Issuu on Google+

Nº 25>>2011>>R$ 22,90

ROGER BALLEN CHRIS BURDEN BEYONCÉ SINEIROS KILIAN ENG PAT T i S M I T H LAURA LIMA GARETH PUGH SHIGERU BAN K U RT CO B A I N BRIAN MOSS B I L L I E H O L I D AY S téphane F ugier sigur r ó s n E Y M ATO G R O S S O TAT U AG E M BOB WOLFENSON J AC K I E N I C K E R S O N TIM MAIA

corpo santo alma pagã

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

Nº 25 >> 2011 US$ 12,90

FFW25_Capa_ok-RF-V2.indd 1

€ 6,00

5/5/11 8:12 PM


O BOTICARIO.indd 2

5/5/11 7:28 PM


O BOTICARIO.indd 3

5/5/11 7:29 PM


ANIMALE inverno 2011 FFW MAG.indd 2 ANIMALE.indd 4

5/5/11 7:32 PM


WWW.ANIMALE.COM.BR ANIMALE.indd 5

29/04/11 16:52 5/5/11 7:32 PM


WWW.ALPHORRIA.COM.BR ALPHORRIA inverno 2011 FFW MAG.indd 2 ALPHORRIA.indd 6

5/5/11 7:33 PM


4/29/11 5:40 PM ALPHORRIA.indd 7

5/5/11 7:33 PM


SUMÁRIO

28 O cotidiano efêmero Estilistas, artistas e designers fazem da arte contemporânea um território poroso. Sinais de um novo tempo? 36 Kilian Eng e o mundo subjetivo Ficção científica, renascença, barroco e arquitetura. Viaje com a gente ao mundo surreal do artista gráfico sueco

140 Põe o espírito na balança Um experimento centenário é a única tentativa de provar que, sim, a alma humana existe e tem até peso 142 Meandros de uma morte chinesa Na China das antigas tradições, passar desta para melhor é uma verdadeira – e curiosa – prova de fogo 148 A última pergunta Em tempos de discurso ecofriendly, pode o homem escapar da revolução futurista do “eu sintético”?

44 No ritmo dos semideuses Elegemos os astros que deliram com o corpo e os que lamentam com a alma. Purgatório é o mundo da música!

150 As divinas badaladas No alto das torres das igrejas de São João del Rei, na antiga Rota do Ouro de Minas Gerais, há rapazes que se arriscam para manter viva a musicalidade dos sinos

54 A insustentável leveza do ser Hipermusculosos, os corpos do fotógrafo Brian Moss fazem com que as esculturas da Grécia pareçam tão franzinas...

160 Jackie Nickerson no confessionário A fotógrafa invadiu conventos para mostrar o cotidiano de homens e mulheres abençoados por Deus... E solitários por natureza

64 CAPÍTULO II 66 A anunciação Moda! O inverno 2011 vem embalado pelas entrelinhas assanhadas de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós

172 Onde Encontrar 173 English Content

126 O boom boom das brasileiras Desde que o termômetro do mundo da moda começou a subir, as esculturais brasileiras só fizeram a festa

186 Última Página Do biscoito da sorte dos chineses ao Biscoito Globo dos cariocas, o legal é experimentar a alma de um povo

132 CAPÍTULO III 134 Identidades à flor da pele Não há nada de errado e não há nada de perigoso: tatuar é transcender da mesmice que é a pele nua e crua

Capa: Carla Monfort (Oca Models) veste casaco Printing,

8

camisa Lita Mortari, saia Vitor Zerbinato, sapato Porto Free Foto: Bob Wolfenson. Beauty: Catia Marques (Capa Mgt) Tratamento de imagem: RG Imagem

Stéphane Fugier

16 CAPÍTULO I 18 O mais profundo é a pele As imagens do nova-iorquino Roger Ballen fazem refletir por meio do estranhamento. Zona de conforto não é com ele

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_sumário copy_RF_V2.indd 8

5/5/11 7:29 PM


Job: 255262 -- Empresa: Burti -- Arquivo: 255262-18765-TD-mag-maio_pag001.pdf TUFI DUEK.indd 9 Registro: 22965 -- Data: 12:40:12 18/04/2011

5/5/11 7:33 PM


colaboradores

Bob Wolfenson

Bruno Moreschi

Catia Marques

Fotógrafo brasileiro old school, transita por várias disciplinas: “Advogo mesmo a ideia de estar em trânsito” | Dos memoráveis ensaios de moda até o alternativo livro Apreensões, editado pela Cosac Naify, no qual mostra apreensões feitas pela polícia | Corpo são: “Corro muito” | Alma em paz: “Humildade e paciência para esperar o espírito se elevar”

Jornalista e artista plástico, publica textos em revistas e já expôs seus desenhos e fotografias na Bulgária, em Londres e, recentemente, no Museu de Arte de Goiânia | Corpo são: “Medito que estou exercitando. Infelizmente, não tem funcionado” | Alma em paz: “Tento imaginar que os milhares de carros de São Paulo são vibrações positivas. Esses dias, quase fui atropelado”

Maquiadora, começou na carreira como assistente de Duda Molinos, que, segundo ela, “foi um professor muito generoso”. Está há três anos em carreira solo e assina a beleza da moda desta edição | Corpo são: “Será que eu deveria fazer alguma coisa pra deixar meu corpo em forma?” | Alma em paz: “Encontro tudo que quero aqui: www.espacoalphalux.com.br”

Gabriel Marchi

Gonçalo Junior

Jurandy Valença

Jornalista, se diz viciado em música. É editor-assistente do site Glamurama e já colaborou com a Folha de S.Paulo e as revistas Playboy, Rolling Stone e Simples | Corpo são: “Alimentação saudável e o máximo de sono” | Alma em paz: “Música 24 horas, discotecar em um clube fervido e receber amigos em casa”

É jornalista e escritor. Lançou, entre outros livros, Alceu Penna e as Garotas do Brasil, sobre o renomado ilustrador de moda mineiro | Corpo são: “Andar. E muito. Moro em Campos Elísios, São Paulo, e faço tudo em um raio de 5 quilômetros a pé” | Alma em paz: “Escrever. Adoro escrever livros. Já publiquei 16. E adoro ler romances, biografias e ver filmes”

Artista, curador e jornalista, estudou engenharia química e jornalismo em Maceió, onde nasceu. Em 1990 se mudou para Campinas para morar e trabalhar com Hilda Hilst. Publicou livro, trabalhou com moda, editou site e foi diretor da Oficina Cultural Oswald de Andrade | Corpo são: “Comer e dormir bem, andar e fazer sexo” | Alma em paz: “Estar com os amigos e rir”

Silas Martí

Stéphane Malysse

Vitor Angelo

Jornalista e crítico de arte, escreve sobre artes visuais, arquitetura e design para o jornal Folha de S.Paulo e é correspondente em São Paulo do Art Newspaper, de Londres, entre outras publicações nacionais e internacionais | Corpo são: “Mantenho a forma andando a pé por São Paulo” | Alma em paz: “Olho para toda a arte que vale a pena ser vista”

Francês, é professor e doutor em Arte e Antropologia Aplicada (EHESS) na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Escolheu o Brasil como campo de pesquisa em 1995 | Corpo são: “Durmo e como muito bem, com regime francês e matéria-prima brasileira” | Alma em paz: “Vou ao cinema e me coloco no outro lado da tela numa catarse esquizofrênica”

Jornalista e colunista, é editor do site Vírgula e escreve um blog para o Folha.com sobre homossexualismo e diversidade sexual, o Blogay | Corpo são: “Não tenho o corpo em forma porque não evito o ‘pão nosso’” | Alma em paz: “Mergulho nos excessos terrenos, pois ‘o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria’. Estou com o poeta William Blake!”

10

ffwmag! nº 24 2011

FFW25_colaboradores2-RF-V1.indd 10

5/5/11 7:31 PM


GALERIA MAIS.indd 11

5/5/11 7:34 PM


Publisher Paulo Borges Conselho Editorial Graça Cabral e Paulo Borges Diretora de Criação Graziela Peres Redator-chefe Zeca Gutierres Editor de Moda Paulo Martinez Diretora de Arte Renata Meinlschmiedt Designers Patricia Teruya e Maria Carolina de Lara Produção Executiva Mauro Braga e Renata Jay Assistentes de Produção Nuno Garcia e Tatiana Palezi Produção de Moda Larissa Lucchese e Juliana Cosentino Produção Gráfica Jairo da Rocha e Daniel da Rocha Revisão Luciana Maria Sanches Tradução Leticia Lima Publicidade Letramidia Assistente de Publicidade Tânia Leone Colaboradores Aecio do Amaral, André Vieira, Bob Wolfenson, Bruno Moreschi, Caiuá Franco, Catia Marques, Erick Diniz, Gabriel Marchi, Gonçalo Junior, Jurandy Valença, Luis Rossi, Maura Soares, Pedro Bonacina, Renata Terepins, Silas Martí, Stéphane Malysse, Vitor Angelo A ffwMAG! (ISSN 1809-8304) é uma publicação da Editora Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Todos os direitos reservados. Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do conteúdo editorial. Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores e não refletem a opinião da revista. Operação em bancas Assessoria Edicase www.edicase.com.br Distribuição exclusiva em bancas FC Comercial e Distribuidora S.A. Pré-impressão Retrato Falado Impressão Ipsis A Lumi 05 não se responsabiliza pelo conteúdo dos anúncios publicados nesta revista nem garante que promessas divulgadas como publicidade serão cumpridas. Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Av. 9 de Julho, 4927/4939, Torre Jardim (Torre A) 9º andar, Pinheiros, São Paulo, SP – CEP: 01407-200 – Tel. 55 11 3077-4877 ffwmag@luminosidade.com.br

12

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_expediente copy_RF_V1.indd 12

5/5/11 7:32 PM


DESIGN SP.indd 13

5/5/11 7:35 PM


Um é subjetivo e depende da crença e da percepção de cada um. O outro é real porque está ao nosso alcance, nos move, pode ser tocado, explorado e, por isso mesmo, nem damos tanta importância a sua santidade. Mas ambos estão dentro de um único ser, o nosso, separados pelo mistério de todas as coisas e pela ignorância que temos de nós mesmos. Então, como tratar de corpo e alma com leveza? Levar às páginas desta revista temas tão distintos, tão distantes e que, ao mesmo tempo, são unidos por uma liga que, literalmente, nos liga. A alma do artista, com certeza, foi o primeiro “tema” que caiu feito uma ficha porque, mais que qualquer outro ser humano pensante, o artista vive para explorar as nuances da alma e, muitas vezes, precisa encontrar suas respostas por meio do inferno da própria carne. A fotografia do nova-iorquino Roger Ballen, por exemplo, é a mais lúcida forma de olhar a alma humana por meio do corpo, de sua degradação e de suas virtudes. E que melhor forma de alcançar o plano superior, ou inferior, do que a música e seus personagens irreverentes? Elegemos os artistas que deliraram com o corpo e os que lamentaram com a alma. No hall da fama, drogas, sexo e todo tipo de gênero musical. Brian Moss é o norte-americano que, depois de abrir uma academia de ginástica em Nova York, virou fotógrafo de arte retratando amigos fisiculturistas. Mas, sabendo onde pisa, por se tratar de um deles, mostra nas entrelinhas que, por debaixo de quilos e quilos de músculos e veias, há seres humanos como nós, em busca de atenção. Ah, sim, a moda desta edição é uma viagem meio santa, meio pagã, inspirada na obra de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Poesia, provocação e, claro, muita moda inverno para embalar os sonhos surreais e os delírios tropicais da gente. Depois, pedaços de peles tatuadas, de presidiários da Polônia, mostram códigos a serem decifrados. Ou não, como mostra o nosso artigo. Lindas, e com uma luz celestial inspirada nos grandes mestres da pintura, as imagens da norte-americana Jackie Nickerson mostram o dia a dia de conventos ultrafechados, o modo de vestir e viver de quem vive ali. Seguindo adiante nessa viagem astral mostramos como os chineses conduzem seus exuberantes rituais de morte e como um grupo de rapazes de Minas Gerais mantém viva uma tradição do Brasil Colônia: a musicalidade dos sinos de São João del Rei, que já virou patrimônio imaterial brasileiro. E por aí vai... Paulo Borges Publisher 14

Stéphane Fugier

De corpo e alma bem abertos

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_cartaPaulo-RF.indd 14

5/5/11 7:33 PM


anuncio_RAP_23x30_abr11.indd 15

5/5/11 7:35 PM


CAPÍTULO I

O mundo, tão mundano: almas perdidas, território d i s t a n t e , Ro g e r B a l l e n , Á f r i c a do Sul / Hype efêmero, mundo contemporâneo, arte, design, moda: tudo poroso /As divas, os reis, efeitos colaterais, suicídios, overdoses, Elvis, Patti Smith, Tim Maia: pop! / Co r p o s i n f l a d o s , e g o s , voyeurismo, espírito de competição. Não só aparência: humor e coração.

Stéphane Fugier e o olhar do outro: Não tente interpretar a arte de Stéphane Fugier ou pedir que ele interprete a própria arte. O artista francês produz fotografias cheias de simbolismo que, propositadamente, ganham diferentes significados dependendo dos olhares alheios. Foi justamente por meio de uma interrogação que Fugier encontrou o fio da própria 16

meada: “Como envolver as pessoas em meu trabalho, como uma forma de lutar contra a solidão de um estúdio de arte? A resposta para mim foi fotografar pessoas. Mas eu não queria algo moderno, então trabalho com técnicas e materiais mais básicos”, explica Fugier, que prefere as imagens em preto e branco por considerálas “trabalhos de artesão”.

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 16

5/5/11 7:33 PM


foto Stéphane Fugier

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 17

17

5/5/11 7:34 PM


Eug ene on the Phone, 2000. N a p รกgina ao l ado, Pr ow ling , 2001

18

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 18

5/5/11 7:36 PM


C O R P O S or q u e s t r a d os

O MAIS PROFUNDO É A PELE

“Há muito mais luz do que pensamos no lado escuro da vida”, diz o nova-iorquino Roger Ballen, fotógrafo da realidade e da subjetividade

por Jurandy Valença fotos Roger Ballen

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 19

5/5/11 7:36 PM


C ontempla tion, 2004

20

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 20

5/5/11 7:37 PM


O n e A r m G o o s e , 2 0 0 4 ; F r ag m e n ts , 2 0 0 5 ; H e ad I ns ide Shir t, 2001; R eclus e, 2002

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 21

21

5/5/11 7:38 PM


Br oken Ba g , 2003

22

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 22

5/5/11 7:38 PM


Há, sem dúvida, um paradoxo na frase do poeta Paul Valéry: “O mais profundo é a pele”. Afinal, nela o profundo está localizado justamente no mais superficial, subvertendo a ideia de que o que é mais importante está situado abaixo da pele, na profundidade; delegando à superfície, à epiderme, o que é superficial, desprezível. Ao observar as fotografias de Roger Ballen esse paradoxo vem à tona. Em suas imagens vemos corpos e sua alma, há toda uma superfície de coisas, mas, além disso, há um território interior que, mais que visto, é sentido. Roger Ballen comprou sua primeira câmera aos 13 anos. Nesta mesma época, os anos 1960, a mãe do artista trabalhava para a agência internacional de fotografia Magnum, e, desde cedo, ele teve a oportunidade de conviver com grandes nomes da fotografia mundial e conhecer in loco seus trabalhos. A partir daí, nunca mais parou e construiu, nos últimos 30 anos, uma obra perturbadora que tem sido exibida em importantes instituições e museus no mundo inteiro como Centro Georges Pompidou, em Paris, Museu Victoria and Albert, em Londres, e o Museu de Arte Moderna de Nova York, entre outros. A maioria de seus projetos demora cinco anos para ser finalizada, para, depois, ser publicada em livros. Ballen nasceu em Nova York, em 1950, mas adotou há 30 anos a maior cidade da África do Sul, Johannesburgo, para viver e trabalhar. Ele começou fotografando pequenas comunidades rurais do país e – entre o começo da década de 1980 e 2008 – produziu várias séries de fotografias que ficam no limite entre o fotojornalismo e a fotografia artística. Autor de oito livros, ele mantém uma fundação com seu nome dedicada ao ensino da fotografia na África do Sul, a Roger Ballen Foundation. Para quem aprecia fotografia contemporânea, é impossível olhar as fotos de Ballen e não se lembrar do trabalho da fotógrafa Diane Arbus. E mais do que o fato de ambos colocarem em foco pessoas ou situações “marginalizadas”, está o voyeurismo explícito, a subjetividade e as texturas, não só físicas como psicológicas. Roger Ballen segue dois princípios em sua obra: sempre fotografar em preto e branco e sempre usar o flash. E aí surge um paradoxo, uma vez que quanto mais luz ele submete a seus personagens, mais imersos na escuridão, nas trevas, eles estão; eles sempre nos negam algo que está escondido até deles mesmos. Como o próprio fotógrafo diz: “Para mim, o lado escuro sempre tem sido uma fonte de luz e energia. Eu sempre digo às pessoas que elas não podem encontrar a luz sem conhecer a escuridão”. A sensação que se tem vendo suas fotografias é que o sujeito ou o objeto se encontram confinados a um ambiente não só isolado do mundo exterior, mas de si mesmo. Pessoas, animais, sombras, paredes sujas, camas, sofás, desenhos, rabiscos e grafismos feitos em diversas superfícies, lixo, fios e arames são temas e acessórios recorrentes em seu trabalho. Suas fotografias criam espaços claustrofóbicos. O espaço é limitado a um quarto, uma sala, um canto, uma parede. Um mundo no qual predomina o caos, em que a realidade e a subjetividade se misturam. Na série Drops: Small Towns of South Africa (1986), o olhar

do fotógrafo se direcionou para a arquitetura e os interiores, mas foi a série Platteland: Images from Rural South Africa (1994) que colocou o nome de Ballen em evidência. A série causou forte impacto na época, com imagens de pessoas pobres e socialmente excluídas, escondidas pela propaganda criada pelo governo do apartheid, que não queria mostrar o lado B da realidade naquele período. Ballen as exibia em toda a sua precariedade, trazendo à luz a existência de pessoas que estavam à margem, além da vida comum, “normal”. As mais variadas composições e texturas, pessoas, objetos e animais compõem as séries Outland (2001) e Shadow Chamber (2005). As fotografias desta última série apresentam um mundo em que a abundância de desenhos, grafismos e formas geométricas dominam. Há algo de primitivo nela. Ballen se volta para o tema da natureza-morta e reúne animais, objetos e os mais variados signos visuais. Na construção de algumas imagens da série Outland, cujo tema é Portrait, a figura humana ou partes dela é o foco principal, mas o que está ao seu redor é tão importante quanto. Todo o entorno, o cenário, os objetos que a cercam, tudo é o “retrato”. Há uma aparente normalidade doméstica em algumas cenas fotografadas; um dado realístico evidente, mas, ao mesmo tempo, um estranhamento frente à realidade que se torna algumas vezes teatral. Afinal de contas, o que estamos vendo é real ou ficção? Em muitas das fotos de Ballen as situações são encenadas com atores e modelos que interpretam seus personagens e suas narrativas fotográficas. Mas mesmo assim, ao olhar essas imagens, nossa primeira impressão é que são absolutamente reais, registros de uma realidade quase surreal. “Para mim, meus melhores trabalhos são aqueles que eu não compreendo completamente”, afirma o fotógrafo. O que Ballen faz é, de certa maneira, trazer a escuridão de volta ao foco. Como ele mesmo diz, “há muito mais luz do que pensamos no lado escuro da vida”. E esse lado que ele nos mostra é habitado por marginalizados, deslocados, quiçá alienados e incapazes de lidar com o caos a sua volta. Há pobreza, doença, sofrimento, dor, mas ainda assim há beleza. Roger Ballen tem um léxico visual muito particular. Não são só questões estéticas que permeiam sua obra, mas – e principalmente – culturais, sociais e psicológicas. Sua arte não envolve só a fotografia, mas a literatura e a pintura. O senso do absurdo da vida, da existência, está presente no trabalho do fotógrafo, que ele enxerga como um diário que “registra o modo como eu vejo as coisas todos os dias”, diz. Assim como os personagens de Samuel Beckett, Ballen diz que estamos condenados a viver neste mundo sem nenhuma alternativa, a não ser nos perguntar por que estamos aqui, de onde viemos e aonde estamos indo. Suas fotografias nos colocam em um terreno desconfortável – árido, inóspito, sujo. Tão irreal que parece real. Ou vice-versa. Ballen lhes concede uma atmosfera de estranhamento e nos convoca para fora da nossa zona de conforto. Parece que suas fotos nos pedem a mesma reação que Beckett esperava de quem assistia a suas peças: “Espero que a peça atue sobre os nervos da plateia, não sobre seu intelecto”. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 23

23

5/5/11 7:38 PM


Ro o m of the Ninja T ur tles , 2003

24

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 24

5/5/11 7:39 PM


M e t am o r p h o s i s , 2 0 0 6 ; C o n c e al e d , 2 0 0 3 ; H e ad B e l o w W ir es , 1999; Skew Ma s k, 2002

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 25

25

5/5/11 7:39 PM


P o r t r ai t o f S l e e p i n g G i r l , 2 0 0 0 ; F ac to r y W o r k e r H o l d i n g P or tr a it of Gr a ndfa ther , 1996; P u p p i e s i n F i s h t a nks , 2000; Bew ilder ed, 2003

26

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 26

5/5/11 7:39 PM


Mimicr y, 2005

Roger Ballen: rogerballen.com ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_RogerBallen copy_RF_V3.indd 27

27

5/5/11 7:39 PM


fotos: Eduardo Eckenfels

Em Homem= Ca rn e/M ul her= Ca rn e - M a rra , o b r a d e 1 9 9 6 d a ar t i s t a L aur a L i m a, d o i s h o m en s s e en fr e n t am p r es o s p or u m c ap u z na c ab eç a. É o m esm o m o v i m e nt o d e bo i s q u e se co nf ro nt a m en t r elaç an d o o s c h i fr e s , um at o d e ag r e s s ão que s e e s g o t a n a fr i c ç ão dos c or p os, sem dan o pon t u a l . G a st a m t o d a s a s f o rça s e m u m em b at e s em r um o , que d e s v i a p o r i n s t an t es o p o n t o fulc r al d o e s p aç o em qu e acon tec e par a a a rq u i t e t u ra e f ê m e ra d e co rp o s e m aç ão

28

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 28

5/5/11 7:41 PM


A l ma s d e s ca r t á v e i s

O Cotidiano Efêmero Poroso, breve, mas contemporâneo...

