoas…” Num projeto – que acabou por não concluir mas pelo qual se nota um particular apreço – procurou a conceção de modelos e aplicações que permitissem que os meios de emergência se posicionassem no terreno não como era tradicional - de forma estática, na cobertura

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do território - mas dinamicamente, em função da mobilidade das populações, ao longo dos dias e do dia. Um projeto que juntasse o conhecimento estatístico acumulado ao longo do tempo (a demografia, as migrações das populações ao longo do dia, os fluxos de trafego e as velocidades, as zonas de acidentes, etc…), com a informação “em direto” proporcionada pelas novas tecnologias (de que o melhor exemplo seria o acompanhamento dinâmico das “nuvens” de telemóveis, numa necessária parceria com os operadores móveis). Uma vez mais, na abordagem holística que o caracteriza, juntando a ciência, o conhecimento sobre a dinâmica de partículas, a teoria de grafos, os dados históricos e estatísticos com os benefícios da tecnologia e da informação online para um objetivo simultaneamente simples e poderoso: conseguir que cada meio de emergência esteja, em cada momento, perto do local onde o acidente é mais provável. “Limitei-me a aprender com o trabalho e as ideias que o mayor Rudy Giuliani tinha usado no combate ao crime em Nova Iorque: pôr os meios junto das necessidades das populações.”

Tendo chegado à ARS Lisboa e Vale do Tejo há menos de um ano, tem pela frente apostas que define como mais pragmáticas e de procura de eficiência. As que o ocupam hoje prendem-se com otimização dos sistemas instalados – designadamente gestão de utentes - visando uma melhor utilização dos recursos. Por exemplo, melhorando a qualidade dos dados nos Cuidados de Saúde Primários e conseguindo, por essa via, que os recursos humanos existentes possam prestar melhores serviços a mais utentes. Sobre os SI na saúde e o papel dos seus profissionais o grande desafio atual é para LMCR “passarmos da informação ao conhecimento!”. “Precisamos de desenvolver sistemas que permitam transformar a enorme quantidade de informação que está disponível em conhecimento útil para tratar as pessoas. Para chegar mais depressa, para melhorar a acessibilidade, para sermos mais eficazes, para aumentar a qualidade dos sistemas…”. Para LMCR um aspeto importante desta evolução na saúde rumo ao conhecimento é a integração da informação. “O médico quer ter conhecimento ao seu dispor e não propriamente a tecnologia. Quer sistemas expeditos, simples e eficazes que lhe forneçam a informação de uma forma integrada e natural.” Na sua opinião “este não é um problema que possa ser resolvido nem pelos informáticos nem pelos médicos. A única solução para adotar este caminho é criar equipas multidisciplinares, que falem a mesma linguagem.


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Quando as pessoas se entendem na linguagem, entendemse na solução. É um problema de linguagem… Ver como é que os profissionais de saúde trabalham e colocar as tecnologias a mimetizar o seu comportamento. Na avaliação, no diagnóstico, no apoio à decisão…“.

Novas ferramentas - como o processo clinico eletrónico ou um sistema de apoio à decisão - mas mesmo assim ferramentas, de natureza instrumental e nunca um fim em si mesmo, como muitas vezes são olhadas. Ferramentas que utiliza há muitos anos, para suportar os algoritmos, os modelos e a matemática: “essa sim, a verdadeira ciência!”

O apreço pela multidisciplinaridade é algo que lhe veio com a experiência internacional. “As pessoas têm de estar juntas - profissionais de TI e de saúde - a trabalhar lado a lado. A multidisciplinaridade cria um ambiente, um território, onde as ideias e a inovação fermentam. Consegue-se isso juntando pessoas com disponibilidade, com espírito crítico, sem linguagens herméticas. A inovação surge quando estas pessoas com formações diferentes, culturas diferentes e “know-how” diferentes conseguem encontrar uma linguagem comum…”

A conversa poderia continuar durante horas mas a realidade chamava-nos a todos. Demos conta que no final a conversa estava a debruçar-se para o futuro da imagem clínica, da aplicação das teorias dos fractais ao tratamento da imagem e do seu uso na anatomia patológica… De como os modelos matemáticos dos fractais podem ser usados no armazenamento, comparação e tratamento da imagem dos tumores. “Se é a assim que a NASA armazena as imagens do universo, porque não pensar nisso para o estudo dos tumores? Uma vez mais, se conseguirmos criar equipas multidisciplinares…”

Até porque para LMCR a informática não é um fim em si mesmo…. “É mais uma ferramenta, como o estetoscópio, o TAC ou a ressonância magnética.

*Depoimento recolhido por José Carlos Nascimento e Rui Gomes”


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Oportunidades de Melhoria nos Sistemas de Informação na Saúde

OMSIS - A VISÃO DOS HOSPITAIS PÚBLICOS O estudo “OMSIS – Oportunidades de Melhoria nos Sistemas de Informação na Saúde: A Visão dos Hospitais Públicos”, é o resultado de um projeto de colaboração da Academia com as Autoridades de Saúde. Com este estudo pretendeu-se não apenas obter uma visão sustentada e de âmbito nacional das preocupações que os diversos responsáveis hospitalares tem com o uso das tecnologias e sistemas de informação mas também proporcionar contributos para uma melhor rentabilização de todo o potencial dessas tecnologias.

No passado dia 19 de junho, no ISCTE, foi efetuada a apresentação pública do estudo “OMSIS – Oportunidades de Melhoria nos Sistemas de Informação na Saúde: A Visão dos Hospitais Públicos”, que que têm como resultado a identificação de um conjunto de oportunidades de melhoria no uso dos SI/TIC nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Este projeto foi desenvolvido no âmbito do protocolo de colaboração no domínio da investigação em sistemas de informação em saúde, celebrado pela ACSS - e posteriormente desenvolvido pela SMPS, EPE - e pelo ISCTEInstituto Universitário de Lisboa, tendo contado com a colaboração da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FM-UP) e do Departamento de Sistemas de Informação da Universidade do Minho (DSI-UM). Os sistemas e tecnologias de informação e comunicação (SI/TIC) são amplamente reconhecidos e aceites como um instrumento facilitador da gestão das organizações modernas. No entanto, nem sempre os investimentos significativos que são feitos em SI/TIC se traduzem em ganhos de eficiência e eficácia, pelo que importa analisar os fatores que limitam esse desempenho e identificar oportunidades para potenciar o uso que se faz dos SI/TIC. Este projeto procurou compreender o pensar e o sentir dos diversos responsáveis hospitalares que participaram no estudo: administradores hospitalares com o pelouro dos SI/TIC, diretores clínicos, enfermeiros diretores e directores de informática desses hospitais. O projeto, que decorreu entre Novembro de 2010 e Junho de 2012, desenvolveu-se em 5 fases:

Na fase inicial do estudo procedeu-se a um levantamento e a uma análise sistemática de trabalhos de investigação, de natureza académica e empresarial, envolvendo a temática dos SI/TIC na saúde, com particular incidência no contexto hospitalar português. O trabalho de campo iniciou-se com um conjunto de entrevistas realizadas em 7 hospitais (Hospital de São João, Centro Hospitalar Trás-os-Montes e Alto Douro, Unidade Local de Saúde da Guarda , Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, Hospital Fernando da Fonseca, Centro Hospitalar de Setúbal e Hospital Distrital de Faro) que foram considerados representativos do universo nacional pela sua tipologia diversificada: regiões norte, centro e sul, litoral e interior; hospitais universitários, centrais e distritais: As entrevistas presenciais, realizadas aos responsáveis hospitalares, permitiram que estes manifestassem as suas preocupações, identificassem limitações ao desempenho e indicassem oportunidades para melhorar o uso dos SI/TIC nos seguintes domínios: 1. Restrições financeiras 2. Dificuldades técnicas 3. Limitações temporais 4. Atitudes dos diversos profissionais em relação aos SI/TIC. 5. Relações sociais e profissionais, designadamente entre profissionais de SI/TIC e profissionais de saúde. 6. Questões éticas, legais e de segurança 7. Dificuldades de âmbito organizacional 8. Processo de mudança

2. Entrevistas

Em resultado das entrevistas foi identificado um conjunto de 32 preocupações chave (“issues”) que foram agrupadas da seguinte forma:

3. Inquérito

I. Aspetos Técnicos/Administrativos

4. Sessão de trabalho (workshop)

II. Aspetos Clínicos

5. Divulgação e debate público

III. Aspetos de Integração/Regulação

1. Estado da arte

IV. Aspetos Profissionais


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A mesa do debate da esquerda para a direita: Henrique O’Neill, Raul Mascarenhas, Helena Monteiro (moderadora), Luís Cunha Ribeiro e José Carlos Nascimento

Estas preocupações foram objeto de uma análise mais aprofundada através de inquéritos realizados na fase seguinte do estudo. O inquérito, que envolveu os responsáveis de 48 organizações Hospitalares, foi realizado através de uma plataforma eletrónica. Utilizou-se o método Delphi para a administração de inquéritos, um processo iterativo onde se recorreu a duas rondas para gerar uma lista de itens ordenados pela sua importância. Tendo em conta a diversidade das realidades, mais do que a procura de elevados níveis de consenso, procurou-se sobretudo identificar e efetuar uma ordenação (ranking) das preocupações, considerando particularmente a eficiência do processo num contexto em que os participantes se encontram demasiado sobrecarregados pelo trabalho do seu dia-a-dia. Concluída a primeira ronda e após a análise de dados, confirmou-se aquela que já era uma intenção a priori para uma segunda ronda: inquirir novamente os participantes, separando-os em dois grupos, os que utilizam e os que gerem as tecnologias e sistemas de informação. Por um lado, tal justificava-se pela natureza da própria questão que preside ao estudo, permitindo evidenciar uma complementaridade de perspetivas entre os profissionais de saúde (procura) e os profissionais associados à informática (oferta). Por outro lado, a análise dos resultados da primeira ronda evidenciava já prioridades distintas para estes dois grupos, o que seria compreensível.

