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não tardou para se tornarem também um símbolo holandês, que sintetizava o domínio da natureza pelo homem. Atualmente, os moinhos de vento foram substituídos por uma tecnologia avançada similar, que utiliza o vento para gerar energia elétrica e se encarrega de manter o sistema funcionando. Diversas áreas, principalmente entre 1600 e 1700, passaram por um processo de drenagem. Geralmente, os terrenos artificialmente recuperados eram formados pelo que se chamou de pôlderes, que, ao longo dos séculos, constituíram a forma mais importante da configuração espacial da Holanda. Um quinto dos Países Baixos é formado por pôlderes e, provavelmente, mais de 3 mil deles foram construídos desde o século 16. Alguns pôlderes são gigantescos, com mais de 50 mil hectares; outros são bem menores, do tamanho de uma pequena propriedade. Tradicionalmente, um pôlder é construído a partir de diques que contornam o pedaço de terra. Inicia-se então um longo e complexo processo de drenagem. Para o bombeamento das águas é necessária a construção de canais para escoamento. Esses canais estreitos desenham o formato da paisagem e se relacionam com canais mais largos, usados para navegação de pequenos barcos de transporte de carga. O conjunto de canais de drenagem, abastecimento e hidrovia formam o sistema hídrico fundamental dessa arquitetura do território. Os pôlderes são feitos por meio de um trabalho secular e anônimo. Mesmo construções com mais de 400 anos não são consideradas obras prontas, como uma espécie de livro aberto, sempre em transformação. A terra, porém, nunca deixa de ser produtiva desde os primeiros anos depois de sua drenagem inicial. Esse longo processo faz com que a construção do solo seja necessariamente um trabalho coletivo: não há uma única autoria por trás do desenho preciso dessas gigantescas estruturas.

as cidades

do

amanhã

O conjunto territorial de terras drenadas do mar e dos rios formulou uma verdadeira arquitetura na escala do país. Existiam escolhas

práticas – estéticas, funcionais e construtivas ­­– como em um projeto de um edifício, de um gigantesco edifício. Como seriam desenhados os canais? Como eles seriam feitos? Como seria feita a divisão das terras? Qual seria o traçado dessa divisão? Por onde passariam os sistemas de transporte – a hidrovia, a ferrovia e a rodovia? Onde estariam as cidades? Onde estariam as plantações? A paisagem é composta por diversas escolhas humanas que resultam em um objeto totalmente artificial. No decorrer dos séculos, a imagem dessas terras construídas se transformava também em um monumento da Holanda. O pensamento estético que permeava o desenho dos novos territórios se tornou então uma referência simbólica para a identidade do lugar. Assim como os monumentos históricos espalhados pelo mundo, a paisagem construída por um pôlder é vista pelo holandês como uma identidade da sua terra. Alguns projetos foram considerados particularmente importantes para a construção do saber-fazer coletivo. O pôlder Beemster, localizado ao norte de Amsterdã, começou a ser construído na década de 1610 e sintetizou muito dos conhecimentos tecnológicos desenvolvidos até então. O lugar é também uma importante referência estética com seus canais arborizados e sua divisão do solo desenhada com quadrados definidos. Em 1999, Beemster foi reconhecido como um dos Patrimônios Históricos da Unesco, com a justificativa de que sua criação “marca um grande passo em direção a inter-relação entre a humanidade e a água em um período crucial de expansão social e econômica”. Os pôlderes, canais, bombas e diques hoje formam uma complexa rede de controle hídrico na Holanda. Mesmo no século 20, reeditando uma velha história holandesa, uma grande inundação devastou parte do território e, desde então, houve um intenso trabalho de aprimoramento do sistema. As grandes revoltas marinhas acontecem ciclicamente a cada centena de anos e dão continuidade à luta do homem contra as águas ou, de fato, a sua luta para a construção de um espaço habitável e, portanto, artificial. ffwmag! nº 26 2011

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ffwMag # 26 Holanda  

OLHOS NOVOS PARA O NOVO [ Brazillian magazine about fashion, culture and lifestyle ]