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Nº 18>>2010>>R$ 22,90

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centro ponto de partida

centro ponto de partida Nº 18 >> 2010

Henri-pierre Jeudy • patti Wilson • Vulcões • Geeks • ludoVic carème • keVin kelly • Jordi BurcH • repúBlica centro-africana • luciana pessanHa • cristiano madureira • meca • pedro alexandre sancHes • adenor Gondim • Jules Verne • sol • filipe Jardim • tHierry leGault • Vicente de paulo • imelda marcos • tina turner • elizaBetH taylor • caVernas • Grace kelly • centros espíritas • eVa péron • madonna • Jan-JosepH stok • paris Hilton • Bruno fert • iVan castro • aBBas • umBiGada

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28 profundezas

30 Viagem ao Centro da Terra na ficção tudo pode: até explorar o núcleo do planeta, onde a temperatura é de 6 mil graus célsius, sem chamuscar um fio de cabelo. a obra delirante de Jules Verne, por Silas martí 44 Buracos quentes Durante milhares de anos, grutas e cavernas serviram de abrigo e única forma de sobrevivência para o homo in process. marcella Áquila desbrava as entranhas da terra

100 O país do meio Enviado especial, o fotógrafo Jan-Joseph Stok tenta compreender a República Centro-africana, país que tem suas múltiplas formações etnológicas e linguísticas explicadas por Diego Diasa

60 Os três cones maias Vulcões de 11 milhões de anos, américa Central e cultura maia: o fotógrafo Ivan Castro revela os contornos do atitlán, lago na guatemala que encantou até o escritor aldous Huxley

112 Papo cabeça Escondido lá no centro do cérebro, o hipotálamo atua em funções importantes do corpo humano. Sonia maia queimou neurônios para explicar o funcionamento desse caroço vital para a vida

78 convergências

116 Eu sou geek! Conheça 15 garotos e garotas que têm a tecnologia como seu centro gravitacional. a turma de geeks foi selecionada na Campus Party por Ludovic Carème e marcos guinoza

80 Engoli meu marido, mas estou ótima Imelda, Tina, Denilma, Liz, nancy, grace, Eva, Isabelita, madonna, Paris: as engolidoras de parceiros. Por Eduardo Logullo 14

92 Samba do crioulo doido Durante 13 anos, a República Centro-africana foi comandada por um dos mais absurdos ditadores da história africana: Jean-Bédel Bokassa, “o imperador canibal”

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SUMÁRIO

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132 Vamo batê umbigo? “monstruosa, indecorosa, voluptuosa, abominável, lasciva, imoral, obscena, repelente, impudica”: trazida da África, a umbigada usa o centro do corpo para causar. Por Pedro alexandre Sanches, com ensaio de adenor gondim

144 círculos

146 No dia q eu vim-me embora movimentos de migração dos campos rumo aos centros urbanos surgem no editorial de moda assinado por Cristiano madureira, com as coleções da temporada outono/inverno 2010 238 Criar / Elaborar / Questionar Em meteórica passagem pela SPFW, a stylist Patti Wilson fala sobre o interminável fascínio pelos 80’s, a chegada dos 90’s, fotógrafos bombados, os centros da cena fashion, Forum e moda

246 interligações

248 A bola de fogo O astrólogo e escritor João acuio, do site Saturnália.

com, apresenta visões astrológicas da chamada estrela central do sistema em que giram planetas ligados ao zodíaco 252 No balanço da rede Kevin Kelly, um dos fundadores da revista Wired, antecipava na década passada a ideia da rede como ícone do século XXI: “Uma teia de setas, sem centro e que desaparece em extremidades indeterminadas”. Esse futuro chegou 256 [{(Mesa q treme)}] [{(Espírito q baixa)}] Por que um centro espírita se chama “centro espírita”? Bruno moreschi tentou contato com “almas do além” para descobrir. mas nenhuma delas baixou para conversar com ele 262 O cubo Um dos fundamentos do Islã, a peregrinação a meca leva milhares de fieis à mesquita de al-Haram: lá está a Pedra Preta, o amuleto central da fé islâmica. Por amer moussa ffwmag! nº 17 2009

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284 A memória é móvel Em entrevista exclusiva para Daniel Cariello, em Paris, o sociólogo Henri-Pierre Jeudy ataca a onda de revitalização dos centros históricos: “Isso transforma as cidades em museus” 290 No traço da praça Bancos, funks, sorvetes e bizarrices. O ilustrador Filipe Jardim e a repórter Luciana Pessanha desembarcam na histórica Bananal e confirmam: a praça é o centro dos acontecimentos sociais 16

300 Meio quilo de feijão, uma penca de bananas e dois goles de cachaça a partir de imagens do mercado municipal de São Paulo, fotografado por Jordi Burch, percorremos a história dos mercados centrais, que são pontos de referência das cidades brasileiras 314 Última Página 315 English Content

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276 Capitalismos moventes O centro da economia sempre muda de eixo. Com a perda gradativa da influência dos EUa como principal potência do planeta, quem assumirá o comando? Por Álvaro machado

340 Onde Encontrar Capa: Ronan Ideker (Mega) Foto: Cristiano Madureira Beauty: Cecília Macedo por Duda Molinos e L’Oréal (Capa) Tratamento de imagem: Jorge Morábito

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colaboradores

Adenor Gondim Fotógrafo | Autor das imagens do grupo As Ganhadeiras de Itapuã: “Sou apaixonado por culturas populares. Registrar As Ganhadeiras materializa o desejo de me aproximar e, na medida do possível, preservar uma das belas tradições do povo simples da Bahia” | Centro das atenções: “Bahia”

ÁlvAro mAchAdo Jornalista | Diretor da Opera Prima Editorial | É dele o texto sobre os centros econômicos de poder: “A matéria me fez lembrar que quem fica parado é poste. Tudo se move, inclusive o centro”

Amer moussA Arquiteto | Trabalha com videodesign | Escreveu sobre a Pedra Preta, ícone islâmico de Meca | Centro das atenções: “Novas ideias. Na era da automação, o centro está em todo lugar conectado”

Bronie lozneAnu Colabora com revistas de moda e comportamento | Entrevistou a stylist Patti Wilson: “Às vezes não é fácil lidar com o carão do povo da moda. Alguns têm o centro do mundo no meio do umbigo” | Centro das atenções: “Livros, cinema, teatro, exposições. Atividades que criam reflexão sobre meu centro”

Bruno Fert Fotógrafo | Fez o retrato do sociólogo Henri-Pierre Jeudy: “Eu o encontrei em seu apartamento, na região central de Paris. Ele vive em um velho edifício onde as pedras foram moldadas pelo tempo e pela história. Da sua janela, tem um fantástico observatório da evolução do centro da cidade” | Centro das atenções: “Encontrar uma vida com múltiplos centros”

Bruno moreschi

cecíliA mAcedo Make up artist | Criou a maquiagem do editorial de moda: “Pude conhecer o universo de fotógrafos antigos que fizeram da guerra uma forma rica de enxergar a moda” | Centro das atenções: “A verdade”

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Jornalista | Escreveu sobre centros espíritas: “Não sabia que existia água com fluidos de espíritos. Mas faltou coragem de beber o líquido meio cinza” | Centro das atenções: “Detalhes que quase nunca estão no centro das coisas”

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Cristiano Madureira Fotógrafo | Autor do editorial de moda: “Quatro dias com dez modelos em locações: tempo instável, estradas de terra, neblina. Trabalhar com Paulo Martinez é um talismã: a chuva para, a modelo fica linda e a foto acontece” | Centro das atenções: “A ausência de medo, a confiança”

daniel Cariello

Publicitário e mestrando em jornalismo cultural | Entrevistou o professor de estética Henri-Pierre Jeudy: “Centro das cidades: revitalizar para quem favorizar ?” | Centro das atenções: “Neste momento, a chegada do meu primeiro filho, em maio”

diego diasa Pesquisador, poeta, criador | É dele o texto sobre a República Centro-Africana: “Descobrir mais de 80 etnias no centro da África e vislumbrar a relação das línguas e do movimento desses povos significa espaços novos. Na África, tudo se relaciona com o todo” | Centro das atenções: “Signos de toda espécie, gênero e classe. Daqueles que apontam, esclarecem ou o são provas de si”

Fernanda Bley Produtora de objetos | Colaborou com o editorial de moda: “Do simples ao extravagante, todos nas fotos têm a sua beleza” | Centro das atenções: “Observar diferenças étnicas e sociais convivendo no mesmo espaço”

Filipe JardiM Ilustrador | Formado em artes plásticas | Autor dos desenhos da Praça Matriz de Bananal: “A internet revolucionou até as pracinhas do interior. Todas as tribos surgem em uma cidade de 10 mil habitantes: playboys com carros tunados, surfistas, darks, rockers, rastas, caipiras, pagodeiros etc.” | Centro das atenções: “Educação”

Fotógrafo guatemalteco | Professor de fotografia e animação 3D | São dele as imagens do lago Atitlán: “Um dos pontos mais belos da Guatemala: um lago azul rodeado de vulcões, com uma gente amável. Admiro a maneira como protegem sua cultura” | Centro das atenções: “Penso todos os dias em coisas impossíveis, em que aprendo algo novo ou que tenho medo. Fico feliz por superá-las”

João aCuio Astrólogo, psicólogo, escritor | Edita o site Saturnália (www.saturnalia. com.br) | Escreveu sobre o Sol: “Enquanto tecia o texto, lembrava do mito do signo de Escorpião, que conta a história de Orião, o grande caçador, que perde os olhos numa peleja e os recupera ao fitar Hélio, o deus Sol” | Centro das atenções: “A estrada que une astrologia e televisão, deuses sem deus e o panteão pop”

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ivan Castro

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Jordi Burch Fotógrafo português radicado no Brasil | Fez as imagens do Mercado Municipal de São Paulo: “Há coisas na vida que são iguais para todo mundo. Na praia, por exemplo, não há malas Louis Vuitton nem pratos feitos. O que há são pessoas. No mercadão é igual” | Centro das atenções: “A margem das coisas, o indefinido. Não é carne nem peixe. O que é?”

Luciana Pessanha

Escritora e professora da PUC-Rio | Fez footing na Praça da Matriz, em Bananal: “O centro do mundo pode ser meu umbigo, a Praça da Matriz, a Time Square ou o Sol, dependendo do fim de semana” | Centro das atenções: “O que estou fazendo exatamente naquela hora”

Ludovic carème Fotógrafo francês radicado em São Paulo | Autor dos retratos de nerds e geeks que acamparam na Campus Party: “Eles já nascem com a cabeça ligada na rede de computadores”

marceLLa ÁquiLa

Inprocess | Atualmente: “fusão nuclear | bombas | bestrelas” | Escreveu sobre cavernas: “Há insuportável clareza no fim do túnel – ponto fugaz” | Centro das atenções: “Horizonte”

Pedro aLexandre sanches Jornalista | Escreveu sobre umbigo & umbigada: “Foi um exercício de imaginação. Cada um dos termos é passível de diversas conotações” | Centro das atenções: “A música brasileira e suas correlações com os demais componentes da sociedade”

siLas martí

vicente de PauLo Fotógrafo | Clicou a stylist Patti Wilson nos bastidores do desfile da Forum na SPFW: “Sempre achei bacana o trabalho dela. Foi interessante acompanhar de perto” | Centro das atenções: “A beleza”

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Jornalista e crítico de arte da Folha | É dele o texto sobre Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne: “Nem então nem hoje a ciência responde as perguntas mais simples” | Centro das atenções: “Qualquer composição que faça sentido, no homem e na arte”

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Publisher Paulo Borges Conselho Editorial Graça Cabral, Gustavo Bernhoeft e Paulo Borges Diretor Geral Gustavo Bernhoeft Diretora de Criação Graziela Peres Diretor de Redação Eduardo Logullo Editor Assistente Marcos Guinoza Editor de Moda Paulo Martinez Diretora de Arte Renata Meinlschmiedt Designers Patricia Teruya, Maria Carolina de Lara Pesquisa de imagens Aldrin Ferraz Produção Executiva Mauro Braga e Renata Jay Assistente de Produção Nuno Garcia Produtora de Moda Larissa Lucchese Produtor Gráfico Fábio Cardoso / Produx Revisão Daniela Alvares Publicidade Adriana Dantas e Luciana Eschiapati Assistente de Publicidade Tânia Leone Colaboradores Adenor Gondim, Álvaro Machado, Amer Moussa, Bronie Lozneanu, Bruno Fert, Bruno Moreschi, Cecília Macedo, Cristiano Madureira, Daniel Cariello, Diego Diasa, Elohim Barros, Fernanda Bley, Filipe Jardim, Guto Lobato, Ivan Castro, Jan-Joseph Stok, João Acuio, João Antonio Lourenço, Jordi Burch, Luciana Pessanha, Ludovic Carème, Marcella Áquila, Pedro Alexandre Sanches, Silas Martí, Sonia Maia, Vicente de Paulo A ffwMAG! (ISSN 1809-8304) é uma publicação da Editora Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Todos os direitos reservados. Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do conteúdo editorial. Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores e não refletem a opinião da revista. Distribuição Assessoria Edicase www.edicase.com.br Distribuição exclusiva em bancas Fernando Chinaglia (21) 2192-3200 Pré-impressão Retrato Falado Impressão Ibep A Lumi 05 não se responsabiliza pelo conteúdo dos anúncios publicados nesta revista nem garante que promessas divulgadas como publicidade serão cumpridas. Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Alameda Joaquim Eugênio de Lima, 61, Jardim Paulista, São Paulo, SP – CEP: 01403-001 – Tel. 55 11 3149-3330 ffwmag@spfw.com.br

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gema rara Dois Zero Um Zero. Estamos num momento histórico que elege bases ancestrais como portos. Ou em plataformas que esperam ou tentam mudanças. Misturações que permitem saltos. Intenções de trazer/olhar o novo. Passado, presente, futuro. Buscar o ovo. Interrogar o ponto. Ir a lugares de origens. Zeros. Relógios. Umbigos. Inventar derivações do X referencial. O ponto. A saída. A chegada. Voltas. Avanços. Revoltas. Convergências. Divergências. Zero. Tudo. Nada. Centros. Díspares. Talvez o verbo zerar. Por tudo isso, em 2010 ffwMAG! vai observar as matrizes de orientações básicas que levam (ou questionam) os pulsos e os impulsos da existência, do senso, do olhar, da saída, da entrada e da busca por eixos. Começamos o ano editorial pelo tema Centro. Pontos de partida, pontos de descoberta, pontos de encontro, pontos de desabrigo. Podemos refletir com o sociólogo Henri-Pierre Jeudy, que questiona a revitalização dos centros históricos. Segundo ele, a recuperação arquitetônica de partes consideradas “antigas” (em entrevista exclusiva em Paris) desestrutura a vida original das cidades. Essa polêmica nem chegou ao Brasil. Do mesmo modo que ainda são poucos os que avisam que os anos 1990 vão tomar conta da moda, como analisa, também em conversa só para ffwMAG!, a centralizadora de ideias Patti Wilson, essa mulher que avalia os terremotos contínuos do estilo. Andar, andar, andar. Antecipando editorialmente outros movimentos, o fotógrafo Cristiano Madureira reproduz o épico pop de quem sai em busca dos centros: o dia em que muita gente parte de sua cidade com as malas cheias de ideias. A edição Centro prossegue por pautas rompantes. Clicamos o momento geracional dos geeks, no ensaio de Ludovic Carème, porque eles centralizam, na Campus Party, a tecnologia como direção. Pensam o mundo de modo vulcânico, concêntrico, expansivo. Quase do mesmo modo que pensou Jules Verne há 150 anos quando inventou sua viagem ao centro da terra (os personagens entravam em um vulcão na Islândia) ou quando os afro-brasileiros criaram a dança da umbigada, na matéria cavucada por Pedro Alexandre Sanches e com o registro quase cinema de Adenor Gondim sobre As Ganhadeiras de Itapuã. Depois baixamos num centro espírita, entramos em cavernas paleolíticas, analisamos os movimentos dos centros políticos, percorremos os povos maias que centralizam a cultura maia no lago Atitlán (Guatemala, América Central), confirmamos a internet como rede no texto que a Wired publicou em 1994, analisamos o Sol como a bola de fogo central, passeamos em torno do coreto de uma praça em Bananal, entramos no meio do cérebro para descobrir as funções centrais do hipotálamo e listamos dez mulheres fortes que viravam centros de poder enquanto engoliam seus maridos. Mas talvez nada se compare a duas matérias que revelam uma nação perdida lá no meio do continente africano. Mostramos pela primeira vez no Brasil algo sobre a República Centro-Africana, em estudo etnológico e imagens exclusivas do fotógrafo holandês Jan-Joseph Stok, nosso enviado para revelar o coração (o centro) da África. Ele capta com sua câmera uma nação das mais miseráveis do mundo que ainda teve um imperador canibal que se imaginava em Versailles. Alguém sabia disso? Pois é. O mundo tem centros tão terríveis que faz o Haiti parecer um luxo. Que horas são? Ponto zero. Centro. Ponto de partida. Descobertas. Fim. Meio. Início. Infinito. Começo de tudo. Caminho de tanto. Olhar para todos os lados. São as águas de março fechando o verão. Princípios de vida em meu coração. Paulo Borges Publisher

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VIAGEM AO cEntrO

DA TERRA “Se a Terra foSSe uma laranja, não poderíamoS aTraveSSar nem a caSca.” mas, como na ficção tudo pode, jules verne inventou de explorar o núcleo do planeta, onde a temperatura chega aos 6 mil graus célsius. os personagens do escritor atingem as profundezas terrestres sem chamuscar um fio de cabelo

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Por Silas Martí Ilustrações Édouard Riou

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Para atingir o centro da Terra, o destemido cientista Otto Lidenbrock e seu sobrinho, Axel, usam a cratera de um vulcão extinto na Islândia como entrada para as profundezas terrestres ffwmag! nº 18 2010

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www.jules-verne-club.de/KaleidosKop/chromotypo_55.html / jgverne.cmact.com/ ao lado: gustave riou / leemage

Na fantasia delirante de Verne, personagens percorrem a p茅, ultravelozes, quase 3 mil quil么metros em 30 dias, em profundidades de mais de 100 quil么metros abaixo da crosta terrestre

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Nas crateras subterrâneas, os heróis do livro de Jules Verne encontram terríveis monstros e serpentes, tartarugas gigantescas e florestas de cogumelos hipertrofiados ffwmag! nº 18 2010

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The GranGer ColleCTion, new York

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uando Jules Verne escreveu sua Viagem ao Centro da Terra, em 1864, geólogos conheciam apenas os primeiros 15 quilômetros da crosta terrestre. Faltavam provas e sobravam teorias para explicar o que sustentava o mundo cheio de oceanos, cadeias montanhosas e metrópoles burguesas como Paris, onde vivia. Verne começou por acaso sua carreira literária. Ainda jovem, estava entediado numa festa e brincou de escorregar pelo corrimão de uma escada. No fim da descida, trombou com a barriga volumosa de ninguém menos que Alexandre Dumas, o filho. Foi o autor de A Dama das Camélias que decidiu encenar a primeira peça de teatro de Verne na capital francesa. Passado o acidente que desembocou nos palcos, descambou para os livros. Depois de ter o primeiro deles recusado por 15 editores, conseguiu lançar Cinco Semanas em um Balão e descobriu nas distorções da ciência um filão literário. Esticou aqueles 15 quilômetros conhecidos da litosfera em cerca de 120 intermináveis quilômetros rumo ao centro do globo. Paralelo à descida abaixo do nível do mar, arquitetava um regresso às origens das espécies de plantas e animais. No livro, além de penetrar nas placas continentais, volta mais de 300 milhões de anos no tempo, chegando até a era paleozoica –aquela em que surgiram as primeiras samambaias, bem antes dos dinossauros. Viagem ao Centro da Terra, um dos mais de cem livros de Verne, virou best-seller instantâneo, Harry Potter dezenovista. Materializava o espírito de uma época e arrastava seguidores. Charles Darwin tinha lançado sua teoria da evolução cinco anos antes, abalo sísmico para a Igreja e impulso à difusão da paleontologia, geologia e afins. Auguste Comte, pai do positivismo e sua mania de classificar o mundo em categorias, tinha acabado de morrer, deixando como legado a crença inabalável no empirismo científico. A Europa domesticava o vapor e a eletricidade e inventava as máquinas da Revolução Industrial. Verne fez desse livro, e dos que escreveu depois, uma espécie de auto de fé da ciência. Não é à toa que situa a ação na Alemanha, motor das descobertas

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científicas de sua época. Otto Lidenbrock é o cientista maluco que consegue decifrar um conjunto de pistas num velho pergaminho e decide viajar ao centro da Terra descendo pela cratera de um vulcão extinto. Seu sobrinho, Axel, faz o contraponto à teimosia, lembrando que o centro do mundo, bola de gás incandescente que era, não podia ser visitado por humanos. Lidenbrock ignora advertências. Precisa ver para crer. Enumera um punhado de teorias que dizem o contrário, que a crosta terrestre é sólida, dividida em estratos, e arrasta o sobrinho de Hamburgo até a Islândia. Atravessam a ilha, escalam o vulcão Sneffels, descem no abismo da cratera e começam a escarafunchar os segredos do globo. Não se queimam nem têm grandes dificuldades com a descida até os porões da Terra. Na fantasia de Verne, personagens percorrem a pé, ultravelozes, quase 3 mil quilômetros a uma profundidade de mais de 100 quilômetros em cerca de um mês. Mergulham na cratera de um vulcão equipados com cronômetro, bússola, manômetro e uma lanterna elétrica primitiva. Voltam à superfície terrestre numa jangada improvisada, cuspidos das profundezas do planeta pela fúria de uma erupção, envoltos em lava incandescente – tudo isso, é claro, sem sofrer nem um arranhão. Mas Verne criou uma casca de realidade em torno dos episódios, por mais fantásticos e insólitos que fossem à primeira vista. Usou a ciência em ebulição para sustentar páginas e páginas de descrições geológicas, especificações de classe e citações de estudiosos – mais de dois terços do livro se dedicam à formação exaustiva desse arcabouço teórico. Num eco da moda positivista, Lidenbrock tem em casa espécimes minerais etiquetados e catalogados de acordo com suas propriedades físicas. Faz questão de citar a teoria de Humphry Davy, que pensava o centro terrestre como sucessão de compartimentos feitos de materiais distintos. Aplaca toda e qualquer inquietação com a máxima: “Quando a ciência fala, só nos resta calar a boca”. E a ciência fala difícil. Segundos antes de uma explosão, Axel

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prevê a catástrofe sentindo “um cheiro forte de protocarburato de hidrogênio”. Embora diga não se importar com isso, sabe que o tempo está dividido em períodos de nome estranho, como “pliocênicos, miocênicos, eocênicos, cretáceos, jurássicos, triássicos, permianos, carboníferos, devonianos, silurianos”. Situa o leitor pontuando espaços geológicos: “depois dos xistos vieram os gnaisses, com uma estrutura estratiforme, notáveis pela regularidade e pelo paralelismo de suas lâminas, e mais tarde, os micaxistos, dispostos em lâminas”. Exagera no tom professoral, lembrando que “o basalto é uma rocha de origem ígnea”, que “assume formas regulares que surpreendem pela disposição”. Nas crateras subterrâneas, antecipa o embate com terríveis monstros e serpentes, tartarugas de 13 metros de largura e uma floresta de cogumelos hipertrofiados com descrições minuciosas dos fósseis compactados no chão. “Este é o maxilar do mastodonte, e estes são os molares do dinotério; aquele ali é um fêmur que só pode ter sido do maior desses animais, o megatério”, descreve. Na ala da flora, cita “licopódios de 30 metros de altura; sigilárias gigantes; fetos arbóreos, grandes como os pinheiros das altas latitudes; lepidodendros de caules cilíndricos bifurcados, coroados por folhas compridas e eriçadas de pelos grosseiros como monstruosas plantas carnosas”. No cinema, essa verborragia cede espaço para os efeitos especiais e a exuberância datada do cinemascope. Pouco antes do centenário de Viagem ao Centro da Terra, surgiu sua primeira versão cinematográfica – hoje são três, a última de dois anos atrás –, que colocava iguanas filmados de perto em justaposição com atores e atrizes em pânico, só para ilustrar que tipo de perigos rondavam as profundezas terrestres. No lugar do mar subterrâneo assolado por tempestades, personagens do filme de Henry Levin descobriam o reino perdido da Atlântida, aquele que afundou “em um único dia e noite de infortúnio”. Verne, mais simplório, encerra sua narrativa sem especificar que mar era aquele sob uma abóbada imensa de granito. Não complica

a própria tese parando nos 120 quilômetros, ou seja, sem passar da primeira camada da crosta terrestre, que tem, na verdade, mais de 6 mil quilômetros de profundidade. Também passa longe do calor real de 5 mil graus dessa região do planeta, deixando intactos seus personagens aventureiros. Sua busca tinha o destino simbólico do centro da Terra, esse gigante que cospe de volta seus invasores minúsculos. Mas tentava esconder ao mesmo tempo um vazio profundo, buscando o marco zero da existência. Verne tentou, mas não conseguiu fazer sentido da vida terrena. Na hora do aperto, mostra que não existe ciência milagrosa e apela para outros poderes. Quando Axel se perde do tio, com sede e sem luz nos grotões do planeta, relata: “Orei agradecendo a Deus; no meio daquela imensidão sombria, ele me guiaria até o único ponto, talvez, de onde eu conseguiria ouvir a voz de meus companheiros”. Acaba mostrando que todo seu arsenal enciclopédico parece estar a serviço da obra de um único autor, as peripécias do “Criador”, com maiúscula, na sintaxe de Verne. Contemporânea do raio X, do rádio, do telefone e do automóvel, a prosa do autor conseguiu antecipar ainda o helicóptero, a televisão, a iluminação a néon e, no campo bélico, tanques, explosivos capazes de aniquilar o mundo, mísseis teleguiados. Mas não foi capaz de arquitetar uma base teórica para os mandos e desmandos da natureza, como queria Verne. Talvez pesasse demais o poder da Igreja, talvez fosse comodismo de um homem de letras que vestia a carapuça da ciência, mas Verne, como o resto dos crentes e descrentes, temia o desconhecido. Quando seu personagem perde a lanterna no fundo do abismo, confessa: “Não me atrevia nem mesmo a baixar as pálpebras, com medo de perder o menor átomo daquela claridade que fugia! Parecia que a qualquer momento ela ia se extinguir e que eu seria tragado pelo ‘negror’”. Fica, no fim, o “destino pavoroso dos condenados que são amarrados à boca de um canhão, no momento em que o tiro parte e dispersa seus membros no ar”. ffwmag! nº 18 2010

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The GranGer ColleCTion, new York

Em sua obra, por mais fantásticos e insólitos que fossem os episódios, Verne cria uma noção de realidade ao usar dados científicos para sustentar minuciosas descrições geológicas, especificações de classe e citações de estudiosos

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Verne encerra a narrativa sem especificar que mar era aquele sob uma monumental abóbada de granito. Interrompe a descrição aos 120 quilômetros, sem passar da primeira camada da crosta terrestre, de 6 mil quilômetros de profundidade

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Gustave Riou / LeeMaGe

Os personagens do popular livro de Jules Verne retornam ilesos à superfície terrestre numa jangada improvisada, atirados das profundezas do planeta pela fúria de uma erupção e envoltos em lava incandescente

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www.jules-verne-club.de/KaleidosKop/chromotypo_55.html / jgverne.cmact.com/


buracos quentes O que sãO as cavernas? Lugares estreitOs, apertadOs, difíceis de penetrar. Ou abertOs e generOsOs. ÚmidOs e, em aLguns casOs, bem quentes. O fatO é que deLes tOdOs nós saímOs. nascemOs. Há mais de 10 miL anOs. buracO, dO Latim cavus, Ou caverna: entre nessas entranHas

Upper Antelope Canyon: situado próximo de Page, às margens do lago Powell e dentro da reserva Navajo, no Arizona, EUA. No idioma navajo é chamado Tse’ bighanilini, que significa “o lugar onde a água corre através das rochas” 44

Pete Ryan/national GeoGRaPhic Stock

Por Marcella Áquila

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Pinturas rupestres na gruta Lascaux II. A gruta faz parte de um conjunto de 147 sítios arqueológicos e 25 cavernas no vale de Vézère, próximo de Montignac, no departamento francês de Dordonha. O lugar foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1979

A

idade da Terra. No começo era a lava. E tudo surgiu de um único cuspe. E algumas baforadas. O gesto inicial. Um gosto tóxico. É comum a formação de cavidades do escoamento de lava vulcânica. Essas, quando acontecem, são chamadas de cavernas primárias – pois surgem ao mesmo tempo em que se forma a rocha que as abriga. Depois de arder por muito tempo em chamas espetaculosas – como um organismo que quer perdurar e, portanto, precisa entrar em equilíbrio – veio a chuva. E choveu sem parar por milhares de anos. O que não se tornou mar, virou “sertão”. A lava resfriou, deu origem às rochas que erodiram, sedimentaram, fundiram e formaram – entre muitas outras – rochas carbonáticas. É da corrosão das rochas carbonáticas – entre as quais estão o calcário, o mármore e a dolomita – que se formam grande parte das cavernas na Terra. Afinal, água mole em pedra dura, tanto bate até que... Surgem as cavernas secundárias – pois sua construção é posterior à formação da rocha na qual é esculpida. As águas de rios e da chuva penetram no solo e compõem com o gás carbônico 46

(CO2) – da atmosfera ou presente no próprio solo – uma solução levemente ácida. Ácida o suficiente para diluir e carregar os minerais da rocha, em fendas, para camadas geológicas mais profundas. Resumidamente: essas fendas se alargam, formam grandes galerias que, com o rebaixamento dos lençóis freáticos, ao longo do tempo, se esvaziam, secam e passam a ser revestidas e ocupadas por elementos compostos dos minerais trazidos pelas águas. Espeleotema é o nome que recebem esses elementos, dentre os quais, os mais popularmente conhecidos são as estalactites e as estalagmites. Estalactites são aquelas formações pontiagudas construídas a partir da cristalização dos minerais na solução que brota da parte superior da cavidade. Já as estalagmites são erguidas a partir das gotas de solução que atingem o chão. Tais elementos, somados aos lagos internos e, em alguns casos, à entrada de luz, formam grandes espetáculos de cor. Pois entre os inúmeros atributos desta terra – em que tudo dá – as cavernas estão entre alguns dos mais belos. No Brasil

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© Jean-Daniel SuDreS/HemiS/CorbiS/CorbiS (DC)/latinStoCk / ao laDo: keenpreSS/national GeoGrapHiC StoCk


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STEPHEN ALVAREZ/NATioNAL GEoGRAPHic STock

Descoberta em 1998, a Rumble Room Cave é a segunda maior gruta dos Estados Unidos – e a mais secreta. Está localizada em Spencer, Tennessee ffwmag! nº 18 2010

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Gruta habitada por ciganos, em Granada, na Espanha. Durante longo período da história, as cavernas serviram de abrigo para os antepassados do homem – do australopiteco ao homem de cro-magnon – ou homem do “grande buraco”

existem 5.025 cavernas cadastradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), concentradas principalmente nos Estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. A maior delas, a Toca da Boa vista, com 107 quilômetros de extensão, está na Bahia. Já em terras além-mar, o conjunto com maior comprimento total conhecido é o de Mammoth, em Kentucky, EUA, com 579 quilômetros mapeados. Depois de tantos dados, o grande lance é que esses buracos são verdadeiros guias para o centro da terra e, exatamente por isso, constituem enormes túneis do tempo. Seja pelas informações que nos trazem de um passado distante, seja pela curiosidade e imaginação que estimulam a criação de antepassados futuros.

MUNDO ABRIGO

Do australopiteco ao homem de cro-magnon – ou homem do “grande buraco”, também conhecido como Homo sapiens – tinham todos, durante um bom tempo, as cavernas como abrigo e única saída para sua sobrevivência. Tratava-se do

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recurso de que dispunha esse homo in process cujas habilidades ainda não alcançavam grandes feitos – além de lascar pedras, coletar frutos e raízes e caçar animais. No tempo: estamos por volta de 20 mil anos a.C., auge do último período glacial. Quanto ao domínio do espaço – escasso – disputavam hominídeos, mamutes, leões das cavernas e cervos gigantes. Durante o período gelado o homo in process – agora com bastante tempo disponível e literalmente entocado – praticou e desenvolveu algumas técnicas de comunicação como a pintura rupestre. Embora as primeiras e mais antigas pinturas encontradas datem de 30000 a.C., é do período entre 15000 e 12000 a.C. a chamada “capela sistina da pré-história”. A caverna de Altamira, na Espanha, descoberta em 1879, abriga um dos maiores e mais importantes conjuntos pictóricos primitivos que impressiona, sobretudo, pelo realismo dos animais ali desenhados. A maioria dos desenhos encontrados utiliza sangue, argila e excremento de morcegos na sua composição e retratam animais selvagens

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Martin Gray/national GeoGraphic Stock / ao lado: GervaiS courtelleMont/national GeoGraphic Stock


DaviD alan Harvey/national GeoGrapHic Stock

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Em Matmata, na Tunísia, grupos berberes habitam grandes buracos cavados no chão. Esse tipo de moradia aparece na série Guerra nas Estrelas. O herói Luke Skywalker vive em uma dessas “covas” ffwmag! nº 18 2010

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Grutas em Frijoles Canyon, no Monumento Nacional Bandelier, Novo México. Os orifícios nas paredes do canyon serviram de habitação para povos ancestrais da América do Norte

– bisões, cavalos e cervos. Há quem diga que as pinturas rupestres, além de estabelecer registro e comunicação com outros grupos, possuíam caráter mágico para o hominídeo desse período – retratar o momento da caça antes de ela acontecer traria bons agouros. Além das pinturas nas paredes é comum encontrar nas cavernas objetos talhados de osso, esculturas de argila, pedra e chifres de animais. Das estatuetas encontradas destacam-se as de Vênus – mulheres de carnes fartas ou mesmo grávidas –, que indicam a expectativa por dias mais abundantes diante da paupérie das glaciações. É apenas no começo do período neolítico – aproximadamente 10000 a.C. – que o clima começa a esquentar e o homo – nesse momento mais sapiens – pode botar seu corpinho pra fora.

PANGEIA GERAL

Diferente do que muitos pensam os homo lascados e polidos de todas as espécies não foram os únicos tipos a frequentarem os buracos desse mundo. Há tempos um sujeito designado por Vincent T. Hamlin como Brucutu – tam-

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bém conhecido por Alley Oop, do original em inglês – junto com seu companheiro Foozy – o troglodita – costumavam caçar animais ameaçadores por aí. Desses indivíduos se tem notícia não só de tempos mais remotos, mas em muitos momentos da história. É que em 1939 o Dr. Elbert Wonmug – parente de Albert Eistein – desenvolveu uma máquina do tempo e, ao estabelecer conexão direta com Brucutu, permitiu que este viajasse sem escalas para outros momentos marcantes na história. Brucutu esteve com celebridades como Cleópatra, Rei Artur e com o ilustre Ulisses. Até mesmo Roberto Carlos aos “encantos” de Brucutu se rendeu dedicando-lhe uma música em 1965. A terra natal dessa figura, porém, era o reino de Mu, que vivia em conflito com o reino de Lem – derivado de Lemúria. Corre a boca pequena que Mu, Lemúria e Atlântida eram três grandes civilizações que submergiram com a separação da pangeia. Sobre essas civilizações muito se especula, mas nada ainda foi confirmado. Não se sabe se data do mesmo período o desaparecimento de Bedrock,

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Jodi Cobb/NatioNal GeoGraphiC StoCk / ao lado: paul damieN/NatioNal GeoGraphiC StoCk

Em Petra, na Jordânia, muitos nômades do deserto Wadi Rum habitam cavernas. Na foto, família beduína prepara refeição para uma cerimônia de casamento

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Mulher budista faz orações em uma caverna sagrada em Mekong, Near Pak Ou, no Laos 56

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W.E. GarrEtt/NatioNal GEoGraphic Stock

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Caverna em Namur, sul da Bélgica, na região de Valônia: o local é um antigo ponto de peregrinação

cidade pré-histórica com cerca de 2.500 habitantes, donde os mais conhecidos são os da família Flintstone. Das civilizações perdidas, os últimos registros que se têm são os do geólogo alemão Dr. Otto Lidenbrock que, em 1863, junto com seu sobrinho Alex, realizou uma viagem ao centro da terra. Os relatos dessa expedição foram grafados por Jules Verne, no livro de mesmo nome. A viagem teve início na cratera de um vulcão na Islândia, percorreu inúmeros corredores até a descoberta de uma galeria central – o centro da terra – que abrigava, além de um oceano, a vida que se acreditava perdida há muitos milhares de anos – eram dinossauros e ancestrais humanos. A aventura teve fim com o retorno à superfície, dessa vez por uma outra abertura, a do vulcão Stromboli, na Sicília.

MUNDO UMBIGO

“Conhece-te a ti mesmo”. A célebre inscrição presente no pórtico do templo de Apolo, em Delfos, é também princípio fundamental nas investigações socráticas. O mito da caverna,

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escrito por Platão – discípulo de Sócrates e onde este aparece como personagem principal –, é certamente uma das alegorias mais conhecidas e estruturais do pensamento ocidental. A caverna aqui se refere a um mundo onde as sombras são tomadas por objetos concretos, dissimulando a realidade das coisas. A caverna configura um espaço de obscuridade e de confusão. Sair dela e, portanto, ver a luz – descobrir a verdade – é o caminho da investigação filosófica, do pensamento. Por mais contraditório que possa parecer, esses buracos milenares – as cavernas – quando tomados como objetos de estudo científico processam exatamente a clareza e a precisão que tanto estimularam o pensamento de Sócrates. Embora sejam inúmeras as cavernas catalogadas no mundo todo, ainda não são muitas aquelas estudadas a fundo. E profundidade é o que não falta a muitas delas. A quais lugares elas levam ainda é um mistério. O fato é que esses gigantes têm ainda muito a nos revelar.

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Winfield Parks/national GeoGraPhic stock / ao lado: © harrY GrUYaert / MaGnUM Photos

Caverna sagrada nas montanhas Marble, Vietnã: lá se encontram santuários budistas entre túneis e grutas

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OS TRÊS cOneS maiaS Vulcão. laVa. Erupção. palaVras bElas, palaVras ígnEas, palaVras quEntEs. lago atitlán. américa cEntral. uma mancha azulada no mEio da guatEmala, nação formada por dEscEndEntEs da ciVilização maia. cada puEblo do lago tEm a sua língua, o sEu trajE E a sua crEnça Fotos Ivan Castro

Departamento de Sololá, Guatemala: vista aérea do vilarejo de Santa Catarina Palopó, com o lago Atitlán ao fundo ffwmag! nº 18 2010

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Muitos moradores de Santa Catarina Palopó sobrevivem do que pescam no Atitlán. Ao lado, mulheres em Panajachel, principal cidade do lago e conhecida como “Gringotenango” (“lugar de gringos”), por receber muitos visitantes estrangeiros

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s maias criaram o mais importante eixo cultural dessa geografia em forma de istmo que une o continente sulamericano ao norte-americano. No entorno do lago, os vulcões San Pedro (3.208 metros), Toliman (3.150 metros) e Atitlán (3.153 metros). As montanhas impetuosas em forma de cone já expeliram milhões de metros cúbicos de material magmático. Hoje são gigantes adormecidos em berços esplêndidos, feito condutos que ligam a superfície da terra a camadas geológicas profundas. A viagem até Atitlán começa na cidade de Antigua Guatemala, vila setecentista que foi a terceira capital guatemalteca. Esse núcleo colonial é tão bonito e sedutor e apaixonante e sonhador que baixa a vontade de ficar por lá vários vários vários vários vários vários dias. Fazendo nada. Nada. Fazendo a siesta nas pousadas salerosas. Olhando igrejas. Tomando litros e litros e litros da aguardente Quetzalteca. Melhor resistir a tamanha tentação. E se mandar logo por 16 quilômetros de estradas cheias de curvas até o departamento de Sololá, onde se encontra Panajachel. Essa pequena cidade, movimentada por indies, geeks, freaks e globe trotters europeus, será a base para conhecer o Atitlán e os pueblos aos sopés dos vulcões. É de chorar a visão do lago de 126 quilômetros quadrados.

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A imponência dos vulcões, o tom misterioso das águas, o pio dos pássaros, os ruídos de crianças que mergulham, as canoas a remo dos pescadores, as mulheres de trança em trajes étnicos, uma aragem constante nas árvores. Tanto que o escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), autor de Admirável Mundo Novo e As Portas da Percepção (entre outros títulos que mudaram a cabeça de muita gente), escreveu assim sobre o Atitlán: “O lago Como, na Itália, toca os limites do pitoresco. Mas o Atitlán é o Como com os embelezamentos adicionais de vários grandes vulcões. É realmente demasiado de uma coisa b oa”. Achamos que ele quis dizer apenas isto: “O Atitlán é demais”. Quanto tempo ficar em Panajachel? Para quem gosta de aliar dias de sossego com bares noturnos divertidos, restaurantes naturais, mergulhos no lago e circuitos em canoas de motor tuc-tuctuc-tuc que avançam devagar pela imensidão do lago, vale permanecer um mês. Um mês. Sim: um mês. Sem arrependimentos. A caldeira geológica que abriga o Atitlán foi formada por uma erupção ocorrida há 84 mil anos. As atividades vulcânicas na região datam de 11 milhões de anos. A erupção que formou a atual caldeira foi tão intensa que ejetou 300 quilômetros cúbicos de piroclastos, que se espalharam por 6 milhões de quilômetros quadrados.

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Cada vilarejo em volta do Atitlán é habitado por grupos de dialetos diferentes. As roupas e as cores usadas também são distintas. Em Panajachel, vivem descendentes do ramo maia caqchiquel

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Culto à entidade maia Moximón, em Santiago de Atitlán. Sem altar próprio, a estátua de madeira que o representa é itinerante. Todo ano, no dia 3 de março, ocupa a casa de um integrante da confraria local. Os fiéis mostram sua devoção oferecendo bebida e dinheiro a Moximón. Ao lado, mulher indígena em missa sincrética, em Panajachel

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O vulcão Atitlán, ainda ativo e cuja última erupção aconteceu em 1853. Ao lado, o lago é pontilhado por pequenos cais onde atracam os barcos que interligam cada vilarejo a Panajachel ffwmag! nº 18 2010

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A religião dos pueblos no entorno do lago Atitlán é marcada pelo sincretismo entre catolicismo e cultos maias. Nas fotos, mulheres em templo católico de Santiago de Atitlán

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O entardecer em Panajachel ressalta o contorno dos três vulcões que ficam ao lado do lago Atitlán: San Pedro (3.208 metros), Toliman (3.150 metros) e Atitlán (3.153 metros) 72

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Os bailes de fim de semana costumam ser animados em San Pedro La Laguna, um dos povoados maias do lago situado na regiĂŁo montanhosa do Altiplano Guatemalteco

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Meninas em trajes étnicos na Plaza Central de Santiago de Atitlán. Ao lado, o céu de Santa Catarina Palopó, com visão dos três vulcões que surgiram de atividades vulcânicas datadas de 11 milhões de anos

Forças da natureza. Existem vestígios dessa erupção desde a Flórida até o Equador. Os vulcanismos sequenciais formaram os três vulcões que rodeiam o Atitlán. O mais antigo, San Pedro, está inativo há 40 mil anos. O Toliman é considerado provavelmente ativo, embora sem nunca cuspir lava alguma. O Atitlán é, com certeza, um vulcão ainda ativo: sua última erupção ocorreu em 1853. Percorrer o lago nos pequenos barcos de transporte é uma boa escolha. Melhor do que contratar excursões guiadas. Os barquinhos param nos cais de várias aldeias, cada qual com trajes tradicionais e dialetos diferentes. Os povos maias de Atitlán são das ramificações quiché, mam, pocomam, ixil, queqchi, tsutuil, jacaltecas e caqchiqueles. Estes últimos não são bem-vistos pelos maias tradicionais, porque se aliaram aos espanhóis durante a colonização da América Central. A maior comunidade do lago é Santiago Atitlán: cheia de ladeiras e vielas, mantém lá no alto do terreno íngreme um templo devotado a Moximón, divindade sincrética que mistura cosmogonia maia, rituais católicos e lendas dos conquistadores. Os rituais lembram missas, com fumaça de turíbulo e toques de sinos. A estatueta de Moximón está sob a custódia de uma irmandade religiosa e é homenageada com procissão na Semana 76

Santa. O grande drama é avistar, no meio desses cultos seculares, a presença de igrejas evangélicas, com pastores indígenas de gravata e Bíblia debaixo do braço. Que praga. Com certeza devem dizer que o deus Moximón é um demônio. Em torno do Atitlán existem dezenas de sítios arqueológicos maias, muitos ainda em exploração. Também foram escavadas ruínas de construções maiores, como em Chiutinamit, onde se encontram vestígios de uma cidade submersa. Como o número de visitantes cresce a cada ano (qual o lugar do mundo que essa lástima de turismo em massa ainda não acontece?), as atrações se multiplicam, bem como hotéis e pousadas. Panajachel é o centro do agito. Mas hospedar-se em Santa Cruz La Laguna, San Lucas Toliman, San Marcos La Laguna, El Jaibalito, Tzununa e na linda San Antonio Palopó garante miragens à parte e convívio mais próximo com os nativos. Atenção: eles são meio tímidos e ficam na deles o tempo todo. Evite fazer a Miss Simpatia com eles, mesmo que a Quetzalteca tenha subido à cabeça. Lembre-se que são maias e que trazem uma herança de 800 anos nas costas. Lembre-se que Atitlán em maia quer dizer “local onde o arco-íris ganha cores”. Lembre-se de ficar quieto, olhar os vulcões e conter a sua lava interior. (Staff da ffwMAG!, fevereiro de 2010)

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ENGOLI MEU MARIDO, MAS ESTOU ÓTIMA Benhê, nem toda mulher tem vocação para companheira passiva, daquelas que vivem de cabeça baixa. Algumas são da pá virada. E, de bafo em bafo, apagam completamente seus parceiros, tornando-se o centro das atenções Por Eduardo Logullo

Vaidosas. Emperiquitadas. Joias, penteados exagerados, roupas chamativas, tiaras, chapéus. Falantes. Simpáticas. Abrem os braços em gestos amplos. Socialmente desembaraçadas. Mantêm o olhar fixo no interlocutor. Riem muito, fazem brindes, ajeitam o cabelo e retocam o batom em público. Algumas são muito cafonas. Outras conhecem os truques da elegância. Adoram ser fotografadas. Empinam a coluna. Erguem o busto. Emitem sorrisos cintilantes. Beijam mãos de bispos, acariciam bebês, fazem reverências perfeitas perante nobres e acenam muito dos automóveis. Adoram dar “tchauzinho” ao descer do carro, do avião ou de qualquer escada. 80

Poderosas, furibundas, dominadoras, controladoras, carismáticas, populistas, mandonas, talentosas, autoritárias, donas de personalidades fortes e centralizadoras. Anulam, apagam ou retiram o brilho de seus homens. Possuem o magnetismo da luz própria. Com habilidade rara, sugaram o brilho dos seus maridos. Escolhemos apenas dez. Poderiam ser 200. Afinal, elas querem é poder. Atenção: este samba também vale para suzanas, danieles, avas, sophias, callas, saritas, carmens, adrianes, luízas, alices, yolandas, dulces, marílias, ginas, karmitas, elzas, sonias, paulas, vanusas, danuzas e aretuzas.