A análise das respostas ao inquérito coloca em evidência um conjunto de domínios que requerem atenção, ainda que com níveis de preocupação diferenciados. No topo das prioridades surgem os seguintes temas: • Reforçar a integração da informação de saúde centrada no utente; • Dispor de um registo de saúde centrado no cidadão, nos contextos hospitalar e nacional; • Clarificar os papéis da ACSS, SPMS, dos Hospitais e dos operadores de mercado em relação aos SI/TIC; • Criar condições para a realização de “benchmarking” entre unidades de saúde; • Melhorar desempenho da infraestrutura ao nível da RIS (rede informação na saúde) e da gestão dos recursos computacionais; • Envolver os profissionais de saúde na conceção de soluções; • Melhorar a prestação dos serviços de SI/TIC prestados pela ACSS/SPMS; • Sensibilizar os diversos profissionais e implementar soluções que reforcem a confidencialidade e a segurança de informação de saúde.

Na segunda ronda foi pedido aos participantes que apresentassem propostas de melhoria para enfrentar os problemas que considerassem mais importantes. Concluída a segunda ronda, foi elaborada a lista ordenada final para cada um dos grupos. Tendo-se verificado que o nível de participação no estudo foi elevado, entendeu-se que estavam reunidas as condições necessárias para se avançar para a análise dos dados e consequente produção e discussão de resultados. Apresentação no Auditório ISCTE


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Com o objetivo de dar a conhecer os resultados do inquérito realizou-se uma sessão de trabalho (workshop) onde participaram responsáveis da SPMS bem como profissionais de saúde com experiência na especificação e implementação de SI/TIC. Foi assim possível complementar o conjunto de propostas de melhoria apresentadas pelos participantes do estudo com propostas colocadas pelos membros do painel. O relatório com as conclusões do estudo que foi submetido à SPMS inclui pois um conjunto de recomendações dirigidas aos profissionais de saúde e que poderão ser sistematizadas num plano que oriente as ações a desenvolver pelos diversos participantes, pertencentes à SPMS e à comunidade hospitalar, que se encontram representados no estudo.

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Para além da publicação de artigos em conferências e revistas científicas da especialidade, nacionais e estrangeiras, este relatório, que será tornado público, será certamente objeto de um processo alargado de divulgação e debate público, a nível académico e envolvendo a comunidade dos profissionais de saúde. Deste debate e da participação de todos espera-se que se desenvolva um ciclo virtuoso de discussão e melhoria dos Sistemas de Informação na Saúde.

* Autores do estudo: Henrique O’Neill e Pedro Oliveira (ISCTE-IUL), Ricardo João Cruz Correia e Alexandre Santos (FM–UP), José Carlos Nascimento e Rui Dinis Sousa (DSI-UMinho)

Henrique O’Neill Professor Associado do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa Investigador e consultor de projetos no domínio dos Sistemas de Informação Coordenador do Estudo OMSIS

Imagem do debate no ISCTE


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E-sustentabilidade debatida em Bruxelas (European Internet Foundation)

A UTILIZAÇÃO DAS TIC NUMA TRANSIÇÃO PARA UMA ECONOMIA DE “LOW-CARBON” Introdução O resultado de pesquisas realizadas por empresas especialistas em consultoria como a Gartner indicia que a indústria das tecnologias da informação é responsável, a nível mundial, por cerca de 2% das emissões de carbono que entram na atmosfera. No dia 28 de Março de 2012 numa iniciativa de e-sustentabilidade pela GeSI (Global e-Sustainability Initiative), presidida pela Directora Executiva Alice Valvodova, a EIF (European Internet Foundation) debateu em Bruxelas um conjunto de temas no qual são apresentadas evidências de que a própria introdução das TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação) podem ajudar a uma transição para redução explícita do aumento do carbono em vez de o aumentar. Uma das grandes oportunidades em destaque é a possibilidade da adopção da “Computação em Nuvem”. Este conceito tecnológico tem mudado a forma como o mundo retira partido das tecnologias de informação seja na União Europeia como nos países evoluídos. Neste evento especial da EIF, no qual participaram alguns membros do parlamento europeu, foram realizados alguns workshops que abordam simultaneamente os três vectores políticos associados ao ecossistema “Nuvem”. A Interoperabilidade & Portabilidade de Dados; a Segurança e a Privacidade dos Dados; o Sector Público e a Computação em Nuvem.

A EIF ofereceu um painel de convidados que tiveram a oportunidade de partilhar os seus pontos de vista e as experiências, seguido de uma mesa redonda no qual Neelie Kroes, Vice-Presidente da Comissão Europeia, teve oportunidade de fazer registos finais e recomendações. Só com essa convergência, e com base em novos serviços e soluções, será permitido alterar a forma de operação das actividades de negócio, reestruturando as cadeias de valor e mudar os comportamentos da sociedade em geral. Uma economia de energia para as organizações de todos os sectores de mercado é vital. Deve minimizar-se ao máximo o desperdício dos recursos naturais e reduzir as emissões de carbono. Resume-se um consenso em que a "A indústria das TIC precisa trabalhar em conjunto com todas as outras indústrias para identificar e viabilizar eficiências energéticas, para que juntos, possam cumprir as metas de 2020". Uma Liderança e uma Responsabilidade Dentro deste contexto uma das questões mais levantadas é procurar saber se os CIO que lideram processos de introdução de tecnologias estão focados e responsabilizados a darem nesta matéria a contribuição que deveriam. Um estudo elaborado pela Premier IT Leaders 2011, Sérgio Abranches, sociólogo e Doutorado em Ciências Políticas pela Universidade Cornell, Nova York, procurou fazer um survey de forma generalizada a 380 CIOs, sobre as iniciativas que tinham em curso orientadas ao Green IT e Sustentabilidade. A análise do estudo revelou que mais do que 50% já tiveram uma participação direta no apoio às políticas de contenção energética e na gestão sustentável das respectivas empresas. No entanto apenas 9% têm metas definidas de eficiência em práticas sustentáveis, com programas de redução de energia, abate, reutilização e reciclagem de recursos legados de hardware. Em síntese, e embora pouco eloquente, percebe-se que o tema está na agenda do dia de uma grande parte destes profissionais existindo já projectos de grande dimensão com resultados pontuais e pequenas acções de apoio a este “modelo de negócio” com resultados consistentes e expressivos.


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As iniciativas TIC a desenvolver Entre as iniciativas no sector das TIC deve estimular-se principalmente uma cultura. Uma educação e uma sensibilização focada em estímulos de poupança dos recursos disponíveis são os primeiros passos para aliviar um caminho de poupança. A introdução de meios tecnológicos para mitigar os desperdícios deve ser uma consequência e devem partir de uma estratégia consolidada. Sejam alguns exemplos de iniciativas: 

Induzir uma cultura no qual os próprios colaboradores sejam encorajados a dar ideias e a serem criativos para os processos com ações que permitam reduzir as emissões de carbono;

A utilização do uso da videoconferência entre os colaboradores e clientes sempre que a interacção exigida não necessite de efeitos presenciais;

A promoção e redução energética associada aos Centros de Dados, de uma forma generalizada, com programas de IT rationalise;

Com a virtualização, a redução das emissões de carbono são notórias. Esta tecnologia estimula a economia energética, a consolidação de recursos bem como a introdução de flexibilidade adicional, escalabilidade, e resiliência nas infra-estruturas;

Procurar a substituição de computadores pessoais por thin clients com características que permitam beneficiar em escala de uma redução dos consumos energéticos e de ruído;

Evitar a aquisição de infra-estruturas, ser pragmático e actuar com o procurement para procurar retirar partido da Computação em Nuvem;

Avançar com iniciativas de valor acrescentado como o descartar apropriado de hardware obsoleto por empresas de reciclagem devidamente credenciadas;

Procurar iniciativas e redução e controlo do printing com iniciativas de impressão centralizada, por exemplo com projectos que podem ser promovidos internamente do tipo “impressão frente e verso”.

Metodologia de avaliação de prática e grau de compromisso da Organização Dentro de qualquer organismo e de uma forma transversal é possível aferir qual o nível de compromisso existente e o estado de maturidade das pessoas e dos processos para as questões relacionadas com a contenção energética e reaproveitamento de recursos numa lógica dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar).

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Para medição do grau de comprometimento da organização ao tema e como já referido deve ser avaliada a capacidade de liderança do CIO ou de um gestor de projectos que seja responsável pelos temas de Green IT. É a partir desse contexto que devem ser apuradas com esse profissional quais são as práticas induzidas para a dinâmica da contenção de recursos, tais como: 

Políticas de reciclagem de equipamentos;

Reutilização de equipamentos;

Teletrabalho;

Certificação de fornecedores;

Políticas de racionalização Equipamentos/Centros Dados;

Organização do ambiente de trabalho em geral.

