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GOVERNO DO RIO DE JANEIRO, SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DO RIO DE JANEIRO, PETROBRAS, IBM apresentam

#animaforum2014

Relatório 2014

OFERECIMENTO

PATROCÍNIO


GOVERNO DO RIO DE JANEIRO, SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DO RIO DE JANEIRO, IBM apresentam GOVERNO DO RIO DEPETROBRAS, JANEIRO, SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DO RIO DE JANEIRO, PETROBRAS, IBM apresentam

#animaforum2014

Relatório 2014

OFERECIMENTO

PATROCÍNIO


Sumário A cauda longa do curta

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Apresentação: As estratégias de produção e exportação da Animação Francesa Convidado: Philippe Alessandri

60

Masterclass 1 Inventando Dragões e Vikings Críveis e Divertidos Convidado: Simon Otto

84

A integração Latino-americana

88

Rede de Festivais Latino-Americanos

144

Masterclass 2 Fazendo rostos Convidado: Chris Landreth

170

Projeto SEA

174

Masterclass 3 Criando Personagens Memoráveis Convidado: Eric Goldberg

228

Animação & Games – e Vice-Versa

232


29 de Julho

A cauda longa do curta

Convidados: Guigo Pádua – SAV-MinC Felipe Lopes – SEC – RJ Talita Arruda – Canal Curta! Zé Brandão – Copa Studio Moderador: Fabio Yamaji


A cauda longa do curta

O Anima Forum já tem uma história longa.

encarar a animação como uma atividade

Em sua oitava edição, o evento firma-

econômica”, disse.

se como o ponto de encontro anual em que animadores, produtores, e todos os

Ao palco, Coelho convidou Heliana Marinho,

interessados que compõem a cadeia da

representante do segundo parceiro,

animação no Brasil se reúnem para discutir,

igualmente importante, o SEBRAE.

avaliar, planejar e pensar os rumos do setor. É o espaço privilegiado da troca. Na

“Assim como o BNDES, o SEBRAE também

abertura de 2014, Cesar Coelho, um dos

tem se debruçado muito sobre a questão

quatro diretores do festival Anima Mundi,

econômica, tudo que está ligado às linhas

além de dar as boas-vindas ao público, fez

criativas. A animação e o audiovisual são vitais

um agradecimento especial à participação

nesse processo. Desde 2006, nós criamos

efetiva dos patrocinadores.

uma gerência de economia criativa. Nesse sentido, o SEBRAE também se aproxima

“A gente faz o Forum com o apoio de

do Anima Mundi, principalmente do Anima

dois patrocinadores muito importantes.

Forum, e com olho grande no Anima

O BNDES é talvez a primeira instituição

Business. É aí que a gente acha que pode

brasileira a entender, em termos

plantar algumas sementes. Nossa missão

institucionais e de planejamento, a

é apoiar pequenos empreendimentos, e é

importância da economia da cultura.

em busca desses empreendimentos, dessas

Tanto que eles criaram o Departamento da

possibilidades de negócio, de ampliação desse

Economia da Cultura, o DECULT, que está

mercado, que nós estamos aqui”, disse ela.

se debruçando no estudo de toda essa economia que envolve todas as atividades

O Anima Forum estava aberto. O outro

culturais, com foco no audiovisual. E, no

diretor do Anima Mundi presente neste dia,

audiovisual, eles têm uma predileção

Marcos Magalhães, anunciou o tema da

também estratégica pela animação.

primeira mesa: “A cauda longa dos curtas”.

Foi uma das primeiras instituições a

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mudar o escopo da animação. Como

“A gente tem que discutir a importância dos

banco de desenvolvimento, começou a

curtas-metragens frente aos investimentos

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A cauda longa do curta

que são feitos hoje na animação”, disse Magalhães sobre o que considera o laboratório da animação, o celeiro das grandes ideias. “Esse ano, a gente se permite ser um pouco mais poético, pensar mais em ideias, em conceitos. A gente já viu muitos números e leis aqui, e elas continuam sendo importantes. São dados da realidade. Mas o momento é de um mercado razoavelmente estabelecido, o que nos permite pensar em voltar para estratégias que mostraram sucesso no passado e pensar também no futuro. A ideia dos universos que se pode criar para a animação é o que delineia as quatro mesas programadas para esta edição. A mesa ‘A cauda longa dos curtas’ vai falar da permanência que têm os curtas, os que foram feitos no passado e os que estão por vir. Isso para nunca acharmos que curta é aquele formato iniciante que deve ser abandonado uma vez que a indústria se

Fábio Yamaji

estabeleça. Pelo contrário, tem de continuar

Esta é uma mesa importante, voltada a um

vivo, e cada vez mais forte”, passando a vez

tema que não tem tido a devida atenção e o

ao moderador, o animador Fábio Yamaji.

devido espaço, disse Fábio Yamaji, logo na apresentação. “Eu sou curtametragista, meu ofício principal é fazer curtas. Enfim, como a vida é curta [risos], eu fui escolhido aqui para gente conversar um pouco sobre esse assunto”, ele anunciou.

10

11


Fábio Yamaji cercou-se também de

apoio da ABCA – Associação Brasileira

pesquisa acadêmica. “Eu peguei como base

de Cinema de Animação –, ele fez, pela

o mestrado do animador Léo Ribeiro, o

internet, um chamado aos autores de

texto ‘Considerações sobre a relevância da

curtas-metragens brasileiros com o

produção de curta-metragem de animação

objetivo de conhecer a trajetória dos

no Brasil’. Segundo ele, a animação

curtas de animação autorais que tiveram

pode ser dividida em três diferentes

boa participação em festivais nacionais e

grupos de formato de exibição: curta-

internacionais.

metragem, para festivais e mostras; série,

Fábio Yamaji

A cauda longa dos curtas

Curta é o tema de Yamaji em campo. Com

para televisão; e longa-metragem, para “Os autores deveriam conhecer a carreira

distribuição cinematográfica. Cada qual

dos seus curtas e como eles foram

com sua especificidade e características

viabilizados, para a gente tentar enxergar

próprias. Também podemos dividir a

qual que é a importância do apoio público

animação relacionando as obras aos

– porque a gente sabe que muita gente faz

objetivos da produção, em dois grandes

curta-metragem sozinho, bancando o seu

grupos: as produções autorais – animação

próprio trabalho. Claro que a maioria das

independente, animação experimental ou

animações é feita com recursos próprios,

marginal – e as comerciais, que incluem

no tempo livre, mas isso é um problema,

indústrias de animação, grandes estúdios

porque reflete diretamente no resultado

e publicidade”, Fábio citou boa parte

final. Se tivesse uma grana a gente podia

do trabalho do colega, rememorou os

elaborar um pouco melhor o roteiro, fazer

fundamentos e questionou os caminhos

um cenário maior, ter mais personagens.

da ABCA.

Porque é um processo muito demorado, e

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muitas vezes pode levar um ano para fazer

“A animação que a gente está defendendo

um curta se não tiver esse apoio”, explicou.

aqui é a animação autoral e totalmente

A ideia da pesquisa, portanto, era detectar

livre de qualquer amarra, de qualquer

como são feitos os curtas e a importância

formatação, sendo que o curta de animação

do apoio para o curta-metragem,

só vai fazer sentido se ele tiver essa

principalmente para a animação.

liberdade. Eu sou um dos fundadores da

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está pensando aqui em arte, não somente em indústria, não somente em ter um retorno financeiro, a classe de animadores

Fábio Yamaji

A cauda longa do curta

ou um longa-metragem. E como a gente

e curtametragistas da ABCA sentia essa necessidade de fazer barulho e buscar esse espaço que a gente perdeu”, disse. Yamaji fez uma defesa fervorosa do curtametragem como expressão de arte. “A gente sempre pensa o curta-metragem como uma peça de expressão artística. A formatação para televisão e a exibição em ABCA, que juntou animadores, basicamente

Internet seriam saídas secundárias para o

curtametragistas, porque quando a ABCA

nosso trabalho”, defendeu.

foi fundada ainda não se faziam séries e

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longas, e a ideia era buscar um apoio, a

De volta ao estudo do colega, o moderador

gente se organizar para que a gente pudesse,

fez questão de pontuar a importância

como classe, demandar os editais para

dos festivais de animação ou curta-

curta-metragem. Isso aconteceu. A gente

metragem como uma rede paralela de

conseguiu um edital específico com o MinC,

distribuição. É por onde os animadores

em 2004, mas depois nunca mais voltou.

ganham visibilidade e alcance. Mas não

É nesse ponto que a gente está voltando

rentabilizam a expressividade ganha.

agora: por que a ABCA acabou direcionando

Trata-se, portanto, de um modelo que

a sua força para séries, para longa-

atende muito mais a produtores do que

metragem?”, questionou.

aos autores.

O curta perdeu espaço, segundo Yamaji. “Eu

Para demonstrar que o caminho do festival

continuo no curta-metragem e, por enquanto,

como difusor nem sempre rende os frutos

não tenho nenhum projeto de fazer série

que o animador espera, Fábio Yamaji

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maioria deles foi feita com recursos

prêmio de melhor animação brasileira do

próprios. Alguns chegam à competição. E

Anima Mundi, desde a estreia do festival

os que acabam sendo premiados são os

como mostra competitiva.

que tiveram apoio de edital”, sentenciou.

“São prêmios de público. O que eu notei aqui,

A pesquisa de Yamaji também abrangeu

por exemplo, é que os primeiros filmes, lá no

um outro festival, desta vez estrangeiro,

finzinho dos anos 1990, foram viabilizados

o Annecy. “Eu estou pegando o principal,

com recursos próprios. Ou seja, o próprio

que são os curtas brasileiros que passaram

animador bancou seu trabalho”, afirmou.

pelo festival. Nem falo de competição,

Fábio Yamaji

A cauda longa do curta

tomou como base os filmes ganhadores do

porque foram só cinco vezes. O primeiro O apoio público para o curta-metragem, as

curta-metragem brasileiro a competir

políticas públicas específicas para produção,

em Annecy foi ‘Tourbillon’ (1963), de

defendeu Yamaji, são determinantes para

Bassano Vaccarini e Rubens Lucchetti.

a viabilização e a trajetória do filme. E,

E o que eu queria pontuar aqui é que

fundamentalmente, influenciam a qualidade

dos animadores que chegam ao festival

do produto final. Os exemplos vão de “O

internacional, todos eles ou quase todos

Espantalho” (1998), de Alê Abreu; “Deus

eles tiveram um destaque no cinema, ou

é Pai” (1999), de Allan Sieber; “Chifre de

na animação e no cinema. No caso do

Camaleão” (2000), de Marão, “O Lobisomem

Rubens Lucchetti, competiu em Annecy,

e o Coronel” (2002), de Elvis K. Figueiredo e

depois ele se tornou um dos grandes

Ítalo Cajueiro, a “Os Irmãos Williams” (2000),

roteiristas do cinema brasileiro e também

de Ricardo Dantas.

de quadrinhos”, exemplificou. “O que eu quis mostrar é que o curta deu força para

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“Não sei se é uma coincidência, mas os

que depois esses animadores pudessem

curtas que passaram a ter esse apoio

seguir fazendo longa, fazendo séries e,

público foram esses que chegaram a ser

enfim, criando festivais, seguindo assim no

premiados no Anima Mundi. Contando

cinema, mostrando a importância do curta-

que hoje são mais de trezentas inscrições

metragem para a carreira dos animadores,

de curtas brasileiros no festival, a grande

para o mercado de animação”, finalizou.

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A cauda longa do curta

realista, menos apaixonada”, ele brincou e avisou seria esse o rumo que seguiria. “Vamos tentar uma abordagem mais pragmática, já que eu represento, de certa forma, a indústria”, ele seguiu, bemhumorado, numa tentativa de explicar o mercado brasileiro de animação: “Lá na PUC, falaram que eu devia fazer isso e eu não sou tão pragmático talvez, nem tão apaixonado, talvez. Mas fiz a minha pesquisa. Fui em todos os animadores com quem já trabalhei e que já trabalharam lá no Copa, perguntando para eles todos os estúdios de animação que eles conheciam no Brasil. Foi a minha amostragem,

Zé Brandão Copa Studio

A tarefa de defender o curta é fácil, avisou Zé Brandão. Defesa apaixonada, abordagem pragmática: “Gostei desse negócio do ‘curta é vida’. Achei maneiro. A vida é curta, curta a vida, a vida é curta... é bom! E aí por essas coisas, ‘a vida é curta e é maneiro’, eu quis também dar um título para a minha fala. Eu não sei o que é pragmático, mas a minha mulher me falou que é uma abordagem um pouco mais

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mas é uma amostragem interessante. A gente conseguiu levantar que o mercado brasileiro de animação hoje tem 60 estúdios de animação, e a nossa referência para estúdio de animação era pelo menos cinco pessoas dentro do estúdio. Esses estúdios produziam publicidade, institucionais, séries, games e longas-metragens. Dentro desses estúdios se tem mais ou menos 800 profissionais trabalhando. Eu fiquei meio impressionado com esse número. E, no mercado, a gente tem muitos animadores independentes. Temos no Brasil o segundo maior festival de animação do mundo,

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“Eu dirigi um curta, lá atrás, depois outro,

em 2013 e outro 2014, sendo que, em 2014,

com incentivo. ‘Rattus Rattus’ (2009) passou

me corrija se eu estiver errado, o Brasil

aqui no Anima Mundi, e muito me orgulhou.

era o país com o maior número de longa

Eu trouxe minha mãe ao Rio de Janeiro, ela

metragens da mostra. Alguém me confirma

até chorou, tadinha. Mas minha mãe chora

isso? Ninguém confirma? Então vocês são

até em inauguração de supermercado,

tão desinformados quanto eu”, provocou.

então não é uma coisa assim. Então, eu

Zé Brandão

A cauda longa do curta

correto? Tivemos um vencedor do Annecy

comecei dirigindo com o curta. Eu acho que Tudo isso para dizer o que ele considera

eu não dirigiria uma série hoje se eu não

inquestionável: o Brasil é um país que

tivesse a experiência de dirigir curtas”, disse

tem leis de incentivo e bastante produção

o diretor de “Tromba Trem”.

própria de animação. O mercado pode ser carente, mas é lindo, na definição dele, por

Zé Brandão enumerou exemplos dos

obra e graça dos curtas.

diretores que hoje atuam em longasmetragens e séries de TV, todos com

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“Os curtas são os grandes responsáveis.

curtas-metragens no currículo. “Está fácil

Porém, os curtas estariam perdendo terreno,

para mim defender a tese de que o curta-

é a tese que estamos levantando aqui

metragem é importante para todo o resto

hoje. Como eu não posso falar por outros

da indústria de animação. Mas, como se não

estúdios, eu vou falar do estúdio em que eu

bastassem essas coisas mais pragmáticas,

trabalho. O Copa tem seis anos, três sócios,

a gente pode ainda destacar o quanto os

54 colaboradores, três séries em andamento.

curtas-metragens são referências para

Desses 54 colaboradores, 45 são artistas.

qualquer pessoa que queira fazer animação.

E antes de entrarem no Copa, 41 já haviam

O quanto eles são experiências, o quanto

colaborado com algum curta-metragem

você pode testar. O canal não vai bancar. E

antes. Ou seja, a grande maioria deles

quando eu digo bancar, não é só dinheiro,

adquiriu experiência, entre outras coisas,

é uma aposta em vários níveis, muitas

trabalhando em curtas-metragens”, ele fez

experiências. Eu acho que o Leo Ribeiro

as contas para comprovar a força do curta,

foi meio duro lá quando ele disse que

inclusive em sua trajetória como diretor.

‘nós, animadores, que fizemos o caminho

21


Zé Brandão

A cauda longa do curta

contrário para a indústria e nunca mais fizemos o caminho de volta’. É preciso, portanto, reconhecer que os incentivos governamentais são importantes e necessários. “Em todas as áreas em diversos países. Na verdade, quase todas as indústrias, em algum momento, tiveram algum tipo de incentivo governamental. Então, não tem que ter vergonha de ter uma indústria que, para crescer, precisa de incentivo do governo. Isso é básico na economia como um todo”, pontuou. Os incentivos existem, garantiu Zé Brandão, principalmente para séries e longas. Mas é o curta que mais precisa de patrocínio: na série de animação, a gente tem inclusive

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“Existem vários tipos de incentivo. Existe

a possibilidade de o canal investir recursos

aquele patrocínio direto de recursos não

do chamado dinheiro bom, que é o dinheiro

reembolsáveis, e é isso que eu acho que

não incentivado, do seu próprio bolso com

o curta-metragem precisa. Existem vários

uma porcentagem do valor da série. Hoje

incentivos interessantes para série e longa-

em dia, a gente não tem um canal no Brasil

metragem, que não servem muito ao

que tenha a capacidade de bancar 100% do

curta. E eu não posso ser leviano de achar

valor de uma série, mas ele pode dar 20%,

que a indústria de animação brasileira

30%, ou seja, algum dinheiro já pode vir

de série e de longa sobreviveria sem

de um dinheiro não incentivado, enquanto

incentivo estatal. Mas o curta, pelas suas

para o curta isso é muito difícil. Você não

características, tem mais dificuldade de

tem instituições que patrocinem curtas-

conseguir outros incentivos. Por exemplo,

metragens que não tenham de alguma

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Que besteira. Olha, vocês, animadores, são pessoas incríveis. Por que vocês tem medo de estar entre os outros tipos de curtas

Zé Brandão

A cauda longa do curta

entre todos os outros curtas-metragens?

metragens?” Não! A gente não tem medo. O problema é que é quase impossível avaliar os dois ao mesmo tempo com a mesma parcimônia”, argumentou, ele, dando um exemplo concreto: “Eu participei como júri de um edital que era todo ele muito bem intencionado. Tanto é que chamaram dois representantes da animação para garantir que a animação tivesse a sua defesa. Mas era um edital em que os curtas estavam juntos. Poderia dar certo? Não deu. Eu tive acesso depois, à nota de um dos jurados, e vi que para todos os curtas que eram de animação, o jurado forma alguma relação com incentivos

tinha dado nota um, que era a menor

públicos. Muitas vezes, quando grandes

nota possível. A justificativa do cara se

empresas patrocinam o curta-metragem

resumia a uma palavra: animação. Ele deu

elas estão fazendo isso também através de

um em todas as animações. Por que isso?

leis de incentivo fiscal”, analisou.

Só porque é animação ganha um? E, por incrível que pareça, ele foi muito sereno,

24

O pleito é por mais editais e linhas de

e disse: ‘eu não tenho parâmetros para

editais específicas para o curta-metragem

avaliar animação, cara. Desculpa’. E aí eu

de animação: “Ah, mas que panelinha,

achei que era só uma dificuldade desse

que covardia, porque você não quer estar

cara. Não! Todos os outros concordaram:

25


A cauda longa do curta

‘Olha, a gente entende o que é uma boa narrativa, um bom filme. Mas, na hora em que a gente avalia um orçamento, prazo, a linguagem visual e a técnica, a gente tem essa dificuldade’. Então, a partir daquele momento, eu defendo que as linhas de edital sejam específicas pra animação.” Além da especificidade, Zé Brandão defende a inscrição para pessoas físicas, a diversidade e, fundamentalmente, o curtametragem como essencial para a formação da mão de obra em animação. “O Brasil tem uma escolha: ser um país que faz mão de obra barata para os outros países criarem o conteúdo e a gente animar aqui, ou o Brasil quer ser co-criador de conteúdo. A gente tem essa escolha, e eu acho que a gente tem muito mais o perfil de criador de conteúdo. A gente tem que perceber que o valor agregado cultural que essa indústria criativa tem é muito importante, inclusive para que a gente seja soberano. É uma questão econômica, mesmo.A gente tem de pensar na economia criativa de uma maneira bem consciente. E eu acho que o curta perder espaço não é uma maneira muito inteligente de construir uma indústria criativa”, encerrou.

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Talita Arruda Canal Curta!

Talita tem cinco anos de experiência em curtas-metragens e mais dois no canal Curta! Segundo sua visão o curta não perdeu o espaço que lhe é de direito. Sua fala caminharia mais pelo panorama da distribuição do curta. “Antigamente, a gente só tinha a Lei do Curta, que era para exibição em sala de cinema e as TVs públicas. De uns tempos pra cá,

27


A cauda longa do curta

entraram a TV paga, a internet. São dois

ser licenciado, precisa desses dois

cenários para os quais eu quero chamar

documentos e da taxa da Condecine”, ela

bastante atenção. Uma preocupação que a

explicou.

gente tem de ter aqui neste encontro, é não encarar o curta-metragem como formato à

A Lei da TV Paga (12.485) criou um novo

margem. O curta é um formato específico,

cenário. “A gente está experimentando, mas

não é só um formato para se iniciar carreira”,

é uma lei favorável porque obriga os canais

ela esclareceu.

de TV por assinatura a exibirem conteúdo brasileiro independente. É um cenário que

A Synapse, que atua no mercado de

aumenta a quantidade e a qualidade dos

distribuição de conteúdo audiovisual há

produtos, porque aí você passa a ter mais

mais de 25 anos, foi a referência e o ponto

políticas de incentivo, que vêm do Fundo

de partida de Talita para abordar o tema

Setorial Audiovisual.”

específico da distribuição, feita a partir de três mercados: TVs públicas, home vídeo e VoD

Com a demanda e maior circulação de

(Video on demand). “Esses são seguimentos de

conteúdo, o que favorece produtores e

mercado em que a gente consegue trabalhar

emissoras, os contratos exclusivos começam

melhor a animação”, disse ela.

a ser repensados. “A gente tem de cumprir cota, preencher uma grade, exibir conteúdo

O trabalho envolve lidar com as

que seja brasileiro e que seja independente.

burocracias e exigências para o

E cada canal tem a sua demanda, tem o seu

licenciamento de curtas-metragens

calendário”, explicou ela.

características de cada segmento. “Todos

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os mercados exigem que você tenha

Talita partiu, então, para a demonstração de

CPB, o Certificado de Produto Brasileiro,

como o Canal Curta! trabalha animação. Cabe

o registro que você emite na Ancine. Ele

a ela a contratação de curtas. Em um ano e

possibilita que o seu curta seja negociado

meio no ar, o canal contratou 140 curtas, dos

em vários mercados de trabalho. Logo

quais 20 são animações. O número não é

depois, tem o CRT, que é o Certificado

expressivo, ela reconheceu, mas foi o possível

de Registro de Título. Cada curta, para

de ser absorvido dentro da programação.

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Talita exibiu um vídeo em que o animador e desenhista Marcelo Marão conta sua trajetória e descoberta da animação, desde

Talita Arruda

A cauda longa do curta

curta”. Para explicar as demandas do canal,

a adolescência até os primeiros trabalhos, a mudança do Rio para São Paulo, a fundação da ABCA. “Essa é uma peça que fica circulando no intervalo. A gente tem não um dogma, mas uma prática no canal, em que as pessoas que estão lá trabalhando são pessoas próximas ou que pelo menos tentam estar sempre próximas dos realizadores e falar das coisas que elas fazem. Essa é uma das missões do canal”, disse ela, após a exibição. “Inicialmente, era um pouco mais difícil porque a gente estava trabalhando com

Sobre financiamento para curtas-

semanas temáticas. Então fizemos uma

metragens, Talita realçou que o Fundo

reorganização e passamos a trabalhar com

Setorial Audiovisual, ao mesmo tempo em

dias temáticos. E ficou mais fácil trabalhar

que ganha destaque, privilegia as séries. Os

os conteúdos e fazer aquisição de conteúdo

curtas, por sua vez, ficam dependentes dos

de uma forma mais livre”, explicou ela,

editais e, o que ainda é comum, de recursos

exibindo o canal no telão.

próprios do animador. “Outras formas de investimento que a gente tem são através

Em valores, a média do curta por minuto,

dos programadores, os canais.”

no Canal Curta!, é de R$ 80. A exibição

30

é feita de duas formas, no “Curta!

Os mercados, na outra ponta, estão se

Relâmpago” e no programa “A vida é

ampliando. O VOD, vídeo sob demanda,

31


A cauda longa do curta

segundo Talita, merece destaque. “É um mercado super novo. No Brasil, a gente está experimentando e vendo como ele vai se construir ao longo do tempo, mas são esses serviços que a gente tem, como o Netflix. O Youtube acaba sendo também um tipo de VOD.” As brechas a serem exploradas existem. Outra empreitada destacada por Talita, o site Porta Curtas, que exibe curtasmetragens brasileiros desde 2002, bem antes do advento do Youtube, já tem um acervo de mais de 1.500 filmes online, dos quais 162 são de animação 162. “Uma das formas que a gente também achou de movimentar o acervo de curta-metragem foi trazer o Porta Curtas para dentro do canal”, contou ela, preparando a exibição de mais uma peça, desta vez de promoção do conteúdo do Porta Curtas no canal. Para encerrar, Talita endossou a reivindicação de Zé Brandão: os curtas carecem de editais específicos de animação.

Felipe Lopes SEC/RJ

O Superintendente de Audiovisual da Secretaria de Cultura, Felipe Lopes, teve como tarefa principal explicar o apoio ao curta-metragem e animação. Tomando como base a última gestão, ele iniciou com um breve balanço: três programas digitais, 2008, 2010 e 2012, com investimento total de R$ 1,7 milhão. Dos 27 projetos de curtasmetragens, apenas três são de animação.

32

33


metragem em evidência. No rol das

apoiar a animação é evidente. Assim como

questões que envolvem o setor em que

a garantia de formação e capacitação

tudo é urgente, ele chamou a atenção

profissional do setor e a criação de políticas

também para os festivais, tratados como

públicas que garantam o aumento da

estratégicos pela formação de público e por

produção. Tudo isso, segundo Felipe Lopes,

funcionarem como primeira janela para o

deveria caminhar paralelamente. “Na

curta-metragem.

Felipe Lopes

A cauda longa do curta

A necessidade de formas específicas de

Secretaria, a gente tem visto o aumento do investimento para o longa-metragem, e tem

Formar plateias é um tema caro à Secretaria

tentado equiparar com as outras áreas”,

de Cultura, garantiu Felipe. Um bom exemplo

afirmou.

é o programa Cinema Para Todos, feito em parceria com a Secretaria de Estado de

O interesse tem a ver também com o

Educação (SEEDUC). Com foco no audiovisual,

respeito à história do curta. “é fundamental

é realizado pelo ICEM – Instituto Cultura em

pensar numa outra questão que às vezes

Movimento, que estimula e democratiza o

fica um pouco invisível nos debates, que

acesso dos alunos da rede estadual às salas

é a preservação e o acervo. Há curtas de

de cinema. O objetivo também é provocar

animação importantíssimos para a nossa

debates e reflexões dentro e fora da sala

História. E se gente não tiver uma política

de aula. Mais de mil escolas da rede pública

que cuide desse acervo, que dê meios para

estadual já foram atendidas.

as produtoras, para donos de conteúdos cuidarem da melhor forma desses acervos,

Também como parte do programa,

eles vão acabar se perdendo. E é importante

foram selecionadas 30 escolas da rede

que a gente sempre tenha acesso a esses

estadual para a implantação do Circuito

grandes expoentes que fazem parte da

de Cineclubes. Cada escola recebeu um

história da animação e da história do curta-

kit de equipamentos de áudio e vídeo,

metragem nacional”, defendeu.

acervo de filmes com direitos de exibição liberados para exibição e uma oficina de

34

Felipe reafirmou a necessidade e a

capacitação. “A gente vê como é a recepção

importância de se colocar o curta-

de alunos, muitos deles vendo um filme pela

35


a gente vê que no Porta Curtas a gente tem curtas com mais de quinhentas mil visualizações, a gente vê que tem uma

Felipe Lopes

A cauda longa do curta

de renda das salas comerciais. E quando

demanda para esse conteúdo.” Mas o setor, como um todo, tem de se ajustar, uma ponta ajudar a outra. “Os festivais, por exemplo. Hoje, a maioria deles não têm um controle de público de forma tão rígida, e seria muito bacana para o realizador do curta-metragem poder saber quanto está tendo de retorno. Não só financeiro, mas do alcance que sua obra está tendo na população em geral. Isso faz parte da história do filme, isso dá margem, dá amparo para que se possa lutar primeira vez. Isso é fundamental, porque é

com mais embasamento para as políticas

incorporado como meio de formação desse

públicas”, afirmou.

aluno”, ressaltou. Para o realizador, seja qual for a sua O curta-metragem também tem o seu

linguagem, capitalizar também é essencial.

lugar e deve ser assimilado como conteúdo

E as possibilidades, cada vez mais, se

a ser perpetuado, que vai fazer parte do

ampliam: internet, games, aplicativos, séries

que o publico quer ver e do que o público

de TV, longas-metragens, além do curta,

consome, pontuou Lopes. Ou seja, o próprio

obviamente.

público sinaliza o desejo: Sobre a animação, especificamente,

36

“Hoje, a gente tem uma política que é

Felipe Lopes lembrou das oportunidades

muito guiada pelos resultados de público,

de licenciamentos. “Você tem um

37


Assembleia Legislativa, e aproveitou o espaço

esse produto de outras formas. É uma

para mostrar como funciona a Secretaria

oportunidade para o realizador pensar a

de Cultura. “Nós somos um órgão vinculado

sua obra e o que ele faz com algo que pode

ao Estado, o que faz com que a gente fique

ter continuidade. Historietas Assombradas

sujeito ao orçamento anual do governo.

(para crianças malcriadas) e Minhocas são

Ficamos suscetíveis a contingenciamentos e

bons exemplos”.

a questões que vão além do setor cultural.

Felipe Lopes

A cauda longa do curta

personagem, e consegue trabalhar

Um dos principais pontos da Lei Estadual de O curta que vira longa, que pode virar game,

Cultura é a criação de um Fundo Estadual de

que pode vir a ser uma animação para

Cultura, o que traz para o estado um pouco

dispositivo móvel, e por aí vai. As linguagens

mais de previsibilidade dos recursos, de

vão se combinando, se desdobrando,

continuidade, o que é fundamental, para que

dialogando. Novos produtos vão surgindo e

se trabalhe não de forma sazonal, mas que

os mercados se abrindo. Os estúdios 2DLab,

tenhamos um fluxo contínuo de projetos.