∂ por Silas Martí

Um a m u l he r d o rm e so b e f e i t o d e u m a pí l u la d e D o r m o n i d , d o s e d e 1 5 m g . H o m e m = C ar n e / M u l h e r = C ar n e - D o pa da , ob r a de 1997 da ar tista , t a m bé m su bv e rt e a a rq u i t e t u ra d ur an t e o p e r í o d o d o s o n o , j á que a d o p ad a e s t á li g ad a à p ar e d e p o r u m tu b o de c r oc h ê. É um a es pé ci e d e co rd ã o u m bi l i ca l e nt re o e s p aç o e s e u c o n t eúd o que v i v e e r es p i r a

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 29

29

5/5/11 7:41 PM


Durou pouco, mas os afrescos que desde o século 14 adornam o teto da igreja de Orsanmichele, em Florença, ganharam vida na última temporada italiana de moda. Gareth Pugh, o estilista britânico, inverteu o jogo tradicional dos desfiles e mandou pelos ares sua coleção primavera-verão. Projetados no teto da nave central, modelos desfilaram em um vídeo por dez minutos elásticos, que se estenderam no tempo desafiando a natureza perene dos arcanjos que há 700 anos assistem imóveis às missas. Se moda, por definição, sai de moda, é esse o ponto que Pugh tentou enfatizar com um desfile que de sólido nada tinha. Foram minutos de imagens sem carne, corpos flutuantes, tecidos armados em composições plásticas sobre esqueletos holográficos. No fim, modelos assumem a pose estoica de seus pares plasmados no gesso da cúpula, substituindo a hora em que todos voltam das coxias para uma última espiada nos looks. Não é o caso, já que mais do que as vestes da estação, é o efêmero que está na moda. Talvez por serem mais frágeis, à mercê dos segundos que deslizam sem dó pelos ponteiros, essas são imagens mais contundentes. Na coleção de Pugh, figuras tentam ir além do plano terreno, em uma espécie de ascese interrompida ao firmamento do clássico. Mas não têm asas as figuras, são bolsas infláveis, pretas como sacos de lixo terrenos, que se moldam no acaso da tempestade. É uma moda mutante, esculpida do pó faiscante da memória, a geometria do momento e seus ângulos trêmulos de carne prontos para despencar em um abismo negro. Por pouco também não desapareceu nas fendas da terra a 30

igreja de papel de Shigeru Ban. Quando um terremoto arrasou a cidade de Kobe, sobrou no horizonte uma única construção, justo a que fora projetada para durar menos. Esse arquiteto já tinha enxergado beleza em tudo o que é poroso. Suas construções de papel, feitas de acordo com a ocasião, duram o tempo necessário para a execução de suas tarefas, sem medo de estender também à arquitetura a natureza descartável da rotina. Em um diálogo com a tradição japonesa, de salas de papel vegetal e biombos translúcidos, Ban entendeu a força de tudo aquilo que se desmancha, mesmo resistindo aos mais violentos dos terremotos, como se papel aguentasse mesmo mais solavancos do que o concreto das construções. Tem algo a ver com o fulgor breve das cerejeiras em flor, que tornam vermelho o horizonte só por duas semanas, mas nem por isso deixam de dar o tom de toda uma estação japonesa. Papel, restos de plástico e tudo que não tarda a ser descartado parecem pautar um conceito de resistência visual, uma arquitetura maleável para tempos violentos. Isso porque hedonismo nunca está dissociado da dor. Em um paradoxo visual, o artista argentino Jorge Macchi exalta a potência do obsoleto indo na direção contrária aos templos de papel do arquiteto japonês. Uma sala que construiu tem no centro um globo espelhado, cenário de festa. Mas, nas paredes, os raios de luz refletidos viram rasgos violentos, cortes na pele da construção que se dilatam no tempo contra sua própria natureza. E tudo não passa de uma arquitetura fictícia, atravessada por outros reflexos de qualquer foco de luz real presente na sala de exposição, a negação permanente de um estado transitório.

fotos: © Yen Hsin-Chu

Cúpula da ig re ja d e pa pe l d e S hi ge ru B a n, e m K o b e. D e t ub o s d e c e lulo s e , é i n s p i r ad a n a e s t r ut ur a b ar r o c a i n v e n t ad a por G ian L or e nz o B e rni ni pa ra a s i gre ja s d e p e d r a d e R o m a. A o lad o , fac h ad a d a i g r ej a. T o d a a c o n s t r uç ão p o d e s e r montada e desm on tada e m z o na s d e d e sa st re , co m o a q u e fo i er g ui d a, at i n g i d a p o r um v i o len t o t e r r e m o t o

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 30

5/5/11 7:41 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 31

31

5/5/11 7:41 PM


32

foto: DIVULGAçÃO

Na per fo rm a nce Doorw a y t o Hea v en , e m 1 9 7 3 , o ar t i s t a n o r t e - am er i c an o C h r i s Bur d e n j un t o u d o i s fi o s e lét r ic os e os emp u r r ou c ontr a o p e i t o . A a çã o ca u so u q u e i m a d u ra s e , p o r que s t ão d e s e g un d o s , n ão ele t r o c ut o u o ar t i s t a ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 32

5/5/11 7:41 PM


fotos: Cortesia Jorge Macchi e Galeria Luisa Strina / pedro victor brandão

A c i m a, a i n s t alaç ão S t i l l S o n g , fe i t a e m 2 0 0 5 p elo ar t i s t a ar g entino Jor ge M ac c h i. No c entr o d e um a s ala, ele s us p en d eu um a b o la d e c r i s t al e, n a p ar e d e e m qu e estar iam os r ef l exos da l u z, c av o u b ur ac o s , c o m o s e et er n i z as s e a m ar c a d o s r ai o s fug az e s . A o l ado, Pedr o Vic tor Br andão e x p õ e fo t o g r afi a à luz ult r av i o let a, faz en d o a i m ag e m d es ap ar e cer

São buracos negros que desdenham da própria condição de sombra, rivalizando com o resto real da construção, de tijolos, argamassa, gesso e tinta. Mas no plano da imagem, tudo tem peso equivalente, mesmo a carne. Não é à toa que a artista Laura Lima chama os atores que trabalham em suas performances de homens-carne e mulheres-carne. Por instantes, eles são também parte da arquitetura que desafiam. Uma vez, no Museu da Pampulha, Laura amarrou um homem aos pilares do prédio, como se, em um ato de Sísifo, estivesse condenado a deslocar, com a tração dos próprios músculos, os pilares modernistas do antigo cassino projetado por Oscar Niemeyer, um embate entre homem e pedra. Prova do tamanho desse desejo por tudo que passa ao largo do permanente, a artista mandou fazer uma rede de 20 metros

para um descanso com hora marcada em um centro cultural do Rio de Janeiro. Um homem de cílios alongados e uma mulher com pelos pubianos também agigantados, em uma espécie de suspensão imagética do sono, dormiam o dia todo, em uma languidez estranha em praça pública. Era um teatro ímpar, que durava as horas da exposição para deixar gravado na retina dos visitantes um efeito plástico, como em uma escultura que ganha vida a partir do sopro da carne. Quando Chris Burden pagou um amigo para dar um tiro em seu braço em uma performance em 1974 já plantava uma semente dessa febre do efêmero. A bala que pegou de raspão, atravessando a pele do artista, era uma alusão concreta à matança que então rolava solta no Vietnã e que não arrefeceu mesmo com protestos de toda sorte. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 33

33

5/5/11 7:41 PM


Na igr eja de Orsa nm i che l e , e m Fl o re nça , o e st i l i s t a b r i t ân i c o Gar et h P ug h o r g an i z o u um d es fi le - p e r fo r m an c e : um v ídeo de dez minu tos p r ojetado nos af r escos d a na v e ce nt ra l , d a nd o a i m pre ssã o d e as c e n s ão d o s m o d elo s que , ao m e s m o t e m p o , p ar e c i am p r es t e s a d esp enc ar do f ir mamento

Burden dava a cara a tapa, equiparando o próprio corpo, então jovem, à ossatura bastante carcomida do regime político de Nixon. Foi um ato que durou quatro segundos no registro, mas que mudou para sempre a dimensão da carnalidade no plano artístico. Mais lento, Vito Acconci passou oito horas por dia se masturbando debaixo do assoalho de uma galeria em Nova York, no começo dos anos 1970. Assustava o visitante incauto gritando fantasias sexuais por entre as frestas do piso e se excitava com o som dos passos que pesavam sobre a madeira cada vez mais perto de seu corpo. Mas enquanto Burden e Acconci falavam a língua de seu tempo, a urgência da matéria expressada nas torções e mutilações do corpo, o efêmero se destaca hoje na arte, na música e na moda como sinal de outro tipo de urgência, uma necessidade plástica de fisgar o olhar em tempos acelerados demais, em que um tuíte apaga o outro, feeds das redes sociais se atropelam sem cerimônia e fenômenos nascem e morrem na velocidade da luz ou dos dados navegando por fibras ópticas subterrâneas. Em suma, uma realidade que tornou obsoleta a presença física, já que tudo está mediado por interfaces tecnológicas. Nisso, a banda norte-americana Flaming Lips teve uma sacada embalada pela incontinência efêmera, mas que realça a força da presença. Quando lançaram “Two Blobs Fucking”, dividiram a música em 12 camadas de som, divulgando cada trecho em arquivos separados, o que obrigaria fãs a se juntarem, pelo menos 12 deles, cada um com um arquivo tocando no seu iPhone, para que a música soasse plena. Se por um lado é marketing viral na veia, 34

por outro é sinal de que a graça da experiência está na junção momentânea de todas as partes do todo, um coro digital que parte de uma convocação, um chamado à ação. Não está longe disso a onda de gangues urbanas, menos violentas e mais nerds, que vêm colorindo metrópoles pelo mundo jogando LEDs imantados nas fachadas metalizadas dos prédios, o chamado LED throwing. Eles sabem que a bateria dessas luzes, do tamanho de alfinetes, não dura mais que 24 horas, mas se empenham em criar composições elaboradas, fazendo vibrar as cores do arco-íris contra a paleta cinzenta das cidades, mesmo que sujeitas à limpeza urbana, à vida curta dos compostos químicos e às intempéries climáticas. Seria algo como a versão menos litúrgica e mais atual das composições de flores, serragem e areia nas procissões de Corpus Christi, tudo pelo barato do momento. Na mesma direção, o artista Pedro Victor Brandão trabalha para dessacralizar a imagem. Dissociando as esferas do divino e do terreno, ou dilapidando sem dó a memória embalsamada da imagem, ele expõe à luz ultravioleta uma série de cromos fotográficos de obras de arte, acervo que herdou de sua família. No brilho estranho desses raios, imagens se deterioram, desaparecendo em uma velocidade muito maior do que o tempo normal que levariam para perder os contornos. Brandão acelera a destruição para jogar luz sobre um conteúdo que se esfacela diante dos olhos, valorizando com a ameaça o que talvez ficasse para sempre esquecido em uma gaveta. Não deixa de ser outro manifesto que denuncia a força e a beleza de tempos cada vez mais breves para a imagem.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 34

5/5/11 7:42 PM


fotos: DIVULGAテァテグ

ffwmag! nツコ 25 2011

FFW25_Cotidiano_Efemero copy_RF_V3.indd 35

35

5/5/11 7:42 PM


36

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 36

5/5/11 7:43 PM


Kilian Eng e o mundo subjetivo “Se a arte não existisse, o mundo seria um lugar muito frio e intolerante”, diz o artista sueco, que “viaja” para outras galáxias em busca de uma nova forma de ilustração

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 37

37

5/5/11 7:43 PM


38

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 38

5/5/11 7:43 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 39

39

5/5/11 7:43 PM


40

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 40

5/5/11 7:44 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 41

41

5/5/11 7:44 PM


42

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 42

5/5/11 7:44 PM


Ficção científica, renascença, barroco e o vasto mundo da arquitetura são elementos que o artista gráfico sueco Kilian Eng usa para criar ilustrações e animações que fazem a gente pular desta pra melhor – no sentindo surreal das palavras. “De uns tempos para cá venho usando também o recurso da caneta Wacom, ligada ao meu Photoshop, mas sem que o resultado final tenha aquele aspecto digital, entende?”, diz ele, que vive de assinar capas de discos e outros trabalhos gráficos que exigem temas abstratos com atmosfera e emoção. “Poder ‘viajar’ para lugares além da nossa realidade é o que me inspira no dia a dia.” É, e o que mais, Kilian? “Bom, os filmes do cineasta e roteirista italiano Dario Argento, os desenhos e animações dos franceses Moebius e René Laloux, do belga François Schuiten e do japonês Hayao Miyazaki.” E, afinal, a arte (mesmo que digital, “viajandona”, surreal e de animação) pode salvar o mundo? “Sim, é possível fazê-lo o tempo todo. Se a arte, em uma perspectiva mais ampla, não existisse, o mundo seria um lugar muito frio e intolerante. Ela nos ensina novas maneiras de refletir e compreender a nós mesmos e aos outros.” Disse tudo! (ZG) dwdesign.tumblr.com/ behance.net/kilianeng ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kilian_RF_V1.indd 43

43

5/5/11 7:44 PM


Elvis Presley, o minotauro da música “Elvis, The Pelvis”. Este era o apelido de Presley nos anos 1950, e não por acaso: o cantor incorporou os quadris à música pop, atitude até então proibida no show business. Rebolava tão sensualmente que programas de TV mais conservadores o enquadravam da cintura para cima, para evitar calores nas casas de milhões de norte-americanas. Impossível. Principalmente, quando, em 1968, apresentou-se no Comeback Special, da NBC, vestindo um macacão de couro. Coisa quente. Sua lista de romances com atrizes de Hollywood é infinita: passaram por sua cama Natalie Wood, Connie Stevens, Candice Bergen, Cybill Shepherd e muitas outras garotas de sorte.

44

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 44

5/5/11 7:45 PM


C O R P O S v e rs u s A L M A S

NO RiTMO DOS SEMIDEUSES Entre o céu e a terra há o mundo da música, com seus personagens loucos, deslocados da realidade, sujos e muito, muito apaixonados. Elegemos os mais terrenos e os mais transcendentes para mostrar que, do som à fúria, eles preferem o purgatório

por Gabriel Marchi

sem poder dormir, o que é que aconteceu? Tá com blues”. Bob Dylan que o diga. O contrário acontece no pop, em que o corpo é tudo. Quem tira sarro dos braços malhados de Madonna não entende nada: pop é sinônimo de força, de desafiar o tempo, de sobrevivência. E há os casos em que tudo se mistura, corpo e alma, sem distinção. Como Jim Morrison, Elis Regina, Caetano Veloso e tantos outros.

© Michael Ochs Archives/Corbis/Corbis (DC)/Latinstock

A linha que separa o corpo da alma é muito tênue. A música fica bem no meio dela. Vem da força da alma, mas se materializa por meio de esforço físico, vocal, saliva e toque. Seu resultado, no entanto, é intangível. É daí que nasce o soul, que vem de alma, em inglês. Coisa de grandes cantores como Aretha Franklin ou Otis Redding. Sobre o blues, o poeta Paulo Leminski é autor da melhor definição: “Quando alguém passa a noite inteira

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 45

45

5/5/11 7:45 PM


© Michael Ochs Archives/Getty Images / GAB Archive/Redferns

Billie Holiday, Eleanora não tinha a menor vaidade Dona de uma das vozes mais inconfundíveis do jazz, Billie sofreu do coração como ninguém – e deixava isso claro. Vivia em uma frequência própria e cantava em uma também, manipulando com proeza o andamento e o tempo da música. Billie, cujo nome verdadeiro era Eleanora, veio de família e infância perturbadas e tolerou abuso por parte de seus amantes durante toda a vida, a começar pelo estupro sofrido aos 13 anos. Quando, em 1947, foi presa por posse de drogas, declarou que se sentiu oprimida. “Era como os Estados Unidos da América contra Billie Holiday”, dizia. Biografias afirmam que Billie morreu de overdose, em 1959. Mas só quem a ouve sabe que ela morreu de tristeza.

Janis Joplin, um grito à liberdade Intensidade poderia ser o sobrenome de Janis Joplin, que viveu curtos e tresloucados 27 anos. Tudo isso mergulhada no barato total da geração hippie e no começo do movimento flower power do fim dos anos 1960 – que, apesar de tudo, ela dizia não entender. Janis foi considerada “o garoto mais feio” da faculdade, mas virou musa desde a primeira vez que subiu ao palco, em 1964. A voz rouca, rasgada e cheia de imperfeições transcendia a noção de “cantar bem”. Morreu de overdose de heroína, em 4 de outubro de 1970.

46

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 46

5/5/11 7:46 PM


tim maia, o descobridor dos sete pecados

TASSO MARCELO/CPDOC JB

Guaraná, suco de caju, goiabada para sobremesa, chocolate também. O mundo de Tim Maia não é apenas material, é comestível. Cantor dos excessos, que abrasileirou com maestria os sons da Motown e do soul, era conhecido por suas extravagâncias culinárias. A sobremesa favorita de Maia: muitas latas de leite condensado, biscoito champanhe, uma garrafa de guaraná, tudo em uma grande assadeira que ia para o forno, para comer de colherada. Mesmo o que não comia, Tim mandava para dentro em grandes quantidades: cocaína, maconha e outros entorpecentes estavam no cardápio.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 47

47

5/5/11 7:46 PM


© Walik Goshorn./Retna Ltd./Corbis/Corbis (DC)/Latinstock / Sara De Boer /Retna Ltd./Corbis / André Vieira

Nicki Minaj, o estranho mundo de Nicki O mundo do rap sempre foi um clube privado de garotos. Nicki Minaj veio para mudar isso. Nascida em Trinidad e Tobago, Nicki combina a agressividade de um gângster com a sexualidade de uma popstar. Assim, intimida rappers como Eminem, incorporando um personagem agressivo, de voz grossa e letras violentas, e incomoda cantoras plastificadas norteamericanas, com o corpo malhado e derrière gigantesco, que algumas recalcadas acusam de ser de plástico. A cada personalidade que adota, Nicki troca também de peruca -- ela tem uma coleção com mais de 200 delas.

Beyoncé, a mulher nota 1.000 G a b y Am a r a n t o s , dizem que sou brega por cantar assim Esqueça Ivete Sangalo, Claudia Leitte ou Daniela Mercury. Gaby Amarantos é a nova popstar favorita do Brasil. Conhecida como a “Beyoncé do Pará”, Gaby mistura as pirotecnias visuais de cantoras gringas com gingado próprio. Tudo embalado pelo tecnobrega, ou tecnomelody, sonoridade das mais genuínas que o país tropical conheceu nos últimos 20 anos. Sobre bases eletrônicas e sanfonas de forró, ela mostra a voz poderosa, as brasileiríssimas curvas e o figurino tecno, com sapatos de LED que piscam. O jogo de cintura é tamanho que, em um show, ao perceber que os seios tinham escapado do collant apertado – e ouvir os gritos do público – não pensou duas vezes antes de descer até o chão assim mesmo. 48

Pernas de Tina Turner, cabelo de Etta James, voz de Donna Summer, ambição de Diana Ross. Beyoncé é uma compilação de todas as grandes cantoras negras norte-americanas e, ao lado do marido, o rapper Jay-Z, constrói um império do entretenimento. Como Diana, no Supremes, ofuscou as duas companheiras de Destiny’s Child. Não satisfeita com os 11 milhões de cópias vendidas de seu primeiro disco solo, Dangerously in Love, Beyoncé investiu no cinema, no bem-sucedido Dreamgirls. Em 2009, tomou o mundo mais uma vez com “Single Ladies (Put a Ring on It) e protagonizou um dos videoclipes mais imitados deste século: usando um maiô preto que realça suas formas, ela dança freneticamente, joga o cabelo e canta sem perder o fôlego.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 48

5/9/11 2:38 PM


Mick Jagger, um abraço apertado no diabo

David Redfern/Redferns

Lábios carnudos, cabelos pretos sobre os ombros, rebolado absurdo: a simpatia de Mick Jagger pelo diabo deve ser recíproca. À frente dos Rolling Stones -- banda que fazia os Beatles parecerem quatro coroinhas de igreja – Jagger inventou uma atitude de palco que continua sendo imitada. Até hoje, leva para a cama exércitos de groupies que dão a vida (e sabe-se lá o que mais) em troca de uma noite com ele. Pamela Des Barres, a mais sortuda delas, revela em sua biografia, Confissões de uma Groupie, que, além de tudo, Jagger foi muito bem endossado pela natureza. Sorte de David Bowie, que, supostamente, passou uma noite com ele...

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 49

49

5/9/11 2:38 PM


Ney Matogrosso, uma reboladinha aqui, uma revolução ali

A. RAMOS/CPDOC JB / Steve Pyke/Getty Images / Sara De Boer /Retna Ltd./Corbis / RUBENS/CPDOC JB

Um dos músicos mais produtivos do Brasil, Ney Matogrosso materializa a nossa sexualidade. Nos anos 1970, o cantor escandalizou o país com a ambiguidade sexual, a voz indefinível, o corpo andrógino e a atitude extravagante. Mulher- homem, homem-mulher ou lobisomem? Depende apenas da vontade dele. No Secos & Molhados, subia ao palco de corpo inteiro maquiado, com penas, colares e miçangas, em uma performance que, reza a lenda, foi copiada pela banda de metal farofa Kiss, mas sem um décimo de sua ousadia. Hoje, aos 69 anos, Ney segue na ativa e cada vez mais impressionante: corpo e cabeça que se recusam a mostrar sinais de cansaço.

50

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 50

5/5/11 7:46 PM


Kurt Cobain, nadando contra a correnteza O último grande ídolo do rock foi também um dos mais incompreendidos. O líder do Nirvana teve uma vida camicase ao lado de Courtney Love, sua descontrolada esposa, e foi consumido pela fama, pelo dinheiro e pelos fãs. Mas não porque Cobain desejava tudo isso – justamente o contrário. O suicídio do cantor, com um tiro na cabeça, em 1994, ecoa ainda hoje com tristeza no cenário musical, mas seu legado ressoa ainda mais forte. E nos ajuda a relembrar a característica mais importante do rock: rebelião.

Arnaldo Baptista, um ácido que bateu em minha vida Uma das cabeças por trás dos Mutantes, Arnaldo Baptista tem uma das carreiras mais inventivas da música brasileira. E foi depois da banda que lançou seu melhor material: com Loki?, em 1974, deu vazão às suas viagens psicodélicas sem fazer concessões e gravou nesse disco algumas de suas melhores faixas, como “Vou Me Afundar na Lingerie e “Será Que Eu Vou Virar Bolor”. Há quem diga que Arnaldo permanece em uma viagem até hoje. Melhor assim. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 51

51

5/9/11 2:40 PM


Maria Bethânia, para bem dentro do eu Esta não é só alma, é drama. Bethânia tem um magnetismo no palco que hipnotiza e congela a audiência. Reza a lenda que a energia é tamanha que, quando sobe ao palco, instalações elétricas enlouquecem. Não é pouca coisa. Com background no teatro – caiu na música por acaso, pelas mãos de Nara Leão –, ela foi a primeira cantora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de discos vendidos, mas isso não importa. Bethânia tem poética, qualidade intangível e invendável.

A mais célebre banda que vem da Islândia, lugar que, por si só, já é cheio de alma. Formada em 1994 por seis garotos que cantam em língua indecifrável e às vezes em língua nenhuma: pura emoção. Uma mistura de rock experimental, progressivo e erudito, em que a forma pouco importa, desafiando estruturas tradicionais de música. Tanto que são chamados de pós-rock. Dominam também a arte dos videoclipes, traduzindo nas telas os sentimentos de melancolia das suas melodias.

52

divulgação/yoshika horita / ARI GOMES/CPDOC JB / Chris Walter/WireImage

Sigur Rós, leve-me ao seu líder

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 52

5/5/11 7:47 PM


Patti Smith, punk até a última página Foi princesa, rainha, madrinha e hoje é avó e pedra fundamental do rock. A norte-americana trouxe a poesia para o rock: quem seria capaz de recitar sobre o som de guitarras enfurecidas e ser ouvida? Espiritualmente ligada ao escritor francês Rimbaud, apadrinhada por Allen Ginsberg, amante e amiga de Robert Mapplethorpe, inspiração para Bruce Springsteen. Até hoje, permanece como uma das cantoras mais influentes – e verdadeiras – da música.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_MusicosMENORb copy_RF_V2.indd 53

53

5/5/11 7:47 PM


C O R P O S b o m b a d os

A insustentável leveza do ser Ou como o norte-americano Brian Moss transformou imagens de homens e mulheres hipermusculosos em esculturas humanas e vulneráveis

∂ por Gonçalo Junior fotos Brian Moss

54

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 54

5/9/11 2:43 PM


Um fato inusitado e ousado fez com que o norte-americano Brian Moss chamasse a atenção do mundo da arte em 2000. Fotógrafo amador, então com 43 anos, conhecido professor de halterofilismo de Nova York, ele convenceu o New Museum of Contemporary Art a expor uma coleção de fotos que havia tirado de mulheres musculosas. Muito musculosas. A coleção era intitulada Picturing the Modern Amazon (em tradução livre, Retratando a Amazona Moderna). Ele convidou algumas garotas, a maioria amigas e ex-alunas, para fazer poses em que apareciam com músculos retesados, mas em posições e com expressões faciais que faziam de seu corpo verdadeiras estátuas de músculos, porém carregadas de expressões e olhares impressionantes. E foi assim que Moss conseguiu inserir o fisiculturismo na cultura popular e na arte contemporânea. Em 2003, em nova exposição, desta vez com 15 imagens de homens, consagrou seu estilo. Na ocasião, o crítico Antoine du Rocher escreveu que as fotos de Moss pareciam estar mais perto em espírito das inspiradoras urnas de alabastro do período helenístico

da arte etrusca do que as imagens banais de revistas de musculação associadas a esse esporte. Ou ao tipo banal e monstruoso criado por computador para o filme do Incrível Hulk. “Algumas dessas fotos são uma delícia, graças à sagacidade e ironia.” Por isso, ele considerou Moss uma espécie de fisiculturista “com um guarda-chuva aberto, chamando um táxi em um terno alinhado, porém usando chinelos”. Não adianta perguntar a Moss se há conceitos ou ideias por trás de suas fotos – as mesmas que hoje decoram academias de fisiculturismo em todo o mundo. Ele admite que seus retratos são, sim, pensados, planejados, às vezes, com a cumplicidade de pessoas sem qualquer experiência como modelos. Reconhece também que cria peças pensando em lhes dar algum toque de erotismo ou sensualidade. Assim, com olhar de voyeur, ele congela imagens que são objetos de adoração para todos os tipos de preferências e opções sexuais ou para meros apreciadores da arte fotográfica. Mas não para por aí. As montanhas de músculos que parecem ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 55

