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Sabiรก 1 DEZ 2016 Nยบ 0 | ANO I


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Sumário 2 6 7

Vômito dos excessos A poesia militante da Fulô du Agreste

O homem do Castelo

Perfil do deputado Ary Gomes do Nascimento

O retratista

Perfil do retratista Júlio Carvalho

Literatura 8 10 12 14

Distopia Uma crônica de Fernando Andrade

O dilema da casa rachada

Um conto de Jefferson Silva Gomes

Filho pródigo

Um conto de Lucas Victor

Poesia

Resenhas 18 20 22

O que é cultura José Luiz dos Santos

Neuromancer William Gibson

As Crônicas de Fogo e Gelo George R. R, Martin

Realização Alda Mariana Mariano Carneiro Campello Beatriz Vital de Assis Fonseca Clarice Rocha da Silva Dominguez Fernando Andrade Pires Jefferson Silva Gomes Rubem Eduardo Araújo e Silva


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Vômito dos excessos A poesia militante da 'Fulô du Agreste'. POR FERNANDO ANDRADE

Rosy Hütz. Dionísia. Fulô du Agreste. Ressignificação. Reiventar­se. Há momentos em que, em nossa trajetória, as experiências vividas nos forja a repensarmos nossa existência, nosso papel na sociedade e como nos apresentamos ao mundo. A Fulô du Agreste conta que nasceu de seu processo de empoderamento através do movimento negro, expressado artísticamente. “Representa tudo que acredito que faça parte de mim. A fase de resistência, a fase de doçura e a fase de aridez. Isso é a Fulô do Agreste”. O pseudônimo se dá em função da necessidade de

dissociar sua imagem enquanto Rosy Hütz, militante do movimento negro, de seu projeto de escrita. Em um primeiro momento, fora assumida a identidade de Dionísia materializada no zine “Vômito dos meus excessos”, produzido em meados de março deste ano, reunindo micro­contos e poemas acerca de suas vivências, concepções e o que vislumbrava do mundo. O material foi elaborado com o apoio de amigos como o fotógrafo Zé Antônio César, responsável pelas ilustrações. Contudo, novas práticas e experimentações trouxeram consigo o desencontro com

Brejeiro a última tragada de fumaça o barato que não entendo a náusea romantizada pela angústia de um bom veneno uma família conquistada pela necessidade do contexto amigos que me abraçam a alma felicidade dura só um momento problematizações que custam a calma letras tortas, delírios ao vento lembranças minuciosamente apagadas de uma vida em confinamento exílio distante num mar calmo eternizado num melancólico quadro negro beijos com gosto de vontade de matar o que tem dentro Dionísia.

Foto: Divulgação.


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seus antigos escritos. "Eu passei a me deparar com outros temas. Já não me via naqueles textos". A partir disso, Dionísia agora dá lugar à Fulô du Agreste.

Janeiro, aos 19 anos, e se da atuação, enfatiza: depara com os obstáculos e "Com o passar do tempo, eu exigências da vida adulta e não mais estou atriz. Se eu solitária em uma cidade quero ser atriz eu preciso ter grande. É deste enredo que uma estrutura emocional se desenrola o espetáculo muito 'massa' e uma estrutura "Macabea através do financeira que me mantenha espelho", uma livre nos espaços". erva daninha adaptação de Joelson Rei da O que é uma pena, pois nu agreste obra de Clarice Lispector, A pude conferir a encenação danada doninha Hora da Estrela. durante o Circuito Cultural fulô silvestre "Eu me vi muito nessa da Ribeira deste ano, no selvagem floria personagem e a forma como a A.bo.ca Espaço Cultural, e figura rupestre escritora a caracteriza, me faz posso dizer que tanto a esquizo frenia lembrar de uma adolescente construção da Macabea comadre da peste negra. No entanto, nas quanto de elementos cênicos afrorebeldia adaptações sempre colocam como cenário e iluminação norte­nordeste. uma moça branca para são encantadores. atuar". Fulô du Agreste. Com isso, nos conta que LA PIESTE DU AGRESTE seu processo de Sua expressividade empoderamento, assim como Transitando no cenário artística demonstra profundo a necessidade de "manter o artístico independente de evolvimento com a black em cena", foram Natal, Rosy (ou Fulô) conta militância, principalmente incentivos cruciais para ter se encontrado na música, em movimentos de protagonizar a peça. através do projeto de empoderadamento do povo Sobre seus planos de discoperformagem "La Pieste" negro, como o coletivo de continuar investindo na área em parceria com o estudante mulheres negras "As As horas na vida de uma datilógrafa, Carolinas". Por conseguinte, a atuação numa cidade grande vinda do interior do Nordeste, no qual vai se revelando no campo da arte militante da Fulô se extende para além num cotidiano simples de uma vida em confronto com as novidades que da escrita, marcando escuta da rádio, suas lembranças, seus presença no teatro, desejos, seus devaneios e as tentativas protagonizando o projeto de compreender o mundo a partir da "Macabea através do solidão do seu quarto. espelho", e ainda na música através do duo de discotecagem La Pieste, em Livre adaptação do livro “A Hora da parceria com o amigo Petra Estrela” de Clarice Lispector. Petra. Professora Orientadora: Heloísa Sousa A FULÔ ATRAVÉS DO Adaptação de texto e direção: ESPELHO Joelson Rei. Uma jovem interiorana do Alagoas parte para o Rio de

Foto: André Chacon.