Copa Studio e BEELD, segundo Felipe, são

Isso, em complementação à Lei de Incentivo

emblemáticos no quesito animadores que

à Cultura”, explicou.

trabalham com carteira de projetos. “Acho isso bacana, faz um e pensa no outro. O

Felipe tratou do assunto de forma ampla para

(Marcelo) Marão tem essa característica de

abranger todos os temas. Do público à falta

ser realizador independente. Faz curta e

de estudos e dados concretos que fortaleçam

está desenvolvendo um longa, ao mesmo

as políticas públicas para o audiovisual; de

tempo, então é bom pensar nesse mercado,

direitos de licenciamento até a cadeia da

que é muito pujante e tem muito recurso

economia criativa. “Tem toda uma gama de

para o audiovisual”, disse ele, reconhecendo

obras que são feitas e que acabam sendo

que, quando o assunto é curta, no entanto,

ou esquecidas ou não evidenciadas por não

os recursos são outros - ou melhor, são

estarem no circuito de premiações”, disse

escassos.

ele. “A gente tem hoje esse boom de janelas e de oportunidades que permitem que você

38

Felipe Lopes anunciou que o projeto da Lei

explore o seu produto, mas tem que pensar

Estadual da Cultura está em tramitação na

também num equilíbrio de licenciamento,

39


A cauda longa do curta

em como você pensa em viabilizar o próximo projeto para poder ter uma visão estratégica de continuidade.” Para Felipe, o conceito contemporâneo de economia criativa agrega todas essas questões. “É você ter uma visão de empreendedorismo e de negócio. A criação artística faz parte disso tudo, e o sistema não é tão dicotômico assim. Então, quando a gente pensa política pública, a gente tem de ter essa visão macro para tentar garantir que todas as formas de criação sejam apoiadas e deem oportunidade a novos criadores, novos artistas, novos profissionais. Que a formação seja vista, que a preservação do acervo seja vista, assim como a distribuição a formação”, afirmou.

40

Guigo Pádua SAV-MinC

Da linha de montagem para o envolvimento com a política no audiovisual. A trajetória de Guigo Pádua foi exatamente assim. Uma das suas primeiras empreitadas foi a participação da criação, em Belo Horizonte, da Associação Curta Minas. “Desde essa época, a gente já tinha essa visão de trabalhar com curta-metragem não como uma passagem, mas como uma estética própria, um produto, um fim em si mesmo. E eu tinha sempre essa impressão de que

41


metragem. Foram premiados 25 curtas-

Para minha surpresa, agora (ele está no

metragens. Está terminando a fase de

cargo desde fevereiro), encontro uma visão

recurso para os ganhadores, não sei dizer o

contrária”, disse ele.

número exato de animações”.

O curta-metragem é, sim, valorizado. Assim

A constante necessidade de voltar atrás

como outras linguagens. “Hoje em dia, até o

rendeu uma conclusão. Ainda sem solução:

game tem uma valorização concreta dentro

“Essa política de editais tem um problema

da Secretaria do Audiovisual”, afirmou.

sério na base. Nós recebemos 1200, 1300

Felipe Lopes

A cauda longa do curta

o governo não tratava isso dessa forma.

inscrições para premiar 25 curtas. Isso é Por outro lado, há o tal do

ridículo, é absurdo. Então, a gente tem de

contingenciamento. “A gente chega lá com

criar uma outra forma de atender a uma

um orçamento maravilhoso, faz orçamentos

demanda que está por aí. A gente não

gigantescos, pensamos ‘vamos fazer,

sabe ainda o que fazer, mas existe essa

vamos acontecer’ , etc. Daí a um mês,

preocupação dentro da SAV”, reconheceu ele.

alguém diz ‘olha, vai ter um corte’. Opa! Agora você gasta mais um mês desfazendo

O cenário ainda é confuso. Mais ainda com a

o orçamento. Aí você acaba perdendo

entrada em vigor da Lei da TV Paga. “Entrou

os pontos de contato que você estava

um dinheiro novo no setor, que não passa

articulando”, contou ele.

diretamente pela SAV, mas o setor está se movimentando”, disse ele.

O ano de 2014, especificamente, foi ainda mais atípico para a SAV. Copa do Mundo,

A qualificação está na ordem do dia: a SAV

Eleições, e o planejamento vai ficando de

está organizando oficinas de formatação

lado, o orçamento que era gigantesco vai

de projeto, especialmente para as regiões

perdendo elasticidade.

Norte e Nordeste. “A ideia inicial seria fazer oficina no Brasil inteiro, não vamos ter

42

“Mas não estamos parados. Daqui a pouco

fôlego para isso ainda em 2014. Mas vamos

a gente deve soltar a portaria com o

fazer em cinco estados do Nordeste, quatro

resultado do último concurso de curta-

do Norte, além de Brasília, São Paulo e

43


Guigo Pádua

A cauda longa do curta

Porto Alegre”, contou. A cobertura de todos os estados ficou como meta para 2015. Em cada cidade, serão três oficinas de dois módulos, envolvendo produtos seriados e produtos não-seriados, com foco no mercado de televisão. Entre os meses de setembro e outubro, serão lançados os editais do PRODAV, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual. “Essas oficinas serão oficinas de preparação. As pessoas irão se qualificar para fazer seus projetos para ingressar nos editais. Por que a gente está dando esta ênfase ao Norte e Nordeste? Porque a gente está vendo que existe um número muito menor nessas regiões e, das inscrições que chegam, a qualidade é baixa. Foi o caminho que a gente achou. Tem que se associar a outras secretarias, outros órgãos. Aí, infelizmente,

irão ficar prontos ao longo de 2014. Se

a temática não pode ser livre”, ele afirmou.

possível, nós vamos refazer essa parceria. Tivemos o Curta Criança, com 12 projetos.

Guigo deu quatro exemplos de editais

E, especificamente para animação, nós

cuja temática foi direcionada: “A gente se

tivemos o Curta Animação de Resíduos

associou à Fundação Palmares e fizemos

Sólidos, que são filmes curtíssimos. Foram

um edital específico para a juventude negra.

40 projetos, que receberam a primeira

Foi criado o Edital Carmen Santos Cinema

parcela agora para realização.”

de Mulheres, em 2013, de apoio a curta

44

e média-metragem, que é para mulheres

O trabalho, ele realçou, envolve a escassez

realizadoras. Foram 20 filmes, que

de recursos. “Não existe um descaso da SAV,

45


A cauda longa dos curtas

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

o que existe é uma falta de fôlego mesmo. Para vocês terem ideia, a gente tem um programa desenhado, o PRONAF (Programa Nacional de Apoio aos Festivais), e a gente descobriu, através do jurídico do Ministério da Cultura, que nós não podemos apoiar eventos. Então nós estamos buscando alternativas para ver como, a partir de agora, poderemos apoiar os festivais. E por aí vai, gente. A gente vai lutando sempre contra essas dificuldades”. Há boa vontade e abertura, ele pontuou. “Não é que a gente funcione sob demanda, mas ajuda muito quando vem a demanda organizada. Então, essa coisa do edital específico para animação para 2015 ou para 2016 só vai sair se isso chegar à SAV de forma organizada. Como uma demanda real, como uma demanda concreta e visível. Então, fica aí a chamada para todos os setores, é meio por aí, ajuda muito o nosso discurso”, ele deu o recado.

Pergunta

Tenho visto que as pessoas passam a fazer os filmes em torno dos projetos, e não filmes com uma personalidade. Todo mundo começa a fazer séries em ondas, como está acontecendo. Ninguém pensa no outro lado, nos artistas geniais do Ceará, Pernambuco, Rio, São Paulo, no Brasil todo, que têm um trabalho muito interessante, mas não são pessoas que escrevem projetos. Conheço também muitos produtores não tão talentosos, mas que conseguem os editais porque sabem muito bem como fazer projetos. A gente acaba, sem querer, criando uma máfia em torno desses projetos. Um caminho seria apoiar não os projetos, mas os artistas. Quantas possibilidades a gente está perdendo com pessoas que não sabem formatar um projeto e têm que contratar um produtor. Como a gente consegue repensar o apoio aos artistas? Como pensar em outras possibilidades que contemplem mais essa criação artística e menos esses projetos burocráticos?

46

47


Guigo Pádua A gente precisa que vocês falem mais sobre

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

isso para o poder público. Eu concordo totalmente. Dentro do governo, tem muita gente que também concorda com você. A gente precisa é de mais caldo para defender essa ideia. Acho que não tem muita dúvida quanto a esta especificidade da animação, assim como o documentário também tem as suas especificidades também.

Felipe Lopes

Vou só complementar a mensagem do Guigo. Para além dessa demanda, que é necessária para o poder público, é também pensar em propostas que fujam um pouco do que a gente tem de padrão de edital. Uma coisa que chama muito a minha atenção são laboratórios de criação, espaços de coworking. Trabalhar incubadoras ou núcleos de criação, que fiquem menos presos a um projeto só e que deem margem a um leque, a uma cartela de projetos para que não fique

48

Guigo Pádua

Essa política de editais criou também essa

tão amarrado a essa coisa de projeto que

política de construção de projetos. Tem

você inscreveu naquele edital, e que você

o edital ali, vou fazer um projetinho para

vai ter que entregar, depois de X tempo,

encaixar. É claro que surgem projetos muito

aquilo finalizado. Essa possibilidade dá

legais e um monte de paraquedistas. Seria

uma perspectiva de continuidade. Essa

necessário um trabalho mais de base,

demanda pode ser pensada por essa

de longa escala, de longo prazo, em que

associação, pelos realizadores e pela gente

você não está trabalhando com iminência

da política pública também.

de um prazo do edital, a grana ali para

49


PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

fazer, mas você está consolidando um trabalho. São essas alternativas que a gente tem de começar a procurar. Pegar 1200 inscrições, metade paraquedista, um terço paraquedista, para premiar 25, isso não é política, isso é cala-boca.

Pergunta

Há menos inscrições em editais de animação do que de live-action. Havendo um edital específico, como já houve alguns, associados com outras secretarias, outros grupos, não haveria maior número de inscritos?

Felipe Lopes

Em curta-metragem é um número bem menor em percentual. A gente pode analisar o que está acontecendo no mercado, a partir do surgimento da nova Lei da TV Paga, da demanda que isso acabou criando, um pouco induzida

as diversas linguagens, as experimentações

no segmento de TV por assinatura.

de linguagem, como projetos de animação

Para desenvolvimento de série de TV, a

que são documentários. É possível a gente

proporção é outra, é mais de um terço

pensar por outras diretrizes que não sejam

de selecionados. A gente pena para

específicas, mas que possam criar números

conseguir escolher projetos que sejam

mínimos.

até de documentário, porque tem muita animação boa. Então, é um pouco também

50

Zé Brandão

O porquê de um edital que não é específico

pensar em políticas que possam ser

para animação vir a ter uma inscrição

direcionadas. Eu, particularmente, acredito

menor é que, às vezes, você não quer nem

que é possível fazer políticas que incluam

se arriscar a entrar com um projeto dentro

51


a necessidade de desburocratização do

claro que é sempre bom você conseguir

Estado. Eu falo das esferas federal, estadual

um patrocínio para o seu filme. Mas, às

e municipal. Como viabilizar projetos

vezes, você vê um edital não específico

artísticos, viabilizar o fomento de cultura

de animação que quer que você faça 15

dentro de uma legislação que muitas vezes

minutos de animação com um valor que

não compreende o que é esse setor, dentro

não procede, ou com prazo muito curto,

de amarras burocráticas que não entendem

então você realmente não se inscreve. Para

a expressividade e o que é uma criação

não correr o risco de ganhar, porque aí você

artística? Acho que esse é um debate que

ganha para fazer, e você vai fazer mais ou

tem até que ser mais amplo do que só uma

menos?

mesa. É uma questão de desburocratização

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

de determinados parâmetros de edital. É

da política cultural como um todo.

Pergunta

Os editais, como um dos principais fomentos que se têm hoje, deveriam ser desvinculados

Zé Brandão

Gui falou da importância de que a gente

da pessoa jurídica e direcionados para

se organize, que a gente apresente as

pessoas físicas. Principalmente para o curta-

propostas organizadas. E eu queria

metragem, porque você tem que se associar

convidar, caso alguém aqui já não

ao produtor, e o produtor levar o seu projeto

faça parte, para que a gente continue

até o edital para aí ele ganhar. É diferente

dando força para a ABCA. Para que a

quando você pode ganhar o edital e aí

ABCA continue sendo cada vez mais um

procurar uma produtora. É só uma maneira

momento de encontro de discutir e de

mais fácil de conseguir as coisas, uma

pleitear coisas juntos. Seria talvez mais

maneira mais justa.

legítimo que uma associação grande, de grande relevância dentro de todo o meio

52

Felipe Lopes

Pensando em edital, em recurso público,

da animação, fosse aquela que pudesse

realmente a pessoa jurídica é uma questão.

indicar nomes. Mas para que isso aconteça,

O último edital de curta-metragem foi

ela tem de estar em todos os estados, ela

só para PJ. Vou colocar para os relatórios

tem que ter um número bem grande. Eu

atuais essa demanda, mas tem algumas

acho que todo mundo que está aqui tem

questões que acabam aparecendo. Como

de ir até a ABCA. E é isso.

53


Felipe Lopes

Deixa eu aproveitar para convidar a instigar

nos tempos de duração. O que seria essa

a ABCA e os membros do Rio de Janeiro.

limitação de tempo para televisão?

Pela memória que eu tenho, nesses três anos na Secretaria, acho que é uma das

Talita Arruda Na verdade, a gente não tem uma limitação.

associações com a qual a gente teve menos

Televisão trabalha meio que com alguns

reunião e diálogo. Eu não tenho memória

formatos de 26 a 50 minutos, mas, para

disso, mas como superintendente, estou

curta-metragem, o que acaba implicando é

disposto a conversar, pensando um

que por ser valor por minutagem, por filme

pouco nessa questão de nosso programa

que é muito pequeno, a gente não consegue

de editais. No último, a gente entrou

pagar muito. Mas funciona também. O que

em contato com todas as associações

falo pela minha experiência no canal é que a

e representações que têm esse diálogo

gente acaba contratando alguns filmes que

com a gente. É bom ter essa organização

ficam numa média entre 10, 20 minutos,

representativa, que é um caminho mais

mas não tem um limite definido. A gente

institucional de se falar como representante

consegue trabalhar com qualquer tipo.

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

de classe mesmo.

Pergunta

Zé Brandão

Só queria dizer que a sua pergunta é

Por que a animação entra como gênero,

super relevante como forma de encaixar

nos editais? Animação não é um gênero. É

na grade da TV. Mas a gente tem de

uma linguagem e está procurando espaço

pensar sempre em produzir o filme ideal,

para isso.

independentemente se é curta-metragem, de como vai se encaixar. Eu não sei

Felipe Lopes

Isso de gênero é uma regulamentação

exatamente, mas eu imagino que para os

que vem de narrativas da ANCINE. Então

festivais é interessante que os curtas não

a gente segue um pouco o que diz a

sejam muito longos, porque você tem a

regulação federal.

possibilidade de montar as sessões com um maior número de filmes. Eu acho que o

54

Pergunta

A gente fala muito na liberdade da criação

ideal é você pensar no seu filme, no quanto

dos curtas, mas quando a gente quer que um

ele deve durar para ser um ótimo filme, e

curta passe em algum lugar, vai esbarrando

depois encaixar nas grades. A não ser que

55


diferenciada? E também se existe a possibilidade de voltar a fomentar e não setorizar? A gente não deixou de mandar as propostas, a gente continua, insistentemente, mandando as propostas, criando coisas novas. Mas a gente tem visto sempre as mesmas duas, três pessoas

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

já que animação é uma linguagem

ganhando o edital e continuando a fazer os projetos. Pessoas que nem precisam mais. Estou falando de fomentar, olhar para os novos artistas e criar possibilidades. Isso está faltando há muito tempo no país. Outra coisa que eu queria saber é se seria possível repensar, nos editais, a questão da formatação. É muito difícil, o seja um projeto de série ou minissérie. Mas

tempo não é suficiente. A mesma proposta

no caso de curta-metragem, tem de pensar

tem de ser reinventada para cada edital.

no que vale para o seu filme.

Haveria a possibilidade de a gente criar uma linguagem mais universal?

Talita Arruda Só completando, é realmente isso. É muito fácil encaixar o curta. E, além da TV, a gente

Zé Brandão

Bom, na questão da formatação, muito

tem a internet. A gente faz um esforço para

dessa complicação é resolvida através

conseguir abraçar tudo da forma que é, e

do Salic (Sistema de Apoio às Leis de

tentar fazer essa produção livre circular

Incentivo à Cultura). Só como informação,

também.

até porque não tem nada concreto ainda, existe um grupo interno do Ministério da

56

Pergunta

Seria possível, também atendendo aos

Cultura estudando formas de simplificar o

pedidos gerais de pessoa física, garantir

Salic. É sabido que ele é complicado. Isso

maior tempo para fazermos a proposta,

aí está sendo visto. Eu acho que muito

57


PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A cauda longa dos curtas

dessa qualificação dos projetos passa por programas, por trabalhos de qualificação dos proponentes. Sobre o fomento, todos os editais têm sempre uma cota para estreantes. Não resolve problema, é claro, mas significa que existe um mínimo de pensamento nessa renovação.

Felipe Lopes

Falando um pouco da realidade da Secretaria de Cultura, a padronização deveria vir de um setor federal, mas eu não sei se eu concordo tanto com isso. A

debate. Não. O curta é unanimidade. Eu

gente já tentou trabalhar a padronização

acho válido a gente continuar pensando

de formulário de inscrição internamente,

em editais de animação. A gente sabe

e aparece uma coisa nova e muda tudo.

que existe o dinheiro, mas a forma como

Existem formatos que a gente consegue

está formatado o acesso a esse dinheiro

trabalhar, e que são sempre os mesmos,

não está aberta para o curta. Mas talvez

mas tem novos editais que vão surgindo e

um projeto criativo de um canal que faz

novas propostas de fomento que acabam

curta possa reunir um monte de talentos

exigindo novos pensamentos do que vai

reconhecidos ou emergentes, e incluir

ser avaliado ali. A inscrição da gente é toda

produtores. Esse produtor de animação

online e a gente tem tido poucas críticas de

seria um ‘parceiro criativo’, aquele que

quem se inscreveu aqui do Rio.

abriga o autor, entende as demandas dele e o livra dessas preocupações de

58

Marcos Magalhães retomou o microfone

preencher formulários de edital e saber

para encerrar a primeira mesa do Anima

quanto de dinheiro ainda tem para gastar

Forum. “Nós encerramos a mesa e não

no filme. Então, seria muito bacana a gente

ouvimos aquela voz contra dizendo que

conseguir montar um projeto que pudesse

o curta é uma completa perda de tempo,

entrar para usar estes recursos e continuar

que deve acabar, para esquentar o

valorizando o curta”, finalizou.

59


Philippe Alessandri

29 de Julho

Apresentação:

As estratégias de produção e exportação da Animação Francesa

Convidado: Philippe Alessandri No Brasil pela primeira vez, Philippe Allesandri deu as boas vindas ao público, elogiou a qualidade da animação brasileira e disse estar maravilhado com a qualidade dos filmes apresentados no Anima Mundi. Fez um preâmbulo bem-humorado sobre o mercado de animação francês e sobre como o Brasil e a França podem ganhar em produções conjuntas. Alessandri também contou como o seu país evoluiu, nas últimas duas décadas, em técnica, arte,

61


O internacional Zodiak Kids vende e distribui

internacionais.

no mundo inteiro programas produzidos também por outras empresas, e mantém

“Eu vou falar da produção francesa e da

uma equipe que desenvolve o que eles

maneira como a gente poderia coproduzir

chamam de ‘merchandising associada

juntos, porque depois de passar três dias

às séries’. Allesandri listou algumas das

com vocês eu estou realmente convencido

produções dos braços franceses do grupo,

de que a França e o Brasil têm interesse

ambos com sede em Paris:

Philippe Alessandri

Animação Francesa

ensino e produção, para ganhar mercados

em trabalhar juntos na animação, seja no domínio do longa-metragem ou

- A Marathon Medias, que produziu a série

na televisão”, disse, anunciando que

Totally Spies!, vista na América Latina no

falaria, em particular, sobre o domínio da

canal Cartoon Network, realizou também

televisão, área que, segundo ele, parece

séries como Martin Mystère e, mais

ainda mais propícia à colaboração entre os

recentemente, Lolly Rock.

dois países. - A Tele Images é produtora dos programas Philippe Allesandri dirige duas sociedades,

Atomic Betty, uma coprodução com Canadá,

Marathon e Tele Images, ambas filiais do

Foot de Rue (“Street football” em inglês),

Zodiak, grupo internacional presente em 19

ambas exibidas na América Latina pelo

países, sobretudo na Europa.

Cartoon Network; e Sally Bollywood, série atualmente apresentada pelo Gloob no

“No seio do Zodiak Media existe uma

Brasil.

divisão que se chama Zodiak Kids, que

62

cuida da produção e da venda internacional

A coprodução com a França tem muitas

de programas para a juventude,

vantagens, assegurou Allesandri: “Somos

especificamente de séries de animação

um território interessante para coproduzir.

para a televisão. Dentro dessa divisão, há

Primeiramente, porque lá, como no

três grupos de produção, o Foundation, na

Brasil, há muita expertise em todos os

Inglaterra; e o Marathon Medias e o Tele

níveis. E, além disso, existe financiamento

Images, na França.”

disponível para a criação original de séries

63


Philippe Alessandri

Animação Francesa

de animação. Então, temos disponíveis, ao mesmo tempo, uma expertise artística e uma expertise de produção”, afirmou. No que concerne à expertise artística, a França possui diversas instituições voltadas para a formação de técnicos e artistas, ou seja, toda a mão de obra necessária para a linha de produção de séries e longasmetragens de animação. “Todos os anos, a França forma 500 jovens no campo da animação. Eles são generalistas, isso não quer dizer que nós não ensinamos os estudantes a utilizar os programas específicos em 3D ou em 2D numérico, mas sim que, de início, nós os formamos para fazer cinema. Nós os formamos para fazer animação, animação tradicional. E uma vez que

que eles sigam suas vidas profissionais

eles compreenderam o que é o cinema,

com serenidade, já que os programas vão

a animação tradicional e o desenho, é

continuar mudando”, defendeu.

somente neste momento que nós vamos

64

especializá-los em um programa ou outro.

A expertise no domínio da produção, por

E assim eles podem entrar tranquilamente

sua vez, é garantida pela presença dos

no mercado de trabalho”, explicou ele,

muitos estúdios e produtores. “Existem

lembrando que esse processo leva em

muitas pessoas que produzem animação na

consideração que os programas evoluem

França, e a fragmentação é um obstáculo

a cada dois, três ou cinco anos. “Somente

que, ao mesmo tempo, permite aos

uma formação generalista vai permitir

grupos prosperar, porque existe muita

65


O Brasil, no entanto, não figura entre

exibiu um quadro com os 10 principais

os principais compradores da animação

produtores franceses, que representam

francesa, o que se repete em toda a América

cerca de 60% do mercado. Xilam, Gomo,

Latina.

Tele Images e Marathon estão na lista. “Quando observamos os países que Conhecimento do mercado internacional,

compram as nossas animações, nos

segundo Allesandri, também é uma

damos conta que as animações francesas

expertise importante. Foi o que permitiu,

se difundem no mundo inteiro, mas

há mais de dez anos, a exportação de

constatamos também que o mercado

produções e produtores franceses. No

da animação francesa na América Latina

telão, ele exibiu algumas das séries que são

continua muito baixo, menos de 5%. E é por

difundidas na América do Sul, sobretudo

essa razão que os produtores franceses

no Brasil, em canais fechados como Gloob,

estão sempre interessados em colaborar

Nicklodeon e Cartoon Network, e nos canais

com os produtores latino-americanos,

abertos, como TV Brasil e TV Cultura.

sobretudo com o Brasil, que é talvez o

Philippe Alessandri

Animação Francesa

concorrência no mesmo mercado”, ele

líder da América Latina. Para oferecer mais A exportação da animação francesa

chances às produções francesas neste

está em ascensão, assegurou Allesandri.

continente, que é um mercado que vai se

“Atualmente, com venda e pré-venda,

desenvolver muito nos próximos anos”,

movimentamos mais de 60 milhões de

justificou.

euros. Essa é a prova que nós podemos

66

defender nossa cultura e nos exportar para

A lista de razões para alavancar a

todo mundo ao mesmo tempo. É a escolha

coprodução França-Brasil vai além. Para

que o Brasil fez, assim como a França:

Philippe Allesandri, os sistemas dos

proteger sua cultura e a revelar para o

dois países são parecidos, inclusive nos

mundo todo. Sob esse ponto de vista, os

mecanismos de financiamento. “A França,

dois países têm uma abordagem parecida

como o Brasil, tem um mercado rico que

face a outras culturas, sobretudo aos norte-

traz financiamento para as séries de

americanos.”

animação. Lá nós temos, como aqui, dois

67


contrário de vocês, nós não temos outros canais americanos no financiamento das animações francesas - não obrigatoriamente, depois que Nicklodeon e Cartoon Network escolheram ser difundidos

Philippe Alessandri

Animação Francesa

Channel, também estão por lá. “Mas, ao

a partir de Londres. Portanto, eles não têm nenhuma obrigação com a França. Ao contrário de vocês, que conseguiram obter sucesso no financiamento com esses dois canais. Eu espero que no futuro a gente possa convencer esses difusores a participar do financiamento da criação francesa também.” tipos de clientes, os canais abertos e os

O financiamento de obras audiovisuais

canais pagos. Dentre os canais abertos,

na França vem, basicamente, de fontes

estão grandes clientes, como o France

privadas, nas quais os canais abertos

Television, que representa praticamente a

participam em maior parcela, porque

metade dos investimentos em animação

são taxados; e de recursos públicos,

francesa. Já entre os difusores privados,

provenientes do CNC (Centro Nacional

temos TF1 e M6, que abordam assuntos

de Cinematografia), um dos órgãos de

gerais; e um canal 24h, o Gulli, que é

regulação audiovisual mais antigos do

menor, com menos dinheiro, mas que está

mundo, que é ligado ao Ministério da

crescendo”, afirmou.

Cultura e administra a política da França nas áreas de cinema e outras artes e indústrias

Entre os canais pagos, os mais expressivos

da imagem animada.

são o Canal+ e o Canal J (ou TéleToon).

68

Entre os pequenos, Allessandri citou Piwi

O financiamento via CNC baseia-se

e Tiji. Canais americanos, como o Disney

fundamentalmente no recolhimento de

69


de televisão franceses”, disse ele, relatando,

do sistema é que o dinheiro recolhido

em seguida, o caminho obrigatório que

retorna diretamente para o setor

as coproduções percorrem, ou seja, as

audiovisual, ou seja, as taxas aplicadas aos

medidas regulamentares:

difusores são redistribuídas aos criadores. - 50% do financiamento deve ser francês. Outros investidores do audiovisual francês

“Essa é uma regra européia nova, que

são exatamente os seus concorrentes

pode causar o principal problema entre

americanos. Presentes em boa parte das

nós. Por isso devemos criar um tratado

salas de cinema, os filmes de Hollywood

de coprodução bilateral entre a França e o

têm seus ingressos taxados.

Brasil. O que já existe para o cinema deve

Philippe Alessandri

Animação Francesa

taxas especiais. Uma das particularidades

funcionar para a televisão; Há ainda recursos que vêm do exterior. É exatamente aí que entram as coproduções

- Um difusor deve participar do

com outros países que, como a França,

financiamento das obras. “No Brasil, vocês

o Brasil, a Itália, o Canadá ou a Austrália,

devem ter uma participação de, no mínimo,

escolheram proteger suas indústrias

15%, para poder acessar o fundo da Ancine.

nacionais de animação com financiamento

Na França, são 25% de participação dos

público e privado, assim como com cotas

difusores franceses. Esses 25% não são

de exibição impostas aos seus difusores

do valor total, são da parte francesa, é

nacionais.

bom deixar claro, porque no caso de uma coprodução entre a França e o Brasil, esses

Eis a razão do atual foco francês na

25% serão somente da parte francesa”;

animação brasileira. A coprodução é uma

70

meta e uma vontade, mas existem algumas

- Meta de 14 pontos criativos em 21. “São

regras a serem levadas em conta. “O

os pontos levando em consideração a

mais importante é que a gente encontre

criação e a produção. Isso parece muito,

um projeto comum que seja capaz de

mas não é tão complicado assim de

seduzir as crianças brasileiras e as crianças

alcançar esses 14 pontos e, por outro

francesas, os canais brasileiros e os canais

lado, uma vez que tenhamos um tratado

71


franceses e os brasileiros podem encontrar

brasileiros como os franceses, e os

projetos em comum.”

franceses como os brasileiros. Então, no final das contas, não há nenhuma

As demandas na França, como no Brasil,

dificuldade para se alcançar 14 pontos de

estão em todas as faixas etárias. A pré-

21. Mais uma vez, é uma razão para que

escolar representa cerca de 20% do

nós tenhamos um tratado de coprodução

mercado. A faixa entre os 5 e 8 anos fatura

entre a França e o Brasil.”

40% do mercado e está espalhada por todos

Philippe Alessandri

Animação Francesa

de coprodução, a gente considera os

os canais, como TF1, M6, France Télévision. O ponto de partida, realçou Philippe

Há também um mercado para a faixa de 6 a

Allesandri, é encontrar um projeto comum.

10 anos, igualmente distribuída em todos os

“Uma vez que nós somos criadores, como

canais, por meio de dois estilos que são: a

somos todos nós, mesmo se nós somos

comédia e a ação-comédia.

produtores, realizadores ou autores, é a paixão que nos coloca em um projeto e é

“Se eu pudesse imaginar um modelo

necessário estar apaixonado de um lado

ideal de coprodução França e Brasil, eu

e do outro do oceano atlântico para ter

diria um projeto que fosse compartilhado

vontade de fazer uma coprodução. Sendo

artisticamente desde o começo. Em que

assim, é necessário que a gente tenha a

70% de financiamento viesse da França,

certeza de encontrar um projeto comum

porque é isso que nos permitiria gerar

que possa seduzir as crianças brasileiras e

o crédito de imposto e o máximo de

as crianças francesas, os canais brasileiros

contribuição financeira; e uma participação

e os canais franceses. Mas eu não estou

de 30% do Brasil. Obviamente que poderia

preocupado, porque eu percebo que nossas

ser o contrário. O ideal seria que nos

séries de animação francesa têm uma boa

próximos meses nós pudéssemos ter

audiência nos diferentes canais no Brasil.

um tratado entre a França e o Brasil”,

Também, quando há longas-metragens

ele encerrou e abriu o microfone para

brasileiros apresentados no festival de

perguntas da plateia.

