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Um

pôlder é construído a partir de diques que contornam o pedaço de terra .

I nicia-se

então um longo e complexo processo de drenagem .

Para

das águas é necessária a construção de canais para escoamento .

o bombeamento

Esses

canais

estreitos desenham o formato da paisagem e se relacionam com canais mais largos , usados para navegação de pequenos barcos de transporte de carga .

O

conjunto de canais de drenagem , abastecimento e hidrovia formam

o sistema hídrico fundamental dessa arquitetura do território

“Deus fez o mundo, e os holandeses, a Holanda” diz um antigo provérbio holandês sobre a importância do trabalho humano para a construção do seu território. A transformação da natureza é uma necessidade vital para a existência da Holanda. O homem fez com que áreas alagadas pelo mar e pelos rios se tornassem terras férteis para plantações e para a construção de cidades. Na era da sustentabilidade, o domínio da natureza na Holanda é uma lembrança para a humanidade da necessidade de transformação da paisagem pelo homem para nossa existência no planeta. E se nossa sobrevivência dependesse não de um retorno à vida no campo ou na floresta, mas, sim, de uma total artificialização da natureza? Nenhum lugar está naturalmente pronto para ser habitado sem uma profunda transformação tecnológica. A nossa existência no mundo depende disso – é o que sempre fizemos e continuamos fazendo: transformar a natureza em uma nova natureza. Ao contrário do que poderia se supor, a paisagem bucólica holandesa é, na verdade, uma construção humana. Algumas estimativas apontam que mais da metade do território holandês se encontra abaixo do nível do mar, e essa característica geomorfológica impôs a necessidade de um planejamento milenar de construção de terras. Assim, a natureza holandesa foi pensada como uma gigantesca arquitetura: o design e o planejamento são necessários para a subsistência dos Países Baixos.

O

pântano

europeu

Originalmente, a região em que hoje está parte da Holanda era uma área encharcada, formada principalmente por uma espécie de pântano de turfa, um material vegetal parcialmente decomposto. A região acumulava sedimentos de dois principais rios, o Mosa e o Reno, e configurava uma foz plana e alagada que é chamada normalmente de delta. O traçado dos rios nessa foz era volátil: dependendo da época do ano ou do regime das águas, poderia assumir diferentes desenhos. A imprevisibilidade desse território, somada às sucessivas 170

enchentes fluviais e marítimas, acabavam por inviabilizar o estabelecimento humano na região. Ao subir mesmo que poucos metros, os rios poderiam devastar facilmente enormes áreas da planície. Além disso, o mar adentrava na região, geralmente por meio de fortes tormentas que rompiam os diques naturais formados pelo acúmulo de sedimentos. Para que essa região pudesse ser permanentemente ocupada, ela precisaria ser transformada por uma complexa e eficiente rede de proteção e gerenciamento hídrico. E isso foi feito. Há mais de mil anos, os holandeses começaram a empregar técnicas rudimentares de drenagem e aterros. Com os meios disponíveis na época, utilizou-se a própria turfa seca para construir pequenos diques que poderiam proteger uma área de terra. Tratava-se de um método precário e muito suscetível a problemas, alguns deles inusitados, como a perfuração das barreiras por animais que faziam sua toca na estrutura. Até o século 14, no entanto, o traçado dos rios no delta holandês foi totalmente transformado pelo homem, por meio de barragens. Ainda que de forma embrionária, a natureza começava a ser dominada.

O v ento

a

favor

A ocupação na região permaneceu insípida até o século 16, quando o desenvolvimento e aprimoramento de algumas tecnologias possibilitou uma sólida expansão do território humano em direção ao mar. Além da construção dos diques, o uso de moinhos de vento foi fundamental para a drenagem das águas. Os moinhos proviam a energia necessária para bombear a água das áreas resgatadas do mar, em um trabalho permanente. A energia eólica era uma fonte abundante e renovável que possibilitaria que a terra deixasse de ser encharcada para se tornar agricultável e habitável. O vento funcionava também como uma matriz energética confiável, uma vez que nunca deixaria de soprar e a água estaria sendo sempre empurrada de volta para o nível do mar. Aos poucos, os moinhos de vento começaram a se tornar presença obrigatória na paisagem transformada da Holanda e

ffwmag! nº 26 2011

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ffwMag # 26 Holanda  

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