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Quando recebemos a visita de Katia Wille e Hans Blankenburgh com um desafio em mente, nem passou pela nossa cabeça que estaríamos frente a frente com uma das missões mais emocionantes desta revista, colocando nossa equipe de criação a correr contra o tempo para produzir uma edição tão criativa. Foram 20 dias de intensa imersão em solo holandês, com 13 pessoas na comitiva, quatro produtores locais e muita perna malhada nas bicicletas de Amsterdã. Mas valeu a pena! Em um momento em que o Brasil ensaia uma ascensão econômica, não custa dar um mergulho em um dos exemplos mais sólidos e duradouros de capitalismo do planeta. Para se ter uma ideia, a Companhia Holandesa das Índias Orientais, idealizada por um grupo de investidores privados, foi formada em 1602. Oito anos depois, esse mesmo grupo lançou o conceito do que se compreende hoje como ações, por meio da divisão do seu capital em quotas iguais e transferíveis. São mais de 400 anos de capitalismo e todas as relações daí derivadas. Um passeio no Rijksmuseum, que passa neste momento por uma grande reforma, ilustra bem esse quadro de forma clara. Ali, não vemos retratados reis, rainhas, príncipes e duques. E, sim, mercadores, latifundiários, comerciantes e damas da sociedade. O efeito de séculos de mentalidade burguesa e um enorme interesse em iniciativas inovadoras. A nós, mentes criativas, chamou a atenção o resultado. O Estado, na Holanda, está fortemente comprometido com tudo o que de inovador possa haver, da tecnologia às artes. Ali, criadores são financiados pelo governo não como forma de apoio ou esmola, mas como interesse da nação, no que eles compreendem ser a ponta de lança do que forma a identidade de seu povo. Só para exemplificar o que vimos por lá, o resultado da exposição dos trabalhos dos alunos da Design Academy de Eindhoven de 2008 garantiu à escola uma cota extra de apoio governamental de 1 milhão de euros pelos quatro anos seguintes. Enquanto o governo não encontra novo destino para imóveis, dezenas de artistas ocupam prédios desativados pagando aluguéis simbólicos. Outros tantos ocupam galpões de fábricas em cidades próximas a Amsterdã, em contratos de dez anos, para aquecer a região que, ao fim do contrato, vai se tornar uma vila residencial. A forma encontrada para desvitalizar o Red Light District, área conhecida por ser um ponto tradicional de prostituição e distribuição de drogas, foi alugar imóveis e colocar ali jovens estilistas de alta-costura. Entre uma vitrine e outra, em que meninas se oferecem de biquíni, você pode ver um vestido de noiva ou um longo de seda. Todo esse esforço porque, incentivando mentes criativas, se constrói a nova imagem da Holanda no mundo. E não há outro lugar em que o design tenha tanta razão de existir. Os holandeses voam alto, vendem e exportam realidades que a maioria dos países ainda nem sonhou. Tudo com um olho no dinheiro e outro na sustentabilidade. E qual outro povo deu cara nova à própria natureza? Por meio de diques de contenção e canais desenhados na prancheta séculos atrás, a Holanda melhorou o trabalho divino. De homem para homem, mas sem vaidades porque, como já se sabe, a natureza é mãe. Nessa viagem ao mundo maravilhoso do amanhã esbarramos em muitos personagens que produzem o sonho de consumo de um mundo pós-politicamente engajado. Um pulo de volta aos anos 1960 e contamos também a história do grupo que, por meio de humor e transgressão, fez uma revolução no comportamento do jovem holandês, ajudando, inclusive, a fazer de Amsterdã a cidade mais “chapada” do mundo. A moda é um delicioso passeio pelos canais com clima de revolução flower power. A roupa brasileira vista de outro ponto de vista. Ainda no tema, Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin, dupla e casal, falam sobre fotografia de moda e paixões. Nós vimos, compreendemos e aprovamos. E esperamos que com este novo número da ffwMAG! a gente consiga dividir um pouco de tudo isso com você. Paulo Borges Publisher 34

Foto: felipe morozini

V elho mundo, c onceito n ovo!

ffwmag! nº 25 2011

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6/3/11 11:51 AM

ffwMag # 26 Holanda  

OLHOS NOVOS PARA O NOVO [ Brazillian magazine about fashion, culture and lifestyle ]