Annecy, eles ganham prêmios. Portanto, eu não estou inquieto, porque eu penso que os

72

73


Pergunta

Philippe Alessandri

Animação Francesa

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS Os modelos de financiamento no Brasil são claros e demorados, nós já temos um timing na cabeça. Para ter um projeto aprovado pela Ancine são seis meses. Se aprovado, é quase um ano para receber os recursos. Quanto tempo leva para que na França um projeto seja aprovado e o parceiro consiga levantar os recursos? Qual o tempo com o qual vocês trabalham?

Resposta

Na verdade, a gente tem a necessidade do mesmo tempo que vocês, mas por uma razão diferente. Os nossos canais

74

de televisão, cada dia mais, quase que

do momento em que a gente realiza um

sistematicamente, nos forçam a passar

piloto de dois minutos, isso nos permite ir

por uma convenção de desenvolvimento. A

logo em seguida para a imagem final e isso

gente vai vê-la geralmente com uma bíblia

nos dá uma visão da série. Esse processo

gráfica e literária e um primeiro roteiro.

leva um ano e, durante esse ano, a gente

Para um longa-metragem, a gente vai vê-la

vai procurar financiamento internacional.

com um roteiro total e depois um projeto

Portanto, se vocês têm necessidade de um

gráfico. E, depois que a gente fez um roteiro

ano para passar pelo filtro administrativo

e uma bíblia literária e uma bíblia gráfica, o

da Ancine, isso não é nenhum problema, a

canal de televisão nos pede para passar um

não ser quando isso acontece no momento

ano escrevendo outros roteiros e realizar

que a gente apresenta aos canais franceses

um pequeno piloto de dois minutos. Aliás,

nosso projeto. Em todo caso, a partir do

isso é muito interessante, porque a partir

momento em que um canal francês nos

75


televisão se vendia menos no exterior. Por

em uma fase de desenvolvimento. Então,

qual razão? Porque, inconscientemente, nós

a gente diz a vocês que nós vamos levar

tínhamos permanecido muito franceses

um ano, para que vocês possam aproveitar

e os outros países não viam a série como

esse ano para vender aos canais brasileiros

uma série que poderia dialogar com seu

e para “enrolar” a Ancine. Depois disso,

público. E toda vez que trabalho com dois

a gente vai ter 18 meses de produção. Eu

países juntos, não importam os países - eu

acredito que nós somos todos um pouco

já trabalhei com a Austrália, coproduzi com

parecidos.

o Canadá, com a Alemanha ou com a Itália

Philippe Alessandri

Animação Francesa

diz que isso o interessa, a gente vai entrar

- cada vez que as diferenças nacionais mais

Pergunta As culturas francesa e brasileira têm

fortes são amenizadas, nós conseguimos

coisas em comum, mas também têm

uma maior universalidade. E eu não tenho o

coisas muito diferentes nas suas formas

sentimento de ter tornado desinteressante

de ser, sobretudo para as crianças. Então,

o projeto. O exemplo mais marcante é Sally

como você vê essa questão, porque pode

Bollywood. Primeiramente, é uma série

ser muito difícil de conseguir atingir um

que fala sobre uma menininha de origem

resultado que seja apreciado pelos dois

indiana, mas que vive em uma grande

lados, sem ser bizarro ou estranho, ou

cidade ocidental. Na França, a gente não

que não fale às crianças por causa dessa

tem imigração indiana, se tivermos é bem

diferença cultural.

pouco, ocorre mais na Inglaterra ou no Canadá. Então, já é uma transferência para

76

Resposta

Há tanto diferenças como semelhanças,

nós. Nós coproduzimos com dois países,

mas eu considero essas diferenças uma

a Alemanha e a Austrália. Isso nos faz rir,

sorte, e eu não digo só por dizer, explico

mas os australianos ficaram muito ligados

o porquê. Em minha experiência na

ao fato de que as crianças se comportam

vida profissional, a cada vez que a gente

bem. É um tipo de moral anglo-saxã bem

produzia sem um parceiro estrangeiro

forte, enquanto os franceses eram muito

- não porque a gente tivesse recusado,

ligados à comédia. É necessário que a gente

mas porque não tínhamos encontrado

possa rir, mesmo que às vezes as crianças

mesmo - sistematicamente nossa série de

transponham uma certa moral. Os alemães

77


quer impor seus pontos de vista. Mas, ao fim de seis meses, nós encontramos um ponto de equilíbrio.

Pergunta

Existem assuntos que são mais

Philippe Alessandri

Animação Francesa

das dificuldades iniciais, quando cada um

interessantes para coproduzir?

Resposta

Sim, existem assuntos em comum, mas isso muda muito rápido, cuidado. É como aqui no Brasil, eu imagino, isso quer dizer que os difusores mudam a cada seis meses. E isso quando temos sorte, porque quando não temos sorte, é a cada três meses. Mesmo assim a gente consegue, porque existem os pontos fundamentais. Existem alguns temas que vão voltar eternamente para todas as crianças, isso é a primeira coisa em que nós devemos nos apoiar. A segunda é que

78

davam muita importância para a lógica

existem canais americanos na França e no

das enquetes, para que tudo seja crível

Brasil que procuram um pouco a mesma

e lógico. Cada um tinha suas referências

coisa, como Disney Channel, Nick, Cartoon

culturais, portanto estava sendo bem

Network. Em Londres e em Paris, eles

difícil de achar um ponto de equilíbrio.

buscam quase a mesma coisa que procuram

Mas, no fim das contas, foi uma das séries

na América Latina. Isso porque os canais

que mais venderam. Então, eu considero

americanos têm uma visão completamente

uma sorte ter essas diferenças culturais. É

globalizada, completamente universal, e

preciso experimentá-las para ter certeza,

deixam pouco espaço para o resto. Então,

mas eu jamais fiquei decepcionado com as

essa é uma outra maneira de coproduzir,

coproduções internacionais, mesmo diante

é necessário que a gente crie o hábito.

79


exterior e decidimos se o projeto é do nosso

Network amam um projeto francês e nos

interesse ou não.

pedem para coproduzir com eles, talvez que se a gente falasse com Disney Channel,

Pergunta

É bom ver a receptividade e o interesse

Nick, Cartoon Network na América Latina,

francês em coproduções com o Brasil. Há

eles também se interessassem e, no lugar

um capital relevante, uma qualidade de

de pouco financiamento, nós teríamos

produção e execução aqui. A possibilidade

muito financiamento compartilhado. E nós

é excitante, mas como seriam os direitos?

poderíamos trabalhar juntos, cada um com

Algumas coproduções internacionais não

um episódio. Eu fiz isso com Atomic Betty e

funcionaram de forma competente por

deu super certo: cada um fica responsável

questões burocráticas. Qual a abertura da

pelos seus episódios e funciona super bem.

Zodiac em relação a isso?

Philippe Alessandri

Animação Francesa

Quando Disney Channel, Nick, Cartoon

No fim das contas, ninguém é capaz de dizer que um episódio foi canadense e outro

Resposta

Primeiramente, você tem razão, é

francês. Ou então, compartilhando as taxas.

necessário que as instituições públicas

Vocês são muito fortes em animação, nós

não sejam um obstáculo para nós. Já é

um pouco menos, talvez, então, pode ser

muito difícil vender uma produção a um

que a animação seja feita no Brasil, mas,

canal, desenvolver artisticamente um

por outro lado, a pré-produção e a pós-

projeto e produzi-lo. Não há necessidade

produção fiquem com a França. Todas as

de imposições legais e administrativas. O

cooperações são possíveis.

peso está mais no lado da CNC na França, porque a Ancine é muito favorável a

Pergunta

Como a gente pode fazer para submeter um

firmar o tratado. É responsabilidade dos

projeto na Zodiak ou para na Tele Images?

produtores franceses fazer isso andar. No que diz respeito à coprodução e Zodiak, a

80

Resposta

É muito simples, você pode escrever para

gente sempre considerou os coprodutores

qualquer pessoa, para mim, por exemplo,

como parceiros, que devem estar

porque nós temos todos os meses dentro

associados a todas as receitas. A gente tem

do grupo Zodiak Kids uma reunião em que

uma atitude extremamente simples, que

analisamos os projetos que chegam do

consiste em associar nossos parceiros à

81


Philippe Alessandri

Animação Francesa

altura do financiamento que ele traz. Então, se em uma série, por exemplo, a gente tem uma coprodução brasileira em torno de de 30% ou 40%, a gente vai reverter 40% de todos os benefícios ao nosso coprodutor, sabendo que, em geral, cada produtor guarda 100% de direitos do seu território, porque é mais simples. A gente faz o nosso parceiro estrangeiro aproveitar com o Grupo Zodiak a distribuição, o merchandising e a produção. Você dizia que podem existir dificuldades em termos de produção, e nisso não há outra solução senão trabalhar muito bem junto, preparar muito bem o primeiro ano, e não produzir nesse primeiro momento, porque estamos concentrados no desenvolvimento, porque nós esperamos o acordo com as autoridades. Então, é importante aproveitar esse ano para preparar o trabalho de modo que, na produção, tudo funcione muito

82

bem. Até porque, não podemos negar

tempo juntas. É importante beber cerveja,

que quando estamos a 20 mil quilômetros

jantar [risos]. Outra maneira é promover

uns dos outros, isso pode ser às vezes

temporadas de um membro da equipe

muito complicado. Existem, claro, muitas

artística brasileira em Paris, e vice-versa. Ter

maneiras de facilitar o processo. Uma delas

um brasileiro lá, e um francês aqui facilita

é, desde o início, fazer encontros não só

muito as coisas e diminui os conflitos,

com os produtores, mas, também com

quando eles aparecem. É isso, são pequenas

os realizadores, diretores de produção,

coisas que podem tornar a coprodução mais

para que todas essas pessoas passem um

tranquila.

83


Simon Otto

30 de Julho

Masterclass 1

Inventando Dragões e Vikings Críveis e Divertidos

Convidado: Simon Otto O desenvolvimento de personagens sempre acompanhou a carreira de Simon Otto, primeiro através da criação de esculturas comerciais de neve, em resorts suíços, e da ilustração de charges para o jornal da sua cidade natal, Gommiswald, e depois através da animação, seguindo sua passagem pela prestigiosa escola Les Gobelins, em Paris. Otto reconhece a enorme contribuição da instituição na sua trajetória, mas afirma que “por melhor que seja a escola, a animação é

85


Simon Otto

Masterclass 1

algo que aprendemos através da observação da vida real. Passei a vida inteira desenhando, e, portanto, posso afirmar que já estudava animação bem antes de me dar conta disto”.

os dois longas da franquia Como Treinar o Seu Dragão (2010, 2014), nos quais trabalhou como diretor de animação de personagens. Em sua Masterclass, Simon Otto compartilhou com o público a história de um garoto que cresceu em uma zona rural, Ainda em Paris, Otto estagiou na Disney, onde desenvolveu ainda mais seu talento, antes de ser integrado ao primeiro projeto de animação da Dreamworks, O Príncipe do Egito, de 1997. Fundou-se, assim, a tradição impecável do estúdio dentro do cânone da animação, com importante contribuição de Otto, em filmes como Spirit: O corcel indomável(2002), Por Água Abaixo (2006), Os Sem-Floresta (2006), e, mais recentemente,

86

longe da indústria da animação, e que hoje é diretor de animação de personagens em um dos maiores estúdios de animação do mundo. Através dessa jornada retrospectiva, ele explicou como essas experiências moldaram as diretrizes da sua vida profissional. Otto apresentou exemplos dos bastidores de Como Treinar o Seu Dragão 2 para ilustrar a construção de um mundo de dragões crível e divertido, e de uma filosofia de animação própria.

87


30 de Julho

A integração Latino-americana

Convidados: Manoel Rangel – ANCINE Cláudio Grandinetti – UIPAA Guille Hiertz – Split Filmes Maria Graciela Severino – GONG Ralph Karam – Le Cube Miguel Del Moral – CutOut Fest Moderadores: Cesar Coelho e Luciane Gorgulho


A integração Latino-americana

Cesar Coelho, um dos diretores do Anima Mundi, assumiu o papel de mediador da tarde mais latino-americana do Anima Forum. Para compor a mesa, ele anunciou as presenças de Luciane Gorgulho, chefe do Departamento da Economia da Cultura do BNDES (um dos patrocinadores do fórum); Manoel Rangel, diretor presidente da ANCINE; Miguel Del Moral, presidente do CutOut Festival, do México; Claudio Grandinetti, da comissão executiva da União Industrial de Produtores de Animação Argentina (UIPAA); Guille Hiertz, diretor de animação da Split Filmes, de São Paulo; Maria Graciela Severino, produtora executiva da Gong! Animation Studio (GONG), do Chile; e, por fim, Ralph Karam, diretor criativo da Le Cube, produtora que trabalha entre Brasil e Argentina. Antes do debate, Cesar faz um breve

Um bom exemplo para realçar esse viés,

histórico do Anima Mundi, festival pensado

segundo ele, é a evolução da indústria da

como peça estratégica de promoção e

animação francesa nos últimos 15 anos.

desenvolvimento da indústria da animação como arte no Brasil.

“Alguns anos atrás, logo nos primeiros Foruns, a gente fez uma mesa latino-americana

90

“A gente acha importante que o Festival

em que tentávamos entender a nossa

cumpra não só o papel de divertir, de revelar

realidade na área de animação. Mais de 15

artistas, mas que seja também referência

anos atrás, trouxemos alguns produtores

de discussão e planejamento estratégico da

que representavam uma cooperativa

própria atividade em si”.

formada na França. Na época, a animação

91


A integração Latino-americana

matinal inteira. Com isso, a coisa foi evoluindo, e hoje a animação francesa está muito poderosa em todas as áreas. Eles têm grandes escolas de animação, estão começando a produzir longas-metragens de ponta, blockbusters e tudo”. Já mirando a troca entre os latinoamericanos, a edição de 2013 do Anima Forum contou com a presença de Iain Harvey, vice-presidente da Cartoon Media, uma entidade europeia que teve a mesma preocupação duas décadas atrás. “Eles pensavam como poderiam reforçar as companhias de animação da Europa e

92

francesa não era o que é hoje. Mas eles

criaram essa associação, que em 20 anos

estavam justamente preocupados com o

revolucionou o panorama de animação

mercado francês, com a invasão, na televisão

na Europa. A Cartoon Media tem hoje um

francesa, principalmente para as crianças, de

orçamento trienal de 200 milhões de euros.

produções – filmes e animação – americanas

Eles promovem encontros de produtores

e asiáticas. Eles queriam ver mais produtos

europeus para troca de experiências e

franceses na televisão. Então, eles criaram

projetos, coordenam esforços dos produtores

uma associação incentivada pelo próprio

associados e trocam recursos. A Cartoon

governo, e isso foi importante para conquistar

Media também desenvolve programas

o mercado. Eles começaram a entrar no

de aperfeiçoamento e desenvolvimento

mercado internacional de animação, não

de tecnologia interna e um programa de

isoladamente, mas coletivamente, e com isso

intercâmbio com produtores fora da Europa”,

chegavam com uma produção muito mais

Cesar elogiou, numa clara associação com

substancial. Em vez de oferecer um ou dois

o que a direção do Anima Forum pretende

programas, ofereciam uma programação

alavancar na América Latina.

93


A integração Latino-americana

“Desde o início, nós identificamos que a animação tinha um potencial bastante diferenciado de desenvolvimento como setor. Potencial de desenvolvimento artístico, de geração de emprego, de mão de obra etc. E passamos a desenvolver diversas ações em relação a isso. Nós temos linha de crédito a longo prazo, fundos de investimentos; temos um edital de cinema há quase 20 anos, que

Luciane Gorgulho BNDES

Patrocinador do Anima Mundi e do Anima Forum, o BNDES, como banco de desenvolvimento, dá o devido crédito à economia criativa. Luciane Gorgulho, convidada para dividir a mediação da mesa com César Coelho, ressaltou que a aposta do BNDES no setor é tamanha, que foi criado um departamento exclusivo para tratar da economia da cultura, que funciona desde 2006.

94

tem contemplado de duas a três animações longas a cada ano, e tem ajudado vários projetos, como o mais recente do Alê Abreu, O Menino e o Mundo”, enumerou Luciane. O BNDES, segundo a chefe do Departamento da Economia da Cultura, tem atuado, fundamentalmente, para ajudar o setor a se organizar. Particularmente voltado para a América Latina, o banco mantém, há três anos, um escritório em Montevidéu. “O objetivo é promover financiamentos e uma maior integração entre os países”, afirmou Luciane Gorgulho.

95


A integração Latino-americana

disse ele, avisando que mostraria alguns números representativos da indústria cinematográfica e da animação no México. Quinto lugar mundial em média de público em salas e décimo maior comprador de ingressos em bilheteria no mundo, o México tem uma produção cinematográfica própria expressiva, ou seja, é um dos países com maior número de filmes produzidos anualmente. Segundo Del Moral, o país foi o principal produtor em 2013 na América Latina, com 126 filmes entre ficção, documentários e animação. “Nos anos de 2011 e 2012, a animação foi o

Miguel Del Moral CutOut Fest

Presidente do CutOut Festival, Miguel Del Moral começou com um breve panorama da animação no México: um mercado ainda incipiente, com coproduções raras e esquálida produção de longas-metragens. “Para podermos situar o Brasil em um caminho de coprodução no México, ainda temos que percorrer um longo caminho. Mas é para isso que estamos aqui”,

96

gênero que mais atraiu público entre os filmes que estrearam. Isto quer dizer que no México há um grande mercado para a animação. Lamentavelmente, toda a receita das salas vai para outros países, principalmente para os Estados Unidos”, afirmou. A fala de Del Moral é baseada em números do Anuário Estatístico do Cinema Mexicano, segundo o qual 79% do público no país vai atrás de produções americanas. Isso significa que tanto as produções mexicanas como as demais produções latino-americanas têm pouco público em salas mexicanas.

97


com 3; a República Dominicana e o Uruguai com 2 cada um; a Bolívia e a Suiça com uma coprodução cada. O Brasil não aparece na lista. Del Moral lembrou que, desde 2007, os

Miguel Del Moral

A integração Latino-americana

e a Dinamarca com 5 cada uma; o Peru,

dois países não atuam conjuntamente seja em ficção ou documentários. Em relação à produção de animação, o México viveu a década de 1990 sem que nenhum filme fosse produzido. No quadro da produção de animação no país desde a década de 1970, o total é de 26 animações. A década de 1990 foi o período de maior O Estado participa do financiamento e apoia

ostracismo, sem nenhuma produção. Entre

as coproduções, continuou Del Moral. “Em

2000 e 2008 houve oito produções, sendo

2013, o governo participou com 75% do

que o pico se deu entre 2009 e 2011, com 10

financiamento dos filmes, que é uma cifra

produções realizadas. Em 2013, foram três.

muita alta”, comentou. As coproduções, no entanto, representaram apenas 15% de

“Está melhorando, embora a indústria

todas as produções realizadas.

esteja começando. A maioria dos estúdios vive da publicidade e faz outros tipos de

Entre os anos de 2007 a 2013, houve

trabalhos relacionados com comerciais. Na

incremento das coproduções com diversos

cinematografia, há pouquíssima animação”,

países, com destaque para os Estados

disse Del Moral.

Unidos, que aparece na lista com 27

98

coproduções realizadas. Em seguida,

O México tem algumas necessidades

aparecem a Espanha, com 23; a Colômbia,

específicas, mas que se assemelham ao

com 12; a Argentina, com 11; a França, com 9;

cenário latino-americano. Del Moral citou

o Chile, com 8; o Canadá, com 6; a Holanda

como principais:

99


trabalhou no país. Faltam mais qualidade

que implica em melhorar a formação

e quantidade de pessoal especializado, de

profissional e a capacitação técnica,

professores, apesar da grande quantidade

promover a certificação, melhorar a

de alunos formados por ano. Também

informação sobre o mercado global e

precisamos elevar a competitividade dos

aumentar a qualidade e a quantidade de

estúdios para aumentar a disponibilidade dos

professores e instrutores;

recursos financeiros para essas indústrias. O

Miguel Del Moral

A integração Latino-americana

- A formação de capital humano, o

governo não apoia, e uma das ferramentas - Elevar a competitividade das empresas

pode ser também a coprodução internacional

e estúdios, que movimentam a indústria,

e a coprodução latino-americana. Precisamos

o que envolve incrementar recursos

também promover a criação de organismos e

financeiros para empresas, criar organismos

grupos que representem a indústria.”

representativos, promover a propriedade intelectual internacionalmente, realizar

É preciso impulsionar o funcionamento das

estudos analíticos da indústria;

industrias latino-americanas, promover essa indústria e situá-la nacionalmente, além

- Promover o crescimento dos mercados

de atingir nível internacional e capacidade

local e global, o que significa impulsionar a

técnica.

indústria latino-americana; e “São muitos os pontos que acredito que - Impulsionar um marco legal de promoção

temos de trabalhar. Mas, dada a situação

do crescimento da indústria de animação,

em que vive a indústria de animação no

o que demanda a homologação de práticas

México, há muito por fazer, e acho que é isto

com organismos internacionais.

que temos de combinar: trabalhar para que passemos a ter propriedade intelectual latino-

100

“Não há informação de quanto cobrar, como

americana que seja exportada para o resto do

cobrar, não há tabelas. A animação é uma

mundo, e que tenhamos uma indústria forte,

indústria bastante desarticulada. No cinema,

porque os mercados existem. O mercado

temos trabalhado um pouco mais, mas a

brasileiro é gigante, e o mercado mexicano

animação é um assunto que ainda não se

também é dos mais importantes. O mercado

101


A integração Latino-americana

latino-americano tem um grande potencial, mas tudo está sendo importado, todo o dinheiro está indo embora. É uma pena não termos ainda o sucesso latino-americano como existe em outros países”, finalizou. Pergunta – Qual é a técnica mais utilizada para produzir animação de longa-metragem no México? Miguel Del Moral – Ultimamente é uma combinação de técnicas de 3D e 2D compostos, pouco stop motion, apesar de o México ser um um dos países que melhor dominam a técnica em stop motion, precisamente porque não viemos de uma formação acadêmica como animadores. Há uma formação plástica, há também uma formação cinematográfica e creio que o stop motion é uma das técnicas que, combinando a plástica com a cinematografia de live-action, pode ter resultados interessantes. No México, desenvolvemos bem uma construção de personagens imaginários muito interessantes e temos curtas-metragens incríveis. Dificilmente se faz uma coprodução de longa-metragem em stop motion, não sei porquê, talvez seja mais caro, mas por ai há alguns projetos que estão sendo trabalhados em stop motion.

102

Claudio Grandinetti UIPAA

Segundo Claudio Grandinetti, representande da União Industrial de Produtores de Animação da Argentina, a animação vive cenários parecidos em toda a América Latina. “A UIPAA é uma organização formada em 2009 com o objetivo de profissionalizar o setor e dar forma à indústria audiovisual na área de animação, que era o que nos

103


pudessem ser consumidos em toda parte do

momento. A partir daí, começamos a ver

mundo, para exportar produto intelectual,

o que estava acontecendo no mercado,

teríamos que pensar em trabalhar com

no mundo, o que estava acontecendo

países que entendiam dessas coisas e que

conosco. Na Argentina, tínhamos lugares

hoje estão tendo êxito”, disse.

onde mostrar nossos trabalhos de produção, os trabalhos comerciais, os

Claudio Grandinetti compartilhou com

trabalhos de animação a que a gente

a plateia do Anima Forum o caminho

assiste normalmente na televisão; mas o

percorrido para entender como funcionam

trabalho de fazer seriados na televisão ou

e se concretizam as coproduções, a

no cinema, não estava sendo explorado.

colaboração com outros países, com outros

Então, desenvolvemos algumas estratégias”,

colegas. “Iniciamos um trabalho que incluía

contou ele, sobre o início da associação.

mercados internacionais. Formamos uma

Claudio Grandinetti

A integração Latino-americana

preocupava, como produtores, naquele

proposta, e a apresentamos à “ANCINE” Hoje, a entidade reúne 43 produtoras

da Argentina. Para nós, foi uma proposta

espalhadas por todo o país. “Estão todos

histórica, porque em 22 anos nunca tivemos

buscando o mesmo objetivo e trabalhando

uma visão por parte do governo e do setor

do âmbito privado ao governamental para

privado de criarmos uma indústria como

fortalecer a indústria, que acreditamos

estamos criando”, contou ele.

ser emergente e a mais frutífera deste novo milênio. As produtoras associadas

A estratégia de convencimento envolveu

contribuem para o desenvolvimento e a

a formulação da proposta e a criação de

oferta de serviços em diferentes frentes do

um concurso em que se apresentavam

audiovisual”, afirmou.

pilotos prontos para competir no mercado internacional. “Isso significa que estávamos

104

“A turma foi atrás do governo e das empresas

instituindo, desde o princípio, a criação

privadas, insistiu que as coproduções eram

de produtos que pudessem, pelo menos,

importantes para alavancar a indústria.

ser colocados numa mesa de negociação

Entendíamos que para podermos nos

num mercado internacional, e serem

profissionalizar e gerar produtos que

produzidos”.

105


em andamento. E os planos agora são

foi uma grande aceitação no mercado

de expansão. “Pensamos em explorar o

local. “Tivemos 83 projetos apresentados,

mercado e encontrar com alguns colegas do

20 selecionados e premiados com a

Chile, Brasil, México e Colômbia. Nossa ideia

possibilidade de produzirem o piloto,

é unir esforços e lançar produtos para a

com o mercado internacional incluído na

América Latina, competir no mundo e poder

realização. Com esse material, preparamos

crescer juntos”, encerrou.

Claudio Grandinetti

A integração Latino-americana

O resultado do concurso, sendo Grandinetti,

um primeiro catálogo, que levamos ao mercado internacional para começar a entenderem o que se passava com nossos produtos e nossos projetos. Essa iniciativa superou todas as nossas expectativas. E a partir daí, iniciamos projetos já com o mercado aberto para produzir. Na verdade não foi nada fácil”, assumiu. No ano de 2013, quando todos estavam olhando para a Argentina, vieram as dúvidas. “Faltava algo mais. Então nos pusemos a trabalhar com canais públicos e armamos uma estratégia para poder financiar os projetos que tínhamos. Já que o catálogo teve muita repercussão, era a hora de aproveitar. E o governo entendeu que essa é uma indústria com muito futuro, e trabalhamos em uma nova proposta”, esmiuçou. O empenho rendeu um financiamento que pode variar de 30% a 50%, dependendo do projeto. Pelo menos três, de uma leva de 12, já estão

106

107


A integração Latino-americana

geração de conteúdo tem vários invólucros”, o que ele explicaria em seguida. “A empresa surgiu com o intuito de fazer conteúdo. Mas a grande verdade é que a gente tem contas a pagar mensalmente, então, o que passa de animação na nossa frente a gente pega e faz. Em São Paulo há uma demanda muito forte de publicidade e, paralelamente, a gente tem esse nosso business de conteúdo, que é uma coisa que não dá dinheiro, até que dê dinheiro. Temos de fazer publicidade para nos manter”, contou ele. A coprodução passou a ser realidade para o Split Filmes em 2013, contou Guille. Especificamente a partir de um email da

Guille Hiertz Split Filmes

Pela segunda vez no Anima Forum, Guille Hiertz, no papel de representante das produtoras independentes de animação, anunciou que o foco de sua fala seria a coprodução com países da América Latina. O Split Studio, fundado em 2009, é um estúdio recente, mas já com algumas conquistas consistentes. “Ele surgiu com o objetivo claro de fazer conteúdo. E essa

108

Gong!.”Quando recebemos o e-mail do pessoal do Chile, pensamos taí, tá pronto! Boa qualidade, ótimo humor. O Gong! era mais novo que a gente. Eu consigo falar de um projeto pelo nível de maturidade que tinha, mas, no caso deles, já veio uma coisa muito bem feita e de muito boa qualidade. Imediatamente, nós também fomos atrás deles e conversamo e aí, a gente vai fazer só conteúdo?, vamos atender outras coisas?, vamos fazer dinheiro de que forma?, qual o dilema de vocês no momento? E parecia um caminho muito promissor. Mas, sabe como é o Brasil, tínhamos todo o preparo

109


a gente tentou trabalhar animação live

aqui, por falta de dinheiro. E isso por causa

action e o canal não confia R$ 1 milhão para

da Lei 12.485, aprovada em 2012. A partir

o projeto, mas se eu pedir R$ 5 milhões para

daí, os próprios canais me disseram, em

fazer animação, ele vai dar”, ponderou.

Guille Hiertz

A integração Latino-americana

para fazer, mas não podíamos produzir

algumas ocasiões, que antes de 2012, o melhor projeto, fosse chileno, argentino

O mercado de animação, segundo Guille,

ou brasileiro, recebia a verba. Após a

segue um compasso diferente, é mais

Lei, mudou muito o panorama lá fora e a

linear e mais previsível. “Tudo depende de

torneira se fechou para a América Latina.

dinheiro. Eu adoro o trabalho do pessoal

Se o Cartoon Network tiver uma verba para

da Argentina, mas não posso coproduzir

investir na América Latina, provavelmente

com eles porque a gente não tem lei e o

vai investir aqui porque não paga multa.

meu conteúdo não pode ser qualificado

Aqui ele consegue produzir conteúdo e

como independente brasileiro, infelizmente.

manter o canal dele em ordem”, explicou

No caso do Chile, tínhamos um acordo

ele, assegurando que não se tratava de

cinematográfico de 1997, mas tivemos que

reclamação.

ligar para a Ancine e perguntar se ainda estava valendo. E fomos os primeiros a usar.