Com estas métricas é possível validar até que ponto foram instituídas ferramentas para a monitorização e avaliação de medidas adoptadas, tal como poder avaliar se a empresa tem metas de emissão de gases de efeito de estufa mensuráveis e se são registados e verificados de forma consistente. Conclusões Na verdade não se espera que todas as organizações sejam obrigatoriamente «greenhouse gases», certificadas ISO 14064*, nem que premeiem os CIO que se comprometam nas práticas e processos mais sustentáveis. Contudo, a verdade é que o “caro” já não é sustentável e por isso importa que as organizações entrem com um mínimo de comprometimento no virtuoso ciclo da sustentabilidade, ajudando por exemplo a que sejam ultrapassadas as barreiras que descriminam os fornecedores “verdes” a perderem negócios quando o económico fala mais alto. Deve portanto procura-se substancialmente um equilíbrio nas relações económico-sociais e ambientais. Referências: 

GeSI: Sustainability through ICT Innovation: http://www.gesi.org/

 SMART 2020 In 2008: The Climate Group on behalf of the Global e-

Sustainability Initiative (GeSI), with independent analysis by McKinsey & Company found that ICT is a key sector in the fight against climate change and could enable emissions reductions of 7.8 Gt CO2e in 2020, or 15% of business as usual emissions.

 *ISO 14064-1:2006: Greenhouse gases -- Part 1: Specification with gui-

dance at the organization level for quantification and reporting of greenhouse gas emissions and removals

Rui Gomes Director de Gestão das Tecnologias e da Informação, Hospital Fernando Fonseca E.P.E. Guest Speaker no debate “The carbon dimension of the cloud – enabling the transition to a low-carbon economy through ICT“ promovido pela EIF Brussels, no Parlamento Europeu.


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Adotando o referencial ITIL

REESTRUTURAÇÃO DO SERVIÇO DE TECNOLOGIAS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO DO CENTRO HOSPITALAR DO ALTO AVE

Introdução O Centro Hospitalar do Alto Ave, EPE (CHAA) é composto por três unidades (Unidade de Guimarães, Unidade de Fafe e Unidade de Cabeceiras de Basto). Atualmente o CHAA tem por área de influência os Concelhos de Guimarães, Fafe, Vizela, Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto e Felgueiras e abrange cerca de 400 mil pessoas. No CHAA trabalham cerca de 1800 colaboradores. O Serviço de Tecnologias e Sistemas de Informação (STSI) é composto por seis colaboradores e é responsável pela manutenção de toda a infraestrutura que suporta as aplicações em produção bem como da gestão de novos projetos que envolvam TIC na respectiva implementação e suporte. O elevado número de sistemas informáticos existentes, a sua heterogeneidade e diversidade tecnológica, bem como o elevado grau de dependência dos processos de negócio dos respetivos sistemas, originou uma crescente dificuldade de resposta do STSI. Os serviços disponibilizados pelo STSI não satisfaziam as necessidades dos processos de negócio e dos seus atores, sendo estes serviços essencialmente reativos. Ao longo deste artigo será feita uma caracterização mais detalhada dos problemas existentes e das principais motivações para a mudança. Será realizada uma análise comparativa entre os referenciais ITIL, COBIT e ISO20000 e as razões da escolha do ITIL na reestruturação funcional do STSI. Será ainda descrita e detalhada a solução implementada bem como os processos e funções que suportarão a referida reestruturação. Descrição do caso A componente tecnológica do CHAA é composta por cerca de 77 aplicações informáticas, das quais 18 desenvolvidas internamente, aplicações de produtividade pessoal, e-mail, internet e ferramentas de Business Intelligence. Existem cerca de 900 postos de trabalho todos com sistema operativo Windows e cerca de 41 servidores, 35 com sistema operativo Windows e 6 com sistema operativo Linux. Nos sistemas de gestão de base de dados predomina o Oracle com cerca de 20, SqlServer com 10 e 5 com outros. Dos 41 servidores, 20 são suportados por uma infraestrutura de virtualização, existindo também um equipamento de Storage com discos em tecnologia de fibra e fata perfazendo um total de

26TB, onde são armazenados todos os dados críticos para a organização. Os backups são executados de forma automática por um robot de backups conforme politica definida para cada serviço/aplicação. Existe um DataCenter dotado de modernos mecanismos de segurança (Física e tecnológica) e controle que garante a segurança de toda a infraestrutura considerada crítica. O STSI não dispunha de processos definidos e organizados para prestar manutenção de forma eficiente e proactiva aos sistemas em produção. Também não dispunha de uma metodologia eficiente e rigorosa na adoção de novos projetos de TIC. Os mecanismos existentes eram essencialmente reativos, não existiam mecanismos de controlo e gestão e os serviços prestados não eram eficientes e não respondiam as necessidades dos utilizadores. Surgiu assim a necessidade da reorganização funcional do STSI, considerando os recursos (humanos e outros) existentes de forma a garantir e melhorar os níveis de serviço prestados, um correto alinhamento dos serviços de TIC com os requisitos do negócio, uma abordagem mais eficiente na implementação de novos projetos e a necessidade da criação de um Sistema de Gestão da Segurança da Informação (SGSI) para os sistemas de informação informatizados. As dificuldades e problemas existentes potenciaram a reestruturação em três grandes áreas: 

Área operacional do STSI mais orientada para o suporte às aplicações/serviços em produção no CHAA, respetiva infraestrutura tecnológica, gestão e controle. Nesta área foram adotadas as boas práticas do ITIL (tema deste artigo);

Área relacionada com a implementação de novos projetos de TIC. Nesta área estão a ser adotadas as boas práticas relacionadas com gestão de projetos sugeridas pelo PMBOOK do PMI;

Área relacionada com a segurança dos sistemas de informação informatizados, e respetiva monitorização e controle. Nesta estão a ser adotadas as recomendações das ISO27001 e ISO27002 e ITIL.


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Na área mais orientada para a gestão e controlo operacional, foram identificados para implementar nesta fase os seguintes processos e funções considerando, como já foi referido o ITIL: Processos:     

Processo de gestão do portefólio de serviços; Processo de gestão de incidentes; Processo de gestão de problemas; Processo de pedidos de serviço; Processo de pedidos de acesso.

Funções:    

Função de Service Desk; Função de Gestão de Operações; Função de Gestão Técnica e Desenvolvimento; Função de coordenação e gestão de novos projetos.

Esta fase está em plena utilização desde janeiro de 2012 e o plano de reestruturação prevê a adoção gradual de outros processos do ITIL conforme a avaliação continua e estado de maturidade dos processos implementados na primeira fase. A escolha do ITIL Para suportar a reestruturação funcional ao nível operacional, quer dos processos quer das funções do STSI e considerando os problemas e dificuldades já mencionados foram analisados os referenciais ITIL, ISO20000 e COBIT. Foi realizada uma análise a cada um dos referenciais, pontos fracos e pontos fortes bem como os principais objetivos dos mesmos. O ITIL contempla um conjunto de processos e funções mais orientados para os processos operacionais de um serviço de tecnologias e sistemas de informação. É composto por 27 processos e 4 funções. O sucesso deste referencial tem levado a que seja o mais adotado a nível mundial e como consequência perspetiva-se que as versões futuras incluam funcionalidades que permitam a sua adoção a outros sectores da área de atividade dos serviços diferentes das TIC.

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O COBIT contempla um conjunto de processos mais orientados para definição de planos estratégicos, auditoria e controle de processos, posicionando-se assim como melhor referencial para a área de gestão estratégica e tática e auditoria dos processos. Embora também contemple processos para a área operacional, concluímos que o ITIL era o que melhor respondia a este tipo de necessidades. A ISO 20000 foi desenvolvida, tendo como base o ITIL V2 e é essencialmente vocacionada para os STSI que pretendam obter a certificação de qualidade ISO20000. O facto do referencial ISO20000 ter origem no ITIL V2 e considerando como já foi referido a maior utilização do ITIL, levou-nos a optar pelo ITIL em detrimento do ISO20000. Da análise realizada e considerando os problemas existentes no STSI do CHAA e consequente necessidade de reorganização, conclui-se que o ITIL seria o referencial que melhor se ajustaria às necessidades identificadas. Foi valorizado também o facto da adoção do ITIL potenciar também uma eventual e futura candidatura à certificação ISO20000 do STSI. A solução Como referido anteriormente foi decidido implementar nesta primeira fase, 5 dos 27 processos possíveis, e as 4 funções do ITIL. Na análise e definição dos processos foram considerados os seguintes tópicos para cada processo: Objetivos; Diagrama do processo utilizando Business Process Modeling Notation (BPMN); Descrição das principais atividades; Fatores críticos de sucesso/riscos e Medidas de controlo e gestão com definição de Key Performance Indicators (KPI) que serão analisados e avaliados de forma contínua adotando a metodologia do ciclo de Deming PDCA (Plan Do Check e Act). Na análise e caracterização das funções foram considerados os seguintes tópicos: Objetivos; Descrição das atividades e identificação dos respetivos responsáveis. Serão a seguir detalhados os objetivos dos processos implementados e será também realizada uma breve descrição das funções e seus principais objetivos. A operacionalização dos processos e funções referidas e respetiva gestão e controlo, são suportados por uma ferramenta information technology service management (ITSM). 1.1 Processo de gestão do portefólio de serviços Com este processo, pretende-se a gestão e manutenção de forma eficiente dos serviços/aplicações em produção (catalogo de serviços), serviços descontinuados, bem como de novos projetos (catalogo de projetos) em implementação ou em fase de estudo e que poderão originar novos serviços quando colocados em produção.