55

5/5/11 7:48 PM


Com olhar de voyeur, Brian Moss congela imagens que são objetos de adoração para todos os tipos de preferências e opções sexuais ou para meros apreciadores da arte fotográfica

prontos a explodir acabam por revelar muito de sutileza, solidão, certa desproteção e até alguma leveza. São homens e mulheres que tentam moldar o corpo como se quisessem se defender do mundo, de seus medos e fraquezas. Moss humaniza suas criaturas infladas, que poderiam ser rotuladas de bizarras, desproporcionais, mas que são apenas humanas. Na entrevista a seguir, ele lembra como entrou no mundo do fisiculturismo e, em seguida, apaixonou-se pela fotografia. Econômico nas palavras, quase monossilábico, acredita que tem pouco a acrescentar sobre o estilo pessoal que estabeleceu como fotógrafo de corpos e almas. Chega a se divertir quando vê que seu trabalho instiga reflexões. Mas prefere não opinar porque suas fotos falam por si mesmas. São imagens congeladas em quartos de hotel, às vezes sombrios, ou nos bastidores, durante as competições de musculação. O impacto visual que provocam não tem a ver somente com a monumentalidade muscular, mas, o mais importante, com o drama existencial inerente e o eloquente comentário sobre a condição 56

humana, como observou Rocher. Moss, enfim, transformou-se em fotógrafo para criar um conceito único de registros em que homens e mulheres musculosos desnudam suas fragilidades. ffwMAG! - Para começar, qual é a sua origem? Brian Moss - Eu nasci e cresci em Nova York, no Upper West Side de Manhattan. Meus pais também nasceram na mesma cidade. Meu pai trabalhava num desses serviços para anúncios de classificados, e minha mãe era uma típica dona de casa. Estudei em uma escola pública de Nova York e, depois, cursei a Escola Superior de Música e Arte. Por fim, me formei em biologia, com especialização em animais selvagens, e me tornei guarda florestal do parque nacional. ffwMAG! - Foi uma mudança radical trocar uma escola especializada em música e arte pela vida selvagem, não? BM - Eu sempre amei a vida lá fora, o mundo exterior, selvagem, longe das grandes cidades. Alguém poderia pensar que o mais lógi-

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 56

5/5/11 7:48 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 57

57

5/9/11 2:44 PM


co seria eu ter prosseguido meus estudos em um conservatório ou uma academia de belas-artes. Mas havia uma curiosidade, eu desenhava aves, a vida selvagem. E comecei a perceber que o que realmente queria era estar próximo da natureza, ao ar livre. Trabalhei no parque de forma sazonal, me chamavam por temporadas e sem nenhum benefício. Então, consegui trocar esse emprego por outro no Museu de História Natural, onde acabei no departamento de educação, dando aulas para crianças. ffwMAG! - E quando você se aproximou da musculação e do fisiculturismo? BM - Foi em 1982, quando decidi sair do museu para montar minha academia. Eu já estava treinando e pensei que poderia ser um fisiculturista. Foi quando concluí que havia feito uma avaliação muito realista da minha genética. Como qualquer jovem, treinava para ter boa aparência. Como todos da minha idade, eu estava inspirado pelas revistas de musculação, como Muscle Digest e Muscle & Fitness. 58

ffwMAG! - Foi difícil se transformar num personal trainer e, ao mesmo tempo, ser dono de uma academia especializada em fisiculturismo? BM - Provavelmente por pura ignorância de minha parte o negócio deu certo. Eu não sabia nada sobre esse segmento ou qualquer outro tipo de empreendimento. Mas meu pai sempre dizia que o melhor era ser seu próprio patrão. Então, examinei a cena no início dos anos 1980 e não entendia por que não havia muitas academias em Nova York. Naquela época, você tinha que treinar em espaços para homens ou para gays, treinar duro. Outra opção era entrar para algum clube que oferecia atividades físicas. ffwMAG! - E as mulheres, participavam desse universo do fisiculturismo? BM - Não. E eu não entendia por que as mulheres não podiam treinar nas academias. Aí, tive a ideia de abrir uma academia hardcore para homens e mulheres: heterossexual, gay, não importava a

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 58

5/5/11 7:49 PM


“Eu não entendia por que as mulheres não podiam treinar nas academias. Aí, tive a ideia de abrir uma academia hardcore para homens e mulheres: heterossexual, gay, não importava a opção sexual”

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 59

59

5/5/11 7:49 PM


60

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 60

5/5/11 7:49 PM


“Um dia, peguei uma câmera pela primeira vez e casualmente comecei a fotografar os meus principais concorrentes no mundo do fisiculturismo e do fitness. Assim, desde o começo, minhas fotos representavam o underground, os bastidores desse mundo”

opção sexual, contanto que você quisesse treinar bastante para ser bom. Minha academia rapidamente atraiu bodybuilders locais porque nós sempre fomos conhecidos como uma academia muito séria, porém muito amigável. E eu me tornei um participante ativo do nascimento da musculação para mulheres e do crescimento da musculação para os homens. Muitos desses fisiculturistas são meus amigos até hoje, e minha experiência com eles me proporcionou um nível de confiança e intimidade que eles não costumam permitir. Muito menos com uma câmera. ffwMAG! - Só depois que você vendeu sua academia, em 1997, que passou a fotografar os atletas, certo? BM - Exatamente. Não tirei fotos quando eu tinha minha academia. Tudo aconteceu depois disso. Um dia, peguei uma câmera pela primeira vez e casualmente comecei a fotografar os meus principais concorrentes no mundo do fisiculturismo e do fitness. Assim, desde o começo, minhas fotos representavam o underground, os bastido-

res desse mundo. Era algo ao mesmo tempo honesto e voyeurístico. Quis capturar cenas de bastidores no concurso Mr. Olympia ou momentos particulares em um quarto de hotel horas antes de o concorrente subir ao palco. ffwMAG! - Existe um conceito em suas fotos? O que você busca registrar? BM - Depende do projeto a que me proponho. Geralmente, meu conceito é apenas de honestidade. Mas, às vezes, tem lá a sua fantasia. Creio que minhas imagens estavam imbuídas de uma intimidade que nunca havia sido vista antes. Acredito que o elemento comum a todas as minhas fotos tem dois aspectos: a humanidade e a vulnerabilidade. ffwMAG! - Nota-se que seus modelos aparecem sempre com os músculos tensos, nada relaxados. Por que isso acontece? BM - Creio que, quando se trata de músculos, o melhor olhar aparece para a lente da câmera quando tem alguma tensão neles. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 61

61

5/5/11 7:49 PM


“Eu me tornei um participante ativo do nascimento da musculação para mulheres e do crescimento da musculação para os homens. Muitos desses fisiculturistas são meus amigos até hoje”

ffwMAG! - Percebe-se também que há situações em que seus modelos parecem posar para a foto... BM - Sim, sem dúvida. A musculação pode ser uma experiência muito particular, poucos entendem o que os atletas passam por exercer tal prática esportiva. Daí a intervenção do fotógrafo. No caso, eu. A mensagem é normalmente projetada sobre a foto pelo espectador, a mesma foto pode ter diferentes “mensagens”, dependendo de quem for vê-la. Muitas das minhas fotografias de fisiculturistas eu tiro para campanhas publicitárias. Elas se tornaram ícones e influenciaram a forma como os fisiculturistas são retratados nos anúncios. ffwMAG! - Você fotografa pessoas que mudaram muito o próprio corpo e o rosto. E, por vezes, elas mostram alguma tensão. Há algo psicológico que você tenta captar? BM - A tensão significa apenas trabalhar bastante, treinar duro para chegar a uma vitória fácil. Não penso em buscar elementos que podem informar algo a respeito da personalidade do modelo. ffwMAG! - Existe um erotismo em suas fotos. Isso é deliberado? 62

BM - Sem dúvida que sim. A natureza erótica do corpo humano é algo inegável. Para alguns, isso é ampliado quando se trata de um corpo musculoso. Existem, sim, espectadores que projetam seus sentimentos sobre os corpos que aparecem nas minhas fotos. Há também algumas imagens que contrastam com a força delicada e os músculos. Como a garota de lingerie na cama, com muita sensualidade. Esta é uma forma de pontuação mais presente nas fotos. Eu gosto da incongruência do hard e do soft. ffwMAG! - Você pode explicar se existe uma alma, se há seres humanos nas imagens que parecem se esconder atrás de montes de músculos? BM - Difícil generalizar para responder. Mas tenho certeza que existem alguns, não todos, fisiculturistas, cujas montanhas de músculos são uma armadura que esconde ou pretende defendê-los de uma força exterior. brianmoss.com shemuscle.com

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 62

5/5/11 7:50 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_brianmoss copy_RF_V3.indd 63

63

5/5/11 7:50 PM


CAPÍTULO II

A fé, a moda, A Anunciação. Heresia, inverno, paganismo. O Crime do Padre Amaro, O Poeta da Luz, fascínio, poses, ilusão/ O c o r p o q u e v al e m i lh õ e s , supermodelos, Brasil, p r a i a , Th e B o d y : os jogos da perfeição.

Stéphane Fugier e o valor da arte: Construir um personagem? “É algo entre viver um arquiteto e um designer. Faço uma leitura psicológica do personagem. Já a interpretação eu deixo a cargo do público.” Sobre as referências que conquistou, Fugier diz que, basicamente, o valor da arte 64

depende da época em que vivemos, pois um artista que considerou incrível nos anos 1980 já não o emociona tanto. Mas o fotógrafo presta homenagem ao pintor francês Jean Rustin, que, lembra ele, “está na coleção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo”.

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 64

5/9/11 2:46 PM


foto Stéphane Fugier

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 65

65

5/5/11 7:34 PM


Almas pagãs

A anunciação Santificados sejam os lances do inverno / O antídoto para os entraves eclesiásticos vem das entrelinhas do livro O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós / E que os deuses iluminem a moda!

por Bob Wolfenson edição de moda Paulo Martinez

66

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 66

5/5/11 7:51 PM


Vestido Alexandre Herchcovitch ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 67

67

5/5/11 7:51 PM


Vestido Walter Rodrigues, chapéu Plas, gravata Emporio Armani, luva Minha Avó Tinha, sapato Porto Free

68

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 68

5/9/11 2:50 PM


Paletó Forum, tricô e calça Lacoste, lenço Lanvin para Petulan, chapéu Plas, cruz acervo

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 69

69

5/5/11 7:52 PM


Casaco Emporio Armani, gola Joรฃo Pimenta, colar Diferenza 70

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 70

5/5/11 7:53 PM


Camisa Alexandre Herchcovitch, legging A. Niemeyer, faixa no pescoรงo acervo ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 71

71

5/5/11 7:53 PM


Casaco Emporio Armani, calรงa Marc by Marc Jacobs para NK Store, gola Joรฃo Pimenta, boina Madame Olly 72

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 72

5/5/11 7:53 PM


Tricô Reserva, camisa João Pimenta, calça Osklen, colar Otávio Giora, sandália Totem ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 73

73

5/5/11 7:53 PM


Casaco Stone Bonker, camisa Lacoste, gravata Petulan, saia e bota Joรฃo Pimenta, colar Otรกvio Giora 74

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 74

5/5/11 7:53 PM


Blusa Antonia Bernardes, saia Alphorria, sapato Porto Free, colar acervo ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 75

75

5/5/11 7:53 PM


Paletó e calça Cori, camisa Diane von Furstenberg, chapéu Walter Rodrigues, renda acervo 76

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 76

5/5/11 7:54 PM


Paletó, calça e sapato João Pimenta, camiseta Osklen, colar Minha Avó Tinha, chapéu Walter Rodrigues, renda acervo ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 77

77

5/5/11 7:54 PM


Paletó e calça Emporio Armani, blusa Cavalera, chapéu Plas, cinto Ghetz, sapato Porto Free, bengala acervo 78

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 78

5/5/11 7:54 PM


Casaco e calรงa Osklen, camisa Joรฃo Pimenta, lenรงo Lanvin para Petulan, cinto Tommy Hilfiger ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 79

79

5/5/11 7:54 PM


Vestido FH por Fause Haten, bota Zeferino 80

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 80

5/5/11 7:54 PM


Camisa Joรฃo Pimenta, calรงa, suspensรณrio e carteira Reserva, relรณgio Nixon, meia Lupo, sapato Carolina Herrera ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 81

81

5/5/11 7:54 PM


Blusa e calรงa Huis Clos, cinto Cori, colar e anel Diferenza 82

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 82

5/5/11 7:55 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 83

83

5/5/11 7:55 PM


84

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 84

5/5/11 7:55 PM


Macacรฃo Osklen, camisa Comme des Garรงons Play para Choix, colar Minha Avรณ Tinha ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 85

85

5/5/11 7:55 PM


Colete e sapato Triton, camisa Forum, calรงa Ghetz, renda acervo 86

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 86

5/5/11 7:56 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 87

87

5/5/11 7:56 PM


Camisa Colcci, bermuda Walter Rodrigues, faixa Mary Zaide, colar usado como cinto Karin Reiter, cabeรงa Joรฃo Pimenta 88

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 88

5/5/11 7:56 PM


Tric么 Osklen, camisa Ermenegildo Zegna, gravata Petulan, bermuda Alexandre Herchcovitch, colar Ot谩vio Giora, rel贸gio Nixon, meia Lupo, sapato Dr. Martens ffwmag! n潞 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 89

89

5/5/11 7:56 PM


Vestido Alcaçuz, casaco Forum, chapéu Madame Olly, cinto Mabel Magalhães, luva Ellus, carteira Zeferino, meia Lupo, sapato Porto Free 90

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 90

5/5/11 7:56 PM


Casaco Hugo Boss, cardigรฃ Reserva, camisa Ricardo Almeida, calรงa Emporio Armani, cinto Tommy Hilfiger, bota Stone Bonker ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 91

91

5/5/11 7:57 PM


Camisa Mara Mac, colete R.Rosner, saia Cori, cinto Triton, carteira Zeferino, meia-calรงa Fogal, sapato Porto Free 92

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 92

5/5/11 7:57 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 93

93

5/5/11 7:57 PM


Costume Ermenegildo Zegna, camisa Joรฃo Pimenta, cinto Petulan, colar Minha Avรณ Tinha, bota Ellus, faixa usada no pescoรงo acervo 94

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 94

5/5/11 7:57 PM


Casaco Printing, camisa Lita Mortari, saia Vitor Zerbinato, sapato Porto Free ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 95

95

5/5/11 7:57 PM


96

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 96

5/5/11 7:57 PM


Palet贸 e colete Stone Bonker, blusa R.Rosner, cal莽a Acquastudio, meia Lupo, sapato Zeferino, colar Minha Av贸 Tinha

ffwmag! n潞 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 97

97

5/5/11 7:57 PM


Blusa Patachou, chapéu Iódice, anel Diferenza 98

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 98

5/5/11 7:58 PM


Palet贸 Emporio Armani, cal莽a R.Rosner, colar Minha Av贸 Tinha, bolsa Christian Louboutin, sapato Triton ffwmag! n潞 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 99

99

5/5/11 7:58 PM


Palet贸 Lita Mortari, blusa Cavalera, saia Tufi Duek, colar Diferenza, sapato Santa Lolla

100

ffwmag! n潞 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 100

5/5/11 7:59 PM


Ele: casaco Jo達o Pimenta, cinto Tommy Hilfiger, meia Lupo, sapato Carolina Herrera, renda acervo Ela: vestido Mabel Magalh達es, gola Jo達o Pimenta, calcinha Loungerie, sapato Zeferino

ffwmag! n尊 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 101

101

5/5/11 7:59 PM


Cabeça João Pimenta, colete Kosii, caveira Walério Araújo 102

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 102

5/5/11 8:00 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 103

103

5/5/11 8:00 PM


104

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 104

5/5/11 8:00 PM


Gola Joรฃo Pimenta, calรงa Antonio Bizarro para Fernanda Yamamoto ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 105

105

5/5/11 8:00 PM


Vestido Animale, calรงa Lita Mortari, bolsa Ellus 106

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 106

5/5/11 8:02 PM


Ele: regata Hering, gola João Pimenta, calça D&G, cinto Petulan Ela: vestido Cavalera, calça Antonia Bernardes, chapéu Iódice, gola João Pimenta, meia-calça Wolford, sapato Luiza Barcelos ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 107

107

5/5/11 8:02 PM


108

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 108

5/5/11 8:02 PM


Corset Madame Sher, calรงa Ellus, colar usado como cinto Minha Avรณ Tinha ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 109

109

5/5/11 8:02 PM


Camisa Der Metropol para Cartel 011, colar Otรกvio Giora, renda acervo

110

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 110

5/5/11 8:02 PM


Camisa e calรงa Joรฃo Pimenta, relรณgio Nixon ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 111

111

5/5/11 8:02 PM


Paletรณ Colcci, calcinha Loungerie, cinta-liga Valisere, meia-calรงa Wolford, cabeรงa Joรฃo Pimenta 112

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 112

5/5/11 8:03 PM


Ela: vestido Walério Araújo, calcinha Verve, cinta-liga Valisere, meia-calça Fogal, cinto Ghetz, sapato Zeferino Ele: gola e macacão João Pimenta ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 113

113

5/5/11 8:03 PM


Cabeรงa Joรฃo Pimenta, colar Flavia Caldeira

114

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 114

5/5/11 8:03 PM


Camisa Ellus, saia Walério Araújo, suspensório Lais Liarte, colar Flavia Caldeira ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 115

115

5/5/11 8:03 PM


116

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 116

5/5/11 8:04 PM


Gola Joรฃo Pimenta, colar Minha Avรณ Tinha ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 117

117

5/5/11 8:04 PM


Camisa Forum, colete P Ateliê, calça Walter Rodrigues, gravata acervo 118

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 118

5/5/11 8:04 PM


Gola Kosii, colar acervo ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 119

119

5/5/11 8:04 PM


Body Colcci, gola e cintura Reinaldo Lourenรงo, luva Iรณdice, cinta-liga Valisere, meia-calรงa Fogal, sapato Studio TMLS

120

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 120

5/9/11 2:51 PM


Ela: saia Letage, gola João Pimenta, bota Zeferino Ele: camisa Diesel, cardigã Penguin, casaco Amapô, calça Colcci, sapato Carolina Herrera ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 121

121

5/5/11 8:04 PM


Casaco e calรงa Mabel Magalhรฃes, meia Lupo, sapato Porto Free, renda acervo 122

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 122

5/5/11 8:05 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 123

123

5/5/11 8:05 PM


Ele: camisa Comme des Garรงons Play para Choix e relรณgio Nixon Ela: vestido Mabel Magalhรฃes.

124

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 124

5/5/11 8:05 PM


Beauty: Catia Marques (Capa Mgt) Produção de moda: Juliana Cosentino e Larissa Lucchese Assistentes de fotografia: Pedro Bonacina, Renata Terepins, Caiuá Franco e Aecio do Amaral Assistente de camarim: Maura Soares (Camarim SP) Cenografia: Luis Rossi / FCR Produções Artísticas Tratamento de imagem: RG Imagem ffwmag! nº 25 2011

FFW25_moda_bob copy_RF_V5.indd 125

125

5/5/11 8:05 PM


G isele Bündc he n, e m f a se p ré - m e t e o ro , estam pou a c a p a d a V ogue no rt e - a m e ri ca na de 1999 com o t í t u l o “ O Re t o rno d a s Cu rv a s” . De lá par a cá, re i no u o v i su a l sa u d á v e l 126

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 126

5/5/11 8:06 PM


C O R P O S po d e rosos

O b oo m b oo m das brasileiras O último Big Bang do universo da moda fez o corpo assumir o lugar da roupa. Sorte das brasileiras, que estavam na praia certa, com as medidas perfeitas

por Vitor Angelo fotos Bob Wolfenson

Houve o tempo, a grosso modo, em que as roupas se moldavam ao corpo. É a época das grandes maisons e da alta-costura, que se encerra nos anos 1960. Ali, o importante não era o corpo e, sim, o desenho, a ideia. As formas esculpidas dos vestidos de Cristóbal Balenciaga são um grande exemplo da materialidade da ideia da roupa como corretora das imperfeições do corpo e também como mensageira de um novo corpo moldado pelo vestido. Porém, uma nova era se inicia, e o corpo é que deve se moldar às peças criadas em grande escala. No prêt-à-porter, o seu corpo deve estar pronto para usar o look, isto é, ter determinada forma que caiba no que já foi criado. Enfim, o corpo é a roupa. E não é à toa que também é a partir desse momento que começam a surgir modelos consideradas “O Corpo”. É nessa época, nos anos 1970/80, que a prática de exercícios e esportes sofre uma grande massificação – muito maior do que a de seu primeiro ciclo, no início do século 20. Estamos no começo da era das academias de ginásticas, do hit “Physical”, de Olivia Newton-John, e da alimentação saudável. São os primeiros passos da supervalorização do corpo. E a moda, principalmente a norteamericana, segue essa dieta quase que literalmente.

O hábito de ir à praia também não só passou a ser considerado recomendação médica, como se transformou em algo que proporciona bem-estar, uma escolha para as horas de lazer. Com o tempo, os trajes de práticas esportivas aquáticas e de banho diminuíram (falaremos disso mais detalhadamente a seguir), e o corpo ficou muito mais à mostra ou, em certo sentido, ganhando também o significado de roupa ou de continuação dela. Uma revista anual norte-americana, que surgiu nos anos 1960, teve um papel importante na identificação de modelos com corpos esculturais. As edições da Sports Illustrated Swimsuit trazem na capa sempre uma bela mulher em trajes de banho. E a de 1970 trouxe um ícone daquela geração, a modelo americana Cheryl Tiegs, uma das primeiras “The Body”. Sua foto com um maiô branco de tela vazado é a imagem de uma América que, naquela década, estaria construindo a sua moda, mais casual e esportiva, ao contrário daquela que é conhecida como moda europeia. É também nessa imagem que está a ideia de ousadia, sensualidade e hedonismo, importantes elementos para uma modelo ser verdadeiramente chamada de “O Corpo”. É também na Sports Illustrated que, nos anos 1980, um nome ffwmag! nº 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 127

127

5/5/11 8:06 PM


128

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 128

5/5/11 8:06 PM


Re z a a l e n d a q u e B i l l C l i n t o n , e n t ã o p r e s i d e n t e d o s E s t a d o s U n i d o s , pediu que a todo-poderosa da Vogue, Anna Wintour, mudasse a d i r e ç ã o d a m o d a : o l oo k h e r o i n c h i c s a i u d e ce n a p a r a a e n t r a d a d o co r p o s a u d á v e l , co m o o d e M i c h e l l e A l v e s , n a p á g i n a ao l a d o

poderoso é legitimado e mundialmente conhecido como “The Body”: Elle Macpherson. A australiana que nasceu Eleanor Nancy Gow trocou de nome e profissão ao passar férias no Colorado, nos Estados Unidos, e depois que um olheiro se interessou por sua beleza. Assim, ela resolveu largar o primeiro ano da faculdade de Direito em Sydney e literalmente mergulhar na carreira de modelo. Em 1986, a revista Time a elegeu “O Corpo” e ela foi a modelo que mais capas fez para a Sports Illustrated Swimsuit – foram cinco ao todo.

E fez-se “O Corpo” Mas o que determina que uma modelo seja chamada de “O Corpo” e outra, às vezes com medidas parecidas, não? Para os leigos, esse título faz pouco sentido, uma vez que, em uma visão menos detalhista, uma pessoa fora do mundo da moda diria que todas as modelos são magras. Mas, para os fashionistas, a resposta estaria nas curvas um pouco mais proeminentes. Acredita-se também nas chamadas “medidas perfeitas”, em uma complicada matemática que a relação entre peso e altura é coeficiente para outros números de perfeição como os de quadril, busto, pescoço, cintura, panturrilha, pescoço, bíceps, antebraço e coxas. Mas apenas a razão matemática não transforma ninguém em um ícone. A essência vital que leva uma modelo a ser considerada “O Corpo” de uma temporada ou de uma época é a capacidade de comunicabilidade que ela consegue arrancar de seu corpo com a

mesma ênfase que muitas trabalham o olhar ou o rosto. Isto é, não basta ter um corpo perfeito, tem que saber expressá-lo.