A Lei 12.485, de acordo com Guille, trouxe

Foram 17 anos para o acordo ser usado”,

avanços, mas travou, de certo modo, os

criticou.

investimentos. “Eu não estou criticando

110

a Lei, seria pior sem ela, mas o risco de

Buscar parceiros é importante, mas as

investir o dinheiro em algo que não dá

contribuições têm de vir com planos e

certo, e ser responsabilizado por isso, foi

ideias. “A gente devia trabalhar mais entre

limado. Agora, se der mal ou se der bem

vizinhos sul-americanos, o que faz muito

tanto faz, vai para o cofre do governo.

mais sentido. Mas a gente tem questões

Ganha quem sabe levantar dinheiro. Esse

burocráticas legais permeando o nosso

é o dilema que a gente enfrenta hoje nessa

caminho. Por exemplo, a RioFilmes faz uma

área. Então, demora muito tempo para se

contrapartida da verba de 1 real para 1 e

levantar um projeto de animação no Brasil.

½, o que é interessante. Por outro lado,

Mas o curioso no mercado brasileiro é que

obrigava que o projeto entrasse no Fundo

111


A integração Latino-americana

em janeiro, e estivesse pronto em 12 meses. Isso funciona para série, documentário, não para animação. Esse é só um exemplo de que, ao longo de todo o caminho, a gente tem de brigar com o mercado, com os canais, com as leis”, desabafou Guille. O cenário, segundo ele, é positivo. “A animação está estrategicamente colocada a um passo da televisão, a um passo do cinema, a um passo dos games e a um passo das editoras, já que qualquer livro infantil vira uma animação e vice-versa. E, no Brasil, nós temos o que o mercado pede, temos consumidor interno, temos qualidade, sabemos contar histórias, só precisamos que o dinheiro chegue à nossa mão”, fechou.

Maria Graciela Severino – GONG

Maria Graciela, a Maru, é produtora executiva do Gong!, o parceiro chileno do Split Filmes, e também é vicepresidente da associação dos produtores de animação do Chile. No Anima Forum, ela avisou, teria uma conversa sobre a animação chilena, coprodução e representação de toda uma geração de produtores.

112

113


fora e fazer parcerias para desenvolver

o Chilemonos; oito universidades que

os projetos com a qualidade que nós

preparam para a carreira de animação,

queremos. E acho que esse é o ponto de

com cursos que variam de dois a quatro

reflexão: se pensamos em fazer produções

anos, entre técnicos e profissionais; e

em nosso país, nós precisamos reduzir

também tem uma associação que agremia

a qualidade em tudo. E a gente não quer

produtores, enumerou Maria Graciela.

fazer isso, a gente quer fazer produtos

Maria Graciela

A integração Latino-americana

O Chile tem um festival de animação,

capazes de competir com os melhores “Somos aproximadamente 30 empresas

conteúdos do mundo.”

fazendo animação, algumas com uma direção voltada para conteúdo, outras com

Sobre a estrutura de financiamento no

mistura de conteúdo com publicidade, e

Chile, Maria Graciela explicou as fontes

muitas, especialmente as mais jovens, que

disponíveis. A primeira delas é o CORFO,

estão fazendo conteúdo para internet,

instituição voltada para estimular o

games e muitas coisas. Mas são sempre

empreendedorismo e fortalecer a

empresas pequenas”, ela afirmou, antes

capacidade tecnológica. “Eles têm um

de exibir uma pequena seleção de diversas

financiamento que, no caso da animação,

animações realizadas no Chile, por variados

pode ser utilizado principalmente para o

estúdios.

desenvolvimento. Nós já o solicitamos em duas ocasiões. A cada vez, podemos pegar

Após a amostra – e aplausos –, ela

até 36 mil dólares, aproximadamente”,

continuou, já com a questão do

contou.

financiamento em coproduções: “Vou falar

114

primeiro da nossa visão. Nós temos de

Há também os fundos do Conselho

olhar primeiro para os nossos projetos,

Nacional da Cultura e das Artes (CNCA).

para a natureza da técnica, que, no caso

“Tem um fundo que financia o roteiro,

da animação, precisa de mais recursos.

outro com uma linha exclusiva para

Nesse sentido, em países pequenos como

animação, e vai financiar até 60 mil dólares,

o Chile, onde não temos um mercado

aproximadamente. E tem um fundo

interno sustentável, temos de olhar para

especial para as regiões fora de Santiago.

115


A integração Latino-americana

Como tudo é bem centralizado, esse é um fomento para que as outras regiões possam desenvolver seus projetos. Tem outro fundo, para televisão, cujo custo é relacionado ao minuto de produção”, explicou. Sobre a relação Split e Gong!, Maru lembrou que Brasil e Chile têm um acordo de coprodução datado de 1996. E o acordo assinado entre as duas produtoras, segundo ela, foi o primeiro assinado como coprodução legal. Existem outras coproduções, mas que não estão assinadas nos mesmos termos. “Por nove anos, eu viajei pelo Brasil, conheci de Pelotas a Rondônia. Depois retornei ao Chile, montei os estúdios, criei empresas, entre elas a Gong!. Mas a gente viu que a coprodução estava na natureza da animação. E o primeiro país que a gente olhou foi o Brasil. Com a ajuda da ABPITV, nós contatamos os estúdios que tinham algo em comum conosco. A gente escreveu para a Split, eles abriram os braços para os nossos projetos, e assim começou a relação. Até agora, a gente só tem coisa boa para falar”, ela elogiou, finalizando.

116

Ralph Karam Le Cube

Ralph Karam vive uma experiência já binacional. Ele é diretor da Le Cube, uma produtora baseada no Brasil e na Argentina. Após exibir um vídeo de animações produzidas pela Le Cube, ele explicou: “Somos três sócios. Um em São Paulo, outro em Buenos Aires, e eu, que fico no meio do caminho entre os dois países. E, além disso, temos uma série de amigos muito

117


Ralph foi conhecendo gente, trabalhando,

projeto”, disse Ralph.

fincando os pés – e as mãos – na animação argentina.

A ideia de coprodução surgiu de maneira espontânea. “Na época, eu estudava design

“Acabei ficando por lá. Comecei a conhecer

gráfico em Florianópolis, e fui fazer um

muita gente talentosa, e foi tudo muito

intercâmbio na Argentina – do qual nunca

espontâneo. Eu fazia trabalhos como

mais voltei, já faz quase dez anos. E o

freelancer e, como conhecia muita gente

principal motivo foi que eu encontrei um

aqui, começamos a dividir. Meu irmão

nicho em Buenos Aires com o qual eu nunca

Gustavo entrou depois nesse processo para

tinha tido contato no Brasil. Quando eu

fazer a coisa se estruturar, e depois veio o

estava aqui, eu trabalhava em agência de

Juan. A gente faz uma brincadeira dizendo

publicidade, como diretor de arte, que era

que a gente chuta uma árvore e começam

a principal saída para quem tinha estudado

a cair animadores, porque tem muita gente

design. E lá, eu conheci um mundo de

talentosa.”

Ralph Karam

A integração Latino-americana

talentosos que nos acompanham em cada

estúdios de animação, uma coisa que eu nunca tinha encontrado aqui”, contou ele.

A coprodução fluiu naturalmente, no caso de Ralph. “Eu nunca tive pudor de chamar

O mercado é diferente, o cenário é outro, o

alguém para fazer um trabalho. Eu via o

ensino também conserva particularidades

trabalho de alguém na internet, no flickr,

nos dois países. “Pela minha experiência

gostava, escrevia para o cara para fazermos

universitária, eu diria que temos um modelo

alguma coisa juntos”, disse ele. E foi assim

mais teórico no Brasil. Já nas universidades

que os núcleos começaram a se espalhar e a

argentinas, é mais prático. E tem uma galera

ultrapassar fronteiras de Brasil e Argentina:

recém-formada que vai para o mercado e

118

faz coisas incríveis. Nos primeiros estúdios

“Ano passado, recebemos gente da Suécia.

em que eu trabalhei na Argentina, a

Esse ano, uma animadora da Bélgica.

primeira coisa que me impactou foi ver que

Vários franceses já vieram, e foi tudo muito

os donos desses estúdios tinham acabado

natural. Acho que isso se reflete bastante no

de sair da faculdade”, comparou.

nosso trabalho: a gente está dentro de um

119


A integração Latino-americana

contexto de animação, mas não foca numa técnica. Usamos animadores da França, amigos ilustradores do Chile com traços que combinam com o projeto, conectamos tudo e, no fim, dá uma salada bem interessante. Nossa visão de coprodução é mais ver gente que tem um trabalho com o qual a gente adoraria colaborar, e encontrar um jeito de fazer juntos”, simplificou.

Manoel Rangel ANCINE

Além de presidente da Ancine, Manoel Rangel foi um dos responsáveis pela Lei da TV Paga, a 12.485, que revolucionou o mercado de audiovisual brasileiro, principalmente o de animação, assim César Coelho anunciou o próximo palestrante. “O momento é especial para o setor audiovisual brasileiro e o mercado está

120

121


paga, continuou Rangel, teve como

Manoel Rangel, logo de início e com números

primeiro mecanismo de estímulo o artigo

para justificar a euforia: o número de salas

39 da Medida Provisória 2228. Esse foi o

de cinema cresce a uma taxa de 8% ao ano, e

mecanismo que criou laços entre canais

o crescimento das TV por assinatura beira os

de televisão por assinatura, inclusive os de

13% ao ano. Dois mercados que incorporam

animação, com produções independentes.

milhões de potenciais consumidores de

Antes disso, praticamente não havia

produção audiovisual.

produções independentes brasileiras

Manoel Rangel

A integração Latino-americana

extraordinariamente aquecido”, afirmou

circulando nos canais. “No Brasil, nós temos uma televisão aberta muito robusta. Tínhamos um mercado

O artigo 39 foi importante para criar um

de DVD que era um dos maiores do

relacionamento, mas a transformação,

mundo e esse mercado tem diminuído

de fato, veio com a Lei 12.485, a lei da

sua importância – fruto da pirataria e das

TV Paga, que criou a obrigatoriedade de

transformações tecnológicas que colocam

carregamento de conteúdo brasileiro: três

outros serviços em operação. Mas o fato

horas e meia por semana, sendo que a

objetivo é que nós temos um mercado se

metade disso de produção independente;

expandindo todos os anos, de maneira

três horas e meia no horário nobre, e a

recorrente”, assegurou Rangel.

obrigação de carregamento de canais brasileiros de espaço qualificado.

O respaldo está nos números. Em 2013, foram lançados 129 filmes de longa-

“A construção dessa Lei transformou

metragem nas salas de cinema, e os filmes

o cenário da demanda por conteúdo

brasileiros tiveram participação de 18,6% no

brasileiro, não só de produção

mercado, a maior da América Latina. “É um

independente de televisão, mas também

número bastante expressivo no processo de

de cinema. Porque foi a partir daí que,

crescimento da ocupação”, afirmou.

pela primeira vez no Brasil, a televisão compareceu como um ativo comprador,

122

A presença do conteúdo brasileiro de

além de passar a ser um ativo agente de

produção independente na televisão

encomenda de produção de obras, com

123


Manoel Rangel

A integração Latino-americana

deslocamento de recursos das matrizes para serem aplicados para além dos recursos públicos disponíveis”, explicou Rangel. Retomando a queixa de Guille Hiertz sobre a decisão de um canal em alocar verba da América Latina prioritariamente para o Brasil, Rangel retrucou: “Tem a ver com a necessidade de oferecer resposta para produzir mais conteúdo no Brasil, e não com o mecanismo do art. 39. Tem a ver com as obrigações de carregamento de conteúdo brasileiro, o que coloca para eles como prioridade produzir no Brasil.” foi reservada a condição de mercado Obviamente, prosseguiu o presidente da

consumidor, não de mercado produtor.

Ancine, a Lei não foi feita para concorrer

Por isso as verbas de produção estão

com o Chile, com a Argentina, com o México,

concentradas no mercado norte-americano,

com o Paraguai ou com a Bolívia. “O alvo da

nos EUA e no Canadá.”

Lei não é concorrer com os nossos vizinhos latino-americanos. Mas é dizer que o mundo

A melhor maneira de enfrentar a situação

não está organizado entre países que são

construída no mercado internacional,

produtores de conteúdo e países que são

defende Rangel, é construir mecanismos

meramente consumidores de conteúdo. E

de defesa nos mercados nacionais. Isso, ele

a verdade é que os grandes estúdios e os

assegura, a Lei 12. 485 garante.

grandes canais, os grandes programadores

124

internacionais organizaram o mundo

“A Lei tramitou durante cinco anos no

entre produtores e consumidores. A nós,

Congresso brasileiro, foi debatida por

brasileiros, argentinos, chilenos, mexicanos

todo o setor audiovisual. Não foi medida

125


“Estamos investindo pouco mais de R$ 90

ao contrário, foi um ato nascido de várias

milhões no desenvolvimento de projetos,

iniciativas parlamentares. O papel da

documentários, animação, ficção para

Ancine foi conduzir os debates de forma

televisão e para cinema com investimentos

que o interesse público prevalecesse.

de tipos diferentes. Estamos investindo em

Que interesse público? Não-arranjo

54 núcleos criativos dentro de empresas,

entre agentes econômicos, não-arranjo

em seis laboratórios de desenvolvimento

entre as telefônicas, as operadoras de

nos quais a produtora vai poder

TV por assinatura e as programadoras

desenvolver o roteiro e se capacitar no

estadunidenses. Quando a gente diz canais

meio desse processo. Além do investimento

internacionais no Brasil, vamos combinar,

direto através de uma terceira linha voltada

é um eufemismo. Nós falamos de canais

para o desenvolvimento de projetos de

estadunidenses no Brasil, porque todos

produtoras que julgam não precisar do

eles operam a partir dos EUA, com o centro

laboratório”, listou.

Manoel Rangel

A integração Latino-americana

provisória nem um ato fechado do governo,

da sua compra e do seu investimento em produção no mercado dos EUA. Não tenho

A Ancine também colocou em marcha

nada contra, só quero a mesma coisa para o

cursos de capacitação de mão de obra

mercado brasileiro”, afirmou.

técnica em 12 capitais nas várias regiões do Brasil, para formação de mão de obra

A Lei demanda outras ações concretas,

técnica que possa se engajar na produção

segundo Rangel. O plano de diretrizes

de audiovisual.

e metas organiza o desafio do

126

desenvolvimento do mercado audiovisual

“Com a lei da TV Paga, nós passamos a viver

brasileiro. Com o documento como  base,

um ambiente de escassez de mão de obra

foi lançado o programa Brasil de Todas

para produção de conteúdo para cinema e

as Telas, cujo investimento é de R$ 700

televisão, sobretudo no Rio e em São Paulo,

milhões. Aproximadamente R$ 315 milhões

que começou a drenar a mão de obra de

em produção de conteúdo brasileiro

Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do

para cinema e televisão no decorrer dos

Sul, Paraná, esvaziando também outros

próximos 12 meses.

centros de produção”, justificou.

127


sido capaz de produzir longas-metragens

exibidor também ganha reforço. “É um

de animação no nível que a indústria

pacote de R$ 1,2 bilhão oriundos do Fundo

hegemônica estabeleceu como padrão.

Setorial de Audiovisual, que é um fundo

“Eu não estou me referindo à capacidade

alimentado com recurso recolhidos na

técnica, e, sim, à estratégia geral de

própria atividade econômica, fruto também

produção, da concepção da obra à entrega

das conquistas da Lei 12.485.”

final, e isso é muito mais complexo do que

Manoel Rangel

A integração Latino-americana

A expansão e digitalização do parque

técnica ou investimentos tecnológicos.” Manoel Rangel apresentou ainda dados específicos da animação no Brasil, a

A Ancine, assegurou Rangel, tem dado

começar pela evolução da produção e

sua contrapartida. Entre junho de 2012

exibição em salas de cinema:

e julho de 2014, aprovou 30 projetos de longa-metragem de animação para

- Entre 1995 e 2004, foi lançado apenas um

captar recursos para se transformar em

longa-metragem de animação em salas de

filmes. Nesse mesmo intervalo, 58 séries

cinema brasileiras;

de animação para TVs aberta e paga também foram aprovadas. Cinco séries de

- Entre 2005 e 2009, seis longas de animação

animação vão direto para o mercado de

estrearam nas salas de cinema do país;

DVD, entre elas a Galinha Pintadinha. No balanço de Rangel, 26 obras de animação

- Entre 2010 e 2014, serão nove longas-

foram apoiadas pelo Fundo Setorial de

metragens de animação estreando.

Audiovisual nos quatro primeiros anos de operação.

“É pouco, está muito aquém do que nós

128

precisamos ter na realidade do mercado

“Com isso, estou querendo afirmar que não

brasileiro, mas é mais ou menos o que os

há o bom momento sem a coordenação de

estúdios nacionais conseguem produzir

um conjunto de fatores e eu diria que se o

para ocupação no mercado de salas”,

talento é indispensável, e é ele a matéria

justificou Rangel, apontando para um outro

prima definidora de tudo isso, a construção

problema: o cinema nacional não têm

de uma política robusta foi determinante

129


prazos para que uma obra de ficção fique pronta dentro da lógica do Fundo Setorial de Audiovisual são prazos de 30 meses e não de 18 meses, como são os prazos para

Cesar Coelho

É unanimidade a necessidade de fazemos

os longas-metragens de ficção e para as

essa integração latino-americana na área

obras de documentário, porque se conhece

de animação. Mas, pensando em termos

a peculiaridade da animação. A lógica

mais práticos, como a gente poderia evoluir

do financiamento também é diferente”,

essa proposta? Vocês acham que existe

comparou.

interesse de se construir um organismo

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

para que esse salto pudesse ocorrer. Os

multinacional, que comece a organizar e a Ainda que os tempos sejam outros, os

gerenciar essa integração de maneira mais

desafios persistem, principalmente para a

efetiva? Existe essa possibilidade? E como

integração latino-americana, por sua vez:

poderíamos fazer isso?

“Os institutos nacionais de cinema, nós,

130

Manoel Rangel

Uma proposta é promover um encontro

estamos muito longe de ter uma estratégia

de coprodução latino-americana para

articulada para maior coprodução de

projetos de animação específicos. Anima

animação, mas digo a vocês que há

Mundi, ABCA, UIPAA, Associação do

um crescente olhar da Conferência de

México e os demais poderiam, juntos,

Autoridades Cinematográficas Ibero

propor um encontro de coprodução de

Americanas, que reúne todos os estúdios e

projetos para TV, para cinema, cadastrando

cinema de Espanha e Portugal e da América

projetos ou propostas de projetos para

Latina, para o ambiente da TV pública e para

que circulem entre os interessados. O

uma articulação da política de audiovisual

primeiro problema em coproduzir é que as

que coloque a televisão pública em um

pessoas se conheçam. A segunda sugestão

papel relevante nessa operação. E isso

é aproveitar que, ao longo dos próximos

chegará inevitavelmente, a uma estratégia

quatro meses, a Secretaria de Audiovisual e

também de coprodução para animação”,

a Ancine estão conduzindo uma articulação

anunciou, otimista.

com as 27 TVs públicas brasileiras para

131


México, é possível articular com rapidez um pequeno fundo, o que daria um gás para se armar a produção. E o resto do dinheiro se daria dentro da lógica de financiamento dos países. Essa é uma das vantagens de coproduzir, poder obter dinheiro em dois, três, quatro países.

Guille Hiertz

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

meus pares na Argentina, Uruguai, Chile e

Bom, se você diz que é tão simples, que não envolve um esforço tão absurdo essa integração entre televisões, eu já adianto que isso é muito bem vindo. Para já! Eu estou com medo de querer ser um pouco mais realista, mas acho que, a coprodução no Brasil – e estou falando no meu caso e trazendo experiências de outros estúdios que estão na mesma pegada – é assunto simplesmente porque falta dinheiro. O dilema é que eu acho que

132

um conjunto de editais. Simultaneamente,

essa lei aprovada tira o apetite do canal

está havendo um levantamento da

de colocar dinheiro do bolso dele. Isso

realidade das TVs públicas em diversos

aconteceu comigo em 2012. Eu estava com

países latino-americanos. Nós poderíamos

um projeto aprovado em várias instâncias

juntar algumas televisões do continente

do Cartoon Network e, no advento da lei

para serem parceiras numa convocatória

ser aprovada – foi aprovada em setembro

específica para projetos de coprodução.

daquele ano –, o canal congelou todo

Havendo uma articulação desse tipo, posso

gasto que não era vindo de um subsídio ou

dizer que a Ancine coloca um dinheiro

fundo. E todos os projetos previstos nos

para isso acontecer. E lhes digo que com

12 meses seguintes morreram, inclusive

133


também incentivo do governo. Mas hoje,

nos primeiros dois anos prejudicou. Enfim,

no Brasil, eu não consigo convencer canal

a gente faz coprodução quando falta

nenhum a colocar dinheiro do lucro deles

dinheiro! Eu procuro parceria não porque

por causa das leis.

adoro a animação argentina, apesar de gostar muito. Eu sou muito a favor que se

Manoel Rangel

Posso fazer só um comentário? Eu acho

regulamente, sim, como cada setor deve

que você mistura duas coisas e precisa

se comportar, mas eu acho que o que traz

separá-las. Sua linha de raciocínio está

realmente a capacitação técnica não é

clara e há mais pontos de convergência

fazer curso de roteiro, mas é o mercado

entre o que a política de cinema e

regular qual a qualidade que o roteiro tem

audiovisual propõe e o seu pensamento

que alcançar. Porque, no final das contas,

do que você imagina. Nosso esforço tem

ou ele compra ou não. O que eu sinto hoje

sido o de introduzir risco nessa atividade.

é que tem uma grande possibilidade de

Eu concordo com você quando diz que o

dinheiro, ao mesmo tempo que tirou o

risco é qualificador e importante para que

apetite dos caras, eles não querem investir

o cara tenha compromisso, para que a

porque sabem que ali tem a segurança

qualidade se amplie e para que o resultado

de colocar um dinheiro que não é deles, e

de comunicação seja maior e melhor. Não é

eles não precisam se responsabilizar por

à toa que o Fundo Setorial exige devolução

essa quantia. Não sei qual é a solução.

de recursos. O FSA foi o primeiro

Certamente, mobilizar televisão que tem

mecanismo na política pública de cinema

poder de compra vai fazer muita diferença,

e audiovisual no país que introduziu

inclusive se a gente estiver falando de

a obrigação de devolver participação

produções internacionais. Acho que

dos recursos. Uma coisa é o fomento à

depender efetivamente de incentivos

produção de conteúdo, a outra coisa é a

públicos gera insegurança. Hoje, o que eu

obrigação de veicular conteúdo brasileiro.

sei é é que não consigo convencer canal

Não é verdade que os canais hoje

nenhum a colocar dinheiro do lucro dele.

estejam apenas investindo em obras com

E esse é o segredo da indústria norte-

recursos públicos. Não é. Peixonauta teve

americana, não há só incentivo privado, há

investimento de dinheiro privado dos

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana 134

o meu. Então, a lei que veio para ajudar,

135


Guille Hiertz

Eu estou falando da minha experiência, obviamente, mas não estou colocando somente ela. Para concluir, eu entendo que o Fundo Setorial envolve recurso, mas ele é hoje completamente preterido pelos canais de animação, todos eles falam ‘pensa muito bem se você quer entrar no FSA’, porque nós temos outros mecanismos

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana

para investir. Isso porque o fundo setorial é considerado um dinheiro caro para o próprio investidor.

Manoel Rangel

E sabe por quê? Porque obriga o canal a pagar 15% sobre o licenciamento da obra, enquanto se você fizer pelo art. 39 não vai receber nada de remuneração pela obra. Você está confundindo o mecanismo da obrigação de carregar conteúdo brasileiro,

canais, outras séries têm tido investimento

que é o que está gerando demanda para

privado dos canais. Tem várias produções

a sua produtora e para as produtoras em

que o canal tem bancado integralmente, o

geral. A política de financiamento público

que muda é a capacidade de negociar de

é outra coisa. Não foi a Lei da TV paga que

cada produtora, a disposição do executivo

fez as duas coisas, ela fixou a obrigação

de correr o risco dentro do projeto que foi

de carregar conteúdo brasileiro, que é o

posto na mesa dele. Então, não é fato que

que está gerando demanda real para sua

existe só investimento de dinheiro público.

empresa e para o mercado

Ao contrário, essa é a primeira vez que os canais estão pagando para comprar

136

Cesar Coelho

Voltando para a questão latino-americana,

conteúdo e não simplesmente dando

gostaria de ouvir os demais membros da

dinheiro para produzir uma obra.

mesa.

137


Miguel Del Moral

Independentemente de casos específicos,

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana

boas ou más histórias que cada estúdio tenha, é importante retomar o como vamos fazer. É importante usar os festivais para começar a trabalhar e gerar não apenas práticas, mas mesas completas para trabalho. Não só no Anima Mundi, mas em todos os outros. Há muito que fazer em cada país para trazer a indústria. Há muitíssimas linhas para trabalhar, e esses esforços locais podem ser reunidos nos próximos festivais. O mais importante é saber em quê nós nos comprometemos a trabalhar para que no próximo ano tenhamos resultados completos aqui no Anima Mundi. muitos países da América Latina, como

138

Maria Graciela Antes de procurar a Split, eu já conhecia

nós, não temos isso. Então, para nós,

a cultura brasileira, mas acho que muita

organização é fundamental para fazer

gente no Chile, e creio que posso falar da

pressão. Não é que os canais e os meios

América em geral, tem muita distância

tenham que mudar a política para que

do que acontece aqui. O Brasil tem outra

nós desenvolvamos nossos projetos,

língua, outra estrutura, outro jeito de

acho que a responsabilidade também é

fazer as coisas, e nós não conhecemos.

nossa de termos o poder necessário para

Em países como o Chile, se fizermos como

negociar. Nesse sentido, acho que temos

aqui, o que a gente vai conseguir é fazer as

que começar conhecendo as produtoras,

TVs irem embora. A diferença é que vocês

porque uma coprodução é um casamento.

têm um tamanho de mercado grande,

Nós e a Split levamos mais de um ano nos

capaz de fazer a pressão necessária

conhecendo. Nenhuma relação é fácil,

para garantir poder na negociação. E

você não vai atirar os projetos e ver quem

139


nenhum arcabouço regulatório, nenhuma

afinidade, saber os valores, visões das

estrutura legal, não tínhamos fonte de

empresas e isso é uma coisa que precisa

financiamento. Tínhamos um mercado

de tempo. Mas, paralelamente, as regiões

destroçado. Então, o PL 29, que virou a Lei

e as políticas públicas têm de ter uma

12.485, era um sonho demorado, distante,

direção única. Para mim, o planejamento

que em muitos momentos não acreditamos

estratégico é o primeiro passo. Se nós

que fosse acontecer. Enfim, acho que deu

pegamos o dinheiro, com um planejamento

um salto histórico. Dito isso, de volta ao

estratégico bom, coordenado, podemos ter

tema da integração latino-americana, eu

sucesso.

reforço que o Brasil é muito fechado, e

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana

pega. Não. Tem que conhecer, criar uma

nós não somos integrados com a América

Claudio Grandinetti

Eu creio que é nossa responsabilidade

Latina. Temos a Cordilheira do Andes e

gerar propostas que permitam alertar

a barreira da língua, que nos separam.

autoridades, canais e países latinos a

De alguma forma, o governo brasileiro

encontrar um ponto que nos permita

e o BNDES, na sua modesta atribuição,

entregar a mesma informação. Uma coisa

estão começando a trilhar esse caminho.

que está emergindo é a necessidade de falar

Sob esse ponto de vista, eu pergunto ao

com vários colegas, de vários países latino-

Manoel e aos demais, o que poderíamos

americanos. Hoje e nos próximos festivais

fazer no âmbito da questão dos canais. Ter

temos que ter um objetivo, ou não vamos

programadoras mais fortes, que pudessem

sair do lugar e não teremos nada para fazer.

carregar canais latino-americanos ou

Vamos criar propostas para apresentar em

brasileiros? O que vem sendo pensado no

cada país para que possam entender quais

sentido de fortalecer o comércio bilateral

as nossas necessidades. O mundo, me

de conteúdo pela via de programadoras

parece, está mirando na América Latina, se

e canais de conteúdo brasileiros e latino-

não trabalhamos em conjunto, perdemos

americanos?

uma grande oportunidade.

Luciane Gorgulho 140

Manoel Rangel

Eu vejo essa questão como desafio

A discussão pontual sobre a questão da

estratégico. A internacionalização da

lei parece até surreal. Nós não tínhamos

produção de conteúdo brasileiro só

141


pode atuar. Uma questão interessante

quando nós formos capazes de fazer com

é que a gente poderia criar uma escola de

que programadoras brasileiras programem

capacitação de nível internacional, que a

canais em outros territórios, em outros

gente conseguisse fazer em bloco; iniciativas

países. Quando uma programadora

pequenas, mas com repercussão a longo

brasileira for capaz de manter três, quatro,

prazo, como a iniciativa que reuniu Brasil,

cinco ou seis canais internacionais que

Dinamarca e Japão, na Animation Workshop.

possam ser veiculados nos países da

Em curto prazo, podemos pensar iniciativas

América Latina, da Ásia, Europa, África e na

modestas, mas concretas, em todas as

América do Norte. Com o mesmo conceito

áreas relacionadas ao audiovisual. Temos

pelo qual nós nos acostumamos a encarar

de pensar numa maneira de gerar recursos

as tais programadoras internacionais.

coletivamente.

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

A integração Latino-americana

será enfrentada de maneira profissional

Ou seja, se existem empresas que se estruturaram com multiplicidade de canais a partir da base do território dos Estados Unidos, não é uma condição natural que se faça isso, exclusivamente, a partir da base do território dos Estados Unidos. É possível você alavancar produtoras nacionais para ocuparem a cena internacional.

Claudio Grandinetti

Eu saio um tanto entusiasmado dessa conversa. Nós somos afiliados tanto da Ancine quanto da UIPAA, e vemos a possibilidade de fomento para fazer o que se gosta e quer.