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IMELDA MARCOS A situação em Manila pegava fogo. Mas Imelda estava preocupada

© ALANAH TORRALBA/EpA/CORBIS/CORBIS (DC)/LATINSTOCk

em salvar seus 3 mil pares de sapatos CENTRO 1: MAbutI pO nAMAn!_ Multidões urravam pelas ruas de

Manila querendo a cabeça do mandatário Ferdinando Marcos, o ditador que governou as Filipinas de 1965 a 1986. Dentro do palácio Malacañang, a tensão era imensa para evitar uma invasão sangrenta. Dois aviões da Força Aérea dos Estados Unidos, enviados pelo gagá Ronald Reagan, estavam de prontidão para resgatar a família Marcos da derrocada política final. Entretanto, a primeira-dama Imelda Marcos (1929-), conhecida como a Borboleta de Ferro por suas atuações (ela também tinha funções de ministra e de prefeita da capital), agia como um autômato, mais preocupada em salvar seus 3 mil pares de sapatos e milhares de vestidos. A comitiva saiu às pressas, escoltada por comboios do exército. Estima-se que des-

falcaram os cofres filipinos em US$ 85 bilhões. A mulher que fora miss, cantora e a figura feminina mais destacada na política asiática, abandonou o seu arquipélago aos prantos. Imelda era mais popular do que o marido. Agia como uma redentora populista de milhões de cidadãos oprimidos pela miséria e deslumbrados por suas aparições com ares de rainha. Sempre usando os tradicionais vestidos com manga-abacaxi, coques imensos em formato bunda de tanajura e muitas joias, ela representava o poder. Seu marido, Ferdinando, morreu no exílio como coadjuvante. Imelda Remedios Visitacion Trinidad Romuáldez engoliu Ferdinando Marcos, deglutiu Marcos e hoje é senadora. Com o mesmo coque bunda de tanajura, cara de frigideira e agradecendo em tagalog: Maraming Salamat! ffwmag! nº 18 2010

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T I NA T U R N ER Show após show, a vocalista

CENTRO 2: PRIVATE DANCER_ O músico Ike Turner se tornara mais ou menos conhecido como pianista no início dos anos 1950, ao acompanhar grupos de som black no sul dos Estados Unidos. Entornava garrafas de Bourbon na goela, pegava garotas nos puteiros das estradas, adorava arruaças (a zona que todo jovem músico adora fazer). Ao formar sua própria banda, contratou três vocalistas que chamou de “Iketes”. Elas faziam coreografias, vestiam figurinos curtos e brilhantes, tudo para segurar a onda de Ike – sempre torto nos palcos. Acontece que ele se apaixonou por uma delas, Tina (1939-), cujo nome real era Anne Mae Bullock. E, pior: se casou com ela, formando a dupla Ike & Tina Turner. Pra quê. Tina apagou de vez o marido feioso nas apresentações, 82

tornando-se uma sensação pelas imensas pernas, voz rascante e o bate-cabelo ininterrupto. Em pouco tempo, Tina Turner era a estrela da dupla. Ike, bebendo cada vez mais, tratou de resolver o problema a seu jeito: enchia Tina de porradas diárias, ameaças de morte, prendia a coitada em banheiros ou a amarrava aos pés da cama. Pra quê. A desgraça da vida de Ike já estava anunciada pelo destino. Tina em 1976 se separou do negão, iniciando a trajetória de megastar. Ele, sem luz, se fazia de vítima, chorava e nadava no álcool. Morreu aos 76 anos, dormindo o sono dos esquecidos. Tina prosseguiu altiva e bela. Conseguiu reduzir a nada o legado artístico de Ike – que hoje, bem-feito, não passa de uma página cagada (por ela) na história do rock.

© TOny KOrOdy/SygMA/COrBIS/COrBIS (dC)/LATInSTOCK

brasa viva apagava as performances do marido, Ike

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CENTRO 3: A SEREníSSimA dA FiLAdéLFiA_ Até meados dos anos

© CINEMAPHOtO/CORBIS/CORBIS (DC)/LAtINStOCK

1950, Grace Kelly (1929-1982), de rosto angelical e alma safada, já rodara por vários galãs de Hollywood. Pouco antes, a atriz se tornara a loura gelada favorita de Alfred Hitchcock, desde que fora dirigida pelo charutão do mestre em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Em 18 de abril de 1956, ela conseguiu o que milhões de mulheres sonhavam: casar-se com um príncipe. Irrealidade, sonho, sétimo céu. A garota da Filadélfia vira princesa. O destino quis. Ela viajara em 1955 ao Festival de Cannes e estivera em Mônaco para uma sessão de fotos. Lá conheceu o monegasco Rainier III. O monarca precisava se casar: um tratado firmado em 1918 com a França dizia que, caso o regente do principado não gerasse herdeiros, o enclave voltaria a se tornar território francês. Rainier Louis Henri Maxence Bertrand Grimaldi, o conde de Polignac, então com 32 anos, zarpou atrás de Grace nos Estados Unidos. Conheceu a família Kelly e a pediu em casamento dias depois. A cerimônia foi assistida ao vivo

por 30 milhões de europeus, com pencas de estrelas entre os convidados. Começava ali a deglutição do príncipe por sua princesa. Sua Alteza Sereníssima se torna a efígie de Mônaco, apagando a presença do regente, que passou a coadjuvante de novela das seis. Grace chegava: 500 fotógrafos sobre ela. O príncipe chegava: todos viravam o rosto e perguntavam o que aquele chato de fraque fazia por ali. Grace surgia com chapéus mirabolantes, imensos: o importante era tampar a cara do marido. Ela deixou três herdeiros, fundou uma organização mundial para proteger crianças, coordenou milhares de bailes beneficentes, portou joias que cegavam outras mulheres, visitava papas, abria cerimônias oficiais e acenava para multidões. Num dia de setembro de 1982, lá vinha Grace dirigindo seu Rover P6 pelas curvas da Riviera, quando o carro despencou ribanceira abaixo e ploft. Morreu linda e loura. Surgia o mito eterno. O marido, engolido por ela 26 anos antes, era um espectro invisível. Morreu, também. Mas quem se importou?

GRACE KELLY Atriz favorita de Hitchcock, depois princesa de Mônaco, atraía centenas de fotógrafos por onde passava ffwmag! nº 18 2010

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De n i l m a Bu l h õ e s Surras de toalhas molhadas viraram prática comum entre dominatrix.

CENTRO 4: Toalhas molhaDas_ “Tome isso, mais isto e agora

isso!” Slept! Sploft! Plaft! As surras de toalha molhada que a primeira-dama alagoana Denilma Bulhões dava em seu marido, o ex-governador Geraldo Bulhões, nos aposentos palacianos, entrou para os anais da politicanalha nacional. A tragicomédia ocorria no início dos anos 1990, a cada vez que ele chegava de noitadas. 84

Para quem duvida do episódio, basta procurar na internet. Hoje, sovas de toalhas molhadas viraram hit entre mulheres dominatrix. Denilma foi precursora. Esbagaçava o marido, colocava as mãos na cintura, arrumava a franja e, quem sabe, comia uma tapioca para se refazer do esforço. Alguém hoje se lembra desse governador? Não. Mas Denilma sobrevive como legenda de mulé forte.

JuAN ESTEvES/FolHA IMAGEM

Denilma teria sido a precursora?

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NA N C Y R eA g AN Nos oito anos em que ela dominou a Casa Branca,

© CoNDé NAST ARCHiVE/CoRBiS/CoRBiS (DC)/LATiNSToCK

nunca se bailou tanto em Washington

CENTRO 5: DANCe, RoNNie, DANCe!_ De 1981 a 1989 o mundo ocidental esteve nas mãos do gagá Ronald Reagan, um ex-ator e ex-governador da Califórnia que chegou à presidência pelas forças sinistras do Partido Republicano, a podridão da extrema-direita norte-americana. Reagan era um panaca-narigudo-decrépito com jeito de cowboy que caiu do cavalo. Sua boca emitia grunhidos guturais, como um ralo de bidê entupido. Com tal figura patética no comando da Casa Branca, quem virou o centro das atenções? Sua mulher, Nancy Reagan (1921-2004). Ela, também ex-atriz de filmes B, nascera em Nova York com o nome de Anne Frances Robbins. Chique, esnobe, classista, antipática, distante, magra, determinada, presbiteriana, mandona, podre. Vestia-se com allure (existe um livro com

paper dolls de seus trajes de gala), promovia recepções suntuosas e adorava realezas. Era amiga de Halston, Guy Laroche e Valentino. Sua primeira providência foi substituir toda a louça da Casa Branca, que ela considerou assaz cafono. Bailava em festas, rodopiando gowns geralmente vermelhos ou de um ombro só. Fez campanhas antidrogas nas TVs, repetindo o slogan “Just Say No”. Entretanto, em seus tempos de primeira-dama, nunca se cheirou tanto padê nos Estados Unidos. Muito pó passou pelos banheiros da Casa Branca, então frequentada por Andy Warhol, Keith Haring, Bianca Jagger e outros amigos do canudo. “Just Say No!”, sorria Nancy Reagan, a mulher que engoliu seu cowboy narigudo, um personagem que historicamente virou a mosca no cocô do cavalo do bandido. ffwmag! nº 18 2010

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CENTRO 6: MuNDO MAteriAl_ Fevereiro de 2010. Vi a foto e pensei que fosse Lygia Kogos, Martha Suplicy, Marina de Sabrit. Sei lá. Depois, olhei com atenção e lá estava ela: Madonna! Bolsa, óculos, paletozinho, calça apertadinha e colares discretos. Igual a uma jovem senhora que chega ao shopping Higienópolis para encontrar as amigas e tomar café com broa de fubá. Não, mas aquela na foto era Madonna Louise Ciccone. A artista mais representativa do showbiz das últimas décadas, conduzida por políticos e secretários embasbacados pela blond ambition no Palácio dos Bandeirantes. (Ninguém deveria saber sequer o nome de alguma gravação de Madonna. Mas quem se importa com isso?) A artista nascida em Michigan há 51 anos se “afeiçoou” pelo Brasil, país que hoje visita com relativa frequência, para passar o chapéu entre empresários poderosos e amealhar um troco para suas crianças desamparadas. Madonna daqui a pouco sofrerá a síndrome da colega Dionne Warwick, que se mudou para o Rio, virou figura tão comum que é confundida com Eliana Pittman no almoço do Porcão. Voltando a Madonna. Ela é ou não é uma engolidora de maridos e namorados? “Ééééééé´”, berra o auditório. Na fase pré-histórica de sua carreira, teve um affair com o músico Dan Gilroy. Engolido. Depois, namorou outro músico, Stephen Bray. Engolido. Ao lançar seu primeiro álbum, Madonna caiu nos braços do artista plástico

Jean-Michel Basquiat – que só não foi engolido porque vivia colocado o dia inteiro. Com 21 milhões de cópias vendidas do álbum Like a Virgin, Madonna, aos 27, enquanto gravava Material Girl, se casava em 1985 com o ator Sean Penn, que seria engolido três anos mais tarde. Madonna prosseguiu engolindo, na sequência, o pornostar Tony Ward e o músico Vanilla Ice. Chegou ao ponto de o caretão David Letterman anunciá-la no programa como “a artista que vendeu 80 milhões de discos e que já dormiu com os maiores nomes da indústria de entretenimento”. Madonna respondeu: “Foda-se!”. E o obrigou a cheirar duas calcinhas que ela jogou na hora em cima do apresentador. Sensacional. Seu personal trainer Carlos Leon foi o marido seguinte e pai de sua filha, Lourdes Maria. Quando teria sido engolido? Ninguém lembra. O que lembramos é que em 1999 ela se casa com Guy Ritchie, com quem teve o filho, Rocco. Com Ritchie fez a fina, morando entre a Escócia e a Inglaterra. O divórcio do casal veio em 2008, com ele devidamente engolido e enviado para algum buraco negro. E agora, o que acontece com nossa sticky & sweet lady? Sabemos que o brasileiro Jesus Luz tem sido o partner constante. Mas ainda rola essa história ou ele está engolido? Vamos promover uma grande Marcha por Jesus. Jesus vive? Jesus foi devorado, deglutido, sorvido, tragado, passando da boca ao estômago de Madonna? Oh, céus.

M AD O N N A O que ainda dizer sobre a artista que vendeu 80 milhões de discos e que já engoliu

© SIMONE CECCHETTI/CORBIS/CORBIS (DC)/LATINSTOCK

os maiores da indústria de entretenimento?

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E L IZAB ET H T AYLO R A mulher dos olhos violeta

© SunSET BOuLEVARD/CORBIS/CORBIS (DC)/LATInSTOCk

e dos dez maridos permanece no hall das divas

CENTRO 7: A mEgERA IndOmávEL_ Durante as filmagens de Cleópatra, em 1963, o coreógrafo norte-americano Lennie Dale (que fundaria anos depois no Brasil o grupo Dzi Croquettes) abriu a porta do camarim de Elizabeth Taylor (1932-), então a maior estrela do cinema mundial, e ficou passado: a atriz dos olhos violeta, caracterizada no figurino da rainha egípcia, aplicava um felatio no ator Richard Burton, seu mais recente affair e que, no filme, fazia o personagem Marco Antonio. Liz, que recebera o maior salário pago até então para um profissional de Hollywood, interrompeu o blow job, sorriu com simpatia e se refez, sem perder a pose. Lennie murmurou “Oh, I´m so sorry...”. Burton foi o quinto marido dela. Viveram juntos por

dez anos. Separam-se e se casaram novamente em 1975, no Paraguai. Antes dele, a atriz anglo-americana, menina-prodígio que começou em 1943, aos 11 anos, estrelando filmes da cadela Lassie e que recebeu um Oscar em 1960 por Butterfield 8, estivera casada com Conrad Hilton, Michael Wilding, Mike Todd e Eddie Fischer. Este último, ela roubou de sua melhor amiga, a atriz Debbie Reynolds. Depois dos dois casamentos com Burton, já matrona e sempre muito bilionária, Elizabeth Taylor ainda arranjou fogo no rabo pra se casar com John Warner, em 1976, e com Larry Fortensky, em 1991. Ela permanece uma lenda. Meio torta aos 77 anos, mas uma lenda. Todos os maridos, inclusive Burton, hoje são fósforos queimados atirados ao chão. ffwmag! nº 18 2010

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TOPFOTO/KEySTONE

EVI T A PE R ó N Teria existido o peronismo sem a magnitude de Evita, sem as suas aparições eletrizantes?

CENTRO 8: A dEscAmIsAdA VEsTIA dIoR_ A biografia de Eva

Perón (1919-1952) é manjada. Qualquer criança de 7 anos sabe que Maria Eva Duarte participou de peças teatrais inexpressivas, tentou ser cantora de rádio e atriz. Chamar a atenção dos homens era seu hobby. Uma fêmea atraente, com os dispositivos da libido sempre a postos – e aquele jeito com que algumas mulheres evidenciam suas intenções. A pergunta histórica que não quer calar é a seguinte: teria sido Maria Eva Duarte uma sirigaita? Sirigaitavas, Evita? (Sim, existe esse verbo intransitivo.) Sabemos, entretanto, que ela encantou o coronel Juan Perón em 1944, durante um baile beneficente no estádio do Luna Park, Buenos Aires. No ano seguinte, Eva assinava Perón no sobrenome. Em 1946, Perón, 51 anos, é eleito presidente da Argentina. E Eva subiu nas tamancas da história e de lá não mais saiu. Durante os seis anos seguintes, comandou a união das ligas pró-peronistas, que defendiam direitos trabalhistas no país. Sua popularidade era tão grande e seu carisma popular tão retumbante que Perón 88

elevou a primeira-dama ao cargo de ministra do Trabalho e Saúde, enquanto a Fundação Eva Perón clamava a mulherada a militar no Partido Feminino Peronista. Em 1951, o ápice: Eva Perón, vicepresidente. Ou melhor, presidente, não é? Por que Perón, naquela altura do campeonato, era um tiozinho querido, porém de carisma 0,2. Outras perguntas que não calam: teria existido o peronismo sem a magnitude de Evita, sem as suas aparições eletrizantes com coques chignon, sem suas joias Cartier, sem seus vestidos Dior, sem os discursos inflamados que proferia nos balcões da Casa Rosada, sem os atendimentos pessoais aos descamisados? O peronismo teria sobrevivido sem a sua morte por câncer, no auge da popularidade? O peronismo teria prosseguido sem que Evita virasse “Líder Espiritual da Nação Argentina”? O que seria do peronismo sem o corpo embalsamado e idolatrado de Evita, levado e roubado e vilipendiado durante anos? Evita engoliu Perón para sempre. (Até que ele voltasse politicamente de modo errático na terceira mulher, Isabelita.) Santa Evita.

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CENTRO 9: Cadê meu laquê, Perón?_ Falamos de evita. mas, em 1973, o octogenário Juan Perón era regurgitado pela história para ser engolido por sua terceira mulher, maria estela martínez Cartas de Perón. Conhecida como isabelita (1931-), a ex-bailarina de cabaré que ele encontrara ao se exilar no Panamá foi primeiradama e vice-presidente argentina até a morte dele, um ano depois. Drama. isabelita, a despreparada isabelita, sobe ao poder como a primeira mulher plebeia a assumir um governo no ocidente.

Perón morto, isabelita com penteados imensos e nenhuma ideia na cabeça. terminou deposta pelos militares em 1976, depois de ferrar a economia e acabar o estoque de laquê do país. engoliu Perón morto e vomitou um peronismo decadente. Seu prêmio de consolação foi um exílio vigiado em madri até 2007, em que ela nem sequer podia andar pelas ruas. Hoje é uma idosa com cara cubista, mal penteada e com azia do marido que engoliu por obrigação. Figura trágica das histórias burlescas da latino-américa.

I s a be l I t a P e r ó n

© Diego golDberg/Sygma/CorbiS/CorbiS (DC)/latinStoCk

A Argentina caía no abismo, enquanto a presidente surgia com penteados imensos e nenhuma ideia na cabeça

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pa ris h i lt o n Ela é o seu centro. Ela só gosta dela própria.

CENTRO 10: Eu mE amo_ Ai, ai. Paris Hilton é quase tudo: socia-

lite, dondoca, boneca deslumbrada, billionette, lesada, designer de moda, empresária, colecionadora de yorkshires e de chihuahuas, loura pérfida, loura boazinha, atriz, motorista que dirige meio bêbada, garota boboca, celebridade mais fotografada do planeta, jogadora de hockey e herdeira de megaimpério hoteleiro. Quando criança, a pobre coitada morava na maior suíte do Waldorf-Astoria Hotel, em Nova York. Odeia ser chamada de “ícone louro”. OK, mas mulata ela não é. Engolidora de homens? Sim. Seria estranho se ela se comportasse como namorada exemplar ou esposa prendada. O nome Paris Hilton é uma conjugação semiótica de brilho, poder, feérie, glam, dinheiro e coisas estratosféricas. Vamos, portanto, aos 90

números dessa engolidora de espadas, ops, de rapazes: foi noiva do modelo Jason Shaw, namorou o cantor Nick Carter, noivou com o armador grego Paris Latsis (que logo foi trocado pelo também grego Strarvos Niarchos III), ficou um tempo com o guitarrista Benji Madden, rompeu com ele para trocar alianças com Doug Reinhardt (ator do seriado The Hills) e, no meio desse vai e vem, um vídeo doméstico dela transando com o namorado Rick Salomon bombou na internet. Isso em menos de três anos. Resumo da bagunça: Paris Hilton engole rapazes. Não engoliu nenhum marido porque dificilmente se casará. Pra quê? Ela gosta dela própria e se basta. Ela se engole. Paris Hilton é autofágica. Paris Hilton lambe Paris Hilton. Ai, ai. Adoro estrelas vazias como ela.

AgNEWS

Ela se engole. Ela é autofágica

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O SAMBA DO CRIOULO doido Poucos imaginam a tragicomédia que levou a República Centro-Africana a mudar seu nome para Império Centro-Africano e cair no desmando de um dos mais absurdos ditadores da história do continente africano: Jean-Bédel Bokassa, “o imperador canibal”

©Ferdinando Scianna / MagnuM PhotoS

Fotos Ferdinando Scianna

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Sentado em seu trono em forma de águia dourada, com coroa avaliada em US$ 5 milhões, cetro de ouro maciço e cauda do traje imperial com 20 metros de veludo, o ditador é coroado, em 1976, Imperador Bokassa I do Império Centro-Africano

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Autoproclamado imperador, Bokassa produziu cerimônia “napoleônica” de coroação e decretou instruções rígidas de protocolo: todos deviam se manter a seis passos de distância, curvar a cabeça em sinal de respeito e, quando convidado a falar, responder com “Sim, Majestade Imperial”

E

m 1979, expurgado após oito anos na presidência de Uganda, o general Idi Amim Dada deixava um lastro de terror: ausência de direitos humanos, perseguição de minorias étnicas, extrema repressão política, uma farra de nepotismo no país, corrupção generalizada e apoio internacional que incluía países como Líbia, Grã-Bretanha, Israel, Alemanha Oriental e África do Sul (durante o apartheid). A menos de mil quilômetros de Uganda, no mesmo ano, também saía de cena outro personagem ainda mais perigoso: JeanBédel Bokassa, ditador da República Centro-Africana de 1966 a 1977 e, nos dois anos seguintes, autoproclamado imperador de uma das nações mais pobres do planeta. No total, 13 anos no poder. Seu império de veludo e sangue acabou quando soldados franceses invadiram a capital Bangui e “destronaram” o “regente” de um território arruinado. Até aquele momento, a França apoiava o déspota, por interesses comerciais que incluíam a venda de armamento militar e jatos de caça. Apenas depois que a guarda imperial de Bokassa metralhou cem crianças durante um protesto de estudantes de uma escola primária contra o governo, o então presidente francês Valéry Giscard D’Estaing resolveu se 94

livrar do incômodo amigo, aniquilando um dos mais violentos – e extravagantes – regimes autoritários do continente africano. Bokassa – também conhecido como Bokassa I do Império Centro-Africano ou Salah Eddine Ahmed Bokassa – nasceu em 1921, em uma aldeia chamada Bobangui, a 80 quilômetros da capital. Era da etnia m’baka e seu nome significava “pequena floresta”. Foi educado por missionários católicos. Depois, seguiu carreira militar. Ao combater ao lado das forças francesas durante a Segunda Guerra Mundial, foi condecorado como herói. Em 1960, quando seu país – ex-colônia francesa – conquistou a independência, Bokassa era capitão. Primo de David Dacko, o presidente da república na época, não demorou muito para virar general. Mas Bokassa queria mais. E, em 1966, com a economia do país em cacos, passou a perna no primo e assumiu o poder, declarando-se, seis anos depois, presidente vitalício. Enquanto a miséria crescia e se espalhava pelas aldeias centro-africanas, Bokassa mandava erguer palácios. Torturava e sumia com os inimigos. E chegou a construir réplicas de monumentos famosos, como uma basílica parecida com a de São Pedro, do Vaticano. Os excessos não pararam por aí. Em 1976, inspirado em

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A coroação de Bokassa consumiu US$ 30 milhões dos cofres públicos da República Centro-Africana – quantia exorbitante para um dos mais pobres países do planeta, com renda per capita de US$ 458 e expectativa de vida de 44,7 anos

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Egocêntrico, antropófago e psicopata, Bokassa atribuiu a si mesmo tantas medalhas que foi obrigado a encomendar um casaco extralongo para sustentá-las. Seu “império”, no entanto, durou pouco. Em 1979, tropas francesas invadiram a capital do país e acabaram com as loucuras do déspota que costumava voar para os cassinos europeus e gastar fortunas em apostas milionárias, champanhe e joias para as esposas

Napoleão, ele se autoproclamou Imperador Bokassa I e mudou o nome do país para Império Centro-Africano. A cerimônia de coroação foi descrita por um jornal francês como “a festa do século” e custou US$ 30 milhões aos cofres públicos. Luxo pomposo e carnavalesco, trono em forma de águia dourada, coroa avaliada em US$ 5 milhões, cauda do traje imperial com 20 metros de veludo e arminho, cetro de ouro maciço, um Rolls-Royce para seu bel-prazer e carruagens puxadas por cavalos brancos. Óbvio que grande parte do mundo não reconheceu o “império” de Bokassa. Apenas países que tinham interesses políticos ou econômicos na região. E, quando o seu palácio foi tomado pelas tropas francesas, descobriu-se onde o ditador escondia os seus desafetos: no freezer (os seguidores de Bokassa afirmaram, em interrogatórios posteriores, que os corpos congelados no palácio foram colocados pelos soldados franceses. Ninguém acreditou nessa versão). Com suas 17 mulheres, Bokassa costumava voar para os cassinos europeus e gastar fortunas em apostas milionárias, champanhe e joias para as esposas. Nos domínios imperiais de Bangui existiam jardins que imitavam as alamedas de Versailles, chafarizes e um zoológico particular onde muitos adversários de Bokassa foram 98

parar no estômago de crocodilos. O documentário Ecos de um Império Sombrio (Echos au Einem dusteren Reich, 1990), do cineasta alemão Werner Herzog, revela detalhes desse circo de horrores. Deposto, Bokassa se exilou na Costa do Marfim e na França. Em 1986, os franceses o entregaram para as autoridades centroafricanas. Lá, foi condenado à morte. Mas a pena foi comutada e o ex-ditador acabou anistiado. Quando saiu às ruas, em 1993, foi recebido como herói pela população. No julgamento, um de seus cozinheiros declarou que costumava fritar carne humana – especialmente de crianças – para o “imperador”. Claro que Bokassa negou e foi absolvido do crime de canibalismo. Em 3 de novembro de 1996, o psicopata morreu de ataque cardíaco, em Bangui. Teve 50 filhos. E, para quem quisesse ouvilo em seus últimos anos de vida, ele costumava dizer que era o 13o apóstolo de Cristo. Seu milagre foi apenas um: levar uma nação à merda. Uma nação que se formou de modo arbitrário nas divisões colonialistas da África, a partir de dezenas de idiomas, dialetos e diferentes costumes etnológicos. Uma nação que até hoje o mundo “civilizado” finge não existir. (Por Marcos Guinoza e Eduardo Logullo)

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Ferdinando Scianna Fotógrafo italiano nascido em 1943. Começou a fotografar na década de 1960 quando estudava literatura, filosofia e história da arte na Universidade de Palermo. Retratou diversos escritores, como o siciliano Leonardo Sciascia e o argentino Jorge Luis Borges. Em 1967, foi contratado pela revista L’Europeo. Também colaborou como jornalista para o Le Monde Diplomatique e La Quinzaine Littéraire. Conheceu Henri Cartier-Bresson em 1982. Sete anos depois, em 1989, ingressou na agência Magnum. Nesse mesmo período, começou a fotografar editoriais de moda. Em 2002, lançou o livro Quelli di Bagheria, em que busca reconstruir a atmosfera de sua cidade de origem, com retratos de escritores, paisagens e das pessoas que vivem em Bagheria. “A fotografia não é criada pelo fotógrafo. O que ele faz é apenas abrir uma pequena janela e capturá-la. Fotografar está mais próximo da leitura do que da escrita. Os fotógrafos são os leitores do mundo.” bit.ly/92fczZ ffwmag! nº 18 2010

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o país do meio Entrar nas trEvas. sair das trEvas. arar a trEva. MEM|ora|bilia. MEu coração não sE cansa dE tEr EspErança dE uM dia sEr tudo o quE quEr: uM Ensaio sobrE as forMaçõEs Etnológicas E linguísticas da rEpública cEntro-africana, nação tribal agora dEsintEgrada por açõEs dE grupos MErcEnários Por Diego Diasa Fotos Jan-Joseph Stok

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Gabriel Gana, 60, comanda a aldeia de Vaya, na região norte da República Centro-Africana. Ele abandonou o local depois do ataque de grupos rebeldes. Agora com 40 pessoas, procura reconstruir o vilarejo ffwmag! nº 18 2010

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o meio o nome. Nomeio República da África Central. República Centro-Africana. O nome desse país diz muito sobre ele. Ou seja, nada. Descontando o canto, único bardo de todos os povos que é para sempre o nome maternal: África. Em sua profundeza, no desfiar dessa passagem da raça humana sobre nosso mundo, a terra primeira, primaveril de todos os povos e todas as culturas que, remontadas, designam um processo das formas de existência: uma só cultura humana em escala mundial. Neste tempo afeito a melodramas e tragédias que apelam ao menor e primeiro instinto de pertencimento ao gênero humanidade, os dados africanos jamais abolirão o quadrado branco que os fora imposto. Melanina nos olhos. Equalizem manualmente que cá falta white balance. A República Centro-Africana é superexposição daquilo que ao mundo se revela. A história escrita. Seu Sim. São 4,5 milhões de habitantes que residem numa área total de 623 mil quilômetros quadrados, o que equivale a mais ou menos juntar Minas Gerais e Rio de Janeiro. Sim. Meia dúzia de cidades é povoada por um número inferior aos dos pequenos centros urbanos do interior brasileiro, incluindo a capital Bangui. A maioria da população, cerca de 55%, subsiste em áreas rurais. Sim. Não por acaso mais da metade da população é analfabeta. Sim. A cada mil rebentos 97 lamentos. Quantas então não são natimortas por contexto fora do texto estimado? Sim. Seguindo o tema a nota que nessa sinfonia não desafina, desafia: 11% da população de 15 a 49 anos é soropo-

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sitiva (Aids), estando então o país no segundo lugar (10% a 50%) do ranking mundial de infectados pelo vírus. Sim. A expectativa de vida é de 44,7 anos. Numa só vida esvazia o significado de esperança. Sim. A renda per capita declarada é de US$ 458, porém, graças principalmente aos diamantes (que cumprem a maior parte da exportação do país e cujo contrabando estima-se ser de 30% a 50% do total extraído), a renda per capita virtual se pretende maior. Sim. É o 179º na avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano num total de 182 países. E os países fronteiriços participam desse esforço de desenvolvimento contribuindo para um cálculo animal, humano por convenção de gênero e espécie: República Democrática do Congo, 176º; Chade, 175º; Camarões, 153º; Sudão, 150º; e Congo, 136º. Sins. Índices de redundância. Isso sim. E não precisa ser um schollar para saber que quando uma taxa de informação satura chega a hora de mudar no mínimo sua forma mesmo que o conteúdo continue o mesmo. Comédia. Humor negro é pra branco, claro. A República Centro-Africana já foi considerada pela revista The Ecologist líder mundial de desenvolvimento sustentável. Acontece que 75% da força de trabalho do país está na agricultura, a subsistência de famílias e tribos. O país é sustentável porque as pessoas sobrevivem na mais profunda miséria, trabalhando somente para se alimentar, para a manutenção exata e estática das formas espirituais de existência tribal e familiar. E nada mais. Sem permissão para o ofício de

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Moradores de Vaya tentam reconstruir sua aldeia. Em janeiro de 2009, mais de 4.500 pessoas da conturbada RepĂşblica Centro-Africana se refugiaram no vizinho Chade, com receio dos ataques rebeldes

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Uma das regiões mais carentes do mundo, a República Centro-Africana é autossuficiente na produção de alimentos. Mas grande parte da população sobrevive da agricultura de subsistência

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Com água escassa e habitando choupanas precárias, as populações das aldeias mais isoladas caçam ratos e pássaros para se alimentar

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o espírito ser transado fora do alcance conhecido e apenas porque velhas formas podem ser encaradas como novas quando o (n)ovo não se choca. Não se rompe. Uma piada puxa outra. Em 2008, a National Geographic nomeou a RCA o país menos afetado pela poluição da luz (light pollution). Piada boa não se explica. Mas vamos deixar os dados e ficar com o lance. O que é central na África. O que o olho vê, a fotografia não tira. O que está subexposto aos diafragmas mecânicos. O que é estrutural. O que jorra e fertiliza. O que é proposto e propõe como ereção permanente nesse ponto situado no centro do continente que está no meio do mundo. O coração da África. O “coração pusilânime”, diria um romântico pleno daqueles dados. É preciso penetrar esse corpo para conceber sua existência. Lei do Homem. Se Não. A pretória. A épica oral. São mais de 80 etnias que vivem no interior da República Centro-Africana. Cada uma com sua língua e cultura. Fixaram-se, sedimentaram, inventaram raízes, num caminho iniciado há 2 mil anos a.C. e percorrido em direção ao desconhecido. Negro. Possivelmente a exploração expansionista se iniciou a partir da região entre onde hoje se localiza Níger e Camarões, na África subsaariana, pelos bantos. Ocorrendo pouco tempo depois dos anos de ouro da África (por nós desconhecido, ou melhor, ainda irreconhecível) a melodia e a dança do canto de diversos povos. Os povos que, por todo o continente, ensaiam fatos, atos e notas que apontam para 106

o mesmo período da construção da cidade iorubana de Ifé. Aquela onde em 1910 o pioneiro Leo Frobenius descobriu no bosque de Olocum, orixá do oceano, as grandes cabeças de cerâmica e a do próprio deus esculpidas em bronze e o ofício das feições de uma beleza ideal. Um padrão equivalente ao domínio das faculdades do espírito que alçaram os gregos. No contrafluxo do rio Shari, atravessando seus provedores, os rios Logone e Ouham, são terras centro-africanas da RCA. Sentido sul. A oeste, o rio Sangha, que define a fronteira com Camarões, flui para desaguar e prover o arterial rio Congo, que tem sua foz no mar. Subindo o rio Congo, alcançamos outra foz, outra provedora desse rio-rasgo, o rio Ubangi, ou Oubangui. É o limite de fronteiras com a República Democrática do Congo. Oubangui-Chari. Até 1958, esse nome designava para a exmetrópole francesa as terras da atual República Centro-Africana. Sim. Não importa. São nessas outras margens, nos vales, onde o rio rói a terra, e onde situa-se a capital Bangui, que vivem os sangos, os gbanzilis e os ngbakas. E subindo a leste, contra a correnteza do Ubangi, em direção à cópula progenitora dos rios Uele e Mbomou, a floresta tropical que se estende é habitada pelos babingas (pigmeus). Ao atravessar a vegetação do vale do Ubangi, ao norte, seguindo seus estreitos afluentes, correndo terra em pleno território da RCA, encontram-se os habitantes das etnias mbati e isungu. Ao centro, zona das savanas, estão os gbayas e bandas. Bem ao norte, onde o

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Anastasi (ao lado) sai em busca de comida para sua família. Acima, nativo de Vaya transporta madeira para reerguer sua choupana, depois de outro ataque incendiário dos rebeldes

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Natasha, Claudine e Pillagi, da aldeia Takara, totalmente incendiada por grupo rebelde. Apenas parte de uma igreja cat贸lica (abaixo) foi preservada

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Três grupos rebeldes agem na República Centro-Africana para desestabilizar a ditadura do presidente François Bozize, no poder desde 2005 por eleições fraudulentas. Acima, bando armado no Chade monta barreira para extorquir a população local

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Cobre, café, diamantes e algodão (ao lado) são os principais produtos de exportação do país — que está entre as nações com mais baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) do planeta

clima esquenta e seca e o deserto não é mais uma miragem climática, estão os saras. Outro clima, outras terras, outra gente. Nesses entrefluxos riocorrentes faltam povos. Minorias de milhares. Uma colcha de retalhos, vestido de chita, diz aos olhos pelos seus contrastes. Não por suas partes. Nesse “buraco negro”, a comunicação entre diferentes é o que denomina. Uma mesma família linguística nigero-congolesa, que afirmam ser o maior grupo idiomático (se conferido no sentido das distinções entre línguas) de todo o mundo. Um tronco dessa imensa família são as línguas bantos, dos originários africanos expansionistas. Outro tronco é o das línguas ubanguinas, tão diferenciadas da família nigero-congolesa que se torna independente. Unívoco. As línguas ubanguinas formam ramificações. Temos o gbaya, o zande e o banda; desta se formou o ngbandi, ou sango, língua oficial da República da África Central. O francês dos colonizadores é uma língua erudita. Depois ainda se forma o sere-mba, que ramifica no sere, que por sua vez advém o ngbaka-mba e que, enfim, abre-se em ngbaka e mba. Excluindo o sango, que por seu fator de línguaveículo, know-how básico de (quase) toda gente da RCA, teve um processamento crioulo (do verbo creare em latim) pelos africanos, num método antropofágico de absorção da outra cultura. O restante dos idiomas não tem codificação escrita. A escrita nunca foi uma preocupação dos povos africanos. Ser um idioma ágrafo não significa uma sintaxe menos acabada. Pelo 110

contrário: é comum aos idiomas africanos uma avançada classe de substantivos e complexa harmonia de vogais. Línguas tonais. As vogais prolongam-se e se unem a outras vogais, encerrando a palavra muitas vezes num fonema cujo tom soa estranho ao do início da palavra. Uníssono canto. No princípio era o verbo. A palavra não escrita pode ser modificada, discutida, transformada por aqueles que a vivem. Não estando gravadas, seu significado é vivido. E hoje a modernidade debate-se com a possibilidade intencional de mutação dos textos. Um africano não tem compromisso marcado para orar. Onde ele é, Deus está. A informação vai sendo transmitida de um para o outro. Assimilandose ideias e práticas religiosas. A palavra nas suas modulações deve ser proferida pelo corpo, pela temperatura, pela saliva, pelo hálito, pela respiração. Um corpo que se abre. Por isso, pela ausência desse corpo doutrinário da escrita, é possível variações de rituais, de mitos, de interpretações cosmogônicas. A relação sagrada do africano não é em busca da glória divina, mas do desenvolvimento pessoal daquele que a vive. O pensamento africano como unidade de conquista é antropocêntrico, geocêntrico e pragmático. Leo Frobenius: “Há um vínculo entre o presente e o passado mais poderoso que pirâmides e bronzes e esculturas e manuscritos: a memória dos homens que não aprenderam ainda a escrever, ou que ainda não tiveram o tesouro das lembranças arruinado pelo uso excessivo da palavra escrita”.

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Fotógrafo, 31, Amsterdam. “Agora vivo na República Centro-Africana, em sua capital, Bangui. Faço reportagens sobre a situação do país. Sou fotojornalista freelancer e trabalho como fotógrafo da África para o jornal holandês Trouw. Também colaboro com publicações internacionais – como a The Times. Todo ano, passo oito meses na África. Trabalhei em Darfur (Sudão), Somália, Chade e Congo (o país para o qual voltei mais vezes nos últimos cinco anos).”

República Centro-Africana: “Trabalhei em 17 países africanos, mas poucas vezes vi uma nação tão pobre. Aqui quase nada funciona, 95% das pessoas não têm eletricidade, não há água corrente, o Estado é um drama. Com exceção da capital, não existe poder no resto do país. Grupos rebeldes ocupam regiões: mantêm áreas e extorquem as pessoas. A República Centro-Africana é um país esquecido pelo mundo. Mesmo na África, poucos sabem que aqui a pobreza é crônica, profunda. As pessoas não têm nada para vestir, comer etc. É importante recolocar esse país de volta no mapa. Ajudas humanitárias aqui são mínimas. Os fatos são alarmantes: cerca de 1 milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas e vivem na selva. Por isso é tão importante que a ffwMag! dê atenção à região. Um país com imensos recursos naturais e, ao mesmo tempo, totalmente destruído por ‘líderes’ e pelo passado colonial que devastou a região.” www.janjosephstok.com ffwmag! nº 18 2010

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PAPO CABEÇA Você sabia que o hipotálamo, um pequeno órgão localizado na região central do cérebro, atua nas funções VegetatiVas, endócrinas, comportamentais e emocionais do corpo humano? pois é. conheça esse caroço poderoso Por Sonia Maia Ilustrações Script&Seal

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ntão aquele corpo que é seu número passa na sua frente assim sem avisar e manda aquele olhar que mata mais do que bala de carabina. Você pensa que vai subir pelas paredes e colocar o peito em posição de tiro ao alvo... mas que nada. Acaba devolvendo um “sai da minha frente que eu quero passar!”. E depois de toda a pose de difícil que poderia ir para o seu caderninho como “eu sou mais eu” do dia, corre para a frente do espelho em prantos, não sem antes morrer de rir da piada sempre sem graça da vizinha. Aí, seu corpo começa a ferver uma vez mais e o suor a sair por todos os poros. Você quer subir pelas paredes, de novo, mas a última coisa que pensa é em se atirar em cima daquele corpo que é seu número. A essa altura, claro, você pergunta: “O que está acontecendo?”. Eu apostaria que você andou ouvindo demais a banda de heavy metal Hypothalamus Abyss, mas o veredicto de seu médico seria: “Seu hipotálamo não está fazendo o serviço direito. Não está liberando os hormônios como deveria. Ou não tem hormônios suficientes para sintetizar”. E você entra em parafuso. Perde o centro. Por causa de um órgão do tamanho de uma amêndoa. Que fica ali, bem no centro do seu cérebro – sob o tálamo (como indica sua etimologia grega) e na região central do diencéfalo. A função do hipotálamo é a de harmonizar vários processos do nosso metabolismo e algumas atividades autônomas cruciais do dia a dia, como temperatura do corpo, apetite e olfato, sono, sede, raiva, medo, prazer sexual. O órgão liga o sistema nervoso ao sistema endócrino, conjunto de glândulas responsáveis pela secreção de hormônios. É essa pequena máquina sintetizadora – e também produtora – de hormônios que nos dá chão. Ou o tira dos nossos pés.

O PRAZER NOSSO DE CADA DIA

Flutuamos durante um orgasmo por conta desse perfeito sistema que nos ajuda a sentir prazer dentro de um intervalo suportável. Senão iríamos ao pico

do impossível e, pumba, morreríamos de prazer. Uma bela forma de morrer, com certeza. Mas, se não chegou sua hora, o melhor mesmo é guardar energia para os próximos. Você não resistiria à tentação de um orgasmo matador, então o hipotálamo põe o pé no freio por você. O órgão regula também o olfato, outro personagem importante na química do sexo. Há quem acredite que reações como “não gostei do cheiro dele!” traduzam o estímulo muito pessoal enviado pelo hipotálamo. A teoria é bastante contestada nos humanos, mas confirma-se no mundo animal. Se o mijo do rato conquistador não é o do namorado da rata, o intruso pode levantar acampamento que daquele mato não vai sair filhote algum. A rata memoriza o odor do parceiro e é fiel a ele por mais de sete dias. Estudos recentes colocam o hipotálamo também no centro da nossa capacidade de nos reconhecermos como homem ou mulher e da nossa orientação sexual, desenvolvidas ainda durante a fase fetal. Segundo relatos de Dick F. Swaab, do Instituto de Neurociência da Holanda, apesar de a mídia ter dado mais atenção a essas pesquisas apenas na última década, evidências já mostravam que o cérebro humano armazena um vasto conjunto de diferenças, relacionadas não apenas ao gênero como também à orientação sexual. Foram constatadas similaridades entre o hipotálamo de homens heterossexuais e mulheres homossexuais, assim como entre o hipotálamo de homens homossexuais e mulheres heterossexuais, tornando esses grupos, aparentemente opostos em gênero, similares em setores específicos. Estudos de imagem mostram hipotálamos parecidos em tamanho entre HHo-MHe e MHo-HoH. Concluíram, também, que as porções hemisféricas do cérebro, assim como os modelos da conectividade das amídalas, eram diferentes nos homens homossexuais, de padrões mais femininos que os heterossexuais. E as mulheres homossexuais ffwmag! nº 18 2010

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A função do hipotálamo é centralizar o controle de várias funções e emoções: harmoniza processos metabólicos e atividades autônomas do dia a dia, como temperatura do corpo, apetite e olfato, sono, sede, raiva, medo e até prazer sexual

tinham modelos mais masculinos que as heterossexuais. Os primeiros estudos datam de 1990, uma época, como diz Swaab, de muito preconceito e, portanto, não muito divulgados.

velha, mas corpo e mente têm seus limites. “O atleta de ponta, por exemplo, não é mais saudável que um sedentário”, fala sem medo de gerar controvérsias o clínico geral Wagmar Souza.

A V I G O R E X I A D E M A D O N N A Uma das laterais do hipotálamo controla o apetite. Se houver lesão e dependendo da área, levará a pessoa a querer comer cada vez mais ou menos. Pode, inclusive, inibir completamente o apetite, causa maior da bulimia. Da mesma forma, influencia humor e agressividade, instinto maternal, tiroide e pressão arterial. As expressões somáticas de determinado estado emocional são também organizadas pelo hipotálamo. Seu mau funcionamento pode causar várias doenças e instabilidades. As duas principais causas de disfunção do órgão são a presença de um tumor e a deficiência hormonal. Muitas podem ser tratadas, como a perda de hormônios, resolvida com reposições. Entre as doenças mais comuns estão bulimia, hipotireoidismo, impotência masculina, incapacidade de lidar com estresse, alto colesterol, osteoporose, distúrbios no coração e fraqueza. Problemas de visão, sintomas relacionados à perda ou ao excesso de hormônios e dores de cabeça são alertas de que talvez seu hipotálamo esteja perdendo o rumo. Com toda essa responsabilidade, a melhor garantia para o equilíbrio dessas atividades tão centrais no nosso dia a dia é manter seu hipotálamo e hormônios balanceados e saudáveis. Seguir uma dieta saudável, não se matar na academia ou perder peso ajudam a preservar um hipotálamo feliz. E favorece a máquina humana. Recentemente, o público levou um susto ao ver Madonna com os músculos deformados. Dizem que a rainha do pop vem sofrendo de vigorexia, que é uma combinação péssima do excesso violento de exercícios com uma dieta para não engordar. Parece conversa de tia

P E S S O A S M A I S F E L I Z E S O hipotálamo exerce uma multiplicidade de controles. Possui muitas conexões difusas, recebendo informações, estímulos e linfas dos órgãos que controla através de conexões neurais e de amplas áreas do cérebro. Faz parte, também, do circuito de Papez, ligado ao sistema límbico e responsável pela interpretação e expressão das emoções. Quando ficamos ansiosos ou com medo, é o hipotálamo que faz os ajustes necessários. Hoje os neurologistas entendem cada vez mais que o estudo desse órgão passa por diversas áreas da medicina – o paciente precisa ser avaliado como um todo, devem ser observadas a forma como se relaciona com seu corpo e a influência que seus hábitos exercem sobre o organismo. Como resume Wagmar Souza: “O hipotálamo liga o sistema neurológico ao sistema endócrino – é uma das vias mais importantes nessa conexão. No entanto, é uma área da medicina ainda não muito compreendida – das muitas substâncias envolvidas e o papel de cada uma. O cérebro, apesar de tudo que se lê por aí, é o que chamamos de caixa-preta: sabemos o que entra e o que sai dali, mas não sabemos 100% como o cérebro faz o que faz. Sabe-se que o hipotálamo é central no controle de várias funções e emoções. E percebemos que as pessoas mais felizes, com um estado de espírito mais positivo para a vida, fortalecem, assim, seu sistema imunológico. E o hipotálamo é central nesse processo”. Parece papo de hippie velho, daquela filosofia do Bob Marley: positive vibration produz milagres que a própria medicina ainda não consegue explicar.