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de Teatro na UFRN, Petra Petra. Marcando presença em eventos diversos promovidos para o público jovem, através de seu setlist, o duo busca sempre pontuar questões do movimento negro, algo que declara ser de suma importância para ambos. "Começamos nosso set recitando um poema ou tocando alguma obra da Mel Duarte gravada na voz da Preta Rara, que são referências da minha vida". Tendo em vista as distintas preferências e demandas do público, a dupla busca incluir no repertório nomes mais populares como Rihanna e Beyoncé, sempre priorizando músicos negros e canções de teor político como "Man Down" e "Formation". RESGATE DE ANCESTRALIDADE "Os poemas, de modo geral, são feitos e são oferecidos para pessoas que não conseguem ter o mesmo privilégio que eu tenho em relação à universidade, em relação a esse nicho informacional. Então eu escrevo para e por elas, porque eu sei que na lógica em que elas vivem, elas não conseguem sentar num espaço e pensar poeticamente sobre sua realidade", é o que nos diz a respeito dos seus escritos e de suas motivações. Nos últimos tempos, em decorrência de seu processo de ressignificação artística, culminando na coexistência

da Fulô du Agreste, suas poesias têm refletido aquilo que ela define como "resgate de ancestralidade", assim como valorização de suas raízes.

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Por hora, reconhece que sua contribuição ainda encontra­se restrita ao nicho universitário, mas que suas pretensões são de expandir esse alcance. E os primeiros

Não­recomendada vão acusar­me figura absurda se eu citar minhas perceptivas desordens sempre bato a cabeça, esbarro em móveis sinto­me atulho para microscópica superfície tenho problemas de circulação em espaços públicos e privados visto minha máscara de fera bruta, ignoro olhares que como predadores me encurralam enojo enraivecida as minhas contidas reações mordo a língua, engio o rosto calada, mastigando provocações coluna ereta, posição majestosa depois de anos forçada a me encurvar alimentava­me de auto deformidade trincava os meus reflexos aos murros sombra irrelevante para amores provocar se me evitas, anulando­me a mera mancha na paisagem o meu peito se enche de inquietações mente disfórica, nova crise de labirintite acusando­me novamente fugaz perturbação. Fulô du Agreste.

Rosy Hütz tem 22 anos e é estudante de Comunicação Social, habilitação em Audiovisual, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É ainda militante do movimento negro, atuando no coletivo "As Carolinas". Tem se inserido na cena cultural natalense através de suas poesias e performatividades. Foto: André Chacon.


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passos para alcançar esse objetivo já estão sendo dados através de experiências como intervenções poéticas em atos políticos, como nos protestos contrários ao projeto de Redução da Maioridade Penal, ocorridos em junho deste ano na Praça Cívica da cidade, espaço cercado de escolas. Isto posto, um outro momento marcante, segundo a Fulô, ocorreu na semana da consciência negra deste mês de novembro, no Espaço Nossos Valores, localizado na Redinha, onde teve a oportunidade de recitar seus versos a respeito do combate ao racismo. "Foi um espaço em que minhas palavras difíceis não encontravam coro. Usar um 'tá ligado' e um 'massa' era muito mais apreciado que aquilo que a gente aprende na universidade". Em seguida, declara que é esse tipo de inserção que almeja para dar continuidade ao seu trabalho artístico. "São essas pessoas que eu quero atingir", dispara.

limpeza dos cacos espalhados que o passado representa catei todos, sem­cortes, sangue ou purulência sosseguei o rancor dos traumas & semeio alívios para novos tempos negra­outra­fulô dormitando em crescimento eu, planta du agreste, resistindo às intempéries florecrespo. Fulô du Agreste.

DESAFIOS E DESEJOS PARA O FUTURO Além de circular entre a poesia, o teatro e a música, Rosy atualmente cursa Audiovisual na UFRN e diz que com isso, pretende se tornar uma cineatra, abordando como de praxe temas relacionados à população negra. "Para os próximos dias, meses e anos, eu pretendo continuar a minha militância negra de forma ativa (...) e que eu possa presenciar mudanças. (...) Eu quero continuar no teatro, na música, na literatura. Quero

continuar produzindo essas coisas". Por fim, para a Fulô du Agreste sua maior pretensão é a de ser uma artista facilitadora, visando transmitir mensagens e ideais ao seu povo, àqueles que tiveram suas vidas e histórias colocadas à margem. Conhecidas todas as vertentes dessa artista jovem e promissora, podemos ver o reflexo de uma nova geração que passa a expressar todo o grito contido de seus antepassados. Estamos diantes de uma revolução que se manifesta sobretudo através de poesia e arte.

Vomitamos o que sobra ou o que nos falta, Certezas ou inquietações, Verdades ou devaneios, Poder ou submissão, Quem somos ou que fingimos ser, Histórias pessoais ou narrativas contadas, Propriedades ou apropriações, Realidade ou pura farsa, Fracassos ou motivações? Me diz como não achar graça Melhor me recolher com meus grilhões. Foto: Juscelino Santos.

Dionisia.


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O homem do Castelo POR RUBEM SILVA

O castelo construído no centro de um dos bairros mais vívidos de Natal, é o lar e o ícone representante da excentricidade de um dos grandes personagens de Nova Descoberta, é também, ac­ ervo de muitos livros, revis­ tas, discos e da memória de Ary Gomes do Nascimento, figura cuja história tem tudo a ver com a do lugar onde re­ side desde a década de 70. A aparente tranquilidade é provável consequência de suas experiências. Ary, já tra­ balhou como cabelereiro, costureiro, decorador e sem­ pre organizou diversos des­ files, festas, homenagens e eventos comunitários que de alguma forma ajudaram a dar e a preservar a identi­ dade de seu bairro. Uma de suas muitas preocupações at­ uais, por exemplo, é com o preparo do trigésimo desfile cívico que sempre ajudou a

criar. Hoje com 65 anos é vereador e a despeito do seu empenho em liderar ações comunitárias há mais de 30 anos, só começou a participar de atividades politicas em 1988 quando se tornou presi­ dente da associação de moradores. Nesse período conhecia pelo nome todos os que ali moravam assim como boa parte dos funcionários da Rádio Nordeste, afinal, era para rádio a que recorria para denunciar problemas do local. Como qualquer pessoa, possui suas preocupações. A falsidade das pessoas é algo que teme, assim como a eventual possiblidade de ser dependente de outros. Ver­ gonha é a palavra que o de­ fine, pois para Ary, sem vergonha não há honesti­ dade.