Cesar Coelho A coprodução é muito importante, mas não é a única instância na qual a gente

142

143


30 de Julho

Rede de Festivais Latino-Americanos

Convidados: Margarita Cid – Chilemonos Rosanna Manfredi – Expotoons Miguel Del Moral – CutOut Fest Marcos Magalhães – Anima Mundi


Rede de Festivais Latino-Americanos

Quatro festivais de animação reunidos é razão para celebrar. O Anima Forum reuniu representantes de Chile, México, Brasil e Argentina para que cada contasse a sua experiência e como eles têm se entrelaçado. E a ideia de que outros venham se juntar ao grupo. Do lado brasileiro, Marcos Magalhães representava o Anima Mundi, que já tem 22 anos de história para contar. “No último ‘Chilemonos’, a Margarita (Cid) promoveu essa união formal, que não está fechada a esses quatro festivais que

estão presentes hoje. A gente espera que outros festivais, que estão acontecendo e se firmando na América Latina, venham participar dessa rede”, disse Magalhães, realçando que o objetivo é que os encontros frutifiquem. “Cada um dos quatro festivais tem feito isso, e a gente quer juntar esforços para que isso aconteça mais no âmbito da América Latina”, completou. Para realçar a importância da integração entre os países da América Latina, Marcos Magalhães citou o documentário Walt & El Grupo, sobre a viagem do lendário Walt Disney e sua trupe, na década de 1940, à América Latina:

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Rede de Festivais Latino-Americanos

“A gente vê, nesse filme, o Disney e a sua equipe discutindo, descobrindo e se deliciando com as riquezas do Brasil, da Argentina, do Chile. Vê o Disney dançando, um relaxamento que a gente nunca vê em outros materiais. Eles fizeram aqui uma festa, um carnaval. E se inspiraram muito, trouxeram cores e enriqueceram muito. Essa contribuição da América Latina, da nossa cultura, para a animação, para esse emblema da cultura hegemônica da animação, que foi o Disney, é evidente. Só que não teve brasileiro conversando com argentino, nem com chileno. Eles foram em cada país, o aviãozinho foi lá, pulando, pegou o que tinha de melhor de cada um, fez um longa e isso ficou uma coisa meio caricatural, o Zé Carioca e tal. E nós mesmos não fizemos o mesmo. Nós não tivemos troca aqui, como esses países que participaram dessa aventura. A gente está aqui, a gente gosta de tantos quadrinhos argentinos, do chileno Condorito, para ficar no mais conhecido, fora tudo o que a gente tem mostrado esses anos todos no Anima Mundi”, falou. A rede de Festivais serve exatamente ao propósito de formalizar a junção de mercados, culturas e gostos, segundo Magalhães.

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Miguel Del Moral CutOut Fest

Sim, a iniciativa é importantíssima, concordou Miguel Del Moral, representante do mexicano CutOut Fest, cuja sexta edição ocorrerá em novembro, na cidade de Querétaro, a 300 quilômetros da Cidade do México. “Graças à Margarita, conheci esses grandes festivais latino-americanos. E acredito que

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público. A cada ano, o festival reúne alguns

que se inicia, para que comecemos a ter

dos artistas mais influentes, que dão

mudanças e a fortalecer a indústria latino-

provas de criatividade e inovação. Além

americana da animação”, disse Miguel.

disso, trata-se de um espaço criado para a promoção de uma cultura de negócios

Para dar uma ideia do alcance do festival,

criativos, e de estímulo à indústria e novas

mesmo tão recente, Del Moral exibiu um

ideias.

Miguel Del Moral

Rede de Festivais Latino-Americanos

é algo muito, muito importante, esta união

vídeo de um minuto sobre a edição de 2013 do CutOut Fest. Uma referência visual que

Em 2013, o CutOut Fest contou com um 94

reunia nomes como Michael “Mikey” Please

artistas convidados, 84 atividades e mais de

e Johnny Goodman.

600 curtas-metragens inscritos em disputas. Houve inscritos de 54 países. Para a edição

O CutOut Fest, segundo Miguel, é o maior

de novembro, que já está com as inscrições

do país em torno da animação e da arte

encerradas, serão 800 curtas inscritos, de

digital, reconhecido por sua competição

64 países.

internacional de curtas. “Havia mais de 80 festivais de cinema no país, e nenhum

Ainda não há disputa para longa-metragem,

deles dedicado à animação. O impulso veio

e a explicação é uma só: a indústria de

em 2009, quando começávamos a ver o

animação mexicana ainda não apresenta

crescimento da indústria em todo país”,

uma produção consistente. “Lá se produzem

contou ele, otimista sobre o incremento do

poucos longas por ano. Então, nós focamos

setor em toda a América Latina, mas realista

no curta. Exibimos alguns longas, mas não

sobre o longo percurso que ainda deve ser

fazemos premiação.”

trilhado. Tanto no México como no restante da região.

Ao contrário do que vira no Anima Mundi e no Chilemonos, ambos com boa frequência

150

Em sua vasta programação, o CutOut Fest

do público infantil, Miguel ressaltou seu

oferece workshops, conferências, palestras,

festival é mais destinado ao público de

exibição de filmes e exposições de arte.

18 a 35 anos, que representam 85% dos

Todas as atividades são gratuitas para o

frequentadores:

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A oportunidade é para o público e também

As crianças adoram animação, mas estão

para animadores, produtores, e interessados

muito mais acostumados a ver o que lhes

no setor. Em formato similar ao do Anima

é oferecido comercialmente pelos grandes

Forum, o CutOut Fest inaugurou, em

canais de televisão, pelo cinema. Essa

2013, atentos à formação da indústria

animação, talvez mais de vanguarda, esses

de animação no México, o Living Market.

autores que propomos têm uma recepção

“O CutOut Fest começou simplesmente

muito melhor entre os jovens que entre os

como um encontro mais artístico-cultural.

adultos”, afirmou.

Ano passado, Living Marketing foi um

Miguel Del Moral

Rede de Festivais Latino-Americanos

“Talvez pelos conteúdos que escolhemos.

experimento que conseguimos também O começo, para o CutOut Fest, foi igual

graças a participação do Reino Unido como

ao de muitos festivais independentes:

país convidado, que chegou com muita força,

com muita vontade e poucos recursos.

com várias empresas de animação e de TI”,

Na medida em que se consolidou, ganhou

contou Miguel.

mídia e divulgação. “Começamos com um festival sem nenhum orçamento, depois

Foi um impulso, Miguel avalia. Se não existe

continuamos sem pagar nem uma nota

um mercado de animação, se a produção de

de publicidade. Não pagamos para que

longas-metragens é incipiente, também não

nos publiquem ou nos coloquem nos

existe um mercado consumidor.

meios, mas os próprios meios aceitaram um evento que gera conteúdo para eles. E

“É complexo gerar um espaço de mercado,

então eles vão lá cobrir o festival. Interessa

porque você não pode convidar as

a eles divulgar toda essa experiência que

produtoras ou distribuidoras que vendam

se vive no México”, avaliou Miguel. Outros

conteúdo. Realmente, não funcionava

grandes aliados na divulgação são as redes

assim e, então, começamos a experimentar

sociais. “O impacto que elas podem gerar

qual deveria ser o modelo de mercado”,

é impressionante. É o que temos utilizado,

ponderou.

todos esses anos, para fazer contato com

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as pessoas e manter a proximidade e o

O Living Market foi criado, inclusive, para

envolvimento com o público”, disse.

pensar modelos de coprodução. “Esse vai

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em no país. Em 2009, começamos com um

toda essa de rede de festivais e todas as

fórum de 3 mil pessoas, e não tivemos o

propostas que estão surgindo aqui, que

retorno dos investimentos. E, como vocês

surgiram primeiro no Chilemonos e que

podem ver, as cifras foram crescendo de

depois vai para o Expotoons e para o CutOut

forma exponencial até o ano passado.

em novembro, que se dê seguimento, como

Pulamos de 96 para 632 curtas em 2013.

falávamos na conversa passada, que sejam

Eram apenas quatro países na primeira

4, pelo menos, 4 momentos ao longo do

edição”, ele encerrou convidando o público

ano, latino-americanos, para o diálogo para

brasileiro a encarar a viagem.

Miguel Del Moral

Rede de Festivais Latino-Americanos

ser o espaço do Living Market, para que

as coproduções, para os intercâmbios, de questões de cinema, de televisão e

O endereço do site do festival: www.

tudo o que tenha a ver com os conteúdos

cutoutfest.com

animados. Acredito que o Living Market vai ser um espaço fundamental.” O CutOut Fest extrapola a animação. “Não só focamos na tela do cinema, na animação para cinema, mas também em conteúdos ou propostas, negociações de artistas que fazem espetáculos de multimídia, de animação em outros formatos que não só os de tela grande. A animação está em todos os lados e tem muitas outras indústrias relacionadas”, explicou. E, finalmente, para justificar a carência de festivais do porte do CutOut Fest no México, Miguel usou os números: “Crescemos de uma forma impressionante, como aconteceu com poucos festivais de cinema

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Rede de Festivais Latino-Americanos

objetivo de sermos um pouco os motores do crescimento e nessa linha, durante estes anos, fomos criando um pouco e nos apoiando em toda uma política de estado. Como no Brasil, também na Argentina nestes anos houve muito apoio. Ainda falta muito, mas não tínhamos nada. E estamos agora em uma posição bastante melhor. O Festival serviu para que hoje estivéssemos nesta mesa, já não mais lutando pela animação argentina, mas unidos nesta atitude latinoamericana, porque nos demos conta de que juntos vamos ser muito mais rápidos. E esse é o objetivo número um.” Rosanna prosseguiu com a exibição de slides sobre o Expotoons: ocorrerá de 18 a

Rosanna Manfredi Expotoons

Representante do lado argentino na mesa, Rosanna Manfredi iniciou sua participação com a exibição de um vídeo com uma amostra da animação feita pelos hermanos. O Festival Expotoons vai para a sua oitava edição em 2014. “Ou seja, já faz sete anos que estamos desenhando a animação argentina. Nós produzimos o festival com o

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21 de setembro, em Buenos Aires. “Nosso Festival não está somente na capital, mas também percorre outras cidades, buscando outros talentos, levando as conferências. São formas de nos aproximarmos e fazer crescer toda a região”, ressaltou. Com o objetivo de divulgar a animação como um motor de crescimento nas indústrias audiovisuais e culturais, o Expotoons firmou-se como espaço para a troca de tendências, tecnologias, conhecimentos, propostas artísticas e

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mostrar que projetos existem na região,

reúne animadores, produtores, estudos

na Argentina, na América Latina, para que

de comunicação, agências de publicidade,

possam conhecer os projetos e as pessoas

canais de televisão, empresas de tecnologia,

que fazem os serviços”, defendeu. Já que a

instituições de ensino, fornecedores e

grande maioria das empresas não possui

estudantes.

grandes estruturas de pessoal, como é

Rosanna Manfredi

Rede de Festivais Latino-Americanos

experiências entre os países. A cada edição,

muitas vezes necessário em um projeto, a O viés no mercado é forte. “Nós temos,

ideia da complementação é recorrente.

por um lado, o que chamamos ‘roda de negócios’, em que se apresentam projetos

Avançando com os slides, Rosanna exibiu

em uma roda, onde convocamos os

os mais diversos projetos que estão em

compradores das emissoras de televisão,

curso na Argentina, bem como alguns

de aquisição, produtoras importantes.

já realizados. Na medida em que os

Fazemos um convite e, nesses encontros,

projetos avançam, impulsionam o Festival

o que estamos procurando são projetos

Expotoons. Segundo ela, o Pakapaka,

que estejam maduros para o mercado, que

primeiro canal público voltado para o

tenham um piloto, que se possam tanto

público infantil, operado pelo Ministério da

apresentar quanto procurar coproduções,

Educação, foi um passo importante para

para ver de que forma se pode produzi-los”,

a animação do país, que ganhou uma tela

explicou.

para exibição.

Este ano, a convocação seguirá para

“Acredito que isto foi um apoio

produtoras de toda a América Latina, não

importantíssimo e que gerou a possibilidade

somente da Argentina. “O que fazemos

de que os projetos por aí, que não são tão

é mostrar o trabalho, ou seja, uma das

grandes, também tenham o seu canal de

chaves é nos conhecer, porque uma

exibição e possam ser vistos”.

coprodução, como bem já se disse, é quase

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um casamento. Então, como vamos fazer se

Desde que foi iniciado o Expotoons, vários

não nos conhecemos e não conhecemos os

acordos e contatos foram delineados para

projetos? Com isso, o Expotoons pretende

alavancar o mercado de animação na

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que não é menor, é um tema que estamos

uma das indústrias que tem mais potencial,

trabalhando em conjunto para que as

como bem já se disse por aí. Nós tivemos

produtoras possam manter seus direitos

um crescimento importante, mas esse

e dividi-los com as coproduções, como

crescimento foi exponencial em todo o

é lógico, segundo o capital e segundo o

mundo”, ponderou ela. Em 2012, o país

suporte que cada um recebe”, afirmou ela.

Rosanna Manfredi

Rede de Festivais Latino-Americanos

Argentina. “Evidentemente, a animação é

passou de uma média de dois filmes anuais para cinco produções. Parece pouco,

Na sequência, Manfredi exibiu um vídeo

mas, para a Argentina, não é o caso. “Nós

de Metegol, animação em 3D dirigida pelo

temos mais apoio no cinema que na área

argentino Juan Jose Campanella, diretor de

de séries, que ainda está começando a

filmes como O filho da noiva e O segredo dos

ter algum apoio. A área cinematográfica

seus olhos. “A Argentina também está em

sim, tem um trajeto mais importante e as

um momento complicado, mas se chega

coproduções têm uma porcentagem maior

a fazer um filme de $ 20 milhões, que foi

de suporte, porque é mais simples fazer

vendido para 70 países, que estreou nos

uma coprodução cinematográfica que fazer

EUA dublada por atores americanos e

uma série”.

com muito sucesso”, ressaltou. Na área de séries, ainda que com mais dificuldade para

O embate que as séries enfrentam para

produzir, também houve um crescimento

se firmar em telas argentinas, segundo

acentuado, em relação com anos anteriores.

Manfredi, se dá, principalmente, na

Outra frente em que os argentinos

área dos direitos. “A lei argentina não

estão ganhando espaço, inclusive com

deixa o direito das séries em poder das

coproduções, é a área de serviços.

produtoras. E isso é uma dificuldade

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quando alguém sai para o mercado de

Segundo Rosanna Manfredi, cresceu

trabalho e tenta vender um projeto.

não apenas o volume de animações

Estamos nessa discussão, vendo de que

argentinas, mas também a qualidade

maneira podemos contar com os fundos

das produções evoluiu. “O filme Metegol

públicos, mas que isto não signifique que

contribuiu para elevar o nível geral e

fiquemos sem os direitos. Esse é um tema

gerou uma quantidade de gente mais

161


Rosanna Manfredi encerrou sua

os grandes líderes da animação”, avaliou

participação no Anima Forum, mas não

ela, exibindo um exemplo de projeto

sem antes convidar a plateia a fazer uma

transmídia, outra tendência. “É pensar em

viagem rápida a Buenos Aires para conferir

projeto que não é para série, nem para

o Expotoons. “Estamos fazendo um convite

cinema, mas com várias telas convivendo

para que façamos os festivais seguirem

em todos os diversos meios”, afirmou.

trabalhando juntos. A ideia é seguir

“Trata-se de um projeto que começou

trabalhando de forma conjunta e que este

como uma série para tornar-se depois um

fórum se repita em setembro. Obrigada.”

Rosanna Manfredi

Rede de Festivais Latino-Americanos

capacitada para trocar experiência com

transmídia muito importante, no qual se mesclam o conhecimento com a diversão

O endereço do site do festival:

de uma maneira muito original, muito

http://www.expotoons.com

divertida, que tem várias temporadas de êxito e que está dando bem com esse mundo, em que a internet também tem um papel muito importante, que se atualiza permanentemente.” Transmídia pode ser o futuro, defendeu Rosanna. E as crianças são um público que requer particular atenção. “As crianças querem produzir conteúdo e são elas que impulsionam um pouco todo este desenvolvimento e que nos obrigam a repensar-nos em função de estar sintonizados com o que elas querem”, argumentou. Um bom exercício, portanto, para aprender a escutar as crianças, seria mudar de lugar com elas e deixar espaço para que elas possam participar.

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Rede de Festivais Latino-Americanos

Diretora executiva do Chilemonos, Margarita esclareceu o que é e quais os objetivos do Festival. A inspiração, ela fez questão de pontuar de onde veio: “Contamos com a generosidade e com a sintonia com Brasil. Nossa primeira edição foi realmente um tremendo impulso. Nosso festival de referência sempre foi o Anima Mundi. Não foi Annecy. Foi incrível, porque em nossa primeira edição, pudemos contar com a presença do César (Coelho, diretor do Anima Mundi), e contamos com a presença de mais, do Carlos Saldanha, que foi falar sobre o que é fazer animação nos grandes estúdios americanos. Sem dúvida, para nós, foi um impulso muito grande, porque partimos já grandes, ou seja, sendo capazes de congregar diversas instâncias, e podendo

Margarita Cid Chilemonos

Margarita Cid teve participação decisiva na formação da Rede de Festivais Latinoamericanos. Foi no Chilemonos, o mais jovem entre os participantes da mesa, com apenas três edições realizadas, que nasceu a ideia de reunir as iniciativas e promover trocas entre os países.

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mostrar o que era a animação no Cone Sul, na América Latina e no mundo.” Criado para promover a difusão e o intercâmbio da animação chilena tanto dentro do país como nos principais centros do mundo, o Festival Chilemonos tem três pilares fundamentais: - Exibição, através de mostras, competições e exposições;

165


do Chile, a organização do Festival partiu

laboratórios, encontros e workshops;

para arranjos que criassem oportunidades de difusão em todo o país. “Todos sabem o

- Mercado, através do MAI! (Mercado,

quão grande o Chile é. E o quão complexo

Animação e Indústria), plataforma de

é conseguir articular qualquer iniciativa

coprodução latino-americana, criada para

que tenha por missão unificar o país. Nós,

promover o encontro de produtores,

no ano passado e neste, implementamos

distribuidores e canais. O objetivo é servir

a competição nas áreas de séries, curtas

de estímulo ao crescimento da indústria de

e estudantil, muito importante a nível

animação no continente.

nacional e internacional. Implementamos

Margarita Cid

Rede de Festivais Latino-Americanos

- Formação, através de masterclasses,

as séries latino-americanas com votação Para que a plateia conhecesse, Margarita

nacional nas escolas do Chile”, explicou.

explicou exibiu um vídeo das versões anteriores.

O objetivo, ressaltou Margarita, era formar uma audiência que começasse a

Desde a primeira edição, os organizadores

se acostumar e a entender, desde cedo, a

entenderam que não basta querer

linguagem do audiovisual. Uma audiência

conquistar o mundo, é preciso unir forças,

preparada para valorizar o que é a

acentuou ela:

animação, e, por outro lado, entender os temas que traduzidos nas séries.

“Era nosso primeiro festival, e pensamos: ‘sozinhos não vamos conseguir’, temos de

“Além de sermos um festival, somos um

fazer em forma conjunta. A ideia era fazer

estúdio de animação e, quando tomamos a

crescer rapidamente, porque necessitamos

decisão, há três anos, de gerar um festival,

que isto seja real, necessitamos conseguir

tínhamos que encontrar uma janela que

que o mercado se mobilize, e necessitamos

permitisse difundir o que se fazia dentro do

que coisas concretas aconteçam”, disse.

nosso país, e permitir o crescimento do que poderia estar por vir.

Na tentativa de impor a animação como viés importante para a economia criativa

166

O Chile possui uma quantidade acentuada

167


ano, tanto para o festival quanto para o

a indústria é pequena, não absorve a mão

mercado, será o Brasil. Portanto, vamos

de obra. Margarita insistiu que os festivais

fazer uma convocatória, na qual a gente

têm também essa missão: “No caso do

possa contar com as melhores opções e

Chilemonos, nós temos a responsabilidade

os melhores esforços para trabalhar em

de gerar uma rede que permita a inserção

conjunto com as produtoras e festivais.

laboral, que permita a inserção de produtos

Nós sabemos que uma das necessidades

que estejam começando gerar um nível alto

mais evidentes, em todos os países, é o

de especialização.”

suporte oriundo do financiamento público

Margarita Cid

Rede de Festivais Latino-Americanos

de escolas de animação per capita. Mas, se

e uma política conjunta. E desejamos que O eixo fundamental do Festival, em 2014,

no próximo ano, assim como criamos uma

foi a criação de uma rede latino-americana

rede de festivais, possamos começar a criar

que permitisse difundir e a animação,

uma rede e um corredor também para essa

e potencializar a coprodução latino-

questão governamental. Esperamos contar

americana. E, a partir daí, exportar.

com o talento brasileiro, com a vontade de produzir e com a mentalidade generosa,

Margarita exibiu ainda um clip sobre a

que faz com que os projetos cresçam e

inserção da programação latino-americana

floresçam. Obrigada!”

no Festival. Além da exposição em todo o país, foram convidados conferencistas

O endereço do site do festival:

latino-americanos, com o objetivo de

festivalchilemonos.com

valorizar o produto e o realizador. “Nós pensamos que a curto prazo, não a médio, isso vai gerar um ponto de inflexão e de crescimento.” A vontade de estabelecer vínculos e parcerias é grande. “Sem dúvida, o Brasil é uma grande referência para nós. Tanto que já definimos que o país foco do próximo

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Chris Landreth

31 de Julho

Convidado: Chris Landreth

Masterclass 2

Fazendo rostos

Poucos animadores iniciam suas carreiras como engenheiros mecânicos, mas Chris Landreth não é um animador comum, e sua primeira profissão talvez o tenha ajudado a compreender melhor as engrenagens da animação, e da psicologia e anatomia humanas. Não demorou muito para ele engrenar na nova carreira, que descobriu ser muito mais divertida, e ele logo foi contratado pela produtora Alias Inc. (hoje conhecida como Autodesk), onde criou seus

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Chris Landreth

Masterclass 2

primeiros curtas em computação gráfica, The End (1995) e Bingo (1998). Com uma narrativa que explora a psicologia e um visual fotorrealista das personagens, os curtas marcam as primeiras experiências dentro do que o diretor chama de “psicorrealismo”, uma maneira de “expor o realismo da qualidade incrivelmente complexa, desarrumada, caótica, às vezes mundana, e sempre contraditória que chamamos de natureza humana”. metragem de Animação em 2004), os Explorando os meandros e limites da

paradoxos da codependência matrimonial,

natureza humana e da animação, Chris

no sombrio The Spine (2009), e as limitações

percorreu temas como a decadência do

da memória humana, no bem-humorado

artista, no documentário animado Ryan

Subconscious Password (2013). Seu próximo

(ganhador do Oscar de Melhor Curta-

projeto será um longa-metragem baseado na vida do escritor de terror H.P. Lovecraft. Além do seu trabalho como animador, Chris também ministra aulas de animação facial, em um curso chamado “Making Faces” (Fazendo Rostos), que apresentou este ano entre as Master Classes. Partindo da ideia de que somos naturalmente programados para reconhecer os mínimos detalhes do rosto humano, o curso teve o objetivo de demonstrar como expressões faciais são capazes de evidenciar sentimentos complexos.

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31 de Julho

Projeto SEA

Convidados: Eduardo Valente – ANCINE Morten Thorning – The Animation Workshop Hiromi Ito – Office H Marcos Magalhães – Anima Mundi Amir Admoni – Participante SEA 2014 Emerson Rodrigues – Participante SEA 2014 Paolo Conti – Participante SEA 2014 Pedro Eboli – Participante SEA 2014 Sérgio Glenes – Participante SEA 2014 Moderador: Reynaldo Marchesini – Moderador


Projeto SEA

Um projeto criado para integrar. A tarde de quinta-feira, penúltimo dia do Anima Forum, foi reservada a um tema caríssimo para o próprio Anima Mundi: o projeto SEA Concept Development Master Class (South America, Europe e Asia), um workshop intensivo de exatas duas semanas, que reuniu 15 animadores do Brasil, Dinamarca e Japão. Com o objetivo de fortalecer a conexão entre artistas dos três continentes, o projeto foi organizado e gerenciado pelo Anima Mundi, do lado latino-americano; pela The

animadores é de criadores de conteúdo. E

Animation Workshop, do lado europeu; e o

o programa SEA tem essa pegada de criar

Office H, representando os asiáticos.

conteúdos, mas criar em parceria com outros países. É um projeto que demonstra

Conhecedor do mercado de animação, o

a possibilidade de quebrar barreiras

produtor Reynaldo Marchesini, há 17 anos

culturais e comerciais, através da linguagem

na área infanto-juvenil, responsável pela

da animação”, realçou Marquesini, que

produção artística da série Sítio do Pica Pau

viajou como palestrante convidado.

Amarelo, e pela série Princesas do Mar (2004), fez uma breve introdução ao tema da mesa:

Em seguida, o moderador convidou Eduardo Valente, da Ancine, Morten Thorning, do The

176

“A gente falava muito, em 2004/2005, sobre

Animation Workshop, Hiromi Ito, do Office

qual seria o papel da animação brasileira no

H, e Marcos Magalhães, do Anima Mundi,

mercado de séries de animação, e sempre

para compor a mesa. Cada um falaria

tinha aquela discussão: O Brasil vai crescer

sobre a sua participação no SEA. No final,

a mão de obra em animação ou vai crescer

os participantes brasileiros apresentariam

um criador de conteúdo? A gente sempre

o que desenvolveram nos 15 dias de

defendeu que o Brasil, nosso DNA como

intercâmbio.

177


Projeto SEA

estão nesse oceano profundo que a gente começou a navegar”, disse o coordenador do Anima Forum. O entusiasmo com a proposta SEA, contou Magalhães, foi imediato. O contato com a comunidade internacional, para a turma do Anima Mundi, não é novidade, ele relembrou que o embrião do festival foi exatamente o acordo Brasil–Canadá, firmado nos anos 1980. “Os quatro diretores do festival se encontraram e começaram a pensar em conceitos de animação internacionais, trabalhando com o Canadá, que abriu essa porta. Já havia essa vocação universal de trazer russos, holandeses, japoneses, todo tipo de nacionalidade, para fazer filmes lá”, contou Magalhães.

Marcos Magalhães e a “Perspectiva Brasileira”

178

A parceria internacional, portanto, é um caminho bom, prático e real, acentuou. A relação com os dinamarqueses é recente, mas o entusiasmo é grande. “A Animation

Marcos Magalhães apresentou o SEA

Workshop nos encantou. Primeiro, com

Project com evidente orgulho: “South

a apresentação que o Morten fez aqui no

America, Europa e Ásia. Três países,

Anima Mundi. Depois, com a oportunidade

de três continentes, e a sigla acaba em

que a gente teve de ir até lá pessoalmente

‘mar’, porque, realmente, é um mar de

– eu e o César (Coelho) – e viver um pouco

possibilidades. A gente tem muito o que

da atmosfera que ele criou na escola.

nadar para pegar todos os peixes que

Realmente, é um ambiente muito inspirador,

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possíveis. Foi tudo pensado com a ideia de

pessoas criando em todos os cantos, muito

ser animação comercial, de serem universos

bem equipadas. É um lugar muito aberto a

de animação, não somente projetos

novas ideias”, contou.

específicos para série de TV, para longas ou para jogos. Mas tudo isso”, explicou. A

O Japão é um parceiro igualmente valioso.

ordem era criar personagens, universos que

Magalhães contou como se deu o processo

pudessem ser explorados em quaisquer

e os porquês da participação asiática: “O

desses ambientes.

Marcos Magalhães

Projeto SEA

onde você vê desenho por toda parte, vê

Japão é a segunda indústria de animação, não digo nem segundo lugar, é o número

A semente foi plantada. Cinco sementes,

um [risos], em quantidade e qualidade. É

Marcos Magalhães foi preciso, já começam

o único lugar onde a animação, o desenho

a desabrochar do lado brasileiro. “A gente

animado está lá, firme, no mercado”,

vai ver as notícias que eles vão dar aqui,

Magalhães prosseguiu, animado.

do que aconteceu nesse tempo, nesses seis meses. Mas acho que é um projeto de

Se vontade e entusiasmo geram ações, o

longo prazo. Lá pelo quinto SEA, a gente

SEA Project é uma prova real.

vai ter um acervo de sucessos que vai, incontestavelmente, deixar todo mundo

“Foi tudo meio de última hora. A gente

impressionado”, garantiu, empolgado. Isso

conseguiu, com a Ancine, um apoio que

significa que a sigla dos continentes pode

foi fundamental para que todo mundo

crescer, já que os planos são de expansão. E

pudesse ir mais descansado, sem precisar

a América Latina será o próximo alvo.

desembolsar uma grande quantia. Você

180

investir 800 euros para passar duas

“É possível a gente fazer isso também com

semanas tendo tanta informação e criando

países sul-americanos, assim como a Hiromi

network, para emplacar um projeto

está pensando na Coreia. A gente já teve

ou emplacar você mesmo no mercado

outras pessoas de países europeus, não

internacional, é super barato. É um projeto

apenas da Dinamarca. E o entusiasmo dos

muito viável”, disse ele, adiantando os

brasileiros impressionou a eles também.

resultados: “São ideias muito fortes,

Porque a gente teve 100 inscritos e um

181


Brinquei um pouco com eles. Por outro lado,

muita dificuldade de escolher esses cinco.

tem uma coisa interessante de coprodução

Por coincidência, são cinco rapazes. Para

internacional. O Brasil já fez algumas séries

contrapor as cinco meninas japonesas”,

em coprodução. Mas, normalmente, essa

ele brincou, garantindo que não foi uma

conversa é entre produtores executivos,

decisão intencional.

e, de certa forma, é interessante colocar

Marcos Magalhães

Projeto SEA

prazo muito pequeno de inscrição. Tivemos

os criadores brasileiros num espaço de O objetivo, agora, é expandir o conceito,

coprodução. Na verdade, eles passaram duas

fazer os animadores selecionados

semanas coproduzindo. A gente só vai se

circularem pelos países envolvidos. Ora

tornar também um criador de conteúdo com

na Dinamarca, ora no Brasil, ora no Japão.

produções internacionais se a gente também

“A indústria precisa desse ambiente de

desenvolver essa relação de coprodução,

cooperação. É mercado? É. A gente está

entender o olhar do outro, a sutileza dos

lidando com propriedades comerciais que

japoneses, o olhar europeu”, disse ele.

a gente tem de proteger. Eventualmente, fazer o jogo de sigilo ou de estratégia. Sim, tem de fazer isso. A gente tem que aprender a lidar com isso sem perder a criatividade, sem perder a colaboração e esse ambiente humano”, defendeu ele, avisando que a plateia faria seu próprio julgamento dos trabalhos que seriam apresentados mais adiante. Reynaldo Marchesini, na moderação, brincou: “Como produtor executivo, fiquei muito feliz em ver que em quinze dias na Dinamarca dá para fazer todo o trabalho de criação [risos].