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E ri c h Wan d Er B E a l l 35 | computer case designer | SP Áreas de interesse: renderização 3D, programas de manipulação 3D, games e programação em Flash | OrgulhO geek: “Sempre a fim de adquirir novas tecnologias só pra dizer que tem. Muitas vezes, usa apenas 10% da capacidade do aparelho” | On-line: 14 horas por dia | Off-line: “Faço tudo pelo computador, é uma forma de estar conectado com o mundo” | gadget dO mOmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs e Bill Gates | na Campus p arty: “Vim dar palestra e expor meu trabalho” | BlO g: www.beallstudio.com 116

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EU SOU GEEK! Eles têm pressa. A tecnologia é seu centro gravitacional. Vivem conectados. Fazem várias coisas ao mesmo tempo. Acompanham novidades tecnológicas em tempo real. E, em breve, vão tomar conta de tudo Por Marcos Guinoza Fotos Ludovic Carème

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ill Gates ou Steve Jobs: eis uma questão fundamental para definir e distinguir nerds e geeks. Sim, existem discrepâncias entre uns e outros. Convencional, aparência esmolambada e, para muita gente, um tremendo truqueiro (ver o documentário Piratas do Vale do Silício), o fundador da Microsoft é identificado com a turma CDF, careta, nerd. Já Steve Jobs, o homem por trás da Apple, seria visionário, cool, fashion. Enfim, um legítimo ídolo geek. Ambos, na verdade, têm posição determinante na revolução tecnológica que faz o planeta girar desde meados do século passado. Gates por popularizar o PC; Jobs por transformar tecnologia em fetiche, “abduzindo” um exército crescente de “macfags” mundo afora. É na diferença entre os dois que identificamos quem é quem – nerd ou geek – no mais importante evento de tecnologia do país: a Campus Party, onde cerca de 6 mil aficionados por bits e bytes – os chamados “campuseiros” – armam suas barracas e permanecem durante uma semana trancafiados entre games, downloads, uploads, palestras, workshops, farras noturnas, flashmobs, paqueras e milhares de computadores conectados em altíssima velocidade: 10 Gb – dependendo do tráfego, dá para baixar um filme inteiro em menos de 5 minutos. Basta percorrer a arena do Centro de Exposições Imigrantes para

perceber o óbvio: aquele estereótipo de usuário de internet solitário, preso ao mundo virtual, não faz nenhum sentido ali. A Campus Party é um evento coletivo, onde os “tecnossexuais” se reúnem para compartilhar e celebrar experiências. E foi nessa festa movida a terabytes e gritos de “Ou!” que selecionamos alguns personagens. Meninos e meninas que têm a tecnologia como centro gravitacional, mas que passam longe do estigma de “gente esquisita”. OK, alguns até são. Mas os seguidores do nerd Bill Gates aparecem em menor número. A maioria prefere o geek Steve Jobs. Ao que parece, é uma evolução do comportamento nerd. “Geek é uma versão mais descolada do nerd”, opina o game designer Takeshi Oyama. “Vivemos na era da tecnologia. Ser geek, hoje, é cool”, completa o analista de sistemas Julio Cesar Damasceno. E, se as diferenças entre um e outro ainda não ficaram claras, o problogger Rafael Mendes dispara: “O nerd é virgem, o geek não”. Em comum, os dois grupos fazem parte de uma geração que já veio ao mundo equipada com wireless, conceito de mobilidade e impressionante capacidade de convergência. Alguém aí duvida que o futuro é deles? Campus Party: www.campus-party.com.br ffwmag! nº 18 2010

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B run o D i vet t a 28 | publicitário | SP Áreas de interesse: redes sociais, network e produção de vídeos | OrgulhO geek: “Estou conectado boa parte do meu dia e faço parte de umas 30 redes sociais” | On-line: 20 horas por dia | Off-line: domingo | gadget dO mOmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus party: “Encontrar amigos que só conhecia pela internet, assistir a palestras e participar de ações colaborativas” | BlO g: www.modaparahomens.com.br | www.fazaconta.com.br 118

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Rafael SantoS 20 | produção de música eletrônica | Osasco, SP Áreas de interesse: games | OrgulhO geek: “Geek é fascinado por tecnologia e sabe tudo que vai ser lançado daqui a dois meses” | On-line: 4 horas por dia, 10 nos fins de semana | Off-line: “Não posso ficar mais que três dias fora de casa, desconectado” | gadget dO m OmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus party: “Assistir a palestras das mais diferentes áreas de tecnologia” ffwmag! nº 18 2010

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C a rlo s G leyb er 45 | analista de sistemas | Rio de Janeiro Áreas de interesse: gadgets e desenvolvimento de sistemas | OrgulhO geek: “Está sempre atrás das novidades tecnológicas. O nerd busca conhecimento, o geek quer ter os aparelhos” | On-line: 16 horas por dia | Off-line: “Fico nervoso se não tenho como me conectar” | gadget dO mOmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus party: “Ficar por dentro do que está acontecendo nas áreas de tecnologia” | BlO g: www.pastorclaybom.com.br 120

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T a T ia n a S e h n 23 | designer + estudante de ciência da computação | Porto Alegre Áreas de interesse: design e programação | OrgulhO geek: “Geek é alguém maluco por tecnologia, que está sempre atrás de novidades” | On-line: 8 horas por dia | Off-line: “Desconectada, sinto os efeitos da abstinência, fico pensando no e-mail, no Twitter” | gadget dO mOmentO: iPhone ou BlackBerry | ÍdOlO geek: não tem | na Campus party: “Assistir a palestras de programação” | BlO g: www.chadasquatro.com ffwmag! nº 18 2010

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L ui s A u g u st o R i zz i J R . 20 | técnico de informática | Ribeirão Preto, SP Áreas de interesse: programação | OrgulhO geek: “Antigamente, havia mais preconceito. Hoje, a tecnologia tomou conta de tudo. É difícil encontrar alguém que não navegue pela internet, por exemplo. Mas ainda zoam com geeks e nerds” | On-line: 24 horas por dia: “Não desligo o computador nunca” | gadget dO mOmentO: BlackBerry | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus party: “Assistir a palestras de desenvolvimento de games” | BlOg: www.skedarcorp.com 122

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J u l i a n a B a r r o s D e l l a n g é l ic a 23 | designer | Bragança Paulista, SP Áreas de interesse: design e manipulação de fotografia | OrgulhO geek: “Geek é uma extensão do nerd. Um cara mais descolado, com vida social” | On-line: 20 horas por dia | Off-line: “Me sinto mal quando estou longe do meu computador” | gadget dO m OmentO: iPod | ÍdOlO geek: Stephen Hawking | na Campus p arty: “Assistir a palestras de design e baixar muita coisa” | BlO g: janelaproabacate.blogspot.com ffwmag! nº 18 2010

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Ra fael M en d es 23 | marketing digital + problogger | SP Áreas de interesse: games | OrgulhO geek: “O geek é diferente do nerd. O nerd é virgem, o geek não” | On-line: 20 horas por dia | na internet: participa de cerca de 40 redes sociais | g adget dO m OmentO: iPod e PSP | ÍdOlO geek: Gil Giardelli | na Campus party: “Assistir a palestras sobre blogs e fotografia” | BlOg: zueimuito.com | chubbyvegan.net 124

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Takeshi Oyama 26 | game designer | SP Áreas de interesse: games e sistemas | OrgulhO geek: “Geek é uma versão mais descolada do nerd. Eu me vejo mais como nerd, tenho um estilo mais clássico” | On-line: 14 horas por dia | Off-line: “Com muito esforço, até consigo ficar sem me conectar” | gadget dO mOmentO: iPhone | ÍdOlO geek: Bill Gates | na Campus p arty: “Assistir a palestras e participar de oficinas, principalmente de desenvolvimento de games e softwares” ffwmag! nº 18 2010

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A l in e G o m e s 23 | publicitária | SP Áreas de interesse: sexo | Aline sabe programação e foi jogadora profissional de Counter Strike. Mas foi com o seu apimentado Twitter que a menina virou celebridade na internet. “Sou uma pessoa que só pensa em sexo. Vou ao supermercado e fico imaginando as pessoas peladas.” A garota assegura que não fica só no blablablá: “Faço sexo tanto quanto falo sobre ele”. Desde 2007, ela posta missivas “irônicas, ácidas e bem-humoradas” sobre sexo em seu microblog. Hoje, tem quase 6 mil seguidores e, além de faturar com campanhas, negocia um programa de TV | GadGet do momento: iPad | GadGet sexual: gagball (brinquedo erótico que, segundo ela, só vale usar se for a dois). “Homem tem que pagar motel mesmo!”, exige Aline | twitter: www.twitter.com/line 126

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F r a n k l i n M a s a o H ir a t a 18 | estudante de ciência da computação | SP Áreas de interesse: programação, banco de dados, “tudo que envolve códigos é surpreendente” | OrgulhO geek: “Pessoa que esteja diariamente conectada, se mantém informada e compra todos os gadgets que são lançados” | On-line: 18 horas por dia | Off-line: “Eu me sinto deslocado. A cada hora preciso verificar minha caixa de e-mails” | gadget dO mOmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus party: “Assistir a palestras” ffwmag! nº 18 2010

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C a rlo s D an i el P e r e i r a X a v i e r 22 | programador de sistemas | Guarulhos, SP Áreas de interesse: desenvolvimento de sites, criação de softwares, entretenimento em robótica | On-line: “Dependendo do dia, de 1 a 12 horas | Off-line: “Fico tranquilo. Aproveito para ler” | ÍdOlO geek: Kevin Mitnick | na Campus party: “Conhecer pessoas, novas programações e sistemas” | BlOg: pt.netlog.com/pop_carlos 128

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T a m ir e s C a b r a l 19 | estudante de jornalismo | Barra Mansa, RJ Áreas de interesse: webdesign, blogs e games | OrgulhO geek: “Ligado em tecnologia e nos avanços que acontecem em sua volta. É uma pessoa antenada. Acho que é um avanço do nerd, alguém que se tornou mais aceito com a popularidade da tecnologia” | On-line: 12 horas por dia | Off-line: “Eu me sinto desatualizada” | gadget dO mOmentO: iPhone | ÍdOlO geek: Steve Jobs | na Campus p arty: “Vim divulgar meu blog e aprender mais” | BlOg: www.kbgames.com.br/kblog ffwmag! nº 18 2010

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E ri k a So lar ES M ac h a do 21 | engenharia da computação | Goiânia Áreas de interesse: design e modding (personalização de CPUs) | OrgulhO geek: “A vida gira em torno da tecnologia” | On-line: de 14 a 16 horas por dia | Off-line: “Fico desesperada, o mundo não tem sentido” | gadget dO mOmentO: iPhone | ÍdOlO geek: não tem | na Campus p arty: “Passear e conhecer o evento” 130

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J u l i o C e s ar D a m a s Ce n o 30 | analista de sistemas + mestrando em computação | Recife Áreas de interesse: redes, segurança e programação | OrgulhO geek: “O geek deixou de ter aquele estereótipo de nerd: estudioso, CDF, tímido. É visto de forma diferente. Afinal, vivemos na era da tecnologia. Ser geek, hoje, é cool” | On-line: 10 horas por dia | Off-line: “Fico tranquilo” | gadget dO m OmentO: iPad | ÍdOlO geek: Steve Jobs e Bill Gates | na Campus party: “Vim para terminar minha dissertação de mestrado. Estou no meu habitat, cercado de pessoas que me entendem” | BlO g: xjulio.wordpress.com ffwmag! nº 18 2010

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VAMO BATÊ UMBIGO? Barriga com barriga, ventre com ventre, pança com pança: a antiga umbigada usava o centro do corpo numa coreografia serpenteante que era considerada “indecente”. Não deu outra: a música popular brasileira tratou também de colocar o umbigo nos palcos

Por Pedro Alexandre Sanches Fotos Adenor Gondim

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O grupo As Ganhadeiras de Itapuã foi constituído para resgatar as tradições do bairro que começou nos anos 1930 como aldeia de pescadores no litoral norte de Salvador. Na foto, Anamaria das Virgens, a Ganhadeira Rainha. Na sequência de imagens, elas se apresentam nas dunas da lagoa do Abaeté ffwmag! nº 18 2010

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o princípio, era a umbigada. Veio sequestrada da África e pouco a pouco se apossou do centro das rodas de batuque, lundu, samba, jongo, caxambu, coco, candombe, do Norte ao Sul do Brasil. O dançarino (ou dançarina) em evidência escolhia alguém para trazer ao meio da roda e anunciava a escolha batendo o ventre no ventre do substituto (ou substituta). A pancada era um legítimo encontro de corpos, e a ela deu-se o nome de umbigada. A coreografia serpenteante ao redor dos umbigos simulava, você entendeu, os movimentos do ato sexual. Como conta José Ramos Tinhorão no livro Os Sons dos Negros no Brasil – Cantos, Danças, Folguedos: Origens, europeus em viagem pelo Brasil deparavam com a dança-coisa e a descreviam, escandalizados, entre copiosos adjetivos: “monstruosa”, “indecorosa”, “voluptuosa”, “abominável”, “lasciva”, “imoral”, “obscena”, “repelente”, “impudica”, “repugnante”, “lúbrica”, “grosseira”, “desonesta”, “imodesta”, “indecente”, “grotesca”, “crua”, “carnal”, “convulsiva”, “desordenada”, “despudorada”, “bárbara”, “pantomímica”. A dança-coisa era nada mais nada menos que a mera teatralização do sexo, ou seja, daquilo que gerava os cordões umbilicais que geravam os umbigos que geravam as umbigadas, inclusive de quem reclamava. Os pálidos “civilizadores” (do sexo?) enrubesciam e arrulhavam, mas incorporavam o duro aprendizado, aos poucos e à revelia. Lenta como um molejo e rápida como um choque elétrico, a umbigada transitava de escravos para pretos forros e mestiços libertos. De negros para índios, mamelucos, mulatos e brancos pobres. E, desses todos, para brancos supostamente nobres, livres, ricos e pudicos. Ao longo da corrente elétrica, o gesto tido como endemo134

niado se transformava, domesticava e camuflava. E deixava atrás de si um rastro de mestiçagem (que, por sinal, só acontecia porque existiam o sexo, o umbigo, o cordão umbilical e a umbigada). Ainda segundo Tinhorão, foi em viagem de navio de cá para lá que o rito “selvagem” se aplacou em formas musicais “civilizadas”, como a modinha “europeia” ou o fado “português”. Os meninos e meninas que no fim do século XX retraíram umbigos ao som de house, tecno e trance talvez não soubessem, mas sua dança moderna e branca era filha da filha da filha da filha da umbigada afrobrasileira. Se não perceberam, aliás, não foi por falta de aviso dos DJs brasileiros negros de drum’n’bass. O umbigo mestiço projetado no espaço pariu a portuguesa-carioca Carmen Miranda, o baiano praiano Dorival Caymmi e o pernambucano sertanejo Luiz Gonzaga, e nem por isso a umbigada original escapou de se perder pelas curvas do tempo e pelas passarelas progressivamente “aculturadas” dos desfiles de Carnaval. Ironicamente a ginga “morta” renasce das cinzas a cada nova rodada geracional, retrabalhada em baião, xote, xaxado, frevo, iê-iê-iê, roque, sambaroque, brega, vanerão, pagode, boquinha de garrafa, hip hop, funk carioca, tecnobrega e o que mais chegar. Cá no lado de baixo do equador (onde, segundo Chico Buarque e Ney Matogrosso, supostamente não existiria pecado), a bruma fantasmagórica da roda comunitária de escravos estará sempre presente, onde quer que um umbigo se projete na direção de outro umbigo. O pavor do sexo pode ser primo do nojo à ralação de umbigos, mas obviamente não é só disso que se trata. O agrupamento de (ex-)escravizados jamais amedrontou somente por causa da ameaça

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Formado por 40 integrantes – homens, mulheres e crianças entre 12 e 78 anos –, o grupo As Ganhadeiras de Itapuã apresenta a umbigada, dança trazida por escravos africanos que, aos poucos, se apossou do centro das rodas de batuque, lundu, samba, jongo, caxambu, coco e candombe

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“Xaréu, robalo, guaricema, peixe-galo, sardinha, pititinga, preta Maria chegou!” Eunice Jorge, a Ganhadeira dos Peixes

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“Ói o coco, senhor! Ói o coco, sinhá! Vem comprar, Ioiô, vem comprar, Iaiá, coco duro, coco verde, coco mole da baía de São Salvador” Amália Pereira, a Ganhadeira dos Cocos ffwmag! nº 18 2010

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sexual, e para prová-lo são maiúsculos os exemplos de Zumbi em Palmares, Antônio Conselheiro e seus beatos no sertão baiano de Canudos, os devotos de Padre Cícero em Juazeiro do Ceará, o bando de Lampião & Maria Bonita sertão nordestino afora. Seja nos blues e folks compostos por presidiários norte-americanos ou no forró nordestino ressequido pela estiagem, a música sempre se relacionou com essa tensão em alta voltagem. A partir dos anos 1940, o baião delineado de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira migrou das periferias nordestinas para o umbigão Rio-São Paulo. Dali, se alastrou pelo Brasil, a ponto de dezenas de mocinhas de sociedade se apresentarem em eventos coletivos munidas de sanfona, como mostra uma cena do impactante documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira. Pois os versos tristes sobre seca e abandono, as vestes estilizadas de cangaceiro e o alegre xaxado rebolado de Gonzagão eram tributários diretos de imaginário forjado dentro do bando de Lampião. As ambiguidades, de torcer os miolos, partiam de Gonzaga, matuto defensor intransigente da lei e da ordem (e, mais tarde, da ditadura militar), e de Teixeira, “doutor do baião” e futuro deputado federal pelo Ceará. O golpe militar de 1964 não impediria de imediato o pendor brasileiro à aglutinação. Ao contrário, foi sob as asas dos canhões que floresceu, já em ambiente televisivo e centralizador, a era dos festivais. Foi um instante de auge da música popular como criação coletiva, embora fundada na ultracompetição embolada entre “migrantes” como Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé e “nativos” do eixo Rio-São Paulo como Chico 138

Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Paulinho da Viola e Mutantes. A pancadaria foi inevitável, mas o legado, anos 1970 adentro, foi uma gigantesca e majestosa umbigada. A pilantragem de Wilson Simonal desbundou na suruba pop dos tropicalistas. No Rio e em São Paulo, respectivamente, Novos Baianos e Mutantes passaram de bandas a comunidades hippie aglutinadas na arte e na vida. À frente dos Secos & Molhados, Ney Matogrosso esfregou o umbigo no nariz dos militares (era filho de um deles) e pôs a androginia no mapa da mina. Caetano, Gal, Gil e Maria Bethânia se atocaiaram no convescote pós-hippie Doces Bárbaros. Em shows e discos, Caetano e Bethânia transaram entre si e com Chico Buarque; Gil e Jorge Ben promoveram a fusão ritual entre Xangô e Ogum; Gil partiu em turnê de refestança com Rita Lee & Tutti Frutti. Sem nunca ter sido um clube, o Clube da Esquina mineiro tornou-se o clube mais conhecido do pedaço, dentro do Brasil e fora dele. Em 1973, seu líder, Milton Nascimento, um filho do filho do filho do filho de Zumbi dos Palmares, se viu sozinho e espremido pela censura militar – empacotou todas as vozes dentro da dele, embutiu todos os pássaros na garganta e criou O Milagre dos Peixes. O que não se podia perceber então era que, à custa de muita dor e valentia, aquela turma heroica resistia, mas carregava no ventre a semente estéril do casamento assexuado entre as Forças Armadas e a Igreja católica que chamavam de “regime militar”. A sociedade que inventou a ditadura criou também a sigla MPB, uma apropriação universitária e “intelectualizada” de forças naturais outrora rogadas por Gonzagas, Caymmis e Mirandas. Os jongos de Clementina Jesus, as quizumbas de Elza Soares e Martinho da Vila

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Na umbigada, o dançarino (ou dançarina) em evidência escolhe alguém para trazer ao meio da roda e anuncia a escolha batendo o ventre no ventre do substituto (ou substituta). Esse encontro de corpos ao redor dos umbigos faz referência ao ato sexual

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“Vem benzer, freguesa, cocadinha preta, tá na hora tá” Raquel das Virgens, a Ganhadeira das Cocadas

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“Eu tenho flores de todos os cheiros, cores e tamanhos para namorados, pé do santo, mesa da sala e para quem se foi” Jaci dos Santos, a Ganhadeira das Flores

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e os banhos de manjericão de Clara Nunes jamais conseguiriam consumá-los como rainhas e reis da música “popular” brasileira. Sob patrocínio da repressão política (e sexual, pois não?), a umbigada se desmilinguiu em murchos umbigos. A pressão crescente por uma sociedade menos grupal, mais individualista, arrebatou a música e arrebatou tudo mais (aqui incluídos, obviamente, a mídia que movimenta a música e o jornalismo que a critica e não raro a sabota). A sexualidade foi sendo escorraçada, quase sempre com o auxílio luxuoso dos “pensantes”. Esses seguiram (seguimos?) abominando Raul Seixas, Fafá de Belém, Odair José, Maria Alcina, Benito di Paula, Baby Consuelo & Pepeu Gomes, Gretchen, Sidney Magal, Luiz Caldas, É o Tchan e toda uma legião de párias que vicejaram e enriqueceram sob o apoio silencioso de uma multidão de descendentes de “ex-cravos”. Do andar térreo para cima, a masturbação e a castidade tatuaram a epiderme dos ritos dionisíacos, com repercussões que avançaram pelos anos da chamada redemocratização. Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller deram no pé com velocidade de raio, e a MBB – música branca brasileira – foi condicionada a conquistar prêmios de bom comportamento, investindo na imagem dessexualizada, às vezes castiça, de talentos dispersos por rock (NX Zero, Pitty, CPM 22), pop (Skank, Pato Fu, Jota Quest, Sandy & Junior), pagode (Alexandre Pires), MPB (Adriana Calcanhotto, Marisa Monte)... Pendular entre um mundo que quer morrer e outro que quer nascer, Marisa Monte se fez símbolo máximo da inteligência ainda resistente na tal MPB, ora tentando reinventar a cultura hippie com os Tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, ora enrodilhada nos labirintos do Infinito Particular e do Universo ao Meu Redor 142

(nesses dois últimos, quase desnecessário explicitar, o umbigo é o centro do sistema solar). Há nos porões, no entanto, um detalhe abrasivo: jamais deixa de borbulhar aquele burburinho que no passado fez lava de vulcão com maxixe, samba, baião, carimbó, guarânia, iê-iê-iê, lambada etc. e tal. O sol-umbigo individualista dá sinais evidentes de caduquice, à medida que a umbigada enluarada se insinua nas redes colaborativas em voga via internet e, adivinhe, nos movimentos de corpo inventados nas franjas e frestas das periferias brasileiras, longe demais das capitais (ou dos centros-umbigos das capitais). No Pará, evoluem a Banda Calypso de Joelma & Chimbinha, DJ Maluquinho, Viviane Batidão, Marlon Branco. Nos solos áridos de Lampião e Luiz Gonzaga, rebolam Aviões do Forró, Calcinha Preta, Magníficos. Na Bahia, o tecnobrega se converte em pós-axé com a Banda Djavú e DJ Juninho Portugal. No Espírito Santo, o nome do menino-prodígio do mash-up é André Paste, misturador de Fergie com Fábio Jr. Na concretude árida de São Paulo, ruge o samba de quadril duro de Racionais MC’s, Rappin’ Hood, Quelynah, Emicida. No Rio, pululam Deize Tigrona, Mr. Catra, Tati Quebra Barraco, Gaiola das Popozudas, Serginho & Lacraia. Seu Jorge provoca tremeliques na umbigosa Hollywood. São todos, sem exceção, praticantes daquele diabo no corpo que nossos avós europeizados amavam odiar. Mas e nós, daqui e de agora, será que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos ancestrais? As Ganhadeiras de Itapuã: www.myspace.com/ganhadeirasdeitapua | ganhadeirasdeitapua.blogspot.com

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As Ganhadeiras de Itapuã se apresentam com 13 crianças, 8 músicos que tocam instrumentos de corda e percussão e 19 senhoras que cantam e dançam, mostrando a riqueza cultural de Itapuã

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ERNST HAECKEL / KuNSTfoRmEN dER NATuR (1904)

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NO DIA Q EU VIM-ME EMBORA No dia que eu vim-me embora não teve nada de mais. Um dia a gente sai. Olha para a estrada. Um dia a gente pega a mala. Dia, caminho, sol, ânimo, medo. Na noite seguinte, risco, faísca, estrada, o nada. O sol, o sol, o sol. Quem sai em busca de um centro leva pouca coisa, enche a mala de ideias e planos. A paisagem de casa fica pra trás, as perspectivas aceleram, as nuvens andam. Quem sabe tudo pode mudar? Então, rumo ao centro. De algo. O alvo é algo distante. Mas vale a pena. Com as roupas das coleções de inverno 2010, nosso eixo de referência é a atmosfera dos fotógrafos William Gedney e Walker Evans. Alvos. Miras. Ponto a ponto

Fotos Cristiano Madureira Edição de Moda Paulo Martinez

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Camisa de organza e saia com aplicações em flores Forum Tufi Duek, meias Lupo, coturno Juisi By Licquor, mala Ultimura Produções ffwmag! nº 18 2010

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Ele: camisa de flanela Diesel, calรงa Redley Ela: paletรณ de lรฃ Ricardo Almeida, camisa Forum Tufi Duek, saia de tachas Colcci, jeans Iรณdice, cinto Richards 148

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Paletó e colete xadrez Mario Queiroz, camisa e ceroula 2nd Floor, botas Khelf, garfo de feno Objetos de Cena Antiguidades

Comerciantes vindos de várias partes do mundo islâmico exibem produtos no Dia de Arafat, ápice da peregrinação a Meca. Ao lado, orações na mesquita de al-Haram 150

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Vestido de paetĂŞs retangulares Giulia Borges, meias Lupo, sapatilhas Cervera, bicicleta Bonsucesso Antiguidades ffwmag! nÂş 18 2010

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Vestido estampado de cetim de seda Cavendish 152

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Jardineira jeans Levi’s, camisa xadrez Reverb City para True Vintage, cinto e boina de couro Diesel

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Camisa jeans 2nd Floor, colar Paula Velloso

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Camiseta vintage ร€ La Garรงonne, regata de malha Candy Shop, camisa TNG, calรงas pantalonas de cintura alta Lino Villaventura ffwmag! nยบ 18 2010

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Vestido bordado Lino Villaventura, cardigã de cashmere Benetton, meias FH por Fause Haten, botas À La Garçonne

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Vestidos de tafetรก brocado de veludo Lino Villaventura, colar Paula Velloso (esq.), colar Juliana Jabour para Surface to Air (dir.)

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Vestido de seda com aplicações em rosas Acquastudio, camisa Levi’s, meias FH por Fause Haten, botas Juisi By Licquor ffwmag! nº 18 2010

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Tudo Joรฃo Pimenta, ceroulas listradas Marcelu Ferraz

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Jardineira jeans e camisa Diesel 162

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Camisa Ronaldo Fraga, cardigรฃ Benetton, saia R. Rosner, legging Giulia Borges 164

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Colete Levi’s para À La Garçonne, colar dThales para Surface To Air

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Vestido de tricô Mara Mac, maxicolete bordado Printing, balde de zinco e vassoura de piaçaba Objetos de Cena Antiguidades 166

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Vestido de organza com bordado em flores Do Estilista, calรงa de brocado R. Rosner ffwmag! nยบ 18 2010

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Malha de tric么 metalizado Alexandre Herchcovitch, regador de zinco Objetos de Cena Antiguidades

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Camisa xadrez Do Estilista, calรงa jeans Chopper, camisa listrada e jardineira jeans Diesel ffwmag! nยบ 18 2010

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Vestido de tule bordado Do Estilista, cardigรฃ Benetton, sapatos Christian Louboutin ffwmag! nยบ 18 2010

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Ele: camisa jeans Seven, calรงa Khelf Ela: blusa de renda Graรงa Ottoni, camisa xadrez e saia de couro Do Estilista ffwmag! nยบ 18 2010

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Eles: (da esquerda para a direita) calça jeans CK jeans, camiseta de malha Gilda Midani, calça jeans Index Ela: vestido de cetim de seda D’arouche, meias Lupo, alpargatas Cevera, tábua de passar e ferro Objetos de Cena Antiguidades

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Camisa de linho Vilebrequin, bermuda jeans Levi’s para À La Garçonne, botas Khelf, garfo de feno Objetos de Cena Antiguidades

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Vestido de crochê metalizado com aplicações em pedras e lenço Alexandre Herchcovitch, botas À La Garçonne, lampião Objetos de Cena Antiguidades Ao lado: paletó de couro Do Estilista, ceroula Marcelu Ferraz, garfo de feno Objetos de Cena Antiguidades

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Tric么 com canutilhos Juliana Jabour, bermuda jardineira Diesel 180

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Ele: รณculos Ray-Ban, alpargatas Cevera Ela: vestido de renda e cetim Samuel Cirnansck, cardigรฃ de cashmere CK jeans, cinto Diesel ffwmag! nยบ 18 2010

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Tudo Rosa Chรก, regador de zinco Objetos de Cena Antiguidades

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Vestido de veludo Maria Bonita Extra, cardigรฃ Benetton, tiara de flores Cavendish, tamancos Lucas Nascimento

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Camisa Reverb City para True Vintage, calça jeans Diesel, casaco bordado Printing, cinto À La Garçonne, óculos Ventura, cadeira Acervo São Longuinho, engradados de garrafas de leite e vassoura Objetos de Cena Antiguidades

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Tudo Coven

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Trench-coat 2nd Floor, vestido rendado Martha Medeiros, chapĂŠu de palha Juisi By Licquor, botas Zeferino ffwmag! nÂş 18 2010

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Saia e blusa de paetês Patachou, cinto Diesel, cadeira Acervo São Longuinho

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Vestido de tear de lã com aplicações em strass Samuel Cirnansck

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Vestido de cetim de seda Cavendish, camiseta Marcelu Ferraz, cadeira Acervo Sรฃo Longuinho 192

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Kilt de lã xadrez e echarpe de seda amarrada na cabeça Alexandre Herchcovitch, calça jeans Levi’s, cinto Diesel, chapéu Plas, botas Khelf

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Tudo Osklen, cama patente Objetos de Cena Antiguidades 194

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Camiseta À La Garçonne, blazer de lã bordado Simone Nunes, óculos Ray-Ban, máquina de costura, cama patente, oratório e criado mudo Objetos de Cena Antiguidades ffwmag! nº 18 2010

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Tudo Alexandre Herchcovitch, roupa de cama M.Martan, cama patente Objetos de Cena Antiguidades 196

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Tudo Alexandre Herchcovitch

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Menina atrás: maxitricô de lã com capuz New Order Menina da frente: maxitricô de lã com tranças Maria Garcia, cama patente Objetos de Cena Antiguidades

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Macacão quadriculado de lã mohair Alexandre Herchcovitch

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Tudo Alexandre Herchcovitch 202

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Tudo Alexandre Herchcovitch, sandรกlias de feltro Osklen ffwmag! nยบ 18 2010

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Casaco bordado com aplicações Melk Z-da, chapéu Cavendish 204

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Maxicasaco de pele fake Neon ffwmag! nยบ 18 2010

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Vestido de lรฃ, seda e pele Giulia Borges 208

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Casaco de flores e tiras Ronaldo Fraga, vaso pintado, bule e lampiรฃo Objetos de Cena Antiguidades

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Tudo FH por Fause Haten ffwmag! nยบ 18 2010

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Body e vestido de organza nervurada com aplicações de borboletas Lino Villaventura

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Maxitricô feito à mão e sandálias de feltro Osklen

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Máscaras de crochê Helen Rödel para 2nd Floor 214

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Sapatos Lino Villaventura ffwmag! nยบ 18 2010

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Camisa e cinto Diesel, bermuda jardineira Joรฃo Pimenta

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Da esquerda para a direita: Calça jeans Chopper, calça jeans Index e cinto Diesel, calça jeans Diesel, calça jeans Khelf e cinto À La Garçonne, calça jeans Calvin Klein, botas João Pimenta ffwmag! nº 18 2010

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Calรงa Diesel, botas Joรฃo Pimenta ffwmag! nยบ 18 2010

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Calรงa jeans Khelf, cinto ร€ La Garรงonne

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Camisa xadrez À La Garçonne, saia bordada e cardigã de tricô Têca, botas Santa Lolla

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Sobreposições de regatas de malha e tricô Ausländer, chapéu Alexandre Herchcovitch

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Ela: vestido telado com paetês Triton, cinto Diesel, botas Santa Lolla Ele: calça jeans Calvin Klein, botas João Pimenta

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Camisa xadrez Forum Tufi Duek, calรงa jeans resinada Ellus, รณculos Ray-Ban

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Tudo Alexandre Herchcovitch, bicicleta Bonsucesso Antiguidades

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Vestido Acquastudio, camisa Diesel 232

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Vestidos Acquastudio, camisas Alexandre Herchcovitch e Diesel, cama patente Objetos de Cena Antiguidades ffwmag! nยบ 18 2010

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Pelerine de crochê de lã Rödel LA, saia e sobressaia de tricô de cashmere Lucas Nascimento, bicicleta Bonsucesso Antiguidades

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Casaco e vestido de crochê de ráfia Ronaldo Fraga, broche FH por Fause Haten, botas Santa Lolla

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Vestidos Huis Clos, bolsa de couro À La Garçonne, botas Maria Garcia, malas Objetos de Cena Antiguidade Produção de Moda: Juliana Cosentino e Larissa Lucchese Ass. de Moda: Toni Muller Beauty: Cecília Macedo por Duda Molinos e L’Oréal (Capa) Ass. de Beauty: Flavio Lacerda Ass. de Camarim: Rosely Berça Tratamento de imagem: Jorge Morábito

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“Adoro vestir pessoas. E, se algo me empolga, embarco nessa viagem e as ideias surgem”

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CRIAR / ELABORAR / QUESTIONAR Patti Wilson, uma das grandes stylists atuais, esteve em São Paulo. Ela conversa com ffwMAG! sobre o (ainda) fascínio pelos 80’s, fotógrafos bombados, revistas, cena fashion, Forum e moda. E decreta: “Sinto que os anos 1990 estão chegando” Por Bronie Lozneanu Fotos Vicente de Paulo

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“Comigo funciona assim: até o último minuto as coisas mudam. Faz parte do meu processo de criação”

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atti Wilson está entre as dez melhores stylists e editoras de moda do planeta. Há duas décadas essa garota de Nova York colabora com as revistas de moda que ainda contam no mundo. E consegue transitar por todas as áreas sem climas. Seu segredo consiste em trabalhar com fotógrafos diversos, estrelas como Patrick Demarchelier, Terry Richardson, Steven Klein, criando lances próprios para cada um. Modesta em suas atuações e sempre vestida de preto, ela confessa que adora a oportunidade de conviver com pessoas talentosas e criar looks impactantes a cada nova imagem. Patti começou profissionalmente com o editor Edward Enninful, da revista inglesa ID, com apoio da editora Franca Sozzani, da Vogue Itália. A stylist está sempre em busca da próxima imagem de moda: aquela que ela ainda vai criar. Nos últimos meses, seu olhar apurado esteve em capas e editoriais de publicações como Numéro, Harpe´s Bazaar, Vogue Itália e em campanhas para Pepe Jeans, François Nars, Moschino, Frankie Morello, além de uma constelação de outras etiquetas. Conseguimos (!) conversar com Patti entre os ensaios da Forum, para quem fez o styling da temporada outono/inverno 2010 da SPFW. ffwMAG! – No início dos 1980, você era hostess de um clube de jazz, em Nova York. Fale um pouco da cena daquela época... Patti Wilson – O proprietário do clube era jornalista de esportes, então o lugar passou a ser frequentado por astros do basquete, como Earl Monroe; do boxe, como Mohamed Ali; além de cantoras e atrizes, como Lena Horne; comediantes, como Redd Foxx; diretores de cinema, como Woody Allen. E inúmeros fotógrafos. Enfim, era o lugar do momento, com energia vibrante. ffwMAG! – Depois, você passou para a moda. Como isso ocorreu? PW – Adorava me produzir. Tinha fixação por Billie Holliday. Eu achava que era a sua reencarnação, exceto por um pequeno detalhe: ser incapaz de cantar. Foi uma fotógrafa, amiga de Woody Allen, quem me apresentou sua irmã, produtora de moda. Ela curtiu meus looks 240

superelaborados e perguntou se gostaria de produzir outras pessoas. Apesar de nunca ter feito esse trabalho, achei a ideia interessante. ffwMAG! – O glamour atraiu você? PW – De fato, não. Pensei na possibilidade de ganhar dinheiro para comprar muitos modelitos. Portanto, foram os vestidos que me atraíram [risos]. Então comecei a trabalhar de dia com ela. Eram desfiles e catálogos para clientes pequenos e agências de propaganda. Nenhuma revista de moda. Naquele tempo eu nem sonhava com isso. Ganhava pouco e continuava como hostess de clube, onde me sustentava com boas gorjetas. Eu me lembro de ganhar uma nota de US$ 100 de Mohamed Ali, graças às minhas produções mirabolantes. Mas nunca guardei nenhum centavo. Eram anos loucos, de curtição total. ffwMAG! – Vários admiradores do seu trabalho dizem que você tem um dom mágico, capaz de criar looks que transitam por estilos diversos. Como consegue? PW – Sinceramente, não sei. Sei que adoro vestir pessoas. E, se algo me empolga, embarco na viagem e as ideias surgem. Faz parte do processo de trabalho que, às vezes, começa com pessoas numa foto e acaba numa única mulher montada num cavalo [risos]. Agora, por exemplo, estou bastante entusiasmada com o desfile da Forum, porque trabalho com looks minimalistas: uma mulher agressiva e sexy, que usa e abusa de minissaias de couro e vestidos de paetês envelhecidos. Isso é um desafio. Costumo fazer produções elaboradas. É algo diferente. Gosto de ser posta à prova, de questionar conceitos. ffwMAG! – Como é trabalhar com fotógrafos como Steven Klein, Steven Meisel, Peter Lindenberg, Terry Richardson e David La Chapelle? PW – Steven Klein é mesmo incrível, um dos maiores. Um dos meus preferidos. Mesmo com ele, o processo pode começar de certa maneira e acabar totalmente no oposto da ideia original. Não sei explicar o meu processo criativo. Apenas sei que amo trabalhar com diretores de criação. Dividir ideias e elaborar desfiles em parceria com um diretor de arte é muito bom. Ele passa direcionamentos e tudo se encaixa.

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“Estou bastante entusiasmada com o desfile da Forum, por trabalhar com looks minimalistas. É algo diferente. Costumo fazer produções mais elaboradas”

Sungas “atoladinhas”, passeios de bicicleta, aparelhos de musculação improvisados: o Piscinão de ffwmag! nº 18 2010

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“Tinha fixação por Billie Holliday. Eu achava que era a sua reencarnação, exceto por um pequeno detalhe: ser incapaz de cantar”

Principalmente quando temos orçamentos restritos, tempo limitado. É difícil obter o look da coleção sem direção de arte. ffwMAG! – Voltando aos fotógrafos com linguagens diversas, como você se inspira? PW – Com David La Chapelle, fiz styling por muito tempo para ele. É um desafio. Ele tem senso de humor espetacular, nos divertíamos muito. Mas sua visão de mundo é bem particular: não é louco por moda e, ainda por cima, adora cores vibrantes. Posso dizer que ele funciona como o meu exato oposto, já que eu amo preto. Portanto, foi desafio duplo trabalhar com cores e me relacionar com alguém que acho genial, com personalidade e senso estético particulares. Hoje, vejo que a sua estética está pipocando em editoriais internacionais. Sinto um retorno aos anos 1980 que me remete aos trabalhos do David. Muitas pessoas o copiam. Na época, suas fotos provocavam escândalo. Hoje, seu trabalho continua a se destacar. ffwMAG! – Como você explica esse fascínio interminável pelos anos 1980? PW – É a estética da montação. Do exagero dos cabelos e da maquiagem. Prefiro fugir disso por razões óbvias [risos]. Lembre-se: fui hostess de um dos clubes mais fervidos de Nova York. Agora estou mais nos 1990. Mas acho que quem opta por repetir a estética de determinada época tem que aprimorar. Ir adiante. A cópia nunca me atraiu. ffwMAG! – Quais referências você costuma usar nas edições de moda? PW – Filmes, livros, antigas revistas de moda. Livros como o da Rebecca Horn, Philip Lindenberg. Não gosto de copiar nada. Mas as fotos de Steven Meisel sempre me inspiram. Ele incorpora a essência do fotógrafo de moda. Sabe fazer com que um vestido fique fabuloso. É um dos grandes fotógrafos fashion de todos os tempos. Quando vejo os editoriais de moda, tento não me deixar influenciar, mas adoro essas referências. ffwMAG! – Qual o segredo de uma capa de moda impactante? Vi a última capa da revista Numéro. O styling é seu. Adorei as referências indígenas... PW – Que ótimo que você gostou! Ainda não tive retorno das pes242

soas sobre esse trabalho. Nem sabia que seria capa... Clicamos as prévias das coleções. E nem sempre as roupas funcionam. A gente vê cada coisa! Aí imaginei uma estética Pocahontas [risos], baseada também no livro de Rebecca Horn. Fiquei chocada quando vi a capa. Nem fizemos uma tentativa. Ou melhor, nem sabíamos dessa possibilidade. Foi surpresa para mim e para o fotógrafo. ffwMAG! – Voltando ao segredo das boas capas... PW – Bem, se for um close, deve mostrar um pouco da alma da modelo, da sua personalidade. Ou devemos buscar uma imagem instigante, de impacto. ffwMAG! – Quais os atributos de um bom editor de moda? PW – Não sei explicar. Mas uma editora que admiro é Carine Roitfeld. Os resultados que ela obtém na Vogue francesa são sempre incríveis. Para mim, é um gênio. Poucos acertam como ela. ffwMAG! – O styling para grifes pode ser comparado a uma curadoria? PW – Sinceramente, não sei. É um trabalho maravilhoso. Como um show de rock. Nesse desfile da Forum, senti muito prazer de compartilhar com o Eduardo Pombal [estilista da marca] as etapas. Além do mais, ele é um doce. ffwMAG! – Ser personal stylist de popstar requer sabedoria ou muita paciência? PW – É assim mesmo. Você se torna uma babá. Tenho me dedicado bem menos a esse tipo de atividade. Toma energia e tempo. No caso da Alicia Keys, ela é realmente uma artista talentosa. Agora prefiro styling de artistas para editoriais de moda. Acabei de trabalhar com a Rhianna para a Vogue Itália e gostei bastante do resultado. ffwMAG! – O estilista Tom Ford diz que adora moda, mas não gosta do seu aspecto efêmero e comercial. Você considera que os editoriais de moda de revistas hoje são arte? PW – Certos editoriais de moda têm imensa qualidade artística.

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“As fotos de Steven Meisel sempre me inspiram. Ele incorpora a essência do fotógrafo de moda. Sabe fazer com que um vestido fique fabuloso”

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“Acho que quem opta por repetir a estética de determinada época tem que aprimorar. Ir adiante. A cópia nunca me atraiu”

ffwMAG! – Você se considera artista? PW – Hummm. Me considero stylist. E gosto muito desse trabalho. É uma forma de expressão em que me realizo plenamente. ffwMAG! – O que levou você ao trabalho da Forum? PW – Fui convidada por Giovanni Bianco. ffwMAG! – O que eles esperam de você? PW – Que eu aperfeiçoe a linguagem de moda da marca, ressaltando as qualidades. Amo desenvolver a imagem de um produto. ffwMAG! – Você é editora de revistas e atende inúmeros clientes, com grifes e propostas de moda diversas como Giorgio Armani, Dolce & Gabbana, Moschino, Valentino e outros. Como consegue tanto jogo de cintura? PW – É um desafio constante. Nunca paro de elaborar, de me questionar. Fora o eterno jet lag! Hoje, agora, estou aflita com o desfile da Forum. Percebi depois de várias provas de roupa que vamos trocar os sapatos. Comigo funciona assim: até o último minuto as coisas mudam. Faz parte do meu processo de criação. ffwMAG! – Você acredita que o epicentro do mundo fashion – o circuito Milão, Paris, Londres e Nova York – está com os dias contados? PW – Eu acho que esse circuito nunca vai ser abalado. Talvez outras cidades venham a se destacar. Quem sabe? ffwMAG! – Acredita que o Bric – Brasil, Rússia, China, Índia – vai fazer tremer as passarelas? PW – O potencial de consumo desses mercados é enorme. Mas ainda é cedo para ver resultados. ffwMAG! – O que conhece da cena fashion brasileira? PW – Estou encantada com a energia das pessoas, o entusiasmo que demonstram pela moda. Acho que se esforçam muito. ffwMAG! – O que mais a agradou na moda do SPFW? 244

PW – As boas vibrações. Senti grande energia criativa. ffwMAG! – O que pode e deve evoluir? PW – Às vezes, certos modelos me pareceram muito pesados para o clima de vocês. Eu estou me referindo a enormes casacos. Que exagero! Faz mesmo tanto frio por aqui? ffwMAG! – Você já deve ter trabalhado com modelos brasileiras. Gosta de alguma, em particular? PW – Acabei de conhecer a Alicia Kuczman [new face com look de Lolita, sobrancelhas raspadas e olhar languido, destaque nas semanas de moda do Rio e de São Paulo] e gostei muito dela. ffwMAG! – E algum estilista brasileiro? PW – Conhecia o trabalho de Reinaldo Lourenço. É interessante. Também fiquei impressionada com o talento do Pedro, seu filho. Tão jovem e envolvido com moda há tempos. Vejo nele um enorme potencial. Também admiro Alexandre Herchcovitch. ffwMAG! – No que aposta para a próxima estação? PW – Sinto que os anos 1990 estão chegando. ffwMAG! – Tem alguma estética que agrada você em particular ou prefere mudar sempre? PW – Bom, só uso preto. Nunca mudo. ffwMAG! – Num rápido balanço fashion da última década, o que veio para ficar? PW – Acho que continua a tendência de olhar para as décadas passadas. Quanto ao futuro, o que dizer? Agora, por exemplo, eu vou fazer o styling para coleções de alta-costura. E não tenho menor ideia das roupas que serão fotografadas. ffwMAG! – Até agora, o que chamou mais a atenção no Brasil? PW – A alegria de viver. Mas acho que preciso conhecer melhor o país para arriscar uma resposta complexa.

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“Às vezes, certos modelos me pareceram muito pesados para o clima de vocês. Me refiro aos enormes casacos. Que exagero! Faz mesmo tanto frio por aqui?”

A nova-iorquina Patti Wilson, hoje entre as profissionais destacadas do planeta fashion, veio ao Brasil cuidar do styling da Forum na edição outono/inverno 2010 da SPFW ffwmag! nº 18 2010

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ERNST HAECKEL / KuNSTfoRmEN dER NATuR (1904)

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INTERLIGAÇÕES ffwmag! nº 18 2010

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A espaçonave Shuttle Atlantis passa em frente ao disco solar. Para conseguir esta imagem, o fotógrafo francês Thierry Legault usou um telescópio refrator de 5 polegadas com filtro solar e uma câmera digital Canon 5D Mark II 248

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A BOLA DE FOGO Visões astrológicas sobre o Sol, a estrela central do sistema em que gira a Terra e outros planetas

Por João Acuio Fotos Thierry Legault

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magine um primata. Qualquer um. Eu, você, algum ancestral nosso. Pense no nosso semelhante no fundo de uma caverna, sem livros, sem conhecimento mínimo, sem luz. Do lado de fora da caverna, noite sem Lua, sem estrelas, feras terríveis. O nosso ancestral no fundo do mundo, sem deus, morto de frio, morto de medo. Apavorado, abraçado a outro apavorado em troca de alguma migalha de esperança de que as trevas, quem sabe, sejam fulminadas pelos raios de quem um dia os deixou à mercê da sorte. Para piorar o desespero, as horas noturnas duram séculos de angústia e espera. É a mesma angústia sob os escombros do Haiti. Há os que rezam e clamam por Deus. Outros, ateus, nem respiram, apenas sussurram o “Juízo Final” de Nelson Cavaquinho: “O Sol/ há de brilhar mais uma vez/ a luz/ há de chegar aos corações”. E é o que acontece, o Sol brilha e afasta a escuridão e o medo. E, com gratidão no coração, o Sol é reconhecido e cultuado como um deus pelo nosso ancestral até então tremendo mais que vara verde. E é assim até hoje. Cenoura e bronze. Hélio, Amon-Rá, Omolu, Apolo são algumas divindades, em diferentes culturas, identificadas àquele que todo santo dia vence a morte e as trevas, distribuindo luz e vida ao mundo. O mundo tem atração pelo Sol. Vamos às testemunhas. Quando o deus Sol egípcio, Amon-Rá, abre a pálpebra, o dia desperta e se espreguiça. Imediatamente após o primeiro bocejo, duas outras divindades vestem-no e o conduzem até sua barca de ouro. Ouro são lascas do Sol (o ouro é um metal associado ao Sol por motivos óbvios). Conduzindo uma tripulação hábil, Amon-Rá

desliza silenciosamente sua barca sobre as ondas do oceano celeste distribuindo calor e luz pelo mundo. E o mundo sorri, puro, abestalhado, ao milagre da vida. O coração, o sol do corpo, vai parar na boca. E, mesmo quando Amon-Rá, do alto do seu palácio, entristece e chora, suas lágrimas doam boa sorte aos homens de boa e má vontade (o Sol governa a todos, Amon-Rá é justo). Cada lágrima de Rá é transformada em abelha, que, por sua vez, fabrica cera e mel, tão necessárias à alimentação egípcia e ao preparo de medicamentos. O mel é o sal do Sol. Além de médico e agricultor, Rá faz papel de mediador de conflitos e também de protetor dos oprimidos pelos maus espíritos, ensinando-lhes magia e a ciência dos encantamentos. Amon-Rá lembra o óbvio: sem Ele, o Sol, não há comida, não há saúde, não há justiça, não há foco, não há centro, não há proteção, não há encanto, não há corpos sarados na praia, não há dissipação das trevas do mundo e muito menos garota de Ipanema. Quando a noite vem é sinal de que Amon-Rá adentrou o mundo dos mortos jogando o nosso ancestral egípcio, mais uma vez, pra debaixo dos escombros noturnos. Durante a noite, Rá atravessa uma vasta região selvagem e desolada, que limita o reino dos vivos e o reino dos mortos – é o Amanti, o mundo subterrâneo egípcio. Nesse lugar sombrio, o barco atravessa as 12 portas da morte, uma para cada hora noturna. Na travessia, Amon-Rá enfrenta terríveis serpentes, monstros, répteis gigantes que querem porque querem vê-lo derrotado. Quando pensa que venceu a noite, Amon-Rá enfrenta seu pior inimigo, a gigantesca serpente Apópis, que ataca o Sol toda ffwmag! nº 18 2010

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Imagem do trânsito solar da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) e da espaçonave Shuttle Atlantis, 50 minutos depois de se desencaixar da ISS para retornar à Terra

manhã e em todo entardecer. Se for derrotado, Rá desaparecerá e o universo todo sucumbirá. Sim! Eu, você e a torcida do Flamengo! Mas Amon-Rá sempre vence o inimigo e ao atravessar uma porta monumental, a última da terrível travessia no reino dos mortos, volta a brilhar esplendorosamente. E você abre os olhos para ir trabalhar. De quebra, descobre que está no mundo dos vivos. Todo dia, a barca egípcia de Amon-Rá, o deus Sol, nasce, morre e renasce – e o círculo perfeito é desenhado no céu. E o anel de casamento é posto no dedo. Leminski Amon-Rá dizia algo assim: “Uma semana, um mês, um ano/ não dão para a saída/ nada passa igual a um dia”. A cultura greco-romana aumentou o círculo ampliando a travessia da barca do Sol para o período de um ano. No lugar de uma barca, uma carruagem de fogo guiada por cavalos. Essa é a história de Apolo, o deus Sol, irmão de Diana, a Lua. Uma vez por ano, Apolo se retira do mundo. E isso acontece sempre na estação do inverno, isto é, no solstício de Capricórnio – tempo presidido por Saturno, deus frio e seco segundo a astrologia (e tudo que é frio pode estar morto). Quando a carruagem de Apolo se aproxima do signo da Cabra, segundo os antigos, é hora de Apolo se retirar ao País dos Hiperbóreos, lugar onde reina paz e equilíbrio, calor e brilho, clareza e justiça, dom da profecia e cura – atributos do irmão da Lua. Sim, a doença e a cura estão sob o domínio do deus Sol. Apolo rege as pestes e também a cura, assim como Omolu, o deus Sol da cultura nagô, orixá da morte, das doenças e dos remédios. Olhe nos olhos do Sol pra ver o que acontece. 250

Apolo, o Febo, para desespero do mundo, permanece no País dos Hiperbóreos o inverno todo, para voltar com sua carruagem de fogo somente no equinócio de Áries, isto é, três meses depois, trazendo consigo a primavera, a vida, repelindo assim toda a doença e o gelo da face da terra. Depois de Áries, Touro e Gêmeos, a carruagem de Apolo alcança o gigantesco Caranguejo, e Apolo traz o suor do Sol, as chuvas, abrindo a estação das águas, o verão. Em seguida, abrandando a sua fúria e calor, após passar por Leão e Virgem, chega a Libra, inaugurando o outono, estação da sombra e água fresca. Apolo segue em frente, Escorpião e Sagitário e, ao avistar Capricórnio, Apolo se retira mais uma vez ao País dos Hiperbóreos e espalha, com sua ausência, o frio e a doença no mundo enquanto a carruagem percorre sozinha os signos seguintes, Aquário e Peixes. Até que Apolo volta com Áries e o círculo perfeito de vida-morte-vida recomeça. É fácil imaginar que, seguindo os passos de Apolo, os calendários – agrícola, religioso e político – seriam trançados entre si, construindo uma organização social do tempo. Sem dizer que o Sol, senhor do Oráculo de Delfos, ganha em status e influência, reunindo atributos heroicos de orientador e salvador da pátria, assim como punidor daqueles que ultrapassam os limites permitidos – veja o caso do nosso padre Adelir, o nosso Ícaro, que desafiou o Sol voando mais alto que seus balões de gás permitiam. E o atual superaquecimento do planeta, castigo de Apolo? Apolo é um deus vingador. Mas apesar da ira solar de tempos em tempos, é possível ouvir o povo bradar em uníssono: “Você é meu Sol, sou seu girassol” a cada nascimento de dia, a cada primavera viril.