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Objetivos  Garantir a gestão e manutenção permanente dos serviços em produção e conforme service level agreement (SLA) acordado;  Identificar para cada serviço os (SLA) respetivos, bem como requisitos de segurança, itens de configuração, responsável, estado, etc);  Adotar uma metodologia de gestão de projetos na análise,  desenvolvimento e implementação de novos serviços/ aplicações bem como na infraestrutura tecnológica de suporte;  Garantir a utilização de um sistema que permita a gestão e manutenção da configuration management database (CMDB) e de uma Base de Dados (BD) de erros conhecidos; 1.2 Processo de gestão de incidentes e processo de pedido de serviços A gestão dos Serviços de Tecnologias e Sistemas de Informação deve ser orientada à entrega de níveis de serviço com a qualidade e rapidez que o negócio exige. Para isso é necessário ter um processo de tratamento e gestão de incidentes e pedidos de serviço eficaz e eficiente, capaz de responder às necessidades dos utilizadores e repor o mais rápido possível o normal funcionamento dos serviços/aplicações afetadas pelos incidentes. O processo de gestão de incidentes, é um processo essencialmente reativo, pois apenas é iniciado a partir da identificação de um incidente por parte dos utilizadores ou por ferramentas de monitorização ou ainda pelo processo de gestão de inventos. Assim considera-se este processo como vital para manter a agilidade e o bom funcionamento dos serviços de TI. Objetivos Resolver os incidentes o mais rápido possível, restabelecendo o normal funcionamento do serviço, dentro do tempo acordado no respetivo (SLA), minimizando assim o impacto negativo nos processos de negócio;  Manter os utilizadores informados sobre o estado dos incidentes;  Encaminhar sempre que necessário, os incidentes para os grupos técnicos dos níveis seguintes para respetiva resolução;  Alimentar os dados necessários para posterior avaliação dos KPI, e analisar o desempenho do processo e as consequentes melhorias;  Esclarecer dúvidas dos utilizadores e apoiar nas dificuldades, na utilização das TI; 

Utilizar a base de dados de erros conhecidos/soluções (BDEC) para ajudar na resolução dos pedidos e manter a BDEC atualizada;

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Identificar as necessidades de formação dos utilizadores/ clientes e dos técnicos do STSI.

1.3 Processo de gestão de problemas O grande volume de incidentes relacionados com erros nos sistemas e mau funcionamento dos componentes de hardware ou software acabam por provocar redução na capacidade de resposta da equipe de suporte. Com este processo pretende-se que sejam identificadas e resolvidas as causas que estão na origem dos incidentes, de forma a evitar que os mesmos continuem a acontecer. Este é um processo essencialmente proactivo, pois com a identificação da causa dos incidentes e respetiva resolução prevenimos e reduzimos a quantidade de novos incidentes. É iniciado a partir da identificação de um ou vários incidentes por parte dos colaboradores do serviço de informática. Objetivos  Resolver de forma definitiva a causa de vários incidentes, evitando assim que estes possam surgir no futuro;  Prevenir de forma proactiva, a ocorrência de Incidentes, Problemas e Erros;  Reduzir o número de incidentes;  Utilizar a base de dados de erros conhecidos/soluções (BDEC) para ajudar na resolução dos incidentes e manter a BDEC atualizada. 1.4 Processo de gestão de pedidos de acesso O elevado número de aplicações informáticas existentes no CHAA, bem como os diversos tipos de profissionais, respetivos perfis e diferentes necessidades de informação, exigem que se implemente um processo de gestão de pedidos de acesso para definir as atividades necessárias para atribuir, alterar ou encerrar qualquer acesso a uma aplicação informática, garantindo assim uma maior segurança (integridade, confidencialidade e disponibilidade) dos sistemas informáticos. Este processo desempenha um papel importante na garantia da segurança dos sistemas de informação informatizados. Objetivos Fornecer aos utilizadores devidamente autorizados o acesso às aplicações informáticas necessárias para o suporte à sua atividade profissional;  Criar os acessos conforme a categoria profissional dos utilizadores e respetivas necessidades de informação;  Garantir a segurança (integridade, confidencialidade e disponibilidade) dos sistemas de informação informatizados;  Negar e não permitir o acesso aos utilizadores não autorizados;  Atribuir e comunicar a todos os novos colaboradores o acesso aos serviços: de eMail institucional; Internet e Intranet (Portal).


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1.5 Função de Coordenação do STSI e gestão de projetos Embora esta função não seja contemplada de forma explícita no ITIL, o objetivo principal é garantir a gestão e coordenação operacional do serviço de TSI bem como dos novos projetos que envolvam tecnologias e sistemas de informação, nomeadamente: 

  

Coordenar ou participar nos projetos que envolvam a área de TI; Criar e monitorizar o plano de projeto; Manter atualizado o catálogo de projetos; Monitorizar e gerir através dos respetivos KPI, os processos:

- Gestão Incidentes; - Gestão de pedidos de serviço; - Gestão de problemas; - Gestão pedidos de acesso. 

Monitorizar e gerir as atividades da gestão técnica e gestão de operações; Identificar melhorias de forma contínua nos processos, adotando a metodologia PDCA; Acompanhar a evolução tecnológica na área de TI e identificar oportunidades de melhoria para o CHAA;

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 

1.8 Função de Gestão Técnica e Desenvolvimento de Aplicações Para garantir uma gestão técnica mais eficiente e alinhada com as necessidades dos serviços de TI que suportam os processos de negócio, o STSI foi organizado nos seguintes grupos técnicos: Desenvolvimento de novos serviços/ aplicações; Manutenção dos serviços/aplicações existentes (catalogo serviços); Redes e Comunicações; Infraestruturas; Microinformática; Os principais objetivos são: 

1.6 Função de Service Desk Os principais objetivos e atividades do service desk são: 

 

 

  

Funcionar como um ponto único de contacto entre os utilizadores e o STSI; Funcionar como o 1º nível de suporte aos utilizadores; Restaurar e repor o normal funcionamento dos serviços, sempre que possível; Fornecer suporte com qualidade para satisfazer os objetivos do negócio; Manter os utilizadores informados sobre o progresso dos seus pedidos; Gerir todos os incidentes até o seu encerramento; Aumentar a satisfação do utilizador, fornecendo suporte com maior qualidade, aumentando a disponibilidade para o atendimento e procurando solucionar os incidentes de forma mais rápida; Maximizar e aumentar a disponibilidade dos serviços; Esclarecer dúvidas; Realizar alterações/mudanças nos serviços classificadas como padrão;

1.7 Função de Gestão de Operações O Objetivo principal da gestão de operações é a execução das atividades operacionais necessárias para garantir um bom funcionamento da infraestrutura tecnológica que suporta os serviços de TIC, nomeadamente:

Executar e monitorizar as medidas de controlo de segurança, identificadas na análise de risco; Executar e monitorizar os diversos backups, conforme política definida para cada serviço; Verificar estado dos servidores; Utilizar o DashBoard de gestão existente para monitorizar o estado da infraestrutura tecnológica considerada crítica (DataCenter, Servidores, virtualização, Bastidores de rede).

Funcionar como 2º Nível Suporte e apoio ao SD, sempre que necessário no processo de incidentes, pedidos de serviço e pedidos de acesso; Resolver os problemas que estão na origem de incidentes de forma repetida (processo de gestão de problemas); Apoiar nas atividades da função de “gestão de operações”; Participar em projetos de desenvolvimento de novas aplicações; Participar em projetos que provoquem alterações significativas nas aplicações em produção; Participar em novos projetos que envolvem TIC.

Conclusões Ao longo deste artigo foi feita uma descrição resumida das principais motivações e problemas que levaram à necessidade de mudança no modelo de gestão e governação do STSI do CHAA, EPE. Foram apresentadas as razões que levaram à escolha do ITIL como referencial de suporte às mudanças a efetuar. Pretendemos com esta reestruturação, adotar um modelo de gestão e governação orientado a “serviços” e que as TIC, sejam encaradas como um meio para melhorar a eficiência dos processos organizacionais e não como um fim.

João Miranda Licenciado em Tecnologias e Sistemas de Informação pela Universidade do Minho. Técnico Coordenador do Serviço de Tecnologias e Sistemas de Informação do Centro Hospitalar do Alto Ave.


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Uma norma aberta para a criação de registos de saúde eletrónicos (EHR)

A NORMA OpenEHR O openEHR não é mais do que uma norma aberta para a criação de registos de saúde eletrónicos (EHR). Não se trata portanto de um programa de registo clínico eletrónico, mas sim, um conjunto de especificações e ferramentas que permitem o desenvolvimento de registos clínicos modulares e interoperáveis.

A qualidade da prestação de cuidados de saúde atual está intimamente ligada à utilização de fontes de informação e conhecimento de qualidade. Algumas das dificuldades dos Sistemas de Informação (SI) atuais associam-se a incapacidade de estruturação de informação, não utilização de normas e dificuldades em incorporar o conhecimento clínico mais recente.