182

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Projeto SEA

para apresentar essa ideia, que ainda estava em formação. Num primeiro momento, eu já adiantei que era um projeto que tinha tudo a ver com uma série de coisas que a gente estava tentando fazer. E que se ele de fato avançasse, que eles nos procurasse mais adiante. E, no final do ano, eles nos procuraram, e conseguimos enquadrar isso num programa que já temos na Ancine”, ele contou as primeiras conversas. O projeto, segundo Valente, é estratégico do ponto de vista da política pública, uma vez que reúne três frentes em que a Ancine está investindo: - Investimento na coprodução como

Eduardo Valente ANCINE

Como se deu a participação da Ancine no projeto e qual o futuro do SEA. Falar sobre esses temas foi tarefa de Eduardo Valente. “No ano passado, eu vim participar de um debate sobre colaboração Brasil-Alemanha, no Anima Forum. Na saída da conversa, o César (Coelho), um dos diretores do festival, me pegou para falar muito rapidamente

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caminho para a internacionalização do produto, do artista e do produtor audiovisual brasileiros, seja na animação, seja em outros setores. “A gente sabe que tentar inserir um produto como 100% brasileiro no mercado internacional é muito difícil. E a coprodução, pelo fato de a obra já nascer binacional, no mínimo, facilita a inserção e a circulação da obra nos mercados”; - Ampliação do Programa de Apoio à Participação de Filmes Brasileiros

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O SEA, para a Ancine, foi o projeto certo,

cerca de 80 eventos pelo mundo, e o

apresentado na hora exata.

realizador brasileiro, se tem uma obra selecionada, automaticamente a Ancine

“Foi a junção do programa com todas essas

dá um apoio. O que fizemos foi ampliar

linhas que a gente já via como estratégicas.

e, em vez de trabalhar apenas a obra

O resto, é apoiar, é vir aqui e ver o que sai

pronta, inclur também os workshops”,

disso por que é isso que interessa para a

disse ele sobre o programa que, em

Ancine: como política pública viabilizar que

2014, passou a Programa de Apoio à

coisas interessantes aconteçam. Nós vamos

Participação de Filmes Brasileiros em

continuar apoiando as próximas edições do

Festivais Internacionais e de Projetos de

SEA, não tenha a menor dúvida. Então, eu

Obras Audiovisuais em Laboratórios e

diria para as pessoas que é importante se

Workshops, que contempla os projetos

informar sobre os programas que a gente

audiovisuais convidados para um dos 27

têm. Todos têm regulamento, listagem de

laboratórios ou workshops internacionais

eventos que a gente apoia , públicos e etc

pré-listados pela Ancine;

no site da Ancine. Quem faz são vocês”,

Eduardo Valente

Projeto SEA

em Festivais Internacionais. “São

Valente deixou o recado. E o site da Ancine: - Criação do Programa de Apoio à

ancine.gov.br.

Participação de Produtores de Audiovisual em Eventos de Mercado e Rodadas de Negócios. “A gente percebeu também que para os projetos surgirem é importante que as produtoras circulem mais no universo do audiovisual, nas rodadas de negócios. São Pontos de encontro, são momentos em as pessoas todas estão juntas, como aqui no Anima Mundi. Então a gente começou, esse ano, um programa que apoia essa participação. São 22 eventos listados pela Ancine.

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Projeto SEA

Dividida em sete departamentos, a The Animation Workshop oferece graduação em Artes para Design de Personagens de Animação, Computação Gráfica ou Narrativa Gráfica; formação profissional, uma academia dedesenho, workshops abertos, um centro pedagógico de animação, além de desenvolvimento de negócios e uma rede de inovações. E foi exatamente lá que ocorreu o SEA Concept Development Master Class. “Temos dez mil metros quadrados dedicados apenas à animação”, disse Morten, que atua na instituição desde a fundação, em 1989, e dedica-se ao desenvolvimento da animação europeia e a sua inserção no mercado internacional, numa tentativa de competir igualmente com os mercados americano e asiático.

Morten Thorning The Animation Workshop

Já conhecido do público do Anima Forum, Morten Thorning é o diretor geral da The Animation Workshop, uma escola de cinema de animação e centro de residência para artistas que desejam se especializar em design de personagens, computação gráfica, desenvolvimento de conceitos e design.

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Depois de apresentar a escola, ele contou como se desenrolaram as conversas que resultaram no programa. “Eu já fui convidado pelo Marcos para participar do Anima Mundi, e foi uma experiência ótima. Lembro que, logo antes de voltar para casa, telefonei para ele e falei que precisávamos fazer o projeto juntos. O Anima Mundi é incrível. Então voltei e tentei imaginar como faríamos para financiar.”

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globais. “Quem trabalha com animação

projeto poderia ser desenvolvido em

sabe que é uma coisa muito territorial.

parceria:

Uma série de TV que funciona muito bem nos Estados Unidos pode não funcionar

“Decidimos então fazer um concept

na América do Sul, ou uma que é boa para

development laboratory (laboratório de

os japoneses pode não vender na Europa.

desenvolvimento conceitual) internacional.

É muito territorial, muito cultural. Nós

Envolveria cinco artistas brasileiros, cinco

queremos saber se conseguimos criar

europeus e cinco japoneses. Separaríamos

ideias globais”, disse Morten, que também é

em cinco grupos, com um brasileiro, um

roteirista, produtor, ator e diretor de vários

japonês e um europeu, e torceríamos para

programas de rádio; dirigiu animações e foi

que eles conseguissem fazer alguma coisa

diretor executivo de mais de 40 curtas de

juntos. Seria um experimento. É ótimo

animação.

Morten Thorning

Projeto SEA

As discussões seguiram sobre o tipo de

poder fazer experimentos assim, porque quando você faz um você pode dizer com

Morten Thorning exibiu um vídeo do projeto

alguma tranquilidade ‘ah, falhamos’. Mas

SEA. “Vendo isso, vocês devem imaginar que

vocês vão ver por si mesmos se falhamos ou

estávamos comendo o tempo inteiro. [risos]

não”, disse ele, em tom bem-humorado.

Nós queríamos oferecer a melhor situação possível para essas pessoas criarem. Então

O programa era intenso. “Eles só tiveram

colocamos todos em um prédio, fechamos

um dia para arrumar a agenda e já

as portas, enchemos de comida e dissemos

trabalhariam com um diretor de teatro.

‘vocês têm de criar algo que seja realmente

Fariam exercícios para se conhecer melhor,

fantástico’ [risos]. É isso, obrigado!”

tentar encontrar as diferenças criativas e descobrir quem gosta mais de quem,

Para conhecer na internet:

quem prefere trabalhar com quem”, Morten

http://www.animwork.dk

explicou a dinâmica dos grupos. O esforço era para que os participantes criassem conexões fortes, conexões

190

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Projeto SEA

O SEA (South America Europe and Asia) representou um grande desafio para a criação de algo novo, tendo em vista o aspecto multicultural do programa. As diferenças entre brasileiros, japoneses e dinamarqueses ficou evidente. Basta observar o comportamento de cada um em situações corriqueiras. Em um ponto de ônibus, por exemplo: “Eu diria que 99% dos brasileiros olham na direção que seu ônibus ou trem vem. Acredito que eles não confiam no horário. E eu me pergunto: ‘por que todos estão olhando para lá?’ Já 99% dos japoneses ficam em linha muito ordenadamente, olham estritamente para a frente (ou para seus smartphones) e entram no ônibus também em fila. Já os dinamarqueses nunca são

Hiromi Ito Office H

Hiromi Ito tem uma longa relação com a animação. Entre curtas, festivais e programas de formação de profissionais. Já o Office H é uma empresa que oferece serviços profissionais de planejamento estratégico, gerenciamento de marketing e novos negócios.

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vistos até cinco minutos antes do horário da partida. A 30 segundos do horário, eles se reúnem ‘do nada’. Onde estavam?”, Hiromi brincou sobre os costumes. Entre as características dos participantes japoneses, todas meninas, Hiiromi realçou que, tradicionalmente, elas aliam o tradicional e o moderno, são acolhedoras, e administram bem meninos. Com faixa etária de 20 a 40 anos, elas têm experiência

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de seleção para o programa. A troca de

já se conheciam, outros se viram pela

informação é importante tanto para o

primeira vez”, disse. No quesito fluência na

próprio programa como para alavancar

língua inglesa, duas dominam a língua, uma

uma coprodução. No entanto, Hiromi

fala com certa destreza, e duas são ainda

realçou que, especificamente no caso do

iniciantes na conversa de negócios.”

SEA, essa lacuna poderia ser preenchida

Hiromi Ito

Projeto SEA

de diretor júnior a produtor sênior. “Alguns

com informações disponíveis na internet, Não houve desistências, festejou Hiromi,

na jornais, revistas e nos sites e blogs dos

ao dar o feedback dos japoneses sobre

parceiros envolvidos. “Eu reconheço que

o programa: “Todas ficaram satisfeitas

foi um desafio, mas nós buscamos cumprir

em fazer parte do SEA. Foi maravilhoso

os objetivos fundamentais que eram lidar

para elas passarem duas semanas apenas

de modo produtivo com a diversidade de

estudando e criando. Elas se deram bem

culturas e participantes, e encontrar um

com seus companheiros, com exceção

novo estilo de coprodução multicultural.

de alguns. No entanto, fizeram menos

Assim, eu espero que elas desafiem e

networking do que suas expectativas.”

encarem o mercado global e não desistam de seus sonhos facilmente.”

Quem é o japonês, ou melhor, quem é o criador japonês? Segundo Hiromi, esse é um

Para conhecer na internet:

aspecto relevante para o programa. Em geral,

http://blogs.yahoo.co.jp/hiromi_ito2002jp

eles programam as ações, seguem o roteiro pré-estabelecido. Os princípios, portanto, devem estar claros desde o princípio para que o trabalho em equipe funcione. Profundamente detalhistas, têm uma capacidade ímpar de criar histórias novas. De acordo com o feedback que recebeu, as japonesas, por exemplo, reclamaram da pouca informação disponível no processo

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Projeto SEA

Uma equipe afiada, pronta para o desafio de criar uma série em duas semanas. Parece fácil. Para o produtor e diretor do longa-metragem Minhocas, sempre há mais para aprender. Havia três diretores no grupo de Paolo. “A primeira coisa que o time tinha de fazer era definir a tarefa de cada um. Ou a gente só iria brigar. Então decidimos dessa forma: o David vai dirigir, eu seria o produtor, a Agure faria o designer e o Niels faria o conceito. Isso parece uma bobagem, mas isso foi o que fez a gente não se matar duas semanas que teríamos de seguir”, ele contou, bem-humorado, como foi a

tes cipan Parti eiros l brasi

Paolo Conti

Participante SEA 2014 Projeto: Bubblebit & Miau série de TV / 52 episódios de 11 minutos. Público: crianças de 5 a 9 anos Gênero: Ação/comédia Animação CG Equipe: Aguri Agura (designer), Niels Dolmer (concept artist), David Tousec (diretor/produtor) e Paolo Conti (diretor/produtor)

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adaptação aos colegas. O projeto foi definido: “Nós decidimos que faríamos uma série de TV de ação e comédia, em computação gráfica, para o público de 5 a 9 anos. Nisso, a gente já estava visualizando o que a minha produtora poderia contribuir na produção se isso se viabilizasse, e o que a produtora do David também poderia fazer para a produção.” O produto foi desenhado, portanto, para ser uma coprodução entre as empresas.

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Paolo Conti

Projeto SEA Participantes brasileiros

“A série conta as aventuras de um pequeno alienígena chamado Bubblebit e a detetive mirim Miau. Ele vem de um pequeno planeta onde ajudar as pessoas é a única coisa que importa. Já na cidade onde ele vai parar, ninguém se importa com ninguém. A única pessoa que se importa é a detetive Miau. Juntos, os dois amigos, vão resolver os problemas da cidade. O confronto cultural entre os dois heróis e a cidade inteira é a base cômica e narrativa dos episódios da série”, explicou. No projeto de Paolo e seus colegas, Bubblebit

e sua amiga Miau irão entreter a criançada com histórias cheias de momentos meio desajeitados e tecnologias únicas, e amigos que cuidam uns dos outros sem esperar

pessoas que não merecem ser ajudadas,

recompensa. “A ideia era criar um conceito

e é daí que vem a comicidade da série”,

de comédia num universo onde dois

contou Paolo.

personagens querem ajudar, e o resto do mundo não se importa com nada.”

O super poder de Bubblebit é criar robozinhos, que também têm o propósito

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Paolo mostrou o Bubblebit , o alienígena

de ajudar o próximo. “O robozinho é

cujo único propósito é usar seus

criado única e exclusivamente para ajudar

superpoderes para ajudar aos outros.

aquele personagem que precisa de ajuda.”

Seja como for, mesmo que ele não tenha a

Bubblebit não fala. Quando quer se

menor ideia de como fazer isso. Bubblebit

comunicar, produz uma bolha que sai de

é a representação da inocência. “Ele quer

dentro da sua boca.” Mas não é uma bolha,

ajudar de qualquer forma, mesmo as

é como se fosse um ‘cuspe’. Nessa bolha

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única vontade de um personagem que está

ele tá pensando”. A ideia dos hologramas

na cidade. Os telefones não param de tocar,

estava alinhada aos treinamentos e

são milhares de ligações ao mesmo tempo ,

capacitação que o grupo teve no Workshop.

de todos os cantos da cidade”, ele exibiu as

Paolo Conti

Projeto SEA Participantes brasileiros

aparece um holograma, que mostra o que

imagens para apresentar os personagens “Essa ideia se apropria de ícones de celular.

para a plateia.

Então, a gente poderia desdobrar aplicativos de Bubblebit para comunicar entre telefones

Paolo também mostrou a arte conceitual

para as crianças. Isso é bem interessante,

do que é a casa da Miau. “Ela mora em um

por que hoje se usa muito símbolos para

lugar que é totalmente destruído, assim

expressar emoções ou ideias.”

como toda a cidade. Mas como agora ela se importa, ela tentou dar um jeito de

No universo criado pelo grupo, ainda não

deixar a vida dela mais alegre. Então ela

existe wireless, é tudo comunicação com

pintou as paredes, está tentando deixar

fios. “É como se fosse início dos anos 1980.

tudo mais bonito”, ele explicou também a

Muitos fios e a tecnologia mais avançada

estrutura: “Basicamente, Bubblebit e Miau

que tem é pager. A gente quer mostrar para

chegam sempre ao lugar de onde partiu

as crianças as coisas que ela não conhecem.

o telefonema, Bubblebit tenta resolver o

Máquina de escrever, aparelho de fax, etc.

problema sozinho, mas piora a situação,

Todas essas coisas foram recuperadas nesse

Miau entende o que está acontecendo e o

nosso conceito de série.”

ajuda a criar a solução. Ou seja, o robozinho certo. Aí é o gancho da próxima história.

A cidade que desafia Bubblebit é cheia de

Essa é a estrutura básica.”

problemas. E cada casa ou edifício tem uma linha telefônica direta com a única central de polícia que existe no lugar. “Nós representamos visualmente o egoísmo de cada um desses cidadãos. Cada telefone tem uma cor, uma forma diferente e representa um único pensamento ou uma

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Projeto SEA

Uma versão reduzida, mas que deu a exata ideia do que se tratata. No seleto grupo dos cinco, Emerson Rodrigues teceu loas ao programa e fez questão de citar os colegas

Participantes brasileiros

com os quais trabalhou: Maho Yosida, que é do Japão, Pernille Sihm, dinamarquesa, e Anne Louise, também dinamarquesa, que entrou para reforçar o grupo, o que aconteceu com todos os outros. “Pip & Mo, nome do nosso projeto, é também o nome do personagem principal. É uma série para TV. Todas as pessoas que vinham prestar consultoria para a gente tinham uma base muito forte em série, era em que tinham uma expertise maior. O nosso formato foi de 26 episódios de

tes cipan Parti eiros l brasi

Emerson Rodrigues Participante SEA 2014 Projeto: Pip & Mo série de TV / 26 episódios de 7 minutos. Público: crianças de 4 a 6 anos Gênero: Ação/comédia Animação 2D Equipe: Emerson Rodrigues, Maho Yosida, Anne Louise, Pernille Sihm

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sete minutos cada, em animação 2D, para crianças de 4 a 6 anos. Nosso público alvo eram criancinhas bem novinhas”, explicou. Os personagens criados pelo grupo de Emerson foram devidamente apresentados em imagens, enquanto ele explicava como se deu o processo de criação. “A gente estava caminhando para uma coisa bem diferente, com um outro conceito. Mas a gente estava caminhando e o que a gente tinha por certo era fazer uma coisa baseada na amizade entre dois personagens bem

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das montanhas –, as flores e as plantas

e lento, e o outro já é bem agitado. A base

acompanham o caminhar dele”, Emerson

da gente eram as explicações malucas que a

mostrou o desenho do movimento . O

criança inventa. Tipo: ‘de onde vem o vento?’

resultado final é de uma cena colorida.

Aí, inclusive, uma das participantes, a Anne

“Mo é o gordinho, uma pessoa bem lenta.

Louise dizia que quando ela era criança

Pip é apaixonado por objetos pequenos e

acreditava que o vento era produzido pelas

tem uma coleção de tudo que existe. Na

árvores quando balançam. Então, a gente

verdade, ele coleciona tudo o que encontra.

partiu desse conceito para criar o mundo”,

E o Mo, na velocidade dele, tenta ajudar no

ele contou.

que ele pode”, Emerson explicou e mostrou

Emerson Rodrigues

Projeto SEA Participantes brasileiros

diferentes. Um é bem gordinho, preguiçoso

os detalhes. No mundo habitado por Pip & Mo, todas as explicações, por mais malucas, são

Para encerrar, Emerson exibiu um clip curto

válidas e acontecem de verdade. “Os dois

da música original criada para a nossa

empacotam as informações desse mundo

série. “Era isso que eu tinha para mostrar.

e mandam para o nosso mundo em forma

Obrigado, gente.”

de sonho”, ele mostrou os desenhos de conceito, que acentuam as diferenças entre os protagonistas, e também de outros personagens. “São personagens que vivem nesse mesmo mundo da gente, como as flores e plantas, que são secretamente apaixonadas por um outro personagem igualmente real, o Sol. Emerson prosseguiu com uma sequência de desenhos em que ficam claras as relações entre as personagens. “Toda vez que o sol passa – e ele todo dia aparecia para comer um sanduíche e sentar em cima

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Projeto SEA

Sérgio Glenes é designer e ilustrador, com mais de dez anos de experiência. Ainda assim, o SEA foi um desafio:

Participantes brasileiros

“Além da questão da língua, da questão da cultura, é desafiador você criar uma coisa forte e que fale a muita gente. A nossa série é uma série sobre gatos, um convite à descoberta de um novo ponto de vista sobre as coisas.” O projeto do grupo de Glenes foi produzido em animação clássica 2D para TV. “Foi pensado para crianças em idade escolar. As crianças que estão indo para o mundo, se enchendo de informação, cheias de curiosidades e perguntas sobre como as

tes cipan Parti eiros l brasi

Sérgio Glenes

Participante SEA 2014 Projeto: Time Cat Forgotten Série de TV / 26 episódios de 7 minutos. Público: crianças de 6 a 9 anos Gênero: Ação/comédia Animação 2D

coisas funcionam”, a escolha do público influenciou diretamente o tipo de desenho: “São histórias leves, são como docinhos, balas de caramelo em 7 minutos e 26 episódios”, definiu. Time Cat Forgotten é sobre uma gata chamada Charlotte. “As pessoas têm imaginário

rico a respeito dos gatos. Que eles são misteriosos, que vêm de outra dimensão, que são inteligentes. Eles são hipnotizantes, são uma coisa interessante para crianças, jovens e adultos”, daí a escolha.

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Sérgio Glenes

Projeto SEA Participantes brasileiros

“Charlotte é uma gata especial, óbvio. Charlotte sabe das coisas. Charlote pensa, Charlotte não fala. Você nunca vai ouvir ela vai falar, vai ouvir o pensamento dela. Charlotte tem opinião, observa, questiona, imagine uma pessoa, é uma pessoa mesmo. Imagine uma pessoa dentro do corpo de um gato. Uma terapeuta, uma psicóloga, uma

as pessoas, conhece os lugares. Charlotte

filósofa, alguém que realmente sabe das

vai à vida”, contou o empolgado Glenes,

coisas e que é inteligente”, explicou ele.

enquanto mostrava alguns desenhos.

A esperteza de Charlotte, que mora em

Charlotte, claro, tem outros poderes. “Como

uma casa com seu dono, Peter, é evidente.

toda série, essa série tem um herói, uma

Peter é um cara mediano, bom cara, pacato,

pessoa que se modifica a cada episódio.

do tipo que sabe das coisas da vida pelo

Então, para cada um dos 26 episódios, por

Facebook e a Wikipedia. Apesar de trabalhar

exemplo, teremos uma situação diferente.

em uma empresa de tecnologia e ter acesso

Personagens dos mais diferentes e variados

a muita informação, as opiniões que ele

tipos, crianças, adultos, jovens, que estão

tem sobre as coisas são medianas, nada é

em seu momento de aflição e que estão

muito aprofundado. Charlotte, no entanto,

querendo mudar. E aí eles conhecem a gata

fica entediada e trata de dar voltas além dos

e conseguem resolver seus problemas.

domínios do condomínio onde vivem.

Toda vez que Charlotte volta para casa, ela traz uma coisinha. E Pedro, na sua santa

“Charlotte tem uma capacidade

ignorância, vai ficar nisso por um bom

interdimensional e ela consegue virar uma

tempo. Ele vai sempre dizer um jargão, algo

esquina, virar outra esquina, e aparecer

do tipo – Charlotte, você deu seu passeio

em Madri, em Londres. É capaz de andar à

hoje ou você ficou dormindo?”

vontade por aí. Então, o que acontece é que

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Charlotte conhece o mundo. Essa é a grande

Peter não tem a menor ideia do que

diferença entre ela e Peter. Charlotte conhece

acontece, finalizou Sérgio Glenes.

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Projeto SEA

Especial, fantástico, inesquecível. A lista de adjetivos de Amir para o SEA é longa. ““Foi uma experiência que mudou a gente, eu posso falar por mim. Como todos os

Participantes brasileiros

grupos, a gente precisava produzir muito. Ainda fico meio assombrado ao pensar no quanto a gente conseguiu produzir em duas semanas” ”, disse ele, antes de explicar o projeto desenvolvido pelo grupo do qual fez parte. Uma série de TV em animação 2D, para adolescentes acima de 12 anos, com temporadas de 26 episódios de 11 minutos. Eis o projeto. Mas, chegar até essa definição é que foi a parte boa:

tes cipan Parti eiros l brasi

Amir Admoni

Participante SEA 2014 Projeto: Ship n’ sea Série de TV / 26 episódios de 11 minutos. Público: crianças de mais de 12 anos Gênero: Ação/comédia Animação 2D

“Foi incrível quando juntou o grupo, porque não fomos nós que selecionamos quem estaria conosco. A seleção foi feita por eles, através de diretrizes que a gente dava no questionário. E foi incrível como, quando a gente se encontrou e começou a debater, a gente viu que a gente tinha muita afinidade. Todos nós tínhamos um humor sarcástico, a gente queria trabalhar com alguma cutucada, com alguma coisa que fosse divertida, mas que não fosse diversão pura”, contou ele, animado.

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Amir Admoni

Projeto SEA Participantes brasileiros

O motivo principal da série estava definido: “A gente ia evidenciar o comportamento humano nas coisas óbvias, aquelas que a gente sempre toma como garantidas, mas usando um elemento externo para criar um estranhamento, um desligamento”, disse. Ship n’ sea, portanto, mostraria um chimpanzé num escritório. Amir exibiu alguns vídeos para apresentar seus personagens. “Tem muito a ver

também com a relação que a gente estava tendo ali: três pessoas de lugares diferentes, o jeito que a gente se cumprimentava, o jeito que a gente expunha as idéias. E eu, que me achava uma pessoa super retraída, era o que falava demais. Então, eu vejo que essa série traz um grande reflexo desses pequenos atritos e diferenças que geram o

variedade de episódios”, defendeu. No

encontro de três culturas diferentes. Então

porto existe um escritório, onde as ações

pra isso, para materializar a série, a gente

também se desenrolam. O mais, ou melhor,

pegou um personagem muito parecido com

o que se desenrola na série, é esperar para

a gente: um macaco da América do Sul na

conferir.

Europa, sempre farejando alguma coisa estranha”, explicou.

Para finalizar, Amir contou que o grupo começou a desenvolver também uma série

212

O universo de Ship n’ sea é um porto. “É só

de produtos para merchandising. “Como a

um porto, mas ele tem uma ligação com um

história é voltada para o escritório, há uma

mundo exterior, sempre tem coisas vindo

série de produtos que a gente pode usar

e saindo do cais e a rede de ligação entre

com uma temática macaco num escritório. É

eles é muito ampla, o que fornece muita

basicamente isso. Obrigado!”

213


Projeto SEA

“A gente queria usar essa oportunidade para fazer uma coisa que juntasse várias culturas. E a gente começou a explorar a ideia de mitos e lendas de diferentes

Participantes brasileiros

países. A minha primeira reação foi: ‘que bosta, mitos e lendas é uma parada careta’. Só que, na verdade esse tema sempre foi tratado de uma forma muito careta. O nosso desafio foi tentar achar uma forma legal de tratar desse tema”, ele começou a explicar. A série logo virou um longa metragem. “Poko é o nosso personagem principal: é uma criaturinha pequena, indefesa e super ingênua, e ele é tão pequenininho que ele não conseguia sair do canyon onde ele nasceu. Então ele passou a vida inteira

tes cipan Parti eiros l brasi

Pedro Eboli

Participante SEA 2014 Projeto: Myth boy Longa-metragem Animação 2D

O Myth boy começou como um projeto de série. O grupo de Pedro Eboli queria fazer algo que fosse verdadeiramente multicultural:

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dentro desse buraco, e construiu uma casinha. Ali ele plantou a própria horta e, com folhas secas, fez um livro. E nesse livro ele começou a escrever as coisas que vinham à cabeça dele. Ele gostava muito de olhar para o céu e ver criaturas estranhas voando, nuvens de formatos esquisitos. E ele escrevia no caderninho tudo que via. Um dia, um passarinho tentou roubar o livro dele, ele jogou o livro no passarinho, o livro bateu na parede, a parede rachou e ele encontrou um túnel”, eis a história.

215


Projeto SEA Participantes brasileiros

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Mas, não, não acaba aí. Poko encontrou o túnel, por esse túnel foi parar numa caverna, na caverna havia uma árvore gigantesca. E embaixo dessa árvore, Poko viu um lobo gigante, preto, assustador e

Pergunta

Para o Morten, se você, pelo o que você viu

acorrentado, humilhado, sem forças para

dessa troca cultural, o que você imagina

levantar. Onde esses dois vivem? Em um

para as próximas edições do SEA? O que

mundo que se chama Lenda e é habitado

pode ser incorporado dessa experiência?

por lendas e mitos do mundo todo. Lá,

Quais são os aprendizados que a gente já

todo mundo já nasce sabendo o seu

pode imaginar para as futuras edições?

propósito. Menos o Poko, que não sabe, mas vai procurar saber. E está contada a

Morten Thorning

Se, e quando, nós vamos fazer a próxima

história. Ou melhor, o comecinho da história

edição. Especialmente, nós precisamos

criada pelo grupo de Pedro Eboli no SEA.

de um roteirista em cada equipe. Nós

Os aplausos ao fim da exibição detalhada

tivemos muitos produtores. A ideia é juntar

foram efusivos.

artistas – e artistas podem ser pessoas que imaginar mundos e conseguir colocar

“A gente apresentou o filme como se fosse

para fora e transformar numa história de

uma série, a gente não apresentou como

verdade. [para os participantes] Todos vocês

se fosse um filme. Seria uma série em que

conseguiram fazer, mas tiveram dificuldades

a cada episódio Poko conheceria um mito

com o roteiro. Então, um roteirista é muito

diferente. Só que a nossa série precisava

importante. E precisamos de mais gente que

desse final. Uma das coisas que as pessoas

realmente desenhe, para que possamos ver

mais gostavam era esse final. E esse arco

o que estão criando. Mas não estou dizendo

do Poko é tão forte que a gente resolveu

o contrário - vocês fizeram um trabalho

transformar num filme”, contou, agradecido

lindo, e muito obrigado por participarem

e orgulhoso.

desse experimento.

Pergunta

O Japão tem um jeito muito particular de fazer animação e o anime é muito

216

217


nós tínhamos disponível para trabalhar,

as animadoras japonesas? Não vi muitos

já que todos os dias nós tínhamos uma

elementos japoneses nas animações e

bateria intensa de aulas. Apesar de todos

imagino que elas tenham aprendido a fazer

nós irmos para lá com esse sonho de

tudo de uma forma bem restrita, então

criar um conceito com os japoneses e os

como foi essa troca?

europeus, a cada aula que nós fazíamos, os professores nos puxavam para o

Hiromi Ito

Obrigada pela pergunta. Falando

chão, dizendo: ‘vocês têm de criar para o

francamente, acredito que mesmo sem o

mercado, vocês tem de produzir uma coisa

SEA, é sempre bom misturar desenhistas.

que o mercado vá consumir, vocês têm de

Alguns conceitos vêm de histórias

pensar no licenciamento’. O programa, na

japonesas, mas todos os projetos são bem

minha percepção, é feito justamente para

misturados, culturalmente falando.

provocar esse misto que é como criar coisas

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Projeto SEA

forte. Como foi a transição cultural para

realmente novas, inovadoras, criativas, mas

Morten Thorning

É verdade que quando você olha para esses

saber de que forma colocá-las dentro de

projetos não vê um desenho muito japonês.

um pacote comercial. Não tem coisa mais

Não vê o anime. Mas acho que uma das

deliciosa do que você sentar com quatro

coisas bonitas, também, é que os elementos

artistas, todos hipertalentosos, e ficar

japoneses também estão no desenrolar

discutindo livremente por duas semanas

da história. Ao mesmo tempo, lembre-se

o que cada um defende. Todo mundo ali

que tudo o que você viu foi criado muito

desenhava muito bem e tinha grandes

rapidamente. É arte conceitual, não é o design

ideias, mas nós tínhamos que ser coerentes

final, ainda tem muito o que ser trabalhado.

com o objetivo do programa. O ideal, acho que todo mundo concorda, seria fazer, sei

Pedro Eboli

Eu queria fazer um depoimento. Nossas

lá, dez semanas. Aí, sim, nós teríamos uma

atividades iam de segunda a sábado.

integração incrível.