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O retratista POR RUBEM SILVA

O hábito de olhar a vida passar diante dos olhos é o maior indicativo de revolução na vida de alguém que antes, praticamente não entendia o significado da palavra “rotina”. O senhor que agora observa com tranquilidade o movimento da rua, enquanto fala modestamente de seu passado inspirador, é o mesmo menino que deixou seus pais e seus mais de 20 irmãos assim que se deu conta da necessidade de tra­ balhar e de ganhar inde­ pendência. Foi retratista e motorista por mais de vinte anos. Diri­ gir, aliás, é algo que ele sem­ pre soube fazer muito bem. Até hoje, pode ensinar a qualquer um como dirigir um carro, um ônibus, uma família ou uma vida. A propósito, foi essa habilidade que o permitiu conhecer o mundo que hoje é recriado a partir da elocução de suas ex­ periências. Um mundo onde ele pôde visitar diferentes lu­ gares, conhecer pessoas dis­ pares, explorar contextos distintos e aprender diversas histórias para assim poder criar sua própria. Toda experiência

adquirida em uma vida tão cheia permitiu a ele o luxo de escolher morar num lugar onde pudesse encontrar al­ guém para ficar ao seu lado pelo resto de seu tempo de vida, onde formaria uma família, onde poderia ficar tranquilo, acordar cedo e dormir logo após o jantar. Se hoje, segundo ele mesmo, já não tem mais condições de beber ou viajar

– dois de seus muitos gostos – e já não tem mais o mesmo entusiasmo em fazer algo novo a cada dia, ele pode ao menos ter orgulho de con­ seguir se manter eterno para cada um daqueles a quem pôde inspirar.


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distopia Não há ninguém perto de você. POR FERNANDO ANDRADE

A cidade, a noite ferina e fugaz. Luzes intensas e coloridas; por vezes tímidas, porém quentes. Fumaça, pupilas dilatadas, o suor frio, a vista embaçada, a imaginação solta, o comichão atrás da orelha. O som se propaga, instiga, arrepia, ensurdece. O olhar, os olhares! Invazivos, devoradores; por ventura, agressivos e dominadores. O calor que transpira gelo. Batimentos e desejos igualmente acelerados. O sangue, quente, corre e faz morada até seu efeito torna­se visível e por que não palatável. Desperta a fome e a sede. Tato e paladar estimulados. O prato da vez! Os pouquíssimos metros quadrados para apetecer tamanho apetite dão lugar a paredes ainda mais estreitas, mas que com o vazio e o silêncio tornam­se palácio. Ou mesmo jardim de aromas delirantes e afrodisíacos. A ardência, as alucinações e vontades convertem­se em matéria orgânica. O campo magnético resultante das forças no núcleo do astro Vênus exerce seu poder. Os corpos eletrizados entregam­ se à atração inevitável. Se Freud já não explica, a Física

até que tenta. Nos domínios do reino de Aphrodíte, não apenas protóns e elétrons se atraem, mas também protóns e protóns; elétrons e elétrons; neutros e neutros; neutros e protóns; neutros e elétrons. Ou todos estes entre si, formando pares, trios, sextetos... Ou o que corpos e mentes forem capazes de apreender.

Tal qual as forças de atração fogem da modesta cognição terrena, a repulsa vem acompanhada do amanhecer. Tudo que fora regido pela noite não resiste à luz advinda do Astro Rei. Os corpos celestes que na escuridão se chocam e liberam energia, sussurros, risos, súplicas e transe efêmero; à presença de luz partem rumo ao vácuo do desinteresse envolto na

imensidão do desencontro. As linhas do espaço­tempo dão sequência à sua eterna expansão. Ao menos, até que o eterno acabe. A sequência das interações e transformações se dão contínuas e tediosas. Nem mesmo quando o rígido e (falso)moralista Monarca se ausenta para seu repouso, as cargas elétricas que orbitam Vênus em suas carcaças orgânicas são capazes de reagir aos estímulos dos feixes artificiais como outrora. Quantidades colossais de energia a ser consumida e calor para ser liberado em tributo à Deusa do amor. O que acontecera com a gula de seus servos? As ausências matinais deixam o vazio, este por sua vez, a ser preenchido por energias parasitárias. A solidão imposta pelo deus que fere, mas também cura. Antagônica aos deuses, a entidade da artificialidade, gerada por estranhos seres de uma civilização antiga e devastada, surge para ofertar aos alucinados da noite, agora enfraquecidos e subnutridos, um amplo cardápio de alimento em escala industrial, dispensando o vigor das


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caçadas noturnas. O serviço de fast foda food chega enfim ao Monte Olimpo, após enorme sucesso e repercussão em Sodoma e Gomorra. Seria esse menu intuitivo e apetitoso capaz de salvar a cultura canibal responsável por manter o núcleo de Vênus ativo? Sob um primeiro olhar, é possível perceber um reânimo das partículas de carbono noite adentro. Com pezar dos entusiastas da expotaneidade, a compactação de matéria agora passa por longos processos de negociação prévia. Não mais noite, não mais luzes coloridas, não mais fumaça, não mais dilatação, não mais suor. Onde terão ido aqueles ruídos quase insuportáveis?