O conhecimento clinico é usado na definição formal de conceitos e documentos clínicos em arquétipos e templates, que são estruturados e restringidos usando as entidades do modelo de referência - segundo nível. A modelação a dois níveis permite reduzir a dependência dos sistemas de informação e dos dados neles contidos da variabilidade e evolução da definição dos conceitos clínicos.

O openEHR surge como uma norma aberta para a criação de registos de saúde eletrónicos (EHR). Não é um programa de registo clínico eletrónico, mas sim, um conjunto de especificações e ferramentas que permitem o desenvolvimento de registos clínicos modulares e interoperáveis. A fundação openEHR é responsável pela gestão das especificações bem como da disponibilização das ferramentas que permitem usar a norma (www.openEHR.org).

Os arquétipos serão então representações de conceitos clínicos que serão modelados usando como base o modelo de referência. Representam semanticamente conceitos de complexidade variável – uma entrada observacional que representa a pressão sanguínea ou um agrupamento de informação que representa a auscultação (um conceito mais alargado). Têm um âmbito generalista e são reutilizáveis e agregáveis.

Está assente na necessidade da construção de um EHR que tem como foco a priorização da interação entre o paciente e o prestador de cuidado, a adequação a todos os contextos de prestação de cuidados (primários, internamento, urgência, etc.), a rastreabilidade dos atos clínicos e o suporte à privacidade do paciente. Estes incluem também a independência tecnológica e de formatos de dados e a inerente facilidade na partilha de registos devido a interoperabilidade ao nível do conhecimento.

Os templates são representações de documentos de registo clinico. São agregações de diferentes arquétipos em composições, restringindo os mesmos conforme as necessidades de registo num contexto específico de prestação de cuidados. Corresponderão a formulários de entrada de dados ou a relatórios impressos representando por exemplo o registo de uma prescrição, um relatório de alta ou um resultado de exames laboratoriais.

Um dos pontos chave no desenvolvimento de um registo clinico é a modelação da informação. A especificação openEHR tem uma abordagem à modelação de informação clinica que obedece a uma série de princípios relacionados com os níveis de abstração da descrição do mundo real, separando o que é um modelo de informação (p.e. o conceito lógico de quantidade) de um modelo de conteúdo (p.e. a definição do conceito de pressão sanguínea, a definição dos dados a serem colhidos durante a execução de um exame). Esta separação leva-nos ao paradigma da modelação a dois níveis em que há uma separação clara entre informação e conhecimento. A primeira é estruturada através de um modelo de referência estável e estático que contem entidades básicas para representação de qualquer informação de um registo clinico – primeiro nível.

Os templates serão usados em tempo real pelas aplicações para criar as estruturas de dados necessárias para o registo de informação e para validar a introdução de dados de acordo com as restrições impostas aos arquétipos. Apenas o primeiro nível é implementado em software, com a finalidade de ser usado por programadores no desenvolvimento de aplicações baseadas em openEHR, usando implementações de referência da norma disponibilizadas pela fundação. A modelação de arquétipos e templates referenciada no segundo nível é feita por profissionais de saúde. Os sistemas serão então desenhados para serem inerentemente auto-adaptativos, lendo definições de conceitos contidas em arquétipos e templates para se adequarem à prática clinica atual.


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Os arquétipos são tipicamente desenvolvidos por profissionais de saúde, de modo colaborativo e com revisão por pares, quer a nível internacional quer a nível local, usando uma série de ferramentas de modelação como por exemplo o Archetype Editor da Ocean Informatics. A nível internacional existem repositórios de partilha e desenvolvimento de arquétipos e templates sendo o repositório principal - Clinical Knowledge Manager (CKM) - gerido pela fundação openEHR, estando localizado em http://openehr.org/ knowledge/. Na modelação da informação a ser usada num software de registo clinico seriam usados maioritariamente arquétipos descarregados do CKM bem como arquétipos desenvolvidos localmente para conceitos ainda não definidos internacionalmente. Seriam também construídos templates a nível local, já mais próximos do contexto e workflow da prática clinica de uma instituição. O uso de arquétipos permitirá uma interoperabilidade semântica entre sistemas.

A norma tem sido adotada a nível empresarial, governamental e académico em múltiplos países incluindo Austrália, Brasil, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Holanda, Japão, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Rússia e Suécia. Na Faculdade de Medicina de Universidade do Porto mais especificamente no Centro de Investigação em Tecnologias e Sistemas de Informação em Saúde (CINTESIS) a norma openEHR é usada no âmbito de projetos de investigação que visam aumentar a disponibilidade da informação clinica através da sua busca em múltiplas instituições (http:// sahib.gim.med.up.pt), e está a ser incorporado nos sistemas clínicos que a mantém.

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Está a ser usado num repositório de dados clínicos, para descrever que informação deve ser integrada e na comunicação com sistemas legados através de HL7. O CINTESIS está também envolvido em conjunto com a fundação openEHR e a Critical Software no esforço de formação, localização e promoção do openEHR em Portugal.

Ricardo Correia Professor Auxiliar Faculdade Medicina da Universidade do Porto Núcleo de Investigação CINTESIS


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Normalizar e apostar na Segurança

SINUS

COMUNICAÇÃO UTILIZANDO NORMAS

A rede portuguesa de Cuidados de Saúde Primários (CSP) dispõe de um Sistema de Informação denominado por SINUS, que se encontra em produção desde a década de 90. A importância de normalizar a comunicação de dados entre este Sistema de Informação e outros pontos, através de uma rede de dados, como a RIS (Rede de Informação da Saúde) e as questões da Segurança são os temas abordados neste artigo.

Resumo A troca de informação clínica dos Utentes nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) ainda não é fácil. É comum o histórico clínico não acompanhar o utente nas situações em que este migra para um novo CS, mesmo quando o sistema de informação instalado é o mesmo. Neste artigo, apresenta-se uma solução de comunicação para o sistema de informação maioritariamente usado nos CS portugueses, o SAM/SINUS/SAPE, pacote integrado de suporte à prática médica (SAM), à prática de enfermagem (SAPE) e à gestão do Utente (SINUS). A abordagem proposta é a implementação de ferramentas de importação e exportação dos dados clínicos e demográficos utilizando a norma ASTM E2369-05 Continuity of Care Record (CCR), através de tecnologia já hoje existente nesses mesmos sistemas, tornando desnecessário qualquer alteração do hardware ou software de base actualmente implementado. Foram desenvolvidos módulos em Java 1.2 para serem executados na própria Base de Dados Oracle 9i e utilizando tecnologia HTTP e SOAP Web Services nativos do Oracle Application Server. A segurança é assegurada através do uso de Certificados Digitais que identificam os sistemas dos CSP e encriptam as mensagens. Este trabalho demonstra que a antiguidade de alguns Sistemas de Informação não impede que os mesmos possam integrar redes mais vastas de interoperabilidade, bastando para isso que sejam implementadas soluções assentes em normas e boas práticas internacionais. Introdução A rede portuguesa de Cuidados de Saúde Primários (CSP) dispõe de um Sistema de Informação (SI) denominado por SINUS, que se encontra em produção desde a década de 90, estando assente em tecnologia Oracle Forms 3 a correr sobre uma BD Oracle 7.3.4. Posteriormente foram introduzidos mais dois SI nos CSP: (1) o SAM - Sistema de Apoio ao Médico em 2001 e o (2) SAPE - Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem em 2003.

Ambos os sistemas foram desenvolvidos em tecnologia Oracle Forms 6, assentes em bases de dados Oracle 9 [Gomes, 2009]. Estas duas aplicações, apesar de terem sido desenvolvidas numa base tecnológica mais actual, utilizam a base de dados Oracle 7.3.4 do SINUS como repositório de dados, ficando a base de dados Oracle 9 apenas com os packages PL/SQL do Processo Clínico do SAM. Na altura em que se publicou o estudo anteriormente referido, existiam 319 instalações de SAM num total de 345 instalações de aplicações informáticas de CSP, o que reforça o interesse de uma ferramenta de comunicação entre estes SI, facilitando, por exemplo, a migração de utentes entre instituições de saúde. A integração entre SI em saúde é um processo tão importante como difícil. A interoperabilidade entre sistemas de informação em saúde pode ser conseguida de diversas formas, sendo a realidade portuguesa rica em formas não normalizadas [Ribeiro, 2010]. A confirmar esta realidade constata-se que em 2010 na maioria dos casos hospitalares (87%) não é utilizado qualquer norma nas integrações, com a excepção rara do HL7v2.x [Ribeiro, 2010]. Para que os dados tenham qualidade suficiente para serem usados e comunicados de forma segura devem ser: precisos, completos, relevantes, atuais, suficientemente detalhados, representados de forma apropriada (e.g. codificados de forma consistente e reprodutível), representados de forma a reter informação de contexto suficiente para permitir a tomada de decisões (e.g. para além de recolher os valores também recolher os protocolos usados na aquisição dos mesmos). [Jeremy Wyatt] A ASTM E2369 – 05e2 Standard Specification for Continuity of Care Record (CCR) [ASTM] é uma norma da ASTM International que visa a especificação de um Registo Clínico Electrónico que suporte a informação clínica, demográfica, social e histórica de um utente, de forma estruturada e que represente uma fotografia do estado de saúde e de doença desse mesmo utente, à luz daquelas que são as práticas e conceitos comummente descritos nos Cuidados de Saúde Primários.