A vez das brasileiras Essa tal expressividade corporal ganha força quanto mais a modelo tiver conhecimento de seu corpo. O espaço democrático da praia é um excelente e natural lugar para a mulher conhecer melhor seu próprio material. E o Brasil, com sua cultura praiana intensa desde os anos 1950, mas cada vez mais revelador a partir da década de 1970, ensinou a muitas dessas meninas como conhecer melhor suas curvas, ou melhor, como mostrar sua pele com mais expressividade. Daí elas conquistaram o mundo. O grande antropólogo Gilberto Freyre, em seu livro Modos de Homem & Modas de Mulher, de 1987, ressalta a importância do bronzeamento e também da roupa que acompanha essa ação: “Várias modas de mulher vêm representando vitórias de um apreço, em termos higiênicos, anatômicos, naturais e, culturalmente, primitivos, das formas e dos à-vontades do corpo feminino contra imposições de modas artificializantes desse mesmo corpo. Assinalese a revolução do traje feminino de banho de mar – ou de piscina – que de um extremo anti-higiênico e antiestético de moralismo vem passando quase a outro extremo. Mas que, no Brasil, apresenta-se – esse outro extremo – aliado de um brasileirismo social e culturalmente importantíssimo pelo que representa de consagração de uma, cada dia mais, expressão de um orgulho nacional: o orgulho ffwmag! nº 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 129

129

5/5/11 8:06 PM


130

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 130

5/5/11 8:07 PM


As curvas das brasileiras, adquiridas pela tropicalidade e pelo hábito de andar ao sol e com pouca roupa, foram vistas como o novo f r e s c o r d o m u n d o d a m o d a . E l á e s t a v a A n a B e a t r i z Ba r r o s , c o m s e u bronzeado da cor do pecado e traços marcados pela miscigenação

da morenidade característica da pigmentação tropical de grande parte das mulheres brasileiras. O bronzear da pele, tendo se tornado, entre as brasileiras de todos os grupos sociais que compõem a população feminina do Brasil, um quase rito religiosamente estético [...] Um característico das mais recentes modas de mulher vem sendo suas harmonizações com estas duas outras modernizações de comportamento socioculturais: o saudável (implicando maior apreço pelo corpo humano e por sua higienização) e este outro apreço: pela personalidade da mulher”. Essas características ressaltadas por Freyre, “o que transmite saúde e o que impõe personalidade”, foram elementos importantes para a entrada das modelos do país nas passarelas mundiais naquele momento que ficou conhecido nos anos 1990 como “o boom das brasileiras”. Entretanto, vamos retroceder apenas um pouco, ainda na década de 1990. No começo da última década do segundo milênio, temos uma tendência fortíssima na moda chamada heroin chic. Rostos cansados, atitudes junkies e olheiras profundas ganharam os editoriais e o imaginário da moda e do mundo. A imagem de uma juventude drogada não é exatamente o que líderes poderosos esperam divulgar. Reza a lenda que o próprio presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, pediu que a todo-poderosa da Vogue norte-americana, Anna Wintour, mudasse a direção dessas ideias meio inquietantes. Em um movimento na direção oposta, saiu-se de uma atitude

invernal para uma mais solar, simbolizando saúde e corpos bem torneados... Nada melhor que as brasileiras! Na leva de modelos brasucas que chegavam às passarelas e aos editoriais das revistas mais importantes do mundo havia, então, o frescor do verão. Não à toa, em alguns momentos distintos pela mídia de moda, tanto Gisele Bündchen quanto Michelle Alves foram consideradas “O Corpo”. As curvas das brasileiras bronzeadas de saúde, com corpo de alta expressividade, adquiridas pela tropicalidade e pelo hábito de andar ao sol e com pouca roupa, foram um acontecimento na moda daquela época, que, de certa forma, perdura de um jeito e de outro até hoje. Essa pode ser a razão pela qual muitas delas estão sempre no bombado casting da Victoria´s Secret e seus desfiles cheios de lingeries e corpos desnudos. Marcas quentes do nosso beachwear como Lenny e Blue Man sempre escalam brasileiras em seus castings. Elas sabem vestir um biquíni com muita simplicidade e, mais que isso, sabem expressar o corpo desnudo com muita fluidez e naturalidade, sem parecer algo vulgar. Afinal, são anos de praia e roupas curtas que ensinaram ao corpo como se comportar quando está à mostra. Izabel Goulart, Alessandra Ambrosio, Ana Beatriz Barros, Isabeli Fontana, Fernanda Tavares, Adriana Lima, Guisela Rhein e Emanuela de Paula são alguns exemplos de como “O Corpo” se encaixa com perfeição às brasileiras. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_body_RF_V1.indd 131

131

5/5/11 8:07 PM


CAPÍTULO III

Presos, tatuados, pobres, loucos e viciados / Os segredos das sacristias: invasão a domicílios, padres, freiras, mobílias, luz, inspiração / Os sinos das Gerais, o negro e o gingado, a rádio de Deus, sintonia, morte, badalo: patrimônio imaterial / Existências sintéticas: delírio, futuro / E mais... China, Brasil, Rio, Biscoito Globo e outras delícias para fechar a edição!

Stéphane Fugier e a pátria amada B r a s i l : Do Brasil, Fugier conhece o pai dos arquitetos modernos, Oscar Niemeyer, “porque moro muito perto do Centro do Partido Comunista Francês”. Mas também há outros brasucas na vitrola e até no DVD player do artista: “Os Mutantes, que é uma banda que considero incrível, e os magníficos filmes de Glauber Rocha”. E sempre que desembarca na França, o mineiro Grupo 132

Corpo tem entre os fãs de carteirinha, e sempre na fila do gargarejo, o conceitual fotógrafo. “Ah, também amo o trabalho do artista plástico brasileiro Henrique Oliveira.” Mas, apesar de admirar o trópico, Fugier nunca colocou os pés no país. O motivo? “Pergunte aos meus pés”, responde ele, como quem confunde para explicar. stephane.fugier.free.fr

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 132

5/9/11 2:48 PM


foto Stéphane Fugier

ffwmag! nº 23 2011

FFW25_abres copy_RF_V1.indd 133

133

5/5/11 7:35 PM


134

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 134

5/5/11 8:08 PM


C O R P O S m a rc a d os

Identidades à flor da pele Da pré-história ao mundo digital, dos roqueiros cascas-grossas aos hypes de boutique e dos marginalizados aos yuppies dos centros comerciais, tatuar é transcender da mesmice que é a pele nua e crua. Sim, mas tem polonês paranoico tentando provar que as tattoos são códigos secretos para driblar a segurança nacional

por Stéphane Malysse fotos Katarzyna Mirczak

Seja marinheiro ou chefe de um clã pigmeu, prisioneiro ou garçonete, homem ou mulher, qual o significado de uma tatuagem para quem a faz? E para quem vê o desenho no tatuado e a arte do tatuador, como decifrar os diversos significados das tattoos? Como analisar os rabiscos de forma objetiva e científica? Será que ela pode ser vista como uma prova científica ou judiciária? Muitas tentativas e teses vão nesse sentido, mas veremos a seguir que nada é tão simples, porque cada tatuado coloca na pele a própria história com conotações sutis. Para entrar nesse vasto assunto, vamos vestir a pele dos pesquisadores de um departamento de medicina legal e seguir as pistas abertas por eles para o estudo científico dos códigos das tatuagens. Os 60 objetos conservados no formol pelo departamento de medicina legal da Universidade de Cracóvia, na Polônia, consistem em pedaços de peles tatuadas, objetos instigantes, quase obras de body art... Para começar, é estranho falar de objetos que são pedaços de pele tatuada e recortada transformados em objetos híbridos, entre o relicário e a prova judiciária. De fato, essas tatuagens foram coletadas dos presos da penitenciária do estado vizinho da universidade, a Montelupich. A estranha coleção foi criada com o objetivo de

decifrar os códigos dos presos, de entender essa linguagem visual e de enxergar as conexões entre eles. Desenhos esses, é bom lembrar, de condenados. Ao observar essas tatuagens, percebi que a simplicidade dos traços e a escolha das cenas e dos temas não remetem ao universo da prisão, mas, sim, a uma simples necessidade de contar uma história, a história do próprio preso. Uma sereia, um cachorro ou um homem na bicicleta, muitos casais transando e se beijando: as cenas retratadas parecem escapar ao mundo do cárcere e, antes mesmo de ser um código de intercomunicação, aparentam ser algo que ajuda a “libertar” o preso da situação presente, como uma maneira de trocar de pele.

Meu índice A parte mais visível e a mais profunda do ego corporal de uma pessoa é sua pele, mas, como explica a psicanalista lacaniana Eugénie Lemoine-Luccioni: “Nunca tenho a pele do que eu sou, pois nunca sou o que tenho”. Assim, como para compensar essa diferença entre o Ser e o Ter, são muitos os que decidem inscrever na própria ffwmag! nº 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 135

135

5/5/11 8:09 PM


Os 60 objetos conservados no formol pelo departamento de medicina legal da Universidade de Cracóvia consistem em pedaços de peles tatuadas, objetos instigantes, quase obras de body art

carne, na pele, uma espécie de índice. Algo para ser visto, lido e decifrado, algo que vai contar a história pessoal dessa pele única e individual e, ao mesmo tempo, universal. De fato, mesmo para um antropólogo, seria em vão procurar as “origens” das múltiplas decorações corporais ou signos do corpo aplicados pelas culturas na pele dos seus membros, pois eles fazem parte da condição humana e, de uma forma ou de outra, as sociedades sempre modificaram as peles de acordo com estéticas e crenças. Não existe sequer uma cultura humana cujo corpo é deixado no seu estado natural: o nu é sempre vestido. Seja por pinturas ou roupas, a pele vira texto cultural a ser lido e decifrado. Matéria de identidade individual e coletiva, sexual e cultural, o corpo é esse espaço que se dá à apreciação dos outros. Coberto de signos, ele é ao mesmo tempo assinado pela cultura e assinala a estética incorporada ao outro. O olhar alheio confirma esse verdadeiro encontro analisando todos os signos do corpo, que não são os mesmos que os do seu grupo. A aparência, construída como um palimpsesto, superpõe histórias coletivas e pessoais, elementos tradicionais e elementos híbridos, traços que assinam uma relação vivida com uma cultura pré-existente. Os signos do corpo são marcas de demarcação com a natureza e com as outras comunidades culturais; eles permitem mandar mensagens simultâneas sobre a etnia, o gênero, a idade, a beleza, a fecundidade, o valor pessoal, a hierarquia social, a religião... Os adornos como roupas e joias são signos provisórios que permitem uma grande variedade de significações e interpretações. Entre 136

poder e sedução, entre feminilidade e masculinidade, cada grupo cultural estabelece suas regras de apresentação e escolhe uma estética capaz de exibir a importância do indivíduo no seu grupo (e, por extensão do grupo, em relação aos outros). Ao mesmo tempo, revela o seu caráter único e singular. A estética é uma versão visível da ética de um grupo cultural que nos convida a perceber que a margem da manobra de cada um na construção da própria aparência está sempre submetida às regras coletivas que orientam a organização social e cultural. Nesse sentido, as marcas corporais são signos permanentes e definitivos, que colocam em evidência a função social da pele. Ela é socialmente analisada, lida como um texto: o fazer parte de um grupo social é marcado na pele, na roupa, nos gestos...

A liberdade do traço Dessa forma, voltando aos nossos prisioneiros poloneses – mais especificamente ao que sobrou deles – vemos que a própria situação de cárcere não impede a visualização de outras imagens e a realização das tatuagens, que reintegram os prisioneiros ao mundo subjetivo do indivíduo. Mais que um código a ser decifrado, essas tatuagens representam tentativas de inserção imaginária na sociedade; são possibilidades de mudar de pele, mesmo sendo corpos presos. Onde a violação da intimidade é permanente, a pele representa a última barreira do eu, e a tatuagem, uma forma de reapropriação de si. Muitos textos mostram a especificidade das incisões, queimadu-

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 136

5/5/11 8:09 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 137

137

5/5/11 8:09 PM


138

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 138

5/5/11 8:09 PM


As cenas parecem escapar ao mundo do cárcere e, antes mesmo de ser um código de intercomunicação, aparentam ser algo que ajuda a “libertar” o preso da situação presente, como uma maneira de trocar de pele

ras, tatuagens e outras formas de se machucar para sentir o próprio controle sobre a existência. Essas possibilidades de autocirurgia representam momentos íntimos, em que a pele se torna superfície de inscrição de uma resistência aos problemas existenciais da vida. Neste contexto, “seria necessário uma tatuagem diferente para cada pele e uma tatuagem que pudesse evoluir com o tempo. A pele mostra sua própria história: cicatrizes, marcas, rugas, espinhas, manchas... Para que procurá-la em outro lugar?” (Serres, 1985). Em outra edição da ffwMAG! (Futuro), imaginei que em 2035 as primeiras tentativas bem-sucedidas de tatuagem com tinta eletrônica e desenhos moduláveis na Ucrânia transformavam, definitivamente, a cultura das tatuagens e outros signos do corpo. Assim, as tatuagens poderiam evoluir com o corpo e acompanhar como anotações temporárias as histórias individuais... Homo aestheticus: a beleza é uma questão fundamental desde a origem da humanidade. Das primeiras inscrições pré-históricas às tatuagens eletrônicas, o homem sempre inscreveu a sua estética no próprio corpo. Do Neolítico até hoje, o corpo humano é pintado, perfurado, modificado, para incorporá-lo à cultura e afastá-lo de sua natureza animal. Nos ensaios de antropologia do corpo do francês David Le Breton, ele demonstra como, muitas vezes, as tatuagens são recados, mensagens que permitem transcender uma realidade difícil, uma impotência existencial: mudar de pele é mais fácil que mudar o mundo.

Adão tatuado Desde a pré-história, os homens selecionam cores e criam desenhos e símbolos que traduzem a própria cultura em signos corporais e diversos. Na era virtual, uma nova beleza está aparecendo à flor da pele, mobilizando técnicas medicais de ponta e biotecnologias. No século do hipernarcisismo, o triunfo do individualismo incentiva as pessoas a uma reapropriação de suas aparências e a um hipercontrole de si, por meio do relooking e do ego-building (Malysse, 2009). As novas tintas eletrônicas permitem aos indivíduos se metamorfosear em obras de arte moduláveis, transformando a tela da pele em uma mídia eletrônica. Subvertendo essa dimensão de identificação da pele humana com obra de arte, o artista belga Wim Delvoye criou uma série de tatuagens em peles de porcos – assim, humanizados – em uma fazenda localizada na China. Como a pele dos porcos é muito usada pelos laboratórios farmacêuticos por ser a mais parecida com a humana, o artista chega a passar filtros solares nos porcos para não estragar as tatuagens realizadas. Obviamente, de forma irônica, o artista tende a desviar as identificações entre o homem e o porco: quem mais se parece com um porco tatuado... É o próprio homem. Assim, de fato, não estamos mais sozinhos na nossa pele, pois mesmo os porcos tatuados participam de fato da nossa humanidade de superfície. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_tattoos copy_RF_V3.indd 139

139

5/5/11 8:09 PM


140

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_21gramas_RF.indd 140

5/5/11 8:10 PM


A L M A S p al p á v e i s

Põe o espírito na balança Se já é difícil encontrar boas almas no mundo, o que dizer de uma teoria que tenta provar que elas existem e têm até peso?

por Zeca Gutierres foto Mike Pooley

O mundo ainda há de dar muitas voltas e a pergunta sobre a vida pós-morte se manterá no topo do “mistério maior” da existência humana. Poucos foram os experimentos científicos que tentaram explicar a viagem que nos espera depois desta fase carnal. Talvez o mais coerente deles tenha sido realizado no começo do século passado, exatamente em 1907, e conduzido pelo médico norteamericano Duncan MacDougall, de Massachusetts. Ele queria porque queria colocar um fim nesse perrengue existencial e foi radical em seus métodos e experimentos. Reuniu seis pessoas que estavam no leito de morte e, por meio de balanças das mais precisas, pesou os moribundos antes e depois da tal passagem. A intenção? Provar que a alma humana tem peso. De um lado da balança de dois pratos estavam os pacientes e, do outro, pesos equivalentes. E para não dizerem que se tratava de blefe, o doutor levou em conta do ar nos pulmões aos fluidos corporais dos doentes. Qual foi a surpresa do renomado pesquisador ao descobrir que no exato momento da morte os pacientes perdiam peso... Quando o primeiro deles morreu, um homem que sofria de tuberculose, a balança pendeu para o lado contrário rapidamente. Eis que 21 gramas foram perdidos quase que instantaneamente. Cabe aqui uma curiosidade: o filme 21 Gramas, do mexicano Alejandro González Iñárritu, é inspirado nesse macabro experimento. Na época, até o prestigiado jornal The New York Times comentou o assunto, dando certa credibilidade a MacDougall e seus discípulos. E apesar de, no caso dos outros pacientes, a balança ter registrado uma mudança um pouco diferente da estabelecida pelo primeiro, foi determinado que a perda média de peso é de 21 gramas.

Lembrando também que H. LaV. Twining, professor da Los Angeles Polytechnic High School, realizou os mesmos experimentos em 1977, e as conclusões foram quase idênticas. Bom, já a explicação para a diferença de perda de peso entre os pacientes – um teria perdido 46 gramas, outro, apenas 14, e um terceiro paciente, 28 – MacDougall mandou esta: “Um dos homens era apático, lento no pensamento e na ação. Neste caso, acredito que a alma ficou suspensa no corpo logo depois da morte, até se dar conta de que estava livre”. Dá para acreditar? Vai da imaginação de cada um... Outro dado interessante nessa história é o fato de que o experimento foi feito também com 15 cachorros no momento de sua morte. Para espanto geral, os animais não sofreram nenhuma perda de peso – o que, para o médico, significou que o homem é o único ser dotado de alma, afirmação que condiz com o que é pregado por muitas religiões. Em contrapartida, MacDougall foi contestado por vários especialistas. Um deles foi Kenneth V. Iserson, da Universidade do Arizona, autor do livro Morte ao Pó: O Que Acontece com os Cadáveres? (em tradução livre). Ele garantiu que, ao ignorar o fato de que o ar tem peso, o médico errou feio nas conclusões. O.k., mas “o melhor amigo do homem” não respira o mesmo ar que a gente? Isso sem contar que a reputação de MacDougall era das melhores no começo do século passado. Sem conclusão, a teoria espera outros pesquisadores ávidos para provar a existência da alma humana. Até lá, o jeito é fazer valer a fé por um paraíso bem melhor do que este mundo de “cão sem alma”. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_21gramas_RF.indd 141

141

5/5/11 8:10 PM


Almas em transição

Meandros de uma morte chinesa Descansar a alma na China? Só depois de muito fogo

∂ por Bruno Moreschi fotos Kurt Tong

142

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 142

5/5/11 8:13 PM


Mor r er na Chi na é m a i s i m po rt a nt e e si m b ó li c o que o p r ó p r i o n as c i m e n t o . En t r e o s m ui t o s r i t uai s , um d e les é famoso: queim ar ré p l i ca s d e p a pe l d o s p ro d u t o s q u e o m o r t o p o s s uí a o u que g o s t ar i a m ui t o d e t er em v i d a

Uma história milenar chinesa resume bem como é importante e complexo enterrar um morto na China. Certa vez, um servo chinês entrou no palácio de seu dono e pediu mais de um mês de folga para ir ao funeral do primo. O pote de arroz que o servo carregava nas mãos era a oferenda que levaria a seu querido ente falecido. Diante do pedido da folga mensal, o patrão ficou contrariado. E perguntou se ele, de fato, achava que o primo falecido demoraria tanto tempo para comer o arroz. Finalizou com um grito: – Além disso, você é meu servo e deve ficar próximo de mim! Pela primeira vez na vida (e provavelmente esta seria a única), o servo fez cara de bravo diante do patrão. Sem nenhum medo de punição, respondeu bravamente: – Meu primo irá levar o mesmo tempo que a sua tia, morta na

semana passada, levará para sentir o aroma das flores que você colocou no túmulo dela! Em qualquer outra ocasião, isso seria uma afronta capaz de condenar o escravo impertinente à sentença de morte. Mas não foi o que aconteceu. Em poucos segundos de silêncio, o patrão percebeu a gafe que dera. Acabara de cometer uma terrível afronta diante de um dos mais tradicionais costumes milenares da China. Trata-se da cerimônia fúnebre, tradição chinesa que mistura confucionismo com princípios do taoísmo e do budismo. Para se redimir, o dono do palácio se ajoelhou diante do servo, chorou, pediu perdão e disse com ar de arrependido: – Fique fora o tempo que quiser. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 143

143

5/5/11 8:13 PM


“Até q u e o so l nã o bri l he , a ce nd a m o s um a v e la n a es c ur i d ão . ” D i t a p elo fi ló s o fo c h i n ê s C o n fúc i o , a fr as e mostr a c omo a r eenc ar naç ão...

S e C o n f ú c i o d i ss e . . . Diferentemente dos ocidentais, para os chineses, enterrar seus mortos é infinitamente mais importante que celebrar o nascimento de uma criança. E essa importância significa uma cerimônia repleta de rituais. Seria preciso páginas e mais páginas para listá-los. Mas algo costuma ser quase uma regra quando se realiza um típico velório chinês: a ideia de que é preciso queimar objetos próximos do morto. O costume começou na China por volta de 3 a.C., quando o confucionismo se tornou a doutrina oficial do império chinês, em plena dinastia Han. Em um dos cinco volumes do Li Chi (em português, Livro dos Ritos), o próprio filósofo Confúcio escreveu que uma morte sem a queima de objetos é o mesmo que desnudar uma pessoa e deixá-la abandonada para sempre diante de uma multidão. Vexame 144

puro, uma verdadeira sacanagem para com o falecido. A comparação com alguém pelado morrendo de vergonha faz sentido. De acordo com o pensamento chinês, quando uma pessoa morre, ela não leva nada do mundo terrestre. Como há um período de espera até sua reencarnação, seus descendentes precisam fornecer os bens materiais que ela poderá usar enquanto aguarda sua próxima vida reencarnada. A lista de oferendas é imensa. A mais comum é representar os bens materiais com o joss, um tipo artesanal de papel feito de fibra de bambu ou mesmo de arroz. Para se ter uma ideia, o material é o mesmo usado naquelas bandeirinhas chinesas vistas nas cerimônias públicas do país.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 144

5/5/11 8:13 PM


...é um p ro ce sso d e m o ra d o p a ra o s chi ne se s. P o b r e s d as m ulh er es ! S e o fale c i d o fo r o m ar i d o , a c o i t ad a p r ec i s a c hor ar p or 49 dias

P a r a o s e sp í r i t o s V I P s . . . Em famílias mais ricas, o joss recebe pedaços de metais preciosos antes de ser queimado com o falecido. Para cada material, um significado diferente. O papel com prata, por exemplo, serve de oferenda aos deuses ancestrais da região em que se realiza o funeral. Já o acréscimo de ouro serve exclusivamente para presentear com pompa o imperador Jade, um dos mais importantes deuses chineses. Poderoso ele: é o senhor dos céus e de tudo que segue abaixo, incluindo a Terra, o homem e o inferno. O uso do joss não para nisso. O papel também pode ser customizado de acordo com a vontade dos parentes vivos da pessoa velada. Por lá, é bastante comum usar o material para construir cópias bastante realistas de objetos de consumo que ou o morto possuía quando vivo ou sempre desejou ter.

Nascido em Hong Kong, em 1977, o fotógrafo Kurt Tong tem uma série de trabalhos com registros dos mais variados objetos feitos com joss e usados nos enterros chineses de hoje. A variedade não só impressiona, mas mostra bem como, até mesmo depois da vida, os chineses continuam atrelados ao consumismo exagerado. Entre os objetos feitos com joss, cópias fidedignas de latas de Coca-Cola, roupas sociais, sapatos, relógios de ouro, bolas de futebol, computadores, ventiladores, secadores de cabelo, máquina de lavar, geladeira, micro-ondas, iPod, aparelhos de videokê, pistolas, cofres, acessórios de mergulho, cadeira de roda, bolsas da Louis Vuitton, notas de US$ 100, patinetes e... Até mesmo uma bandeja repleta de batata frita, hambúrguer, torta e refrigerante do McDonald’s. Todos esses objetos de consumo feitos apenas com o tal versátil joss. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 145

145

5/5/11 8:13 PM


Um chi nê s a cre d i t a q u e u m v e ló r i o d ec en t e é o c o m e ç o d e um a b o a s ub i d a ao s c éus . P ar a j us t i fi c a r essa c r enç a, el es c ostu mam...

Morrer é tão cansativo... Luxo mesmo acontece entre os milionários chineses. É bem verdade que no caixão do morto endinheirado há vários objetos feitos de joss. Entretanto, também é possível encontrar objetos reais. E como estamos falando de gente rica, o desbunde costuma acontecer. Em 2010, por exemplo, um milionário chinês foi cremado com seu Bugatti Veyron, considerado um dos carros mais caros do mundo, cotado em 1 milhão de euros. Para impedir possíveis riscos de queimaduras entre os vivos que estavam na cerimônia, o motor foi retirado do carro, evitando assim uma explosão que pudesse machucar a plateia. A lista de outras coisas queimadas continua. Os chineses também costumam incinerar dinheiro, arroz, galinhas, vinhos, frutas e pães. Tudo isso na crença de que, assim, os mortos estarão bem alimentados onde quer que estejam. 146

Engana-se, porém, quem pensa que um típico velório chinês se resume a um morto sendo velado ao lado de objetos em labaredas. Autor do livro Three Kingdoms and Chinese Culture (editora Suny Series, inédito no Brasil), o chinês Constatine Tung explica que a queima é apenas uma pequena parte de um longo processo de celebração chinesa dos mortos. Ele conta por e-mail: “Há uma piadinha entre os chineses que diz que a China é muito populosa, pois é infinitamente mais fácil viver do que morrer por aqui”. Quando alguém morre na China, os parentes, em especial as mulheres, precisam expressar uma tristeza exagerada durante o período de luto que dura 49 dias. Nesse tempo, casamentos, celebrações de aniversários ou qualquer outra festa são proibidos. Como se não bastasse, quem participa do luto deve colocar faixas de panos pretos nos braços – símbolo que representa profunda tristeza.

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 146

5/5/11 8:13 PM


...r epetir u m pro v é rbi o d e a u t o ri a d e sco nhe c i d a: “A m ai s alt a d as t o r r e s c o m e ç a n o s o lo ”.

Cabe um último consolo... E a novela continua. Quando é chegada a hora de enterrar o morto, mais exigências. Para determinar a localização e a arquitetura do túmulo, a família do morto deve contratar um especialista em geomancia, técnica de adivinhação que se baseia em pedras e na terra do local. De acordo com o pensamento chinês, se o morto não for enterrado no lugar certo, seus descendentes vivos certamente terão um destino trágico. Por fim, já que falamos de um país com mais de 1,3 bilhão de pessoas em um vasto território de 9.596.960 km², os meandros ligados aos mortos na China podem variar de acordo com a região. No norte, costume mesmo é queimar caixas e mais caixas do cigarro que o falecido fumante adorava. Mais ao sul, ornamentos de papel colorido são colocados em volta do corpo – e estes não podem ser queimados de maneira nenhuma.