Que sentido agora fazem os olhares? A comida vem fácil, porém a fome existencial persiste, chegadas as manhãs. Seria um boicote dos astros à heresia das facilidades artificianas? O que poderia explicar o fato dos ainda seguidores de Aphrodíte se autoconsumirem tanto e mesmo assim não permitirem que nenhum nutriente sobrevindo de sua coexistência carnal permaneça em si? Por que não há trocas permanentes e sim tão somente instantâneas? Estariam as virtudes e maravilhas do Monte Olimpo fadadas ao desaparecimento? Estaria o Astro Rei asseverando em demasiado o olhar de seus faróis abençoadamente luminosos e

quentes e com isso, intimidando os filhos de Vênus? Ou a resposta estaria no atual modelo de consumo desenfreado e descartabilidade de tudo aquilo que já fora usufruído? Está instaurada a crise na terra dos prazeres! Teriam os filhos da Deusa provado do fruto proibido do individualismo? Dentre tantas teorias, só se sabe que o reino dos afetos e relações calorosas hoje está sob uma aterrorizante frente fria. Na tentativa desesperada de servir calor ao seu regente de brilho esplendoroso, os amantes se tragam compulsivamente do mesmo modo que se descartam logo após. Objetificam­se. Nada permanece. E por fim, não há ninguém perto de você.


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O Dilema da Casa Rachada POR JEFFERSON S. GOMES

Eva não se lembrava de tê­ la visto outras vezes, embora não pudesse dizer que tenha despendido atenção sufi­ ciente àquela parede, a ponto de garantir que a tal rachadura fosse evento novo. Hoje, contudo, esteve entedi­ ada durante todo o dia, e seus olhos foram fisgados pelo risco preto na imaculada parede branca da sala de vídeo, que ela própria aju­ dara a pintar. Pensou na re­ forma da estação de metrô, a menos de meio quilômetro de casa; impossível esquecer a agonia do som das britadeiras e do assédio dos operários. Na época, soube

de reclamações de vizinhos que não deram em nada. Mas aquilo já beirava um ano. Que estranho verme esper­ aria tanto tempo para dar as caras? Então, preocupou­se. O verme corrói por dentro antes que o primeiro sintoma apareça. A casa estava podre! Primeiro, gritou pelo pai. Ele veio sem camisa, a bar­ riga de cerveja caindo sobre o cós da calça e o bigode es­ pesso aparando os perdigotos que teimavam em escapulir quando ele falava. Queria saber por que a menina o chamara. Eva, então, apon­ tou a rachadura, com seu in­ dicador fino, alvo e sem

cutículas. O homem olhou com atenção, apertando bem os olhos, pois, na correria, deixara os óculos sobre o cri­ ado­mudo. Ainda assim, não parecia nada demais. Tanto escândalo por um traço im­ perceptível. Era óbvio, para ele, que uma casa antiga como aquela apresentasse defeitos. Deu meia volta e foi embora com um sorriso de deboche ecoando pelo corre­ dor. Então, foi a vez da mãe. Esta, complacente, dissera­ lhe que, talvez, fosse bom cair a casa, afinal, o seguro os compensaria com algo próx­ imo dos sete dígitos, e pode­


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riam comprar algo melhor. Mas Eva não se conformava. Não podia dormir com a ideia de que o teto desabaria em sua cabeça a qualquer in­ stante. Decidiu ir pela ideia da mãe, mas não estava dis­ posta a esperar pelo seguro. Por conta própria, passaria a casa adiante, sem contar so­ bre o problema na parede. Jogou um anúncio na inter­ net, que primeiro chegou ao alcance do irmão mais velho. “Como pode vender nossa casa?”, perguntou ele, estu­ fando o peito mirrado e en­ grossando a voz que seus quinze anos ainda equal­ izava. Eva contou sobre a rachadura, e o irmão olhou para aquilo com tristeza. Era uma parede realmente

bonita, branca de doer nos olhos. Ele voltou ao quarto e quebrou o porquinho de louça que ganhara do pai e que alimentava há mais de dois anos. Com o rendimento do porco e a ajuda dos ami­ gos, conseguiu dinheiro sufi­ ciente para argamassa, espátula e mais tinta branca. Cobriu o buraco naquela mesma tarde, não sem deixar aquela área empelotada e es­ palhar uma boa quantidade de tinta e massa pelo piso de porcelanato. A mãe teve um surto quando viu o que o filho fiz­ era. Era fato que a rachadura não estava mais lá, embora qualquer um que tivesse ol­ hos pudesse localizá­la pela protuberância deixada no

conserto. E os pisos? Tão caros, tão lindos e tão em­ porcalhados. Gritou e gritou mais vezes. O pai ficou agi­ tado, mandou­a calar a boca, porque aquilo era fácil de limpar. Discutiram feio, falaram coisas que abafaram desde a época do namoro, agrediram­se fisicamente. Atiraram objetos uns nos outros, livros, copos, panelas. O som das panelas foi ouvido em todo o condomínio. Os ir­ mãos foram dormir sem dar um pio. No outro dia, teriam que escolher com quem iriam morar, e, juntos, teriam que dar um jeito na dezena de rachaduras que apareceram naquela noite.