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A nível da sua representação física, esta norma serve-se da linguagem XML, de forma a permitir quer uma interoperabilidade direta destes registos entres diferentes sistemas quer a sua leitura e compreensão por humanos conhecedores da sua representação e codificação. A título de referência, o formato CCR foi escolhido pela Microsoft e pela Google como o formato normalizado para a importação e exportação de dados nos seus sistemas PHR (Personal Health Record) Microsoft HealthVault® e Google Health®(entretanto suspenso). Os servidores aplicacionais Oracle AS 1.0.2 ou 9iAS são disponibilizados com uma funcionalidade que se veio demonstrar central para este trabalho, nomeadamente de terem embebida uma Máquina Virtual Java (JVM) 1.2.2. Esta permite que se possam desenvolver aplicações Java complexas, utilizando bibliotecas externas e funcionalidades avançadas da linguagem Java. Estas aplicações podem posteriormente ser instaladas e compiladas na própria máquina virtual da base de dados e os seus métodos tornados públicos para que possam ser executados internamente como Stored Procedures, à imagem de procedimentos PL/SQL. Assim, podese aceder aos dados guardados na base de dados de uma forma rápida e eficiente e possam executar código Java quer para o tratamento de informação quer para visualização através das ferramentas de publicação web do iAS, por exemplo.

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Este processo de actualização da inscrição do utente no RNU será o factor que despoletará o pedido de envio de informação desse Utente ao CSP anterior, (CSP-O: Origem) através de um processo automático a implementar no SINUS destino, com a respetiva indicação de qual o CSP que deverá ser contactado para envio da mensagem CCR com a informação clínica. O SINUS do CSP-D invocará um web-service que está a escutar no SINUS do CSP-O, enviando o número de inscrição do utente (NIR) e recebendo como resposta o documento XML em formato CCR. Após a recepção da resposta, o XML é lido por um procedimento Java do SINUS que o interpreta e decompõe nos seus elementos a importar no SINUS. Para cada tipo de dados clínicos, como a Vacinação, a Medicação Crónica ou Problemas, o procedimento Java irá consultar a base de dados local e as respectivas tabelas de registo à procura de informação que já lá possa residir, caso se esteja perante uma reinscrição num CSP. No final, um relatório de importação será enviado ao Médico de Família assignado ao novo utente, de forma a ser validada a importação. Comunicações seguras A transmissão de informação clínica entre dois pontos através de uma rede de dados como a RIS (Rede de Informação da Saúde) reveste-se das necessárias preocupações relacionadas com a segurança dessa mesma informação. A RIS, apesar de não ser uma rede aberta e pública, é uma rede aberta e partilhada entre todas as instituições de saúde do SNS. Este facto leva-nos a propor a implementação de mecanismos de segurança que promovam a confidencialidade através da encriptação dos dados (webservices assentes em HTTPS) e identificação inequívoca dos intervenientes na troca de informação através de mecanismos de identificação baseados em Certificados Digitais (PKI).

Caso de Uso O cenário típico que se pretende atingir é o seguinte: Um utente no momento em que se desloca a um CSP para proceder à sua inscrição nesse mesmo CSP (CSP-D: Destino), indica ao administrativo que se trata de uma Transferência. O seu estado interno na tabela do SINUS de registo de inscrições de Utentes é de transferência de outra inscrição primária, o que vai despoletar um procedimento diário de actualização de informação no Registo Único de Utente RNU.

Assim, no momento em que o sistema do CSP-O comunica com o sistema do CSP-D a solicitar o envio da informação clínica de um utente do sistema CSP-D, o sistema verifica a identidade do sistema no CSP-O e caso o seu Certificado seja válido, envia os dados encriptados com a chave pública do sistema CSP-O, ficando assim esses dados apenas visíveis para o seu real destinatário, não sendo possível a sua leitura durante a transmissão através de um qualquer programa de escuta (sniffing). Além disso, quando o sistema do CSP-A se apresenta ao sistema do CSP-D como sendo o CS de Aldoar, por exemplo, o sistema B verifica se o Certificado apresentado é mesmo o Certificado atribuído ao CS de Aldoar e não um outro qualquer CS.


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Trabalho futuro Este trabalho foi iniciado devido a uma necessidade prática sentida por quem gere diariamente estes sistemas e os primeiros requisitos foram desenhados tendo em conta essa realidade. No entanto, no decorrer do desenvolvimento foi sendo visível que outros cenários se iam apresentando como resultado da abordagem inicial se ter centrado sempre na utilização de um formato normalizado de representação clínica. A utilização de uma norma como o CCR abre também a possibilidade de alargar este mecanismo de troca a outros sistemas além do SINUS/SAM/SAPE. De facto, qualquer outro sistema que permita a importação de dados na forma de um documento CCR pode ler este ficheiro XML e tirar partido dos dados existentes nos CSP, tal como era verdade no Google Health ou acontece ainda hoje no Microsoft Health Vault bem como outros sistemas de informação inseridos no SNS ou rede privada de cuidados de saúde, bastando para tal que sigam as indicações explanadas na normativa ASTM, sem a necessidade de definições complexas e extensas de todos os dados a trocar.

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qualidade dos dados em si. Ficou demonstrado que o mapeamento do modelo de dados do SINUS com o esquema XML utilizado no CCR se torna um exercício de análise da qualidade dos dados e um desafio para a construção de novos sistemas mais robustos do ponto de vista da integridade relacional e da integridade semântica. Este trabalho está a ser desenvolvido a pedido e com o apoio da SPMS no âmbito de uma tese do Mestrado em Informática Médica (http://mim.med.up.pt). Referências  [Ribeiro, 2010] Ribeiro, L. F. d. S. (2010). Interoperabilidade nos Siste-

mas de Informação de Saúde – das convicções à realidade. Tese de mestrado, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.  [Gomes, 2009] Gomes, Paulo et al. Análise da Viabilidade Económica

das Aplicações SAM e SAPE, Universidade Nova de Lisboa, 12/02/2009

 [ASTM] ASTM. ASTM E2369 - 05e1 Standard Specification for Conti-

nuity of Care Record (CCR).

Conclusões preliminares Tendo este trabalho ainda não chegado ao seu termo é no entanto pertinente referir algumas conclusões que se podem desde já retirar do mesmo. O facto de se tratar de um trabalho sobre um SI com provavelmente duas décadas de vida vem provar que estes sistemas legados ainda podem fazer parte de uma rede mais vasta de sistemas de informação através da utilização de mecanismos de interoperabilidade em que a utilização de normas como o CCR é uma peça central. Também, o caminho escolhido de se tentar resolver este problema de troca de informação entre CSP através da utilização de uma norma como o CCR mostrou-nos que esta abordagem tem vantagens e benefícios que não estavam pensados à priori. A leitura e estudo aprofundado da normativa trouxe uma capacidade de análise crítica da qualidade quer do modelo de dados destes sistemas quer da

Alexandre Santos Engenheiro Metalúrgico pela FEUP Especialização em Informática Médica na FMUP Técnico Superior na Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, E.P.E.


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Aconteceu...

...UM JANTAR/CONVÍVIO DE PROFISSIONAIS DE ESAUDE A ideia do Jantar GSITI - Beira Alta - Dão Reserva 2012 nasceu no Facebook, no seio de um grupo de “Gestores Sistemas Informação e Tecnologias”. Foi ganhando forma e acabou por se concretizar em junho, em Viseu, fruto da organização do Henrique Ferreira, Director de Sistemas de Informação, que nos mostrou que não é só nas TIC e no Hospital de S. Teotónio que diariamente afirma as suas competências. Foi um momento de partilha por pessoas que dedicam às TIC na Saúde muito do seu saber e esforço, num evento em que se discutiu e falou de tudo: das pessoas, de Viseu, das organizações e dos hospitais, da SPMS, da gastronomia, do epSOS e do open EHR, da AMA, do novo SONHO, dos fornecedores, dos mestrados e da formação, da PDS, de interoperabilidade, da RIS e da cloud, dos presentes e dos ausentes, do passado e do futuro, de que valeu bem a pena e de "tenham cuidado, vão devagarinho..."