Nós tínhamos o domingo disponível, depois voltávamos. Mas, na verdade, aos

218

Pergunta

Os projetos continuaram, existe algum

domingos, nós trabalhávamos também.

plano de prosseguir com o que já foi

Porque era quase que o único tempo que

produzido?

219


Paolo Conti

Depois que o programa acabou, a gente

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Projeto SEA

andou muito com o projeto. Acho que porque a gente se organizou logo no começo. Ficou claro para todos os três e depois quatro, porque o Niels chegou por último, o que cada um deveria fazer. Então, aqui no Brasil, o projeto foi submetido a dois programas da Ancine. A gente já apresentou para algumas TVs, e já está começando a trabalhar com a possibilidade de financiamento pelo BNDES. Ou seja, o projeto está andando. Todos entendem que é um projeto com potencial para ser realizado. É mesmo o resultado de três culturas diferentes. Acho que a gente cumpriu bem o nosso papel. a gente teria de abrir mão da parte criativa

Emerson Rodrigues

A gente está tentando continuar. Falando

total do projeto. E agora a nossa participante

do meu grupo, andou bem menos do

japonesa está trabalhando duro lá no Japão

que a gente esperava. A gente teve algum

para tentar viabilizar a produção do filme.

progresso mas foi muito pequeno. Mas a gente está tentando levar o melhor que a gente pode.

Sérgio Glenes

Bom, essa é até uma coisa interessante de a gente falar. Quando a gente viu e soube do SEA, dos participantes e tudo mais, a gente

220

Pedro Eboli

(“Não sei se eu posso falar”) A gente teve

recebeu um documento acordando que a

uma oferta de um estúdio dinamarquês

propriedade intelectual que seria criada

interessado em comprar a propriedade

seria de bem comum. Então é um ponto

intelectual para fazer por eles mesmos. E a

que amarra muito as questões quando

gente, depois de debater muito, não aceitou a

você quer avançar com o projeto. No meu

proposta deles comprarem o projeto porque

caso, o projeto foi praticamente criado em

221


Pedro Eboli

Saca aula de teatro? Então, teve massagem

arrancando os cabelos, não tinha ideia, o

coletiva. (risos) Não, eu não estou

negócio não vinha. Enfim, é muito intenso.

brincando, estou falando sério. A gente fez

Depois que acabou o SEA dá aquele

vários exercícios de fechar o olho, e guiar

relaxamento. É claro que eu sonho. É claro

a pessoa, reconhecer uma pessoa só de

que eu quero continuar com o projeto. Há

sentir a mão. Rolou todo esse processo.

conversas esporádicas entre nós, mas é uma

A gente fez um exercício super legal que

coisa que leva tempo. Normalmente, uma

é uma pessoa descrevia um personagem

série, um produto para TV e para cinema

para outras duas pessoas e aquelas

demora anos para sair. Então, é pouco tempo

duas pessoas tinham que desenhar o

para dizer que não deu em nada ou que já

personagem que aquela primeira estava

deu em alguma coisa. Ainda é um processo.

descrevendo. E, no final, a gente recebeu

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Projeto SEA

quatro dias. A gente estava desesperado,

um formulário em que a gente tinha que

Amir Admoni

No nosso caso, um norueguês participante

dizer quais pessoas deixaram a gente

da banca ficou muito interessado. E como

curioso, com quais a gente sentiu uma

nós já tínhamos um norueguês no grupo,

afinidade maior, quais a gente não curtiu

eles já começaram a articular um possível

muito. A gente não escolheu os grupos.

piloto. Mas está ainda sendo articulada

Mas deu muito certo, foi muito legal,

uma ajuda com o governo da Noruega. Mas

no final das contas acho que os grupos

eu acho importante falar que mesmo que

casaram demais. Eles fizeram alguma

o projeto não tenha dado o espaço que a

mágica lá, com essa dinâmica de grupo que

gente esperava, criou-se uma rede, que foi

foi sensacional.

semada ali.

Pergunta

Pergunta

Como se dá esse primeiro encontro

Como a organização vê a possibilidade de sediar o SEA no Brasil ou no Japão?

entre os participantes lá, como que vocês identificam e como vocês conversam para

222

Marcos Magalhães

A intenção é fazer um rodízio. Não sei se

decidir qual que vai ser o grupo? Tem

já no segundo, porque vai depender dos

alguma dinâmica específica inventada pelo

financiamentos. A gente está procurando

SEA ou é só bate-papo?

os apoios, para ver os orçamentos, mas

223


Paolo Conti

Eu acho que cada grupo teve sua forma de equacionar a cultura. Mas a percepção que eu tenho, e o que aconteceu no meu grupo, é que por algum motivo os brasileiros mediavam o processo de integração entre os europeus e os japoneses. Porque as

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Projeto SEA

chegavam nesse equilíbrio, basicamente?

japonesas, por mais que elas fossem abertas pra uma cultura mais universal, elas eram mesmo japonesas. Absolutamente tímidas, perto dos brasileiros. Para você conseguir extrair uma informação era bastante difícil. Mas eu acho que passados alguns dias, todo mundo percebeu que as ideias eram de fato aceitas e que todos existe essa intenção, porque é interessante

tinham suas opiniões respeitadas. Foi um

o território onde as pessoas se encontram,

processo de criação de amigos. E na hora

acho que faz uma diferença grande. Então

que você fica amigo da pessoa, você confia

a gente vai ter coloridos diferentes em cada

e fica mais seguro em falar as suas ideias,

edição desse projeto, se a gente conseguir

você começa a se abrir.

fazer esse rodízio.

224

Pergunta

Pedro Eboli

Eu achei que os dinamarqueses são

Como que foi essa dinâmica, esse conflito,

grandes mediadores, estão de parabéns

de vocês terem culturas tão diferentes e

[risos]. Não sei o que vocês ensinam no

como é que vocês decidiam, o que que

colégio lá, mas se a Dinamarca tomasse

poderia ser considerado uma coisa mais

conta do mundo, não teria guerra.

universal, e o que que vocês podiam

Impressionante, eles são muito pacientes,

colocar da própria cultura que não ficaria

educados. A gente que é brasileiro não

muito estranho ou que... como é que vocês

liga para um pouco de barraco, um pouco

225


pouco. Inclusive para lidar com as questões

abraço e tudo mais. E as japonesas, além

culturais, para as pessoas se abrirem umas

do problema da língua, elas são mais

com as outras. Acho que tempo poderia ser

tímidas e introvertidas mesmo. Eu falo

um pouco maior.

pelos cotovelos e tal, e acho que uma hora ela tinha que sair da sala até e dar um

Reynaldo Marquesini

De acordo com a percepção que eu tive,

break de mim. [risos] Mas o bom de ter

quando estive lá, os meus questionamentos

os dinamarqueses é que a toda hora eles

também eram dessa natureza: de estrutura,

perguntam are you happy? Are you okay?

de composição de personagem. E uma das

What do you think? Excelente! Então estão

sugestões que eu fiz foi que tivesse um

de parabéns, acho que a ONU devia ser

roteirista na equipe.

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Projeto SEA

de gritaria e tal, depois é brother, dá um

composta só de dinarmaqueses. A gente precisa da Dinamarca no Conselho de

Morten

Segurança da ONU urgentemente. [risos

Claro, nós pretendemos ser muito melhores da próxima vez.

da plateia]

Reynaldo Marchesini

Hiromi Ito

Concordo plenamente com você. [risos]

Eu gostaria de fazer um último comentário. Em 2007, quando participei também pela primeira vez do Anima Forum, as

Morten Thorning Obrigado por essas palavras tão gentis.

discussão nas salas eram muito em

As pessoas estão brigando por ideias, por

torno de ‘como vamos fazer a indústria

histórias. É importante estarmos juntos

brasileira de animação acontecer?’

para fazermos histórias universais. [muitos

Obviamente, essa pergunta ainda não

aplausos da plateia]

está totalmente respondida, mas é inquestionável que a gente está fazendo

226

Pergunta

Senti que todos os artistas envolvidos têm

perguntas mais sofisticadas. Já há questões

um grande potencial, mas senti falta de uma

se desdobrando. A animação brasileira

estrutura nos projetos. Senti falta de mais

está discutindo capacitação, coprodução

gente na equipe. Roteirista, por exemplo,

internacional, troca com outros países,

alguém para lidar com a produção. Acho

como reforçar o curta-metragem, o que é

que duas semanas são realmente muito

um excelente sinal.

227


1 de Agosto

Masterclass 3

Criando Personagens Memoráveis

Convidado: Eric Goldberg Eric Goldberg joga nas onze. Nos longasmetragens, curtas-metragens, comerciais e especiais de TV nos quais trabalhou, seja como diretor, designer, animador ou até dublador, este versátil artista se sente tão confortável animando à mão quanto em um computador de última geração. Em todos estes campos, desenvolveu técnicas pioneiras, com a ajuda da sua mulher,


Eric Goldberg

Masterclass 3

parceira de trabalho e diretora de arte, Susan. Afinal, para Goldberg, na animação, “uma boa ideia pode vir de qualquer lugar, não importa se você é diretor, finalizador, ou serve o café”. Seu talento e versatilidade o levaram a grandes estúdios, como a Warner Bros. e a Disney, onde dirigiu a animação de personagens memoráveis e adorados, como o amorfo Gênio, de Aladdin,e o sátiro Phil, de Hércules. Dirigiu ainda o primeiro longa-metragem da Disney baseado em fatos históricos, Pocahontas, e dois belos episódios para o poético Fantasia/2000.

Este ano, Eric apresentou sua Masterclass Criando Personagens Memoráveis, que demonstrou processos criativos capazes de desenvolver personalidades únicas, com as quais o público se identifique e se divirta, e como criar, nas telas, as relações entre essas personagens. O diretor ilustrou seus exemplos com desenhos feitos na hora, assim como trechos de filmes.

230

231


1 de Agosto

Animação & Games – e Vice-Versa

Convidados: Alê McHaddo – ABRAGAMES Conrado Testa – Sword Tales Sebastian Gonzalez – ACE TEAM Rafael Rodrigues – Aquiris Moderador: Arthur Protásio


Animação & Games – e Vice-Versa

A última mesa, um grande fechamento

Esse foi o objetivo:

para o Anima Forum de 2014, anunciou Marcos Magalhães. Na indústria, há pouca

“A gente vai encerrar com chave de ouro

conversa entre quem faz animação e

um ciclo bem legal, que é pensar sobre os

quem faz game. Foi a hora de reunir as

vários universos criados pela animação.

turmas dos dois lados e provocar o diálogo.

E hoje a gente vai falar de dois universos

Afinal, se personagem de animação pode

que também correm em paralelo, um mais

virar game, e personagens que nasceram

popular que o outro. Acho que o de game

no game podem ser transformados em

superou o de animação, a movimentação

animação, é bom que essa galera converse.

do produto game é maior. Mas tudo vem da mesma fonte, da vontade da gente de criar e construir e ver histórias narrativas, experiências que a gente tenta enriquecer. O objetivo de tudo é sempre criar a nossa experiência de vida mais rica, mas treinar bastante jogando jogos e, no caso do animador, cristalizar para o público a experiência que ele tem intensa na mente dele, na vida dele. É a primeira vez que a gente faz formalmente uma discussão sobre esse processo. Vamos juntar essas duas galeras tão legais e ver o que têm em comum”, disse o coordenador do evento, anunciando o mediador da vez.

234

235


Animação & Games – e Vice-Versa

incrível ver esses mundos se conectando”, afirmou Arthur, esclarecendo que não é animador, seu trabalho é atuar como roteirista e designer de narrativa em diversas mídias, incluindo jogos e animações. A conversa seria sobre personagens, narrativas, histórias que são criadas e como essas histórias devem ser engajantes independentemente da mídia em que é criada. A animação como metalinguagem “Na prática, a animação é a ferramenta de viabilização do jogo. A representação visual

Arthur Protasio

do jogo é absolutamente crucial e não seria possível se a gente não tivesse tanto esmero e tanto cuidado na hora de criar;

Discutir jogos é uma grande oportunidade,

se não pensasse na abordagem artística,

realçou Arthur Protasio, já no papel de

na abordagem estética, como que é que

moderador da mesa. “O videogame é uma

a gente vai usar todos esses elementos

mídia que está crescendo muito como

para comunicar nossa mensagem”,

produção criativa e como mercado. Eu

disse ele, logo antes de exibir um curta

acho que conforme a mídia dos jogos

inspirado no jogo Monkey Island, produzido

foi crescendo e se tornando cada vez

exclusivamente para introduzir à mesa.

mais relevante, a gente começou a ver

236

vários pontos em que a animação e jogos

Ao longo do curta, foram exibidas micro

passaram a se encontrar. E não só se

animações de jogos como Pong!, Dragon’s

encontrar, mas também colaborar. E é

Lair, The Legend of Zelda, Megaman, Super

237


Animação & Games – e Vice-Versa

Mario, Street Fighter II, Pokemon Red/Blue, Metal Gear Solid, The Sims 3, Shadow of the Colossus, Andry Birds, Journey e GTA V com o Ludobardo, personagem criado por Arthur, interagindo com os cenários e heróis. O objetivo do vídeo é mostrar que a animação é uma grande ferramenta de comunicação visual. “Esse vídeo, inclusive, foi coproduzido pela minha produtora Fableware e uma desenvolvedora de jogos, a Doubledash. Ou seja, é prova de que pessoas que trabalham com jogos têm de ter esse contato com a animação para poder criar essas experiências”, afirmou ele. Para começar de fato a conversa, Arthur anunciou os componentes da mesa: “Primeiro, a gente vai ter aqui o Rafael Rodrigues, que é produtor executivo da Aquiris Game Studio. Em seguida, a gente o Alê McHaddo, que é CEO da 44 Toons e presidente da Abragames. Depois, Conrado Testa, que é diretor de animação da Swordtales. E, por fim, Sebastian Gonzalez, que é produtor da ACE Team, do Chile. A intenção aqui é que basicamente cada um possa falar um pouco do seu trabalho, a comunicação entre o que eles produzem, e qual a conexão direta com o mundo dos jogos”, explicou.

238

Rafael Rodrigues Aquiris

A animação e os jogos têm muito em comum, iniciou Rafael Rodrigues. “São universos em que as linguagens se encontram, um pode abastecer o outro com conteúdos para produzir histórias que realmente possam entreter a audiência”, disse ele, antes de explicar como funciona o Aquiris Game Studio. Munido de vídeos, ele explicaria como funciona e como é a empresa, e como animação tem sido importante para o desenvolvimento de vários produtos.

239


entrando no mundo dos jogos. Hoje, o estúdio, em Porto Alegre, está chegando a um pouco mais de 50 pessoas. No início, a gente trabalhou basicamente atendendo

Rafael Rodrigues

Animação & Games – e Vice-Versa

material gráfico interativo, e acabaram

a agências de propaganda e fazendo jogos para marcas – os famosos advergames – e, eventualmente, a qualidade dos jogos chamou atenção de algumas empresas de entretenimento, entre elas a Cartoon Network. Nos últimos dois anos e meio, produzimos com eles quatro jogos, digamos assim, top de linha, e boa parte do portfólio que vocês viram nesse vídeo tem a ver com a Cartoon Network”, contou. O namoro entre entretenimento digital e Para começar, ele mostrou um reel com a

animação, continuou Rafael, começou com o

apresentação da história da Aquiris, uma

projeto de divulgação de uma série baseada

sequência de cases e alguns dos trabalhos

na franquia Como treinar o seu dragão.

realizados nos últimos sete anos. Entre os jogos exibidos no telão, estavam Ballistic,

“A Cartoon, junto com a Dreamworks,

Wrath of Psychobos, Super Vôlei Brasil, The

transmitia uma série chamada Riders of Berk,

Great Prank War, Game NBB, Unity Bootcamp,

que conta um pouco a história da relação

Copa Toon, Dragons: Wild Skies, Talk or Fight e

entre os dragões e os moradores da vila de

Eagle GT Challenge.

Berk. O briefing que a gente recebe para produzir esse jogo é ‘como é que a gente

240

“O estúdio começou muito pequeno.

conta essa história, essa mesma história,

É aquela velha história de dois amigos

para os jogadores’. O bacana desse briefing,

que trabalhavam no quarto, produzindo

que vem relativamente aberto, é que a

241


lugares se existia uma definição geográfica

história completamente nova. Tem algumas

de como ela era, não encontramos, então a

algumas limitações, como, por exemplo, não

gente acabou criando do jeito que a gente

pode utilizar os personagens do desenho

imaginava que faria sentido”, contou. “O

animado, então, o primeiro passo é a

jogo tem de contar um pouco da história do

criação dos personagens.”

personagem e como que ele se relaciona

Rafael Rodrigues

Animação & Games – e Vice-Versa

gente tem a oportunidade de contar uma

com o dragão. O que ele tem de fazer para O desafio, Rafael pontuou, é manter a

que um dragão ganhe a confiança dele?

mesma unidade. “A gente teve de criar

O dragão não é um cachorrinho, não é

personagens completamente novos. Então

um gatinho, é um animal selvagem. Você

a gente chegou, depois de muitas idas e

precisa ganhar a confiança para, então,

vindas, a esses dois personagens que não

passar pela etapa de poder voar com ele”,

têm nome – essa é uma das bacanices de

esmiuçou.

fazer um jogo: quando o jogador começa, a primeira coisa que ele faz é definir o nome

Para ilustrar o trabalho, Rafael mostrou

do personagem que ele vai conduzir. Isso é

uma imagem inicial do protótipo. O

o tipo de interação que jogos, apenas jogos,

modelo do dragão, Banguela, que que

conseguem entregar para os jogadores.”

foi adaptado para o jogo. “O jogo tem também muitas cinemáticas. Cinemáticas

242

Nesses casos, é preciso ter muito

são, essencialmente, entender como é

conhecimento de causa. “A gente tem

que funciona uma animação e reproduzir

de criar um jogo que faça sentido e que

isso dentro de um jogo, mas com toda

converse, mesmo que surja como um spin-

a limitação técnica que a gente possui.

off, com aquela narrativa que a gente viu

Diferente de um filme, ou de uma animação

nas telas. A gente tem que, por exemplo,

digital, uma animação de jogo acontece

pegar todo o material que a Dreamworks

em tempo real, na placa de vídeo do

produziu para o filme, e investigar. Em

usuário. Então, a gente não pode abusar na

cima do concept art deles, a gente tem que

quantidade de polígonos – pro pessoal que

criar uma ilha que é possivelmente a ilha

é mais entendido –, as texturas tem de ser

de Berk. A gente procurou em todos os

bem medidas”, ele explicou.

243


antes de um mês do lançamento da Copa. E

conceituais, o produtor executivo da

foi o aplicativo mais vendido no Brasil para

Aquiris exibiu a animação impecável do

iPad por mais de um mês. E também ficou

jogo. Tudo muito bem explicado: “Nessa

entre os Top 10 mais vendidos nos Estados

parte você já ficou amigo do Banguela.

Unidos e é possivelmente o jogo que mais

São treze dragões que você tem que

vendeu para iPad em toda a América Latina

desbloquear para voar com todos eles e

durante o mês da Copa”, contou.

Rafael Rodrigues

Animação & Games – e Vice-Versa

Entre imagens de protótipos e artes

fazer desafios aéreos. O jogo, pra quem conhece, parece um pouco com o Sandbox

Outro motivo de orgulho que Rafael fez

– ele tem uma ilha gigante para explorar e

questão de mostrar no Anima Forum foi The

eventualmente você encontra os dragões

Great Prank War. Jogo feito para uma série,

pelo caminho.”

foi traduzido para 15 línguas. No Brasil, é o Grande Guerra das Pegadinhas. “O bacana

Seguindo adiante, Rafael exibiu Dragons:

desse jogo é que ele foi baseado numa

Wild Skies (Corcel Indomável, no Brasil), um

propriedade intelectual da qual eu já era

dos principais produtos desenvolvidos

fã, a Regular Show, que de regular e comum

em parceria com a Cartoon Network. Na

não tem nada”, ele disse, mostrando os

sequência, ele exibiu os vídeos promo

dois personagens principais e contando um

de dois novos jogos, jogos que rodam no

pouco dos episódios:

browser e também em iPad, e jogos para franquias famosas, como Ben 10, da nova

“São dois personagens malucos, que vivem

temporada. E ainda, na mesma sequência,

em um parque. Eles são os zeladores do

um jogo criado para a Copa do Mundo:

parque, tem o chefe maluco que é uma daquelas máquinas de chiclete. Tem um

244

“A Cartoon Network aqui da América

episódio da terceira temporada, se não me

Latina tem uma propriedade intelectual

engano, que se chama Prankless, ou Sem

chamada Copa Toon, que é uma mistura de

Pegadinhas, em que o Jimmy – a máquina

várias franquias da Cartoon Network com

de doces – está obcecado com a guerra

personagens jogando futebol. Esse jogo foi

das pegadinhas e tá tentando dominar o

lançado para dispositivos móveis, um pouco

parque para ele. Na história do episódio, o

245


Animação & Games – e Vice-Versa

Musculoso, um dos personagens, não quer mais fazer pegadinha e, por causa disso, esse cara consegue dominar o parque. Até que o Musculoso, por motivos pessoais, resolve voltar à guerra das pegadinhas e põe ele pra correr. E a gente tem um desafio muito grande quando a Cartoon vira pra gente e diz: ‘a gente quer fazer um jogo baseado nesse episódio, e o resto é com vocês’. A gente decidiu que a gente queria fazer algo com impacto visual realmente único.” A Aquiris é um estúdio que faz essencialmente jogos em 3D. Mas, para esse jogo, especificamente, eles decidiram animar os personagens em 2D. Rafael exibiu ilustrações do processo de estudo e o resultado final utilizado dentro do jogo. “Quando a gente fala de jogo, a gente de otimizar muito porque, tecnicamente, tudo isso aqui tem que ir para dentro da memória do teu iPad, do teu iPhone, e, ainda assim, o jogo tem que rodar. Tem de ter uma otimização muito grande”, afirmou. Para encerrar, ele mostrou o vídeo promocional do jogo The Great Prank War que, para alegria do estúdio, foi parar entre os Top 5 mais baixados para iPad nos EUA.

246

Alê McHaddo Abragames

Diretor de animação e game designer, Alê McHaddo é hoje presidente da Abragames, Associação Brasileira de Jogos Eletrônicos, e CEO da 44 Toons e da 44 Toons Interativa, além de diretor executivo do BIG (Brazilian Independent Game Festival), um festival de games que acontece em São Paulo. “É sobre a minha experiência nesses três chapéus que eu vou falar aqui. Eu comecei a

247


mesa de bilhar, onde se amontoavam

e não tinha como. Eu trabalhava em um

os computadores. “Sempre que a gente

estúdio que fazia multimídia, em 1994, e

fazia uma venda, a gente que dobrava as

eu convenci o pessoal que poderia usar

embalagens e ia mandando. Infelizmente,

um software bem antigo, que morreu, para

esse mercado foi para o saco logo. Os

fazer um adventure game, que é um jogo

consoles ficaram mais evoluídos, o PC

parecido com Monkey Island. Basicamente,

passou a não ser mais o principal lugar onde

o adventure game é uma história e o

as pessoas jogavam videogame”, contou ele.

Alê McHaddo

Animação & Games – e Vice-Versa

fazer jogos porque eu queria fazer animação

personagem vai andando conforme você vai dando os comandos, e a história vai se

A época rendeu histórias engraçadas. Uma,

desenrolando”, contou.

em especial, ele fez questão de dividir com o público: “Ontem, eu estava tentando

Em 1996, a turma lançou um jogo chamado

pegar um vídeo do Enigma da Esfinge– que

Enigma da Esfinge, que foi muito bem. “O

não roda mais em lugar nenhum – com a

mercado naquela época era maravilhoso;

minha ex-sócia, que a era programadora do

você colocava um jogo na prateleira e

jogo. Ela me falou: ‘você lembra que a gente

vendia, você concorria até com Disney.

ligou para o Anima Mundi perguntando se

Não existia console – o melhor console que

eles aceitavam jogos?’ Na época, a gente

tinha era o Nintendo, acho que ainda o de

falou ‘mas é animação! só que é interativa,

32 (bits). Você tinha kit multimídia, todo

mas é animação’. E alguém falou que não

mundo queria colecionar CD-Rom, era uma

pode, e não sei o quê. É engraçado lembrar

maravilha. Esse foi meu primeiro título e

essa história porque é exatamente isso que

vendeu super bem, o Natal daquele ano foi

o Arthur estava falando. Na Abragames, eu

impressionante”, relembrou.

costumo dizer que game é o audiovisual interativo. Até que, por umas questões

248

O começo foi parecido com o de muita

políticas, a gente tem que entender que

gente. O escritório da 44 Bico Largo, a

aquilo é conteúdo, é onde você pode contar

primeira empresa de Alê, uma criadora

história, você pode se expressar e não é

de jogos, funcionava no salão de jogos

joguinho, aquele ‘joguinho’, no diminutivo,

da casa da mãe dele, em cima de uma

que às vezes acaba atrapalhando algumas

249


Alê McHaddo

Animação & Games – e Vice-Versa

conquistas que a gente tem feito. O importante é lembrar que a gente está falando em audiovisual, só que é um audiovisual em que a pessoa pode interagir”, defendeu. Os tempos são outros, Alê aproveitou para mostrar a estrutura da 44 Toons Interactive, que é derivada da 44 Toons, estúdio de animação criado muito depois da 44 Bico Largo. “Quando o mercado de jogos diminuiu, abri a 44 Toons e as coisas foram evoluindo. Naquela época, eu fazia prestação de serviço e, hoje, a gente está com uma atividade bem aquecida dentro do estúdio.

aventura especial que vai render um longa-

Por outro lado, a 44 Bico Largo, que

metragem, com lançamento previsto para

começou fazendo jogos – a gente fez quatro

2015. Outra propriedade do estúdio é Nilba

jogos e o mercado foi despencando –,

e os Desastronautas, uma série produzida

parou. No momento em que a gente passou

inteiramente no Brasil e de baixo orçamento.

a fazer animação, a gente foi deixando de

“A gente fez sem dinheiro público – a TV

fazer jogos. Até que, hoje, a gente reativou.

Cultura investiu um pouco, e a gente investiu

Ainda é uma equipe pequena, de três

o resto. A gente conseguiu vender para um

pessoas, para fazer jogos exclusivos para

canal americano, furando uma barreira ali,

séries e longas.”

porque nunca alguém da América Latina tinham vendido para eles. Não sei nem se

250

Todos os projetos têm a vertente do

isso vai acontecer de novo, são aquelas

game. A criação mais sofisticada, segundo

coisas que acontecem uma vez. A diretora de

Alê, é o jogo BugiGangue no Espaço, uma

compras do canal era fã de ficção científica e

251


é pífia.” Ainda segundo a pesquisa, o Brasil

vendendo e foi super legal”, contou ele,

possui, em média, 200 estúdios em ação.

exibindo a introdução da animação.

“Todo ano alguns fecham, abrem outros, essa é a média. Poucos continuam vivos.

Foi aí que Alê decidiu que a empresa faria

Quem continua vivo desde a década de

adaptações para jogos. “Comecei a trabalhar

1990 foi fazer outra coisa junto com games,

com jogos no mesmo momento que eu

que é o exemplo da 44 Bico Largo”, realçou.

Alê McHaddo

Animação & Games – e Vice-Versa

se apaixonou pelo projeto e a gente acabou

comecei a trabalhar na Abragames, onde a gente exclusivamente está defendendo

O mercado, no entanto, mudou. A chegada

o mercado de produção de conteúdo

dos dispositivos móveis, dos telefones e

nacional. Game é uma plataforma de lance

iPads, abriu novamente a possibilidade

imaginário de personagens tão forte ou

de produção mais democrática. “Hoje,

talvez mais forte que a animação hoje, é só

qualquer pessoa publica na App Store ou no

olhar o Ballistic. É muito importante que a

Google Play. O difícil é depois você se tornar

gente entenda que a capacidade brasileira

conhecido. E a gente começou a retomar (a

tem que dar vazão ao nosso conteúdo

produção de jogos) por entender que essa

do mesmo jeito que aconteceu com a

transformação do mercado colocava as

animação”, comparou.

possibilidades de divulgar os jogos de novo”, afirmou.

Para reforçar a fala, Alê se baseou em uma pesquisa feita pelo BNDES que aponta

A tese defendida largamente por Alê é

o Brasil como o décimo primeiro maior

uma só: jogos são um produto cultural

mercado de games do mundo – o maior da

importante, que deve, assim como a

América Latina:

animação, ser reconhecido no mercado audiovisual, inclusive para o financiamento

“Algumas outras nos colocam como o

dos fundos setoriais.

terceiro maior mercado consumidor de

252

jogos do mundo e nosso consumo de

Em defesa também da produção conjunta

jogos é muito maior do que o mercado de

entre jogos e animação, Alê enumerou as

audiovisual. Apesar disso, a nossa produção

boas razões: as equipes são semelhantes – a

253


conglomerados e as produtoras de jogos,

têm animadores, texturizadores, roteiristas;

idem”, ele realçou as dificuldades. “Então

a marca pode ganhar em expansão;

o que se consegue é: a Pixar licencia para

aumentam as possibilidades de retorno.

se fazer jogos deles; a Aidos licencia Tomb

“Nenhum estúdio vai conseguir recuperar

Raider para se fazer um filme”, disse.

todo o investimento de uma série só

Para Alê, a produção conjunta renderia

vendendo para televisão. Se tiver um jogo,

experiência mais enriquecedoras.