Nada, porém, é mais bizarro que nas zonas mais rurais da China. Até pouco tempo, para homenagear o morto, alguns agricultores costumavam contratar jovens chinesas para tirar a roupa durante a cerimônia. Isso mesmo: stripteasers em plena choradeira. Não há como negar que o argumento dessas pessoas realmente tem lógica. Eles justificam a presença das moças seguindo uma ideia que permeia a maioria dos conceitos fúnebres da China. A máxima de que quanto mais gente estiver na hora do enterro, maior a honraria ao morto. Infelizmente, a ideia de animar funerais com striptease não agradou o governo da China. Na teoria, foi proibida em 2006. Na prática, e para a alegria do defunto mais devasso, nada que um bom suborno à autoridade local não resolva toda essa questão fúnebre. www.chinaculture.org ffwmag! nº 25 2011

FFW25_kurt_tong copy_RF_V3.indd 147

147

5/5/11 8:13 PM


148

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_Existencia Sintetica_RF_V1.indd 148

5/6/11 7:06 PM


Almas em extinção

A última pergunta A partir do momento que o homem inventar o “eu sintético”, todos os sonhos serão possíveis. Mas e o papel de Deus nessa nova novela universal?

por Gwyn Wahlmann foto Xiaopeng Yuan

Por mais que hoje em dia se fale em um mundo mais “verde”, eu acredito que o ser humano nunca esteve tão distante da natureza. E por mais que odeie dizer isso, não acredito que essa tendência seja reversível – me parece inevitável que as pessoas vão caminhar cada vez mais para um mundo sintético. Mas será que essa marcha inexorável para uma vida corpórea baseada em genes não é apenas o primeiro passo no desenvolvimento evolucionário da inteligência universal? A palavra “artificial” tinha conotações derrogatórias até pouco tempo atrás. Mas desde a invenção dos computadores pessoais, nós, humanos, aceitamos o sintético de forma global e com uma fome insaciável. Alguns “melhoram” sua aparência com a ajuda de substâncias sintéticas, outros passam a ignorar completamente seu corpo físico, optando por viver inteiramente em identidades (às vezes falsas) virtuais. Estamos vivenciando o desenvolvimento do “avatarismo”. As vantagens de se ter um avatar são muitas. Poder criar um “eu” sintético que pode ser o que você quiser, fazer o que você quiser... Ideal! E seu avatar pode ter um mundo todo criado a sua volta... Casas, roupas, etc... Sem depredar os recursos naturais ou o meio ambiente. Você pode se tornar um astro do rock ou de cinema, vencer o Tour de France, escalar o Monte Everest. Todos os seus sonhos podem se realizar em um universo sem morte, doença, envelhecimento, consequências ou limitações de tempo ou distância.

O momento decisivo virá quando você e seu avatar conseguirem compartilhar experiências sensoriais por intermédio da realidade virtual. Avanços no campo da neurociência já tornam cada vez mais possível localizar os pontos que controlam emoções, pensamentos e sensações no cérebro. Então, podemos imaginar que no futuro seremos capazes de conectar nosso cérebro a monitores e, literalmente, sentir o que nosso avatar sente. Mas à medida que nos distanciamos de nossa experiência primária, o mundo natural, o corpo e seu ambiente se tornarão cada vez mais irrelevantes. Com o passar do tempo nossos memes, aqueles agentes que atuam como os genes de nossa memória, vão se tornar obsoletos. Provavelmente entraremos em extinção, a nossa identidade humana será sacrificada no altar de uma espécie autocriada, hiperconectada – algo como um cérebro único. Os últimos traços do ego ou do “eu” irão desaparecer conosco. Talvez seja como o conto “A Última Pergunta”, de Isaac Asimov. As mentes reunidas em um raciocínio único, eventualmente se conectando a outras inteligências no universo e, então, tornando-se a macroconsciência do universo em si. “Deus” no sentindo máximo de Spinoza, existindo como uma energia superconcentrada e em perfeita simetria. Até que uma força externa desequilibre tudo e faça com que o ciclo comece novamente, com um novo Big Bang. “Faça-se luz.” Talvez já tenha acontecido um bilhão de vezes. ffwmag! nº 25 2011

FFW25_Existencia Sintetica_RF_V1.indd 149

149

5/5/11 8:10 PM


Almas abençoadas

As divinas badaladas Rádio, telefone, e-mail? Pra quê? Deus, o todo-poderoso, escalou um grupo de rapazes de espírito aventureiro para pregar a mensagem por meio dos sinos das Gerais

por Zeca Gutierres fotos André Vieira

150

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 150

5/5/11 8:03 PM


Na semana que antecede a Quaresma, os sinos ganham o enfeite roxo, enquanto as imagens dos santos das igrejas da cidade são cobertas com tecido da mesma cor. No alto da Nossa Senhora do Pilar, a matriz, aprendizes de sineiro se dividem para fazer a revirada dos sinos. E h a j a f o r ç a , d e s t r e z a , g i n g a e a d r e n a l i n a ...

Há uma cidade na extinta rota do ouro de Minas Gerais em que os sinos são batizados com nome e sobrenome. Em troca de tal honraria, enchem os céus desse antigo vilarejo de sons para a pura apreciação do povo cristão. A ponto de o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrar a prática como parte do patrimônio imaterial brasileiro. Patrimônio este que diz respeito a tradições e ao modo de se expressar de um povo. Nas torres das igrejas, pais de família, adolescentes e crianças ajudam a manter viva uma prática incorporada ao Brasil com a formação dos primeiros povoados em terras mineiras, no século 17. São João del Rei, nome que vem de seu fundador, Tomé Portes del-Rei - um paulista que, por ironia do destino, foi assassinado por escravos por volta de 1704 às margens do Rio das Mortes - é um daqueles lugares em que a gente ouve a palavra “Deus” em qualquer esquina. Naquelas redondezas já foram descobertos e espalhados pelo mundo ouro e diamante - a cidade de quase 85 mil habitantes faz divisa com Tiradentes que, sabe lá Deus como, manteve-se longe do “enforcamento” urbano da vizinha. São João del Rei cresceu sem planejamento, com a triste visão de prédios perto de seu centro histórico. Evoluiu do barroco à favela passando pelo neoclássico, art nouveau e art déco, contudo, ainda bem, manteve os principais patrimônios arquitetônicos intactos, mas não livre do descaso dos nossos governantes. As igrejas da

cidade são sua maior herança ao Brasil, como a de São Francisco de Assis, com decoração atribuída a Aleijadinho e jardim de Burle Marx. Apesar de não haver ouro no interior da igreja - na época da construção, 1774, a escassez do material já batia à porta da região - a arquitetura colonial mineira faz dela uma das mais bonitas da região. Unem-se a essa joia do barroco mineiro a Igreja de Nossa Senhora do Pilar (a matriz, de estilo barroco), a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a do Rosário e Nossa Senhora das Mercês. É nelas que sineiros receberam a ffwMAG!

Profissão: sineiro! Menosprezada por quem não conhece a história de cidades como Ouro Preto, Catas Altas, Tiradentes e, claro, São João del Rei, a profissão de sineiro começa a sair do anonimato causado pela discrição das sacristias e pela própria informalidade do ofício. Eles dividem o tempo entre a arrumação das igrejas e o badalar dos sinos. Mas é só ao subir as escadas íngremes das igrejas de São João del Rei que se percebe que um sineiro formado e atuante é muito mais que um empregado comum. É um misto de músico e acrobata, já que, além de saber tocar o sino, o responsável pelos dobres e repiques precisa ter reflexos apurados para não sofrer um acidente grave. Tudo isso para manter viva uma tradição imposta pela Igreja ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 151

151

5/5/11 8:03 PM


Os sinos da cidade, assim como os de Tiradentes e Ouro Preto, mandam as mensagens da Igreja Católica, os chamados dobres, reviradas e repiques. Neles, todo tipo de informação, como morte, nascimento e o aviso dos santos que estão em procissão. Lindos, são nosso patrimônio imaterial

Católica em uma época em que não havia rádios, televisores, internet e afins. “A tradição vem da Europa. A ordem eclesiástica inventou uma maneira de anunciar invasões, incêndios, a morte dos fiéis ou que mulheres entraram em trabalho de parto”, diz Giovanni Antonio de Souza Frigo, funcionário da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade e guia para a nossa busca pelos sineiros. “E como muitos dos sineiros eram negros e mestiços, os dobres e repiques ganharam melodias especiais, inspiradas até na capoeira. Assim foi sendo criada essa tradição que mistura fé, cultura, música e diferentes raças.” Muitos desses chamados se mantêm vivos e sofreram poucas mudanças no decorrer dos séculos. Anunciam a vida, festa e morte nas cidades. O sino reflete a fé de São João del Rei. Para início de conversa, é bom explicar que os dobres simples são formados pelo som da ida e volta dos sinos. Já a revirada consiste no giro de 360 graus, e os repiques são espécies de músicas tocadas com dois ou mais sinos. Muitas são as festas religiosas e maneiras de avisar aos cristãos dos acontecimentos nas igrejas. São João del Rei tem sete sineiros oficiais, mas há mais 200 pessoas que fazem o som se espalhar por meio das mais de 30 igrejas da cidade. Para explicar a profissão de sineiro e alguns dos repiques e dobres, lá fomos nós, escadas acima, 152

conversar com um profissional que, além de estar no ofício há 25 anos, é parte de uma tradicional família de sineiros de São João del Rei. Rodrigo Leandro da Silva, de 39 anos, tem mais três irmãos no ofício e dois sobrinhos que não querem deixar a tradição morrer. “A gente sempre morou atrás da catedral. Ouvimos sinos batendo desde sempre e aprendemos o significado de cada dobre festivo e repique. Estar na torre é um sonho meu e dos meus irmãos”, diz ele. A catedral funciona como o ensino fundamental para os sineiros, que começam na profissão meninos. “Lá são duas torres, dos Passos e Santíssimo, e é o lugar em que a maioria faz os primeiros repiques.” Hoje, Rodrigo é responsável pelos sinos do Rosário, enquanto os irmãos Fábio e Alessandro são sineiros na catedral, e Giovanni, o mais velho e mais experiente, responde pelas badaladas da igreja das Mercês. Dois sobrinhos dele, Vaninho e Vinicyos, seguem os mesmos passos. Os sinos maiores, explica Rodrigo, são usados para os dobres festivos e fúnebres e para os repiques. Os médios, ou “meião”, são usados para repiques, dobres fúnebres e para as vias-sacras durante a Quaresma. Os pequenos dão o ritmo. “Neste caso, o sino médio representa a penitência. Cada toque tem seu significado. O pequeno, geralmente, é usado para dar a marcação dos repiques. Já o médio faz a pergunta e o grande responde.”

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 152

5/5/11 8:03 PM


V i n i c y o s A d r i an o F ar i a S i lv a, ac i m a, d e r o x o , é fi lh o d e s i n e ir o e já assu me o c ar go na matr iz. C o m e le, o s v ár i o s as s i s t e n t e s em b u sc a da adr enal ina das r evir adas ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 153

153

5/5/11 8:04 PM


P a ra se r si ne i ro é p re ci so t e r f or ç a e h ab i li d ad e . N a fo t o , m e n i n o s b r i n c am p ar a as c âm e r as co l o ca nd o a ca be ça p a ra f o ra d a t o r r e e n quan t o o s i n o faz o d o b r e

O dobre que mais marcou Rodrigo foi o que anunciou a morte do papa João Paulo II, em 2005. “Foi o único que eu não tinha feito. Tocamos o dia inteiro, foi cansativo porque fiz sozinho, mas emocionante.”

Quem tem dinheiro? Se o assunto é sino, tudo depende dos acontecimentos que envolvem a igreja e os santos que estão saindo em procissão. No caso das batidas pela morte de alguém, a quantidade depende da posição da pessoa na congregação e, claro, se ela é uma colaboradora ativa da igreja. Quem explica essa hierarquia é um antigo sineiro, Helvécio Benigno da Silva. Hoje ele faz um trabalho voluntário para tentar manter viva, e, de certa forma, intacta, a musicalidade dos sinos. Autodidata, Helvécio sentiu tanta falta da vida de sineiro que comprou uma filmadora e passou a registrar o trabalho dos colegas. Tenta, assim, fazer com que os jovens mantenham a tradição. “O sino só toca se o irmão for da irmandade. Quando se compra só a sepultura, por exemplo, dobra-se apenas o sininho. E não adianta apenas entrar para a irmandade, tem de participar, trabalhar ou colaborar com dinheiro.” Isso, inclusive, lembra uma piada do tempo dos avós de Helvécio. “Para as pessoas que não têm um cargo valorizado na irmandade, toca-se apenas o sininho. 154

Então, os mais antigos imitavam o barulho do sino dizendo assim do coitado do morto: ‘Não tem nada, não’, ‘não tem nada, não’”, ri o sineiro. Já do lado oposto dessa hierarquia religiosa, depois de secretários e tesoureiros da igreja, estão os sacristãos, padres e bispos, até chegar ao papa, a personalidade que mais ganha dobres. “São 14 batidas de cada sino para ele.” Uma curiosidade: bem na hora que Helvécio falava sobre os toques aos mortos, os sinos começaram a tocar para avisar que uma mulher havia falecido. No dia seguinte ao da entrevista descobrimos que se tratava de uma irmã de Tancredo Neves, que, por sinal, nasceu em São João del Rei. Aonde quer que se vá, haverá alguém lembrando o nome dele. Outro expert em sinos é Nilson José dos Santos, de 36 anos, sineiro da igreja São Francisco de Assis desde 1992. Ele já teve na família outros três sineiros: o pai, o irmão e o tio. “Meu pai era compositor e tinha um grupo de samba. Isso com certeza o ajudou a ser um dos melhores sineiros da época. Mas nossa carreira é curta porque precisa ter muita energia para comandar os sinos”, explica o profissional, que, de todos os repiques, elege o “Senhora É Morta” o mais bonito. “Tocado apenas no dia 14 de agosto, é o repique que mais acalenta minha alma. É triste, mas exige muita habilidade de quem o toca.”

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 154

5/5/11 8:04 PM


“Certa vez quase fui arremessado para fora da torre. Meu pé ficou preso na corda enquanto eu fazia a revirada. Sorte que meus amigos estavam comigo”, diz Guilherme Raimundo Souza Diniz, sineiro da igreja Nossa Senhora das Mercês

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 155

155

5/5/11 8:04 PM


Os sin os em ba l a m t o d a s a s p ro ci ssõ e s d e S ã o J o ã o d e l R e i , c o m o a que an t ec ed e a Q uar e s m a. T r ad i ç ão e fé m an t i d as à r isc a 156

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 156

5/5/11 8:05 PM


São João del Rei tem sete sineiros oficiais, mas há mais 2 0 0 p e s s o a s q u e s e d i v i d e m n a s c e r c a d e 30 i g r e j a s d a c i d a d e . Aqui, dois aprendizes na Nossa Senhora do Carmo

Sinos que matam Além de ter nome e sobrenome, os sinos podem sofrer castigos se matarem alguém, como um conto que remonta aos anos 1940. “O tal sino fora preso e condenado a ficar em silêncio por ter tirado a vida de um conhecido como João Pilão. Ele comandava a torre sozinho e, de um momento para o outro, o som parou. Arrombaram a porta e se depararam com o João sem vida – o sino acertara a cabeça dele em cheio. Depois disso, diz a lenda, o sino foi retirado da torre, colocado na cadeia e enfrentou julgamento. Foi açoitado e condenado a 20 anos de prisão.” E qual foi a surpresa ao descobrir que João Pilão foi tio-avô de Helvécio, o videomaker da cidade. Ele tenta amenizar a dor da família e os boatos de que o verdadeiro motivo da morte foi o fato de o sineiro ser alcoólatra. “Diziam que ele bebia umas e outras e que por isso morreu pelo sino, mas minha avó afirma que é mentira. Ele até gostava de uns gorós, mas não bebia em serviço.” Fato é que, de lá para cá, poucas mortes aconteceram nos sinos, mas acidentes constatamos que são muitos. Na Festa de Passos, por exemplo, que antecede a Quaresma, há um ritual que deixa todo sineiro de orelha em pé. É o Combate de Sinos, no qual entram na disputa as igrejas São Francisco, Pilar e Carmo. Rodrigo explica: “Aqui entram apenas os dobres festivos.

Na sexta e no sábado é a catedral que comanda, porque a imagem da Nossa Senhora sai de lá. No domingo acontece o dobre nas três. A disputa é pra ver quem roda o sino mais rápido. Então fica aquele combate louco”. Não é fácil ouvir um repique e matar a charada. A variação é grande e, hoje, boa parte da população nem sabe o significado dos sons e das melodias que ecoam pela cidade. Paulo Cesar Mendonça Nery, de 20 anos, sineiro há dez e responsável pelos dobres e repiques do Carmo, tenta explicar na base da teoria. “Bom, pra começar, dobra-se o sino quando um irmão ou irmã da ordem morre. Pela ordem da igreja, o sino toca duas vezes para as mulheres. Se for homem, três vezes. Mas a quantidade de batidas aumenta conforme a posição da pessoa na irmandade. Toca-se até quando uma criança da irmandade com menos de 7 anos morre. Para a igreja, elas são consideradas anjinhos. Depois há os repiques, mais melodiosos. Tem também o Tencão Festivo, que eu acho bonito. Ele é tirado no dia da Festa de Nossa Senhora do Carmo”, diz. Os sinos que Paulo Cesar toca foram batizados Elias - o maior deles, por conta do profeta -, São João Batista - o médio, batizado em 1979 - e Eliseu - o pequeno, também por conta do profeta. “Nomes que pertencem à irmandade do Carmo. Isso funciona em todas as igrejas da cidade.” ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 157

157

5/5/11 8:05 PM


Os m o leque s d e t o r r e, c o m o s ão c h am ad o s , p as s am o d i a e m c i m a d o s t elh a dos das igr ejas, c o m v i s t a p r i v i leg i ad a e m ui t a r es p o n s ab i li d ad e p ar a n ão e rr ar os r ep iqu es

Moleques de torres Quando subimos na torre da Nossa Senhora do Pilar, uma igreja com construção iniciada em 1721, lá estava Vinicyos Adriano Faria Silva em cima do telhado, entre uma torre e outra, esperando a gente. Tímido até a página dois, ele ostenta aos 15 anos o título de sineiro substituto do pai, Fábio – ele é sobrinho do Rodrigo, lembra? Cabe a ele, agora, comandar os trabalhos nas torres e ensinar uma nova geração de meninos a tocar. “Se eu não seguisse essa profissão, não seria da minha família”, disse ele, enquanto se preparava para uma revirada daquelas. “Todos aqui em cima tiveram sineiros na família.” E não dá nem para contar a quantidade de crianças que subiram e se revezaram na hora de dobrar os sinos. O mais impressionante é que, a cada dobre, o sino passava a poucos centímetros da cabeça deles. “Precisa ter muito treino, porque a distância entre o sino e a parede é muito pequena. E no caso das reviradas, quanto mais rápido, melhor.” Há quatro anos na torre, Vinicyos é o mais estiloso na hora de dobrar, lembrando a ginga dos capoeiristas. “O que eu mais gosto é mesmo da revirada. Aquela aventura, a adrenalina que dá.” O sino preferido de Vinicyos é o Passos, da catedral, o maior e mais rápido. “Apesar de ser grande, é o mais leve na hora de revirar. Ele é imperial, então tem o som mais aberto, mais bonito de ouvir”, diz o menino, que entende muito de sino. Isso sem contar que sineiro em São João del Rei é como um líder de banda de rock em uma escola da capital paulista. Ganha atenção especial das meninas, é popular. Vinicyos sabe bem dos perigos de quem faz o sino dobrar, uma reclamação que vem de família. “Minha vó não gostava que meus tios ficassem na torre porque algumas pessoas morreram. Já me machuquei e não foi nem uma nem duas vezes. Graças a Deus 158

foram só arranhões. Mas tem a história do Roberto, da geração de sineiros do meu pai. O sino espremeu a cabeça dele. Por sorte ele saiu vivo.” Mas é visível que essa relação de perigo é uma das atrações que fazem o trabalho de sineiro ser tão procurado na cidade. Ah, quando perguntamos para Helvécio quem era o sineiro mais promissor das novas gerações, eis que o nome de Vinicyos apareceu em primeiro lugar. “Ele é o cara que vai manter a tradição.” O respeito pela igreja e pelo tocar dos sinos também pegou de jeito Guilherme Raimundo Souza Diniz, de 20 anos, que há quatro toca sinos na cidade mineira. Há 18 meses ele trabalha na Nossa Senhora das Mercês. Por que os sinos? “Porque gosto e respeito. Comecei a tocar na São Francisco de Assis e fui aprendiz de Nilson. Cheguei a ser chamado para ser sacristão, mas acabei virando sineiro. Prefiro.” Ele também matou um pouco da nossa curiosidade em relação aos repiques. “O Tencão daqui, por exemplo, é diferente porque o sino médio é bem parecido com o grande. No caso do festivo, é usado para a troca da mesa administrativa e, por isso, é tirado sempre em fevereiro. A Terentena é tirada sempre que começa e termina uma procissão. Em qualquer domingo comum, o último repique é obrigatoriamente a Terentena. Há ainda os dobres fúnebres. Eles são mais usados aqui porque nossa irmandade é grande.” O sino favorito dele na cidade é o Popoló, da São Francisco, “mas infelizmente ele rachou durante a disputa entre a igreja do Carmo, a catedral e a de São Francisco. Hoje está parado, já que voltou para a empresa que o construiu e, depois de ter retornado a São João del Rei, rachou de novo”. Um fato curioso: hoje rola um baita processo judicial que partiu da igreja contra a empresa que construiu o Popoló. Viu? Vai mexer na frequência da rádio de Deus...

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 158

5/5/11 8:05 PM


“Venho de uma família de sineiros e, para mim, as torres das igrejas são como um segundo lar. sinto-me honrado por ajudar a manter viva uma tradição tão bonita como o repique dos sinos. A musicalidade deles é m a r a v i l h o s a ”, d i z Nilson José dos Santos, sineiro da igreja São Francisco de Assis

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_SinosRE copy_RF_V2.indd 159

159

5/5/11 8:05 PM


160

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 160

5/5/11 7:49 PM


CORPOS SANTIFICADOS

Jackie Nickerson no confessionário

fotos Jackie Nickerson

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 161

161

5/5/11 7:49 PM


162

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 162

5/5/11 7:49 PM


As imagens da série Faith, da fotógrafa norte-americana Jackie Nickerson, são o resultado de um mergulho nas ordens católicas da Irlanda, com Apelo à simplicidade, como prega a própria ideologia cristã

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 163

163

5/5/11 7:49 PM


A paleta de cores é inspirada na arte sacra dos séculos 16 e 17. Para entrar no mundo secreto das ordens, Jackie precisou ganhar a confiança de padres e freiras visitando asilos, creches e outras instituições assistidas pela Igreja

164

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 164

5/5/11 7:49 PM


ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 165

165

5/5/11 7:49 PM


166

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 166

5/5/11 7:49 PM


I r m ão M i cha e l e i rm ã G a bri e l : pe rso na ge ns d e um c o t i d i an o r ad i c al, r etr atado s co m gra ça e i nsp i ra çã o na s i m a g en s d o s an t i g o s p i n t o r e s d e ar t e s ac r a ffwmag! nº 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 167

167

5/5/11 7:49 PM


168

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 168

5/5/11 7:50 PM


Al茅m dos personagens, ganham destaque bibliotecas, cozinhas, refeit贸rios, detalhes arquitet么nicos e Naturezas-mortas, registradas ao longo de dois anos

ffwmag! n潞 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 169

169

5/5/11 7:50 PM


170

ffwmag! nยบ 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 170

5/5/11 7:50 PM


Não foi propriamente Deus que levou a fotógrafa norte-americana Jackie Nickerson a fazer um extenso laboratório em comunidades católicas da Irlanda, onde raramente fotógrafos e cinegrafistas são convidados a entrar. Ela queria captar a beleza, apenas. A série Faith é o resultado do estudo dos costumes de padres, freiras e outros habitantes de conventos ultrafechados que, segundo ela, “institucionalizam as pessoas e em que o estilo de vida se torna quase um ato radical”. Mas, para chegar lá, Jackie começou frequentando locais assistidos pela Igreja Católica, como escolas e creches. Isso tudo para, com jeitinho, ganhar a confiança da turma eclesiástica. A inspiração da série vem da arte sacra, claro, mas em especial das cores encontradas nas obras de arte europeias dos séculos 16 e 17.