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Filho Pródigo POR LUCAS VICTOR

Maio começou rápido e logo chegou o famigerado Dia das Mães. Como todo pseudo­fe­ riado, Dia das Mães não passa de um fruto da mídia capitalista pra manter a taxa de vendas estável entre a páscoa e o São João. Os malditos não podem (nem querem) deixar seu salário respirar. Usam a pressão so­ cial e o acordo familiar pra te forçar a comprar algo pra sua mãe. Não importa se vocês não se falam há dois anos ou se ela tentou te matar ontem. Pra todo tipo de mãe há uma bugiganga com uma pro­ moção imperdível. Eu, é claro, como toda a massa fodida desse país, es­ tava sob a mesma ordem. Saquei parte do adianta­ mento do livro, pelo qual quase arranquei sangue do editor, e comprei um pre­ sente qualquer, afinal, qual­ quer coisa seria alvo da ironia ácida de alguém que só podia ser a mãe de alguém como eu. Peguei meu carro na oficina e fui para a casa da velha. O Audi A1 azul da minha irmã já estava na garagem e tive que esta­ cionar no sol. Cheguei suado, com um embrulho tosco de­ baixo do braço, e toquei a campainha. “Só um mo­ mentinho.” gritou a voz lá de

dentro. E 30 segundos de­ pois, Laila abre a porta. Minha irmã e eu nunca nos demos muito bem. Não me entenda mal. Eu a amo, mas nunca fomos boa com­ panhia um pro outro. Pode­se dizer que, durante os 14 anos de convivência, nós apenas suportávamos a coexistência. No entanto nunca brigáva­ mos de verdade. Somos ex­ tremamente diferentes, só isso. Ela é 3 anos mais velha que eu e foi planejada, en­ quanto eu fui a última tenta­ tiva de ressuscitar um casamento apodrecido. Ela é uma corretora bem sucedida e orgulho da família, e eu sou o estranho no ninho. Ainda assim, no meu aniversário de 14 anos, quando fugi de casa, Laila me deu todo o dinheiro da mesada que vinha jun­ tando pra que eu pegasse um ônibus para o mais longe possível. Parece ruim, mas vindo dela, era compaixão. Ela saiu de casa 2 anos de­ pois pra fazer faculdade no exterior. Na sala estavam minha tia Laura, o tio André e a velha. Eles não eram realmente meus tios, já que minha mãe era filha única, mas cresci os chamando de tios. Pedi a bênção aos meus tios, o que, no nordeste, é mais um

cumprimento respeitoso do que um ato de fé. Minha mãe já me olhava com de­ saprovação. Entreguei­lhe o presente, desejei feliz Dia das Mães e tudo mais que o con­ trato social exige. Após as óbvias reclamações e alfine­ tadas, retornaram ao assunto de sempre: Eu. Ninguém en­ tendia o porquê de eu ter largado a carreira de profes­ sor pra ser escritor. Eu ten­ tava explicar que os garotos não queriam ser ensinados, enquanto os leitores, por al­ gum motivo misterioso, bus­ cavam minhas palavras. Laila olhava para mim com pena e tentou até mostrar as fotos de sua última viagem a algum país asiático subde­ senvolvido. Os idosos apenas passavam os olhos sobre a tela do tablet e começavam o escárnio. “Você tá precisando emagrecer, em?”, “Pra quê um lugar tão lindo se não tem nem marido nem filhos pra compartilhar?”, “Que ra­ paz simpático! É seu namorado?”. E logo ela guardou o tablet. “E você? Não tem nada pra nos mostrar?” sibilou minha mãe. “Ele não usa computador, nem deve ter um celular.” ela continuou “Além do mais nunca saiu bem nas fotos. Nunca sorri, essa peste.”


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Levantou­se, pegou um ál­ bum antigo de família e começou a folhear. “Vê só Laura, nem quando era cri­ ança ele ria. Sempre sério, de cara fechada.” e era verdade. Eu nunca gostei de sorrir pra fotos. Não que eu seja amargo desde pequeno, na verdade eu fui uma criança bem feliz e alegre. Mas há algo no ato da pose sorri­ dente pra fotos que me inco­ moda. Se eu sorrir pra qualquer lente, como as pes­ soas vão saber o quanto são especiais quando me arran­ cam um sorriso de verdade? É como se alguém só pudesse ter um momento realmente feliz se fosse capaz de provar com imagens que o teve. Depois do calvário, final­ mente chegou a hora do al­

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fui me despedir dela. A velha me abraçou, me deu um beijo na testa e disse “Tente ser alguém na vida. Me dar netos. Seria bom ter crianças cor­ rendo nessa casa de novo.” e eu sorri. Fui emb­ ora. Meu aparta­ mento estava es­ pecialmente silencioso nesse dia. Pensei em crianças cor­ rendo. Peguei uma cerveja na moço. A velha tinha muitos geladeira e me sentei pra ler defeitos mas na cozinha ela o jornal. Esperava ver uma era uma deusa. O que mais boa notícia. Meia dúzia de senti falta quando saí de casa mortes, um estupro, uma jo­ foi a comida. Não era alta co­ gada política e só. O de sem­ zinha francesa mas era boa. pre. Nas notas de Realmente boa. Ela havia falecimento, três nomes. Dois feito peixe com laranja. Meu idosos de 67 e 84 anos. E um prato favorito. Enquanto co­ rapaz de 27. Essas notas mia, ela constantemente nos nunca dizem a causa da mandava ter cuidado com as morte mas a gente sempre espinhas. Da mesma forma imagina que seja natural a que fazia quando a gente era menos que a idade não con­ criança. Laila precisou ir em­ corde. Se bem que com 27 bora logo após o almoço. Eu ele talvez até tivesse fil­ fiquei para consertar algumas hos.Talvez ele tenha bebido e coisas na casa. Uma boca en­ dirigido. Talvez tenha se tupida do fogão, uma porta matado. Talvez tenha bebido rangendo demais, pregar al­ até a morte em seu aparta­ gumas tábuas soltas da cama mento. Ou nada disso.Talvez e etc. “Pelo menos sabe ser eu coloque uma nota dessas homem útil.” minha mãe para a minha mãe um dia. dizia. Antes de ir, pedi a Ou quem sabe ela coloque bênção novamente aos tios, e pra mim. Ou talvez não.


