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ram muito bem. Foi o caso do plano das chaminés brancas, que consistia em pintar de branco as chaminés que soltassem mais fumaça nas regiões industriais de Amsterdã.

Pijamas

e abóboras

Depois de uma igreja, uma cabeça furada e um movimento ciclista igualitário, o Provo desfrutava de uma aprovação popular considerável. Como as eleições para vereador em Amsterdã estavam próximas, eles colocaram um candidato para concorrer. Com 3 mil votos, ele foi eleito, mas não foi somente aquele candidato que apareceu na Câmara dos Vereadores. Como a ideia era infernizar a vida dos políticos, os integrantes do Provo se revezavam, e a cada mês um manifestante diferente do movimento aparecia no local como suplente. Em comum, todos iam de pijamas e descalços. Apesar das hilárias ações políticas, a verdade era que muita gente da Holanda ainda via o Provo como uma espécie de grupo de comediantes e não como um movimento realmente político e artístico. Mas, em 1966, um fato mostrou que não é preciso ser taciturno e sem graça para despertar o lado contestatório de uma cidade inteira. Naquele ano, os Países Baixos estavam todos fascinados pelo casamento da princesa Beatriz com o príncipe Claus von Amsberg. Como vimos recentemente com a celebração real no Reino Unido, uma multidão acampava na frente do local em que seria realiza-

da a cerimônia e comprava lembranças tão horrorosas quanto xícaras com a foto do casal. O Provo, porém, deixou a estúpida fascinação de lado e fez o que qualquer político deveria ter feito: investigou o passado do príncipe. Não demorou uma semana para descobrir que, quando jovem, Von Amsberg servira na Juventude Hitleriana. A revelação foi um choque a uma Holanda que sofreu atrocidades durante o nazismo. A reação popular foi exatamente como o Provo gostava, ou seja, bastante política, mas bem-humorada o suficiente para deixar qualquer realeza completamente constrangida. Quando os recém-casados Beatriz e von Amsberg desfilaram em carro aberto nas ruas, a população, aos berros, jogou na direção deles centenas de pedaços de abóboras. Por incrível que pareça, se deu bem quem levou o vegetal na cara. Von Amsberg conseguiu recuperar o prestígio e se tornou um dos príncipes mais queridos dos Países Baixos. Já o Provo, como é comum nos grupos anarquistas, logo se dividiu em variadas facções e perdeu a força inicial. Tudo bem. Os ideais de liberdade e anarquia já estavam bem postos em Amsterdã. Hoje, a cidade só é assim por causa desses fascinantes baderneiros. Portanto, antes de fazer seu pedido no coffee shop, não se esqueça que a cidade só se tornou o que é hoje porque no passado muita gente precisou afrontar o que eram as regras do jogo. ffwmag! nº 26 2011

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ffwMag # 26 Holanda  

OLHOS NOVOS PARA O NOVO [ Brazillian magazine about fashion, culture and lifestyle ]