Alê McHaddo

Animação & Games – e Vice-Versa

produtora de games e a produtora de jogos

vai facilitar. E a gente pode, de fato, pensar numa produção transmídia. A gente pensa

Há uma tendência de compra de pequenos

muito no transmídia em qualquer série

estúdios por gente grande. É o caso do

que vai para jogo e jogo que vai para série,

Disney Interactive, estúdio montado a

mas pensar de fato em transmídia é muito

partir da compra de empresas canadenses;

difícil. Até os estúdios americanos têm uma

e da Warner. “Só que a vantagem que a

certa dificuldade, porque você tem que

gente tem no Brasil é que somos pequenos,

pensar em uma lógica integrada desde o

então eu posso conversar com a Aquiris

princípio. Então, você vai ter que pensar um

e criar um jogo em conjunto. A gente não

filme que vai continuar em um jogo e eles

tem aquele conglomerado enorme, em

são complementares, não é simplesmente

que é preciso falar com 15 diretorias e

uma adaptação do filme no jogo, isso é o

16 departamentos para liberar a marca.

crossmídia, é o spin-off”, afirmou ele.

Então, esses pequenos arranjos produtivos são possíveis no Brasil. A gente é pequeno,

Um exemplo bem-sucedido de transmídia,

mas a gente é ágil”, finalizou.

segundo Alê, é Matrix. “É um exemplo

254

legal de que você consegue engajar o seu

Antes de passar a vez a Conrado Testa, o

público em todas as mídias e não só no

moderador, Arthur Protásio, reforçou que a

cinema. Você pode ter uma mídia principal,

produção transmídia é algo absolutamente

em que você aposte, mas você trabalha

crucial na lógica de produção entre animação

de forma colaborativa. Por que isso não

e jogos. E quanto mais integradas forem as

acontece com tanta frequência? Porque

produções, maior será a possibilidade de

os estúdios americanos são grandes, são

geração de conteúdo opcional.

255


Animação & Games – e Vice-Versa

“Nós queríamos produzir um jogo, nós queríamos produzir algo que tivesse uma história e que, nessa história, as pessoas jogassem, entendessem, interagissem com o personagem, com o inimigo, com todo o cenário que a gente tinha”, explicou o diretor de animação. O trio tinha seis meses para criar todo o início, meio e fim do jogo. Feita uma etapa, para garantir a nota e o diploma, ficou o fim para depois. A ideia era fazer várias etapas, até chegar ao fim de verdade. “Então, com a conclusão do curso, nós continuamos. Nós não recebíamos briefing de outras empresas, como a Aquiris. Nós não recebíamos briefing externo. Nós só tínhamos o que a gente queria fazer

Conrado Testa Swordtales

Três alunos de pós-graduação no Rio Grande do Sul, com a tarefa de fazer um jogo de verdade para o projeto de conclusão de curso. Assim começou a Swordtales, empresa recente mas cheia de ambição, disse Conrado Testa, logo no início da sua participação na mesa:

256

do jeito que a gente podia fazer. Então nós éramos extremamente indies, isso seria um mercado indie, porque nós trabalhávamos fora, nós trabalhávamos em outras empresas, com outros projetos, e nós éramos uma equipe extremamente pequena tentando fazer algo que estava muito além da nossa capacidade, até. Nós tentamos continuar o jogo por mais meio ano, mas estava ficando muito difícil de fazer. Então nós decidimos que teríamos

257


“A gente não podia entrar no artigo 18

de produção. E recomeçar. Só que, dessa

porque tem umas classificações para

vez, a gente teria de fazer em uma forma

games que não entravam nas classificações

diferente”, contou ele.

do artigo 18. Então, tinha uma lei a mais que entrava que era o artigo 26. Mas

Como trabalhar só no tempo livre não

ele tem um probleminha básico que é: a

estava funcionando, eles decidiram ir

empresa vai te dar cem reais, mas você vai

atrás de financiamento. Foi aí que se

receber oitenta, então para você receber

interessaram pela Lei Rouanet. “Então

100 reais, a empresa tem que bancar 120

nós resolvemos juntar tudo e montar de

reais. Então, na teoria, ela também está

novo todo o nosso briefing”, disse ele.

perdendo dinheiro. Aí a gente começou

Desta vez, ao contrário do que vinham

a fazer várias contrapropostas para

fazendo, teriam de ajustar toda a história

conseguir empresas que nos ajudassem.

e personagens, definir exatamente os

Então as empresas começaram a dizer que

rumos do jogo. Foi preciso reestruturar

‘vocês são jogos’. Isso é um problema até

tudo. A ideia era ambiciosa, mas o projeto

hoje”, contou.

Conrado Testa

Animação & Games – e Vice-Versa

deletar o jogo inteiro, depois de um ano

foi aprovado. “A gente entrou para fazer o jogo, só que a Lei Rouanet não é como a

Nas contas das empresas, era mais fácil

gente inicialmente pensou: ‘Ah! Nós vamos

e rentável patrocinar quaisquer outros

pegar um dinheiro, nós vamos pagar as

projetos. “A gente mostrava os dados que

pessoas e aí a gente vai conseguir fazer o

a Abragames tem e tal, ‘olha, veja como

que a gente realmente quer’. Não é bem

o mercado de games é grande’. Como

assim.[risos] Não foi muito dessa maneira”,

a empresa ainda não conhecia jogo, ela

realçou ele.

preferia pagar música, teatro, músico e teatro de rua, a pagar pra gente.

258

Metade de um ano fazendo captação, os tais

Até porque jogo é mais caro de se fazer,

artigos 18 e 26 no meio do caminho, uma

a gente acabava pedindo retorno

questão legal, além do desconhecimento,

financeiro muito grande. Então a

por parte das empresas, do real potencial

gente conseguiu poucas empresas que

de alcance dos jogos:

pudessem nos ajudar.”

259


com a idade dela. Ela é pequena, então tem

a gente conseguir acabar aquilo que a gente

problemas relacionado a ela pequena. Se

não tinha conseguido antes, de tirar tudo

ela é média, vêm problemas de quando ela

o que a gente tinha de produção e levar a

é adolescente. E quando ela é adulta, ela

um projeto maior e com mais qualidade,

vai correndo contra o tempo porque a coisa

na verdade. A gente chegou a contratar até

está passando. A gente traz essa ideia mais

16 pessoas, entre animador, modelador,

filosófica do jogo. O legal de tudo isso foi

assistente para roteiro. A gente gastou

que a gente está conseguindo trazer essa

muito dinheiro porque não sabia o que

narrativa das dificuldades dela, e as pessoas

fazer, e nem como fazer. Mas, ao mesmo

têm gostado”, ele encerrou.

Conrado Testa

Animação & Games – e Vice-Versa

A dificuldade teve o seu lado bom. “Isso fez

tempo, a gente aprendeu”, ele avaliou. Arthur Protasio agradeceu, e reforçou o Participar de um Global Game Jam ajudou.

caráter da animação como elemento de

“O que é isso? É criar um jogo, pequeno

comunicação essencial no jogo. Ainda

ou grande, em 24 horas. É um tempo

que o grande diferencial do jogo seja a

extremamente curto para testar as coisas.

possibilidade real de interatividade, imagem

Mas a gente queria testar câmera, efeito,

é determinante para atrair a atenção. “O

animação nova, corte de cena. A gente fez

Toren, por exemplo, tem muita visibilidade

pequenos jogos”, disse ele, anunciando que

tanto por sua abordagem estética quanto

iria mostrar o trailer do Toren, que está na

por sua abordagem visual. Se não fosse

quarta versão. A história é a mesma, mas a

por esse primeiro impacto visual, pode ser

animação evoluiu.

que as pessoas nem chegassem à história”, opinou o moderador.

O Toren é um jogo de aventura, a plateia conferiu o teaser, e Conrado explicou: “Você joga com uma menininha, que está aprisionada numa torre. Ela vai crescendo de acordo com as coisas que vai descobrindo. Os problemas vão evoluindo

260

261


Animação & Games – e Vice-Versa

Já nos Estados Unidos, Gonzalez percebeu que se havia desejo, havia também muito trabalho. “No início se trabalha muito fazendo animação. E outra coisa que me chamou muita atenção era que todas as histórias eram muito comerciais, tipo Pixar. E todas as histórias eram as mesmas. Com isso, me desencantei um pouco. E, justamente, estava havendo uma onda experimental de jogos. Eu gosto de jogos, gosto de computadores, então me matriculei em todas as escolas de arte e, finalmente decidi trabalhar com videogames”, ele contou. De volta ao Chile, com um par de joguinhos como demo em mãos, Sebastian foi trabalhar em uma empresa onde havia

Sebastian Gonzalez ACE TEAM

Bastou assistir a Toy Story para que o chileno Sebastian Gonzalez decidisse o que gostaria de fazer para o resto da vida dele. Com a intenção de aprender animação, foi estudar nos EUA. E algumas dessas experiências, sobre como partiu da animação para os jogos, mais tarde, ele dividiu com o público do Anima Forum.

262

apenas 15 pessoas, e era uma das maiores. Na conversa com o chefe, ele sacou o que tinha de trunfo: “Mostrei o disco com dois jogos interativos e uma tecnologia que ele não conhecia, e não existe mais, imagino! Chama-se Macromedia Director. E comecei a trabalhar fazendo cafezinho (risos). Fui aprendendo todo o trabalho de um produtor. Até que, finalmente, me confiaram um trabalho de produção”, contou. Foi aí que ele conheceu

263


contou o feito. Com a boa aceitação, vieram

Bordeu, os garotos que fundaram a ACE

investimentos, mais reforço para o trabalho,

TEAM. “Eu era desenhista nessa época e

e o Zeno Clash saiu do PC para o Xbox. Foi a

tinha feito um par de jogos para PC. Os

entrada no mundo real dos videogames.

movimentos que havia eram muito difíceis de se trabalhar, porque havia muito pouca

A mecânica do jogo não era simplesmente

memória, não eram touch, era outra época”,

apontar e disparar, como a maioria que

ele relembrou o ritmo intenso de trabalho

existia e queria ser como Call of Duty.

que enfrentou nos dois anos seguintes.

O objetivo era ser um jogo de primeira

Sebastian Gonzalez

Animação & Games – e Vice-Versa

Andres Bordeu, Carlos Bordeu e Edmundo

pessoa focado no combate corpo a Na sequência, Sebastian exibiu um vídeo

corpo, com punho e pernas. O realismo

para que a plateia conhecesse a ACE

fantástico embutido nas criaturas, armas,

Team, fundada há sete anos. “O ACE vem

hábitos vestuário agradou, e os jogadores

das iniciais de Andres, Carlos e Edmundo.

começaram a comprar. Com o sucesso do

Estamos baseados em Santiago, e

primeiro, veio a oportunidade do segundo.

desenvolvemos software independente

Desta vez, o jogo de estratégia Rock of

de entretenimento. É importante ressaltar

Ages, no qual, basicamente, dois jogadores

que nós conservamos nossas propriedades

assumem o controle de uma pedra gigante

intelectuais, o que é super valioso. Podemos

e a proteção de um castelo. Sendo que

fazer qualquer coisa que quisermos, e

a pedra gigante de um tem de destruir o

não temos que pedir permissão a outros

castelo do oponente.

produtores intelectuais”, afirmou. Zeno Clash II, a segunda parte de Zeno

264

Desenvolvedor licenciado do Xbox 360

Clash, veio com um mundo maior que o

e PlayStation 3, o estúdio desenvolve

original e a mecânica de combate melhorou

produtos para Xbox Live Arcade, PlayStation

bastante, segundo Sebastian. Com mais

Network e PC. O primeiro jogo, Zeno Clash,

de cem personagens, o quais claramente

foi lançado pela empresa em 2009. “Foi um

consumiram muito tempo do artista. O

jogo que levou dois anos de produção, e

trabalho levou um ano e meio para ficar

foi lançado até na Rússia e na Polônia”, ele

pronto. Foi cansativo, ele reconheceu.

265


e anunciou um novo jogo, recém-lançado,

jogo realmente impressionante. Ao mesmo

o Abyss Odyssey, para Playstation III e PC.

tempo nós não esperávamos que a crítica

O principal propósito do jogo era que ele

não fosse muito boa, principalmente porque

pudesse ser jogado mais de uma vez, e

nos compararam com títulos grandes”, disse.

de forma diferente. Além disso, houve preocupação em fazer com que o inimigo

Sebastian mostrou alguns personagens

pudesse retornar, ou seja, o jogo dá a

para a plateia já familiarizada com a criação

chance de o inimigo retornar de maneira

da ACE TEAM, com destaque para Gollen,

inteligente. O esquema de lutas, Gonzalez

Rimat. Com lançamento principalmente

comparou, pode fazer muita gente se

em 3D, em disco, o foco agora é o

lembrar de Double Dragon.

Sebastian Gonzalez

Animação & Games – e Vice-Versa

“Demoramos e, mesmo assim, fizemos um

lançamento digital, por ter um alcance maior e ser mais viável economicamente.

Arthur Protasio agradeceu e, antes

“Lamentavelmente, a América Latina não é

de passar para as perguntas, fez uma

o melhor lugar para vender. Do México até

observação sobre a questão da interação:

o Chile, as vendas somam apenas pouco

“A gente sempre está falando que existe um

mais de 1% do total”, relatou.

trabalho de animação na área dos jogos, mas um trabalho de animação na área dos

A relação da ACE TEAM com animação é

jogos tem de, em vez de prever um caminho

real. “Somos quatro pessoas na arte, dois

linear, tem de prever muitos outros”,

modeladores, um ilustrador, um animador e

afirmou, citando exemplos de como a

dois desenhistas do jogo, dos quais um sou

animação vem explorando novos caminhos

eu. Passo a metade do tempo animando e

com os jogos. Machine foi um deles.

a outra desenhando o jogo. Temos quatro programadores, um músico e um par de

Ao abrir a rodada de perguntas ao público,

ilustradores que nos ajudam em algumas

Arthur Protasio tratou de fazer, ele mesmo,

coisas”, e é isso, ele relacionou a equipe.

primeira delas:

Em seguida, exibiu um vídeo com os trabalhos mais emblemáticos da ACE TEAM,

266

267


de criação, mas tudo o que a gente cria

comunicação entre animação e jogos? Quais

passa pelo crivo deles. É possível que essa

ferramentas a gente usa para engajar o

seja uma tendência, é possível que as duas

público?

coisas se conectem, e aí você já não vê

Conrado Testa – Acho que a previsão é

Sebastian Gonzalez

Animação & Games – e Vice-Versa

Quais são os caminhos futuros da

sempre bastante arriscada, mas acho que é uma tendência. Participei do Anima Business, e foi-me apresentado um projeto que, teoricamente, era pra ser um projeto de animação e, eu como sou da área digital, eu me considero parte da indústria de entretenimento digital. Não necessariamente jogos, porque eu acredito que, futuramente, as coisas vão fazer uma mais parte da outra, e isso não é uma coisa só. Acredito que o futuro é algo que vai nos dar sentido. A Cartoon Network, cerca de anos atrás, percebeu que tinha propriedades intelectuais dela que estavam sendo usadas por desenvolvedores de jogos. E a companhia pensou ‘por que eu mesmo não produzo

268

os jogos?!’ Então ela criou todo um setor,

mais a diferença do que é um jogo, o que

que já existia, mas que vem crescendo e

é uma história, o que é ilustração, o que é

criando força. Eles assinam os jogos como

quadrinho. E, sim, que está contando uma

Cartoon Network Games, e a criação que

história para um jogador, para uma pessoa.

a gente faz para os jogos é orientada pelos

Você quer transmitir entretenimento e

roteiristas da série. Então, tudo o que a

isso vai passar, por inúmeras cabeças. Eu

gente cria, a gente tem toda essa liberdade

imagino que vá por aí.

269


Alê McHaddo – É difícil falar de tendência.

uma coisa que eu vi esses dias, no Android,

Primeiro, acho que filme vai continuar sendo

que era uma mistura entre animação, livro

filme. TV não tanto, mas cinema vai continuar

e jogo. Era um jogo, um aplicativo, em que

sendo cinema, isso é o que eu tenho certeza.

você começava vendo uma animação, aí

De resto, eu acho que os meios digitais

parava tudo, e ele começava a explicar

vão sofrer alterações grandes em um curto

uma história além daquela animação. Em

espaço de tempo. Não vejo muito tempo

seguida, ele aplicava um jogo em cima disso.

para a televisão, como ela é organizada hoje,

Então, acho que no futuro essa transmídia

se sustentando. Da mesma maneira que

seja cada vez mais integrada, pois tem sido

não vejo os consoles, já se disse, a gente

o foco nas empresas.

está na última geração de consoles. Esses

Sebastian Gonzalez

Animação & Games – e Vice-Versa

Rafael Rodrigues – Eu só queria acrescentar

consoles vão acabar, e acabou. Não vai ter Sebastian Gonzalez – Uma coisa que venho

mais outro, não vai ter Playstation 5. Porque

percebendo é que interessante o novo

a tendência é que se vá para os dispositivos

mercado que está se criando. Está na hora

móveis, ou para outras mídias. A única

de se produzir jogos utilizando endings,

certeza que tenho é que não importa para

em que eu necessito de algum modelo,

onde a tecnologia vá, tecnologia tem de ser

uma animação, um som, algum tipo de

entendida como segundo plano, a gente tem

programação particular que não posso

de pensar em história e personagem.

produzir, então eu compro inteiro meu jogo. E eu, como criador, modelador, animador, posso vender meus produtos dentro deste mercado, para que consumam criadores como nós, que em algum momento não conseguem ir à frente. Ou contrato alguém e, se sou uma equipe independente pequena, provavelmente me sai mais barato comprar produto pronto. Então entendo que é muito valioso como uma forma alternativa de ter lucro e fazer o que gosta no seu tempo livre.

270

271


Pergunta

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Animação & Games – e Vice-Versa

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS Como vocês acham que as produtoras de game, artistas, programadores e todos os interessados poderiam fomentar o interesse por games na América Latina? Teria como fazer alguma coisa mais autoral e conseguir um sucesso, como fazem as grandes empresas norte-americanas? que existe aí uma regulamentação que é

Alê McHaddo

272

Eu acho que a gente não precisa de

necessária. Até porque com os $14 bilhões

apoio governamental. A gente precisa

que elas movimentam anualmente, a

regulamentar um mercado que é

gente está perdendo a chance de criar o

completamente injusto. A gente tem

imaginário brasileiro. Então, não é uma

aqui três companhias explorando um

questão de financiamento do governo,

mercado que é gigante, com remessas de

não é passar o chapéu. A gente está

lucro constante, que controlam inclusive

falando de regulamentar, de desatar

se você vai ou não distribuir o jogo na

alguns nós, porque esse mercado é

plataforma delas. Acho que, no mínimo,

injusto. Esse discurso de dependência

a gente tem que regulamentar isso. Se

do governo, financiamento do governo

fizer um paralelo dos jogos com o que é

e cota é retrógrado. O Canadá tem um

a televisão e o mercado cinematográfico,

financiamento governamental para games

os mídias são muito menos impositivos

e para animação maior do que qualquer

do que são as produtoras de console.

país, inclusive se posicionou desa forma por

Seria mais ou menos assim , você faz

causa de um apoio governamental. A gente

um filme usando uma câmera Sony, que

tem de deixar de lado essa ideia de que está

só pode passar num projetor Sony, num

pegando dinheiro para fazer um filminho,

cinema Sony, se ela deixar. Então, claro

um joguinho. Não. A gente está investindo

273


Apesar de ser uma coisa divertida, desenvolver jogos vira uma coisa muito séria e a gente sabe que é uma indústria poderosa. Acho que desde 2009, quando a Apple liberou para criação de aplicativos, ela espalmou um mercado todo novo de desenvolvimento de jogos, qualquer um

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Animação & Games – e Vice-Versa

indústria, mas a gente está formando.

nessa sala tem a liberdade de fazer um jogo. Mas o que eu sempre digo é: faça jogos. Comece com um jogo simples, bobinho, se preocupe menos com a diversidade de interações, de arte. Faça um jogo simples. Aprenda aquele processo. em um mercado que hoje está caminhando para ser fundo de investimento. Esse é o

Conrado Tesla

grande caminho.

Para conseguir crescer, mesmo, como pessoa e como artista, eu acho que tem de pegar cada vez mais projetos desafiadores.

Rafael Rodrigues

Concordo com tudo que o Alê falou.

Tanto na criação, como no desenvolvimento

Também sou professor de desenvolvimento

e na distração. Você vai ver que as coisas

de jogos na pós-graduação da PUC de Porto

vão começar a crescer.

Alegre, na cadeira de empreendedorismo, e uma das primeiras coisas que eu falo é que

274

Arthur Protasio

Concordo totalmente. Complementando

eu estou ali para dizer como é que vocês

o que já foi dito aqui, eu acho que tem

fazem para viver de jogos. É uma coisa que

também a ideia de ‘eu tenho que me

eu posso falar porque eu vivo, eu dou aula

envolver, eu tenho que pegar projetos

sobre jogos, eu trabalho desenvolvendo

que me desafiem, eu tenho que correr

jogos. E uma das coisas que eu sempre

atrás, eu tenho que ser proativo para

bato o martelo e insisto é que a gente não

fazer isso acontecer’. Na IGDA, que é mais

tem uma indústria. Vai existir como uma

focada no desenvolvedor, volta e meia

275


Alê McHaddo

É arte. Ponto! Não tem mais que continuar

Então, artista procura animador ou

discutindo isso. O Moma tem sessões de

animador procura designer, que procura

game, eu acho que essa discussão não

programador, que procura outras pessoas.

deve nem existir. É óbvio que é. Tem jogo

Todos apresentam seus projetos, e acho

bom, jogo ruim, tem Candy Crush, tem jogos

que é bem por aí. Se você não colocar a mão

ótimos, precisos. O jogo, além de contar

na massa para começar a desenvolver, isso

uma história , pode fazer o cara que está

nunca vai se tornar um negócio rentável.

experimentando aquela arte ter aquela

Hoje em dia existem vários espaços para

sensação de uma maneira mais próxima, às

mostrar o jogo como uma mídia criativa.

vezes, que o cinema.

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Animação & Games – e Vice-Versa

eu faço encontros desses profissionais.

Mas acho que o mais importante aqui é a palavra mídia. Porque o jogo como mídia

Sebastian Gonzalez

Sim, no fundo, jogos são artes.

acaba tanto sendo útil do ponto de vista

Independentemente de onde trabalho e

criativo, arte mesmo, como ele também

do que tenha de fazer para criar meu jogo,

cumpre a sua função como produto. E um

porque tudo trata do aprendizado, como

outro fator que se liga totalmente com

posso melhorar, como posso expressar

isso é o fato de a gente ter cada vez mais

uma coisa que realmente quero fazer.

espaços culturais voltados para os jogos.

Agora, se posso fazer com uma equipe

Isso é ótimo por que a gente começa a

continuamente, até que saia o que gosto,

mostrar que temos uma mídia muito

isso é genial! Caso contrário, faça como os

criativa e que tem inúmeros espaços para

outros, compre um jogo pronto.

explorar. Isso é muito bacana.

276

Pergunta

Rafael Rodrigues Uma das coisas mais recorrentes que

Haveria alguma possibilidade de pensar no

ouço de quem quer trabalhar com jogos é

game como uma forma de arte “pura”, sem

‘o que eu tenho que fazer para trabalhar

aniquilar as possibilidades transmídia? Uma

na EA (Electronic Arts)’? A primeira coisa

coisa que possa ser admirada e apreciada

que você tem que fazer é não querer

de uma forma única mas similar a como

trabalhar na EA. Primeiro, você precisa

você ir ver um filme no cinema, ou um filme

ter um trabalho bom, o resto tudo é

destes do Anima Mundi, por exemplo?

consequência.

277


com a Constituição. Para a gente realmente mostrar que é uma mídia expressiva e que se o cinema está protegido, se a animação está protegida, o jogo também está protegido. Por que ele também é capaz, através da sua narrativa, personagens e de sua história, tecer mensagens que são

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

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para o jogo como uma mídia, de acordo

cada vez mais envolventes e engajantes, que acabam se sustentando como discurso comunicativo, científico, cultural e por aí vai.

Arthur Protasio

Pergunta

Eu queria explorar um pouco mais o ponto

A gente tem de enxergar o jogo do ponto de

transmídia que, pelo debate, parece ser a

vista da arte e também do ponto de vista

tendência do futuro. Vocês estão vendo um

legal. Uma das pesquisas mais substanciais

mundo de possibilidades ampliado. Como

que fiz na FGV (Fundação Getúlio Vargas)

vocês estão enxergando as possibilidades

foi sobre a censura de jogos. A gente tem

das empresas brasileiras? Como partir para

muitos jogos proibidos no mundo inteiro. Só

esse desafio do transmídia?

que, quando você vai analisar as decisões judiciais ou os projetos de lei que correm

278

Conrado Testa

Acho que essa é uma possível tendência,

na câmara, você vê que eles são pifiamente

mas não acho que essa deveria ser uma

fundamentados ou carecem de uma boa

preocupação imediata. Eventualmente vai

argumentação. Isso acaba muitas vezes

acontecer quase que naturalmente de as

acontecendo porque quem está avaliando

coisas se fecharem um pouquinho mais

ou quem está decidindo sobre aquela

e se tornarem uma coisa só. Acho que vai

mídia não tem um contato direto para

acontecer naturalmente e vai nascer de

poder ter uma noção melhor do que está

demandas de grandes proprietários de

acontecendo. Concomitantemente, a gente

propriedades intelectuais, ou a gente aqui,

precisa defender a liberdade de expressão

produzindo um jogo que acha muito legal,

279


nesses elementos conectados, lá na frente,

gente fizesse um fórum, uma ação onde as

você acaba tendo uma situação muito

pessoas se encontrassem?

difícil de sustentar. A minha preocupação é fazer uma boa obra, um bom produto, seja

Sebastian Gonzalez

Acho que o transmitia é uma possibilidade

animação, curta-metragem, jogo, filme ou

grande e lucrativa e etc, mas não é a única.

história em quadrinho, o que quer que seja.

Em relação ao dia a dia das empresas, em

O transmídia, como o nome já diz, é uma

uma pesquisa que o próprio BNDES acabou

narrativa que se conecta por diferentes

de fazer, a gente identificou que o maior

mídias, mas qual é o valor dessa grande

problema é como fazer esse jogo ficar

narrativa conectada por diferentes mídias

conhecido. Publicar é fácil. Mas são 40 mil

se essas mídias em si não se sustentam

novos aplicativos por dia. O mercado é tão

ou estão capengas? Primeiro, é preciso

competitivo e tão árido para os produtores

ter certeza de que vão consolidar essas

de videogame, que eu tenho certeza que as

determinadas áreas e, uma vez tendo essa

companhias brasileiras que estão vivas são

certeza, se esse é um modelo de negócio

extremamente bem dirigidas, entendem

sustentável para sua abordagem ou para

de modelo de negócio, trabalham muito

sua obra específica.

PERGUNTAS E COMENTÁRIOS

Animação & Games – e Vice-Versa

mas ao mesmo tempo pensa Po! E se a

bem. Acho que a gente arrumando a forma como o mercado de games está organizado

Marcos Magalhães agradeceu a todos e falou,

no Brasil, regulando, a gente vai ter uma

como um dos diretores do Anima Mundi,

explosão imediata. As nossas conversas

que instituições como o BNDES, o Sebrae,

com a Ancine tem sido muito positivas,

a Secretaria de Cultura do Estado do Rio

o Ministério da Cultura também tem

e a Ancine vêm demonstrando interesse

apontado para que está pensando na parte

e efetivando ações para incluir o game na

cultural do game, na parte de conteúdo.

economia criativa. Os interessados devem

Mas também tem a parte de tecnologia.

ficar de olho nas oportunidades. Já como animador, assumiu ser fã de Candy Crush,

Arthur Protásio

Mais uma vez complementando, o

Angry birds e Subway surf. E encerrou a mesa.

transmídia bem feito precisa ser pensado do início. Se você não pensa desde o início

280

281


CRÉDITOS DIREÇÃO Aída Queiroz Cesar Coelho Léa Zagury Marcos Magalhães

INTÉRPRETE Martha Moreira Lima

COORDENAÇÃO GERAL DE PROJETOS Iara Carnauba

PROJETO GRÁFICO DO RELATÓRIO PANTALONES / Ricardo Souza

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Tainá Vital

DESIGNER GRÁFICO OESTUDIO

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO Lívia Egger

FOTOGRAFIA I HATE FLASH

RECEPTIVO César Alfonzo Clara Medeiros Guilherme Marcondes Fabiana Oliveira Susana Amaral

CENOGRAFIA Douglas Nogueira

EDIÇÃO E REDAÇÃO Maria da Luz Miranda

ILUSTRAÇÃO Ennio Torresan


PATROCÍNIO MASTER PATROCÍNIO PRATA

PATROCÍNIO VIA EDITAL Patrocínio via edital

APOIO apoio

HOTÉIS OFICIAIS

PATROCÍNIO VIA EDITAL

APOIO

HOTÉIS OFICIAIS

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PATROCÍNIO OURO PATROCÍNIO MASTER

APOIO INSTITUCIONAL

REALIZAÇÃO

Patrocínio Master PATROCÍNIO MASTER apoio institucional APOIO INSTITUCIONAL

PATROCÍNIO OURO PATROCÍNIO PRATA

J

PATROCÍNIO PATROCÍNIO MASTER MASTER PATROCÍNIO OURO J

PATROCÍNIO PRATA PATROCÍNIO OURO PATROCÍNIO MASTER PATROCÍNIO PRATA

Patrocínio ouro

PATROCÍNIO PATROCÍNIO OURO OURO

Hotéis oficiais PATROCÍNIO VIA EDITAL

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APOIO INSTITUCIONAL

REALIZAÇÃO

Patrocínio PATROCÍNIOprata PRATA PATROCÍNIO VIA EDITAL

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HOTÉIS OFICIAIS

J

APOIO INSTITUCIONAL PATROCÍNIO PATROCÍNIO VIA EDITALVIA EDITAL

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REALIZAÇÃO HOTÉIS OFICIAIS HOTÉIS OFICIAIS

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J

APOIO INSTITUCIONAL PATROCÍNIO VIA EDITAL

J

APOIO

REALIZAÇÃO HOTÉIS OFICIAIS

REALIZAÇÃO

Realização

REALIZAÇÃO


Neste relatório foram utilizadas as fontes: Open Sans Cholla Sans Jellyka –Estrya’s Handwriting

REALIZAÇÃO


PETROBRAS, IBM apresentam TADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DO RIO DE JANEIRO, PETROBRAS, IBM apresentam

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