“Tentei captar também a simplicidade dos lugares que fotografei, para tentar mostrar a maneira como eles vivem.” Em tempo: Jackie é colaboradora de várias revistas de moda entre Nova York e Milão, além de já ter assinado campanhas de marcas como Burberry, Armani e Shiseido. Suas séries mais artísticas não se limitam à fé – ela tem trabalhos sobre comunidades espalhadas pelo mundo que retratam as cores e a beleza de seus habitantes. Do Brasil, ela confessa que ama mesmo é o futebol. “Pelé é, para mim, um dos melhores jogadores de todos os tempos.” (ZG) jackienickerson.com ffwmag! nº 25 2011

FFW25_deco copy_RF_V3.indd 171

171

5/5/11 7:50 PM


Onde encontrar A. Niemeyer www.aniemeyer.com.br + 55 11 3285-4377 Acquastudio www.acquastudio.com.br + 55 11 3223-2133 Alcaçuz www.alcacuz.com.br + 55 11 3062-6761 Alexandre Herchcovitch www.herchcovitch.com.br +55 11 4306-6475 Alphorria www.alphorria.com.br + 55 31 3304-0500 Amapô www.amapo.com.br + 55 11 3063-4206 Animale www.animale.com.br + 55 11 3068-8043 Antonia Bernardes www.antoniabernardes.com.br + 55 21 3204-9285 Carolina Herrera www.carolinaherrera.com + 55 11 3552-7777 Cartel 011 www.cartel011.com.br + 55 11 3081-4171 Cavalera www.cavalera.com.br + 55 11 3063-5700 Choix www.lojachoix.com.br + 55 11 2649-4265 Christian Louboutin www.christianlouboutin.com + 55 11 3032-0233 Colcci www.colcci.com.br + 55 11 5189-4710 Cori www.cori.com.br + 55 11 3038-2524 D&G www.dolcegabbana.com.br + 55 11 3815-8387 Diane von Furstenberg www.dvf.com + 55 11 3034-4720 Diesel www.diesel.com + 55 11 3813-4193 Diferenza www.diferenza.com.br + 55 11 3061-3437

172

Dr. Martens www.drmartens.com Ellus www.ellus.com.br + 55 11 3032-9581 Emporio Armani www.emporioarmani.com + 55 11 3897-9090 Ermenegildo Zegna www.zegna.com + 55 21 2422-3757 Fernanda Yamamoto www.fernandayamamoto.com.br + 55 11 3032-7979 FH www.espacofh.com.br + 55 11 3062-2240 Flavia Caldeira www.flaviacaldeira.com.br + 55 34 3831-9866 Fogal www.fogal.com Forum www.forumtufiduek.com.br + 55 11 3085-6269 Ghetz www.ghetzbrasil.com Hering www.hering.com.br 0800-47114 Hugo Boss www.hugoboss.com + 55 11 3813-6390 Huis Clos www.huisclos.com.br + 55 11 3088-7370 Iódice www.iodice.com.br + 55 11 3085-9310 João Pimenta www.joaopimenta.com.ws + 55 11 3034-2415 Karin Reiter www.karinreiter.com.br + 55 11 3675-3317 Kosii www.kosii.com.br + 55 11 3063-3151 Lacoste www.lacoste.com + 55 11 3083-2400

Lita Mortari www.litamortari.com.br + 55 11 3064-3021

Printing www.printing.art.br + 55 31 3261-4958

Loungerie www.loungerie.com.br + 55 11 5189-4586

R.Rosner + 55 11 3129-5685

Luiza Barcelos www.luizabarcelos.com.br + 55 11 3681-6454 Lupo www.lupo.com.br 0800-7078220 Mabel Magalhães www.mabelmagalhaes.com.br + 55 31 3261-9470 Madame Olly www.madameolly.com.br + 55 11 3862-5051

Reinaldo Lourenço www.reinaldolourenco.com + 55 11 3085-8150 Reserva www.usereserva.com + 55 11 3032-8722 Ricardo Almeida www.ricardoalmeida.com.br + 55 11 5686-9011 Santa Lolla www.santalolla.com.br + 55 11 5536-3474

Madame Sher www.madamesher.com.br

Stone Bonker www.stone-bonker.com + 55 11 3060-9588

Mara Mac www.maramac.com.br + 55 11 3082-8902

Studio TMLS www.studiotmls.com.br + 55 11 3063-5352

Mary Zaide www.mary-zaide.com.br + 55 21 3322-5021

Tommy Hilfiger www.tommyhilfiger.com + 55 11 3063-0499

Minha Avó Tinha + 55 11 3865-1759

Totem www.totempraia.com.br + 55 21 3539-9900

Nixon www.nixonnow.com + 55 11 3081-2798 NK Store www.nkstore.com.br + 55 11 3897-2627 Osklen www.osklen.com.br + 55 11 3083-3849

Triton www.triton.com.br + 55 11 3085-9089 Tufi Duek www.forum.com.br + 55 11 3815-2878 Valisere www.valisere.com.br

Otávio Giora www.otaviogiora.com.br + 55 11 3663-3463

Verve www.verve.com.br + 55 11 3083-2635

P Ateliê www.patelie.com.br +55 11 3081-1802

Vitor Zerbinato www.vitorzerbinato.com.br + 55 11 4722-5344

Patachou www.patachou.com.br + 55 31 3239-0244

Walério Araújo + 55 11 3258-7665

Penguin www.originalpenguin.com + 55 11 5181-0478

Walter Rodrigues www.uol.com.br/walterrodrigues/ + 55 11 3081-3568

Petulan + 55 11 3812-5159

Wolford www.wolford.com + 55 11 3088-8279

Lais Liarte www.laisliarte.com.br + 55 11 3845-6558

Plas www.plas.com.br + 55 11 3257-9919

Zeferino www.zeferino.com.br + 55 11 3034-5804

Letage www.letage.com.br + 55 11 3054-1111

Porto Free www.portofree.com.br + 55 11 3120-4531

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_endereço2 copy_RF_V1.indd 172

5/5/11 7:45 PM


english CONTENT 18 THE SKIN IS THE DEEPEST 28 Everyday Ephemeral 36 Kilian Eng and the subjective world 44 To the beat of demigods 54 The unbearable lightness of being 126 The Brazilian Boom 134 Under our skin 140 Put your soul on the scales 142 The long and winding Chinese death 148 The Last Question 150 For whom the bell tolls 160 Jackie Nickerson in the confession booth 186 Our daily cookie

 Body and soul wide open

 One is subjective and depends on your personal beliefs and perceptions. The other is real because it is within our reach, it literally moves us, can be touched, explored, and that is exactly why we don’t care much for its sanctity. But both are found in a single being – us – separated by the mystery of all things and by our ignorance of ourselves. So how to treat the body and soul lightly? And bring to the pages of this magazine two such distinct themes that are at the same time united by a link that, literally, links us. The soul of an artist was certainly the first “theme” that fit like a glove because, more than any other thinking human being, the artist lives to explore the nuances of the soul and often must find the answers he seeks through the agonies of his own flesh. The photography of New Yorker Roger Ballen, for example, is the most lucid form of looking at the soul through the body, its degradation and its virtues. What better way to reach a higher plane (or lower) than through music and its irreverent characters? We’ve handpicked a few artists that delight in their bodies and agonize in their souls. In the hall of fame, drugs, sex and every kind of musical genre. Brian Moss is an American that, after opening up a gym in New York, became a photographer by taking pictures of fellow bodybuilders. And, because he is one of them, he can read between the lines of the mountains of muscles and pulsing veins and find the human being seeking attention, just like the rest of us. Oh, yes, fashion in this issue is taking a half-holy, half-pagan journey inspired on the work by Eça de Queirós, The Crime of Father Amaro. Poetic, provocative, and of course, with a lot of winter fashion to wrap our tropical minds around. Later, pieces of tattooed skin from prison inmates in Poland are codes to be deciphered. Or not, as our article shows. Beautiful, and shining with a celestial light inspired by the grand masters of painting, photographs by American Jackie Nickerson unveil the daily life within ultra conservative convents, from the dress code to their lifestyle. Moving forward in our astral journey we find out how the Chinese conduct their exuberant funeral ritual and how a group of boys in Minas Gerais keeps alive a tradition dating back from Brazil’s Colonial era: the musical tolling of São João del Rei’s bells, a cultural heritage. And that’s just the beginning...

Paulo Borges Publisher

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 173

5/9/11 2:58 PM


pg. 18

THE SKIN IS THE DEEPEST “There is a lot more light than we believe in the dark side of life,” says New Yorker Roger Ballen, photographer of reality and subjectivity By Jurandy Valença There is, undoubtedly, a paradox in the poet Paul Valéry’s phrase “The skin is the deepest.” After all, the skin is located precisely at our most superficial; subverting the idea that the most important things lie beneath the surface of the skin, in the depths; delegating to the surface, the epidermis, what is superficial and despicable. Roger Ballen’s photographs highlight this paradox. We see bodies and their souls in his pictures. There is a whole surface of things, but beyond that there is an internal territory that is felt rather than seen. Roger Ballen bought his first camera when he was 13 years old. At the time, in the 1960s, the artist’s mother worked for the international photography agency Magnum, and early on he had the opportunity to mingle with great names in international photography and see them work in loco. From then on, he never stopped, and for the past 30 years has built a disturbing body of work that has been exhibited at important museums and institutions the world over, such as the Georges Pompidou Center in Paris, the Victoria and Albert Museum in London, the MoMa in NY, and others. Most of his projects take about five years to be completed and are then published in books. Ballen was born in New York, in 1950, but 30 years ago he chose Johannesburg, the largest city in South Africa, as his home and workplace. He began photographing small rural communities in the country and between the early 1980s and 2008 produced several series of photographs that border the line between photojournalism and artistic photography. The author of eight books, he maintains a foundation dedicated to teaching photography in South Africa – the Roger Ballen Foundation. For lovers of contemporary photography, it is impossible to look at Ballen’s photographs and not think of Diane Arbus. More than the fact that both photographers focus on marginalized people and/or situations, they are both explicitly voyeuristic, full of subjectivity and textures, both physical and psychological. Roger Ballen follows two principles behind his work: always photograph in black and white and always use the flash. And that’s where a paradox emerges: the more light he shines on his subjects, the more immersed in darkness, in the gloom, they will be: they are always denying us something that is hidden even to themselves. As Ballen himself says, “To me, the dark side has always been a source of light and energy. I always tell people that they can’t find the light without knowing darkness.” The feeling one gets from looking at his photographs is that the subject or object is confined in a space that is isolated from the outside world, but also isolated from itself. People, animals, shadows, dirty walls, beds, sofas, drawings, scribbles and graphics placed on several different surfaces, trash, wires and strings are recurring themes in his work. His photographs create claustrophobic spaces. The space is limited to a bedroom, a living room, a corner, and a wall. A world in which chaos predominated, in which reality and subjectivity mix. In the series Drops: Small Towns of South Africa (1986), the eye of the photographer focused on architecture and interiors, but it was the series Platteland: Images from Rural South Africa (1994) that placed his name on the board. The series caused a strong impact at the time, with images of poor and socially excluded people, hidden away by the propaganda created by the apartheid government, who wanted to hide the reality of that time. Ballen exhibited them in all their precariousness, bringing to light the existence of people that were out casts, beyond the “normal” life. The series Outland (2001) and Shadow Chamber (2005) show

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 174

the most varied compositions and textures, people, objects and animals. The photographs of the latter show a world with an abundance of drawings, graphics and geometric forms. There is something very primitive about it. Ballen turns to still life and unites animals, objects and the most varied visual symbols. In constructing some of the images for the series Outland, which has Portrait as its theme, the human body or parts of it become the main focus of the photograph, though what surrounds the body or body parts is equally important. Everything in the scenario, the surrounding objects, everything is “portrait”. There is an apparent domestic normality in some of the photographed scenes; a realistically evident fact, but, at the same time, there is a strangeness that often becomes almost theatrical. After all, is what we are seeing real or fictional? In many of Ballen’s pictures the situations are staged with actors and models that interpret their characters and photographic narratives. But even so, looking at these images, our first impression is that they are absolutely real, registers of an almost surreal reality. “To me, my best work is the one that I don’t understand completely,” says the photographer. What Ballen does, in a way, is to bring the darkness back into focus. As he himself says, “there is a lot more light than we think in the dark side of life.” And it is that side that he shows us, inhabited by the marginalized, displaced, perhaps alienated and unable to deal with the chaos around them. There is poverty, disease, suffering, pain, but yet there is beauty. Roger Ballen has a very particular visual lexicon. Not only aesthetic issues permeate his work, but also, and especially, by cultural, social and psychological issues. His art involves not only photography, but also literature and painting. The sense of the absurdity of life, of existence, is present in his work, which he sees as a diary that “registers the way in which I view everyday things.” Like Samuel Beckett characters, Ballen says we are destined to live in this world without any alternative except to question why we are here, where we came from and where we are going. His photographs put us in an uncomfortable place – arid, inhospitable, and dirty. So surreal that it seems real. Or vice-versa. Ballen allows for an atmosphere of strangeness and draws us out of our comfort zone. It is as if his photographs demand the same reaction that Beckett expected from the spectators of his plays: “I hope the piece may work on the nerves of the audience not its intellect.”

pg. 28

Everyday Ephemeral Permeable, brief, but contemporary… Can you handle it? By Silas Martí It was brief, but the frescoes that have decorated the ceiling of the Orsanmichele Church, in Florence, since the 14th Century, gained new life during the Italian fashion season. Gareth Pugh, British designer, played havoc with the traditional runway setup and set his Spring/Summer collection afloat. Projected onto the ceiling of the central nave, a video showed models parading the collection for 10 very long minutes, which dragged on to test the patience of archangels that have watched mass there for 700 years. If fashion, by definition, falls out of fashion, then that’s the point Pugh was trying to emphasize with a runway show that was very insubstantial. There were minutes of bodiless images, floating bodies, fabrics set up in plastic structures over holographic skeletons. In the end, models assume the same stoic pose of their plaster counterparts, replacing them in the aisles so that everyone can come and look at the clothes. More than the collection though, it is the ephemeral that is really in fashion here. Perhaps because they are more fragile, subject to the merciless

5/9/11 2:58 PM


advance of the clock’s hands, these ephemeral images have a greater impact. In Pugh’s collection, figures try to go beyond the terrestrial plane, in a sort of interrupted ascent to the firmament of the classics. But these figures have no wings, they are inflatable bags, black like earthly garbage bags that shift to the whims of the storm. It is mutant fashion, sculpted from the spark of memory, the geometry of the moment and its trembling angels of the flesh ready to fall into a dark abyss. Also just narrowly avoiding the abyss is Shigeru Ban’s paper church. When an earthquake devastated the city of Kobe, a single building was left standing – precisely the building that was projected to last the least. Shigeru Ban had already seen the beauty in everything permeable. His paper constructions, made to suit different occasions, last just long enough for those events to be realized, without fear of extending the disposable nature of our routine to architecture as well. In tune with the Japanese tradition of using see-through vegetable paper for walls and screens, Ban understood the strength in everything that is not permanent, even when it stands up to the strength of the strongest earthquake – as if paper really was stronger than concrete. There is something of it in the brief bloom of the cherry trees, which last only 2 weeks and turn the horizon red, setting the tone for the whole season. Paper, leftover bits of plastic and other waste all seem to be calling for a new concept in visual resistance – flexible architecture for tumultuous times. Hedonism is irretrievably linked to a certain amount of pain. In a visual paradox, Argentinean artist Jorge Macchi also exalts the power of the obsolete by heading in an opposite direction to the Japanese paper temples. He built a room. In the middle of the room hangs a disco ball. But the light that shines from the ball causes violent gashes and tears in the walls of the room. They are cuts in the skin of the construction that dilate in time against their own nature. And it’s all fictional architecture, crossed by reflections of real lights from the exhibition room, the permanent denial of a fleeting state. They are black holes that scorn their own shadowy nature, competing with the real nature of the rest of the construction – the bricks, the mortar, the plaster and the paint. But in terms of image, everything has the same weight, even the flesh. No wonder artist Laura Lima calls the actors who perform in her installments “fleshmen” and “flesh-women”. For moments in time, they are also a part of the challenging architecture. Once, at the Pampulha Museum, Laura tied a man to the building’s columns as if like Sisyphus, he was forever condemned to move the modernist pillars of the former casino designed by Oscar Niemeyer with the strength of his own muscles. An epic struggle between man and stone. As proof of the intensity of her desire for everything that is ephemeral, the artist built a 20-meter hammock in Rio de Janeiro’s cultural center, where you can schedule a rest break. A man with long eyelashes and a women with equally long pubic hair slept all day, gripped by a strange languor in a kind of imagined suspension of sleep in full public view. It was an incredible theater that lasted for hours and left the viewers with a distinct plastic effect, like a sculpture that suddenly comes to life with a breath of flesh. When Chris Burden paid a friend to shoot his arm during a 1974 performance, he was already heading in the direction of the ephemeral. The bullet just scraped him, cutting his flesh. It was an allusion to the concrete killing that was then going on in Vietnam and was not deterred by all the protests. Burden really put himself out there, equating his own youthful body to the decaying skeleton of Nixon’s administration. The shooting took 4 seconds, but it forever changed the dimension of carnality in the realm of art. In a slower act, Vito Acconci spent eight hours a day masturbating beneath the floor of a New York art gallery in the beginning of the 1970s. He would frighten the uninformed visitor by shouting out sexual fantasies between cracks in the floor, and would turn himself on hearing the creaking footsteps above him moving closer to his body. But while Burden and Acconci spoke the language of their time – the urgency of the material expressed in the contortions and mutilations of the body – today it is the ephemeral that stands out in art, music

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 175

and fashion as a sign of another kind of urgency: a forced need to catch your eye in fast-moving times, in which one tweet quickly replaces another, social network feeds unceremoniously run each other over and phenomena are born and die at the speed of light or as fast as data traveling through fiber optic cables. In sum, a reality that has made the physical presence obsolete, since everything can be accomplished through technological interfaces. American band Flaming Lips had a flash of insight into the ephemeral and found a way to emphasize the necessity of being physically present. When they released “Two Blobs Fucking,” they split the song into 12 layers of sound, releasing each track separately. This forced the fans to get together , at least 12 of them, each with one track playing on their iPhone, to play the complete song. If, on the one hand, this is viral marketing at its core, on the other it is a sign that the fun of the experience lies in the temporary joining of all the parts of a whole. It is a digital choir born of an appeal, a call to arms. Similarly, urban gangs, less violent and nerdier, have been coloring the world by throwing magnetic LED lights at metallic building facades. The phenomenon is known as “LED throwing”. They know the batteries in LED lights, which are as small as safety pins, can’t last more than 24 hours. Nonetheless, they work hard to create elaborate designs, even if urban cleaning crews, the short life of chemical compounds or the whims of the weather will wipe them out. It is a less liturgical and more modern version of the traditional Corpus Christi sawdust, flower and sand tapestries. It’s all about the moment. Artist Pedro Victor Brandão works to desanctify images. By disassociating the earthly from the divine, or mercilessly dilapidating the image embalmed in our memory, he exposes a series of photo chromes of works of art belonging to his family to ultraviolet light. The strange light of these rays causes the images to deteriorate, causing them to lose their shape much more quickly than they would in normal time. Brandão speeds up the destruction to throw light onto the content, which deteriorates before your eyes, reminding us that those images might otherwise have been forgotten in the bottom of a drawer somewhere. It is another testament to the strength and beauty of increasingly fleeting times for the image.

pg. 36

Kilian Eng and the subjective world Science fiction, rebirth, the baroque and the vast world of architecture are all elements that Swedish graphic designer Killian Eng uses to create illustrations and animations that transport us to a surreal new universe. “For some time now I’ve also been using the Wacom stylus together with Photoshop, but in a way that the final result doesn’t have that digital feel, you know?” he says. He makes a living off designing music album covers and doing other graphic design jobs that require abstract themes imbued with ambience and emotion. “Being able to ‘go beyond’ our daily reality is what keeps me inspired from day to day.” And what else inspires you, Kilian? “Well, the films by filmmaker and scriptwriter Dario Argento, the drawings and animations by Frenchmen Moebius and René Laloux, by Belgian François Schuiten and Japanese artist Hayao Miyazaki.” And, one final question: can art (even digital, “trippy”, surreal art and animation) save the world? “Yes, it can do it all the time. If art, in a broader sense, did not exist, the world would be a very cold and intolerant place. Art teaches us new ways to reflect upon and understand ourselves and others.” He said it all! dwdesign.tumblr.com/ behance.net/kilianeng

5/9/11 2:58 PM


pg. 44

To the beat of demigods You will find, between Heaven and Earth, a world of music, full of crazy, displaced, dirty, and passionate characters. We selected the most earthbound and the most transcendent to prove that what really unites us is the beat of purgatory By Gabriel Marchi There is a fine line separating the body from the soul. Music is somewhere right alongside it. It comes from the strength of the soul, but materializes through physical manifestations – vocals, saliva, touch, and so on. The final result, however, is intangible. That is where Soul was born, and aptly named. Great singers like Aretha Franklin and Otis Redding. Poet Paulo Leminski has the best definition on the Blues, “When someone spends a sleepless night, what happened? He’s got the Blues.” Right, Bob Dylan? In pop, exactly the opposite happens. In pop, the body is everything. People who poke fun of Madonna’s ultra buff arms just don’t get it: pop is about strength, about challenging the passage of time, about survival. And then there are cases where we have a bit of everything, of body and soul, without distinction. Like Jim Morrison, Elis Regina, Caetano Veloso and so many others.

Elvis Presley, music’s minotaur “Elvis, The Pelvis”. That was Presley’s nickname in the 1950s, and no surprise: the singer brought hips to pop music, something that until then had been absolutely forbidden in show business. He rocked those hips so sexily that the more conservative TV shows would only film him from the waist up, to avoid overheating the set in millions of American households. All in vain. Especially when, in 1968, he was on NBC’s Comeback Special, wearing a leather jumpsuit. Hot stuff. His list of flings with Hollywood stars is legendary: his sheets saw the likes of Natalie Wood, Connie Stevens, Candice Bergen, Cybill Shepherd and many other lucky girls.

Billie Holiday, Eleanora didn’t have a drop of vanity Owner of one of the most unmistakable voices in Jazz, Holiday suffered from a broken heart like nobody else – and made it abundantly clear. She hummed to her own tune, and sang to it as well, deftly manipulating tempo. Billie, born Eleanora, was born into a poor family and difficult childhood. She tolerated abuse from her lovers for most of her life, including being raped at age 13. When she was arrested in 1947 for drug possession, she said she felt oppressed. “It was like the United States of America against Billie Holiday,” she said. Biographies claim that Billie died of an overdose, in 1959. But if you listen to her sing, you can tell she died of a broken heart.

Janis Joplin, a shout out to freedom Intensity could be her last name. She lived a short and extreme 27 years, all immersed in the generation hippy high during the beginning of the flower power movement of the late 1960s (which, despite everything, she claims not to understand.) Janis was considered the “ugliest boy” in college, but became a muse from the first moment she stepped up on stage in 1964. Her hoarse, tearing and vastly imperfect vocals transcended the notions of what made a “good singer”. She died of a heroin overdose on October 4th, 1970.

Tim Maia, the seven capital sins “Guaraná, suco de caju, goiabada para sobremesa”, (Guaraná, cashew fruit juice and guava paste for dessert) and lots of chocolate too. Tim Maia’s universe is not only material, it is edible. Singing of excesses, he masterfully appropriated and “Brazilianized” sounds like Motown and Soul, and was known for his extravagances in the kitchen. His favorite dessert: many

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 176

cans of condensed milk, sweet biscuits, a bottle of guaraná, all mixed into a large pot and put in the oven. Tim would not just eat in large amounts, he consumed stuff in large amounts: cocaine, weed and other narcotics all featured on the menu.

Nicki Minaj, the strange world of Nicki The world of rap has always been a private club for boys. Nicki Minaj planned to change all of that. Born in Trinidad and Tobago, Minaj combines the in-your-face gangster attitude with the sexy hotness of a popstar. She intimidates rappers like Eminem, playing an aggressive, deep-throated character with violent lyrics, and visibly bothering plastic American singers with her fit body and big booty, that some bitter people accuse of being fake. For every personality she embodies, Nicki also changes her wig – she has a collection of over 200 of them.

Gabi Amarantos, call me campy Forget Ivete Sangalo, Claudia Leitte or Daniela Mercury. Gaby Amarantos is Brazil’s new favorite popstar. Known as the “Beyoncé from Pará”, Gaby combines the visual pyrotechnics of American popstars with her own peculiar swing. All to the beat of tecnobrega, or technomelody, the most original beat the country has produced out of the tropics in the past 20 years. Over electronic bass and the accordion of the typical forró music of the northeast, she belts out lyrics with a powerful voice, a curvy figure, and a techno wardrobe, including shoes with blinking LED lights. She’s so easy-going that at one show, noticing a wardrobe malfunction – her breasts popped out of a too-tight shirt— she just went ahead and climbed off the stage very casually.

Beyoncé, number One Tina Turner legs, Etta James hair, Donna Summer hair, Diana Ross ambition. Beyoncé is a compilation of all the great American Black Divas and, by her husband Jay-Z’s side, has built an entertainment empire. Like Diana, in the Supremes, she outshone her two Destiny’s Child band mates. Not quite satisfied with the 11 million copies sold on her first solo album, Dangerously in Love, Beyoncé threw herself into the movies, with the successful hit Dreamgirls. In 2009, she conquered the world once again with her hit Single Ladies (Put a Ring on It) and created the century’s most copied video clip ever: wearing a black leotard that emphasizes her curves, she sings, dances like crazy, flips her hair back and forth, and all without missing a beat.