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O ônibus espacial Endeavour, com sete tripulantes, em missão no espaço. A nave viajou à Estação Espacial Internacional para instalação de telescópios e outras atividades científicas

Vale lembrar que Apolo não é a única divindade do panteão astrológico. O culto a um deus único, seja ele Apolo, Jesus ou Madonna, estimula o pensamento único, hegemônico, centralizador, monoteísta – onde tudo orbita e habita um único umbigo. Aleluia, irmãos! O culto a um deus único é chato, sem imaginação, com vocação fascista e frutos paranoicos. A astrologia que apoia sua interpretação somente em Apolo, por exemplo, faz da consciência apolínea um altar. E Apolo geralmente esquece de Dioniso. E todo culto a um único deus faz adoecer. E aí começam os sintomas. Neste caso, o Sol se torna um Big Brother cósmico de olho em você. O deus Sol sempre foi associado aos olhos realmente. O sintoma número um do astrólogo apolíneo é cagar regras apolíneas em cima de você. Mas as regras poderiam ser de um outro deus escolhido. Esse é o mal do monoteísmo em qualquer área de conhecimento. A astrologia é politeísta e, por assim ser, abriga diversas visões do mundo, ao mesmo tempo. Quem está no centro do pensamento astrológico é o homem e o seu destino na Terra. O astrólogo é mensageiro de todos os deuses, faces de Deus e do Humano, e não apenas de Apolo. Assim sendo, é preciso ouvir Saturno, Júpiter, Marte, Vênus, Mercúrio, Lua e também o Sol, se ficarmos somente no panteão da astrologia antiga. O panteão da astrologia contemporânea ainda considera Urano, Netuno e Plutão. Plutão está envolvido na tragédia última que desmoronou o Haiti. A organização dos deuses em cada mapa astral faz com que tenhamos um panteão astrológico particular que versa sobre o

destino do mapa em questão. E, dentro dessa perspectiva, o Sol é apenas mais um elemento na análise. O Sol, então, não é o centro do mundo segundo as cosmogonias antigas ou como os horóscopos dos jornais propagam ao enfatizarem os signos solares. A Terra/Homem é o centro do mundo (Ptolomeu), a qual se encontra sob o jugo das esferas celestes (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno e agora Urano, Netuno e Plutão, mais as estrelas fixas). Apenas com Copérnico é que o Sol se localizará no centro do universo, ou perto de, já que o cientista comprovou que não é o sol que caminha em torno da Terra, mas ao contrário. A Terra, com Copérnico, deixa de ser fixa e imóvel. Acontece que para a astrologia isso não faz a menor diferença, porque tomamos a Terra como ponto de vista e não o Sol. A tese de Copérnico, além de elucidar dúvidas sobre a mecânica celeste, apenas fez separar a astronomia do conhecimento astrológico, tanto em método quanto em objetivo, já que astronomia não versa sobre o destino dos seres e nações como faz a astrologia, por exemplo. O sistema heliocêntrico de Copérnico, por consequência, separa a ciência astronômica da poética e da virtual vontade dos deuses sobre o destino dos homens – é o declínio, aparente, da astrologia e o início da astronomia moderna. Então, qualquer discussão entre astrologia e astronomia moderna, pode ter certeza, é falsa polêmica. No tribunal do mundo, Giordano Bruno, matemático e filósofo italiano, foi além de Copérnico, e propôs que o universo é uma esfera sem centro. O centro estaria em toda parte. Giordano morreu na fogueira. ffwmag! nº 18 2010

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NO BALANÇO DA REDE Um dos fUndadores da revista Wired, Kevin Kelly antecipava em 1994 a ideia de rede como ícone do sécUlo XXi. rede sem comando, com inúmeros pontos “centrais” interconectados. esse fUtUro chegoU Por Kevin Kelly Ilustrações Elohim Barros

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e fosse possível determinar um ícone para a ciência do século XX, certamente seria o átomo. Como figura no imaginário popular, o símbolo do átomo é absoluto: um ponto preto cercado pelas órbitas em seu contorno de inúmeros outros pontos menores. O átomo gira solitário, o próprio arquétipo da singularidade. Ele é a metáfora da individualidade. Em seu centro está a animosidade, o algo mais, a força motora da vida, mantendo tudo em posição. O átomo representa poder, conhecimento e certeza. Ele carrega o poder cru da simplicidade. Mas o reinado icônico do átomo está chegando ao fim. O símbolo da ciência do século XXI é a rede dinâmica. O ícone da rede, ao contrário daquele do átomo, não tem centro. Ele é composto de inúmeros pontos conectados uns aos outros, uma teia de setas que convergem se contorcendo e formando um ninho, uma imagem inquieta que desaparece em extremidades indeterminadas. A rede é o arquétipo exibido para representar todos os circuitos, toda a inteligência, toda a interdependência, todas as coisas econômicas, sociais e ecológicas, todas as comunicações, toda a democracia, todos os grupos, todos os grandes sistemas. Esse ícone é esquivo, enlaçando o imprudente em seu paradoxo sem começo, fim ou centro. A rede transmite tanto a lógica do computador quanto a da natureza. Na natureza, a rede se traduz, por exemplo, na colmeia. A colmeia é socialmente irredimível, descaradamente plural, mas decide coletivamente quando atacar em grupo e para onde se mudar. Uma colmeia possui uma inteligência que nenhuma de suas abelhas individualmente é capaz de ter. O cérebro de uma única abelha opera com uma memória de seis dias; a colmeia opera com uma memória total de três meses, o dobro da expectativa de vida de uma abelha comum. Embora muitos filósofos tenham, no passado, suspeitado que seria possível abstrair as leis da vida e aplicá-las às máquinas, foi apenas com os computadores, quando os sistemas criados por humanos se tornaram tão complexos quanto as coisas vivas – tão complexos quanto uma colmeia –, que foi possível provar isso. Assim como uma colmeia funciona como se fosse um único organismo sensível, assim funciona uma colmeia eletrônica, composta de milhões de limitados e barulhentos computadores pessoais, que se comportam como um único organismo. Das partes conectadas – seja de insetos, neurônios ou batatas fritas – vêm o aprendizado, a evolução e a vida. De um enxame do tamanho do planeta de máquinas de silício, vem uma inteligência autônoma emergente: a rede.

Eu vivo em redes de computadores. A rede das redes – a internet – conecta milhões de computadores pessoais ao redor do mundo. Ninguém sabe ao certo quantos milhões estão conectados, nem mesmo quantos aparelhos intermediários existem. Como a colmeia, a rede não é controlada por ninguém; ninguém está no comando. A rede é, como seus usuários gostam de ostentar, a maior anarquia funcional do mundo. Diariamente milhões de mensagens são trocadas entre os seus usuários sem o benefício de uma autoridade central. Além de um vasto fluxo de mensagens individuais, também existe entre suas avenidas de comunicação um ciberespaço onde essas mensagens interagem, um espaço compartilhado de interações públicas. Diariamente autores acrescentam milhões de palavras a um número incontável de interações sobrepostas em todo o mundo. Eles criam a cada dia um imenso documento descentralizado, em eterna construção, em fluxo constante e de permanência passageira. Os usuários dessa mídia estão criando um espaço de interação completamente novo, muito diferente daquele estabelecido em um livro impresso ou mesmo em uma conversa ao redor de uma mesa. Por causa dessa não permanência, o tipo de pensamento encorajado pela rede tende ao não dogmático – a ideia experimental, a sátira, a perspectiva global, a síntese interdisciplinar, desinibida e frequentemente emocional como resposta. Muitos participantes preferem os textos arquivados da rede porque têm uma característica social de pessoa para pessoa, franco e comunicativo, em vez de preciso e timidamente literário. No lugar do pensamento canônico rígido cultivado pelos livros, a rede estimula outro modo de pensar: telegráfico, modular, não linear, maleável, cooperativo. Uma pessoa na internet vê o mundo sob uma luz diferente. Ele ou ela vê o mundo como algo decididamente descentralizado, cada usuário é produtor e consumidor, todas as partes são equidistantes, não importa quão grande se torne, e cada participante é responsável por filtrar a verdade de uma cacofonia ruidosa de ideias, opiniões e fatos. Não há um significado central, nenhum cânone oficial, nenhum consentimento manufaturado subjacente ao qual se possa pedir emprestado um ponto de vista. Em vez disso, toda ideia tem um defensor e todo defensor tem uma ideia, enquanto contradições, paradoxos, ironias e verdades multifacetadas se multiplicam. Uma visão recorrente revolve na mente compartilhada da rede, uma visão que quase todo usuário compartilha, ainda que ffwmag! nº 18 2010

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O ícone da rede, ao contrário daquele do átomo, não tem centro. É composto de inúmeros pontos conectados uns aos outros, gerando uma teia de setas que convergem e formam um ninho. O resultado é uma imagem inquieta que desaparece em extremidades indeterminadas

momentaneamente: de conectar em uma única alma planetária mentes humanas e artificiais. Esse tecnoespiritualismo incipiente é ainda mais notável porque era inesperado. Afinal de contas, a rede não é nada além de um grupo de pedaços de pedra construído com alta tecnologia e conectado por pedaços de metal ou vidro. É tecnologia rotineira. Os computadores tornaram a vida mais rápida, mas não tão diferente. Ninguém esperava o surgimento de uma nova cultura, de uma nova emoção nem mesmo de novas políticas quando unimos circuitos calculantes com as redes telefônicas; mas foi exatamente isso o que aconteceu. Há outras máquinas, como o automóvel e o ar-condicionado, que radicalmente mudaram nossas vidas e a paisagem da nossa civilização. A rede (e tudo o que vier dela) é mais uma dessas máquinas e pode ainda ultrapassar a extensão de todas as outras, mudando a forma como nós vivemos. A rede é um organismo/máquina cujos tamanho e limites exatos são desconhecidos. Tudo que nós sabemos é que novos usos e partes são acrescentados a ela em tal velocidade que sua existência pode mais facilmente ser descrita como um ato explosivo do que como algo, uma coisa. Tão vasta é essa rede embrionária, e tão rápido se desenvolve em algo novo, que ninguém pode entendê-la o suficiente para se dizer especialista. As minúsculas abelhas de colmeia vivem quase sem saber o tamanho de sua colônia, mas a mente coletiva da colmeia transcende para as mentes de cada uma delas. O mesmo acontece quando nos conectamos a uma rede-colmeia que nós não antecipamos, entendemos nem podemos controlar, nem mesmo perceber como um todo. Esse é o preço de qualquer mente coletiva emergente. Ao mesmo tempo a própria forma desse espaço de conexão nos molda. Não é uma coincidência que o pós-modernismo tenha surgido conforme a rede se formava. Na última metade de século XX, um mercado de massa uniforme desfaleceu e dele surgiu uma rede de pequenos nichos como resultado da maré de informação. A agregação de fragmentos é o único valor total que temos agora. A fragmentação de mercados empresariais, de tradições sociais, de convicções espirituais, de etnicidades e da própria verdade em pedaços cada vez menores é a marca oficial desta era. Nossa sociedade é um pandemônio de fragmentos em funcionamento – assim como a própria internet. Pessoas em uma sociedade altamente conectada, mas profundamente fragmentada, já não podem confiar em um cânone central para 254

orientá-las. Elas vivem em uma escuridão existencial moderna que as força a criar suas próprias culturas, convicções, mercados e identidades através de informações conflitantes e interdependentes. O ícone industrial do grande e oculto “eu sou” se torna oco. A totalidade descentralizada, sem liderança e emergente se torna o ideal social. Os críticos dos primeiros computadores lucravam com o medo comum: de que o cérebro do Grande Irmão nos observaria e controlaria. O que nós sabemos agora é que eles também são apenas redes de minimentes, uma sociedade de mentes mais tolas conectadas, e que quando nós a investigamos mais profundamente não há uma pessoa no comando. Não apenas uma economia de comando central não funciona; um cérebro com comando central também não funciona. Em seu lugar nós podemos criar uma nação de computadores pessoais, um país de conexões de governo e de pensamento descentralizadas. Quase todo tipo de governança de grande escala que conhecemos, do corpo de uma girafa à regulação de energia em uma maré ou de temperatura em uma colmeia ao fluxo de tráfico da internet, resulta em uma rede descentralizada de unidades autônomas e partes heterogêneas. Ninguém esteve mais errado a respeito da computadorização do que George Orwell em 1984. Até agora, quase tudo a respeito do real espaço de possibilidade que essas máquinas criaram indica que elas não são o começo da autoridade, mas o seu fim. No processo de conectar tudo a tudo, os computadores elevam o poder dos pequenos jogadores. Eles abrem espaço para o diferente e recompensam pequenas inovações. Em vez de obrigar uniformidade, eles promovem heterogeneidade e autonomia. Em vez de sugar a alma dos corpos humanos, transformando seus usuários em um exército de clones maçantes, eles transmitem em rede a natureza de nossos próprios cérebros e corpos, encorajando o humanismo de seus usuários. Porque eles assumiram a flexibilidade, a adaptabilidade e a autogovernança dos sistemas orgânicos, nós nos tornamos mais humanos, não menos, quando os usamos. Este texto foi publicado pela primeira vez em maio de 1994 na revista Harper’s e, depois, na Adbusters (www.adbusters.org). Kevin Kelly é um dos fundadores da revista Wired e atuou ali como editor executivo até 1999. É autor dos livros New Rules for the New Economy e Out of Control. Atualmente, edita os websites Cool Tools, True Film e Street Use (Tradução Carolina Ribeiro Pietoso)

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[{( MESA Q TREME )}] {[( ESPÍRITO Q BAIXA )]} Então vamos lá: um centro espírita é um centro espírita é um centro espírita é um centro espírita é um centro espírita

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Por Bruno Moreschi

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Sessão espírita em que um instrumento musical supostamente flutua no ar. Para os adeptos da religião, num centro espírita, tudo pode acontecer: mesas se mexem, objetos caem ao chão, luzes piscam

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placa na porta de entrada era a prova de que estava no local ideal para sanar minha específica dúvida. Após um aperto de mão demorado, dona Joana Feijó ofereceu uma das cadeiras de plástico para que me sentisse mais confortável naquela casa de 30 metros quadrados, no bairro paulistano de Santa Cecília. Contei o drama: buscava um espírito com domínio pleno de etimologia. Podia ser especificamente o espírito de Jerónimo Cardoso, autor do primeiro dicionário da língua portuguesa, publicado em 1569, ou mesmo qualquer alma de professor de português que estivesse de passagem por ali. O importante era que o ser de outro mundo me informasse a definição precisa do lugar em que me encontrava: um centro espírita. Joana e nenhum espírito puderam me ajudar. “Eles estão cuidando de assuntos mais importantes”, respondeu friamente como se minha questão fosse uma piada de mau gosto. Perante o silêncio do mundo sobrenatural, é possível supor que os espíritos pouco se importam com o fato de que no Brasil centro espírita sirva tanto para definir o lugar de encontro dos espíritas como

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também dos adeptos de muitas religiões afro-brasileiras. Num país onde os templos católicos foram erguidos por escravos ligados a crenças africanas, era mesmo de se esperar que o sincretismo religioso fizesse com que o termo centro espírita mudasse de acordo com o gosto daquele que crê. Em 1855, beirando os 50 anos, o matemático e pedagogo francês Allan Kardec ouviu impressionado as histórias de que alguns bares e cabarés de Paris viraram diversão aos boêmios por um motivo tenebroso. Quando menos esperavam, as mesas e cadeiras dos locais mexiam-se sozinhas, de um lado para o outro. Kardec visitou os locais. E concluiu que eram apenas espíritos carentes de atenção. Desde então, passou a estudar o comportamento das mais variadas manifestações espíritas na França. Mesmo sem nunca ter recebido uma única alma penada em seu corpo, escreveu obras como Livro dos Espíritos, reunião de 1.019 verbetes com questões tão específicas como “que prefere o Espírito; encarnar no corpo de um homem ou no de uma mulher?”. Kardec

© BEttMANN/CORBIS/CORBIS (DC)/LAtINStOCK / AO LADO: © HuLtON-DEutSCH COLLECtION/CORBIS/CORBIS (DC)/LAtINStOCK

Médiuns reunidos na mesa branca, no filme Dr. Mabuse, de Fritz Lang

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Grupo de espíritas britânicos tenta levitar uma mesa. Encontro fotografado em 1934 por Alex Stewart Sasha

responde: “Espírito não tem preferência por gêneros”. Em outras passagens da obra, Kardec fala da importância das societé de l´esprit, locais onde os espíritos poderiam se sentir mais bem-aceitos e, assim, aparecerem com mais facilidade. Numa tradução mais apurada o termo receberia o nome de sociedades espíritas. Mas a primeira tradução do livro para o português preferiu chamar os lugares de centros espíritas. O livro vendeu até hoje mais de 10 milhões de exemplares. E o termo se popularizou. No Brasil, há cerca de 10 mil centros espíritas cadastrados na Federação Espírita Brasileira, a mais importante e respeitada associação ligada ao espiritismo. Para o resto do mundo, não existe um número estimado de centros, mas estimativas apontam que existem cerca de 30 milhões de frequentadores – 20 milhões só no Brasil. Nessa conta não foram incluídos os centros ligados à umbanda e ao candomblé. O motivo da exclusão vem da definição do que venha a ser um centro para os espíritas. De acordo com as definições da federação, um local só pode ser conhecido como um centro genuina-

mente espírita se não tiver cantorias, imagens de santos nem batuques. Todos do local precisam se vestir com trajes simples – por isso, na teoria, esqueça a cabeleira do Obaluaê. Por fim, o local deve ser usado exclusivamente para as sessões – o que impede que o espaço sirva de cenário para casamentos, batizados ou velórios. “Eles que não venham definir o que o meu centro espírita deve ser”, diz dona Joana, a diretora do Centro Espírita Santa Cecília, que, na prática, é um terreiro de umbanda. “Aqui aparece de tudo em forma de espírito. De preto velho a donzelas lindas do século retrasado. Tem dia que parece um carnaval. E, até hoje, ninguém do outro mundo reclamou.” Diferenças à parte, é possível destacar algumas características comuns dos centros espíritas. Na recepção, não espere encontrar muita coisa além de cartazes com informações básicas como os horários das sessões e a presença de alguma atendente ciente das atividades realizadas. Mais adiante, uma sala, que varia de tamanho conforme a capacidade financeira dos donos do local, serve de cenários para o que vem a ser o centro (sic) do centro espírita. ffwmag! nº 18 2010

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Por ali, ocorrem palestras dos mais variados temas e que tendem a durar de 30 a 40 minutos. As portas ficam abertas para qualquer pessoa. Nesses mesmos dias, é comum acontecer as chamadas sessões de tratamento com os médiuns de cura e os médiuns ostensivos – grosso modo, o equivalente a um médico e uma enfermeira espirituais. As portas do local se fecham nos dias das reuniões mediúnicas. Todos ali precisam estar preparados para a eventual visita de um ou mais espíritos. E eles podem ser de inúmeros estilos. Os que costumam se portar muito bem diante das pessoas são conhecidos como bons – e não se espante se um deles entrar no corpo de alguém e curvar diante de você em sinal de apreço. Dentre os mais desagradáveis, estão os assombradores, que acreditam piamente que ainda estão vivos e, por isso, aparecem com frequência entre nós; os malignos, que adoram mentir e xingar durante as reuniões; os nervosos, com capacidade de diminuir o peso dos corpos que dominam e, assim, causar sonambulismo nas pessoas; e os suicidas, 260

que sofrem tanto ao lembrarem do momento da morte que, não raras vezes, comovem todos que estão na sala. Numa reunião de centro espírita, tudo pode acontecer. Mesas tendem a se mexer, objetos em estantes caem no chão, e a luz pode cessar por algum tempo. Para evitar perturbações maiores, os médiuns tomam cuidado para não chamarem um espírito desagradável. “Priorizamos aqueles espíritos que podem fazer o bem, ajudar quem está na reunião. Mas não temos pleno domínio disso”, explica Geraldo Campetti, diretor da Federação Espírita Brasileira. Chico Xavier, por exemplo, costumava receber desencarnados que davam conselhos ou mesmo tranquilizavam os parentes que apareciam nas reuniões dos centros espíritas. Em casos de grandes tragédias, centros espíritas reúnem seus médiuns para uma reunião às pressas. A missão é ajudar os espíritos desencarnados, muitas vezes desorientados diante do acontecimento tão repentino. Foi assim no atentado ao World Trade Center. Aos que não buscam uma ajuda tão específica, os centros ofe-

© BETTMANN/CORBIS/CORBIS (DC)/LATINSTOCk

Em 1946, seguidores do célebre ilusionista Harry Houdini (1874-1926) se reuniram para que seu espírito contatasse o grupo. Para tanto, juntaram objetos usados pelo mágico, velas e um livro escrito por ele. Houdini, entretanto, não baixou

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Tabuleiro Ouija, usado para contatos espirituais

recem o ritual do passe. Para os espíritas tudo acontece de forma muito simples: um médium aponta uma das mãos na cabeça do visitante por no máximo 1 minuto e, pronto, o gesto transmite fluidos magnéticos e espirituais. Mas fica a dúvida: por que qualquer um que tente explicar os acontecimentos de um centro adora falar sobre os tais fluidos? “Eles explicam o repasse de energia entre espíritos e humanos. Os fluidos magnéticos são as energias positivas do médium que está impondo a mão. Os espirituais são as boas vibrações dos próprios espíritos”, responde Alberto Souza, dono do Centro Espírita Redentor, em Curitiba, um dos maios conhecidos do Sul do país. Por outro lado, o passe nos centros de umbanda e candomblé é um ato mais performático. Ele se dá por entre baforadas de cigarro ou charuto, estalos dos dedos, toques em partes do corpo de quem recebe as energias, tudo depende da entidade do dia do encontro. Centro espírita também é espaço para algo muito parecido com a água benta. Com a diferença que a tal água fluidificada pode ser

bebida. No início das sessões, os integrantes dos centros espíritas colocam um pouco de água na região central da sala ou em um de seus cantos. Pode ser uma única jarra com água ou mesmo vários copinhos descartáveis. Depois dos acontecimentos relatados acima, os espíritas garantem que a água, antes normal, muda de cor e de gosto. É a prova de que ela está repleta de fluidos positivos dos espíritos. Quem tiver coragem toma um gole. No bairro paulistano de Pinheiros, enquanto os frequentadores do Centro Espírita Mensageiros de Paz e Esperança tomam suas águas modificadas, uma multidão toma cerveja e destilados no térreo do mesmo prédio. Por ali, o centro espírita e o bar do Salim convivem na mais completa paz. “Nunca tive problemas com nenhum espírito ruim”, garante o dono do bar, Salim Rabay. Mas há um acordo entre ambas as partes. Os ventiladores do bar só podem ser ligados após as 20 horas, horário em que o centro espírita termina sua sessão. Caso contrário, o chão do local treme, e os espíritos podem se incomodar com a mesa se mexendo por outra razão que não eles. ffwmag! nº 18 2010

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o cubo Realizada entre o oitavo e o décimo dia do mês do Dhu al-Hijja , a peregrinação a Meca é um dos princípios básicos do Islã. Girando em sentido anti-horário, milhares de fiéis se amontoam ao redor da Caaba para se aproximar da Pedra Preta - amuleto situado no centro da fé islâmica Por Amer Moussa Fotos Abbas

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No Islã, viajar a Meca uma vez na vida é obrigatório. Peregrinos circulam próximo ao ponto central em que está o cubo da Caaba, para tocar a Pedra Preta ffwmag! nº 18 2010

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a varanda do terceiro andar da mesquita al-Haram, em Meca, a imagem que se vê é a de um grande buraco negro humano. Anualmente, 3 milhões de pessoas lotam o luxuoso complexo para cumprir o ritual islâmico do tawaf, que consiste em dar sete voltas anti-horárias ao redor da Caaba – um quase-cubo de aproximadamente 13 metros. É um grande buzuzu espiralado: todos querem acessar o centro para tocar e beijar a Pedra Preta, abrigada pela Caaba desde os tempos de Adão. Os maometanos acreditam que o amuleto seja um pedaço arrancado do paraíso. A contradição é intensa. Apesar de ser um rito tradicionalista como que ensaiado, não há distinção palco/plateia, como em estádios de futebol e shows musicais. Nus, trajando apenas bata branca sem costura, os homens giram em anéis enfileirados. As mulheres passam gemendo em largas burcas. Declamam em uníssono, formam a imagem de uma engrenagem em movimento que não se toca. O clima de transe é geral, numa escala de fazer inveja a Zé Celso. Situada na Arábia Saudita, a cidade de Meca é local mais sagrado, centro do mundo para o Islã. É o sentido para o qual todos devem estar voltados no momento em que realizam cada uma das cinco preces diárias, onde quer que estejam. É também obrigatório – “a todas as pessoas que atinjam a puberdade, são livres, mentalmente sãs, física e financeiramente capazes – viajar para Meca,

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pelo menos uma vez na vida”. Durante o período da peregrinação – Hajj – a população da cidade aumenta em 1 milhão. Nos últimos dez anos, para absorver o volume de peregrinos, o governo saudita tem gastado alguns bilhões de dólares na manutenção e ampliação da espetaculosa mesquita. O piso é de mármore branco. Também a Caaba, situada no pátio principal, quase não lembra a choupana cercada de arame farpado que aparece em fotografias do século XIX. A estrutura que sustenta o cubo é de alvenaria de granito, retirado de colinas próximas a Meca. O interior, forrado por folhas de mármore, é vazio, exceto por três pilares de madeira que apoiam a cobertura e alguns bibelustres. A edícula é encoberta por um manto preto – Kisua –, adornado com versículos do Alcorão em fio de ouro bordado à mão. Substituído a cada ano, em 2007 foi composto de seis pedaços de tela de seda – um total de 650 metros quadrados, o que custou aos sauditas mais de US$ 5 milhões. Não que isso seja um problema para o maior país exportador de petróleo do mundo. Os quatro vértices da Caaba coincidem com os quatro pontos cardeais. Penetrar em seu interior não é permitido, exceto em ocasiões raras e a um número limitado de convidados. A entrada se dá por um portal de 2 metros de largura que fica na face norte-leste, que acaba sendo identificada como a fachada. O ângulo norte aponta para o Iraque, o oeste para a Síria e o sul para o Iêmen. A Pedra Preta fica encravada no canto leste. Destruída durante os conflitos

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Peregrinos rezam no monte Rahma, parte do ritual do Hajj. Ao lado, casal da Argélia diante de painel que reproduz a Caaba. As autoridades sauditas proíbem imagens nas ruas

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Religioso nas rochas do monte Rahma. Ao lado, peregrinos na mesquista de al-Haram. Durante o Hajj, Meca recebe até 1 milhão de visitantes 266

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da Idade Média, a pedra, com 30 centímetros de diâmetro, hoje é protegida por uma moldura de prata e fica exposta, para que todos possam tocá-la e, se quiser, beijá-la, como fez Maomé. A Pedra Preta é tão antiga quanto o primeiro habitante da Terra, e ninguém sabe precisar sua origem. A versão mais provável é que o amuleto seja o resquício de um meteorito: inicialmente branco, se escurece com o tempo. Tal fato é explicado pelos islâmicos como sendo a pureza celestial que foi contaminada pelos pecados mundanos.

Z E R O M A T E M Á T I C O O ponto fundamental para compreender o Islã reside na figura de Maomé – ou Muhammad. Tido como o profeta fundador da doutrina, Maomé nasceu em Meca, em 570 d.C., onde ficou conhecido por ser uma pessoa sábia e justa. Órfão de pai, mãe e avô, foi um cidadão muito popular, sempre solicitado para opinar e julgar questões de ordem da cidade. Trabalhou como comerciante e pastor. Casou-se inúmeras e repetidas vezes. Costumava se refugiar em grutas próximas às colinas, para refletir e meditar. Aos 40 anos, durante o mês do Ramadan (o jejum), o profeta teve a primeira revelação: Deus é Um. Naquela época, os árabes cultivavam diferentes divindades, uma para cada dia do ano. Jesus, Maria, João Batista, Abraão e 268

outras personas eram considerados deuses, sem que houvesse necessariamente um princípio comum entre eles. A descoberta de Maomé, mais do que uma sentença a ser reproduzida – como é feito hoje –, foi no sentido de estabelecer um conceito abstrato de Deus, uma totalidade, o zero matemático, a tábula rasa fundadora da comunicação entre os homens – que naquele momento chafundavam nas trevas da diluição. Ideias progressistas entram em choque com a entropia reinante, enraizada em tribos seculares – Maomé é expulso de seu próprio grupo, os Coraixitas. Em 622, com seguidores e perseguidores na sua cola, o filósofo se viu obrigado a migrar para Medina, onde se fortaleceu unificando clãs conflitantes (conhecida como Hégira, essa travessia marca o início do calendário muçulmano). Após oito anos de luta com os mecanos, o exército, que já somava 10 mil homens, tomou o poder. Maomé retornou à cidade natal, disposto a transformar a Caaba no principal polo monoteísta do Oriente. Reza a lenda que, enquanto Maomé destruía cada uma das 360 imagens cultuadas, recitava: “A verdade chegou e o falso pereceu, porque o destino do falso é perecer”. Mesmo antes do Islã, e antes de ser definida como vértice do globo, a Caaba foi determinante no processo de florescimento do povo árabe. Por ser composta essencialmente de grupos nômades, a

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Cada peregrino em Meca cumpre o tawaf: sete voltas anti-horárias ao redor da Caaba (ao lado). Ali se oculta a Pedra Preta, resquício de um meteorito que seria “pedaço arrancado do paraíso”

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população da região – quando não estava em guerra – só conseguia coabitar mediante leis religiosas: o santuário era a garantia de que nenhum ato de violência seria praticado num raio de 32 quilômetros. Situada em um vale estéril cercado por montanhas, a paz ajudou a converter a praça em um centro comercial, onde era possível encontrar especiarias, roupas, couro e manteiga. Foi assim que a tribo dos Coraixitas conseguiu prosperar. Diz mais uma lenda que quem construiu a Caaba primeiro foi Adão, e o segundo a reformá-la foi Abraão – enquanto buscava água para o seu filho recém-nascido. De fato, ao lado da edícula está a famosa fonte de água Zamzam. Há vários estudos científicos que apontam relações exatas entre eventos celestes e a orientação do cubo. A lua crescente e a estrela Canopus são citadas no Alcorão e aparecem em bandeiras de diversas nações ligadas ao Islã, como Algeria, Mauritânia, Tunísia e Turquia.

7 5 0 C H I C O T A D A S Assim como Jesus, Lênin e Lennon, o cabeça do movimento uma hora expirou: Maomé faleceu em 632 d.C., em Medina, aos 62 anos, dando origem a uma disputa de poder que perdura até hoje. Reconhecido como importante figura política, seu trabalho de unificação permitiu o estabelecimento daquilo que viria a ser um império islâmico que se estendeu da Pérsia até 270

a Península Ibérica. Os xiitas acreditam que o profeta designou Ali ibn Abu Talib como seu sucessor, num sermão público na sua última Hajj, mas os sunitas discordam. O Islã segue cindido internamente, para proveito de alguns poucos canalhas que exploram as riquezas e controlam o cenário político-econômico dos países árabes. Após a morte de Muhammad, os discípulos, considerando-no um profeta tal como Jesus, Moisés, Davi e Jacob, publicaram suas palavras sob a forma do Corão, ou Alcorão, o livro sagrado muçulmano. Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar – é, portanto, algo que deve ser lido em voz alta. O Alcorão versa sobre as origens do universo, o homem e as suas relações entre si e o Criador, as leis sociais, economia e outros temas. Cada um dos 114 capítulos, denominados suras, está organizado de acordo com o seu tamanho e não pela ordem cronológica da revelação. Uma vez que os muçulmanos tratam o livro com apego, é proibido reciclar ou jogar exemplares no lixo. Como saída para um descarte digno, devem ser enterrados ou queimados de maneira respeitosa. Também é considerado pecado gravíssimo modificar/cortar/excluir/adicionar palavras alcorânicas. Tampouco é permitido vendê-lo. Pelo que consta, “Maomé não rejeitou completamente o judaísmo e o cristianismo, duas religiões monoteístas já conhecidas pelos árabes. Em vez disso, informou que tinha sido enviado por Deus para

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Peregrinos rezam em shopping center de Meca, Arábia Saudita. No Hajj, as atividades são suspensas nas orações. Ao lado, garçom de hotel com vista para a mesquita de al-Haram

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Comerciantes vindos de várias partes do mundo islâmico exibem produtos no Dia de Arafat, ápice da peregrinação a Meca. Ao lado, orações na mesquita de al-Haram ffwmag! nº 18 2010

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restaurar os ensinamentos originais dessas religiões, que tinham sido corrompidos e esquecidos”. O Islã, que é definido como “mensagem celestial que Deus revelou ao profeta”, está fundamentado na crença ao monoteísmo, à profecia, ao imamato (continuidade), à justiça, ao juízo final. Umas das práticas do muçulmano, além de jejuar no Ramadan, peregrinar até Meca, fazer a prece cinco vezes ao dia e doar parte de sua riqueza aos carentes, é a jihad – a militância. Todo islâmico deve defender e propagar as ideias maometanas. Apesar de o terrorismo ser condenado como forma de militância, muitas milícias se aproveitam da ignorância alheia para explodir fiéis em nome de Alá. Há alguns anos, charges com a figura de Maomé criticando o terrorismo foram publicadas por um pequeno jornal dinamarquês. O fato tomou dimensões imprevisíveis, causando enorme furor no mundo islâmico. A tradição proíbe que sejam feitas representações faciais do profeta. Em desenhos e pinturas é comum que o rosto de Muhammad esteja encoberto por um véu. Nas mesquitas você nunca vai encontrar imagens da escala humana – é uma doutrina da palavra. Em contrapartida, a caligrafia e a tipografia árabe se desenvolveram expressivamente ao longo dos séculos, como forma de extravasar outra linguagem, gráfico-visual. 274

Os rituais islâmicos podem ser emocionantes e comoventes se avaliados somente sob a forma aparente. Em Meca, não é permitida a entrada de não muçulmanos na cidade. Em pleno século XXI, a Arábia Saudita segue como monarquia absoluta, de forma que o rei não é apenas o chefe do Estado, mas também do governo. A lei básica adotada em 1992 (!) declarou que o país é uma monarquia governada pelos filhos e pelos netos do rei Abd Al Aziz Al Saud. Não há legislativo, tampouco partidos políticos. Constituição? Esquece. O rei governa de acordo com a Sharia, a lei sagrada do islamismo – reinventada. Em 2005, o professor secundário saudita Mohammad al-Harbia foi condenado a 40 meses de prisão e a 750 chicotadas por ter discutido a Bíblia e ter apresentado uma imagem positiva do judaísmo aos seus alunos. No mesmo ano, dois jovens gays foram enforcados em praça pública no Irã, tendo recebido antes 228 chibatadas cada um. Ainda assim, os Estados Unidos seguem como o principal parceiro comercial da Arábia Saudita, e recentemente o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, foi recebido no Brasil com toda honra. Segregar e engessar Estados tiranos é inútil. Esperar de relações econômicas o alcance da liberdade é ingênuo. Só nos resta ter fé no Twitter.

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Da varanda do hotel, peregrino contempla a multidão na mesquita de al-Haram, em Meca. Ao lado, fiéis raspam os cabelos em sinal de humildade

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ABBAS

Fotógrafo iraniano. Nasceu em 1944. É representado pela agência Magnum. Seu trabalho documenta sociedades em conflito. Cobriu guerras e revoluções na Nigéria, Bangladesh, Irlanda do Norte, Vietnã, Líbano, Chile, Cuba e África do Sul (no apartheid). Entre 1978 e 1980, registrou a revolução religiosa do Irã. Retornou ao país em 1997, depois de 17 anos de exílio voluntário. O olhar crítico do fotógrafo sobre a história iraniana está no livro Iran Diary 1971-2002. O livro Return to México: Journeys Beyond the Mask, com imagens do país entre 1983 e 1986, definiu sua estética fotográfica. As imagens que ilustram estas páginas integram o estudo que ele faz sobre religiões. Entre 1987 e 1994, viajou por 29 países para documentar o islamismo. Atualmente, registra o budismo pelo mundo. “Minha fotografia é uma reflexão, conduz à meditação.” Abbas: bit.ly/1ua0xX ffwmag! nº 18 2010

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Pudong, bairro econômico e financeiro de Shangai, a cidade mais poderosa e internacional da China. Ao lado, Arts Centre de Singapura, ilha-Estado de economia altamente desenvolvida, sendo o quarto maior centro de negociação de câmbio do mundo

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CAPITALISMOS MOVENTES Madri, antuérpia, paris, nova York: o centro de poder seMpre se desloca de eixo. coM a perda gradativa da influência dos estados unidos coMo principal potência econôMica, financeira e cultural do planeta, outros países coMeçaM a aglutinar esses podres poderes. Mas, na era digital, tudo vai continuar a Mudar Por Álvaro Machado ffwmag! nº 18 2010

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Nova York continua a sediar a mais importante Bolsa de Valores do planeta, localizada em Wall Street, o coração financeiro da América. Até quando?

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ada elementar, caro Watson: o centro não permanece todo o tempo no mesmo lugar. O ponto referencial associado desde sempre a concentração, luz, calor, riqueza e poder se move, paradoxalmente e graças aos céus. Quem primeiro o deslocou, provocando escândalo e lançando a primeira semente de aceleração do chamado “tempo social”, foram os visionários do século XVI, que acreditaram em Copérnico e Galileu: a Terra se move e não é o centro do universo. Tudo começou a se movimentar mais rápido a partir dessa revolução científica, que implicou nada menos que o início da destituição de Roma como epicentro de economia e ideias, a cidade acumulando já séculos de império pagão sobre o Ocidente e outros tantos de poder eclesiástico igualmente despótico. Desde então, na casca do planeta em que nos agitamos, o centro emanante de riquezas, materiais ou não, passou inapelavelmente a mover-se. Alívio: imaginemo-nos todos submetidos à ditadura romana, do ano zero aos dias atuais. Talvez tivéssemos de usar,

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de tempos em tempos, e até em apliques, God forbid!, a mesma franjinha perversa que só ficava bem na testa de Marlon Brando como Marco Antônio (Julius Caesar, Shakespeare e Mankiewicz, 1953). Pois, até o momento em que as balizas deixarem de existir por completo e tudo tornar-se movimento e átomo, a vocação da periferia é referir-se ao centro; e se não conseguimos pensar como Marco Antônio ao menos sua aparência podemos imitar, com auxílio de pente, cosmético e um pouco de calor. Os historiadores de meados do século XX ocuparam-se bastante do tema do “centro movente”, sob a perspectiva das dinâmicas da economia, que, até a época daqueles estudos, costumavam ser determinadas pela vontade, talento e esforço de povos e nações ainda individualizados. Verdadeiro luminar nesse campo foi o francês Fernand Braudel (1902-1985), que forjou os conceitos de “tempo geográfico” e “tempo social” para ajudar a traçar evoluções e deslocamentos dos centros irradiadores de bens e ideias. O “tempo geográfico” diz respeito às relações do homem com o

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Da London Eye, uma das megarrodas-gigantes do mundo, avista-se toda Londres: por lá, as finanças circulam pela City, centro que “blinda” a libra esterlina em relação ao euro

meio e, em geral, a uma evolução lenta: a história e suas principais referências geográficas oscilariam, assim, de acordo com as transformações do ambiente promovidas pelo homem ou pela própria natureza. Um tema na ordem do dia e já não submetido a processo tão lento, pois mudanças climáticas drásticas e megaprojetos urbanos são hoje uma constante. Também o ”tempo social”, que descreve a trajetória de grupos – portanto mais veloz que a linha do “tempo geográfico” –, tem-se acelerado neste século XXI que Braudel não conheceu, com guerras pontuais e crises econômicas quase contínuas. Num sistema de sensores financeiros nervososintercomunicantes, ou globalizado, 24 horas são suficientes para ditar a falência repentina de toda uma nação, por mais influente... Exemplo recente, a crise financeira que revelou a persistentemente disfarçada nudez do soberano Estados Unidos, país que de fato atuou como centro de poder a partir do fim da Segunda Guerra. De resto, para despencar, basta estar no alto: “Ma, (I’m in) the top of the world!”, dizia o facínora James Cagney ao ser abati-

do nos cumes de uma refinaria prestes a explodir (White Heat ou Fúria Sanguinária, Rauol Walsh, 1949). Em nível individual, o método talvez mais eficiente para vencer dança das cadeiras tão atordoante seja não se surpreender demais com tantas mudanças do centro de poder e acostumar-se com sua definitiva pul-ve-ri-za-ção, já em curso. Para os negociantes no topo da pirâmide e seus brokers, dá-lhe transferir fundos de um mercado para outro no planeta (esperemos que mais e mais também para a Bovespa); e, para a massa, ou melhor, para la crème, adaptar, ainda que sutilmente, referências, aparência e linguagem, de acordo com os ventos. Ao mesmo tempo, para não soçobrar, constituir interiormente um centro ético tão inamovível e inabalável quanto a rocha sagrada de Meca. Quem conseguir sobreviverá. Mas, no decorrer dos últimos cinco séculos, tão chacoalhados em relação aos milênios da história antiga e nos quais se desenhou o rosto completo do planeta e pequena parte do mapa dos céus, o umbigo do planeta azul oscilou com frequência, segundo ffwmag! nº 18 2010

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O Japão conquistou o posto de segunda maior economia do mundo em 1968. Atualmente, é ameaçado pela China, que já assumiu o terceiro lugar da Alemanha. A economia mundial sempre se move

indicadores bastante interessantes, estudados por Braudel e sua turma. Na raiz de tudo está a dinâmica do capitalismo, o sistema de circulação de valores que se constitui para valer no intervalo de tempo citado, sobretudo após 1800. A capacidade de superar pestes e epidemias (com a invenção de remédios e preventivos) e a descoberta e comercialização de novos produtos alimentícios, do açúcar ao café, das especiarias ao milho, além dos chamados intoxicantes, como o fumo e o álcool – e não sejamos hipócritas a ponto de não citar drogas como o ópio –, tornam-se fatores determinantes para a alternância das capitais de influência econômica no Ocidente. Após a longa história de glórias e horrores que saíram, pela via Appia, da cidade nutrida pelas tetas da loba, divisa-se, na Idade Moderna, a ascensão de sucessivos centros de poder pela Europa. Ou mesmo antes disso, já que nos séculos XIII e XIV assistimos à “Sereníssima” República de Veneza desafiar francamente o poder romano e dominar tanto o comércio do Mediterrâneo como as liga280

ções com os bens de Ásia e África, através do Adriático. A cidade era como o empório do mundo ocidental e, ao trazer da China novidades como o macarrão, descobriu também que o Oriente era bem mais vasto do que se imaginava, com seus próprios centros de poder. A poderosa Veneza é bem ilustrada nos dois primeiros capítulos da série de TV Marco Polo, que em 1982 o diretor italiano Giuliano Montaldo transpôs do livro das viagens de Polo, realizadas a partir de 1272 (a série está em quatro DVDs no mercado brasileiro). Depois, ao construir sua Loggia, em 1455, a república vanguardista consolidou um centro de negócios à maneira de primitiva bolsa de valores, cercada de lojas de banqueiros que transferiam valores de conta a conta para a realização de viagens e transações. Um fascinante polo gerador não só de capitais, mas de inteligência e intrepidez. No anos 1500, o eixo Madri-Sevilha, com a armada naval espanhola, dominou os mares ao sul e ao norte e promoveu os grandes descobrimentos Atlântico afora (Colombo na América, coadju-

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vado pelo português Vasco da Gama e seu novo caminho para a Índia), dando assim a primeira grande cartada da Idade Moderna. Unidos dinasticamente, os reis católicos derrotaram as ameaças vindas do Oriente e desenharam “o gesto mais extraordinário da história da humanidade”, conforme o escritor e historiador Pierre Vilar. O apogeu econômico e cultural espanhol, o chamado Século de Ouro, sua influência e prestígio internacional, se estende mais ou menos até 1680. Por essa época, o cronista espanhol Lope de Vega flagrou em Madri um retrato ainda muito reconhecível para nós: “Todo se ha vuelto tiendas [Tudo se transformou em lojas]”. Melhor que o duro cinema histórico espanhol, que adora reconstituir o período, as paredes do museu do Prado ilustram maravilhosamente as grandezas e idiossincrasias dos condutores que a partir de Madri imantaram todo o Ocidente. A hegemonia francesa da época de Luís XIV (1638-1715), o autoproclamado Rei Sol, é vista pela maior parte dos historiadores como discutível e fugaz. Porém sua marca cultural, o estabeleci-

mento de padrões da vida cortesã para toda a Europa e sua presença no imaginário dos povos, até a Revolução de 1789, tornam Paris e a corte de Versalhes um centro irradiador de fato. As modas e estilos parisientes geravam frenesi de emulações até os confins da Rússia, fenômeno repetido apenas no período áureo da alta-costura francesa, 1950-1980, porém sem que a cidade representasse então o grande centro político ou econômico mundial. Para derrubar a impressionante dinastia dos Bourbon foi necessário um inverno cruel, e a fome que se seguiu, mais a inépcia governamental de Luís XVI e uma consorte real de hábitos pródigos, Maria Antonieta (1755-1793). O esplendor e a queda da guilhotinada foram vividos encantadoramente pela atriz Kirsten Dunst, sob a batuta de madame Sofia Coppola, em Maria Antonieta (2006). O ciclo das cidades-estados, ou das “economias-mundos” (conceito de Braudel), que dominaram sucessivamente a Europa, encerra-se brilhantemente com Amsterdam e sua nervosíssima Bolsa, já no século XVII e pelo XVIII afora. Nesse intervalo, a ffwmag! nº 18 2010