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Poesia à flor da pele POR CLARICE DOMINGUEZ

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Dos vinte quilos que perdi Vinte e três são seus O peso que me punha sobre os ombros Ficou a ver navios

Navego a dor Como quem corre em peles quentes Saboreando novos céus e sóis A sós Navegador de aguardente Não abranda o peito com nada Além de nós

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Por vezes quando estou só Tenho vontade de dizer teu nome Ele me sobe à garganta e afaga minha língua Roça meus lábios E some (Se) parte na mordida de quem esgota o choro Devoro teu nome e ele morre Morre de medo e morre de fome


Resenhas


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José Luiz dos Santos: O que é cultura? POR ALDA MARIANA

quer dizer inteirar­se sobre a realidade vivida dentro de cada povo, nação e so­ ciedade, cada um tem sua lógica interna, e conhecendo­ as sem preconceito, desco­ briremos os sentidos as suas práticas, costumes e con­ cepções. Nas discussões do autor, ele fala que cada cultura é o resultado de uma história particular, incluindo também suas relações com outras cul­ turas, as quais podem ter car­ acterísticas bem diferentes. O que é cultura Santos discute que existem José Luiz dos Santos duas possibilidades básicas 89pp. Editora Brasiliense. R$ de relacionarmos diferentes 32. culturas entre si. A primeira seria, com principal ideia hi­ O que é cultura?, de José Luiz erarquizar essas culturas se­ dos Santos, traz um conjunto gundo algum critério, e da de ideias reais e mitos do que alguns exemplos o controle venha a ser, o que caracteriza de tecnologias e a produção e o que é cultura. De acordo de materiais, e por esses mo­ com Santos, a cultura é uma tivos uma cultura ser mais preocupação contemporânea, avançada que a outra. Na se­ em que busca entender os gunda possibilidade de rela­ vários caminhos que levaram cionar diferentes culturas os grupos humanos ás suas dadas pelo autor, é negado relações presentes e suas per­ que se seja viável qualquer spectivas para o futuro. Para tipo de hierarquização. Ele ele, a cultura diz respeito a diz que cada cultura tem seu humanidade como um todo e próprio critério de avaliação ao mesmo tempo a cada um e que para existir essa hierar­ dos povos, nações, so­ quização é necessário que ciedades e grupos humanos. uma cultura subjugue os Para o autor, estudar cultura critérios da outra. Não seria

correto a comparação entre as culturas, dada a multipli­ cidade de critérios culturais. A preocupação com os es­ tudos sobre o que é cultura começam a ganhar importân­ cia a partir do século XIX. O objeto fundamental dessa preocupação seria a con­ statação das variadas formas de vida entre sociedades e nações. O autor diz que a ideia de uma linha de evolução única para as so­ ciedades humanas é ingênua e esteve ligada ao precon­ ceito e discriminação raciais. Ele comenta, também, sobre a diversidade das culturas para constatação do rela­ tivismo cultural. Para ele essa observação é totalmente enganosa, pois se insistirmos em relativizar as culturas e só acompanhá­las de dentro para fora, não será possível admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre as sociedades e as nações im­ põe. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo ab­ soluto. Santos aceita que existam variados sentidos sobre o conceito de cultura, mas para ele tudo que se caracteriza em se preocupar com a pop­


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ulação humana pode ser cul­ tura. Querendo ser mais di­ reto, diz que existem duas concepções básicas sobre cul­ tura. A primeira dessas con­ cepções diz respeito a tudo aquilo que faz parte de uma realidade social e a segunda refere­se mais especifica­ mente ao conhecimento, às ideias e crenças de uma so­ ciedade. Cultura passa a ser entendida como uma dimen­ são totalizadora, na qual, por mais diferentes que possam ser as relações entre nações, países, todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semel­ hanças em sua existência so­ cial. A cultura é um produto da vida humana, aplicada ao conteúdo de cada cultura particular, produto da

história de cada sociedade. A realidade da cultura faz parte de um aspecto a qual a mu­ dança é fundamental. No livro é abordada, tam­ bém, a relação entre cultura popular e cultura erudita. Desde sempre a cultura eru­ dita é associada com as classes dominantes, e sua ex­ pansão pode ser vista como colonizadora, pode ser enten­ dida como uma ampliação das formas de controle social, que mantêm as desigual­ dades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. Enquanto a cul­ tura popular é entendida desde de manifestações cul­ turais dessas classes, difer­ entes das da cultura dominante. As concepções de cultura e o próprio conteúdo

da cultura estiveram sempre relacionados entre as classes sociais: a oposição entre cul­ tura erudita e popular e um produto dessas relações. Santos consegue abordar no seu livro as diversas for­ mas de cultura que existem, com o objetivo de explicá­las e de maneira bastante clara. Sempre mostrando ao leitor suas ideias e ponto de vista e seus argumentos para de­ fendê­los. Ele consegue man­ ter o texto sempre coerente e com uma linguagem acessível ao leitor. A crítica a obra torna­se assim puramente positiva. Retomando aos pontos abordados na leitura total do livro, é de se concor­ dar com José Luiz dos Santos que a Cultura é o legado co­ mum de toda a humanidade.