Mick Jagger, dance with the Devil Full lips, black shoulder-length hair, and incredible moves: Mick Jagger’s sympathy for the Devil must be mutual. Leading the Rolling Stones – a band that makes The Beatles look like four little choirboys – Mick created an onstage persona that is copied to this day. And to this day he takes bands of groupies to his bed. Groupies that are willing to give an arm and a leg (and god knows what else) to spend one night with him. Pamela Des Barres, the luckiest of them, reveals everything in her biography I’m With the Band: Confessions of a Groupie, including the fact that Jagger is, well, well-endowed. Lucky for David Bowie who, apparently, spent a night with him…

Ney Matogrosso, swinging hips and revolutions One of Brazil’s most productive musicians, Ney Matogrosso embodies our sexuality. During the 1970s, Ney shocked the country with his sexual ambiguity, his indefinable voice, androgynous body and extravagant attitude. She-he, He-she or werewolf? While a member of the glam-rock band Secos & Molhados, he would appear onstage with his body covered in makeup, in feathers, necklaces and beads – a getup later copied (in a subdued fashion) by the members of super rock band Kiss – or so legend says. Today, 69 years old, Ney is still active and increasingly impressive: his body, and mind, refuse to show signs of slowing down.

Kurt Cobain, swimming against the current The last great idol of rock n’ roll was also one of the most

5/9/11 2:58 PM


misunderstood. The leader of Nirvana led a kamikaze style life alongside wife and wreck Courtney Love, and was consumed by fame, money and fans. But not because Cobain wanted any of it. In fact, quite the opposite. The singer killed himself with a shot to the head in 1994. His suicide still echoes around the world, more morosely than ever, but his musical legacy is still strong, and reminds us of rock’s fundamental trait: rebelliousness.

Maria Bethânia, an inner journey She is not just soul, she is drama. Bethânia has an onstage presence that hypnotizes and captivates the audience. Legend says that her energy is so boundless that when she gets up on stage electrical appliances go haywire. That’s saying something. With a background in theater – she landed in music by chance, through Nara Leão – she was the first Brazilian singer to sell one million records. But that doesn’t matter. What matters is that Bethânia is a poet, with intangible and priceless quality.

Sigur Rós, take me to your leader The most famous band to ever leave Iceland, a place that in itself is full of soul. Formed in 1994 by six kids that sing in an unintelligible language and sometimes in no language at all, just in pure emotions. A mix of experimental, progressive and erudite rock, in which form matters very little and the traditional structures of music are defied. They have been labeled post-rock. They also master the art of the video clip, successfully translating the melancholic vibe of their melodies onto the screen.

Arnaldo Batista, the acid has hit hard One of the brains behind the band Os Mutantes, Arnaldo Baptista has one of the most inventive careers in Brazilian music history. It was after the breakup of Os Mutantes that he actually released his best material. With Loki?, from 1974, he gave in to psychedelic wanderings without restriction and recorded some of his best tracks, such as Vou Me Afundar na Lingerie (I want to lose myself in lingerie) and Será Que Eu Vou Virar Bolor (Will I turn into mold today?). There are those who claim Arnaldo still hasn’t come down from his trip to this day. And that’s how we like him.

Patti Smith, punk to the last She was a princess, a queen, a godmother and today is a grandmother and fundamental stepping stone of rock. This American artist brought poetry to rock: who else was able to recite over the sound of screeching guitars and still be heard? Spiritually linked with French writer Rimbaud, a protégé of Allen Ginsberg, lover and friend of Robert Mapplethorpe, an inspiration to Bruce Springsteen. To this day, she remains one of the most influential – and real – singers out there.

pg. 54

The unbearable lightness of being Or how American Brian Moss transformed images of hyper-muscular men and women into vulnerable human sculptures By Gonçalo Junior A strange and daring episode made American Brian Moss catch the art world’s attention in 2000. An amateur photographer, then 43 years old, and known as a bodybuilding teacher in New York, he convinced the New York’s Museum for Contemporary Art to exhibit a collection of photographs he had taken of muscle women. Of women with very big muscles. Titled “Picturing the Modern Amazon”, he invited a few women, mostly friends and former students, to pose with relaxed muscles, but in positions and with facial expressions that transformed their bodies into

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 177

veritable statues imbued with strong eyes and facial expressions. And that is how Moss was able to introduce bodybuilding into popular culture and contemporary art. In 2003, in a new exhibit, this time with 15 images of men, he established his style. At the time, art critic Antoine du Rocher wrote that Moss’s pictures seemed closer in spirit to the aweinspiring alabaster urns of Hellenist-period Etruscan art than the hackneyed muscle-magazine images associated with this sport, or the equally trite computer generated images from Hulk. A few photos delight with their wit and irony—like for example the one of a bodybuilder with an open umbrella, hailing a taxi in a posing suit and flip flops. There’s no point in asking Moss if there are concepts or ideas behind his photographs – the same photographs that decorate the walls of bodybuilding gyms around the world today. He admits that his portraits are in fact thought out, planned, sometimes with the complicity of subjects that have no experience as models. He also recognizes that he creates images with eroticism and sensuality in mind. Thus, through the eyes of a voyeur, he freezes moments in time and creates photographs that have become the objects of admiration for every sexual preference or just merely lovers of art. But it doesn’t end there. These mountains of muscle that seem ready to explode actually reveal subtlety, solitude, a certain frailty and even lightness. The pictures are of men and women that try to shape their bodies as if they wanted to defend themselves from the world, from their fears and weaknesses. Moss humanizes these inflated creatures, that may be labeled bizarre, disproportional, but are really only human. In the following interview, he remembers how he wound up in the world of bodybuilding and then fell in love with photography. A man of few words, almost speaking in syllables, he believes that he has little to add on the subject of the personal style he established as a photographer of bodies and souls. He is even amused when he sees that his work provokes reflections. But he prefers not to give an opinion, believing his pictures speak for themselves. They are images frozen in hotel rooms, sometimes somber, or backstage during bodybuilding competitions. The visual impact his photographs provoke are due to more than the sheer monumental muscularity of the models – more importantly, it is about the existential drama inherent to the human condition, and an eloquent commentary on that drama, as Rocher observed. In sum, Moss became a photographer to create an unique concept of images of muscular men and women revealing their fragility. ffwMAG!: To start, where do you come from? Brian Moss: I was born and raised in New York on the upper West side of Manhattan. And my parents are also from New York: Brooklyn and Queens. My father works in point of purchase advertising and my mother was a homemaker. Mother was a mother. I studied at a New York City Public School, followed by the high school of Music and Art. After that, Syracuse University. My degree is in wildlife biology. I was a National Park Ranger. ffwMAG!: How did you navigate from a specialized school in music and art to wildlife? Brian Moss: I just always loved the outdoors, being outside, away from the big city. One would think it would have been more logical for me to pursue my studies in a music conservatory or fine arts school, but I drew birds. I drew wildlife. I just knew that I wanted to be outdoors.... I worked in The National Park Service... I was what they called seasonal and as a seasonal employee, you had no benefits, no retirement. You just came back every season. So, I left the Park Service and I was hired by the Museum of Natural History and there I was involved with the education department. I taught school children. ffwMAG!: So how did you end up getting involved in bodybuilding? Brian Moss: I left the museum to open up Better Bodies in

5/9/11 2:58 PM


1982. I trained like a bodybuilder and probably thought I could be a bodybuilder. But I think I had a pretty realistic assessment of my genetics. Like any young guy, I trained to look good. I was inspired by magazines like Muscle Digest, Muscle & Fitness, like any young kid. ffwMAG!: Was it hard to go from personal trainer to gym entrepreneur? Brian Moss: It probably worked out okay out of ignorance. I knew nothing about business. I also knew from my father’s input that it is best to be your own boss.... And then I just surveyed the scene in the early eighties and didn’t understand why there wasn’t (sic) coed gyms. Back then you had to train at a men’s gym, a gay gym, to train hard. It was either that or a health club. ffwMAG!: Did women participate in this bodybuilding universe? Brian Moss: No, and I did not understand why women could not train in those gyms.... And that is what gave me the idea to open up a hard-core gym for men and women: Straight, gay, it didn’t matter—as long as you were hard-core and wanted to train hard. My gym quickly drew a lot of local bodybuilders because we always had a reputation as a very serious gym, but a friendly gym. I became an active participant in the birth of bodybuilding for men and for women. But these bodybuilders are my friends to this day, and my experience with them allows me a level of intimacy and trust that they don’t usually allow. Much less with a camera. ffwMAG!: It was only after you sold your gym, in 1997, that you began to photograph athletes, right? Brian Moss: Exactly. I didn’t take pictures when I owned the gym. Everything happened after that. One day I picked up the camera for the first time and casually began to photograph my main competitors in the world of fitness and bodybuilding. So, right from the start, my pictures came from the underground, the backstage of this world. It was something that was very honest and voyeuristic at the same time. I wanted to capture moments in the backstage of the Mr. Olympia contest or in private moments in a hotel room a few hours before the contestant got on stage. ffwMAG!: Is there a concept behind your photographs? What are you trying to capture? Brian Moss: It depends on the project I’m embarking on. Usually, my concept is just honesty. But, sometimes there’s an element of fantasy. I believe my images are imbued with an intimacy that had never been seen before. I think the common element in all my pictures is two aspects: humanity and vulnerability. ffwMAG!: Your models always appear with their muscles flexed, not at all relaxed. Why does that happen? Brian Moss: I think that, when we are talking about muscles, they look best to the camera lens when they are somewhat tensed. ffwMAG!: There are also situations in which your models appear to be posing for the picture… Brian Moss: Yeah, no doubt. Bodybuilding can be a very personal experience, few people understand what the athlete is going through to be a bodybuilder. That’s where the photographer comes in. In this case, me. The viewer normally projects the message onto the picture, so the same picture can have different “messages” depending on the viewer. A lot of my pictures of bodybuilders were taken for ad campaigns. They became iconic and influenced the way bodybuilders are portrayed in ads. ffwMAG!: You photograph people who have changed their own bodies and faces. And often they show a lot of tension. Is there something psychological you’re trying to capture? Brian Moss: The tension just means hard work, training hard to reach an easy victory. I don’t think of looking for elements that

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 178

might tell you something about the model’s personality. ffwMAG!: There is an element of eroticism in your work. Is that deliberate? Brian Moss: Yes, undoubtedly. The erotic nature of the human body is undeniable. For some, that’s magnified when it comes to a muscular body. There are viewers that project their feelings about the bodies they see in my pictures. There are also some images that contrast delicate strength and muscles. Like the girl in the lingerie on the bed, who is very sensual. I like the incongruence between hard and soft. ffwMAG!: Can you explain, if there is a soul, if there are human beings in these images that seem to be hiding behind a mountain of muscle? Brian Moss: It’s hard to generalize and answer that. But I’m sure there are some, not all, bodybuilders whose muscles are an armor that hides or protects them from outside forces.

pg. 126

The Brazilian Boom

The latest Big Bang in the world of fashion has replaced the importance of clothes with the body itself. Lucky for Brazilians, who were at the right place with the right measurements By Vitor Angelo

There was a time in fashion when, roughly speaking, clothes were made to fit the body. It was the heyday of the great haute-couture houses that ended in the 1960s. The important thing then was not the body but rather the design, the idea. The sculpted shapes of Cristóbal Balenciaga dresses are a great example of the materialistic approach to fashion as a concealer of the body’s imperfections and also as a messenger of a new body shaped by the dress. However, a new age soon began, where the body had to shape itself to the demands of mass produced pieces. In prêt-à-porter style, the body must always be ready to wear a look. In other words, it must be a certain shape to fit what has already been created. In sum, the body is the outfit. And it was precisely at that time that certain models begin to be considered as models that had “The Body.” It was during this time, in the 1970s and 80s, that the practice of sports and exercise underwent massification at a much larger scale than its first massification at the beginning of the 20th century. We find ourselves at the beginning of the gym era, of “Physical” by Olivia Newton-John and of healthy eating. They are the first steps towards the super-appreciation of the body. And fashion, especially in the USA, follows this diet nearly to a T. Going to the beach becomes doctor prescribed and synonymous with well-being, the number one choice for your down time. In time sports and beachwear shrink in size (we’ll talk more about this later), and the body is more and more exposed. In a way it becomes as significant as the clothing, or acts as a continuation of them. An annual American publication started during the 1960s played a fundamental role in linking models to the idea of the perfect body. The Sports Illustrated Swimsuit covers always featured a beautiful woman in a bathing suit or bikini. The 1970 cover featured a fashion icon of the generation, American model Cheryl Tiegs, one of the first models to be considered “The Body”. Her picture in a white mesh swimsuit became representative of the more casual and sporty American fashion (versus ‘European’ fashion). It was also this image that portrayed exactly the elements of daring, sexiness and hedonism that are needed for a model to be truly considered “The Body”. It was also in the pages of Sports Illustrated that a powerhouse, world-renowned face emerges in the 1980s as “The Body”: Elle Macpherson. The Australian model, born Eleanor Nancy Gow, changed her name and profession after spending her vacation in Colorado, when a spotter saw her. She decided to leave her university in Sydney, where she had been studying Law, to

5/9/11 2:58 PM


literally dive into a modeling career. In 1986, Time magazine named her “The Body” and she was the model that graced the most Sports Illustrated Swimsuit covers – five in all.

And then there was “The Body” But what makes a model “The Body” while another model with similar measurements might not cut it? To us lay people, the title of “The Body” makes little sense because, from a less analytical perspective, all models look to us like they have skinny bodies. But, to those in the fashion industry, the answer lies in slightly more prominent curves. There are also the so-called “perfect measurements” – a complicated mathematical equation between height and weight that is the coefficient to other “perfect” numbers measuring hips, waist, bust, neck, calves, biceps, forearms and thighs. But there is more than just mathematical equations needed to make someone an icon. The essential quality that makes a model “The Body” for a season or an era is the ability to communicate with her body in the same way many others communicate with their eyes or facial expression. In other words, it is not enough to have a perfect body, you have to know how to express it.

Brazilian high This ability to express yourself with your body gets better and better the more a model knows her body. The democratic nature of the beach is a great and natural place for a woman to get to know her body. Brazil boasts an intense beach culture since the 1950s, which became increasingly revealing from the 1970s onwards, and taught many girls how to get to know their curves, or better yet, how to show off their skin. That’s how Brazilian girls have conquered the world. The great anthropologist Gilberto Freyre wrote in his 1987 book Modos de Homem & Modas de Mulher about the importance of tanning and the clothes we wear on the beach: “Several women’s fashions have been representing a victory for women, in terms of hygiene, anatomy, nature and culture, against artificial fashion constraints placed upon their bodies. This signifies a revolution in women’s beach or swimwear, which has transitioned from an outdated moralistic anti-hygienic and anti-aesthetic extreme to another extreme. This other extreme emerges in Brazil alongside a very important social and cultural national identity that increasingly expresses a growing national pride: pride in our dark skin, tropical characteristic of the majority of Brazilian women. Among Brazilian wo men of all socio-economic backgrounds, tanning your skin has become an almost religious aesthetic rite […] A recent trend in women’s fashion has been the coming together of this behavior with one or two socio-cultural trends: healthy living (a greater appreciation of the human body and its care) and a greater appreciation for the woman’s personality.” (free translation) These characteristics emphasized by Freyre, “that transmit health and impose personality,” were important elements that helped our models enter the international fashion scene, in what became known in the 1990s as the “Brazilian boom”. However, let us take a small step back, while remaining in the 90s. At the beginning of that decade, there was a strong trend in fashion known as heroin chic. Gaunt, drawn faces, junkie attitudes and deep bags under the eyes were winning fashion editorials and people’s minds all over the world. The image of the drugged up youth was not exactly what authorities had hoped to promote. Legends says that the president of the United States himself, Bill Clinton, asked all powerful Vogue editor Anna Wintour to curb the disquieting trend. So in a move towards the opposite direction, from the dark to the sunny, fashion began looking for healthy, well-proportioned bodies… and it found Brazilians! Along with the waves of Brazilian models arriving in the runway shows and the fashion editorials all over the world came a breath of summer. Both Michelle Alves and Gisele Bündchen have been, at different points in time, labeled by the international press as “The Body”. The curves of tan, healthy Brazilians, with highly expressive

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 179

bodies from tropical sands, used to walking around under the sun in bathing costumes, conquered fashion at that time, and in a way its influence still lasts to this day. That might be the reason why so many of them are always present in Victoria’s Secret castings and lingerie clad runway shows. Hot Brazilian beachwear brands like Lenny and Blue Man always feature Brazilians in their castings. They know how to wear a bikini well, and more than that, they can convey the naked body fluidly and naturally, without seeming vulgar. After all, they’ve had years of practice on the beach and in revealing outfits that taught their body how to behave when it is on display. Izabel Goulart, Alessandra Ambrosio, Ana Beatriz Barros, Isabeli Fontana, Fernanda Tavares, Adriana Lima, Guisela Rhein and Emanuela de Paula are a few examples of how “The Body” perfectly describes Brazilians.

pg. 134

Under our skin

From the dawn of time to the digital era, from hardcore rockers to boutique hypes, from the cast-outs to the yuppies in shopping malls, tattoos transcend the monotony of the naked skin. Yep, there are paranoid Polish dudes trying to prove that tattoos are secret codes used to befuddle national security By Stéphane Malysse Whether you are a sailor of the chief of a tribe of pygmies, an inmate or a waitress, a man or a woman, what does your tattoo mean to you? How about to the people who see your ink, and see the hand of the tattoo artist? How do they decipher the various meanings of tattoos? How do you analyze scribbles in an objective and scientific manner? Can tattoos be used as scientific or legal evidence? There are many theories and tentative approaches to these subjects, but what we are about to see is not so simple, because every tattooed person places their personal history, chock full of subtle connotations, on their skin. To embark on this vast subject, let us don the skin of researchers in a department of forensic medicine and follow the clues left by them in the study of the scientific codes of tattoos. The 60 objects preserved in formaldehyde at the University of Krakow, Poland, consist of pieces of tattooed skin. They are instigating objects, almost works of body art… To begin with, it is very strange to be speaking about pieces of skin that have been cut up and transformed into hybrid objects, something between a relic and legal evidence. In fact, these tattoos were collected from the prisoners of the nearby state penitentiary on Montelupich Street. The strange collection was created as an attempt to decipher prisoner’s codes and understand their visual language and the connections between them. And this was the visual language of inmates we are talking about. While observing these tattoos, I noticed simplicity in the lines and choices of design, as well as a preference for themes outside the prison walls, themes that reveal the need to tell a story, tell their own personal story. A mermaid, a dog or a man on a bicycle, lots of couples kissing or making love. The tattoos seemed to escape beyond the prison walls and, more than being a method of intercommunication, they appear to be an “escape” for the prisoner from his situation. In a way like changing skins.

My table of contents The most visible and profound part of the body’s ego is the skin but, as Lacanian psychoanalyst Eugénie Lemoine-Luccioni explains: “I never have the skin of what I really am because I am never what I have.” Thus, to compensate this difference between Being and Having, there are many people that decide to inscribe a kind of table of contents into their own skin, their own flesh. Something to be seen, read and deciphered, something that will

5/9/11 2:58 PM


tell a personal story of that unique and individual, and at the same time universal, skin. In fact, even an anthropologist would be hard pressed to point out the exact “origins” of the various signs and embellishments applied by different cultures to their skin, because tattoos are part of the human condition, and in one way or another, societies always alter their skin to suit their aesthetics and beliefs. There is not one single culture that has left the skin completely untouched: nudity is always dressed. Whether using paint or clothes, the skin becomes an easel for a cultural subtext that must be read and deciphered. The body – the subject of an individual and collective, cultural and sexual identity – is a feature that is subject to the appreciation of others. Covered in signs, it is at once determined by the culture as well as an interpretation of aesthetics that takes into account the other. The other’s look underscores the true meeting of these elements by analyzing all the signs of the individual body, which are not the same as those of the collective group. The appearance, built like a palimpsest, overlaps personal and collective stories, traditional and hybrid elements, elements that highlight a relationship being lived with a pre-existing culture. The signs of the body mark the boundaries between it and nature and other cultural communities; they allow us to send messages about our ethnicity, gender, age, beauty, fertility, personal values, social hierarchy, religion and more, all at once. Ornaments such as clothes and jewels are temporary signs that allow for a great variety of interpretations and meanings. Between power and seduction, femininity and masculinity, every cultural group establishes its own rules to govern appearance and chooses an aesthetic model that expresses the individual’s significance within the group (and, by extension, of the group as a whole in relation to others.) At the same time, it reveals the unique and singular character of the individual. Aesthetics are a visible version of the ethics of a cultural group that invites us to notice the margin of maneuverability each one of us has in the construction of our own appearance. This margin is always subject to collective rules that guide the social and cultural organization. In this sense, body markings are permanent and definitive signs that place the skin’s social function in evidence. The skin is socially analyzed and read like a text: belonging to a group can be etched in the skin, through clothes, in gestures…

Free strokes Thus, returning to our Polish prisoners, or more specifically, the bits of them that are left, we can perceive that being a prisoner does not hamper visualizing other images or creating tattoos, which then reintegrate the prisoner back to the subjective world of the individual. More than a code that needs to be deciphered, these tattoos represent attempts to insert oneself into society; they are the chance to change your skin, even on a body that is held prisoner. In a place where the violation of privacy is constant, the skin is the final frontier of the ego and the tattoo is a way for someone to expropriate himself or herself of that ego. Many texts show the specificity of the incisions, burns, tattoos and other forms of branding oneself to feel our self-control over our own existence. These intimate moments of self-surgery allow the skin to become the surface of inscription for a resistance to life’s existential problems. In that context, “every epidermis would require a different tattoo; it would have to evolve with time. The skin shows its own history: scars, marks, wrinkles, pimples, stains…why look for them elsewhere?” (Serres, 1985.) In another edition of ffwMAG! (Future), I imagined that in 2035 the first successful tattoos would be made using electronic ink, and that the modular drawings in the Ukraine would definitively transform the culture of tattoos and other body markings. That way, tattoos could evolve with the body and keep up with the temporary annals of individual histories… Homo Aestheticus: beauty has been a fundamental issue since

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 180

the birth of mankind. From the first prehistoric inscriptions to electronic tattoos, man has always inscribed his sense of aesthetic on his body. From the Neolithic to current times, the human body has been painted, pierced and changed to incorporate it into the culture and distance it from its animal nature. In his anthropological essays on the body, French sociologist David Le Breton demonstrates how often tattoos are actually messages that allow us to transcend a difficult reality, an existential impotence: changing our skin is easier than changing the world.

Adam tattooed From prehistory, mankind has chosen colors, patterns and symbols that translate their own culture using diverse physical signs. In the digital era, a new kind of beauty is getting under our skin and mobilizing cutting edge biotechnology and medical techniques. In the century of hyper-narcissism, the triumph of individualism pushes people to own their appearance and have a hyper-control over themselves through relooking and ego-building (Malysse, 2009). The new electronic inks allow individuals to metamorphasize into modular works of art, transforming the canvas of the skin into electronic media. Subverting this idea of the human skin as a work of art, Belgian artist Wim Delvoye created a series of tattoos on pig skins – very, shall we say, humanized – in a farm in China. Pharmaceutical labs often use pigskin for testing due to its similarity to human skin, and the artist has even gone so far as to apply sun block to the pigs so their tattoos wouldn’t get sun burnt. Obviously, ironically, the artist tends to emphasize the identification between man and pig. What looks most like a tattooed pig? A man. Thus, in fact, we are no longer alone in our own skin, because even tattooed pigs now participate in our superficial humanity.

pg. 140

Put your soul on the scales A very well conducted American study from the early 20th century is the only “proof” that the soul does, indeed, exist, and even has its own weight By Zeca Gutierres The world will still revolve many times while the question of lifeafter-death remains at the top of the list of “major mysteries” for humanity. There have been few scientific experiments that have tried to explain the journey we embark upon after we leave our mortal flesh behind. Perhaps the most articulate of them took place at the beginning of the last century, in 1907 to be precise, at the hands of American doctor Duncan MacDougall, from Massachusetts. He wanted to end his existential torment and was radical in both his methods and his experiments. He rounded up six patients on their deathbeds and using the most accurate scales, measured them pre and post-mortem. His intention? To prove that the human soul has actual weight. On one side of the scales he placed the patient, and on the other, he placed the equivalent weight. And to make sure his theory was airtight, he took into consideration the air in their lungs and bodily fluids. To his surprise, the renowned researcher discovered that at the exact moment of death, his patients lost weight. When the first of them died, a man suffering from tuberculosis, the scales tipped immediately. 21 grams lost at that moment. An interesting fact: the movie 21 Grams, by Mexican filmmaker Alejandro González Iñárritu, is inspired on the macabre experiment. At the time, even the prestigious The New York Times commented on the experiment, giving MacDougall and his disciples a certain

5/9/11 2:58 PM


amount of credibility. And, despite the fact that each following patient registered a weight loss slightly different from the first patient’s, they established the average loss was 21 grams. Professor H. LaV. Twining of the Los Angeles Polytechnic High School performed the same experiments in 1977 and drew nearly identical conclusions. The explanation for the difference in weight loss between patients – one lost 46 grams, another merely 14 grams and a third 28 grams – was explained by MacDougall in these words, “One man was apathetic, slow in thought and action. In his case, I think the soul was suspended in the body after death, until it realized it was free to go.” I mean, can you believe that? People’s imaginations… Another interesting fact is that the study was repeated using 15 dogs at the moment of their death. To everyone’s surprise, the animals didn’t register any weight loss at all – which, to the doctor, signified that the human being is the only being with a soul, something that a lot of religions would agree on. On the other hand, several specialists questioned MacDougall’s findings. One of them was Kenneth V. Iserson, from the University of Arizona, author of Death to Dust: What Happens to Dead Bodies? He states that, by ignoring the fact that air has weight, MacDougall seriously erred in his calculations. All very well, but don’t “Man’s best friends” also breathe the same air we do? And MacDougall’s reputation at the beginning of the century was immaculate. So, as yet inconclusive, the theory awaits other avid researchers to prove the existence of the human soul. Until that is done, all we can do is cross our fingers and hope that the afterworld is better than this “soulless” world we live in…

pg. 142

The long and winding Chinese death Resting your soul in China? Only after lighting a lot of fires By Bruno Moreschi An ancient Chinese story sums up well how complex and important it is to bury someone in China. Once upon a time, a Chinese servant went into his master’s palace and asked for over a month’s leave to attend his cousin’s funeral. He carried a bowl of rice that he would offer to his dear deceased relative. The master was not pleased by the request, and asked his servant if he really thought his dead cousin would take so long to eat the rice. And then he shouted, “Besides which, you are my servant, and you must stay by my side.” For the first time in his life (and probably the only time), the servant allowed his anger to show before his master. Without fear of punishment, he bravely replied, “My cousin will take as long as your aunt, dead just this last week, to smell the scent of the flowers you placed on her grave!” In any other scenario, this would be seen as a grave offense, and would condemn the servant to a death sentence. But that is not what happened. After a few seconds of silence, the master realized that he was in error. He had just committed an affront against one of the oldest and most traditional customs in China: the interment ceremony, a Chinese tradition that mixes Confucianism with Taoist and Buddhist principles. To redeem himself, the master knelt before the servant, shed tears and begged forgiveness, saying, “Take as long as you need.”