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Lor sendre facipisl ipsusci liquis augait do commy nostisi enit ex ercipisim ad ex ea feu facipsustie tismolu ptatuer sum dolor illa feuipis alisim ip etue te vel dipsum zzrillut

Beijing, capital da República Popular da China, país que tem US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais – valor superior aos PIBs de Brasil, Argentina e Chile somados

cidade vive o seu chamado “século de ouro”, com domínio sobre o comércio mundial e anexando a já ampla influência do porto-cidade de Antuérpia. As províncias unidas (ou Países Baixos) exerciam poder como um conjunto, mas secundariamente: “Amsterdam reina sozinha, farol luminoso que se vê pelo mundo inteiro, desde o mar das Antilhas até as costas do Japão” (Braudel, A Dinâmica do Capitalismo, ed. Rocco, São Paulo, 1987). É a grande praça de empréstimos internacionais, com procedimentos seguidos de longe por Paris, Genebra e Gênova. A tolerância religiosa de seus governantes, incluindo acolhida a mentes brilhantes expurgadas pela “Santa” Inquisição e por monarcas de visada estreita, é fator não desprezível na análise desse sucesso. Bem antes da idade do ouro de Amsterdam, a cidade já recebia sábios, artistas, escritores, cientistas de todas as partes da Europa. Filósofos como René Descartes e John Locke instalaram-se por largas temporadas na cidade, que lhes permitia publicar trabalhos sem censura. O cineasta-historiador Roberto Rossellini nos dá uma aula sobre 282

essa tolerância agregadora em Descartes (1974), obra relançada há pouco, em DVD. Chega então a era dos domínios não mais de cidades-estados, mas de nações investidoras, e no século XIX sobretudo Londres como centro nervoso do império da Grã-Bretanha, catapultado pela conjugação de política econômica liberal, colonialismo voraz, grandes invenções e a consequente Revolução Industrial. É a vitória do “mercado privado”, livre da vigilância das autoridades, bem desenvolvido também pela França e Paris, que conquistaram, assim, seu quinhão de poder. O domínio bretão foi encerrado com a Primeira Guerra Mundial, à qual a Inglaterra sacrificou milhões de homens (constatou-se então que, sozinha, a indústria bélica não era capaz de restaurar a saúde econômica). O mundo inteiro percebeu a mudança de patamar, ao contrário de tantos ingleses até hoje. Para vislumbrar esse período de grandes riquezas convivendo intimamente, na City, com marginalidade miserável, basta uma ida à sala de cinema: Sherlock Holmes (2009), de Guy Ritchie, tem

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Zona Especial na configuração financeira chinesa, Hong Kong deve parte de seu poder à mão de obra que atrai investidores e à intervenção mínima do governo na economia

direção de arte e figurinos notáveis, trabalho de resto calcado em muitas reconstituições de época anteriores para esse ambiente que sempre hipnotizou as hostes da cultura visual. Após o redesenho do mapa-múndi provocado pelas duas Grandes Guerras do século XX, período em que tantas nações lutaram pela posse do cetro – ou do centro –, assistimos à transferência de poder da Europa para a grande ex-colônia americana, com o ponto de convergência financeira de Nova York iniciando uma era e o Vale do Silício, na Califórnia, fechando o ciclo norte-americano ao perder a hegemonia na produção de chips, nos anos 1990. Na era digital que nos cabe, ainda que a maioria não tenha equipamentos e sentidos tão espertos para acompanhar a coisa toda, uma simples combinação de botões presssionados pode deslocar o centro de poder de Tóquio ou Hong Kong, na Ásia, para a Bolsa de Frankfurt, na Alemanha – e vice-versa. Nem Chico Xavier, através de seus médiuns, espalhados hoje em centenas de centros espíritas e editoras de todo o Brasil (com avatares às vezes simultâneos),

poderia nos indicar o real ponto de confluência de poder, riqueza etc. no globo pelas próximas 24 horas. O centro se foca e desfoca continuamente, mais rápido que um espírito de luz. Postscriptum. Verdade seja dita, na crônica universal cabe aos portugueses um dos mais notáveis episódios sobre o tema do centro, ou melhor, de sua repentina inversão: entre 1807 e 1820, escapando de Napoleão e suas tropas, uma corte inteira, mais de 15 mil pessoas, transferiu-se de malas e cuias, num salto sobre o Atlântico, da agradável e rica Lisboa para o calor subtropical de seu quintal-colônia. O êxodo gerou episódios que não cabem por inteiro em nenhum compêndio de história. Mas que Carlota Joaquina (1995), o filme de Carla Camurati, comentou de maneira hilariante. Assim como o também divertido Amélia (2000), de Ana Carolina, que ao fazer ficção sobre a dramática visita da diva Sarah Bernhardt ao Brasil, em 1905, tratou também do lapso entre centro (Paris no auge da belle époque, uma referência estético-cultural para o mundo) e periferia (as cidades do Rio de Janeiro e Cambuquira, na República Velha). ffwmag! nº 18 2010

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A MEMÓRIA É MÓVEL Para o sociólogo francês Henri-Pierre Jeudy, Professor de estética na escola de arquitetura de Paris-Villemin, a reVitalização dos centros Históricos das cidades exPulsa as PoPulações originais e transforma as cidades em cenários meramente turísticos Por Daniel Cariello, de Paris Fotos Bruno Fert

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ustificada pelas melhorias em infraestrutura e segurança e pelo embelezamento que traria às cidades, a revitalização dos centros históricos é normalmente um assunto que recebe mais opiniões a favor do que contra. Governos e prefeituras adotam o mesmo discurso de como é importante renovar não apenas os prédios e monumentos, mas também a vida desses lugares. No entanto, há ao menos uma voz dissonante nessa questão. Sociólogo do CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique (Centro Nacional da Pesquisa Científica) –, professor de estética na Escola de Arquitetura de Paris-Villemin e autor de livros como O Espelho das Cidades e O Corpo como Objeto de Arte, o francês Henri-Pierre Jeudy afirma que esse processo, normalmente feito segundo normas de intervenção internacionais, tem por fim a atração do turismo. Em consequência, expulsa as populações antigas para a periferia, “clareia” as memórias originais desses centros e transforma as cidades em museus. Em seu apartamento situado no coração de Paris, ao lado do Les Halles, um antigo mercado de rua transformado nos anos 1970 em polêmico shopping center, Jeudy concedeu entrevista EXCLUSIVA para ffwMAG!. ffwMAG! – De onde vem a necessidade humana de preservação? Henri-Pierre Jeudy – Eu acredito que essa obsessão da conservação vem de uma angústia do futuro. Há esse impulso coletivo de preservação em pessoas de todos os países. Existe um olhar sobre o passado que pode ser interpretado como uma negação do presente. E essa valorização do passado é explicada pelo fato de ele transmitir uma imagem estereotipada da continuidade das coisas. Quando vemos uma cidade como São Paulo, que muda sem parar, há um medo da falta dessa continuidade temporal, necessária humanamente. ffwMAG! – Para justificar a renovação dos centros históricos, falase em preservação da memória. Mas não dizem qual é e por que devemos conservá-la. Qual memória é preservada nesse caso?

HPJ – A conservação monumental é normalmente justificada como uma proteção das memórias coletivas de uma nação. Eu não concordo com isso, penso que há uma contradição entre conservação e memória. A primeira é feita com um espírito de preservação de objetos e lugares com uma grande carga simbólica, o monumento. Mas a memória é móvel, é algo não material na cabeça das pessoas. A priori, não há dela uma representação territorial ou monumental. E a conservação é uma maneira de infligir certa ordem nas memórias coletivas. Acontece que isso gera conflitos, pois sempre há um jogo de valorizar certos lugares e ao mesmo tempo esconder as feridas. Há uma dominante política na gestão dessas memórias que se satisfaz com a preservação de monumentos consensuais. ffwMAG! – Quanto a isso, Nietzsche dizia que a fixação da memória, a submissão à história, é paralisante. Então não devemos fazer nenhum esforço de preservação? HPJ – Nietzsche fazia uma apologia do esquecimento. O espírito de preservação que temos é exatamente o contrário disso. Para ele, a memória só existe porque há também o esquecimento, a garantia do que ele chamava de “inocência do devir”. É uma bonita expressão. Ele não defende a petrificação da história. A memória é móvel e suas ocultações são necessárias para podermos viver no tempo presente. No mundo contemporâneo, essa posição parece moralmente insustentável, pois hoje o politicamente correto é o chamado dever de memória. Se não o temos, de certa forma não somos bons cidadãos. ffwMAG! – Mas esse é um pensamento muito ocidental. No Japão, por exemplo, as tradições são conservadas, não os monumentos. HPJ – Não existe a palavra “patrimônio” na língua japonesa, mas após a Segunda Guerra Mundial o país foi obrigado pela ONU a entrar em uma mentalidade de conservação. A carcaça de uma cúpula em Hiroshima foi a primeira construção consagrada patrimônio histórico da humanidade naquele país, em memória à bomba. ffwmag! nº 18 2010

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“Foi feito um verdadeiro lifting em Salvador. Virou algo completamente kitsch, voltado para o turismo. Mesmo as gordas baianas são folclorizadas”

Os japoneses são cuidadosos na transmissão das tradições, lá existem personagens conhecidos como “tesouros vivos”, pessoas com uma sabedoria excepcional. Mas não há o lado monumental. A cada 20 anos os templos são reconstruídos, exatamente como eram antes. Eles não possuem a preocupação de autenticidade, como na Europa. ffwMAG! – Quando Jordi Borja foi vice-prefeito de Barcelona, desenvolveu um modelo de revitalização dos centros urbanos. Em seguida, vendeu a ideia para o mundo inteiro, como se vende um Big Mac. Não há espaço para modelos adaptados para cada cidade? HPJ – É verdade, há uma uniformização. Quando eu estudava esse assunto, ficava impressionado como os pictogramas que indicam as cidades históricas francesas, fosse Toulouse ou Marseille, pareciam sempre os mesmos. Os centros desses lugares também são parecidos. Cada cidade tem seus monumentos, mas as maneiras de valorizá-los são equivalentes. Às vezes as indústrias abandonadas são o mais interessante em uma conservação. Quando os prefeitos das cidades conseguem sair um pouco dessa dimensão do passado, há arquitetos que fazem um ótimo trabalho, combinando memória e concepção arquitetônica moderna. Eu vi um bom exemplo disso em um dos Sescs de São Paulo. Mas é algo que dificilmente poderia ser feito, por exemplo, em uma catedral ou em um castelo da Idade Média. No entanto, em Berlim há tentativas nesse sentido. A cúpula de Norman Foster no Reichstag dá uma impressão de ficção, de uma arquitetura do ano 2500. A leveza do vidro equilibra o peso, o sentido colossal do Reichstag. ffwMAG! – No Brasil, esse tipo de processo de renovação mudou completamente o centro de Salvador. E agora vem mudando a Lapa, no Rio. HPJ – Já visitei Salvador diversas vezes, antes e depois da renovação do Pelourinho, e o centro foi completamente reestruturado, não se encontra mais a vida que havia. Foi feito um verdadeiro lifting. Virou algo completamente kitsch, voltado para o turismo. Mesmo 286

as gordas baianas são folclorizadas. As populações que moravam lá foram expulsas para as periferias e as memórias da vida que havia antes foram junto. Esse excesso produziu uma autocaricatura do lugar. O interessante é que agora há traços de decomposição aparecendo, pinturas descascando, como se a Salvador que existia anteriormente retomasse seu lugar. Já a Lapa é um pouco diferente. Eu trabalhei com uma brasileira e fizemos uma comparação entre Lapa e Belleville [bairro tradicional e popular de Paris]. Nesses lugares há uma vida artística e cultural intensa, mas que não é produzida por diretrizes municipais, não é feita para turistas. ffwMAG! – Será que o modelo de cidades centralizadas é realmente o mais adequado? HPJ – Essa é uma boa questão. Nas cidades genéricas de Rem Koolhaas não existe centro. Roland Barthes afirmava que em Tóquio também não há. Em que medida ele será essencial na concepção das cidades do século XXI? Ou será que devemos multiplicálos, como defendem alguns arquitetos? Essa centralização é um pensamento muito europeu, completamente ligado à história das nossas cidades. Paris e Praga são exemplos típicos. Talvez Londres e Berlim sejam menos. ffwMAG! – Claude Lévi-Strauss disse em Tristes Trópicos que “a passagem dos séculos representa uma promoção para as cidades europeias. Para as americanas, a simples passagem dos anos é uma degradação”. Isso significa que a preservação é um processo mais natural na Europa do que nas Américas? HPJ – Não sei se concordo com essa frase. Mas é verdade que em várias cidades americanas, inclusive brasileiras, não há uma densidade histórica, ao contrário da Europa. Eu não sei se as pessoas que andam por Paris ou Roma imaginam todos os vestígios que há no subsolo, o acúmulo de história. Não é de se estranhar que Freud tenha escolhido Roma como um símbolo da metáfora do inconsciente.

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“Os japoneses são cuidadosos na transmissão das tradições. Mas não há o lado monumental. A cada 20 anos os templos são reconstruídos, exatamente como eram antes. Eles não possuem a preocupação de autenticidade, como na Europa”

Por isso é normal que na Europa a conservação pareça mais natural, mas a questão é se é realmente possível naturalizar esse espírito de preservação. Eu não tenho certeza de que sim. Ela é mais lógica, verdade, pois a cidade já está lá. Mas também são interessantes as cidades construídas ex nihilo, a partir do nada. E o mais belo exemplo no século XX é Brasília. Lúcio Costa desenhou um avião em um pedaço de papel e ganhou o concurso contra diversas agências que trabalharam duro, fizeram plantas. Talvez eu exagere, mas ele fez uma cidade ex nihilo, cuja história começa com sua fundação, de um dia para o outro. Rem Koolhaas também tem essa concepção de construção global de uma cidade. Eu nunca fui a Brasília, mas acredito que se a gente mora lá e chega de repente a Paris tem uma impressão totalmente anacrônica, como se fosse um filme dos anos 1930. ffwMAG! – Com esse lifting das cidades, acaba havendo uma unificação cultural. O que vai acontecer com as diferenças, as tradições, os dialetos? HPJ – O que acontece é o mesmo processo ocorrido com essas falsas baianas. É assim por todos os lugares com essa uniformização, mas isso também é possível fora dos centros das cidades. Tudo o que significa diferença cultural é folclorizado, vira artefato. Produzimos simulacros de uma diferença cultural com fins de turismo. Nos centros das cidades, a impressão é a de que os artesãos, os donos de restaurantes, todos, atuam em uma peça de teatro, são pagos como instrumentos do patrimônio. Em geral, as diferenças culturais das cidades ocorrem no jogo da confrontação entre hostilidade e hospitalidade e nesses casos a confrontação desaparece. Há uma cidade que costumo visitar no verão, e nas lavanderias públicas de rua, onde antes havia mulheres que realmente lavavam suas peças, agora há bonecos em tamanho natural. No campo francês há essa situação estranha, uma disneyworldização geral. Perpignon é talvez a última cidade francesa que ainda não passou 288

por isso. Ainda há ciganos que moram no centro. Em Montpellier também havia há cerca de 20 anos, mas eles foram retirados de lá. O fenômeno hoje é que, se ainda há resistências, elas são o exato espelho do sistema de patrimonialização. Não produzem nenhuma ruptura, mas sim os efeitos de algo que acho muito triste, o comunitarismo. São as defesas de uma identidade, mas uma identidade não se defende, ela se exprime. Os catalães agora fazem seus seminários e colóquios em catalão e não mais em espanhol. Isso é puro comunitarismo. ffwMAG! – Mas de certa forma é normal. A cultura e a língua espanholas foram impostas a eles. Agora é a volta do bumerangue. HPJ – Concordo. O problema é que o mecanismo patrimonial é feito de tal maneira que ele mesmo responde ao sistema. As reivindicações no fundo são patrimoniais, para salvar por exemplo as memórias dos armênios instalados em Paris. ffwMAG! – O senhor fala muito dos espaços urbanos mas também dos espaços pessoais, como quando escreve sobre a interdição do fumo em lugares públicos. A nossa liberdade, nosso espaço, está cada vez mais restrito? HPJ – Se pegamos a noção de espaço público, que mudou muito, agora há uma espécie de tirania para podermos usufruir dele. E não apenas no caso do tabaco. Em nome do aquecimento do planeta há uma série de medidas tomadas, justificáveis e legitimadas pela ciência ou pela medicina. É por isso que hoje a moral é penível, ela tem sempre razão. Se fumarmos, vamos morrer. E isso se torna insuportável, pois a moral não se justifica por si só. Quando eu era jovem e havia a moral cristã, podíamos transgredi-la. Mas agora não podemos mais, pois ela é científica, sanitária, tem suas razões precisas. Todas as interdições nos espaços públicos são legitimadas pela ideia de que “fazemos isso para o seu bem”. Então só precisamos obedecê-las para vivermos mais. Isso gera situações como vimos nos cafés, em pleno inverno. Há mais gente do lado de fora, fumando, do que do lado de dentro. É bizarro.

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NO TRAÇO DA PRAÇA No iNterior, a praça priNcipal é o ceNtro dos acoNtecimeNtos sociais. assim é Na histórica cidade paulista de BaNaNal, No Vale do paraíBa. lá, o muNdo gira em torNo do coreto Por Luciana Pessanha Ilustrações Filipe Jardim

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magine entrar num túnel do tempo e cair numa pracinha, 60 anos atrás. Agora imagine que o figurino, a direção de arte e a trilha sonora são contemporâneos. Pronto: você está na Praça da Matriz, em Bananal, cidade fundada em 1832, a 336 quilômetros de São Paulo e com menos de 10 mil habitantes. As praças, em qualquer lugar do mundo, sempre foram centros de convergência, convivência e recreação. A partir delas os povoados se expandiam. Até meados do século passado exerciam também a função de palco para flertes. Quanto frisson já não se viveu, ao pé dos coretos, sob os olhares atentos dos fofoqueiros com olhos de lince? Com o crescimento das cidades e do alcance dos meios de comunicação, pouco a pouco as praças perderam sua função social. Isso nos maiores centros urbanos. Porque no interior do Brasil o cenário ainda é o mesmo. E os rituais, muito parecidos com os dos nossos avós. No século XIX, durante o ciclo do café, Bananal foi uma das comarcas mais ricas do Brasil. A ponto de seus fazendeiros avalizarem empréstimos da Inglaterra para o governo federal brasileiro. Sua praça era cercada por mansões de barões, que davam festas requintadas, com muito veludo e carruagem. Hoje a cidade

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não é mais abastada. Mas seu pouco menos de 10 mil habitantes não sofre pela glória perdida. Ao contrário, vive em permanente festa e mantém vívidas a alma de sua praça principal, a da praça contígua a ela e ainda a de uma terceira, serra acima. Sexta-feira, janeiro de 2010 – Praça da Matriz 20h – Pelas ruas circulam playboys em carros estalando de novos, tocando hip hop num volume suficiente para causar uma avalanche no Everest. Sorte a deles que não neva na serra da Bocaina. Em cada esquina, uma tentação: sorvete, churro, pipoca, algodão-doce. A faixa etária predominante é de 15 a 25 anos. O vai e vem é intenso. Casais passeiam de mãos dadas, e o namoro corre solto pelos bancos. Os que não estão amando, andam em grupos divididos por gênero. Os homens formam bandos de seis a oito pessoas. As mulheres, mais comedidas, de quatro ou cinco, sempre muito agudos, talvez para equalizar com o grave do hip hop dos playboys. O uniforme dos homens é bermuda de surfista estampada, camiseta, boné, tênis ou chinelo de dedo. Já as moças andam produzidas. Camiseta aberta nas costas é um must. O short branco também é um sucesso. Vestidos longos estampados estão com tudo. A sandalhona de salto agulha no

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paralelepípedo é uma proeza que elas treinam desde cedo. 22h – Começa um pagode em frente ao bistrô 4 Estações. Todo mundo samba no meio da rua, sem cerimônia. Comandando a alegria está Obelix, 50, olhos azuis, sem camisa, com um barrigão enorme pendurado sobre a bermuda bordô. Ele dança na frente dos músicos como se fosse uma madrinha da bateria. Mais adiante está Chameguinho, um mulato magro, também na faixa dos 50, de calça jeans e polo cinza, que amarrou um porre fabuloso e dança pequenininho, sorrindo, com cara que quem está sentindo coisas. “Oi, eu sou o Jack, trabalho nos Correios, sou separado, moro numa casinha ali embaixo. Você é chique, gostei de você. Quer conhecer a minha casa?” O estilo da paquera, entendemos rapidamente, é o direto-sincerão. 23h – De repente, como que surgidos de um conto de João Guimarães Rosa, despontam ao longe Travelling e Sancho Pança. Os dois têm pele bem negra e são completamente diferentes entre si. Travelling é magro, altivo, tem passo firme e determinado. Veste uma calça jeans de cintura alta, galochas de borracha – “Para me defender de cobra braba!” –, camiseta vermelha e chapéu de palha desfiada. Elegante, passa literalmente ventando e segue seu caminho. Ao seu lado vem Sancho Pança:

gordinho, baixinho, de cabelos totalmente brancos, boca aberta quase babando, simplório e meio doidinho. Ele carrega um guarda-chuva preto, um chapéu de cowboy branco, uma sacola em cada ombro, cumprimenta todas as pessoas no caminho e depois corre para alcançar o companheiro. Sábado 9h – A faixa etária muda completamente. A maioria das pessoas sentadas nos bancos é de homens, acima dos 60. Suas senhoras estão em casa, preparando o almoço. Velhinhos jogam buraco, em dupla, numa mesa no meio da praça. Luis Aguiar, 75, nos conta que há 40 anos havia apenas palmeiras em volta da praça e um jardim francês. Aos 18 anos, ele foi para Lorena servir ao exército. Voltou para curar-se de uma doença. Largou a noiva na cidade vizinha e casou-se em Bananal. “Cresci aí para fora e acabei vindo cavar aqui.” Trabalhou como alfaiate e encheu-se de serviço. Durante a Revolução de 1964, decidiu partir outra vez. “Os militares vinham de Resende e pegavam um ou dois, toda semana. Resolvi ir para São Paulo, mas cometi um equívoco, porque a revolução aconteceu no país inteiro.” Seu Luis está de volta a Bananal com a esposa e a neta para se recuperar de um derrame. ffwmag! nº 18 2010

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Num desses dias encontrou na praça seu contemporâneo, Pedro de Alcantara Abreu Coelho, a quem não via há 40 anos. Seu Pedro saiu de Bananal com 11 anos, porque a escola da cidade, na época, não tinha o ginásio. “A gente tinha que estudar em Barra Mansa ou Guaratinguetá.” Até então, frequentava a praça todas as tardes. “O padre ficava sentado na escada em frente à igreja olhando as crianças brincarem. Agora fica todo mundo preso vendo TV.” Hoje, seu Pedro vive no Rio de Janeiro e está de férias na cidade com a esposa, Jacy. Ele nos conta que a casa rosa, um sobrado da praça que hoje abriga um restaurante e uma videolocadora, já foi o Clube Recreativo e Literário de Bananal. Lugar onde aconteciam bailes com orquestra, nas décadas de 1950 e 1960. “Vinha gente de Resende dançar aqui!” Quando perguntamos sobre os eventos literários, debocha: “Se ler carta de baralho for literatura...”. E explica que o Clube Recreativo também era um cassino, nada clandestino. A glória musical da cidade não parava nos bailes. “Herivelto Martins tinha um sítio aqui. Sempre no dia 6 de agosto, aniversário da cidade, trazia artistas, armava um palanque na praça e fazia um show.” Música e futebol movimentavam Bananal. “Aqui 294

era terra de valentão, mas no antigamente. A gente ficou respeitado.” 10h32 – Chega Plínio, general reformado, irmão de seu Pedro, que explica: “Ele agora vive na cidade. Bananal é um cemitério de elefantes. Os aposentados vêm todos morrer aqui”. 11h – Nem quando o sol aperta o carteado se dispersa. Os jogadores se levantam, movem a mesa em direção a uma sombra e seguem a partida. 12h – Chega Humberto Borges, mais conhecido como “seu Himberto”. Carioca, ele ganhou o título de cidadão honorário de Bananal. Anos atrás, no correio da cidade, viu um trevo de quatro folhas, pediu uma muda e plantou no seu sítio. Os trevos deram tanto quanto maria-sem-vergonha. Seu Humberto pegou um deles, plastificou, colocou o símbolo da bolsa de valores e ofereceu como brinde. Quando teve que dar conta de uma encomenda de 16 mil trevos da sorte, empregou uma multidão e conquistou sua cidadania. No dia da entrega do título, Peri, primo de Carlos Imperial – aquele que compôs o hit dos anos 1960 “A Praça” – e responsável pelo som da festa, se enganou e, em vez do hino nacional, mandou um samba. “Foi assim que virei cidadão bananense”, conta seu Himberto com orgulho. Na verdade, seu coração já pertencia à

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cidade desde 1981, quando, hospedado no quarto 13 do hotel Brasil (“É igual ao do Van Gogh”), de frente para a Praça da Matriz, depois de uma tempestade, saiu no balcão e deu com um funcionário da prefeitura secando os bancos da praça, para o pessoal sentar. 13h – A praça se esvazia completamente. 16h45 – O vai e vem recomeça. Encontramos Travelling, muito bem-disposto, carregando uma galinha viva – presente para algum benquerer. Ele trabalha com bois, compra e vende cavalos e está se preparando para uma tourada, na praça Rubião Júnior, neste mesmo dia, um pouco mais tarde.* 17h – Andreza, 12, e Gleiciele, 13, sentam-se num dos bancos em frente à igreja. A primeira é cheinha e tímida, a outra, mais descolada. Elas só vêm à Praça da Matriz em dia de festa, e estão aqui porque vai ter o show do Abadah – uma banda de axé que se diz baiana mas vai tocar na cidade todos os dias de Carnaval. As duas nunca namoraram. Andreza está de olho no irmão de Gleice, que vem mais tarde com um amigo que, por sua vez, é paquera da irmã. Apesar de se verem todos os dias na praça da Boa Morte, mais perto de onde moram, estão apostando nesta noite: “Acho que vai rolar”.**

Bruno, 11, e Rubem, 13, estão sentados no banco ao lado. Eles vêm à Matriz todos os dias. “A gente fica sentado ouvindo música.” Detalhe: cada um no seu iPod. Enquanto ouvem o Bonde da Stronda, paqueram. E vai rolar? Bruno reclama: “É tudo velha!”, e para Rubem: “Cê ainda tem chance, cara, cê tem 13!”. 19h – As senhoras, que estavam sumidas o dia todo, aparecem para a missa muito bem vestidas. De um modo geral, a cidade tem estilo. Os negros têm dreadlocks, tranças, cabeças raspadas. Os playboys, muitas tatuagens. E existem as góticas Isabele, Julia e Ana Clara, que pesquisam seus looks no YouTube e têm até seu private gay, importado de Resende. 20h – As luzes da praça se acendem. A missa acaba e começa uma social forte na porta da igreja. Sancho Pança desce as escadas cumprimentando quem vê pela frente. Isabela, 10, está ali para ensaiar. Amanhã, na missa das crianças, às 10 horas, vai fazer um solo. “Todo mundo fala que eu tenho voz.” A praça é um lugar de convivência tão intensa, que tem um banheiro público de alvenaria, impecavelmente limpo. Lá encontramos Gleice e Andreza molhando os cabelos para manter os cachos domados – os garotos chegaram. ffwmag! nº 18 2010

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20h30 – Começa o ensaio da bateria da escola de samba Unidos da Vila, que reveza o coreto com a Escola de Baixo. Ambas desfilam na rua principal, no Carnaval. O ensaio do coro da missa acontece concomitantemente ao ziriguidum. 21h – Mestre Costela e o bloco Vale do Rio tocam antigos sambas-enredo. 22h – A animação se transfere para a praça Rubião Júnior, bem maior, a dez passos da Matriz. Em breve vai começar o show da banda Abadah. Dos alto-falantes vem a voz do cantor: “Tamo chegando! Fomos muito bem recebidos. Obrigado prefeito Davi Moraes. Tira o pé do chão!”. 22h30 – Finalmente surgem pessoas entre 25 e 55 anos. Crianças pequenas correm para lá e para cá seguidas por suas mães. Malucos beleza dançam animadamente. Garotos fazem trenzinho. Garotas, coreografias. Todo mundo se mistura na frente do palco ecumenicamente. Obelix está sóbrio, de camisa social, com uma sacola grande nas mãos. Descobrimos que é catador de latas, figura de ponta no processo de reciclagem da cidade. “Ontem exagerei, hoje preciso trabalhar.” E segue, imune ao axé. *** Chameguinho amarrou um novo porre, dança fora do compasso, e sente coisas ainda mais intensamente do que ontem. Travelling rouba a cena mais uma vez, com uma dança frenética 298

no meio da pista. Até que aparece Michael, um menino magrinho, de tranças na cabeça, jeans, um tênis que parece três vezes maior que seu pé, e não sobra para ninguém. 23h – Dos alto-falantes o Abadah anima a praça: “Tamo chegando, Bananal! Tira o pé do chão!”. 23h30 – A proporção de garotas e garotos é bem desigual. Deve haver o dobro de homens na praça. Isso porque os caras de Barra Mansa vieram assistir ao show e paquerar as beldades de Bananal. Um playboy coloca cinco garrafas de vodka no chão. O teor alcoólico da plateia sobe rapidamente com cervejas, caipirinhas e tequilas, vendidas nas barraquinhas ao redor.**** 23h45 – “Tamo chegando! Tira o pé do chão!” 00h10 – Finalmente sobe ao palco a banda Abadah: “Tira o pé do chão!”. E a pacata cidade de Bananal levanta voo. Observações: * Obviamente não houve tourada. ** Ninguém pegou ninguém. Mas no Carnaval tem mais. *** Obelix fez R$ 20 em alumínio, das latas que catou. **** Quando as meninas se recolheram, começou a maior porrada entre os locais e os haoles de Barra Mansa, que foram devidamente corridos da cidade. Bananal continua sendo terra de valentão.

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MEIO QUILO DE FEIJÃO, UMA PENCA DE BANANAS E DOIS GOLES DE CACHAÇA Assim como em outrAs pArtes do mundo, os mercAdos centrAis continuAm importAntes referênciAs nA vidA dAs cidAdes brAsileirAs Por Guto Lobato Fotos Jordi Burch

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Jordi burch/kameraphoto

As imagens desta matéria mostram o Mercado Municipal de São Paulo, prédio construído pelo escritório do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. O projeto, em estilo eclético, é de 1933 ffwmag! nº 18 2010

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Restaurado em 2004, o Mercado Municipal de São Paulo teve a fachada recuperada e vitrais refeitos; um mezanino foi construído, para abrigar bares e restaurantes

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Os mercados centrais hoje são considerados atrações tão importantes quanto igrejas, casarões e complexos arquitetônicos

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ode ser que a essência das grandes cidades esteja em seu centro histórico. Lá ficam as principais edificações, monumentos e ruelas que acentuam conflitos urbanos – cada vez mais aparentes, em termos de Brasil – entre tradição e modernidade. Mas, no meio disso, certos espaços dedicados ao comércio mantêm mais história do que museus. Basta pensar nos mercados centrais: são construções que sobrevivem ao tempo e que viram atrações tão importantes quanto igrejas, casarões e complexos arquitetônicos. Faz muito tempo que os mercados centrais mantêm uma tradição que aponta apreço pelo comércio. Relatos históricos ressaltam que, em meados dos séculos XVII e XVIII, capitais como Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife já tinham seus pequenos mercados. No interior do país, o mesmo acontecia: tão logo uma vila era fundada, os poucos colonos tratavam de erguer postos centrais de abastecimento. Inicialmente, sem imponência, servindo como ponto de encontro de comerciantes, artesãos, pescadores e pessoas que visitavam a cidade. Nada de anormal: delimitar espaços para o comércio foi uma forma de aglutinar atividades e organizar os núcleos coloniais brasileiros, recebendo produtos, gente e serviços vindos da Europa. Ter um mercado na cidade era tão relevante quanto uma igreja matriz, convento, escola ou praça central. Era o ponto de referência nos confusos traçados urbanos delineados pela metrópole portuguesa. No princípio, palavras como “arquitetura” e “engenharia” passavam longe desses espaços comerciais. Os mercados nada mais eram que casebres, feiras cobertas e galpões frágeis, construídos sem rigor estético, situados nas proximidades de portos, rios ou estradas. O público consumidor era dividido entre raros visitantes e muitos escravos, que, para comprar gêneros alimentícios, tralhas e produtos de uso doméstico, era obrigado a aturar maus cheiros, ausência de higiene e desorganização das lojas. Peixes, carnes, tecidos, artigos de higiene pessoal, animais vivos, materiais de construção e até “moças de companhia” – de tudo um pouco se encontrava nos mercados, sem direito a controles fiscais, valores fixos ou, muito menos, vendas a crédito. Alguns clientes mais

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assíduos anotavam suas despesas em “cadernetas”, cujos valores eram saldados a cada fim de mês. Os mercados tiveram de adaptar suas bagunças aos novos tempos. Na virada do século XIX para o XX, quase todas as capitais ganhavam ares mais metropolitanos e ensaiavam crescimentos econômicos. Os centros comerciais começavam a ser frequentados por gente abastada e logo se transformavam em uma espécie de atração pitoresca regional. Mesmo assim, os mercadões centrais praticamente foram restaurados na década de 1980, porque significavam potencial turístico.

ARQUITETURA ECLÉTICA

Curioso observar que, de forma geral, a fundação dos mercados centrais mais famosos do Brasil não ocorreu nos tempos de colônia. Foi só a partir dos anos 1900 em diante que a urbanização das capitais e das maiores cidades pelos governos passou a levar em consideração esses pontos de comércio. Basta conferir as datas de fundação de alguns: em 1912 surge o primeiro prédio do Mercado Modelo de Salvador (o atual, na praça Visconde de Cayru, é do fim dos anos 1960); em 1911, o Mercado de São Braz, em Belém; em 1933, o Mercado Municipal de São Paulo; e, em 1929, o Mercado Central de Belo Horizonte. Todos apresentam características comuns na arquitetura: o uso eclético de movimentos estéticos europeus (do neoclássico ao art nouveau). Isso acabou por revestir os mercados de certa relevância paisagística impensável nos tempos de colônia. Afinal, por que colocariam madeiras e pedras nobres, vitrais e trabalhos de ferro naqueles centros de comércio popular? Entretanto, nem todos os governantes pensavam assim nos anos 1800. Raras exceções nesse contexto de valorização tardia são os mercados de São José e da Boa Vista, em Recife, inaugurados ainda durante o século XIX. O primeiro, situado no bairro homônimo, foi resultado de um projeto visionário da Câmara Municipal de Recife, que buscou inspiração no mercado de Grenelle, em Paris, para projetar uma imensa estrutura de ferro onde conviveram – e convivem – desde músicos, poetas e artistas populares até vendedores de peixe, frutas, carnes e

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artesanato. A estrutura do prédio veio da Europa e transportada até Recife – o que torna o São José o mais antigo edifício pré-fabricado com ferro do Brasil. Já o mercado da Boa Vista – hoje ponto de intensa atividade noturna e gastronômica – é um mistério para os historiadores: apesar de ter sido reaberto em 1946, documentos apontam que sua construção, em estilo colonial tardio, ocorreu no século XIX, a tempo de o local ter sido um mercado de escravos. Situado perto da Igreja de Santa Cruz, a área do prédio também teria sido usada como cemitério e estrebaria da então capela. Durante o século XX, a valorização do comércio popular fez com que se investisse cada vez mais na inauguração de mercados práticos e com boa capacidade de utilização. A ideia de aliar beleza e praticidade pode ser vista em mercados como o Municipal de São Paulo, que é decorado por vitrais, colunas e pilastras de inspiração clássica, mas nem por isso deixa de ser um importante centro de vendas, com mais de 12,6 mil metros quadrados de área construída. Ou o Municipal de Curitiba, inaugurado nos anos 1950 com uma estrutura suntuosa que não para de crescer (a ideia é chegar aos 30 mil metros quadrados). Fora os aspectos visual e estrutural, os mercados centrais passaram, também, por mudanças na sua rotina de comércio. Mais visitantes, mais moradores, maior demanda – com isso, vender apenas alimentos e artesanato poderia ser um erro. A solução foi transformá-los em “minishoppings” de preço popular, onde se encontra desde vinis empoeirados a roupas, móveis, artigos eletrônicos e comida por quilo. Coisas impensáveis no meio mercantil do início dos anos 1900, como restaurantes, estacionamentos e guias turísticos, já se encontram em mercados como o Modelo, em Salvador, ou o Central de Fortaleza.

OUTRAS IDENTIDADES

Com o tempo, as designações da economia e o estabelecimento das capitais como centros de serviços fizeram com que os mercados quase perdessem sua função. Quer comprar carne? Vá ao supermercado. Roupas, tecidos, móveis, artesanato? Basta procurar em shoppings ou lojas de rua nos bairros comerciais. Mesmo a comida regional,

tradicionalmente servida em restaurantes nos mercados do Norte e Nordeste, hoje está em cardápios de estabelecimentos mais requintados. Tudo conspirou a favor do desaparecimento desses espaços tão peculiares e consagrados popularmente. Até mesmo o acaso quis o fim da tradição mercantil: basta lembrar dos cinco (cinco!) incêndios que atingiram o Mercado Modelo de Salvador, desfigurando sua estrutura gradativamente ao longo do século XX, e do fogaréu que danificou parte do Mercado São José, de Recife, no fim dos anos 1980. A degradação do Mercado de São Braz e do antigo Mercado de Ferro, situado no complexo arquitetônico do Ver-o-Peso, em Belém, também tem a ver com a desvalorização de espaços destinados ao comércio popular. Mas, contrariando a tendência natural do país, a ideia de recuperar os mercados de aparência mais, digamos, degradada – para não dizer acabada – virou tendência mundial. Com incentivo dos governos, que se “preocupam com a perda da identidade” e buscam o lucro do chamado turismo histórico. Então chegamos, enfim, ao estado atual dos mercados brasileiros: de centros comerciais a polos gastronômicos e de artesanato, que entretêm visitantes e moradores com seu “caos organizado” e pouco a pouco são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Obras de revitalização dos mercados têm sido organizadas nos quatro cantos do país. O de Curitiba está em fase de expansão e inaugurou, no ano passado, a primeira feira de orgânicos do país. O de São Braz, em Belém, busca recursos para virar centro de atrações culturais. O de São Paulo, que em 2004 ganhou um mezanino cheio de restaurantes e bares, poderá ganhar estacionamento subterrâneo com 400 vagas de capacidade. Até movimentação noturna já foi experimentada – e deu certo – nos da Boa Vista e de São José, em Recife. São, enfim, indícios de que a curiosa relação mantida entre o brasileiro e seus mercadões municipais vai longe. Seja para comprar a comida do almoço, o souvenir, a rede da varanda, o vinil empoeirado ou mesmo para tomar chope, esses gigantes de ferro e concreto continuam a nos lembrar da formação histórica das cidades brasileiras. ffwmag! nº 18 2010

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Em meados dos séculos XVII e XVIII, capitais como Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife já tinham mercados importantes. Espaços delimitados para o comércio, aglutinando atividades que eram referência dos núcleos coloniais brasileiros

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No princípio, os mercados centrais comercializavam pescados, carnes, tecidos, artigos de higiene, animais vivos, materiais de construção e até “moças de companhia”

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Com incentivo dos governos estaduais, os mercados centrais das cidades se tornam um filão importante na indústria do turismo, sendo recuperados para “manter a identidade” e gerar lucros

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NASA/CXC/MIT/F. BAgANoFF, R. ShCheRBAkov eT Al.

UMBIGO DE GALÁXIA Contemplar o cosmos e a infinita quantidade de pontos luminosos sempre causou medo e curiosidade. Por quais motivos os mistérios das religiões vêm dos céus? O ser humano jamais conseguiu explicar aquele manto estrelado que, ao mesmo tempo, orienta e desorienta. Em busca de compreensão, inventou as cosmogonias do sagrado, além de argumentos filosóficos que moveram o pensamento de homens como Spinoza ou Einstein. O astrônomo e astrofísico Carl Sagan (1934-1996) publicou dezenas de livros que aumentaram a curiosidade por vida inteligente em outros sistemas estelares. Ele foi um dos incentivadores da Voyager 1, nave não tripulada lançada em 1977 para captar imagens do sistema solar. O projeto seguinte, Voyager 2, acaba de completar 25 anos de lançamento. Em 1990, a primeira nave havia percorrido 6,054,558,968.024 6,086,176,360.601 de quilômetros. O fato fez Sagan declarar que a Terra era apenas um microestágio na arena cósmica. a nasa divulgou há pouco a imagem de um buraco negro no centro da Via Láctea. Chamado de Sagitário a, mede 114 anosluz, tem densidade equivalente a 100 massas solares, está na Constelação de Sagitário (a 26 mil anos-luz) e pode ser observado da Terra. Os cientistas apontam que as regiões centrais de todas as galáxias - inclusive a Via Láctea - contêm buracos negros com 1 milhão de massas solares. Ou mais. Por enquanto, a Terra é o único mundo com vida conhecido. Seremos o “centro” até que diferentes planetas permitam a migração da espécie humana. Visitar outros planetas é possível. Habitá-los, ainda não. Continuamos ínfimos perante o universo. até quando o mistério do espaço permanecerá como canções singelas que falam de objetos não identificados? 314

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english COnTenT 30 JOURNEY TO THE CENTER OF THE WORLD 44 WARM HOLES 60 THE THREE MAYAN CONES 80 I SWALLOWED MY HUSBAND, BUT I FEEL FINE 92 THE CRAZY BLACK MAN’S SAMBA 100 THE COUNTRY IN THE MIDDLE 112 INSIGHTFULL CHAT 116 I AM A GEEK! 132 SHOULD WE BASH NAVELS? 238 TO CREATE / TO ELABORATE / TO QUESTION 248 THE GREAT BALL OF FIRE 252 ATOM VERSUS NET 256 [{(SHAKING TABLES)}] + {[(SPIRITS AROUND)]} 262 THE CUBE 276 MOVABLE CAPITALISM 284 MOVABLE MEMORY 290 THE MAIN SQUARE 300 HALF A KILO OF BEANS, A BUNCH OF BANANAS AND TWO SIPS OF CACHACA Translations by Carolina Ribeiro Pietoso

ERNST HAECKEL / KUNSTFORMEN DER NATUR (1904)

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A RARE GEM

wo Zero One Zero. We are living a historical moment that had ancestral bases as its launching pad. Or platforms that wait for or try different things. A sort of mixing that allows leaps forward. Intentions of bringing / seeing what is new. Past, present and future. The search for the egg. To question the point. To go to places of origins. Zeros. Clocks. Navels. To invent derivations of the referential X. The point. The exit. The arrival. New turns. Progress. Turbulence. Convergence. Divergence. Zero. Everything. Nothing. Centers. Different. Maybe that verb: to nullify. For all of that, in 2010 ffwMAG! will observe the basic bearings that create (or question) the pulses and impulses of existence, sense, glance, exit, entrance and the search for an axis. We begin the editorial year with Center as our theme. Starting points, discovery points, meeting points, exposure points. We contemplate with sociologist Henri-Pierre Jeudy, who questions the renovation of historical city centers. According to him, the architectural recovery of parts considered “old” (in an exclusive interview in Paris) disrupts the original life of the cities. This controversy hasn’t arrived in Brazil yet. Few people warn that the 1990’s will take over fashion once again, such as the master of ideas Patti Wilson, a woman who evaluates the continuous earthquakes of style, said in another exclusive for ffwMAG! To walk, to walk and to walk. Advancing other editorial movements, photographer Cristiano Madureira reproduces the epic pop of those who leave in search of the centers: that day in which many people leave their town with suitcases full of ideas. The Center issue has some exciting stories. We documented the generational moment of the geeks, in a photo shoot by Ludovic Careme, as they centralized technology as bearing in the Campus Party. They think about the volcanic, concentric, expansible world. Almost in the same way that Jules Verne did, 150 years ago, when he wrote about a journey to the center of the earth (the characters entered a volcano in Iceland) or when the Afro-Brazilian invented the navelling dance, as documented in an article by Pedro Alexandre Sanches and Adenor Gondim, with a documentation almost movie-like about As Ganhadeiras de Itapua. After that, we descend upon a Spiritism Center, enter Paleolithic caves, analyze the movements of political centers, travel through the Mayan people who centralize the Mayan culture in the Atitlan Lake (Guatemala, Central America), we confirm the Internet as a net in an article published by Wired in 1994, analyze the sun as the centralizing ball of fire, walk around the bandstand of the Main Square in Bananal, enter the center of the brain to discover the functions of the hypothalamus and list ten strong women who became the center of power by swallowing their husbands. But maybe nothing compares to a nation lost in the middle of the African continent. We showed for the first time in Brazil something on the Central African Republic, in an ethnologic study with exclusive images from the Dutch photographer Jan-Joseph Stok, our correspondent, who aimed at revealing the heart (the center) of Africa. He captured with his lenses one of the poorest nations of the world, which had a cannibal emperor who imagined being in Versailles. Did anybody know that? That is true. The world has such terrible centers that make Haiti seems fine. What time is it? Point zero. Center. Starting point. Discoveries. The end. The middle. The beginning. Infinite. The start of everything. A long walk. To look all over. These are the waters of March ending the summer. Life beginnings in my heart… PAULO BORGES Publisher

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JOURNEY TO THE CENTER OF THE WORLD

“If the Earth was like an orange, we wouldn’t even be able to penetrate its skin”. But, since in fiction everything is possible, Jules Verne explored the nucleus of the planet, where the temperature reaches 6 thousand degrees Celsius. The writer’s characters reach the terrestrial depth without scorching a single hair By Silas Marti When Jules Verne wrote Journey to the Center of the Earth, in 1864, geologists knew only the first 15 kilometers of the terrestrial crust. They lacked proof or theories to explain what sustained the world full of oceans, mountains and bourgeois metropolis such as Paris, where he lived. Verne started his literary career by chance. As a young man he got bored at a party and decided to play by slipping through the handrail of a stairway – at the end of which he collapsed onto the bulky belly of Alexandre Dumas, the son. It was the author of The Lady of the Camellias who decided to stage Verne’s first play in the French capital. The accident that ended in the stage took him, quickly, to writing. After having his first book rejected by 15 editors, he managed to release Five Weeks in a Balloon and discovered in the distortions of science a literary vein. After that, He stretched out those 15 known kilometers of lithosphere in about 120 endless kilometers heading to the center of the globe. Parallel to the descent under sea, he staged a return to the origins of species of plants and animals. In the book, besides penetrating in the continental plates, he goes more than 300 million years back in the time, to the Paleozoic era – in which the first ferns developed, well before the dinosaurs. Journey to the Center of the Earth, one of the over a hundred books Verne wrote in his lifetime, instantly became a best seller, the nineteenth Century Harry Potter. It materialized the spirit of an era and conquered followers. Charles Darwin had recently published his theory of evolution five years before, a seismic tremor for the Church and an incentive for paleontology, geology and similar areas of study. Auguste Comte, father of positivism and his habit of classifying the world in categories, had just died, leaving as legacy the unshaken faith in the scientific empiricism. Europe was taming steam power and electricity and invented the machines of the Industrial Revolution. Verne made of this book, and of the ones he wrote later, a kind of solemnity of faith in science. It is not at random that the action takes place in Germany, an engine of the scientific discoveries of that time. Otto Lidenbrock is a crazy scientist who gets to decipher a group of clues in an old parchment and decides to explore the center of the Earth by descending through the crater of an extinct volcano. His nephew, Axel, makes the counterpoint with his reluctance, reminding that the center of the world, a ball of incandescent gas, cannot be visited by humans. Lidenbrock ignores all warnings. He needs to see it to believe it. He enumerates a handful of theories that say the opposite, that the terrestrial crust is solid, divided in strata, and drags his nephew from Hamburg to Iceland. They cross the island, they climb the Sneffels volcano, and they go down in the abyss of the crater and begin to scratch the secrets of the globe. They don’t get burn nor have great difficulties with the descent until the basements of the Earth. In Verne’s fantasy, the characters travel by foot, very fast, almost 3 thousand kilometers, to a depth of over 100 kilometers, in about one month. They dive in the crater of a volcano equipped with a chronometer, a compass, a manometer and a primitive

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electric flashlight. They return to the terrestrial surface in an improvised raft, spit from the core of the planet by means of the fury of an eruption, wrapped up in incandescent lava – and all that, of course, without getting hurt. But Verne created a shield of reality around the episodes, even if they seemed fantastic and unusual at first. He used brand new science to support pages and pages of geological descriptions, class specifications and specialists’ citations – over two thirds of the book are devoted to the exhausting formation of that theoretical outline. In an echo of the positivist fashion, Lidenbrock has in his home mineral specimens labeled and classified in agreement to their physical properties. He insists on mentioning Humphry Davy’s theory, who thought the terrestrial center as a succession of compartments made of different materials. He appeases all and any doubt with the quote: “When science speaks, we can only remain silent “. And science speaks a difficult language. Seconds before an explosion, Axel foresees the catastrophe by feeling “a strong smell of hydrogen carburet.” Although he apparently doesn’t bother with that, he knows time is divided in periods with strange names, such as Pliocene, Miocene, Eocene, Cretaceous, Jurassic, Triassic, Permian, Carboniferous, Devonian, Silurian. He places the reader punctuating geological spaces: “after the schist came the gneisses, with a uniform structure, known for the regularity and parallelism of their sheets, and later, the micashist, disposed in sheets”. He exaggerates in the professorial tone, reminding that the basalt is a rock of igneous origin, which “assumes regular forms that surprise for their disposition”. In the underground craters, he foresees the conflict with terrible monsters and serpents, 13 meters wide turtles and a forest of degenerated mushrooms with meticulous descriptions of the fossils compacted in the ground. “This is the maxillary of the hulk, and these are the molars of the hoe tusker; and that over there is a femur that belonged to the largest of those animals, the megatherium”, he describes. In the flora, it mentions 30 meters high lycopods; gigantic sigillarias; arboreal fetuses, big as the pine trees of the high latitudes; lepidodendron with forked cylindrical stems, crowned with long and bristled leaves, with thick hair such as those of monstrous fleshy plants. In the movies, that verbiage gives room for the special effects and the dated exuberance of the cinemascope. A little before the centennial of Journey to the Center of the Earth, its first cinematographic version was launched – today there are three, the last one released a couple of years ago – which put iguanas filmed up close in juxtaposition with actors and actresses in panic, only to illustrate the kind of dangers patrol the terrestrial depths. In lieu of the underground sea devastated by storms, the characters of Henry Levin’s movie discovered the lost kingdom of Atlantis, the one which sank “in a single day and night of misfortune”. Verne, simpler, ends his narrative without specifying which sea was that under an immense vault of granite. He doesn’t complicate his own theory stopping at 120 kilometers, in other words, without going further than the first layer of the terrestrial crust, which has, actually, over 6 thousand kilometers depth. He also remains far from the real heat of over 5 thousand degrees of that area of the planet, leaving intact his adventurous characters. His search had the symbolic destiny of the center of the Earth, that giant which spits back its minuscule invaders. But at the same time it tried to hide a deep emptiness, searching for the mark zero of existence. Verne tried, but he didn’t manage to make sense of the terrestrial life. During difficult times, he shows that miraculous science doesn’t exist and goes after some other powers. When Axel gets lost from his uncle, thirsty and without light in the large caverns of the planet, he says: “I prayed thanking God; in the middle of that immense darkness, he would guide me until the only point from where I would maybe be able to hear my companions’ voice”. He ends up

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showing that his entire encyclopedic arsenal seems to be at the service of a single author’s work, the “Creator”, with a capital letter, as in Verne’s syntax. Contemporary of the X-ray, the radio, the telephone and the automobile, the author’s prose also advanced the helicopter, the television, the neon illumination and, in the warlike field, tanks, explosives capable to annihilate the world, remote controlled missiles. But he was not capable to build a theoretical base for the commands of the nature, as Verne wanted. Maybe the power of the Church was still too strong, maybe it was the complacency of a man of letters who played with science, but Verne, as the rest of the believers and incredulous, feared the different. When his character loses the flashlight in the bottom of the abyss, he promptly admits: “I didn’t dare to lower my eyelids, fearing I could lose the smallest atom of that escaping light! It seemed that at any moment it would extinguish and be swallowed by darkness”. It remains, in the end, the “dreadful fate of the condemned who is tied to a cannon, when it shots and his limbs are dispersed in the air”.