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Neuromancer: o clássico ainda é novo POR BEATRIZ VITAL

Neuromancer William Gibson Traduzido por Fábio Fernan­ des 312 pp. Editora Aleph. R$ 44. Imagine um espaço no qual dados de computadores espalhados pelo mundo inteiro sejam acessados todos os dias por bilhões de pessoas de todas as nações. Parece a

internet? Na verdade, é assim que William Gibson descreve a fictícia matrix, também chamada de ciberespaço, em seu livro Neuromancer, publi­ cado em 1984. O romance não foi só o primeiro da carreira do autor, mas também a primeira obra a ganhar os três principais prêmios da literatura de ficção científica dos Estados Unidos — o Nebula, o Philip

K. Dick e o Hugo. Está tam­ bém entre os primeiros livros de um então novo subgênero da ficção científica, o cyber­ punk. Neuromancer tem tudo que uma legítima história de cyberpunk tem direito: uma visão pessimista do futuro, metrópoles decadentes, tec­ nologia e ciência supera­ vançada, ciborgues, um herói hacker e megacorporações


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que dominam a sociedade e praticamente substituíram qualquer forma de governo. Case é o anti­herói da história. Um dia caubói do ciberespaço, ladrão de dados secretos de corporações cujos sistemas estão representados virtualmente na matrix; no outro criminoso comum, ten­ tando sobreviver no sub­ mundo do crime de Tóquio, sem poder entrar na matrix depois de ter seu cérebro danificado por uma toxina, como punição por ter roubado de seus empre­ gadores. Como as demais person­ agens, Case é amoral. O mundo especulado por Gib­ son é um lugar onde as pes­ soas são endurecidas, talvez pela selvageria das relações econômicas e de poder, e onde abundam as possibili­ dades de fuga da realidade pelo vício — em drogas, em jogos de computador, nas ex­ periências virtuais da matrix e dos decks de simstim, simu­ ladores de estímulo. A sociedade de Neuro­ mancer leva o desafio cibernético aos limites do corpo às últimas consequên­ cias. Case, com suas simples próteses dentárias, é um “virgem” se comparado à par­ ceira Molly Millions, com seus característicos óculos es­ pelhados, ligados à pele, e garras retráteis ocultas sob as unhas vermelho­escuras. No futuro, qualquer um pode

ampliar a própria sensibili­ dade à informação usando pequenos microsofts re­ movíveis ou acessórios cirur­ gicamente implantados. O romance deve muito de sua atmosfera e construção de personagens aos filmes noir e às histórias de dete­ tive. A jornada que move o enredo do livro é envolvida em mistério e culmina em uma revelação que embora interessante, não é de todo surpreendente. A forma do texto dá um passo atrás em relação as in­ ovações literárias dos anos 60, retomando muito da ficção científica tradicional. Por outro lado, a experiência de leitura que Neuromancer oferece é extremamente densa e prolífica em neolo­ gismos e termos técnicos, que o tornam um livro um pouco trabalhoso de ler. Ainda assim, o livro é uma obra clássica e merece ser lido por todo fã de ficção científica. Além de ser re­ sponsável por legitimar o cy­ berpunk como gênero, queridinho dos acadêmicos pós­modernos, trouxe ino­ vações linguísticas ao popu­ larizar termos como “ciberespaço” e “matrix” e ainda continua a influenciar criadores de livros, filmes, quadrinhos e videogames que encontram na obra seminal de Gibson uma fonte de in­ spiração.

William Gibson (1948) começou a carreira de escritor nos anos 1970. Suas primeiras histórias, em estilo noir e ambientadas num futuro próximo, já especulavam sobre os efeitos da tecnologia, da cibernética e das redes de computadores na humanidade. Depois do sucesso da Trilogia do Sprawl — Neuromancer, Mona Lisa Overdrive e Count Zero —, Gibson publicou ainda os romances A Máquina Diferencial (com Bruce Sterling), a Trilogia Bridge, Reconhecimento de Padrões, Território Fantasma e História Zero, além de mais de 20 contos.


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As Crônicas de Gelo e Fogo A série de fantasia épica que arrebatou fãs pelo mundo inteiro possui inspiração em obras clássicas e fatos históricos, com personagens multifacetado e trama complexa POR JEFFERSON SILVA GOMES

Série: As Crônicas de Gelo e Fogo George R. R. Martin Traduzida por Jorge Candeias e Marcia Blasques Editora LeYa As Crônicas de Gelo e Fogo é, provavelmente, a saga de fantasia mais famosa da atu­ alidade. Escrita pelo ro­ mancista e roteirista norte­americano George R. R. Martin, a trama começou a ser desenvolvida em 1991, tendo o primeiro volume lançado apenas em 1996. De início, a intenção do autor era de fazer uma trilogia, mas, atualmente, a série con­ siste em cinco volumes publi­ cados, com mais dois planejados. Martin também escreveu três contos deriva­ dos e algumas novelas que consistem de resumos dos livros principais. Existem três argumentos

principais na história que in­ terligam­se cada vez mais ao decorrer dos livros: a crônica de uma guerra civil dinástica entre várias famílias concor­ rentes pelo controle dos Sete Reinos; a ameaça crescente das criaturas sobrenaturais conhecidas como os Outros, que habitam além de uma imensa muralha de gelo ao Norte; e a ambição de Daen­ erys Targaryen, a filha exi­ lada de um rei louco deposto 15 anos antes em outra guerra civil, prestes a voltar à sua terra e reivindicar seu trono por direito. A série foi traduzida para vinte idiomas, tem mais de 4,5 milhões de cópias impres­ sas nos Estados Unidos e vendeu mais de 25 milhões de exemplares mundial­ mente. Todos os romances foram, em geral, bem rece­ bidos pela crítica literária e pelo público, sendo indicados