Confucius says…. Contrary to us Westerners, for the Chinese burying their dead is

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 181

infinitely more important than celebrating the birth of a child. This means a ceremony that is full of rituals. One would need pages and pages to describe them all. But there is one thing that is almost a rule set in stone for a typical Chinese funeral: one must burn objects that were near and dear to the deceased. The custom began in China around 3 B.C., when Confucianism becomes the Chinese empire’s official doctrine, in the midst of the Han dynasty. In one of the five volumes of the Li Chi (in English, Classic of Rites), Confucius himself writes that a death without the burning of objects is like undressing a person and abandoning them forever in front of a crowd. It is pure humiliation, and a really callous thing to do to your dearly departed. The comparison with a naked person exposed and shamed before a crowd makes sense. According to Chinese thought, when a person dies, they take nothing from this earthly world with them. There is a waiting period until the soul is able to reincarnate. During that waiting period, the person’s descendants must provide the soul with the material goods they will need to survive until their next reincarnation. The list of goods is enormous. The most common is representing the material goods in offerings with Joss paper made from bamboo or even rice paper. Joss paper is also used to make those little Chinese flags seen in the country’s public ceremonies.

For the VIP spirits… In wealthy families, the Joss is infused with bits of precious metals before it is burnt as an offering for the deceased. Each material has its own significance. Paper with silver, for instance, is offered to the regional ancestral gods. Paper with gold is used exclusively as an impressive gift for the Jade Emperor, one of the most important Chinese gods. He is powerful: he is the lord of the heavens and all realms of existence below including that of Earth, Man and Hell. But Joss is used for more than just this. The paper can also be customized according to the whims of the living relatives of the deceased person. In China, it is quite common for Joss paper to be used to recreate very realistic copies of objects the deceased owned in life or always wished to own. Born in 1977 in Hong Kong, photographer Kurt Tong has a series of works depicting the most varied objects recreated in Joss paper and used in funerals today. The variety is impressive, and also shows that, even in the afterlife, the Chinese continued to be tied up in excessive consumerism. Among the objects made from Joss paper are faithful reproductions of Coke cans, trendy outfits, shoes, gold watches, soccer balls, computers, electric fans, hair dryers, washing machines, refrigerators, microwaves, iPods, karaoke machines, pistols, safes, diving accessories, wheelchairs, Louis Vuitton handbags, US$ 100 dollar bills, scooters and… an actual McDonald’s tray, complete with french fries, hamburger, soda and apple pie – all of these objects of consumerism made entirely of the versatile Joss paper. But real luxury happens at the funerals of Chinese millionaires. Yes, you will find several Joss paper reproductions at their funerals. But you will also find real objects. And since we’re talking of the really rich, things can get out of hand. In 2010, for example, a Chinese millionaire was cremated alongside his Bugatti Veyron, considered one of the world’s most expensive cars, at around €1 million Euros. To prevent possible burn injuries to the people attending the funeral, the car’s motor was removed before burning, thus avoiding a possible explosion. The list of other burn offerings goes on. The Chinese also habitually set fire to money, rice, chicken, wine, fruits and bread, all in the belief that this way, the dead will be well fed in the afterlife.

Dying is exhausting... You would be wrong, however, if you think that a body being burnt alongside objects can sum up a typical Chinese funeral. Constantine Tung, author of “Three Kingdoms and Chinese Culture” (Suny

5/9/11 2:58 PM


Series, not released in Brazil), explains that the burning is actually just a small part of a long process of commemorating the dead. He writes in an email, “There is a joke among the Chinese that says that China is so crowded because it is infinitely easier to live around here than it is to die.” When someone dies in China, his or her relatives, especially the women, must express a deep and exaggerated grief during the period of mourning, which lasts no less than 49 days. During that time all celebrations such as weddings or birthdays are strictly forbidden. As if that weren’t enough, those in mourning must wear black armbands – a Chinese symbol of profound grief. The saga continues. When it is time to bury the body there are more demands. To determine the location and design of the burial place, the family must hire a specialist in geomancy, a method of divination that interprets markings on the ground or the patterns formed by tossed handfuls of rocks or soil. According to Chinese thought, if the deceased is not buried in the correct place, his or her descendants will have a tragic fate. And, since we are talking about a country with more than 1.3 billion people spread over a vast territory of 3.7 million square miles, the long and winding rituals involving a Chinese death can vary from region to region. In the North, the custom is to burn packs and more packs of the cigarettes the deceased used to smoke. More to the south, colorful paper ornaments are placed around the body, and these must not be burned under any circumstances. One last piece of advice… Nothing, however, is more bizarre than what happens in China’s rural areas. Until recently, farmers would hire young Chinese women to take their clothes off during the funeral rite in honor of the dead person. That’s right: striptease and mourning. One cannot deny that they seem to be following a certain logic. They justify the stripping ladies with one of the basic precepts of Chinese funerals: the maxim that the more people attend a funeral, the more honor it brings to the deceased. Unfortunately, the grand idea of spicing up funerals with striptease did not please the Chinese government. In theory, it was terminally banned in 2006. In practice, to the delight of the more bawdy dead, a bribe to the local authorities can make them turn a blind eye.

pg. 148

The Last Question

From the moment Man created his “synthetic self”, all our dreams will be possible. But what about God’s role in this new universe? For all the talk about the environment these days, I don’t think human beings have ever been more distanced from nature. And as much as I hate to say it, I don’t think this trend is going to reverse itself. It seems inevitable that people will continue to live more and more in a synthetic world. One might wonder.....is the gene-based, corporeal life we are familiar with just the incipient stage of the evolutionary development of universal intelligence? Not that long ago, the term “artificial” would have been considered derogatory. But since the advent of personal computers, the embrace of synthetics has been world-wide and insatiable. Some change their appearances with synthetic “improvements”, others neglect their physical selves altogether, taking the route of (sometimes false) computer identities. Already you see the development of avatarism. The advantages of avatars are many. To be able to create a synthetic self that can be whatever you choose, do whatever you want.......how ideal! Whole worlds can be created for avatars.......houses, clothes, etc......without depleting natural resources or harming the environment. You can be a rock star, a movie star, win the Tour de France, climb Mount Everest. Every dream comes true, without death, illness, aging, consequences, repercussions, limitations of time or distance.

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 182

The big turning point will be when you and your avatar can meld sensory experience through virtual reality. Advances in neuroscience already make it increasingly possible to pinpoint location centers in the brain for emotions, thoughts, physical sensations, etc. It is foreseeable that eventually we will be able to hook up to brain monitors and actually experience what our avatars experience. But as we detach from primary experience, the natural world, the body and its environment, will become increasingly irrelevant. Over time even our memes, those gene-like agents of meaning, will become obsolete. We will likely go extinct, our human identity sacrificed to a self-created, hyper-connected species similar to one living brain. The last traces of ego identification or “self” would disappear with us. Perhaps it will be like the Isaac Asimov story, “The Last Question.” Minds joined in a singular intelligence, eventually joining other intelligences in the universe, and as such, becoming the macroconsciousness that is the universe itself. “God” in the ultimate Spinozan sense, existing as hyper-condensed energy in perfect symmetry. Until an outside irritant upsets the balance, setting off the entire cycle again with the Big Bang. “Let there be light.” Perhaps it has happened a billion times already.

pg. 150

For whom the bell tolls God does not use a radio, the telephone or email. Instead he has a group of adventurous boys preach his message by tolling the bells There is a city in the obsolete gold road in the state of Minas Gerais where the bells have been baptized with first and last names. In exchange, they fill the skies of the old village with sounds all Christians find pure joy in. The National Historical and Artistic Heritage Institute of Brazil (Iphan) has decreed the tolling of these bells a part of Brazil’s cultural heritage because they are a people’s way of expressing themselves. In the towers of these churches you will find teenagers, heads of families and children all helping to keep alive a practice that began in Brazil as early as the 17 th century, with the first settlements in the state of Minas Gerais. São João del Rei is a city named after its founder, Tomé Portes del-Rei, a man from the state of São Paulo who was murdered by slaves around 1704 on the banks of the Rio das Mortes River. It is a place where we hear the word “God” often. Gold and diamonds discovered around these parts were mined and transported across the world. The city, with a population of nearly 85 thousand, borders Tiradentes, but has managed to stay more pristine than its more ‘metropolitan’ neighbor. São João del Rei grew without urban planning, with high-rise buildings sprouting unfortunately close to its historic center. It evolved from the baroque to the slums, briefly flirting with the neoclassic, art nouveau and art deco. However, it managed to keep its main architectural sites intact, though they suffered from government neglect. The city’s churches are its biggest gift to Brazil’s national heritage. Among them, the Church of São Francisco de Assis, supposedly decorated by Aleijadinho, with a garden planned by Burle Marx. Despite the lack of gold in the church – at the time of its construction gold was already scarce in the region – the colonial architecture typical of the state make it one of the region’s most beautiful churches. Other examples of churches include the Nossa Senhora do Pilar (the matrix, in baroque style), the Nossa Senhora do Carmo, the Rosário and the Nossa Senhora das Mercês. It was in the latter that the bell

5/9/11 2:58 PM


players agreed to meet ffwMAG!

Job description: bell player! Disregarded by those who are not familiar with the history of cities such as Ouro Preto, Catas Altas, Tiradentes, and São João del Rei, bell players are beginning to shed the anonymity of the cloisters and the informality of their profession. They split their time between caring for the churches and tolling the bells. But it is not until you climb the steep steps of the church towers in São João del Rei that you realize that bell players are not just regular folk. They are a combination of musicians and acrobats that must know how to play the bells and must have sharp reflexes to avoid accidents. And they do all of this in order to keep alive a tradition enforced by the Catholic Church back when there were no radios, television, Internet and such. “The tradition comes from Europe. The order of ecclesiasts devised this method by which they could broadcast invasions, fires, deaths or even women going into labor,” says Giovanni Antonio de Souza Frigo, who works at the city’s Department of Tourism and Culture and was our guide in our search for bell players. “Because so many bell players here were of African descent or mixed race, their tolls and sounds actually took on very special melodies, inspired even by capoeira. That’s how this tradition that combines faith, culture, music and different races was slowly created.” Many of these tolls have survived the times nearly unaltered. They announce life, celebrations and death. The bells are a reflection of faith in São Joao del Rei. Just for starters, bells are played serially to play a melody, or sounded together to play a chord. São João del Rei has seven official bell players, but there are over 200 people that play the bells in the more than 30 churches. To explain the profession and some of the intricacies of the knells and tolls, we climbed the tower steps to speak to Rodrigo Leandro da Silva, 39 years old, which comes from a family of bell players and had been playing for 25 years. He also has three brother and two nephews in the business, all unwilling to let the tradition die. “We’ve always lived behind the cathedral. We learned the meaning of every toll and every knell. Being in the tower is a dream,” he says. The cathedral is the training ground for bell players, who begin training as young boys. “There are two towers there, Passos and Santíssimo, and it is where most of us play our first peals.” Today Rodrigo is responsible for the bells at Rosário Church, while his brothers Fábio and Alessandro are bell players at the Cathedral, and Giovanni, the eldest, is responsible for the melodies at the Mercês Church. Two of his nephews Vaninho and Vinicyos, are following in their footsteps. The larger bells are used for celebratory or funerary tolls and knells. The mid-sized bells are used for peals, funeral tolls and for the via sacra processions during Lent. The small ones are used to keep pace. The most significant toll in Rodrigo’s life was the one that announced the death of Pope John Paul II, in 2005. “It was the only one I had never played before. We all played it all day. It was tiring because I did it alone, but it was very touching.”

Show me the money When it comes to bells, it all boils down to church events and processions involving different saints. As for death tolls, the quantity of tolls will depend on the deceased’s position within the congregation and if they were an active contributor to the Church. It is Helvécio Benigno da Silva, an old hand at bells, who explains this hierarchy. Today he does volunteer work to try to keep the art of bell-tolling alive, and in a certain way, intact. Self-taught, Helvécio misses the life of a bell player so much he bought a video camera and began to film his former colleagues at work. That is how he tries to interest youngsters

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 183

in the traditions. “The bell only tolls if the brother is part of the brotherhood. When the deceased only bought his tomb, then we only peal the small bell. And you can’t just enter the brotherhood, you have to contribute, to participate, work or donate money.” Which, in turn, reminds Helvécio of a story passed down from his grandparents’ days, “For people who don’t have a good position in the brotherhood, you play the little bell. So people used to imitate the peal of the little bell, and it sounded like this: ‘they had nothing’, ‘they had nothing’, ‘they had nothing,” he says, laughing. On the other end of the religious hierarchy are the Church treasurers and secretaries, then sextons, priests and bishops, all the way up to Pope, the person who gets the most tolls. “It’s 14 tolls of each bell for him.” A curious thing happened: right when Helvécio was talking about death knells, the bells began to toll announcing a woman’s death. The next day we found out that the woman was the sister of Tancredo Neves, a former president of Brazil who was born in São João del Rei. Wherever we went, there was someone talking about him. Another bell expert, Nilson José dos Santos, 36 years old, has been the bell player at the Church of São Francisco de Assis since 1992. There have been three other bell players in his family: his father, his brother and his uncle. “My father was a composer and had a samba group. That certainly helped him become one of the best bell players of his time. But we have a short career because you have to have a lot of energy to play the bells.” He picks “Senhora É Morta” as the most beautiful melody. “It is played only on August 14th, and it is the one that most touches my soul. It is melancholy, but it requires a lot of skill to play.”

Bells that kill As well as having a first and last name, the bells can be punished for the crime of killing someone, as a story from 1940 tells. “The bell was arrested and sentenced to a life of silence for taking the life of João Pilão. He was in the tower alone, playing the bells, when suddenly all sound ceased. They knocked down the door and found his lifeless body. The bell had hit him smack in the head. The story goes that after that the bell was removed from the tower and put in jail, where it faced a trial. It was found guilty and condemned to 20 years of prison,” says Nilson, who loves and fears the bells he lives with. Lo and behold, we discovered that João Pilão was Helvécio’s great-uncle. He tries to downplay the family’s pain and shrug off the rumors that say the cause of death was really João Pilão drinking. “They say he would drink and that’s why he died, but my grandmother swears that’s not true. That he liked drinking, but he never drank on the job.” The fact is, from then to now there have been very few deaths, but a very many accidents. At the Festa de Passos (loosely translated, the Festival of Steps), which occurs during Lent, there is a tradition that puts every bell player on edge. It is the Battle of the Bells, in which the churches of São Francisco, Pilar and Carmo compete. Rodrigo explains: “Only the festive melodies are played in the competition. On Friday and Saturday the Cathedral leads because the image of Our Lady leaves for the procession from there. Then on Sunday all three churches play the melodies – the competition is to see who can ring the bells the fastest. It’s madness.” It isn’t easy to decipher the meaning behind the peals. There are a huge variety of meanings, and most people today don’t know the meaning of the sounds or the melodies. Paulo Cesar Mendonça Nery, 20 years old and a bell player for 10, is responsible for the tolls and peals of the Church of Carmo. He tries to explain using theory. “Well, you toll the bell when a brother or sister of the order dies. By the order of the Church, the bell plays twice for women. Three times for men. But, the amount of tolls increases according to the person’s position in the order. You play even when a child younger than 7 years old dies. To the church, they are considered little angels. Then there are the peals, they are more melodic. There’s also a

5/9/11 2:58 PM


melody called Tencão Festivo, which I like. We play it only on the day of the festival of Our Lady of Mount Carmel,” he says. Paulo Cesar plays 3 bells called, respectively: Elias – the largest of them, named after the prophet; São João Batista – the middle one, baptized in 1979; and Eliseu – the little one, also named after a prophet. “These are names that belong to the Carmelite order. That’s how the naming system works in all the churches in the city.”

Tower Boys When we climb up the tower of Nossa Senhora do Pilar, whose construction began in 1721, we find Vinicyos Adriano Faria Silva perched atop the roof, in between one tower and another. Initially shy, he is 15 years old and the official substitute bell player for his father, Fábio – he’s Rodrigo’s nephew, remember? Now it is up to him to man the bells and inspire a new generation of boys to follow in his footsteps. “If I chose a different profession, I would be from a different family,” he says, getting ready to play. “All of us up here have had bell players in our family.” And suddenly there was a flood of children up there, taking turns to play the bells and make them toll. The most impressive thing was seeing how close to their heads the bells would fly past every time they pulled. “You’ve got to have a lot of practice, because there’s not a lot of space between the bells and the wall, and the faster you play them, the better.” with four years of practice under his belt, Vinicyos is the most deft when it comes to playing, with the agility of a capoeira player. “What I really like is bell changing, it’s adventurous, and there’s an adrenaline surge.” His favorite bell is in the Cathedral: Passos, the largest and the fastest. “Despite being big, it’s the lightest when its time to change. It’s imperial, so it has an open sound, very pleasing to hear,” says the boy, who knows a lot about bells. And being a bell player in São João del Rei is kind of like being a rock star: you get a lot of attention from the girls and become real popular in school. Vinicyos is also aware of the dangers for those who make the bells toll. “My grandmother didn’t like it when my uncles were up in the towers because a few people died. I’ve gotten hurt, and it’s been more than once or twice. But thank God it was just scratches. But in my dad’s generation, Roberto got his head squished by the bell. Luckily he made it out alive.” Yet it is clear that this danger is exactly what draws so many people to the profession in the first place. When we asked Helvécio who the most promising young bell player was, he soon mentioned Vinicyos. “He’s going to be the one that will keep the tradition alive.” Guilherme Raimundo Souza Diniz, 20 years old, also feels enormous respect for the Church and for the art of bell playing. For the past four years he has been playing bells in São João del Rei. For the past 18 months he’s been stationed ay the Church of Nossa Senhora das Mercês. Why bells? “Because I like them and respect them. I began playing at the Church of São Francisco de Assis, where I was Nilson’s apprentice. I was called to be a sexton, but I preferred becoming a bell player.” He also answered some of our questions about peals. “The setup that we have is a bit different, because our mid-sized bell is very similar to our large one. For festive occasions, it is used to signify the change in administration, therefore it’s always played in February. The Terentena is always played at the beginning and end of a procession, and every Sunday, the last peal must always be the Terentena. There are also two funeral tolls. Those are used often here because we have many members in our congregation.” His favorite bell is Popoló, from the Church of São Francisco, “but unfortunately it cracked during the competition with the Church of Carmo and the Cathedral, so it is not in use today. It was returned to the company that built it, and then

FFW_25_Traducao-RF-V1.indd 184

came back here, but it cracked again.” A curious fact: today there is a sticky lawsuit filed by the Church against the company that built Popoló. So you see? That’s what you get for messing with God’s radio frequency…

pg. 160

Jackie Nickerson in the confession booth

It wasn’t exactly God that drove American photographer Jackie Nickerson to turn Catholic communities in Ireland into an extensive photo lab. Photographers and filmmakers are rarely invited to enter here. Nickerson just wanted to capture the beauty present there. The series Faith is the result of a study on the habits of priests, nuns and other inhabitants of the cloistered world of convents, which, according to Nickerson, “institutionalize himself or herself, in such a radical lifestyle.” But, to enter this radical world, Jackie began to attend places that received aid from the Irish Catholic Church, such as schools and day care centers. This way she slowly gained the trust of the clerics. The inspiration for the series came from Sacred Art, of course, but especially from the vivid colors found in European samples from the 16th and 17 century. “I tried to capture the simplicity of the places I shot, to try and portray the way in which they live.” Jackie is the contributor of several fashion magazines, from New York to Milan, and has shot important campaigns, like for international brands Burberry, Armani and Shiseido. Her more artistic work is not limited to covering faith alone – she has also done work on different communities around the world, capturing the beauty and colors of their people. She confesses that what really interests her in Brazil is soccer. “To me, Pelé is one of the best players of all time.”

www.jackienickerson.com/index.php

pg. 186

Our daily cookie

From Genghis Khan to Homer Simpson, who hasn’t salivated over a cookie? The fortune cookie emerged around the time of the great Mongol warrior, in the 12 th century, when the allmighty Mongol army was pushing boundaries all over Asia in invasions that lasted a century. The Chinese, in an act of creative rebelliousness, came up with a way to warn their armies about their enemy’s movements, with them being none the wiser. The solution was to use the traditional cake dough of the time, baked into a half-moon shape, and hated by their tyrannical oppressors, to inform Chinese generals of resistance plans. The legend goes that at that moment at the beginning of the Ming dynasty freedom and the fortune cookie were born together. Many, many centuries later, on this side of the world, a doughnut shaped powder biscuit became the ideal representation of free spirits, economic growth and pop culture. The history of the “Biscoito Globo” began in 1953 when three brothers learnt to transform the miraculous ‘powder’ into something delicious. To Brazilians – a people who have assimilated faith and syncretism very well – the biscuit now represents a kind of sacramental host of the Carioca beaches. Even after the three brothers moved to the more industrial São Paulo, their history remained staunchly planted in Rio de Janeiro. Their biscuits became an attraction on the sizzling sands, memorialized by the cries of street vendors, “Biscoito Globo, get some, Biscoito Globo!” Just one bite and the material becomes divine. (ZG)

5/9/11 2:58 PM


FFW.indd 185

5/5/11 7:36 PM


Corpos comestíveis

O biscoito nosso de cada dia De Genghis Khan a Homer Simpson, quem já não babou diante de um biscoito? O da sorte surgiu na época do grande guerreiro mongol, no século 12, quando o poderoso Khan estendia suas fronteiras por toda a Ásia. Invasão que durou um século. Os chineses, em um ato de liberdade e criatividade, bolaram uma maneira de avisar seus exércitos sobre a reviravolta toda, sem que nenhum mongol melasse as batalhas finais. A solução foi usar o bolo da época, em formato de meia-lua e detestado pelos adversários tiranos, para informar os planos da resistência aos seus generais. Reza a lenda que nascia ali, além da liberdade e do início da dinastia Ming, o biscoito da sorte. Muitos e muitos séculos depois, deste lado dos trópicos, um biscoito de polvilho em formato de auréola ajudou a ressaltar a alma livre em tempos de crescimento econômico e cultura pop. A história do Biscoito Globo, espécie de hóstia das praias cariocas, para um dos povos do mundo que melhor assimilou a fé e o sincretismo, tem início em 1953, com três irmãos que aprenderam a manipular o milagroso polvilho. Mesmo se mudando para a industrial São Paulo, o trio ficou para a história do Rio de Janeiro. Viraram atração nas areias escaldantes, eternizados até hoje pelo anúncio dos ambulantes: “Olha o Biscoito Globo, olha o Biscoito Globo”. Uma mordida e a sensação de que o que era matéria virou alma. (ZG) 186

foto: carla castro / www.flickr.com/carlapcastro

ffwmag! nº 25 2011

FFW25_ultima pag_2-RF-V2.indd 186

5/5/11 7:37 PM


SKINBIQUINI.indd 3

5/5/11 7:30 PM


Mag-Fashion Week:Layout 1

VICTOR HUGO.indd 4

4/18/11

5:27 PM

Page 1

5/5/11 7:30 PM


ffwMag # 25 Corpo santo, Alma Pagã