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WARM HOLES

What are caves? Narrow, tight, difficult to penetrate places. Maybe open and generous. Humid and, in some cases, very warm. The fact is that we all came from them. We were born. Over 10 thousand years ago. A hole, from the Latin cavus, or cave: get into the bowels of the Earth. By Marcella Aquila The age of the Earth. In the beginning it was lava. And everything came from a single spit. And some long exhalations. The initial gesture. A poisonous taste. The formation of caves from the flow of volcanic lava is quite common. When this happens, they are called primary caves – because they appear at the same time that the rock that shelters them is formed. After burning for a long time in great fires – as an organism that wants to last and, therefore, needs to get in balance – the rain came down. And it rained non-stop for thousands of years. What didn’t become sea, turned into country land. The lava chilled, it created the rocks that eroded, deposited, melted and formed – among many others – carbonic rocks. From the corrosion of the carbonic rocks – among which are limestone, marble and dolomite – most of the caves on Earth were formed. After all, water can shape stone, even if it takes a while... Secondary caves also began to form, because its construction is subsequent to the formation of the rock in which they are sculpted. The water of rain and rivers penetrate the soil and mix with the carbonic gas (CO2) – from the atmosphere or present in the soil itself – a mildly acidic solution. Acidic enough to dilute and carry away minerals from the rocks, through rifts, all the way to deeper geological layers. To sum it up: those rifts grew wider and formed great galleries that, with the continual lowering of the phreatic zone with time, become empty, dry and covered with elements from the minerals brought down by the water. Speleothem is the name given to those elements, among which the most popularly known are the stalactites and the stalagmites. Stalactites are those sharp formations built from the crystallization of minerals in the solution that springs from the superior part of a cave. Stalagmites are erected from the solution drops that reach the ground. Such elements, added to the internal lakes and, in some cases, to the entrance of light, create a colorful show. Among the countless attributes of this land – which provides everything – caves are some of the most beautiful. Brazil has 5.025 caves registered by the Brazilian Society of Speleothem (Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE), concentrated mainly in the States of Bahia, Goias, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Sao Paulo and Parana. The largest one, named Toca da Boa Vista,

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with 107 kilometers of extension, is located in Bahia. Abroad, the longest group of caves known by man is called Mammoth and located in Kentucky, USA, with 579 mapped kilometers. After so many data, the great thing about those holes is the fact that they are real routes to the center of the Earth and, exactly because of that, they constitute enormous tunnels of time. Be it for the information they bring us from a distant past, be it for the curiosity and imagination that stimulate the future ancestors’ creation.

A SHELTER FROM THE WORLD From the Australopithecus to the Cro-Magnon – or the “great cave” man, also known as Homo sapiens – they all had, even if for a while, caves as shelter and their only way to survive. It was the resource available to those homo in process whose abilities still didn’t include much more than chipping stones, collecting fruits and roots and hunting animals. In history: we are at about 20 thousand years b.C., the peak of the last glacial period. As for the domain of the scarce space hominines, mammoths, lions and gigantic deer disputed each inch of it. During the frozen period the homo in process – now with plenty of free time and literally snowed in a cave – practiced and developed some communication techniques such as painting on stone walls. Although the first and older paintings found date from 30000 b.C., it is from the period between 15000 and 12000 b.C. the so-called “prehistoric Sistine Chapel”. The cave of Altamira, in Spain, discovered in 1879, shelters one of the largest and more important primitive pictorial groups that impresses, above all, because of the realism with which the animals were drawn. Most of the drawings found use blood, clay and bats excrements in their composition and portray wild animals – bison, horses and deer. Some say those paintings, besides establishing registration and communication with other groups, had a magic feature for the hominines of that period – to portray the hunt before it happened would bring good omens. Besides the paintings on the walls it is common to find in the caves objects made of bone, clay, stones and animals’ horns sculptures. Among the statuettes found the ones of Venus – full women, sometimes pregnant, that indicate the expectation for more abundant days contrary to the poverty of the glaciations – stand out It is just at the beginning of the Neolithic period – approximately 10000 b.C. – that the climate begins to warm up and the homo – at that moment more sapiens – can step outside.

GENERAL PANGEA Contrary to what most people thing the chipped and polished homo of all species were not the only ones to live in caves around the world. Long ago a guy named by Vincent T. Hamlin created Alley Oop, who along his companion Foozy – the troglodyte – hunt threatening animals thereabout. Those two were heard of not only in more remote times, but in many moments of the history. In 1939, Dr. Elbert Wonmug – a relative of Albert Einstein – developed a time machine that, by establishing a direct connection with Alley Oop, allowed him to travel straight to other outstanding moments in history. Alley Oop was with celebrities such as Cleopatra, King Arthur and with the illustrious Ulysses. Even Roberto Carlos succumbed to the charms of Alley Oop dedicating a song to his honor in 1965. The birthplace of that comic, however, was the kingdom of Mu, which was in conflict with the kingdom of Lem – from Lemuria. Rumour has it that Mu, Lemuria and Atlantis were three great civilizations that submerged with the separation of the Pangea. A lot about those civilizations is speculated, but nothing has been confirmed so far. It is not known if the disappearance of Bedrock – a prehistoric city with about 2,500 inhabitants, the most famous being the Flintstone family – happened at that same time. Of the lost civilizations, the last registrations available are those of the German geologist Dr. Otto Lidenbrock who, in

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1863, accomplished a Journey to the Center of the Earth with his nephew Alex. The reports of that expedition were written down by Julio Verne. The trip started in the crater of a volcano in Iceland, it traveled countless of corridors until the discovery of a central gallery – the center of the Earth – that sheltered, besides an ocean, life which was believed to have been lost many thousands of years before – dinosaurs and ancestral humans. The adventure ended with the return to the surface, through another opening, the one of the volcano Stromboli, in Sicily.

THE NAVEL OF THE WORLD “Know thyself”. The famous inscription on the temple of Apollo, in Delfos, is also the fundamental start of the Socratic investigations. The myth of the cave, written by Plato – disciple of Socrates, who was also its main character –, is certainly one of the most wellknown and structural allegories of the western thinking. In it, the cave refers to a world where the shadows are taken by concrete objects, hiding the reality of things. The cave configures a space of obscurity and confusion. To leave it and, therefore, to see the light – find out the truth – is the road of the philosophical investigation, of thinking. No matter how contradictory they seem, those millenarian warm holes – the caves – when seen as objects of scientific study process the clarity and precision which stimulated Socrates’ thoughts. Although the caves classified around the world are countless, those thoroughly studied are few. And they certainly don’t lack depth. To where they can lead remains a mystery. The fact is that those giants still have a lot to show us.

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THE THREE MAYAN CONES

Volcano. Lava. Eruption. Beautiful words, igneous words, hot words. Atitlan Lake. Central America. A bluish stain in the middle of Guatemala, a nation shaped by descendants of the Mayan civilization. Each pueblo of the lake has their language, their clothes and their faith Photos Ivan Castro The Mayan established the most important cultural axis of the region in an isthmus form that unites the South American continent to the North American continent. Around the lake are the volcanoes San Pedro (3.208 meters), Toliman (3.150 meters) and Atitlan (3.153 meters). The impetuous mountains in cone shape have already expelled tons of magmatic material. Today they are asleep giants, like conduits that connect the surface of the earth to deeper geological layers. The trip to Atitlan begins in the city of Antigua Guatemala, a town from the 18th Century that was the third Guatemalan capital. This colonial center is so beautiful and seductive and captivating and dream-like that makes anyone wants to remain there for several days. Perhaps doing nothing – really nothing. Taking siestas in the salerosas lodgings. Observing the churches. Drinking liters and liters of the Quetzalteca liquor. But it is best to resist such temptation. And take the 16 kilometers roads, full of curves, to Solola, where Panajachel is located. That small city, busy because of all the indies, geeks, freaks and European globe trotters, will be the base to reach Atitlan and the pueblos by the volcanoes. The sight of the 126 square kilometers lake makes you almost cry. The grandiosity of the volcanoes, the mysterious shade of the waters, the pious of the birds, the noise of the children diving, the canoes rowed by the fishermen, the women with their braids in ethnic clothes, a constant breeze in the trees. So much that the English writer Aldous Huxley (1894 -1963), author of Brave New World and The Doors of Perception (among other titles that changed a lot of people’s heads), wrote the following about Atitlan: “The Como lake, in Italy, reaches the limits of picturesque. But Atitlan is Como with the additional

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embellishments of great several volcanoes. It is really too much of a good thing”. We reckon he wanted to say simply: “Atitlan is great”. How long should one stay in Panajachel? For those who like to combine days of peace with entertaining night bars, natural restaurants, dives in the lake and circuits in canoes with a tuctuc-tuc-tuc motor that moves slowly through the immensity of the lake, it is worth staying at least one month. One month. Yes: one month. No regrets. The geological kettle that shelters Atitlan was formed by an eruption that happened 84 thousand years ago. The volcanic activities in the area date from 11 million years ago. The eruption that formed the current kettle was so intense that ejected 300 cubic kilometers of pyroclastic flow, which dispersed through 6 million square kilometers. That was an act of nature. There are several traces of that eruption from Florida to Ecuador. The sequential volcanic activity formed the three volcanoes that surround Atitlan. The oldest, San Pedro, has been inactive for 40 thousand years. Toliman is probably considered an active volcano, although without spitting any lava lately. Atitlan is certainly an active volcano: its last eruption happened in 1853. To travel the lake in the small transport boats is a good choice. Better than to hire guided trips. The boats stop at the wharfs of several villages, each one with its traditional clothes and different dialects. The Mayan people of Atitlan descend from the quiche, mam, pocomam, ixil, queqchi, tsutuil, jacaltecas and caqchiqueles ramifications. These last ones are not looked upon favorably by the traditional Mayan, because they formed an alliance with the Spaniards during the colonization of Central America. The largest community of the lake is Santiago Atitlan: full of slopes and alleys, it has up the hill a temple devoted to Maximon, a syncretic deity that mixes Mayan cosmogony, Catholic rituals and the conquerors’ legends. Their rituals remind of masses, with their incense burner and bells. The statuette of Maximon is under the custody of a religious fraternity and it is honored with a procession during the Holy Week. The drama is to see, amidst those cults, the presence of evangelical churches, with indigenous shepherds wearing ties and holding a Bible under the arm. That is a curse. They certainly say that the Maximon is a demon. Around the Atitlan there are dozens of Mayan archeological sites, many still in exploration. Also, ruins of larger constructions were dug, as in Chiutinamit, where there are traces of a submerged city. Since the number of visitors grow every year (where in the world does the plague of mass tourism still didn’t happen?), the attractions also multiply, as well as the hotels and lodgings. Panajachel is the center of the agitation. But to stay in Santa Cruz La Laguna, San Lucas Toliman, San Marcos La Laguna, El Jaibalito, Tzununa and in the beautiful San Antonio Palopo guarantees sightings to the part and a closer conviviality with the natives. Advice: they are shy and keep to themselves the whole time. Avoid: to be too friendly, even if you drank too much Quetzalteca. Remember: they are Mayan and carry 800 years of inheritance upon their shoulders. Remember that Atitlan in Mayan means “the place where the rainbow gets its colors from”. Remember to remain silent, to look at the volcanoes and contain your interior lava. (ffwMAG! staff, February 2010)

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I SWALLOWED MY HUSBAND, BUT I FEEL FINE

Darling, not every woman can be a passive companion, of the kind that kept their head down. Some women are crazy. And, in every breath, they completely shadow their partners, becoming the center of attention By Eduardo Logullo

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Vain. Dressed up. Jewels, excessive hairdos, flashy clothes, tiaras, hats. They talk. They are nice. They open their arms in wide gestures. Socially unembarrassed. They maintain a fixed glance in the speaker. They laugh a lot, they make toasts, they arrange their hair and retouch their lipstick in public. Some are very tacky. Others know the tricks of elegance. They love to be photographed. They held themselves high. They pump their chests up. They show pearly smiles. They kiss bishops’ hands, caress babies, make perfect reverences before noblemen and waive a lot from automobiles. They love to raise a hand going down of a car, airplane or any stairway for that matter. Powerful, raging, rulers, controlling, charismatic, populist, bossy, talented, authoritarian, ladies of strong and centralizing personalities. They annul shadow or simply extract their men’s shine. They possess the magnetism of the inner light. With rare ability, they sucked the shine of their own husbands. We chose only ten. But there could be 200. After all, all they want is power. Attention: this samba is also for the suzanas, danieles, avas, sophias, callas, saritas, carmens, adrianes, luizas, alices, yolandas, dulces, marilias, ginas, karmitas, elzas, sonias, paulas, vanusas, danuzas and aretuzas.

CENTER 1 – Wet Towels “Here. Take this and this and that!” Slept! Sploft! Plaft! The beatings with wet towel that the first lady from Alagoas Denilma Bulhoes gave her husband, former-governor Geraldo Bulhoes, in the palatial rooms, became famous in the national politics. The tragicomedy happened in the beginning of the 1990’s, every time he got home from a night out. For those who doubt the episode, search the Internet. Today, beatings with wet towels became a success among dominatrix women. Denilma was a precursor. She would hit her husband, put the hands in the waist, fix her hair and, who knows, made eat some tapioca to compensate the effort. Does anybody remember that governor? No. But Denilma survives as a legend of a strong woman.

CENTER 2 – Mabuti po naman! Crowds roared through the streets of Manila after the head of Ferdinando Marcos, the dictator that governed the Philippines between 1965 and 1986. Inside the palace Malacanang, the mounting tension to avoid a bloody invasion. Two airplanes from the United States Air Force, sent by decrepit Ronald Reagan, were ready to rescue the Marcos family from their final political destruction. However, the first lady Imelda Marcos, known as the Iron Butterfly because of her performances (she also posed as mayoress and minister of the capital), acted like a robot, more concerned in saving her 3 thousand pair of shoes and thousands of dresses. The cortege fled hurriedly, escorted by convoys of the army. They supposedly embezzled the Philippine safes in US$ 85 billion. The woman who was a miss, singer and the more outstanding feminine persona in Asian politics, abandoned her archipelago weeping. Imelda was much more popular than her husband. She acted as a populist redeemer of millions of citizens oppressed by poverty and dazzled by her appearance of some sort of a queen. Always wearing traditional dresses, immense buns as hairdo and a lot of jewels, she represented the power. Her husband, Ferdinando, died in the exile in a supporting role. Imelda Remedios Visitacion Trinidad Romualdez swallowed Ferdinando Marcos and today is a senator. With the same look and thanking in tagalog: Maraming Salamat!

CENTER 3 – Private Dancer Musician Ike Turner had become more or less known as a pianist in the beginning of the 1950’s, accompanying groups of black soul bands in the south of the United States. He drank bottles of Bourbon, caught girls in whore houses by the highways, loved to party (the way all young musician likes to do). When forming his own band, he hired three vocalists he called the “Iketes”. They danced wearing short shiny dresses, everything to hold Ike’s crooked manner onstage. But he fell in love with one of them, Tina, whose real name was Anne Mae Bullock. And, worse: he

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got married to her, forming the couple Ike & Tina Turner. Bad choice. Tina outshone her ugly husband once and for all in their gigs, becoming a sensation for her long legs, strong voice and uninterrupted dancing. In no time, Tina Turner was the couple’s star. Ike, drinking more and more, solved the problem his way: he bit Tina daily, threatened her to death, locked her in bathrooms or tied her feet to the bed. Bad choice. The misfortune of Ike’s life was already announced by fate. Tina separated from the man in 1976, beginning her megastar path. Without inner light, he felt sorry for himself cried and drowned in alcohol. He died at the age of 76, sleeping the sleep of those who are forgotten. Tina remained a strong and beautiful woman. She managed to reduce to nothing the artistic legacy of Ike – who today is nothing but a weird page in the history of rock.

CENTER 4 – Untamed vixen During the shooting of Cleopatra, in 1963, the North American choreographer Lennie Dale (who would later found the Dzi Croquettes group in Brazil) opened the door of Elizabeth Taylor’s dressing room, then the biggest celebrity of the movies, and got shocked: the actress of violet eyes, characterized as the Egyptian queen, was giving oral sex to actor Richard Burton, her recent affair and who, in the film, played the character of Marco Antonio. Liz, who got the largest wage paid for a Hollywood professional until then, interrupted the blow job; she smiled and recovered herself, without losing the pose. Lennie murmured “Oh, I’m so sorry...” Burton was her fifth husband. They lived together for ten years. They got divorce and married again in 1975, in Paraguay. Before him, the Anglo-American actress, a prodigy who began in 1943, at the age of 11, starring films with the female dog Lassie and who he received an Oscar in 1960 for Butterfield 8, had been married to Conrad Hilton, Michael Wilding, Mike Todd and Eddie Fischer. The latter, she stole from her best friend, actress Debbie Reynolds. After the two marriages with Burton, already matron and always a billionaire, Elizabeth Taylor still had strength to go on and marry John Warner, in 1976, and Larry Fortensky, in 1991. She is a legend. Kind of crooked, at the age of 77, but still a legend. All her husbands, even Burton, today are burned matches thrown to the ground.

CENTER 5 – Dance, Ronnie, dance! Between 1981 and 1989 the western world was in the decrepit hands of Ronald Reagan, a former-actor and former-governor of California who conquered the presidency with the help of the Republican Party’s sinister forces, the North American extremeright rottenness. Reagan was a stupid-large-nosed-decrepit one with the style of a cowboy who fell of the horse. His mouth emitted guttural grunts, as an obstructed drain. With such a pathetic figure on the command of the White House, who became the center of the attention? His wife, Nancy Reagan. She, a former-actress of B movies, was born in New York and named Anne Frances Robbins. Chic, snob, classist, unfriendly, distant, thin, driven, Presbyterian, bossy, rotten. She dressed with allure (there is a book with paper dolls of her gala clothes), promoted magnificent parties and loved royalties. She was friends with Halston, Guy Laroche and Valentino. Her first decision was to substitute the whole china of the White House, that she considered too tacky. She danced at parties, twirling gowns usually red or with a single shoulder. She made antidrug campaigns on TV, repeating the slogan “Just Say No”. However, cocaine was never as available and used in the United States as in her time as first lady. A lot of white powder passed by the bathrooms of the White House, then frequented by Andy Warhol, Keith Haring, Bianca Jagger and other friends. “Just Say No!” smiled Nancy Reagan, the woman that swallowed her large-nosed cowboy, a character who historically would become nothing more than the fly in the pooh of the thief’s horse.

CENTER 6 – Philadelphia’s Serenissima Until the middle of the 1950’s, Grace Kelly, with an angelical face and shameless soul, had already gone by several Hollywood’s stars

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hands. Little before, the actress had become the favorite blonde of Alfred Hitchcock, since he directed her in Rear Window, 1954. On April 18th, 1956, she managed to do what millions of women dreamed about: to marry a prince. Unreal. A dream. Seventh heaven. The girl from Philadelphia becomes a princess. Fate wanted this way. She had travelled in 1955 to the Cannes Festival and went by Monaco for a session of pictures. There she met the Rainier III. The monarch needed to marry: a treaty in 1918 with France said that if the regent of the principality didn’t get heirs, the enclave would become French territory. Rainier Louis Henri Maxence Bertrand Grimaldi, the count of Polignac, then 32 yearsold, went after Grace in the United States. He met her family and asked her in marriage days later. The ceremony was watched live by 30 million Europeans, with several stars among the guests. It started the end of the prince for his princess. The Serenissima Highness became the effigy of Monaco, outshining the regent. Grace arrived: 500 photographers on her. The prince arrived: all turned the face and asked what that annoying man in a tuxedo was doing there. Grace appeared with ambitious, immense hats: the important was to cover the face of her husband. She left three heirs, founded a world organization to protect children, coordinated thousands of beneficent dances, carried jewels that blinded other women, visited Popes, opened official ceremonies and waived to crowds. On a day in September 1982, Grace was driving her Rover P6 through the curves of Riviera, when the car fell down a cliff below and ploft. She died beautiful and blonde. The eternal myth was born. The husband, swallowed 26 years before by her, was an invisible spectrum. He also died. But who cared?

CENTER 7 – The poor dressing Dior Eva Peron’s biography is well known. Any 7 year-old child knows that Maria Eva Duarte participated in inexpressive theatre plays, tried to be a radio singer and actress. To get men’s attention was her hobby. An attractive female, with libido devices always ready – and a certain with which some women evidence their intentions. The historical question is the following: would Maria Eva Duarte have been a floozy? Floozy, Evita? We know, however, that she conquered colonel Juan Peron in 1944, during a beneficent dance in Luna Park stadium, Buenos Aires. The following year, Eva was signing Peron as her last name. In 1946, Peron, 51, is chosen as president of Argentina. And Eva arose in the heels of history never to leave. During the six following years, she commanded the union of the Peronist league, which defended labor laws in the country. Her popularity was so big and she had such a resounding popular charisma that Peron elevated the first lady to the position of Minister of Work and Health, while the Fundacao Eva Peron gathered women to work for the Peronist Feminine Party. In 1951, the apex: Eva Peron, vice-president. Or better, president, was it not? Because Peron, at that time, was an old man. Other questions that won’t silence: would the peronismo have ever existed without Evita’s magnitude, without her enthusiastic appearances, without her Cartier jewels, without her Dior dresses, without the inflamed speeches uttered from the balcony of the Rosy House, without the personal services to the poor? Would peronismo have survived without her death because of a cancer, in the peak of her popularity? Would peronismo have continued without Evita being made a “Spiritual Leader of Argentina”? What would be of peronismo without the embalmed and idolized body of Evita, stolen and vanished during years? Evita swallowed Peron forever. Santa Evita.

CENTER 8 – Where is my hair spray, Peron? We talked about Evita. But, in 1973, the octogenarian Juan Peron was regurgitated by history to be swallowed again by his third wife, Maria Estela Martinez Cartas de Peron. Known as Isabelita, a former cabaret dancer that he met at exile in Panama was first lady and vice-president of Argentina until his death, one year later. Drama. Isabelita, unprepared Isabelita, made to power as the first plebeian woman to assume a government in the Occident. Peron died, Isabelita with her huge hairdos and no

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ideas in her head. She was deposed by the military in 1976, after ruining the economy and finishing with the stock of hair spray in the country. She swallowed a dead Peron and vomited a decadent peronismo. Her consolation prize was an exile in Madrid, where up until 2007 she could not even walk the streets. Today she is a senior with cubist face, badly combed and with a bad heartburn because of the husband she swallowed forcefully. She represents the tragic of the burlesque stories of the Latin-America.

CENTER 9 – Material world I saw the picture and thought it was Lygia Kogos, Martha Suplicy, Marina de Sabrit. I don’t know. Then, I looked more carefully and it was her: Madonna! Bag, glasses, blazer, tight jeans and a discreet necklace. The same as a young lady coming to the shopping center Higienopolis to meet some friends and have coffee with corn bread. But no, that in the picture was Madonna Louise Ciccone. The most representative artist of the showbiz in the last decades, taken by politicians and secretaries gaped by the blond ambition in the Palacio do Planalto. (Nobody probably knew the name of a single music by Madonna. But who cares?) The artist born in Michigan 51 years ago became fond of Brazil, a country she now visits with relative frequency, to pass the hat among powerful entrepreneurs and bargain a change for their abandoned children. Madonna in a little while will suffer from Dionne Warwick’s syndrome, who moved to Rio and is such a common person that is confused with Eliana Pittman during lunch at the Porcao restaurant. Back to Madonna. Is she or is she not an husband and lover eater? Yeaaaah, shouts the audience. In the prehistoric phase of her career, she had an affair with musician Dan Gilroy. Swallowed. Then, she dated another musician, Stephen Bray. Swallowed. Launching her first album, Madonna fell in the hands of the artist Jean-Michel Basquiat – who wasn’t swallowed only because he stayed put all day long. With 21 million sold copies of the album Like a Virgin, Madonna, at the age of 27, recording Material Girl, got married to with actor Sean Penn, who would be swallowed three years later. Madonna continued swallowing, the porn star Tony Ward and musician Vanilla Hoists. It came to the point of David Letterman announcing her in his show as “the artist that sold 80 million albums and slept with the biggest names in the entertainment industry”. Madonna answered: “Fuck you!” And made him smell two underwear she threw at him. Amazing. Her personal trainer Carlos Leon was the next husband and father of her daughter, Lourdes Maria. When was he swallowed? Nobody remembers. What we do remember is that in 1999 she got married to Guy Ritchie, with whom she had a son, Rocco. With Ritchie she acted fine, living between Scotland and England. The couple’s divorce came in 2008, with him properly swallowed and thrown into a black hole. Now, what happens with our sticky and sweat lady? We know that the Brazilian Jesus Luz has been a constant partner. But is that still on or will he be swallowed? We will promote a great March for Jesus. Does Jesus lives? Was Jesus devoured, swallowed? Oh, heavens.

CENTER 10 – I love myself Oh, oh. Paris Hilton is almost everything: socialite, dazzled doll, billionaire, stoned, fashion designer, entrepreneur, puppies’ collector, perfidious, blonde, actress, drunk driver, silly girl, the most photographed celebrity in the planet, hockey player and heiress. As a child, the poor kid lived in Waldorf-Astoria Hotel’s largest suite, in New York. She hates to be called a blonde icon. OK, but mulatto she is not. Men eater? Yes. It would be strange if she behaved as an exemplary girlfriend or wife. The name Paris Hilton is a semiotic conjugation of shine, power, feerie, glam, money and overwhelming things. The numbers: she was engaged to Jason Shaw, she dated Nick Carter, then became engaged to the Greek Paris Latsis (who soon was exchanged for the also Greek Strarvos Niarchos III), then some time with guitarist, Benji Madden, with whom she broke up to go out with Doug Reinhardt

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(actor of The Hills) and, in the middle of all that, a sex tape made by boyfriend Rick Salomon was a huge success online. All that in less than three years. Let’s summarize the mess: Paris Hilton swallows boys. She didn’t swallow any husband because she will hardly get married. What for? She loves herself. Paris Hilton is for Paris Hilton. Paris Hilton whips Paris Hilton. Oh, oh. I love empty stars like her.

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THE CRAZY BLACK MAN’S SAMBA

Few people imagine the tragicomedy that made the Central African Republic change its name to Central African Empire and fall in the hands of one of the worst dictators of the history of the African continent: Jean-Bedel Bokassa, “the cannibal emperor” In 1979, purged after eight years in the presidency of Uganda, the general Idi Amim Dada, left a trail of terror: absence of human rights, persecution of ethnic minorities, political repression, an exhibition of nepotism in the country, widespread corruption and international support from countries such as Libya, Great-Britain, Israel, East Germany and South Africa (during the apartheid). Less than a thousand kilometers from Uganda, in that same year, another dangerous character also left the stage: JeanBedel Bokassa, dictator of the Central African Republic between 1966 and 1977 and, in the two following years, self-proclaimed emperor of one of the poorest nations of the planet. In total, 13 years in power. His velvet and blood empire ended when French soldiers invaded the capital, Bangui, and “dethroned” the “regent” of a ruined territory. Until that moment, France supported the tyrant, for commercial interests that included the sale of military armament and jets. Only after the imperial guard of Bokassa shot 100 children during a student demonstration against the government, the then French president Valery Giscard D’Estaing decided to get rid of his strange friend, annihilating one of the most violent and extravagant authoritarian regimes of the African continent. Bokassa – also known as Bokassa I of the Central African Empire or Salah Eddine Ahmed Bokassa – was born in 1921, in the village of Bobangui, about 80 kilometers from the capital. He was M’baka ethnic and his name meant “small forest”. He was educated by Catholic missionaries. Then, he followed a military career. When fighting beside the French forces during the Second World War, he was decorated a hero. In 1960, when his country – a former French colony – conquered independence, Bokassa was a captain. Cousin of David Dacko, the president of the republic at that time, he didn’t wait long before becoming a general. But Bokassa wanted more. And, in 1966, with a strained economy, he pushed his cousin aside and took over the power, pronouncing himself, six years later, lifelong president. While poverty grew and spread though the villages, Bokassa ordered to palaces to be built. He tortured and disappeared with enemies. He even got to build replicas of famous monuments, such as a basilica similar to the one of Sao Pedro, Vatican. The excesses didn’t stop there. In 1976, inspired by Napoleon, he proclaimed himself Emperor Bokassa I and changed the name of the country to Central African Empire. The coronation ceremony was described by a French newspaper as the “party of the century” and it cost US$ 30 million to the taxpayers. A pompous and carnival-like show, with a throne shaped like a golden eagle, a crown appraised in US$ 5 million, and 20 meters of velvet and ermine tail on the imperial clothes, a scepter of solid gold, a Rolls-Royce for his own pleasure and

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steep carriages pulled by white horses. Of course, big part of the world didn’t recognize the “empire” of Bokassa. Only the countries that had political or economical interests in the area. And when his palace was taken by the French troops, people discovered where the dictator hid his disaffections: in the freezer [the followers of Bokassa said, in subsequent interrogations, that the frozen bodies in the palace were put there by French soldiers. Nobody believed this version]. With his 17 wives, Bokassa used to go to the European casinos and spend fortunes in millionaire bets, champagne and jewels for his espouses. In the imperial domains of Bangui there were gardens that imitated the boulevards of Versailles, fountains and a private zoo where many opponents of Bokassa met their end in the stomach of crocodiles. The documentary Echoes of a Shady Empire (Echos au Einem dusteren Reich, 1990), from German filmmaker Werner Herzog, reveals details of that circus of horrors. Deposed, Bokassa was exiled at the Ivory Coast and France. In 1986, the French gave him back to the Central African authorities. There, he was condemned to death. But the decision was commuted and the former-dictator ended up being amnestied. When he walked the streets, in 1993, he was received as a hero by the population. In the trial, one of his cooks said he fried human meat – especially of children – for the emperor. Of course Bokassa denied that and was absolved of the crime of cannibalism. On November 3rd, 1996, the psychopath died from a heart attack, in Bangui. He had 50 children. And, for those who wanted to hear him in his last years, Bokassa used to say he was Christ’s 13th apostle. His miracle was just one: to ruin his own nation. A nation that was formed in an arbitrary way in the colonialist divisions of Africa, starting from dozens of languages, dialects and different habits. A nation that until today the “civilized” world pretends it does not exist. (By Marcos Guinoza and Eduardo Logullo)

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THE COUNTRY IN THE MIDDLE

To enter darkness. To leave darkness. To plough darkness. Momentous memories. My heart never gets tired of hoping one day it will be everything it wants: an editorial about the ethnologic and linguistics origins of the Central African Republic By Diego Diasa In the middle, the name. I name it the Republic of Central Africa. The Central African Republic. The name of this country says a lot about it. In other words, nothing. Regardless of the lyricism, the only bard of a people that is forever bounded by the maternal name: Africa. In its depths, along the unraveling of the human race, the first land, the spring of all people and all cultures that designed the process of our existence: a unique human culture in a global scale. On a time so accustomed to melodramas and tragedies that appeal to the smallest and first instinct of belonging to the human kind, the African past can never abolish the white limit imposed upon the land. Melanin on the eyes. Equalize it manually because here there’s a lack of white balance. The Central African Republic is over exposition of that which is revealed to the world. The written history. Yes. There are 4,5 million inhabitants living in 623 thousand square kilometers, roughly the same as Minas Gerais and Rio de Janeiro put together. Yes. Half a dozen cities are populated by a number smaller than that of the tiny urban centers of the Brazilian country side – even in the capital, Bangui. Most of the population, about 55%, subsists in rural areas. Yes. Not by chance over half of the population is illiterate. Yes. To each thousand who make put together some lines, 97 can’t. How many then are stillborn for reasons that go beyond the scope of this article? Yes. The number are

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challenging: 11% of the population between 15 and 49 years of age are HIV positive, putting the country in the second place (10% to 50%) of the world ranking of people infected by the virus. Yes. Life expectancy is about 44.7 years. In a single life this empties the meaning of hope. Yes. The declared per capita income is US$ 458, however, thanks mainly to the diamonds (which represent the major part of the country’s exports and whose smuggling represent 30% to 50% of the total extracted), the virtual per capita income is perceived bigger than it really is. Yes. The country is the 179th in the evaluation of the Human Development Index among a total of 182 nations. And the bordered countries participate in that sorrow: Democratic Republic of the Congo, 176th; Chad, 175th; Cameroon, 153rd; Sudan, 150th; and Congo, 136th. Sins. Redundancy indexes, that’s for sure. And one doesn’t need to be a scholar to know that when information saturates it is time at least to change its format, even if the content remains the same. Comedy. Black humor is for white people, of course. The Democratic Republic of the Congo was considered the world leader in sustainable development by the magazine The Ecologist. But as it happens, 75% of the country’s workforce is in agriculture, dealing with the subsistence of families and tribes. The country is sustainable because people survive in deep poverty, working only to feed themselves, for the exact and static maintenance in the spiritual ways of tribal and family existence. And nothing else. And a joke begets another. In 2008, National Geographic named RCA the country less affected by light pollution. A good joke doesn’t need an explanation. But let’s forget the data and focus on facts. What is central in Africa. What the eye sees, the picture can’t register. What is under exposed to the mechanical diaphragms. What is structural. What gushes and fertilizes. What is proposed and proposes as a permanent erection in this place located in the center of the continent which is in the middle of the world. The heart of Africa. The “pusillanimous heart”, would say a romantic. One has to penetrate that body to conceive its existence. A place for the law of the man. Or else. Pretoria. The oral epic. There are over 80 ethnic groups living in the Central African Republic. Each one with its own language and culture. They established themselves, developed, created roots, on a pathway first taken 2 thousand years B.C. and traveled towards the unknown. Darkness. The expansionist exploration possibly started in an area where today is located Niger and Cameroon, in the sub-Saharan Africa. Happening little time after the golden years of Africa (unknown for us, or better, still unrecognizable) the melody and dance of the lyricism of several people had begun. A people that, throughout the continent, rehearsed facts, actions and tunes which come from the same period of the building of the city of Ife. In there, in 1910, pioneer Leo Frobenius discovered at the forest of Olocum, the orisha of the ocean, large ceramic heads and that of one the God himself sculpted in bronze with the features of an ideal beauty. An equivalent standard to the Greek domain of the faculties of the spirit On the contra flow of the river Shari, crossing its providers, the rivers Logone and Ouham, are the center-African lands of RCA. Southward. To the West, the river Sangha, which defines the country’s border with Cameroon, flows to disembogue and provide the arterial river Congo, which goes all the way to the sea. Going up the river Congo, we reached another influx, the river Ubangi, or Oubangui. It is the limit of the border with the Central African Republic. Oubangui-Chari. Up until 1958, that name designated the French formermetropolis of the current Central African Republic. Yes. It doesn’t matter. In those other borders, in the valleys, where the river eats the earth up and where the capital Bangui is located, live the sangos, the gbanzilis and the ngbakas. And towards East, contra flow of the Ubangi, towards the headspring of the rivers Uele and Mbomou, the tropical forest that extends ahead is inhabited by the Pygmy. When crossing the vegetation of the Ubangi valley, to the North, following its strait flows, ruling the land in the middle of the RCA territory, are the inhabitants mbati and isungu. To the center, at the savanna area, are the gbayas and bandas. Well to the north, where the climate warms up and droughts and the desert is no longer a climatic mirage, are the Sahara. Another climate, other lands, other people. These mid-flow areas are lacking people. Minorities of thousands. Patchwork quilts, colorful dresses, show the contrast to the eyes. Not because of its parts. In this “black hole”, communication among different people is predominant. One Nigerian-Congolese linguistic family, which is supposedly the largest idiomatic group in the world (in the sense of distinctions between languages). A branch of that immense family is made

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of the banto languages, from the original expansionist Africans. Another branch is that of the ubanguinas languages, so different from the NigerianCongolese family that they became independent. Unambiguous. The ubanguinas languages form ramifications. We have the gbaya, the zande and the banda; from them was formed the ngbandi, or sango, the official language of Central Africa Republic. The settlers’ French is an erudite language. There is also the sere-mba, which ramifies in the sere that on its own generates the ngbaka-mba and that, finally, formed the ngbaka and the mba. The sango, which for its language-media characteristics is known by most people in the RCA and had a Creole (of the verb creare in Latin) processing for the Africans, in an anthropophagic manner absorb other cultures. The other languages don’t have a written code. Writing was never a concern for the African people. To be an unwritten language doesn’t mean a less finished syntax. On the contrary: advanced classes of nouns and complex harmony of vowels are common to the African languages. Tonal languages. Vowels are prolonged and join other vowels, containing the word many times in a phoneme whose tones sound strange at the beginning of the word. An unison rhythm. In the beginning was the verb. The unwritten word can be modified, debated, transformed by those who live it. Because they are not recorded, their meaning is lived. And today modernity struggles with the intentional possibility of mutation of the texts. An African doesn’t have the commitment to pray. Wherever he is, God is there. Information is passed from one to the other. With that, ideas and religious practices are assimilated. The word with all its modulations has to be uttered by the body, by the temperature, by the saliva, by the breath, by the breathing. A body that opens up. Exactly because of the absence of that doctrinaire body that is the writing, variations of rituals, of myths, of cosmogony interpretations become possible. The sacred relationship of the African is not related to the search of divine glory, but of personal development of those who live it. The African thinking is as a unit of conquers: anthropocentric, geocentric and pragmatic. Leo Frobenius: “There is a bond between present and past most powerful than pyramids and bronzes and sculptures and manuscripts: the memory of men who have yet to learn how to write, or who have yet to have the treasure of memories ruined by the excessive use of the written word”.

Jan-Joseph stok

Photographer, 31, Amsterdam

“I am still in Central African Republic,in Bangui right now the capital. Making several reportages about the situation in this Country. I am freelance photojournalist working as África Photographer for a dutch newspaper called Trouw, but also work for international Newspapers and Magazines, like for The Time’s for example. I spend 8 months on the 12 in Africa, worked in Darfur, Somalia, Chad, Congo (which is the country I keep on going to since the last 5 years).” Central African Republic: “I have been working in 17 african countries, but hardly saw a country as poor as the Central African Republic in Africa. Here it’s simple, hardly anything is working, 95 procent of the people don’t have electricity, there is no current water, the state is a drama, except from the capital they have no power on the rest of the country and hardly do anything for it.There are rebel groups occupying several parts of the country, each holding an area for themselves and making the people pay taxes. Central African Republic is a totally forgotten country for the rest of the world, even in Africa itself, hardly anybody knows about it. The poverty here is very chronical. It’s very deep. People really have nothing, nothing to wear, nothing to eat, etc.. Still I found it important to go there and put this country back to the map, bring attention to this country. Also the humanitarian help is here very small, due to the lack of attention from the outside world. The facts about this country are alarming and it’s important not to forget a country like this. Around a million person are displaced in the country and living in the bush. It’s a country that is just not appealling for the international media to give proper attention. That’s why it’s so important also FFWMag give attention to it. It’s a country that has a lot in natural resources and at the same time is totally behind due to successive leaders who have ruined this country and at the same time a colonial past that has devastated this country as well”

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INSIGHTFULL CHAT

Did you know that the hypothalamus, a small organ located in the centre of the brain, acts over the endocrinal, behavioral and emotional functions of the human body? That is true. Here you can find out more about this powerful little thing. By Sonia Maia Then, that perfect body passes right in front of you and, without any warning, gives you a killing glance. You feel like climbing the walls and prepare your chest for the target practice... but nothing happens. You end up saying a simple “excuse me, I need to pass!” And after that trained pose as a difficult one that could go to your diary as another “I’m the best” moment, you run to the front of the mirror weeping, not without forcing yourself to laugh at your neighbor’s uninspiring jokes before. After that, your body starts to boil once again and the perspiration spreads from all your pores. Again, you feel like climbing the walls, but the last thing you want is to throw yourself into that body that is so perfect for you. At that moment, of course, you think: “What is going on?” I would guess you have been listening to the Hypothalamus Abyss heavy metal band, but your doctor’s verdict would be: “Your hypothalamus is not working properly. It is not liberating hormones as it should. Or it simply doesn’t have enough hormones to synthesize”. And you go crazy. You lose your center. All because of an almond sized organ. Which is right there, in the center of your brain – under the thalamus (as per the Greek etymology) and in the central area of the diencephalon. The function of the hypothalamus is to harmonize several processes of our metabolism and some crucial autonomous activities in our daily lives, such as body temperature, appetite and sense of smell, sleep, thirst, rage, fear, sexual pleasure. The organ links the nervous system to the endocrinological system, a group of glands responsible for the secretion of hormones. It is that small synthesizing – and producer – of hormones that gives us ground. Or lift us up high.

DAILY PLEASURES We float during an orgasm because of that perfect system that helps us feel pleasure within a bearable interval. Or else we would reach the impossible and, there, we would die of pleasure. That is certainly a beautiful way of dying. But, if it’s not your time, the best thing is to keep your energy for the next time. You would not resist the temptation of a killer orgasm, that’s why the hypothalamus puts a foot in the brake for you. The organ also regulates the sense of smell, another important character in the chemistry of sex. There are those who believe that reactions such as “I didn’t like his smell!” translate the very personal incentive sent by the hypothalamus. The theory is disputed, among humans, but it is confirmed in the animal world. If the urine of the conquering mouse is not that of the female’s boyfriend, the intruder can give it all up. The female rat memorizes her partner’s odor and it is faithful to it for over seven days. Recent studies put the hypothalamus also in the center of our capacity to recognize ourselves as either a man or a woman and determine our sexual orientation, developed during the fetal phase. According to reports by Dick F. Swaab, from the Netherlands Institute for Neuroscience, in spite of the media attention to those researches only in the past decade, evidences already showed long before that that the human brain stores a vast group of differences, not just related to the gender but also to the sexual orientation. Similarities were seen between the heterosexual men’s hypothalamus and that of homosexual women, as well as between the hypothalamus of homosexual men and heterosexual women, making those groups, apparently opposed in gender, similar in certain aspects. Image studies

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show hypothalamus similar in size between homosexual men and heterosexual women; and between homosexual women and heterosexual men. They also concluded that the hemispherical portions of the brain, as well as the models of the amygdales’ connectivity, were different in homosexual men, having more feminine patterns than that of the heterosexuals. And the homosexual women had more masculine models than the heterosexual ones. The first studies date from 1990, a time of prejudice that didn’t help them getting noticed, as Swaab explained.

MADONNA’S VIGOREXIA One of the sides of the hypothalamus controls the appetite. If there is lesion around a certain area, the person will want to eat more or less. It can even inhibit the appetite completely, causing bulimia. In the same way, it influences humor and aggressiveness, maternal instinct, thyroid activity and blood pressure. The somatic expressions of certain emotional states are also organized by the hypothalamus. Its malfunction can cause several diseases and instabilities. The two main causes of dysfunction of the organ are the presence of a tumor and hormonal deficiency. Many can be treated, such as the loss of hormones, solved with replacements. Among the most common diseases it can cause are bulimia, hypothyroidism, masculine impotence, incapacity to deal with stress, high cholesterol, osteoporosis, disturbances in the heart and weakness. Vision problems, symptoms related to the loss or to excess of hormones and headaches are signs that the hypothalamus is getting off the track. With all that responsibility, the best warranty for the balance of such meaningful daily tasks is to keep your hypothalamus and hormones balanced and healthy. To maintain a healthy diet, avoid killing oneself in the gym or losing weight helps to preserve a happy hypothalamus. And that favors the human machine. Recently, the public got shocked by Madonna’s deformed muscles. Some say the Queen of Pop is suffering from vigorexia, which is a terrible combination of excessive exercises and a diet meant to keep a low weight. It may seem like an old aunt’s advice, but body and mind have their limits. “The top athlete, for instance, is not healthier than a sedentary person”, said the general practitioner Wagmar Souza, unafraid of the controversies.