Evento: GSITI, Beira Alta Dão Reserva 2012 Data: Junho 2012 Restaurante: Palmeira, Local: Oliveira de Baixo Distrito: Viseu A registar: Comida com qualidade, em quantidade e com preços baixos

E obviamente, porque todos sentiram que este encontro deveria ser apenas o primeiro de muitos outros, ficou já acordado que a estrela da noite marcasse o próximo encontro em Outubro, para os lados de Montesinho. Estrela: Alexandra Ferreira, SPMS (organizadora do próximo encontro)


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As competências técnicas e sociais para um “produto final” de Qualidade

A INFORMÁTICA NA SAÚDE NO INSTITUTO POLITÉCNICO DE LEIRIA

O curso de Informática para a Saúde surgiu com base num estudo desenvolvido por um grupo de trabalho no sentido de identificar oportunidades formativas estratégicas para a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria. Iniciou a sua actividade em 2005 e é cada vez mais uma referência académica e de ligação com a indústria, com destaque nacional. O curso de Informática para a Saúde na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria, iniciou a sua actividade em 2005. Nesse ano o curso arrancou em dois outros Politécnicos. O curso de Informática para a Saúde surgiu com base num estudo desenvolvido por um grupo de trabalho no sentido de identificar oportunidades formativas estratégicas para a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria. Este estudo iniciou-se com a identificação da oferta formativa das outras instituições de ensino superior e com um levantamento de necessidades junto das consultoras de referência de sistemas de informação. Foi realizado um inquérito/entrevista presencial com questões abertas e fechadas a quinze consultores de referência em Portugal que colaboram, entre outras, em empresas como a Microsoft, a Novabase e a Accenture. Foram ainda analisadas as áreas consideradas pelo Gartner Group com enorme potencial de desenvolvimento. O sector da Saúde e dos Sistemas de Informação para a Saúde foi um dos sectores identificados com maior carência de profissionais e também, em simultâneo, com um elevado crescimento e potencial de crescimento. As organizações de Saúde e as consultoras de sistemas de informação na área da Saúde necessitavam (e ainda necessitam) de profissionais com sólidos conhecimentos e competências na área da informática, mas também, e aí uma oportunidade identificada, com conhecimentos, entre outros, de gestão hospitalar, de processos administrativos e clínicos, de funcionamento do Sistema Nacional de Saúde e de suportes digitais de imagiologia. Em 2004 estavam a arrancar as primeiras iniciativas de processos paperless na Saúde, a integração das ilhas de informação que proliferam nos hospitais e nos centros de saúde e a digitalização total dos sistemas de imagiologia. A partir da necessidade e oportunidade identificadas, foram elaborados novos inquéritos/entrevistas a vinte entidades desde administradores hospitalares, a médicos, enfermeiros, directores clínicos, directores de sistemas de informação em hospitais, investigadores, entre outros, com o objectivo de identificar os conhecimentos e as competências que os futuros Informáticos para a Saúde deveriam apresentar.

Foram assim encontradas as áreas de conhecimento e os conteúdos programáticos do curso, dos quais foi, posteriormente elaborado o actual programa curricular. Considerouse que sendo uma oferta formativa nova, e com o objectivo de garantir a sua empregabilidade, se deveria incluir um estágio curricular no curso. Deste modo, os três últimos meses do curso são totalmente em ambiente real, na maioria dos casos, em Lisboa ou no Porto, onde se encontram os maiores empregadores. Esta aposta, confirma-se hoje como uma aposta ganha, uma vez que o curso apresenta uma empregabilidade de cerca de 98%, sendo esse um dos factores de atracção de novos estudantes. Com base no programa curricular desenvolveu-se um plano de promoção do curso focado nos estudantes do secundário, das áreas de informática e ciências naturais, e também nos seus futuros empregadores como organizações de saúde, consultoras e centros de investigação, em particular de bioinformática. Num curso recente como o de IS, ainda não conhecido pelo mercado, foi necessário visitar constantemente empresas, realizar seminários, investir fortemente em actividades de divulgação. Criou-se um evento anual, o “Seminário de Informática para Saúde”, que tem conseguido trazer personalidades relevantes da área trazendo uma renovada motivação aos Estudantes.


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No entanto, não basta que o curso seja conhecido. É necessário que o curso apresente um “produto final” de qualidade, ou seja, os Estudantes no Estágio têm de mostrar que detêm as competências técnicas e sociais que podem acrescentar valor às organizações. Há, por isso, um programa de qualidade (total quality management program) implementado no curso e revisto anualmente. Há ainda uma forte preparação psicológica dos Estudantes para o Estágio. Por fim, há ainda um processo moroso de selecção de candidatos e de processamento burocrático para que os “clientes” Estudantes e os clientes “Empregadores” atinjam o ponto de satisfação máximo.

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Procuramos, por fim, oferecer um serviço de acompanhamento individual, ou tutorial, a cada Estudante de Informática para a Saúde. Conhecemos pelo nome praticamente todos os Estudantes, sabemos das suas condições socioeconómicas, das suas motivações e dos aspectos que têm de ser melhorados e os seus talentos naturais. Isto é crítico para conseguirmos manter a sua motivação elevada quando se deparam com as dificuldades do curso, das suas vidas pessoais e seja possível potenciar as suas aptidões técnicas e comportamentais. Passados sete anos somos a única Licenciatura do País nesta área, temos 98% de empregabilidade e temos o reconhecimento de muitas organizações relativamente à qualidade dos nossos estudantes. A criação do curso de Informática para a Saúde, sabia-se à partida, exigiria uma enorme quantidade de energia para ultrapassar o death valley que qualquer projecto em novas áreas de negócio exige. Estamos, hoje, ainda na fase de crossing the chasm. Apesar do momento difícil que o nosso País atravessa, olhamos para o futuro com um optimismo realista, determinado e ainda com muitas oportunidades e desafios a vencer. É no entanto preocupante o crescente recurso do mercado a estagiários como solução para o desinvestimento neste sector. Acredito que as consequências no médio prazo serão penalizadoras para os prestadores de saúde, para os doentes e familiares e poderão levar para fora os nossos melhores profissionais.

Neste momento temos cerca de 176 Estudantes no curso e actualmente a estratégia para os próximos anos passa por aumentar a oferta quer a montante quer a jusante. Para isso, pretendemos avançar com um Curso de Especialização Tecnológica (CET) e um Mestrado em Gestão de Sistemas de Informação Médica (MGSIM) que se iniciarão já este ano. O MGSIM resulta de um parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto que tem uma longa, reconhecida e prestigiada experiência na área. Há planos ainda para uma expansão além fronteiras.

Rui Pedro Charters Lopes Rijo Professor adjunto do Departamento de Engenharia Informática da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria. BSc em Engenharia Informática, IST; PhD em Ciência da Computação Universidade de Trás-osMontes


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Corner of the Speakers : Luís Vidigal

COORDENAR AS TIC NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: É preciso saber servir mais do que saber mandar Na inauguração desta secção, que se pretende um espaço de livre expressão sobre um tema da atualidade, tem justo cabimento Luís Vidigal, que bem simboliza o permanente exercício da cidadania e um pensamento refletido e livre na área dos Sistemas de Informação, em particular na Administração Pública.

Coordenar as TIC na administração pública nunca foi tarefa fácil, pois trata-se de um sector recheado de expectativas de modernização, a que políticos e funcionários jamais poderiam ficar indiferentes. Nos últimos trinta anos foi quase sempre através das tecnologias que facilmente se mobilizaram e se cativam euforias e deslumbramentos na área das políticas públicas, criando-se através delas, não apenas melhores serviços, mas sobretudo impressões e sinais de modernidade muito convenientes para quem ao longo das várias legislaturas vai passando pelo poder. O papel do Chief Information Officer (CIO) na administração pública, como em qualquer outra grande organização privada, vai muito para além de ser um responsável máximo da informática ou da tecnologia (Chief Technology Officer) e deverá constituir um gestor de topo dos recursos informacionais, com capacidade de influenciar estrategicamente a evolução do negócio numa perspectiva verdadeiramente inovadora, transformadora e de incorporação de valor com recurso às tecnologias mais adequadas em cada contexto. Paradoxalmente, quanto mais "modernos" se julgam os organismos do Estado, mais fechados se tornam e maiores são as muralhas dos seus castelos de vaidade e de poder em relação às outras entidades com quem deveriam cooperar serviços e partilhar recursos. Sem dúvida que são necessários CIO sectoriais, mas corre-se o risco de desagregar o sistema Estado se ao mesmo tempo não existir um CIO central com credibilidade suficiente para induzir e mobilizar comportamentos e atitudes cooperativas em torno de grandes desígnios nacionais e transversais a todo o sector público. É importante dar aqui um testemunho pessoal de quase quarenta anos de experiência na linha da frente ou em tarefas de retaguarda em áreas de coordenação da modernização administrativa e das tecnologias de informação no sector público, que cada vez mais reforçaram a minha convicção de que a coordenação das TIC na administração pública é antes de tudo SERVIR e muito menos MANDAR. A autoridade obtém-se no curto prazo, mas sobretudo sustenta-se de forma mais duradoura, com a credibilidade de ajudar os organismos em tarefas transversais que eles sentem como necessárias, mas que sozinhos são incapazes de assegurar (arquitetura de dados, normas semânticas, repositó-

rios comuns, interoperabilidade, promoção de uma visão global, integração dos planos sectoriais, orientação e mobilização das cadeias de valor para os eventos de vida dos cidadãos e das empresas, etc.). A coordenação deve ser desejada e não imposta apenas por razões de estatuto hierárquico. A atual estratégia do XIX Governo passa prioritariamente pela racionalização dos equipamentos informáticos e das redes de telecomunicações, tentando promover uma política de concentração e consolidação de infraestruturas tecnológicas com impactos financeiros de curto prazo. É evidente que este trabalho tinha que ser efetuado com prioridade, mas as suas consequências ocorreriam de modo muito mais natural e perceptível se por detrás da racionalização tecnológica estivesse um modelo de Estado mais transversal e orientado aos eventos de vida dos cidadãos e agentes económicos. A cooperação de serviços e a partilha de recursos passaria a ser inevitável e desejada por todos. Nas organizações como na vida, as atitudes e os comportamentos impróprios e desviantes só são ultrapassados quando os valores e os princípios passam a ser claros quando servem de referencia para todos. Na atual estratégia, para além das motivações meramente financeiras, estes valores e estes princípios de melhoria do serviço público através das TIC, ainda estão longe de estar formalizados e muito menos percebidos. A constituição do Grupo de Projecto para as Tecnologias de Informação e Comunicação (GPTIC ) integrou à partida, para além de representantes do centro do Governo e da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), apenas as atividades-meio do Estado, representadas pela GERAP, ignorando-se totalmente as atividades-fim como a Saúde, os Impostos, a Segurança Social, a Justiça, etc. Pareceu que se queria impor algo a priori, evitando as pressões dos grandes sectores da administração pública e procurando com isso mostrar à partida quem mandava e era capaz de impor as regras do jogo. Os dois partidos do bloco central, nos últimos dez anos, parece que se preocuparam apenas com o "hardware" e as infraestruturas físicas, uns a gastar dinheiro a comprá-las e a construí-las e outros a dizer que poupam dinheiro ao destruí-las. Neste momento pensa-se mais nos outputs


