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sessão da União do Vegetal utilizando um “daime”, recebido de presente. Essa chamada recebeu o nome de “Correi para onde tem sombra”, e faz parte do acervo de cânticos utilizados em nossos rituais. Mestre Gabriel e Mestre Irineu desencarnaram no mesmo ano, em 1971. Como gesto de amizade, D. Peregrina, viúva do M. Irineu, conhecida carinhosamente como Madrinha Peregrina, chegou a ir a Porto Velho, em visita à nossa Mestra Pequenina, viúva do Mestre Gabriel. O autor da UDV sempre se pautou por manter boas relações, não somente com outros líderes hoasqueiros, mas também com a população em geral, e com as autoridades constituídas. Precisou, no entanto, enfrentar algumas dificuldades para que o uso do Vegetal deixasse de ser uma prática relacionada somente a populações indígenas e povos tradicionais da floresta, e passasse a ser aceito em círculos mais amplos, que se pautam pela legalidade dentro de uma ordem nacional. A trajetória da União do Vegetal vem sendo, desde os primórdios, na direção de uma crescente formalização de sua organização sem, contudo, afastar-se de sua linha doutrinária original e de suas raízes caboclas. Temos sempre promovido iniciativas no sentido de esclarecer àqueles que ainda não conhecem suas práticas, que o Vegetal é “comprovadamente inofensivo à saúde”, frase esta que está presente em nossos documentos, desde o primeiro estatuto. Igualmente importante é a “doutrinação reta”, que se encontra em concordância com valores éticos e morais, compartilhados pelos segmentos mais respeitáveis da sociedade envolvente. A UDV, como instituição religiosa, almeja a integração de seus membros, tanto no sentido do equilíbrio físico e psíquico individual, quanto no sentido social. Inicialmente, foi criada a “Associação União do Vegetal”. O M. Hilton Pereira Pinho redigiu o primeiro Regimento Interno, com 16 artigos, autorizado pelo Mestre, mas ainda não foi registrado em cartório. Esse regimento era, simplesmente, denominado de UNIÃO DO VEGETAL. No dia 23 de julho de 1967, um dos discípulos, o M. Cruzeiro (conhecido, atualmente, por M. Florêncio) viajou para 88

Manaus e distribuiu o Vegetal aos seus familiares, em 29 de julho, autorizado pelo Mestre Gabriel, dando início, assim, ao Núcleo de Manaus que, depois, recebeu o nome de Núcleo Caupuri. O Mestre assumiu o compromisso de visitar Manaus, e o M. Florêncio também tinha o compromisso de visitar Porto Velho - uma vez por ano. No momento da inauguração, em 1971, o Mestre Gabriel profetizou que, de Manaus, a União do Vegetal iria circular o mundo. Desde o início, o Mestre e seus discípulos lutaram contra resistências ao uso do Chá Hoasca. Embora fosse “comprovadamente inofensivo à saúde”, seu uso ainda encontrava preconceitos e arbitrariedades, tanto é que um delegado de Porto Velho chegou a deter o Mestre Gabriel, para fazer averiguações. Esse episódio foi publicado no Jornal Alto Madeira, em outubro de 1967, na narrativa intitulada “Convicção do Mestre”. O Mestre foi preso e solto no dia seguinte, explicando, aos seus discípulos, a missão da União do Vegetal, e lembrando o símbolo da Paz e da Fraternidade Humana, adotado por essa religião: “Luz, Paz e Amor”. A partir deste acontecimento, viu-se a necessidade do registro da Associação em cartório. O M. José Luiz de Oliveira e o M. Hilton Pereira Pinho já vinham elaborando o Estatuto da Associação Beneficente União do Vegetal, mostrando o texto ao Mestre, que lia, fazia as modificações necessárias e aprovava. Deram, então, continuidade ao trabalho, formando a primeira diretoria, em 1º de novembro de 1967, e registrando o primeiro estatuto em cartório, em março de 1968. No ano de 1970, houve outra forte perseguição pelas autoridades, em que o Sr. Rodolfo Ruiz, Chefe de Polícia do Território de Rondônia (equivalente ao Secretário de Segurança nos Estados), declarou verbalmente que a União do Vegetal estava fechada. O Mestre não fechou a UDV, mas demonstrando atenção à autoridade constituída, deixou de atender os adventícios e continuou realizando sessões com os sócios. O M. Monteiro, que estava na Presidência da Associação Beneficente União do Vegetal, 89

Comunidades Tradicionaisda Ayahuasca  
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