HAPPIER PEOPLE The hypothalamus controls multiple things. It possesses many diffused connections, receiving information, incentives and lymph from the organs it controls through neural connections and from wide areas of the brain. It is also a part of the Papez circuit, linked to the limbic system and responsible for the interpretation and expression of emotions. When we get anxious or fearful, it is the hypothalamus that makes the necessary adjustments. Today, neurologists understand increasingly more that the study of this organ affects several areas of medicine –patients need to be evaluated as a whole, the way they interact with their own body should be observed. Wagmar Souza summarizes: “The hypothalamus links the neurological system to the endocrinological system – it is one of the most important paths in that connection. However, it is an area of medicine which is not yet completely understood – because it involves several substances with different roles. The brain, in spite of everything written about it, is what we can call a black box: we know what enters and what comes out of it, but we don’t know 100% of what it does. It is well-known that the hypothalamus is central in the control of several functions and emotions. And we noticed that happier people, with a positive state of mind, have a stronger immunological system. And the hypothalamus is central in that process”. It looks like those insightful chats offered by the hippies, or Bob Marley’s philosophy – positive vibration – really can work miracles that not even medicine can explain.

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I AM A GEEK!

They are in a hurry. Technology is their gravitational centre. They are always connected. They multitask. They follow technological innovations in real time. And soon they will take over the world By Marcos Guinoza / Photos by Ludovic Careme Bill Gates or Steve Jobs? This is the fundamental question to define and distinguish geeks and nerds. Yes, there are discrepancies between each of those. Conventional, with an unkempt appearance and, for most people, a great poker face (watch the documentary Pirates of Silicon Valley), the founder of Microsoft is identified with the square, smart, nerd group. Steve Jobs on the other hand, the man behind Apple, would be the visionary, cool, fashionable entrepreneur. Actually, a legitimate geek idol. Both, in fact, have a decisive position in the technological revolution that makes the world go round since the half of the past century. Gates for popularizing the PC; Jobs for transforming technology in fetish, “abducting” a growing army of “macfags” around the world. It is in the difference between those two that we identify who is who – geek or nerd – at the most important technology event of the country: the Campus Party, where about 6 thousand bits and bytes aficionados – the so-called “campuseiros” set up their tents and camp for a week among games, downloads, lectures, seminars, nights of merrymaking, flash mobs, flirts and thousands of computers connected in high speed: 10 Gb – depending on traffic, it is possible to download a whole movie in less than 5 minutes. Walking around the Imigrantes Exhibition Center one can notice the obvious: that the stereotype of a lonely user of the Internet, prisoner of the virtual world, doesn’t make any sense in there. The Campus Party is a collective event, where the “tecnossexuals” meet to share and celebrate experiences. And it was at that party powered by terabytes that we selected some characters. Boys and girls who have the technology as their gravitational center, but that are far from the stigma of being eccentric people. OK, some kind of are. But the followers of the nerd Bill Gates appear in smaller number. Most prefer the geek Steve Jobs. That, it seems, is an evolution of the nerd behavior. “Geek is a modern version of the nerd”, said the designer Takeshi Oyama. “We live in the era of technology. Being a geek, today, is cool”, adds the Systems Analyst Julio Cesar Damasceno. And, if the differences between one and the other are not yet clear, problogger Rafael Mendes warns: “The nerd is a virgin, the geek isn’t”. In common, the two groups compose a generation that came to the world equipped with wireless, mobility concepts and an impressive convergence capacity. Does anybody dispute that the future belongs to them? Campus Party: www.campus-party.com.br

Bruno Divetta 28 | advertiser | SP Interested in: social networks, networking and video production | Geek: “I am connected most of my day and I am in about 30 social networks” | Online: 20 hours a day | Offline: Sundays | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “To meet friends I only knew thought the Internet, to follow some seminars and collaborative actions” | Blog: www. modaparahomens.com.br | www.fazaconta.com.br

rafael menDes 23 | digital marketing + problogger | SP Interested in: games | Geek: “The geek is different from the nerd. The nerd is a virgin, the geek isn’t” | Online: 20 hours a day | Internet: in about 40 social networks | Gadget: iPod and PSP | Geek idol: Gil Giardelli | Campus Party: “To follow lectures on blogs and photography” | Blog: zueimuito.com | chubbyvegan.net

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Juliana Barros Dellangelica 23 | designer | Braganca Paulista, SP Interested in: design and photography manipulation | Geek: “The geek is an extension of the nerd. A modern guy, who has a social life” | Online: 20 hours a day | Off-line: “I feel bad whenever I’m away from my computer” | Gadget: iPod | Geek idol: Stephen Hawking | Campus Party: “To follow lectures on design and download some stuff” | Blog: janelaproabacate.blogspot.com

luis augusto rizzi Jr. 20 | informatics technician | Ribeirao Preto, SP Interested in: programming | Geek: “There used to be much more prejudice. Today, technology took over everything. It is difficult to meet someone who is not online, for instance. But people still make fun of geeks and nerds” | Online: 24 hours a day: “I never turn my computer off” | Gadget: Blackberry | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “To watch seminars on games development” | Blog: www.skedarcorp.com

tatiana sehn 23 | designer + computer science student | Porto Alegre Interested in: design and programming | Geek: “Geek is someone who is crazy about technology, who is always after new trends” | Online: 8 hours a day | Off-line: “I feel the withdraw effects, I keep thinking about my email and Twitter” | Gadget: iPhone or Blackberry | Geek idol: none | Campus Party: “To follow programming seminars” | Blog: www.chadasquatro.com

rafael santos 20 | electronic music production | Osasco, SP Interested in: games | Geek: “Geek is someone fascinated by technology and who knows everything that is coming out in the next months” | Online: 4 hours a day, 10 on the weekends | Off-line: “I can’t stay more than three days away from my home, offline” | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “To watch seminars in different areas of technology”

carlos gleyBer 45 | systems analist | Rio de Janeiro Interested in: gadgets and systems development | Geek: “Is always after some technology novelties. The nerd searches knowledge, the geek wants gadgets” | Online: 16 hours a day | Off-line: “I get tense if I can’t connect” | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “To get on top of what’s happening in the technology sector” | Blog: www.pastorclaybom.com.br

tamires caBral 19 | journalism student | Barra Mansa, RJ Interested in: webdesign, blogs and games | Geek: “Interested in technology and in the advances that are happening all around. Is a person who follows trends. I think it is the nerd’s next step, someone who became more well accepted with the technology’s popularity” | Online: 12 hours a day | Off-line: “I feel uninformed” | Gadget: iPhone | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “I’m here to publicize my blog and learn” | Blog: www.kbgames.com.br/kblog

carlos Daniel Pereira Xavier 22 | developer | Guarulhos, SP Interested in: website and software development, robotic entertainment | Online: It varies, from one to 12 hours | Off-line: “I’m at ease. I use this time to read” | Geek idol: Kevin Mitnick | Campus Party: “To meet people, and get to know new developing techniques and systems” | Blog: pt.netlog.com/pop_carlos

erika solares machaDo 21 | computer engineer | Goiania Interested in: design and modding | Geek: “Life revolves around technology” | Online: from 14 to 16 hours a day | Off-line: “I’m despaired, the world doesn’t make any sense” | Gadget: iPhone | Geek idol: none | Campus Party: “To take a walk and get to know the event”

franklin masao hirata 18 | computer science student | SP Interested in: developing, data banks, “everything that coding is amazing” | Geek: “A person that is connected and is well informed and gets all the gadgets as soon as launched” | Online: 18 hours a day | Off-line: “I feel out

involves everyday they are of place.

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I need to check my email every hour” | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs | Campus Party: “To follow the seminars”

Julio Cesar DamasCeno 30 | system analyst + master in computation | Recife Interested in: networks, safety and programming | Geek: “The geek is no longer that stereotype of the nerd: a shy perfectly good student. He/she is seen through different lenses now. After all, we live in the technology era. Nowadays it is cool to be a geek” | Online: 10 hours a day | Off-line: “I’m fine” | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs and Bill Gates | Campus Party: “I’m here to finish my masters’ dissertation. I’m in my habitat, surrounded by people who understand me” | Blog: xjulio.wordpress.com

Takeshi oyama 26 | game designer | SP Interested in: games and systems | Geek: “Geek is the cooler version of the nerd. I see myself much more as a nerd; my style is classic” | Online: 14 hours a day | Off-line: “With some effort, I manage to not connect” | Gadget: iPhone | Geek idol: Bill Gates | Na Campus Party: “To follow seminars and take part in workshops, especially those about games and software”

aline Gomes 23 | advertiser | SP Interested in: sex | Aline knows programming languages and was a professional Counter Strike player. But her hot Twitter was the responsible for turning her into an online celebrity. “I’m a person who only thinks about sex. I go to the supermarket and think about people naked.” The girl says she is not all about talking: “I make as much sex as I talk about it”. Since 2007, she’s been posting “ironic, acid and fun” things about sex in her microblog. Today, she has almost 6 thousand followers and, besides making money from her campaigns, is getting to an agreement for a TV show | Gadget: iPad | Gadget sexual: gag ball. “The man definitely has to pay for the motel!”, demands Aline | Twitter: www.twitter.com/line

eriCh WanDer Beall 35 | computer case designer | SP Interested in: 3D rendering, 3D manipulation programs and Flash | Geek: “Someone who’s always interested in acquiring new technologies only to say they have it. Most of the time they use only 10% of the gadget’s capacity” | Online: 14 hours a day | Off-line: “I do everything for my computer, it is my way to connect to the world” | Gadget: iPad | Geek idol: Steve Jobs e Bill Gates | Campus Party: “I’m here to lecture and talk about my work” | Blog: www.beallstudio.com

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SHOULD WE BASH NAVELS?

Belly with belly, womb with womb, venter with venter: the old umbigada (navelling) used the center of the body in a sensual choreography that was considered “indecent”. Obviously: the Brazilian popular music also put the navel onstage By Pedro Alexandre Sanches In the beginning, it was the navelling. It came kidnapped from Africa and little by little took over the center of the drumming gatherings, the lundu, the samba, the jongo, the caxambu, the coco, the candomble, from the North to the South of Brazil. The dancer in evidence would choose somebody to bring to the middle of the gathering and announced the choice by bashing his / her womb against the substitute’s womb. The blow was a legitimate encounter of bodies, and that was called umbigada (navelling). You got that right; the sensual choreography around the navels simulated the movements of the sexual intercourse. As Jose Ramos Tinhorao tells in the book Os Sons dos Negros no Brasil – Cantos, Dancas, Folguedos: Origens (The Sounds of Black People in Brazil – Songs, Dances, Plays: Origins, in literal translation), Europeans visiting Brazil came across the dance-

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thing and described it, scandalized, with plentiful adjectives: “monstrous”, “unbecoming”, “voluptuous”, “abominable”, “lewd”, “immoral”, “obscene”, “repellent”, “shameless”, “repugnant”, “rude”, “immodest”, “indecent”, “grotesque”, “raw, “carnal”, “convulsive”, “disordered”, “shameless”, “barbaric”. The dance-thing was nothing other than the mere fictitious performance of sex, in other words, of that which generated the umbilical cords that generated the navels that generated the navellings, even in those who complained about it. The pale “civilizer” (of sex?) blushed and cooed, but incorporated the difficult learning, little by little and by default. Slow as a wiggle and fast as an electric discharge, the navelling went from slaves to free blacks and mestizos. From blacks to indigenous, mamelucos, mulattos and the poor white. And, from all of those, to whites supposedly noble, free, rich and prude. Along the electric current, the gesture had as demonized changed, it got tamed and camouflaged. And left behind a trail of miscegenation (that, in fact, only happened because the sex, the navel, the umbilical cord and the navelling existed). Still according to Tinhorao, it was during the ship trip from there to here that the “wild” rite calmed down in “civilized” musical forms, such as the European “tunes” or the “Portuguese” fado. The boys and girls who at the end of the 20th Century retracted their navels to the sound of house, techno and trance maybe didn’t know, but their modern and white dance was the daughter of the daughter of the daughter of the daughter of the Afro-Brazilian navelling. And if they didn’t notice, in fact, it was not for lack of warning from black Brazilian drum’n’bass DJs. The mestizo navel projected in space gave birth to the Portuguese-carioca Carmen Miranda, the baiano Dorival Caymmi and the country pernambucano Luiz Gonzaga, and not even with that did the original navelling escaped from losing itself through the curves of time and the runways progressively “cultivated” of the Carnival parades. Ironically, the “dead” swing is reborn from the ashes at each new generation, remade in baiao, xote, xaxado, frevo, ie-ie-ie, rock, samba-rock, tacky, vanerao, pagode, hip hop, carioca funk, tecnobrega and whatever comes next. Here, down the Equator (where, according to Chico Buarque and Ney Matogrosso, supposedly there is no such thing as a sin), the ghostly mist of the slaves’ gatherings will always be present, wherever a navel is projected in the direction of another navel. The fright of sex can be a cousin of the disgust of navel bashing, but obviously it is not only about that. The gathering of the (former-) enslaved never scared only because of their sexual threat, and to prove that there are examples such as Zumbi in Palmares, Antonio Conselheiro and his devotes in Canudos, located in the country side of Bahia, Father Cicero’s devotees in Juazeiro of Ceara, the group of Lampiao & Maria Bonita in the northeast country side. Be in the blues and folks written by North American convicts or Northeastern forro dried by the local weather, the music has always connected itself with that high voltage tension. Since the 1940’s, the delineated baiao of Luiz Gonzaga and Humberto Teixeira migrated from the Northeastern peripheries to the navel of Rio-Sao Paulo. From there, it spread through Brazil, to the point of dozens of society girls presenting themselves armed with an accordion in community events, as seen in a scene of the powerful documentary O Homem que Engarrafava Nuvens, by Lirio Ferreira. Because of the sad verses on drought and abandonment, the bandit’s stylized garments and the cheerful swung xaxado of Gonzagao derived straight from the imaginary forged within the group of Lampiao. The mind-blowing ambiguities came from Gonzaga, a rustic uncompromising defender of law and order (and later of the military dictatorship), and of Teixeira, “doctor of the baiao” and future federal representative of Ceara. The 1964 military coup would not immediately impede the Brazilian inclination to agglutination. On the contrary, it was under the wings of cannons that it bloomed, already in a

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televised and centralizing atmosphere, the era of festivals. It was a brief apex of the popular music as a collective creation, although founded in the confused competition among “migrants” like Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa and Tom Ze and “native” of the Rio-Sao Paulo area such as Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leao, Paulinho da Viola and Os Mutantes. The dispute was inevitable, but the legacy, 1970’s onwards, was a gigantic and majestic navelling. Wilson Simonal’s naughtiness became the pop mess of the tropicalistas. In Rio and Sao Paulo, respectively, Novos Baianos and Mutantes went from being bands to being hippie communities agglutinated in art and life. Leading Secos & Molhados, Ney Matogrosso exposed his navel in front of the military (he was the son of one of them) and put androgyny in the map. Caetano, Gal, Gil and Maria Bethania assembled in the posthippie Doces Barbaros. In shows and albums, Caetano and Bethania went with each other and with Chico Buarque; Gil and Jorge Ben promoted the ritual coalition between Xango and Ogum; Gil went on tour with Rita Lee & Tutti Frutti. Without ever being a club, the Clube da Esquina became the best known club in the country and abroad. In 1973, its leader, Milton Nascimento, the son of the son of the son of Zumbi dos Palmares, saw himself alone and squeezed by the military censorship – he packed all the voices in his own, embedded all of the birds in his throat and created O Milagre dos Peixes. What could not be noticed then was that, at the expense of a lot of pain and bravery, that heroic group resisted, but carried within the sterile seed of the asexual marriage between the Armed Forces and the Catholic Church that they called “military regime”. The society that invented the dictatorship also created the acronym MPB, an academically and intellectual appropriation of natural forces invoked before by Gonzagas, Caymmis and Mirandas. The tricks used by Clementina Jesus, Elza Soares, Martinho da Vila and Clara Nunes would never turn them in queens and kings of the Brazilian “popular” music. Under patronage of the political (and sexual?) repression, the navelling diminished in withered navels. The growing pressure for a society less collective, more individualistic, snatched the music and everything else (here included, obviously, the media that disseminates the music and the journalism that criticizes it and, seldom, sabotages it). Sexuality started to be banished, almost always with the luxurious aid of the “thinkers”. Those proceeded (did we proceed?) detesting Raul Seixas, Fafa de Belem, Odair Jose, Maria Alcina, Benito di Paula, Baby Consuelo & Pepeu Gomes, Gretchen, Sidney Magal, Luiz Caldas, É o Tchan and an entire legion of pariahs who thrived and flourished of a crowd of descendants of “former-slaves”. From the ground floor upward, masturbation and chastity tattooed the epidermis of the Dionysian rites, with repercussions that advanced through the years of the so-called re-democratization. Cazuza, Renato Russo and Cassia Eller fled at the speed of light, and the MBB – Brazilian White Music – was conditioned to conquer prizes for good behavior, investing in the asexual, sometimes pure, image of dispersed rock (NX Zero, Pitty, CPM 22), pop (Skank, Pato Fu, Jota Quest, Sandy & Junior), pagode (Alexandre Pires), MPB (Adriana Calcanhotto, Marisa Monte)...talents. Swinging between a world that wants to die and another that wants to be born, Marisa Monte made herself as the maximum symbol of intelligence and still resists in the so-called MPB, sometimes trying to reinvent the hippie culture with Tribalistas Arnaldo Antunes and Carlinhos Brown, others unraveled in the mazes of the Infinito Particular and of the Universo ao Meu Redor (in those last two, almost unnecessary to explain, the navel is the center of the solar system). There are in the basements, however, an abrasive detail: the murmur that made volcano lava with maxixe, samba, baiao, carimbo, guarania, ie-ie-ie, lambada never stops. The individualistic sun-navel gives evident signs of senility, as the moonlit advances in the collaborative networks that exist on the internet and, guess what, in the body movements invented

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in Brazilian peripheries, too far from the capitals (or from the center-navels of the capitals). In Para, Banda Calypso of Joelma & Chimbinha, DJ Maluquinho, Viviane Batidao, Marlon Branco evolved. In the arid soils of Lampiao and Luiz Gonzaga, dance the Avioes do Forro, Calcinha Preta, Magnificos. In Bahia, the tecnobrega changes into post-axe with the Banda Djavu and DJ Juninho Portugal. In the Espirito Santo, the name of the prodigy of the mash-up is Andre Paste on, mixer of Fergie with Fabio Jr. In the arid concrete jungle of Sao Paulo, comes the hard samba of Rationais MC’s, Rappin’ Hood, Quelynah, Emicida. In Rio, Deize Tigrona, Mr. Catra, Tati Quebra Barraco, Gaiola das Popozudas, Serginho & Centipede. Seu Jorge causes sensation in the navel-gazer Hollywood. All are, without exception, apprentices of that devil-in-body that our Europeanized grandparents loved to hate. But what about us, here and now, are we still the same and do we live like our ancestors?

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TO CREATE / TO ELABORATE / TO QUESTION

Patti Wilson, one of the great stylists of our time, has been in Sao Paulo. She spoke with ffwMAG! about the (continued) fascination with the 80’s, famous photographers, magazines and the fashion world. And she declared: “I think the 1990’s are coming” By Bronie Lozneanu Patti Wilson is among the ten best stylists and fashion publishers in the world. For two decades this girl from New York has been collaborating with the fashion magazines that still matter. And she manages to come and go between styles with ease. Her secret is to work with several star photographers, like Patrick Demarchelier, Terry Richardson, Steven Klein, developing specific productions for each one of them. Modest about her performance and always dressed in black, she admits to love the opportunity to live beside talented people and to create powerful looks in each new image. Patti began professionally together with editor Edward Enninful, from the English magazine ID, with the support of publisher Franca Sozzani, from Vogue Italy. The stylist is always in search of the next fashion image: the one she is yet to create. In the last couple of months, her selective glance was in covers and editorials of publications such as Numéro, Harper’s Bazaar, Vogue Italy and in advertising campaigns for Pepe Jeans, Francois Nars, Moschino, Frankie Morello, besides a constellation of other labels. We managed (!) to talk with Patti during the rehearsals for the Forum fashion show, for which she created the styling of the autumn / winter 2010 collection for SPFW. ffwMAG! – In the beginning of the 1980’s, you were the hostess of a jazz club in New York. Tell us more about that time... Patti Wilson – The owner of the club was a sports journalist, then the place started to have customers such as basketball stars, like Earl Monroe; boxing stars, like Mohamed Ali; besides singers and actresses, like Lena Horne; comedians, like Redd Foxx; movie directors, like Woody Allen. And several photographers. Finally, it was the hotspot of that time, with a vibrant energy. ffwMAG! – After that, you started in fashion. How did that happen? PW – I loved to dress up. I had a passion for Billie Holliday. I thought I was her reincarnation, except for a small detail: being unable to sing. A photographer, a friend of Woody Allen’s, introduced me to her sister, a fashion producer. She loved my ultra elaborated looks

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and asked me if I would like to produce other people. Although I had never done that in the past, I thought the idea was interesting. ffwMAG! – Did glamour attract you? PW – Not really. I thought about the possibility of making money to buy different outfits. Therefore, I reckon the outfits attracted me [laughter]. Then I started working with her during the day. It was all about fashion shows and catalogues for small customers and ad agencies. No fashion magazine. At that time I didn’t even dream about that. I made little money and remained as a club hostess, where I supported myself with the good tips. I remember getting a US$ 100 bill from Mohamed Ali, thanks to my ambitious outfits. But I never kept a cent. Those were the crazy years, of fun and nothing else. ffwMAG! – Several admirers of your work say you have a magic gift to transit through several styles. How can you do that? PW – Honestly, I don’t know. I know that I love to dress people up. And, if something thrills me, I embark on the trip and the ideas appear. It is a part of the work process that, sometimes, it begins with people in a picture and ends with a woman mounted on a horse [laughter]. Now, for instance, I am quite thrilled with the Forum fashion show, because I’m working with minimalist looks: an aggressive and sexy woman, who wears leather miniskirts and aged sequined dresses. That is a challenge. I usually make elaborated productions. I like to be tested, to question my own concepts. ffwMAG! – How is it to work with photographers such as Steven Klein, Steven Meisel, Peter Lindenberg, Terry Richardson and David La Chapelle? PW – Steven Klein is really amazing, one of the biggest. One of my favorite. Even with him, the process can start in a way and end up totally the opposite of that original idea. I don’t know how to explain my creative process. I just know that I love to work with art directors. To share ideas and elaborate the fashion shows in partnership with an art director is very good. He passes directions and everything works. Especially when we have a restricted budget and limited time. It is difficult to get the look of the collection without art direction. ffwMAG! – Back to photographers with different styles, how do you get inspired? PW – With David La Chapelle, I created his styling for a long time. It is a challenge. He has a spectacular sense of humor; we had a lot of fun. But his world vision is very specific: it is not crazy for fashion and, on top of that, he loves vibrant colors. I can say that he works as my exact opposite, since I love black. Therefore, it was a double challenge to work with colors and to relate with somebody that I find brilliant, with a personality and aesthetic sense very subjective. Today, I see his aesthetics popping from international editorials. I feel a comeback of the 1980’s that takes me back to the work of David. A lot of people copy him. At that time, his pictures were scandalous. Today, his work continues to stand out. ffwMAG! – How do you explain the endless fascination with the 1980’s? PW – It is the aesthetics of dressing up. The exaggeration of the hair and make-up. I much rather flee from that for obvious reasons [laughter]. Remember: I was the hostess of one of the coolest clubs in New York. Now I am more in the 1990’s. But I think those who choose to repeat the aesthetics from a certain time have to perfect it. To take it forward. The copy itself never attracted me. ffwMAG! – Which are the references you usually use in the fashion editions? PW – Films, books, old fashion magazines. Books such as the one by Rebecca Horn [a plastic artist who works with installations and body art with feathers and cockades, creating intriguing, magic spaces, loaded with significance], Philip Lindenberg. I don’t like to copy anything. But Steven Meisel’s pictures always inspire me. He

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incorporates the fashion photographer’s essence. He knows how to make a dress look fabulous. He is one of the greatest fashion photographers of all times. When I see the fashion editorials, I try not to let them influence me, but I love those references. ffwMAG! – What is the secret for a powerful cover? I saw the last one for Numéro. The styling is yours. I loved the indigenous references... PW – It is great that you liked it! I still haven’t had people’s reaction on that. I didn’t even know it would be a cover… We photographed the preview of the collections. And the clothes not always work. We see terrible things! Then I imagined a Pocahontas aesthetics [laughter], also based on Rebecca Horn’s book. I was shocked when I saw the cover. We didn’t even try. Better yet, we didn’t even know it was a possibility. It was a surprise for me and for the photographer. ffwMAG! – Back to the secret of the good covers… PW – Well, if it is a close-up, it should show a little of the model’s soul, her personality. Or we should look for an intriguing image, with impact. ffwMAG! – What are the best assets of a good fashion editor? PW – I don’t know how to explain that. But an editor I admire is Carine Roitfeld. The results she gets in the French Vogue are always incredible. For me, she is a genius. Few get it right like she does. ffwMAG! – Can the styling for brands be compared to a curatorship? PW – Honestly, I don’t know. It is a wonderful work. It is like a rock concert. In this Forum fashion show, I felt happy to take the steps alongside Eduardo Pombal [designer of the brand]. Also, he is very sweet. ffwMAG! – To be the personal stylist of a pop star, does it demand wisdom or a lot of patience? PW – It is exactly like that. You become a nanny. I have been dedicating myself much less to that type of activity. It takes energy and time. In the case of Alicia Keys, she is really a talented artist. Now I prefer styling artists for fashion editorials. I have recently worked with Rihanna for Vogue Italy and I really liked the result. ffwMAG! – The designer (and now moviemaker) Tom Ford says he loves fashion, but not its ephemeral and commercial aspects. Do you consider magazine fashion editorials nowadays to be art? PW – Some editorials have an immense artistic quality. ffwMAG! – Do you consider yourself an artist? PW – Hmmm. I consider myself a stylist. And I really like this job. It is a way to express myself in which I feel fully accomplished. ffwMAG! – How is your routine? PW – I live in Manhattan, few blocks away from the World Trade Center. I love New York. ffwMAG! – What drove you to work with Forum? PW – I was invited by Giovanni Bianco. ffwMAG! – What do they expect from you? PW – That I improve the fashion language of the brand, emphasizing its qualities. I love to develop the image of a product. ffwMAG! – You are a magazine editor and welcome several clients, with brands and proposals as diverse as Giorgio Armani, Dolce & Gabbana, Moschino, Valentino and others. How can you keep all that up? PW – It is a constant challenge. I never stop elaborating, questioning myself. Not to mention the eternal jet lag! Today, now, I am focused on Forum’s show. I decided after several proofs of clothes that we will change the shoes. With me it works like this: until the very last minute things can change. It is part of my creation process. ffwMAG! – Do you believe the fashion world epicenter – the circuit Milan, Paris, London and New York – is in its last days? PW – I thinks this circuit will never be unsettled. Maybe other cities will become more prominent. Who knows?

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ffwMAG! – Do you believe the BRIC – Brazil, Russia, China, India – will make the runways tremble? PW – The consumption possibilities of these markets is immense. But it is still too soon to see the results. ffwMAG! – What do you know about the Brazilian fashion scene? PW – I am delighted with the energy of the people here, their enthusiasm with fashion. I think they work very hard. ffwMAG! – Is it your first time here? PW – Yes. ffwMAG! – What did you like the most about the SPFW fashion? PW – The good vibration. I felt a lot of creative energy in here. ffwMAG! – What can and must evolve? PW – Sometimes, some outfits seem too heavy for your climate. I’m talking about the coats. An overstatement! Does it really get that cold in here? ffwMAG! – You probably already worked with Brazilian models. Do you like anyone in particular? PW – I just met Alicia Kuczman [new face with a Lolita look, shaved eyebrows and languid eyes, highlight of the fashion weeks in Rio and Sao Paulo] and I really liked her. ffwMAG! – What about a Brazilian designer? PW – I knew Reinaldo Lourenço’s work. It is interesting. I was also impressed with Pedro’s talent – his son. So young and involved with fashion for such a long time. I see in him an enormous potential. I also admire Alexandre Herchcovitch. ffwMAG! – What is your bet for the next season? PW – I feel the 1990’s are coming. ffwMAG! – Do you have a particular aesthetics which pleases you or do you prefer changing all the time? PW – Well, I only wear black. I never change. ffwMAG! – In a quick fashion analysis of the last decade, what came to stay? PW – I think the tendency of looking to past decades remains. As for the future, what can I say? Now, for instance, I will make the styling for the haute-couture collections. And I have no idea how are the clothes that will be photographed. ffwMAG! – Up until now, what caught your attention about Brazil? PW – The joie de vivre. But I guess I’d have to know the country better to risk a more complex answer.

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THE GREAT BALL OF FIRE

The astrological role of the Sun, the central star of a system in which the Earth and other planets spin. By Joao Acuio Think about a primate. Anyone. Me, you, some ancestor of ours. Think about our fellow creature in the bottom of a cave, with no books, no knowledge, no light. Outside the cave, a night with no Moon, no stars and terrible wild animals. Our ancestor in the bottom of the world, without a God, cold and scared to death. Terrified, hugging another frightened being in exchange for some crumbs of hope that the darkness, who knows, might be fulminated by the rays of that which one day left them at the mercy of luck. To make matters even worse, the night hours lasted centuries of anguish and wait. It is the same anguish one feels under the debris in Haiti. There are those who pray and ask for God. Others, atheists, don’t even breathe, they just whisper

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Nelson Cavaquinho’s “Juizo Final”: “The Sun / will shine once again / the light / will reach the hearts”. And that is exactly what happens, the Sun shines and it pushes darkness and fear away. And, with gratitude, the Sun is recognized and worshipped as a God by our ancestor, who up until then feared life itself. And it is like this until today. Helio, Amun, Omolu, Apollo are some of the deities, in different cultures, identified with the star that every single day defeats death and darkness, bringing light and life to the world. The world is attracted to the Sun. Let’s talk about the witnesses. When the Egyptian Sun God, Amun, opens his eyelid, the day awakes and stretches. Immediately after his first yawn, two other deities dress him up and take him to a golden boat. Gold is nothing but chips from the Sun (gold is a precious metal associated to the Sun for obvious reasons). Driving a skilled crew, Amun slides his boat quietly on the waves of the celestial ocean distributing heat and light to the world. And the world smiles, pure, stupid, with the miracle of life. The heart, the sun of the body, can be felt pulsating inside the mouth. And, even when Amun, at the top of his palace, gets sad and cry, his tears bring good luck to the men of good and bad will (Sun governs all, Amun is fair). Each of Amun’s tears is transformed in a bee, which on its term manufactures wax and honey, needed by the Egyptian for food and the preparation of medicines. Honey is the salt of the Sun. Besides helping the doctor and the farmer, Amun also mediates conflicts and protects those oppressed by the bad spirits, teaching them magic and the science of enchantments. Amun reminds the obvious: without Him, the Sun, there is no food, there is no health, there is no justice, there is no focus, there is no center, there is no protection, there is no charm, there are no fit bodies at the beach, there are no dissipation of the darkness of the world and no girl from Ipanema. When darkness comes it is a sign that Amun penetrated the world of the dead, putting our Egyptian ancestor once again under the debris of the night. During the night, Amun crosses a vast wild and lonely area, which borders the kingdom of the live and the kingdom of the dead – it is Amanti, the Egyptian underground world. In that shady place, the boat crosses the 12 doors of death, one for each hour of the night. In the crossing, Amun faces terrible serpents, monsters, gigantic reptiles who want to defeat him. When he thinks he conquered the night, Amun faces his worst enemy, the gigantic serpent Apopis, who attacks the Sun every morning and every evening. If defeated, Amun will disappear and the universe will succumb. Yes! Me, you and the all the supporters of Flamengo! But Amun always wins and, by crossing the last monumental door, the Sun shines once more. And you open your eyes and go to work. Also, you realize that this is the world of the living things. Every day, the Egyptian boat of Amun, the Sun God, rises, dies and reborns – and the perfect circle is drawn in the sky. And the wedding ring is put in the finger. Leminski Amun said something like that: “One week, one month, one year / are not enough / nothing passes like a day”. The Greek-Roman culture increased the crossing of the boat to the period of one year. Instead of a boat, a carriage of fire pulled by horses. That is the story of Apollo, the Sun God, brother of Diana, the Moon. Once a year, Apollo leaves the world. And that always happens during winter, that is, in the solstice of Capricorn – a time presided by Saturn, a cold and dry God, according to the astrology (and everything that is cold can be dead). When the carriage of Apollo approaches the sign of the Goat, according to the elders, it is time for Apollo to go to the Land of the Hyperborean, a place where reigns peace and balance, heat and shine, clarity and justice, talent for the prophecy and healing – attributes of the Moon’s brother. Yes, disease and cure are under the domain of the Sun God. Apollo rules plagues and their cure, as well as Omolu, the Sun God of the nago culture, the orixa of death, diseases and medicines. Stare at the Sun to see what happens.

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Apollo, the Febo, for the despair of the world, stays at the Land of the Hyperborean the whole winter, to return with his carriage of fire only in the equinox of Aries, that is, three months later, bringing spring, life and repelling all disease and ice from the face of the Earth. After Aries, Taurus and Gemini, the carriage of Apollo reaches the gigantic Crab, and Apollo brings the perspiration of the Sun, the rain, opening the season of the waters, the summer. Soon afterwards, softening his fury and heat, after passing by Lion and Virgin, Libra arrives, inaugurating the autumn, a season of shadow and fresh water. Apollo moves on, Scorpio and Sagittarius; at the sight of Capricorn, Apollo retreats once again to the Land of the Hyperborean and spreads, with his absence, cold and disease around the world as the carriage travels alone through the following signs, Aquarius and Pisces. Then Apollo returns with Aries and the perfect circle of life-death-life resumes. It is easy to imagine that, following the steps of Apollo, the calendars – agricultural, religious and political – would intertwine, building a social organization of time. Not to say that the Sun, the lord of the Oracle of Delphos, wins in status and influence, gathering the heroic attributes of guide and savior of the nation, as well as a punisher of those who cross the permitted boundaries – see the story of priest Adelir, our Icarus, who challenged the Sun flying higher than his gas balloons would allow. And what about the current super heating of the planet, is it a punishment of Apollo? Apollo is an avenging God. But in spite of the solar anger from time to time, it is possible to hear the people cry in unison: “You are my Sun, I am your sunflower” to the birth of each day, each virile spring. It is worth reminding that Apollo is not the only deity of the astrological pantheon. The cult to an only God, be him Apollo, Jesus or Madonna, stimulates a single line of thought, hegemonic, centralizing, monotheist – where everything orbits and inhabits a single navel. Hallelujah, brothers! The cult to an only God is annoying; it lacks imagination and has a Fascist vocation and paranoid creations. Astrology, which supports its interpretation only in Apollo, for instance, makes an altar in his honor. And Apollo usually forgets about Dionysus. And all cults to a single God can be sick. And then the symptoms begin. In this case, the Sun becomes a cosmic Big Brother with an eye on you. The God Sun was always associated with the eyes up above. The symptom number one of the Apollo-inclined astrologer is that they push their rules onto you. But the rules could belong to another chosen God. That is the evil of monotheism in any area of knowledge. Astrology is polytheist and, because of that, shelters several points of view around the world, at the same time. In the center of the astrological thinking are men and their destiny on Earth. The astrologer is a messenger for all Gods; the face of God and Human, and not just that of Apollo. Therefore, it is necessary to hear Saturn, Jupiter, Mars, Venus, Mercury, the Moon and also the Sun, if we are to remain in the pantheon of the old astrology. The pantheon of the contemporary astrology still considers Uranus, Neptune and Pluto. Pluto is involved in the tragedy that last hit Haiti. The organization of Gods in each astral map gives us a private astrological pantheon which narrates the destiny of its subject. And, with that in mind, the Sun is just another element in the analysis. The Sun, then, is not the center of the world as old cosmogonies and newspapers horoscopes declare by emphasizing the solar signs. The Earth / Man is the center of the world (Ptolemy), which is under the rule of the celestial spheres (Moon, Mercury, Venus, Sun, Mars, Jupiter, Saturn and now Uranus, Neptune and Pluto, along the fixed stars). Only with Copernicus the Sun will be positioned in the center of the universe, or near it, since the scientist was the one to prove that the sun didn’t circle the Earth, but the other way around. Earth, with Copernicus, stopped being immobile. As it happens, for the astrology that didn’t make a difference, because we have the Earth as our main point of view and not the Sun. The theory of Copernicus, besides elucidating doubts on the celestial mechanics, helped to separate astronomy

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and astrology, in method and objectives, since astronomy doesn’t worry about the fate of beings and nations as astrology does, for instance. The heliocentric system of Copernicus, therefore, separates the astronomical science of the poetic and of Gods’ virtual will on the destiny of men – it is the apparent decline of astrology and the beginning of the modern astronomy. Then, any debate between astrology and modern astronomy, you can be sure, is a false controversy. In the tribunal of the world, Giordano Bruno, an Italian mathematician and philosopher, went beyond Copernicus, and proposed that the universe is a sphere without a centre. The centre would be everywhere. Giordano died in a bonfire.

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ATOM VERSUS NET

One of the founders of Wired magazine, Kevin Kelly foresaw in 1994 the Net as an iconic idea for the 21st Century. A Net without leadership, with countless points of access, all interconnected. This future has arrived. By Kevin Kelly I f 20-century science can be said to have a single icon, it is the Atom. As depicted in the popular mind, the symbol of the Atom is stark: a black dot encircled by the hairline orbits of several smaller dots. The Atom whirls alone, the epitome of singleness. It is the metaphor for individuality. At its center is the animus, the It, the life force, holding all to their appropriate whirling station. The atom stands for power and knowledge and certainty. It conveys the naked power of simplicity. But the iconic reign of the Atom is now passing. The symbol of science for the next century is the dynamic Net. The icon of the Net, in contradistinction to the Atom, has no center. It is a bunch of dots connected to other dots, a cobweb of arrows pouring into one another, squirming together like a nest of snakes, the restless image fading at indeterminate edges. The Net is the archetype displayed to represent all circuits, all intelligence, all interdependence, all things economic and social and ecological, all communications, al democracy, all groups, all large systems. This icon is slippery, ensnaring the unwary in its paradox of no beginning, no end, no center. The Net conveys the logic of both the computer and nature. In nature, the Net finds form in, for example, the beehive. The hive is irredeemable social, unabashedly of many minds, but it decides as a whole when to swarm and where to move. A hive possesses an intelligence that none of its parts does. A single honeybee brain operates with a memory of six days; the hive as a whole operates with a memory of three months, twice as long as the average bee lives. Although many philosophers in the past have suspected that one could abstract the laws of life and apply them to machine, it wasn’t until computers and human-made systems became as complex as living things – as intricately composed as a beehive – that it was possible to prove this. Just as a beehive functions as if it were a single sentient organism, so does an electronic hive, made up of millions of buzzing, dim-witted personal computers, behave like a single organism. Out of networked parts – whether of insects, neurons or chips – come learning, evolution and life. Out of a planetwide swarm of silicon calculators comes an emergent selfgoverning intelligence: the Net. I live on computer networks. The network of networks – the Net – links several million personal computers around the world. No one knows exactly how many millions are connected, or even how many intermediate nodes there are. Like the beehive, the Net is controlled by no one; no one is in charge. The Net is, as its users are proud to boast, the largest functioning anarchy in the world. Every day hundreds of millions of messages are passed between its members without the benefit of a central authority. In addition to a vast flow of individual letters, there exists between its wires that disembodied cyberspace where

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messages interact, a shared space of write public conversations. Every day authors all over the world add millions of words to an uncountable number of overlapping conversations. They daily build an immense distributed document, one that is under eternal construction, in constant flux and of fleeting permanence. The users of this media are creating an entirely new writing space, far different from that carved out by a printed book or even a chat around a table. Because of this impermanence, the type of thought encouraged by the Net tends towards the non-dogmatic – the experimental idea, the quip, the global perspective, the interdisciplinary synthesis and uninhibited, often emotional, response. Many participants prefer the quality of writing on the Net to book writing because Net writing is of a conversational, peer-to-peer style, frank and communicative, rather than precise and self-consciously literary. Instead of the rigid canonical thinking cultivated by the book, the Net stimulates another way of thinking: telegraphic, modular, non-linear, malleable, cooperative. A person on the internet sees the world in a different light. He or she views the world as decidedly decentralized, every farflung member a producer as well as a consumer, all parts of it equidistant from all others, no matter how large it gets, and every participant responsible for manufacturing truth out of a noisy cacophony of ideas, opinions and facts. There is no central meaning, no official canon, no manufactured consent rippling through the wires from which one can borrow a viewpoint. Instead, every idea has a backer, and every backer has an idea, while contradiction, paradox, irony and multifaceted truth rise up in a flood. A recurring vision swirls in the shared mind of the Net, a vision that nearly every member glimpses, if only momentarily: of wiring human and artificial minds into one planetary soul. This incipient techno-spiritualism is all the more remarkable because of how unexpected it has been. The Net, after all, is nothing more than a bunch of highly engineered pieces of rock braided together with strands of metal or glass. It is routine technology. Computers have made life faster but not that much different. Nobody expected a new culture, a new thrill or even a the new politics to be born when we married calculating circuits with the ordinary telephone; but that’s exactly what happened. There are other machines, such as the automobile and the air conditioner, that have radically reshaped our lives and the landscape of our civilization. The Net (and its future progeny) is another one of those disrupting machines and may yet surpass the scope of all the others together in altering how we live. The Net is an organism/machine whose exact size and boundaries are unknown. All we do know is that new portions and new uses are being added to it at such an accelerating rate that it may be more of an explosion than a thing. So vast is this embryonic Net, and so fast is it developing into something else, that no single human can fathom it deeply enough to claim expertise on the whole. The tiny bees in a hive are more or less unaware of their colony, but their collective hive mind transcends their small bee minds. As we wire ourselves up into a hivish network, don’t expect, don’t understand, can’t control or don’t even perceive. That’s the price for any emergent hive mind. At the same time the very shape of this network space shapes us. It is no coincidence that the postmodernist arose as the networks formed. In the last half century a uniform mass market has collapsed into a network of small niches – the result of the information tide. An aggregation of fragments is the only kind of whole we now have. The fragmentation of business markets, of social mores, of spiritual beliefs, of ethnicity and of truth in itself into tinier and tinier shards is the hallmark of this era. Our society is a working pandemonium of fragments – much like the internet itself. People in a highly connected yet deeply fragmented society can no longer rely on a central canon for guidance. They are forced into the modern existential blackness of creating their

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own cultures, beliefs, markets and identities from a sticky mess of interdependent pieces. The industrial icon of a grand central or a hidden “I am” becomes hollow. Distributed, headless, emergent wholeness becomes the social ideal. The critics of early computers capitalized on a common fear: that the Big Brother brain would watch over us and control us. What we know now of our own brains is that they too are only networks of mini-minds, a society of dumber minds linked together, and that when we peer into them deeply we find that there is no “I” in charge. Not only does a central-command economy not work; a central-command brain won’t either. In its stead we can make a nation of personal computers, a country of decentralized nodes of governance and thought. Almost every type of large scale- governance we can find, from the body of a giraffe, to the energy-regulation in a tidal marsh, to the temperature regulation of a beehive, to the flow of traffic on the internet; resolves into a swarmy distributed net of autonomous units and heterogeneous parts. No one has been more wrong about computerization than George Orwell in 1984. So far, nearly everything about the actual possibility space that computers have created indicates they are not the beginning of authority but its end. In the process of connecting everything to everything, computers elevate the power of the small player. They make room for the different, and they reward small innovations. Instead of enforcing uniformity, they promote heterogeneity and autonomy. Instead of sucking the soul from human bodies, turning computer-users into an army of dull clones, networked nature of our own brains and bodies – encourage the humanism of their users. Because they have taken on the flexibility, adaptability and self-connecting governance of organic systems, we become more human, not less so, when we use them. (This bit is adapted from a May 1994 essay I published in Harper’s magazine, entitled “Embrace It,” which itself was adapted from my 1994 book “Out of Control.”) Kevin Kelly is the senior maverick at Wired magazine. He helped launch Wired in 1993, and served as its executive editor until 1999. Kelly was published and editor of the Whole Earth Review and authored the best-selling New Rules for the New Economy and Out of Control. He is currently editor and publisher of the popular Cool Tools, True Film and Street Use websites. This article first appeared in Harper’s magazine, May 1994.

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[{(SHAKING TABLES)}] + {[(SPIRITS AROUND)]} Then we go there: a Spiritism Center is a Spiritism Center is a Spiritism Center is a Spiritism Center is a Spiritism Center By Bruno Moreschi The plate at the entrance door was the proof that I was in the right place to sane my specific doubt. After a long handshake, lady Joana Feijo offered one of the plastic chairs so I would feel more comfortable in the 30 square meters house, in Santa Cecilia’s neighborhood, Sao Paulo. I told her my drama: I was searching for a spirit with complete domain of etymology. It could specifically be Jeronimo Cardoso’s spirit, the author of the first dictionary of the Portuguese language, published in 1569, or even a Portuguese teacher’s soul who happened to be passing by. The important thing was that this otherworldly being would give me the precise definition of the place I was in: a Spiritism Center. Neither Joana nor any spirit could help me. “They are taking care of more important issues”, she coldly answered, as if my issue was some kind of a bad taste joke. Before the silence of the supernatural world, it is possible to suppose that the spirits

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care little to the fact that in Brazil the place of meeting for both spiritualists and the followers of many Afro-Brazilian religions is called Spiritism Center. In a country where Catholic churches were erected by slaves linked to African faiths, it can be expected that religious syncretism will make the term Spiritism Center change according to one’s faith. In 1855, with almost 50 years of age, the mathematician and French educator Allan Kardec was impressed by the histories about some bars and cabarets of Paris that were amusing bohemians for obscure reasons. Tables and chairs of these places moved by themselves, when least expected, from one side to the other. Kardec visited these places. And he concluded that the problem were some spirits lacking attention. Ever since, he started to study the behavior of the most varied spiritual manifestations in France. Even without harboring a single grieved soul in his own body, he wrote oeuvres such as The Spirit’s Book, the gathering of 1.019 entries with issues as specific as “what does the Spirit favors; to embody a man’s body or that of a woman?” Kardec answers: “A spirit doesn’t have preference for gender”. In other passages of the book, Kardec writes about the importance of the l’esprit societé, places where the spirits can feel welcome and, therefore, show themselves with ease. In a more specific translation, the term would mean spiritual societies. But the first translation of the book to Portuguese preferred to name the places of Spiritism Centers. The book sold until today over 10 million copies. And the term became popular. In Brazil, there are about 10 thousand Spiritism Centers registered with the Brazilian Spiritism Federation, the most important and respected association linked to Spiritism. There’s no numbers for the rest of the world, but estimates point out about 30 million visitors – 20 million in Brazil alone. In that count the centers linked to umbanda and candomble were not included. The reason for that exclusion comes from the definition of what comes to be a center for the Spiritists. According to the federation, a place can only be known as a Spiritism Center if in it there’s no singing, images of saints or drumming. All must dressed with simple clothes – because of that, in theory, we can forget the Obaluae. Finally, the place should be used exclusively for the sessions, which forbid that it would serve as room for marriages, baptisms or wakes. “They cannot define how my Spiritism Center should be”, said lady Joana, the director of the Spiritism Center Santa Cecilia, which is really an umbanda yard. “Here we welcome everything in the spirit form. From the old black man to the beautiful damsel from two centuries ago. Some days, it seems like a carnival. And, until today, nobody from the other world complained about that”. Differences aside, it is possible to highlight some characteristics common to all Spiritism Centers. In the reception, don’t expect to find much more than posters with basic information, such as the schedules of sessions, and the presence of someone to give orientation about the activities. Further on, a room, that varies in size according to the owners’ financial capacity, serves to portray what is the center of the Spiritism Center. In there, lectures are hosted, varying in theme and lasting from 30 to 40 minutes. The doors are open for anyone who wishes to join. On those days, usually the so-called treatment sessions also take place, with the cure psychic and the ostensible psychic – roughly, the equivalent to a doctor and a spiritual nurse. The doors of the place close in the days of psychic meetings. All in there need to be ready for the eventual visit of one or more spirits. And they can come in different styles. The ones who can behave well in front of people are known as “good” – and don’t be frighten if one of them enters the body of somebody and bow to you as a sign of high esteem. Among the most unpleasant ones, are the haunting, who piously believe they are still alive and, because of that, appear frequently among us; the evil ones, who love to lie and to swear during the meetings; the nervous ones, who can diminish the weight of the bodies they dominate and cause somnambulism; and the suicides, who

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suffer so much remembering the moment of their death that, not rarely, touch the feelings of all who are in the room. In a meeting of a Spiritism Center, anything can happen. Tables tend to move, objects in shelves fall to the ground, and the light can be off for some time. To avoid larger disturbances, the psychics are careful not to call an unpleasant spirit. “We prioritized the spirits who can do good, help those who are in the meeting. But we don’t have full control of that”, explained Geraldo Campetti, director of the Brazilian Spiritualism Federation. Chico Xavier, for instance, used to welcome the dead who gave advices or even tranquilized their relatives who appeared in the meetings of the Spiritism Center. In case of great tragedies, Spiritism Centers gather their psychics for a meeting. The mission is to help the spirits, usually disoriented because of such sudden event. It was like this during the attack to the World Trade Center. To those who don’t search for such a specific help, the centers offer the spiritual healing ritual. For the spiritualists everything happens in a very simple manner: a spiritual psychic places one of the hands above the visitor’s head for one minute and, there, that gesture transmits magnetic and spiritual fluids. But the doubt remains: why does anyone who tries to explain the events of a Spiritism Center loves to talk about such fluids and energy? “They explain the exchange of energy between spirits and humans. The magnetic fluids are positive energy that the psychic pushes through his or her hand. The spiritual ones are the good vibrations of the spirits themselves”, said Alberto Souza, owner of the Spiritism Center the Redeemer, in Curitiba, one of best known centers of the South of the country. On the other hand, the ritual in the umbanda and candomble centers is somewhat more elaborated. It happens through the blow of cigar smoke, cracks of the fingers, touching of the body of whoever receives the energy; it depends of the entity of the day of the encounter. The Spiritism Center is also the place for something similar to the Holy Water. With the difference that such an energized water can be consumed. In the beginning of the sessions, the members of the Spiritism Center put some water in the center of the room or in a corner. It can be a single jar with water or even several disposable cups. After the mentioned events, the Spiritists guarantee the water changes color and taste. It is the proof that it is full of positive fluids from the spirits. Whose brave enough, can take a sip. In the neighborhood of Pinheiros, in Sao Paulo, while the visitors of the Spiritism Center Mensageiros da Paz e Esperanca drink their modified waters, a crowd drinks beer and stronger drinks on the lower floor of the building. Over there, the Spiritism Center and the Salim bar live together in peace. “I never had problems with any bad spirit”, said the owner of the bar, Salim Rabay. But there is an agreement among both parts. The fans of the bar can only be turned on after 20h, the time the Spiritism Center ends its session. Otherwise, the ground of the place shakes, and the spirits can be inconvenienced with a table moving for other reason than them.