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(eficiência no uso dos meios) do que nos outcomes (eficácia para a sociedade). Esta prioridade dada aos equipamentos deve-se talvez à sua maior tangibilidade relativamente aos sistemas de informação e às dificuldades de reengenharia e desmaterialização dos processos, cujo esforço de implementação é sem dúvida muito maior do que a simples aquisição de equipamentos ou de pacotes de software, para que apenas é preciso estatuto hierárquico e capacidade orçamental. As tecnologias da informação parecem ser para o atual executivo mais um problema do que uma solução. Parece que as TIC passaram a ser as principais culpadas do défice público, o que é não perceber o potencial de redução dramática de custos que decorre da desmaterialização de processos. Pareceria evidente que a melhor opção do Estado para a redução do défice deveria ser o investimento em estruturas e em estratégias de coordenação de excelência para as TIC, já que, mesmo com as manifestas insuficiências de coordenação do passado, o Estado português conseguiu alcançar nos últimos anos níveis de eficiência verdadeiramente notáveis à escala mundial. O levantamento das TIC da administração pública portuguesa começou a ser feito "pro bono" por uma única empresa, a quem se deu acesso a toda a informação privilegiada a instalações, recursos, contratos, aplicações, etc. Quando se está no poder fica-se muito deslumbrado com os "almoços grátis" que à partida são muito convenientes para quem os oferece mas muito comprometedores para quem os aceita. Este recurso a trabalho externo pouco qualificado de levantamento do parque tecnológico do Estado constitui só por si um insulto para a própria administração pública que, apesar de possuir mais de 600 mil funcionários, é colocada de lado para se encomendar ao exterior um mero levantamento da situação atual das suas infraestruturas TIC. Depois de concluído o levantamento dos primeiros ministérios, pretendeu-se corrigir o rumo entregando às associações do sector o trabalho de levantamento dos restantes

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ministérios, mas não nos parece adequado passar para as associações a responsabilidade da escolha de fornecedores de serviços. Bastaria para tanto pagar e tornar públicos os instrumentos de análise e fazer o levantamento do "as is" com os recursos internos. De notar que manda a ética e as boas práticas que uma empresa que executa um diagnóstico deve ficar impedida de se envolver na implementação. A segunda prioridade do Governo parece ser a criação de planos estratégicos sectoriais muito antes de tornar evidentes as grandes orientações estratégicas globais, capazes de balizar as opções estratégicas sectoriais. Os planos sectoriais só fazem sentido se as grandes linhas estratégicas estiverem claras e se existir à partida um enquadramento arquitectónico global. Caso contrário os planos sectoriais não passam de feiras de vaidades protegidas pelos respectivos ministros, para legitimar orçamentos e singularidades que apenas servem para alimentar espirais despesistas e territórios de poder. Estes planos sectoriais tardam em aparecer e adivinha-se um verão bastante quente na disputa orçamental para o exercício do próximo ano. É agora a altura adequada de pensar em poucas iniciativas transversais e estruturantes, talvez não mais do que uma dezena, em que a visão holística e central se deve impor sobre as suseranias sectoriais, muito para além das centenas de feiras de vaidades que no passado recente germinavam à sombra do Simplex.

Luís Vidigal Consultor nacional e internacional de eGovernment e IT Governance, com 39 anos de experiência como quadro superior e dirigente de topo nas áreas da modernização administrativa e das tecnologias da informação. Professor convidado do ensino superior, conferencista em mais de vinte países e autor de numerosos trabalhos nas suas áreas de especialidade.


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Tome Nota... Relatório do “EHealth Task Force” Com a designação “Redesigning health in Europe for 2020”, foi tornado público no final do primeiro semestre o relatório da eHealth Task Force, que funcionou sob os auspícios da Comissão Europeia. Coordenada pelo Presidente da Estónia, a task force integrou um dezena de especialista Europeus na área da Saúde, entre os quais a Dra. Maria de Leonor Beleza, da Fundação Champalimaud. O relatório apresenta as conclusões do grupo acerca das principais questões a abordar na reorganização dos cuidados de saúde no contexto Europeu e do papel das tecnologias de informação nesse processo. Pela sua assertividade e relevância, “Tome nota…” para uma próxima leitura!

APDSI Saúde—Conferencia “As TIC e a Saúde no Portugal de 2012” Dando continuidade aos bons resultados anteriores, a APDSI está a organizar a conferência “As TIC e a Saúde no Portugal de 2012” para o próximo dia 11 de Dezembro, em Lisboa. A APDSI continua assim a trazer momentos de reflexão para a sociedade civil sobre o movimento de transformação do sector da saúde, divulgando e discutindo o papel das TIC como principais agentes inovadores nesta mudança. Com a recomendação do eSaude para que “Tome Nota...”, pode obter mais informações no sitio da APDSI www.apdsi.pt.

OASIS - Observatório Académico de Sistemas de Informação em Saúde Foi criado o Observatório Académico de Sistemas de Informação em Saúde (OASis). Este observatório pretende identificar e agrupar a inovação criada no seio do sistema científico nacional e promover a partilha de conhecimento e cooperação científica e tecnológica com o Serviço Nacional de Saúde, fomentando a disseminação e utilização de soluções inovadoras na informatização clínica das unidades prestadoras. O responsável escolhido pelo Ministério da Saúde para o dirigir é o Prof. Joel Rodrigues, do Departamento de Informática da Universidade da Beira Interior e responsável pelo grupo de investigação NetGNA (Next Generation Networks & Applications Group) do DI da UBI e da Delegação da Covilhã do Instituto de Telecomunicações.

GSITI— Gestores de Sistemas de Informação e Tecnologias da Informação Visando promover a divulgação de boas práticas e a partilha de informação no âmbito das TIC entre profissionais e organismos que estudam, gerem ou tratam com saúde, foi criado no Facebook, em Março de 2010, um grupo que já conta com 130 elementos distribuídos por todo o país. Os seus membros são responsáveis pelos SI de hospitais portugueses, bem como administradores e gestores hospitalares, investigadores e profissionais de saúde com interesse na área. Se faz parte destes perfis, não deixe de se inscrever e aportar o seu contributo em: https://www.facebook.com/groups/GSITI/

Inscrições abertas para ICT for Health Aging, Inclusion and Governance Estão abertas candidaturas para projetos na área do “Challenge 5: ICT for Health, Ageing Well, Inclusion and Governance”, nomeadamente o “ICT-2013.10.2 EUBrazil Research and Development cooperation”. Para mais informação consultar: http://cordis.europa.eu/fp7/ict/programme/contact5_en.html


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A comunidade eSaude...

DE PROFISSIONAIS PARA PROFISSIONAIS O Projeto eSaude é uma iniciativa que permite a partilha de conhecimentos entre os profissionais empenhados no uso das TIC nas diversas frentes do sector da Saúde. Sendo um projeto de partilha de informação de artigos, de experiências, de reflexões, de ideias e de boas práticas ele será aquilo que todos nós quisermos que venha a ser… Neste primeiro número apontamos um modelo básico para promover a participação e obter os contributos de todos. Com o tempo, a experiência, as sugestões, este modelo certamente se refinará... O Magazine e o Site O projeto eSaude arranca com dois componentes: O magazine eSaude —de publicação trimestral e que aqui se apresenta no seu primeiro número—e o sítio www.esaude.pt. Estes dois meios complementam-se num mesmo objetivo: ser veículo da partilha de informação entre profissionais. Como contribuir A contribuição no eSaude pode ser feita de várias formas: Através de artigos a incluir na revista ou no sitio www.esaude.pt De acordo com o modelo adotado para o presente número, a revista será constituída por artigos de diversa natureza, desde os mais técnicos a trabalhos de natureza académica, passando pelos artigos de opinião ou de divulgação, pela apresentação de acontecimentos, de casos de sucesso ou de boas práticas que se vão sucedendo dentro e fora das unidades de saúde. Sendo a periodicidade trimestral e o espaço muito limitado, haverá também uma secção de artigos em www.esaude.pt, que se espera que venha a ser o principal veículo para a partilha de contributos mais estruturados. A submissão de artigos, para ambos os suportes, sejam já concluídos ou ainda em conceção, pode ser feita de forma informal para o email do projeto: esaude.@esaude.pt Através do envio de notícias e anúncios Outra forma de partilha com a comunidade será o envio de notícias, anúncios de eventos, referências a acontecimentos, documentos publicados de interesse geral, que deverão ser enviados para o endereço esaude@esaude.pt e que serão publicados na secção notícias do sítio. Através do fórum O fórum é um espaço de livre discussão de temas que a comunidade entenda adequados.


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