a diversos prêmios de fanta­ sia e ficção científica, como o Locus, o Nebula e o Hugo. No Brasil, os livros são publica­ dos pela editora LeYa, e em Portugal, pela Saída de Emergência. Adaptada para diversos formatos, a série de As Crôni­ cas de Gelo e Fogo, alcançou sucesso onde quer que re­ solvesse explorar, como jogos de videogame, histórias em quadrinhos, bonecos em miniatura e, a mais notória das adaptações, uma série de TV intitulada Game of Thrones (título do primeiro livro), produzida pelo HBO. A atração televisiva apresentou a série a um maior número de leitores e lhe trouxe maior notoriedade, fazendo com que os quatro primeiros vol­ umes da série surgissem en­ tre os dez primeiros colocados na lista de mais vendidos do jornal norte­


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americano The New York Times, em 2009. Hoje em dia, onde a liter­ atura de massa costuma ocu­ par todos os lugares nas prateleiras e a grande pre­ ocupação das editoras é a quantidade de vendas e não a qualidade dos livros, As Crônicas de Gelo e Fogo con­ seguem se destacar quando o quesito é a qualidade da es­ tória. Os livros têm teor adulto e uma linguagem re­ buscada excelente. Podemos perceber que o autor é real­ mente preocupado em man­ ter um nível alto, já que os livros demoram muito tempo para serem lançados. Como já foi falado, as referências históricas são constantes, e o leitor jamais é subestimado com capítulos sem sentido. Podem acreditar, até a frase mais descartável tem muito a dizer sobre os personagens e

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sobre o uni­ Até a frase mais descartável verso onde tem muito a dizer sobre os esta estória é personagens ambientada. tenham o seu ponto de vista Os capítulos dos livros são di­ exposto, pode ser narrado de vididos pelo “ponto de vista” forma completamente difer­ de cada personagem e nele ente por cada um dos per­ podemos saber os pensamen­ sonagens, por exemplo. tos, angústias, questionamen­ O sucesso da série pode tos dos personagens que tem ser explicado pela forma com capítulo próprio e saber tudo a qual o autor desenvolveu o que eles andaram fazendo sua trama. Martin descreve por aí. É como se estivésse­ roupas, ambientes, armas, fi­ mos dentro da cabeça deles. sionomias e vários outros as­ Apesar de ser uma estória so­ pectos de seu mundo sem bre reis, quase nenhum capí­ deixar a leitura maçante, pois tulo é narrador por eles. não se esquece de que, emb­ Ouvimos falar desses reis ora descrições ajudem na ex­ através do olhar de uma mãe, periência, a maioria dos de irmãos mais novos, do leitores desse tipo de obra filho bastardo aparentemente quer ação – e não falo apenas insignificante, do cavaleiro de guerras, mas de diálogos, que só está preocupado em discussões, demonstrações de cumprir seu dever e promes­ afeto. Eu não queria apenas sas. Dessa forma, um mesmo apreciar a beleza do mundo evento ocorrido com dois criado por Martin, queria personagens diferentes que

Dos sete volumes planejados, cinco já foram publicados: A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis, A Tormenta de Espadas, O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões.


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“ver” as pessoas vivendo nele. A leitura flui, especial­ mente por causa do estilo ágil do autor e do equilíbrio entre descrição e ação. Os capítulos não são muito cur­ tos, mas eles começam a pas­ sar rápido assim que você se envolve com a história Apesar de “As Crônicas” ser uma série de fantasia épica, com dragões, zumbis de gelo e muita magia, sabe­ mos que George R. R. Martin bebeu em várias fontes para constituir essa complexa es­ tória. Poderíamos citar vários, mas focaremos em um só. Uma das principais inspi­ rações do autor foi um con­ flito histórico conhecido com “Guerra das Rosas”, que foi uma sucessão de batalhas que perduraram por trinta anos na tentativa de conquis­ tar o trono da Inglaterra du­ rante o século XV. Este conflito recebeu este nome, pois os símbolos de algumas das casas que estavam lu­ tando para conquistar o poder neste país eram rosas. Inclusive duas casas de grande importância em As Crônicas de Gelo e Fogo são representadas por flores, Tyrell e Florent, sem falar da semelhança entre os nomes de outras casas e suas respec­

Uma série de fantasia épica, com dragões, zumbis de gelo e muita magia

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George R. R. Martin, autor da saga de fantasia As Crônicas de Fogo e Gelo tivas histórias, como por ex­ emplo, os Yorks que se assemelham aos Starks (habitam o norte), enquanto os Lancasters parecem com os Lannister (são imensa­ mente ricos). Não existe “bonzinho” e “malvado” quando o assunto é As Crônicas de Gelo e Fogo. Uma das principais carac­ terísticas dos personagens é a capacidade de serem volúveis. Todos eles são mutáveis em todos os senti­ dos e é isso que os torna tão reais. Não são só mudanças para o “lado negativo” que

acontecem. A construção de cada um deles no decorrer dos livros é fantástica. Diversas crises existenciais rondam cada um dos person­ agens enquanto lutam inces­ santemente para sobreviver. Os protagonistas são cheios de defeitos e pecados e os su­ postos “vilões” são carrega­ dos de histórias que nos fazem compreender porque eles chegaram a este ponto, sendo que até passamos a torcer por eles, em certos as­ pectos.


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Literatura e poesia sob um olhar jovem e (pós)moderno.