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THE CUBE

The pilgrimage to Mecca, which happens between the eighth and the tenth day of Dhu al-Hijja, is one of the basic precepts of Islam. Rotating counter-clockwise, thousands of faithful gather around the Ka’aba to get close to the Black Stone – an amulet which is in the center of the Islamic faith By Amer Moussa From the balcony of the third floor of al-Haram mosque, in Mecca, the sight resembles a great human black hole. Annually, 3 million people fill the luxurious complex to take part in the Islamic ritual of Tawaf, which consists of making seven anti-clockwise turns around the Ka’aba – a cube of approximately 13 meters. It is a large spiraled

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buzz: with all wanting to reach the center to touch and kiss the Black Stone, sheltered by the Ka’aba since Adam’s times. Mohammedans believe the amulet is a piece taken from paradise. The contradiction is intense. In spite of being a traditionalistic rite almost rehearsed, there is no distinction between stage and audience, as in soccer stadiums or musical concerts. Wearing nothing but a seamless white gown, the men rotate in aligned rings. The women pass by moaning in wide chadors. They pray in unison, forming the image of an untouched gear in movement. The atmosphere is trance-like, in a way that would make Ze Celso envy. Located in Saudi Arabia, the city of Mecca is the most sacred place, the center of Islam. All must turn to its direction when praying each of the five daily prayers, wherever they are. It is also mandatory – “to all people who reach puberty, are free, mentally healthy, physically and financially capable to travel – to Mecca, at least once in a lifetime”. During the pilgrimage period – Hajj – the population of the city increases by 1 million people. In the past ten years, to absorb the quantity of pilgrims, the Saudi government has been spending billions of dollars in maintenance and enlargement of the amazing mosque. Its floor is made of white marble. Also, the Ka’aba, located in the main patio, hardly resembles the enclosed shack surrounded by barbed wires, which appears in pictures from the 19th Century. The structure that sustains the cube is made of granite extracted from hills near Mecca. The interior, lined with marble sheets, is empty, except for three wooden pillars that support the covering and some bibelots. The building is hidden by a black mantle – the Kisua – adorned with verses of the Koran embroidered by hand with a golden thread. Replaced each year, in 2007 it was made of six silk sheets with a total of 650 square meters, which cost the Saudis over US$ 5 million. But money isn’t a problem for the world’s largest oil exporter. The four vertexes of the Ka’aba coincide with the four cardinal points. To step inside its interior is not allowed, except in rare occasions and to a limited number of guests. The entrance is through a 2 meters wide door located at the northeast facade. The north angle points to Iraq, the west to Syria and the south to Yemen. The Black Stone is embedded at the east side. Destroyed during the conflicts of the Middle Age, the stone, with its 30 centimeters of diameter, is today protected by a silver frame and is exposed, so that all can touch it and kiss it, as Mohammed did. The Black Stone is as old as the first inhabitant of the Earth, and nobody knows about its origin for sure. The most probable hypothesis is that the amulet is the trace of a meteorite: initially white, it darkened over time. That fact is explained by the Islamic as the celestial purity that was contaminated by the mundane sins.

MATHEMATICAL ZERO The fundamental aspect of Islam is Mohammed – or Muhammad. Known as the prophet founder of the doctrine, Mohammed was born in Mecca, circa 570, where he became known for being a wise and fair person. An orphan – no father, no mother and no grandfather – he was a very popular citizen, always requested to judge and give his opinion on issues around the city. He worked as a merchant and a shepherd. He got married countless and repeated times. He used to take refuge in the grottos on top of the hills nearby, to contemplate and meditate. At the age of 40, during the month of Ramadan (the fasting), the prophet had his first revelation: God is One. At that time, Arabs cultivated different deities, one for each day of the year. Jesus, Maria, John the Baptist, Abraham and other personas were considered Gods, with no need for a common principle between them. Mohammed’s discovery, much more than a sentence to be reproduced – as it is nowadays – was about establishing an abstract concept of God, a totality, the mathematical zero, a blank slate of communication among men – who at that moment played in the darkness of dilution. These progressive ideas conflicted with the entropy of the age, rooted in secular tribes – Mohammed was expelled from his own group, the Quraysh. In 622, with followers and persecutors after him, the philosopher saw himself forced to migrate to

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Medina, where he strengthened his ideas unifying conflicting tribes (known as Hegira, this crossing marks the beginning of the Muslim calendar). After eight years of fight with the rulers of Mecca, the army, which already had 10 thousand men, took the power. Mohammed returned to his hometown willing to transform the Ka’aba in the main monotheist center in the East. It is said that, while Mohammed destroyed each one of the 360 worshipped images, he recited: “The truth has arrived and the false perished, because the destiny of the false is to perish”. Even before Islam, and before being defined as a vertex of the globe, Ka’aba was decisive in the process of development of the Arab people. Being essentially composed of nomadic groups, the population of the area when it was not at war could only live together because of the religious laws: the shrine was the warranty that no act of violence would be practiced 32 kilometers around. Located in a sterile hill surrounded by mountains, peace helped to convert the square in a commercial center, where it was possible to find spices, clothes, leather and butter. That is how the Quraysh tribe prospered. Rumor has it that the Ka’aba was first built by Adam, and the second to refurbish it was Abraham – while in search of water for his newborn son. In fact, by the building is the famous source of water Zamzam. There are several scientific studies that point out exact relationships between celestial events and the orientation of the cube. The crescent moon and the Canopus star are mentioned in the Koran and they can be seen in several flags of nations connected to Islam, such as Algeria, Mauritania, Tunisia and Turkey.

750 LASHES As well as Jesus, Lenin and Lennon, the head of the movement at a certain point expired: Mohammed died in 632, in Medina, at the age of 62, originating a dispute for power that lasts until today. Recognized as an important political figure, his unification work allowed the establishment of that which would come to be an Islamic empire that extended from Persia to the Iberian Peninsula. The Shiite believe that the prophet designated Ali ibn Abu as his successor in a public sermon in his last Hajj, but the Sunnite disagree. Islam remains internally divided, for the benefit of a few rabbles that exploit the wealth and control the political-economical scene in Arab countries. After the death of Muhammad, his disciples, considering him a prophet just as Jesus, Moses, David and Jacob, published his words under the form of the Koran, the sacred Muslim book. Koran derives from the Arab verb that means to declaim or recite – therefore it is something that should be read aloud. The Koran talks about the origins of the universe, men and their relationships with each other and the Creator, social laws, economy and other issues. Each one of its 114 chapters, denominated suras, is organized in agreement with its size and not in chronological order. Since Muslims treat the book with endearment, it is prohibited to recycle or to throw copies in the garbage. A way to dispose from it is to bury or burn the book in a respectful way. It is also considered a grave sin to modify / cut / exclude / add words from the Koran. Neither is selling the book allowed. For what is known, Mohammed didn’t completely reject Judaism and Christianity, two monotheist religions already known by the Arabs at that period. Instead, he said he was sent by God to restore the original teachings of those religions, which had been rotten and forgotten. Islam, which means a celestial message from God revealed to the prophet, is based on the faith in monotheism, in the prophecy, in the imamate (continuity), in justice, in final judgment. The Muslim practice, besides fasting during the Ramadan, the pilgrimage to Mecca, praying five times a day and donating part of their wealth to the poor, is the jihad – the militancy. All Islamic must defend and spread Mohammed’s ideas. In spite of terrorism being condemned as a form of militancy, a lot of militias take advantage of the ignorance to exploit the faithful on behalf of Allah.

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Some years ago, political cartoons with the illustration of Mohammed criticizing terrorism were published by a small Danish newspaper. The fact took unexpected dimensions, causing enormous rage in the Islamic world. Tradition forbids facial representations of the prophet. In drawings and paintings it is common that the face of Muhammad be hidden by a veil. In the mosques you will never find statues – the doctrine in there is that of words. On the other hand, the Arab calligraphy grew expressively along the centuries, as a way to explore a graph-visual language. The Islamic rituals can be touching if appraised only by its apparent form. In Mecca, the entrance is not allowed for nonMuslims. In the middle of the 21st Century, Saudi Arabia remains an absolute monarchy, so that the king is not only the chief of State, but also of government. The basic law adopted in 1992 (!) declared that the country is a monarchy governed by the children and grandchildren of King Abd Al Aziz Al Saud. There is no legislative nor political parties. Constitution? Forget about it. The King rules in agreement with Sharia, the sacred law of Islam – reinvented. In 2005, a Saudi secondary teacher, Mohammad al-Harbia, was condemned to 40 months in prison and 750 lashes for discussing the Bible and presenting a positive image of Judaism to his students. In that same year, two gay youths were hung at a public square in Iran, after getting 228 lashes each. Nevertheless, the United States remain Saudi Arabia’s main commercial partner and recently the Iranian president, Mahmoud Ahmadinejad, was welcomed with honors in Brazil. To segregate and isolate tyrant States is useless. To expect that freedom will come from economical relationships is naive. We can only have faith in Twitter.

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MOVABLE CAPITALISM

Madrid, Antwerp, Paris and New York: the center of power is always changing its axis. With the United States’ gradual loss of influence as the main economical, financial and cultural global power, other countries start to emerge as candidates for those rotten powers. But, in the digital era, everything is bound to continue to change By Alvaro Machado Not at all elementary, my dear Watson: the center isn’t always in the same place. The reference point always associated with concentration, light, heat, wealth and power moves, paradoxically and thanks to the skies. Who first moved it, causing a scandal and seeding the acceleration of the so-called “social time” were the visionaries of the 16th Century, who believed in Copernicus and Galileo: the Earth moves and it is not the center of the universe. Everything started to move faster after that scientific revolution, which implicated nothing less than the beginning of the deprivation of Rome as the economical and ideological global epicenter – the city which already ruled during centuries of empire on the Occident and an equally overbearing ecclesiastical power. Ever since, the center that emanates from wealth – material or not – began to oscillate. What a relief: imagine if we all were submitted to the Roman dictatorship, from the year zero to the current days. Maybe we would have to wear, from time to time, God forbid!, the same perverse fringe that looked good only on the forehead of Marlon Brando as Mark Antony (Julius Caesar, Shakespeare and Mankiewicz, 1953). Because until the moment in which the boundaries stop existing entirely and everything becomes movement and atoms, the vocation of the periphery is to refer to the center; and if we didn’t get to think like Mark Antony at least his appearance we can imitate, with the aid of a comb, cosmetics and some heat. Historians of the mid-20th Century were busy with the theme “movable center”, under the perspective of the dynamics of the

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economy, which, until then, were determined by the will, talent and effort of people and nations still individualized. A true luminary in that field was the French Fernand Braudel (1902 -1985), who forged the concepts of “geographical time” and “social time” to help to draw evolution and displacement from the centers of goods and ideas. The “geographical time” concerns the relationship of men and the environment, meaning a slow evolution: the history and its main geographical references would oscillate, therefore, in agreement with the transformations of the atmosphere promoted by both man and nature. A theme in the agenda and no longer submitted to such slow process, because drastic climate changes and urban mega-development are a constant today. Also the “social time”, which describes the path of groups – therefore faster than the line of “geographical time”, has accelerated during the 21st Century Braudel didn’t get to know, with punctual wars and almost continuous economical crisis. In a system of globalized financial sensors, 24 hours are enough to dictate the sudden bankruptcy of an entire nation, no matter how influential... A recent example, the financial crisis that revealed the persistently disguised nakedness of the sovereign United States, a country that in fact acted as the center of power starting from the end of the Second War. In fact, to fall down, it is enough to be on the top: “Ma, (I’m in) the top of the world!”, said the criminal James Cagney when he was caught in the summit of a refinery about to explode (White Heat, Rauol Walsh, 1949). From an individual point of view, the most efficient method to survive may be to not get surprised with so many changes of the center of power and to get used to its definitive pul-ve-ri-za-tion, already in course. For the merchants in the top of the pyramid and their brokers, the work consists of transferring from market to market around the planet (let us wait that more and more also for to Bovespa); and, to the mass, or better yet, la crème, to adapt, although subtly, to references, appearance and language, according to the wind. At the same time, not to get shaken, to inwardly constitute an ethical center so unmovable and unshaken as the sacred rock of Mecca. Who gets to do that will survive. But, through the last five centuries, so shaken in comparison to the millenniums of the old history in which the complete face of the planet and small part of the skies were drawn, the navel of the blue planet oscillated frequently, according to quite interesting indicators, studied by Braudel and his group. In the root of everything is the dynamic of capitalism, the system of circulation of values that was really formed in that interval of time, especially after 1800. The capacity to overcome plagues and epidemics (with the invention of medicines and prevention plans) and the discovery and commercialization of new nutritious products, from sugar to coffee, from spices to corn, besides the so-called intoxicants, such as the tobacco and alcohol – and let us not be hypocritical to the point of not mentioning drugs like the opium –, became a decisive factor for the alternation of the capitals of economical influence in the Occident. After a long history of glories and horrors that left, through the Appia road, from the city nurtured by the teats of the wolf, was observed in the Modern Age the ascension of successive centers of power in Europe. Or even before that, since in the 13th and 14th Centuries the “Serenissima” Venetian Republic already challenged the Roman power and tried to dominate the trade in the Mediterranean as much as the connections with the goods from Asia and Africa, through the Adriatic. The city was as the emporium of the Western world and, by bringing novelties from China, such as the pasta, also discovered that the East was vaster than imagined, with their own centers of power. Powerful Venice is very well shown in the two first chapters of the TV series Marco Polo, which in 1982 the Italian director Giuliano Montaldo transposed from the book on Polo’s journeys, accomplished from 1272 (the series can be found in four DVDs in the Brazilian market). Then, when building his Loggia, in

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1455, the avant-garde republic consolidated itself as a primitive stock exchange, surrounded by bankers’ stores that transferred values from account to account for the accomplishment of journeys and transactions. A fascinating generating pole not only of capital, but also intelligence and intrepidity. In the 1500, the axis Madrid-Seville, with the Spanish naval armada, dominated the seas to the South and North and promoted the great discoveries throughout the Atlantic Ocean (Columbus in America, helped by the Portuguese Vasco da Gama and his new road to India), with that taking the first great step forward for the Modern Age. Dynasties united, the Catholic kings defeated the threats from the East and drew “the most extraordinary gesture of humanity’s history”, according to writer and historian Pierre Vilar. The Spanish economical and cultural apex, the so-called Golden Century, its influence and international prestige, extended more or less until 1680. Around that time, the Spanish columnist Lope da Vega saw in Madrid a scene very recognizable for all of us today: “Todo se ha vuelto tiendas [Everything became stores]”. Better than the hard Spanish historical movies, which love to reconstitute that period, the walls of the museum of Prado marvelously illustrate the greatness and idiosyncrasies of the drivers that from Madrid magnetized the whole Occident. The French hegemony of the era of Louis XIV (1638 – 1715), the self-proclaimed Sun King, is seen by most of the historians as debatable and fleeting. However, his cultural mark, the establishment of patterns of a court life for the whole of Europe and his presence in the imagination of the people, until the Revolution of 1789, made of Paris and the Versailles court, in fact, a center. The Parisian fashion and style generated frenzy of emulations all the way to the borders of Russia, a phenomenon repeated only by the golden period of the French haute-couture, 1950 – 1980, however without the city representing the great political or economical center it once was. To defeat the impressive Bourbon dynasty a cruel winter was necessary, and the hunger that proceeded, along with Louis XVI ineptitude to govern and a royal consort of prodigal habits, Maria Antoinette (1755 – 1793). The splendor and fall of the guillotined was lived admiringly by actress Kirsten Dunst, under the command of Sofia Coppola, in Maria Antoinette (2006). The cycle of the city-states, or of the “world-economies” (a concept by Braudel), which dominated Europe successively ends brilliantly with Amsterdam and its nervous Stock Exchange, in the 17th and 18th Century. In that interval, the city lives its own Golden Century, controlling the world trade and enclosing the already wide influence of the port-city of Antwerp. The united provinces (or The Netherlands) exercised power as a group, but secondarily: “Amsterdam reigns alone, luminous light seen from the whole world, from the sea of Antilles to the shores of Japan” (Braudel, Dynamics of Capitalism). It is the great place for international loans, with procedures coming from a distance through Paris, Geneva and Genoa. Their rulers’ religious tolerance, included welcoming the brilliant minds purged by the Inquisition and narrow minded monarchs, was decisive in its success. Well before the golden age of Amsterdam, the city already welcomed wise people, artists, writers, scientists of all parts of Europe. Philosophers such as Rene Descartes and John Locke settled for long seasons in the city, which allowed them to publish their works without censorship. The film director-historian Roberto Rossellini gives us a class on that tolerance in Descartes (1974). Then comes the era of the domain of nation investors, and in the 19th Century, London as a nervous center of the empire of Great-Britain, was catapulted by the conjugation of liberal economical politics, voracious colonialism, big inventions and the consequent Industrial Revolution. It is the victory of the “private market”, free from the surveillance of authorities, also well developed by France and Paris, which conquered, with it, its share of power. The British domain was contained by the First World War, to which England sacrificed millions of men (it was verified then that, alone, the military industry was not

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capable to restore economical health). The whole world noticed the change, unlike so many Englishmen until today. To glimpse that period of great wealth living together intimately, in the City, with miserable delinquency, it is enough to take a visit to the movies: Sherlock Holmes (2009), by Guy Ritchie, has impeccable art direction and notable props, a work rested on the rebuilding of a previous period that has long hypnotized our visual culture. After the world map was redraw by the two Great Wars of the 20th Century, period in which so many nations struggled for the ownership of the scepter – or of the center –, we watched the transfer of power from Europe to the former-colony of America, with the point of financial convergence in New York beginning one era and the Silicon Valley, in California, closing the North American cycle by losing the hegemony in the production of chips, in the 1990’s. In the digital era that we live in, although most don’t have equipments and such smart senses to follow the whole thing, a simple combination of pressed buttons can move the center of power from Tokyo or Hong Kong, in Asia, to the Stock Market of Frankfurt, in Germany, and vice-versa. Nor Chico Xavier, through his psychics, spread today in hundreds of Spiritism Centers across the whole of Brazil, could indicate us the Real point of confluence of power, wealth, etc. in the globe for the next 24 hours. The center is focused and unfocused continually, faster than a spirit of light. Postscriptum. Truth be told, in the universal chronicle it falls to the Portuguese one of the most notable episodes on center as a theme, or better yet, of its sudden inversion: between 1807 and 1820, escaping from Napoleon and their troops, a whole court, more than 15 thousand people, was transferred with suitcases and all, through a jump over the Atlantic Ocean, from pleasant and rich Lisbon to the subtropical heat of its backyard colony. The exodus generated episodes that don’t fit entirely in any summary. But Carlota Joaquina (1995), directed by Carla Camurati, commented on that in a hilarious way. As well as the also entertaining Amelia (2000), of by Ana Carolina, that when doing fiction on the dramatic visit of the diva Sarah Bernhardt to Brazil, in 1905, also dealed with the lapse between center (Paris in the peak of the belle époque, an aesthetic-cultural reference for the world) and periphery (the cities of Rio de Janeiro and Cambuquira, in the Old Republic).

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MOVABLE MEMORY

For the French sociologist Henri-Pierre Jeudy, professor of aesthetics at the School of Architecture Paris-Villemin, the renovation of cities’ historical centers expels the original populations from these areas, transforming them in merely touristic sceneries By Daniel Cariello, de Paris Justified by the improvements in infrastructure and safety and for the embellishment that it would bring to the cities, the renovation of historical centers is usually an issue that receives favorable opinions. Governments and City Halls adopt the same discourse of how important it is not only to renovate the buildings and monuments, but also the life in those places. However, there is at least one dissonant in that subject. Sociologist of CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique (National Center of Scientific Research) –, professor of aesthetics at the School of Architecture Paris-Villemin and author of books such as Corps et Decors Urbains: Les Enjeux Culturels Des Ville and Le Corps Comme Objet D’art, Henri-Pierre Jeudy says this process, usually made under strict international intervention norms, aim at attracting tourism. In consequence, it expels the traditional populations to the periphery; it “clears” the original memoirs of those centers and transforms cities in museums. In his apartment located in the heart of Paris, by Les Halles, an old street market transformed during the 1970’s in a controversial shopping center, Jeudy granted an EXCLUSIVE interview to ffwMag!.

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ffwMAG! – Where does the human need for preservation comes from? Henri-Pierre Jeudy – I believe that this conservation obsession comes from anguish about the future. There is that collective pulse of preservation in people of all countries. A glance into the past that can be interpreted as the denial of the present. And that valorization of the past is explained by the fact that it transmits a stereotyped image of the continuity of things. When we see a city like Sao Paulo, that changes continually, there is fear about the humanly necessary lack of temporal continuity. ffwMAG! – Memory is cited to justify the renovation of historical centers. But it is never specified which and why we should preserve. Which memory is being preserved in this case? HPJ – The monumental conservation is usually justified as a protection of the collective memoirs of a nation. I don’t agree with that, I reckon that there is a contradiction between conservation and memory. The first is made with a spirit of preservation of objects and places with a great symbolic significance, the monument. But the memory is movable; it is something not material in people’s heads. A priori, there is no territorial or monumental representation of it. And conservation is a way to inflict certain order in collective memoirs. As it happens, that generates conflicts, because there is always a practice of valuing certain places and, at the same time, to hide its wounds. There is a prevailing policy in the administration of those memoirs that is satisfied with the preservation of consensual monuments. ffwMAG! – About that, Nietzsche used to say that memory fixation or a submission to history is paralyzing. Therefore, should we make any effort to preserve? HPJ – Nietzsche made a forgetfulness apology. The preservation spirit we have is exactly the opposite of that. For him, memory only exists because there is also forgetfulness, the certainty of what he called “innocence of the future.” It is a beautiful expression. He doesn’t defend the freezing of history. Memory is movable and its hiding is somewhat needed so we can live in the present. In the contemporary world, that position seems morally unsustainable, because today the politically correct is the call of duty of memory. If we don’t have it, in a certain way we are not good citizens. ffwMAG! – But this is a Western way of thinking. In Japan, for instance, traditions are preserved, not monuments. HPJ – The word “patrimony” doesn’t exist in the Japanese language, but after the Second World War the country was forced by UN to enter a conservation mentality. The carcass of a cupola in Hiroshima was the first construction to be consecrated a historical patrimony in that country, in memory of the bomb. The Japanese are careful in transmitting traditions, in there are characters known as “alive treasures”, people with an exceptional wisdom. But there is no monumental side. At every 20 years the temples are rebuilt, exactly as they were before. They don’t have the concern of authenticity, as in Europe. ffwMAG! – When Jordi Borja was the vice-Mayor of Barcelona, he developed a model for urban centers renovation. After that, he sold the idea to the whole world, as one sells a Big Mac. Isn’t there room for adaptable models for each city? HPJ – That is true, there is standardization. When I studied that subject, I was impressed with the pictograms that indicate the French historical cities, be it Toulouse or Marseille, they always seemed the same. The centers of those places are also similar. Each city has its monuments, but the ways to value them are similar. Sometimes the abandoned industries are the most interesting ones in a conservation area. When mayors manage to escape that dimension, there are architects who make a great work, combining memory and modern architectural conception. I saw a good example of that in one of Sao Paulo’s Sescs. But it is something that is hard to be done, for instance, in a cathedral or in a castle of the Middle Age. However, in Berlin there are attempts

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in that sense. Norman Foster’s cupola in Reichstag gives a fiction impression, of architecture of the year 2500. The lightness of the glass balances the weight, the colossal sense of the Reichstag. ffwMAG! – In Brazil, this kind of renovation completely changed the center of Salvador. And now is changing the neighborhood of Lapa, in Rio. HPJ – I have v isited Salvador several times, before and after the renovation of Pelourinho, and the center was completely restructured, the life that existed in there can no longer be found. It was a real lifting. It became something completely kitsch, aimed at tourists. Even the fat baianas are a mimic of the real thing now. The populations that lived there were expelled to the peripheries and the memoirs of the life that existed before went with them. That excess produced a satire of the place. The interesting thing is that now there are decomposition signs, paintings peeling, as if the Salvador that existed previously is now taking back its place. Now, Lapa is a little different. I worked with a Brazilian and we made a comparison between Lapa and Belleville [a traditional and popular neighborhood of Paris]. In those places there is an intense artistic and cultural life, but that is not produced by municipal guidelines, it is not done for the tourists ffwMAG! – Is the model of a centralized city the most appropriate one? HPJ – That is a good question. In the generic cities of Rem Koolhaas the center doesn’t exist. Roland Barthes said that in Tokyo there is also no center. In what measure will it be essential in the conception of the cities of the 21st Century? Or should we multiply them, as some architects suggest? That centralization is a very European thought, completely linked to the history of our cities. Paris and Prague are typical examples. Maybe London and Berlin are less like that. ffwMAG! – Claude Levi-Strauss said in Tristes Tropiques that “the passage of the centuries represent a promotion for European cities. For the Americans, the simple passage of years is a degradation”. Does this mean that the preservation process is more natural in Europe than in America? HPJ – I’m not sure I agree with that sentence. But it is true that in several American cities, and also in the Brazilian ones, there is no historical density, unlike Europe. I don’t know if people who walk through Paris or Rome imagine all the tracks that exist on the underground, the history accumulated. It is not strange that Freud chose Rome as a symbol for the metaphor of the unconsciousness. Therefore it is normal that in Europe the conservation seems more natural, but the issue is that if it is really possible to naturalize that preservation spirit. I am not sure about that. It is more logical, because the city is already there. But the cities built ex nihilo, from nothing, are also interesting. And the most beautiful example in the 20th Century is Brasilia. Lucio Costa drew an airplane in a piece of paper and won the contest against several agencies that worked hard, made blueprints. Maybe I’m exaggerating, but he made an ex nihilo city, whose history began with its foundation, from night to day. Rem Koolhaas also has that conception of global construction of a city. I was never in Brasilia, but I believe that if we live there and suddenly arrive in Paris, we can have a totally anachronic impression, as if it was a film of the 1930’s. ffwMAG! – With this lifting, there is also a cultural unification. What will happen to differences, traditions, dialects? HPJ – What happens is the same process that happened to those fake baianas. It is like that everywhere with standardization, but that is also possible out of the centers of the cities. Everything that means cultural differences is turned into a myth, it becomes an artifact. We produce imitations of a cultural difference aiming at tourism. In the centers of the cities, the impression is that artisans, restaurant owners and everyone else are in fact playing a part; they are paid as instruments of the patrimony. In general, the cultural differences of the cities happen in the game of confrontation between hostility and hospitality and in those

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cases the confrontation disappears. There is a city I visit during the summer and in the public laundries in the streets, where before there used to be women who really washed their clothes, now there are natural size puppets. In the French country side there is this strange situation, a certain disneyworldization. Perpignon is maybe the last French city that still didn’t go by that. There are still gypsies living in the center. In Montpellier there were also some of them 20 years ago, but they have been moved from there. The phenomenon today is that, if there is still resistance, it is the exact mirror of the patrimony system. They don’t produce any rupture, but the effects of something that I find very sad, the communalism. The defenses of an identity, but an identity can’t be defended, it can only be expressed. The Catalan now make their seminars and talks in Catalan and no longer in Spanish. That is pure communalism. ffwMAG – But in a certain way it is normal. The Spanish culture and language was imposed on them. Now is the return of the boomerang. HPJ – I agree. The problem is that the patrimonial mechanism is made in such a way that it replies the system. The claims are usually patrimonial, to save – for instance – the memoirs of the Armenians installed in Paris. ffwMAG – You speak a lot about the urban spaces but also about the personal spaces, as when you write about the prohibition of smoking in public spaces. Our freedom, our space, is it increasingly restricted? HPJ – If we take the notion of public space, which changed a lot, now there is a kind of tyranny for us to enjoy it. And not just in the case of tobacco. On behalf of global warming there is a series of measures being taken, justified and legitimated by science or medicine. It is for that reason that today the morals are law, they are always right. If we smoke, we will die. And that becomes unbearable, because the morals are not justified by themselves. When I was young and there were the Christian morals, we could transgress it. But now we are not able to do that anymore, because we’re talking about scientific, sanitary, ideas with precise reasons. All the interdictions in the public spaces are legitimated by the idea that we “do that for your own good.” Then we only need to obey it to live. That generates situations as we saw in the coffees, in the middle of winter. There are more people outside, smoking, than inside. It is bizarre.

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THE MAIN SQUARE

In the Brazilian country side, social life happens in the main square. It is like that at the historical city of Bananal, in the Paraiba Valley. The world rotates around the bandstand: dates, boys, girls, popcorns, old ladies, cotton candy, pot bellies, hip hop, cachaca, card games, pagode and even some fights By Luciana Pessanha Illustrations by Filipe Jardim Imagine entering a time tunnel and coming out in a square, 60 years ago. Now imagine that the outfits, art direction and soundtrack are contemporary. There: you are at the Main Square, in Bananal, a city founded in 1832, 336 kilometers from the capital of the state, Sao Paulo, and with less than 10 thousand inhabitants. Squares, anywhere in the world, have always been the center of convergence, coexistence and recreation. Towns would grow from them. Until the middle of the 20th Century they also served as a place for flirts. How much frisson people used to live by the bandstands, under the attentive glances of the gossipers’ eyes? With the growth of the cities and the new achieved reach of the means of communication, little by little the squares lost their social function. That happened in the largest urban centers. However, in the Brazilian country side the scenery remains the same. And the rituals are still very similar to the ones practiced by our grandparents. In the 19th Century, during the coffee cycle, Bananal was one of the richest districts of Brazil – to the point of its farmers endorsing

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loans from England to the Brazilian Federal Government. Its square was surrounded by the barons’ mansions, with their refined parties, velvet cushions and carriages. Today, the city is not wealthy. But their little less than 10 thousand inhabitants don’t suffer for the lost glory. Exactly the opposite, they live in a permanent party and maintain alive the nightlife of the Main Square, the one next to it and a third one, up the hill.

Friday, January 2010 – Main Square 8:00 PM – Through the streets playboys circulate in their cars with speakers playing hip hop loud enough to collapse the Everest. They’re lucky there is no snow in the Bocaina hill. In every corner, a temptation: ice cream, churros, popcorn and cotton candy. The predominant age group is from 15 to 25 years of age. The come and go is intense. Couples walk holding hands, and the courtship runs free through the square benches. The ones, who do not love, walk in groups divided by gender. Men form groups from six to eight people. Women, more moderate, four or five, always very sharply dressed. The men’s uniform is printed surfer’s shorts, T-shirts, caps, sneakers or sandals. On the other hand, the girls dress up. A T-shirt open in the back is a must. White shorts are also very much “in”. Printed long dresses are also very successful. The high heels sandals in the paving stone is a feat they train for from an early age. 10:00 PM – A samba song begins in front of the bistro 4 Estacoes. Everybody dances in the middle of the street, without ceremony. Commanding the happiness is Obelix, 50, blue eyes, shirtless, with an enormous pot belly hung over maroon shorts. He dances in front of the musicians as if he was the drums’ godfather. Further on is Chameguinho, a thin mulatto, also around his 50’s, wearing jeans and a gray polo shirt, who got very drunk and is a tiny dancer, smiling, looking like he is feeling things. “Hi, I am Jack, I work in the Post Office, I am divorced and live in a small house down there. You are so chic, I like you. Do you want to see my house?” The flirt style, we quickly understood, is the straight forward kind. 11:00 PM – Suddenly, as if coming from a Joao Guimaraes Rosa story, blunt in the distance Travelling and Sancho Panca. Those two have a very dark skin and are completely different from each other. Travelling is thin, cavalier and walks strongly and certain. He wears high waist jeans and rubber boots – “To defend myself from fierce snakes!” – a red shirt and an unraveled straw hat. Elegant, he passes by quickly and goes on his way. By his side, Sancho Panca: chubby, short, silver head, sports an open mouth; he is a simple and half mad man. He carries a black umbrella, a white cowboy hat, a bag in each shoulder; he greets all people on the road and later runs to reach his companion.

Saturday 9:00 AM – The age group changes completely. Most of the people seating in the benches are men, over their 60’s. Their ladies are home, preparing lunch. Old men play cards in a table in the middle of the square. Luis Aguiar, 75, says that about 40 years ago there were just palm trees around the square and a French garden. At the age of 18, he went to Lorena to serve in the army. He came back to cure a disease. He met a girl from a neighboring city and got married in Bananal. “I grew up out there, but came to live here”. He works as a tailor. During the Revolution of 1964, he decided to leave again. “The military came from Resende and caught one or two, every week. I decided to go to Sao Paulo, but I made a mistake, because the revolution happened in the whole country”. He is back to Bananal with his wife and granddaughter to recover from a hemorrhage. One of these days, he met a contemporary of his in the square, Pedro de Alcantara Abreu Coelho, who he didn’t see in 40 years. Mr. Pedro left Bananal when he was 11 years-old, because the city didn’t have a high school at that time. “We had to study in Barra Mansa or Guaratingueta”. Up until then, he went to the square every afternoon. “The priest seated on the stairway in front of the church watching the children play. Nowadays everyone is an indoor prisoner, watching TV”. Today, Mr. Pedro lives in Rio de Janeiro and is on vacation in the city with his wife, Jacy. He tells us that the pink house, which today is a restaurant

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and a video store at the main square, was once the Recreational and Literary Club of Bananal. The place that held ballroom dances with an orchestra, in the 1950’s and 1960’s. “People from Resende would come to dance here!” When we asked about the literary events, he joked: “If only reading a deck of cards could be literature...” – explaining that the Recreational Club was also a clandestine casino. The musical glory of the city didn’t stop with the dances. “Herivelto Martins had a ranch here. Always on August 6th, the city’s anniversary, he brought artists, put a stand in the main square and made a gig”. Music and soccer always moved Bananal. “This place is the land of bullies, but that was before. We were respected”. 10:32 AM – Plinio, Pedro’s brother and a reformed general, explains: “He now lives in the city. Bananal is a cemetery for elephants. The retirees all come to die here”. 11:00 AM – Not even when the sun is strong people give up the game of cards. The players get up, move the table towards a shadow and keep on going. 12:00 AM – Humberto Borges, better known as Mr. Himberto, arrives. Carioca, he won the title of Bananal’s honorary citizen. Years ago, in the city’s Post Office, he saw a four leaves clover, asked for seedling and planted it at his ranch. The clovers developed beautifully. Mr. Humberto caught one of them, laminated, put the symbol of the stock exchange and offered as a gift. When he had to deliver an order of 16 thousand lucky clovers, he employed a crowd and conquered his citizenship. On the day he got his title, Peri, cousin of Carlos Imperial – who composed the samba hit of the 1960’s, “A Praca” (The Square, in literal translation) – was responsible for the party and made a mistake, instead of the national anthem, he played a samba. “That is how I became a citizen of Bananal”, said Himberto with pride. Actually, his heart already belonged to the city since 1981, when staying at the room 13 of the hotel Brazil (“Like the one of Van Gogh”), in front of the Main Square, after a storm he saw a city employee drying the square benches so people could sit down. 1:00PM – The square becomes completely empty. 4:45 PM – The come and go resumes. We found Travelling, very well disposed, carrying a chicken alive – a gift for someone dear. He works with oxen, buys and sells horses and is getting ready for a bullfight, in the square Rubiao Junior, on this same day, a little later.* 5:00 PM – Andreza, 12, and Gleiciele, 13, sit down in one of the benches in front of the church. The first is round and shy, the other, very cool. They only come to the Main Square when there’s a party, and they are here because there will be a gig – the band Abadah, supposedly from Bahia, but which will be in the city everyday of Carnival. The two never dated. Andreza has an eye on the brother of Gleice, who will come later with a friend that is the sister’s flirt. In spite of seeing each other every day at the square of Boa Morte, closer to where they live, they are betting on this night: “I think it will happen”.** Bruno, 11, and Rubem, 13, are seating on the next bench. They come to the Main Square every day. “We seat here and listen to music”. A small detail: each one uses an iPod. While they hear Bonde da Stronda, they flirt. And will it happen? Bruno complains: “There’s only old ladies around!”, and for Rubem: “Your have a chance, you’re 13!”. 7:00 PM – The ladies, who were missing during the day, come out for the mass very well dressed. In general, the city has style. The blacks have dreadlocks, braids, shaved heads. The playboys, a lot of tattoos. And the Gothics, such as Isabele, Julia and Ana Clara, research their looks on YouTube and have their own gay, imported from Resende. 8:00 PM – The lights of the square turn on. The mass ends and soon begins a social gathering in front of the church. Sancho Panca goes downstairs greeting whomever he sees. Isabela, 10, is there to rehearse. Tomorrow, in the children’s mass, at 10:00 AM, she will sing. “Everybody says I have a good voice”. The square is a place of such intense coexistence, that there’s even a very clean public toilet. There we found Gleice and Andreza taming their hair with water before the arrival of the boys. 8:00 PM – Begins the rehearsal of the drums of the samba school Unidos da Vila, that alternates the bandstand with the Escola de Baixo. Both parade in the main street, during Carnival. The rehearsal of the church choir happens together with the drumming.

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9:00 PM – Mestre Costela and the Vale do Rio street block play old samba songs. 10:00 PM – The party is transferred to the square Rubiao Junior, a much bigger space, ten steps from the Main Church. Soon the Abadah band gig will begin. From the speakers the singer announces: “We are coming! We were very well received. Thank you Mayor Davi Moraes. Jump! Jump!” . 10:30 PM – Finally people from 25 to 55 years-of-age come to the square. Small children run around followed by their mothers. Crazy people dance. Boys follow each other. Girls perfect routines. Everybody mixed up in front of the stage. Obelix is sober, wearing a social shirt, with a big bag in his hands. We find out he collects aluminum cans, an important part of the process of recycling in the city. “Yesterday I went too far, now I need to work”. And he goes on, not caring about the music. *** Chameguinho got drunk again, danced out of the compass, and felt things even more intensely than yesterday. Travelling steals the scene once again, with a frenzied dance in the middle of the crowd. Until Michael comes on, a skinny boy, with braided hair, jeans and sneakers that seem three times bigger than his feet, and he conquers the scene. 11:00 PM – From the speakers the Abadah band cheers the crowd: “We are coming, Bananal! Jump! Jump!”. 11:30 PM – The proportion of girls and boys is very unequal. There probably are the double of men in square. That is because the guys from Barra Mansa came to see the gig and flirt with the beauties of Bananal. A playboy puts five vodka bottles on the floor. The alcoholic contents of the audience is quickly rising with beers, cachaca drinks and tequila, sold in the stands around.**** 11: 45 PM – “We are coming! Jump! Jump!” 00:10 AM – Finally the Abadah band takes up the stage: “Jump! Jump!”. And the calm city of Bananal raises flight. Observations: * Obviously there was no bull fight. ** Nobody got lucky. But during Carnival things can change. *** Obelix made R$ 20 in aluminum, from the cans he collected. **** When the girls went home, there was a huge fight among the locals and the newcomers from Barra Mansa, who were rightfully chased away. Bananal is still a land of bullies.

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HALF A KILO OF BEANS, A BUNCH OF BANANAS AND TWO SIPS OF CACHACA

As in other parts of the world, the central markets remain an important aspect of life in Brazilian cities By Guto Lobato Photos by Jordi Burch It can be that the essence of great cities is in their historical center. In there are their main constructions, monuments and alleys that accentuate urban conflicts between tradition and modernity – ever more apparent in Brazil. But, in the midst of all that, certain spaces dedicated to trade keep more history than the museums. It is enough to think about the central markets: constructions that have survived time and became attractions as important as churches, mansions and architectural buildings. Central markets have maintained a tradition that reveals esteem for the trade practice. Historical reports highlight that, in the middle of the 17th and 18th Centuries, capitals such

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as Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza and Recife already had their small markets. In the country side, the same happened: as soon as a town was founded, the few settlers raised central buildings to sell provisions. Initially, without portliness, these buildings served as a meeting point for merchants, artisans, fishermen and people that visited the city. Nothing abnormal: to delimit spaces for trade was a way to agglutinate activities and organize the Brazilian colonial nuclei, receiving products, people and services coming from Europe. To have a market in the city was as relevant as having a central church, a convent, a school or a central square. It was the point of reference in the confused urban plans delineated by the Portuguese metropolis. In the beginning, words such as “architecture” and “engineering” were far from being used in those commercial spaces. The markets were nothing other than cottages, covered street markets and fragile hangars, built without aesthetic relevance, located in the proximities of ports, rivers or highways. The consuming public was divided between rare visitors and many slaves, who, to buy nutritious goods, domestic use products and other stuff, were forced to endure the bad smell, lack of hygiene and disorganization of the stores. Fish, meats, fabrics, personal hygiene goods, alive stock, construction materials and “escort girls” – one could find a little of everything in the markets, without the proper fiscal control, fixed values or, much less, sales in installments. Some more assiduous customers wrote down their expenses in “notebooks”, whose values were paid off at the end of each month. The markets had to adapt their mess to the new times. In the turning of the 19th to the 20th Century, almost all capitals got a metropolitan air as they rehearsed economical growth. The commercial centers started to be frequented by wealthy people and soon changed into a kind of regional picturesque attraction. However, the central markets had to be restored in the 1980’s, because they meant tourism potential.

ECLETIC ARCHITECTURE It is interesting to see that, in general, the creation of the most famous central markets in Brazil didn’t happen during the period the country was a colony. It was only from the 1900 onwards that the urbanization of the capitals and of the largest cities by the government started to take in consideration those trade points. It is enough to check the inauguration date of some of these markets: in 1912 the first building of the Mercado Modelo de Salvador was finished (the current one, in the square Visconde de Cayru, was done by the end of the 1960’s); in 1911, Sao Braz, in Belem; in 1933, the Mercado Municipal de Sao Paulo; and, in 1929, the Mercado Central de Belo Horizonte. All of those had common architectural characteristics: the eclectic use of European aesthetic movements (from neoclassicist to art nouveau). With that, the markets ended up having certain unthinkable imagery relevance when the country was a colony. After all, why put wood and noble gems, stained glass windows and iron artwork in those centers of popular trade? However, not all rulers thought like this about the 1800. Rare exceptions in that context of late valorization are the markets of Sao Jose and Boa Vista, in Recife, opened during the 19th Century. The first, located in the homonymous neighborhood, resulted from a visionary project of the City Hall of Recife, that looked for inspiration in the market of Grenelle, in Paris, to project an immense structure of iron where worked together – and still do – musicians, poets and popular with fish, fruits, meats and crafts salespersons. The structure of the building came from Europe and was transported to Recife – what makes of Sao Jose the oldest prefabricated building in Brazil. The market of Boa Vista, on the other hand – today a place of intense nightlife and gastronomical activities – is a mystery for the historians: in spite of being reopened in 1946, documents show that its construction, in late colonial

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style, happened in the 19th Century, in time for the place to be used as a slave market. Located near the Santa Cruz Church, the area of the building would also have been used as a cemetery and horse stable of the then chapel. During the 20th Century, the valorization of the popular trade brought with it more investment in the construction of practical markets, with good use capacity. The idea of allying beauty and practicality can be seen at markets such as the Municipal de Sao Paulo, which is decorated with stained glass windows, columns and pillars of classic inspiration, but still is an important center of sales, with more than 12.6 thousand square meters of built area. Or the Municipal de Curitiba, inaugurated in the 1950‘s with a magnificent structure that doesn’t stop growing (the idea is to reach 30 thousand square meters). Apart from the visual and structural aspects, the central markets also went through changes in their trade routine. With more visitors, more residents, bigger demand meant that selling only foods and crafts could be a mistake. The solution was to transform them in “micro shopping centers” with low priced products, where one can find from dusted vinyl records to clothes, furniture, electronic goods and even eat by the kilo. Unthinkable things in the mercantile way of thinking from the 1900, as restaurants, parking spaces and tourist guides, are already found at markets such as the Modelo, in Salvador, or the Central de Fortaleza.

OTHER IDENTITIES With time, the designations of the economy and the establishment of the capitals as centers of services, the markets almost lost their role. Do you want to buy meat? Go to the supermarket. Clothes, fabrics, furniture, crafts? Search for them at the shopping centers or street stores in the commercial neighborhoods. Even the regional food, traditionally served at restaurants in the markets of the North and Northeast, today is in menus of more refined establishments. Everything conspired in favor of the disappearance of such peculiar and popularly consecrated spaces. Even fate wanted the end of the mercantile tradition: remember the five (five!) fires that ruined the Mercado Modelo de Salvador, gradually deforming its structure along the 20th Century, and of the fire that damaged part of the Mercado Sao Jose, de Recife, at the end of the 1980’s. The degradation of Sao Braz and of the Mercado de Ferro, located in the architectural compound of Ver-o-Peso, in Belem, has also to do with the depreciation of spaces destined to the popular trade. But, contradicting the natural tendency of the country, the idea of recovering the degraded markets became a world tendency. That happened with the incentive of governments that “worry about the loss of identity” and search for profit in the so-called historical tourism. Then we got, finally, to the current state of the Brazilian markets: from commercial centers to gastronomical and crafts poles, which entertain visitors and residents with their “organized chaos” and little by little they are taken over by the Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (Iphan – or Institute of Historical and Artistic Patrimony). Renovation works in these markets have been organized in the four corners of the country. The one in Curitiba is in expansion phase and inaugurated, last year, the first fair of organic produce in the country. The one of Sao Braz, in Belem, looks for resources to become a center for cultural attractions. The one in Sao Paulo, got a mezzanine full of restaurants and bars in 2004, and might get an underground parking with capacity for 400 cars. Even nightlife was already experimented – and worked – at the Boa Vista and Sao Jose, in Recife. In fact, these are indications that the curious relationship between Brazilians and their municipal markets goes far and beyond. Be it to buy food for lunch, souvenirs, a net bed for the balcony, the dusted vinyl record or even to drink draft beer, those giants of iron and concrete remain as a remembrance of the historical formation of the Brazilian cities.

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