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F e r na nd o

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silencio


Imagem da capa: Felipe Brasil | @felipebrasillp

Nunes, Fernando Cais de Pedro / Fernando Nunes -E-book, Curitiba, 2016. 1.

Poesia brasileira 2. Literatura brasileira Copyright Š Todos os direitos reservados.


F e r na nd o

n u n e s cai sde pedr o


“Bem aventurados os simples de coração, de mente aberta e criativos, porque conseguirão compreender o segredo da vida e a essência das coisas.”

~5~


Ă€s saudades que eu gosto de ter.

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“A vós bradamos os degradados filhos de Eva”

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“É impossível levar um barco sem temporais E suportar a vida como um momento além do cais” - Jards Macalé

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“Enquanto navegavam, ele adormeceu. Abateu-se sobre o lago um forte vendaval, de modo que o barco estava sendo inundado, e eles corriam grande perigo. Os discípulos foram acordá-lo, clamando: Mestre, Mestre, vamos morrer.” [Lucas 8: 23-24]

~ 10 ~


“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!” Escreveu o grande poeta em sua Ode Marítima. Junto à minha janela, eu ancoro meu coração em uma dessas saudades de pedra, que saem robustas e resolutas de mim e não se acanham diante das marés de solidão, de silêncio, de saudade, do Divino.

~ 11 ~


06:00 “Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou?” [Mateus 16:15]

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Oxidação Morando longe do mar eu sinto falta dele Falta de ouvi-lo e cheirá-lo, de vê-lo mansinho avançar pela areia molhada e tocar meus pés, me abençoando Crescer junto do mar é uma benção! A maresia nada mais é que vibrações, energia que destrói o ferro e tudo mais que é corruptível. O mar seleciona o que vale. Sinto falta disso, dessa relação onde não se diz nada e a gente apenas se ouve respirando os momentos que se quebram enquanto as ondas alcançam a praia

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Está calor Em um reflexo de uma noite quente a cantora está muda, embora haja muitos remendos a unir na noite escura lá fora: na sombra da alta araucária, no baixo da minha alma, no chão do quarto, nos retratos da memória. Não sei em qual segundo, entre tantos, tive a ideia de registrar essa onda. O calor deixa o corpo mole, os pensamentos acompanham. Tudo que é refletido ganha um brilho de suor, um cheiro natural de corpo e uma preguiça total de viver o real. Noites quentes jamais deveriam ser solitárias e menos ainda ter reflexos. Noites quentes jamais deveriam ser guardadas quando não houvesse alguém por perto.

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Tarde de domingo Por que me beijas assim, como se quisesses entregar algo que não possuis? Como se a noite pudesse durar um infinito enquanto estou nos teus braços? Por que se pões em silêncio ao meu lado, quando podes falar dos moços à nossa frente que passam maneiros, trabalhadores e jovens? Eu sei o que sinto perto de ti e me dói que confundas conversas agradáveis com o sentimento acarinhado que prendo com força, dentro da boca, com os dentes e sobre a língua, para não deixar escapar o quanto te quero e disfarço. Me dói que não te demores por não sentir o mesmo e me assusta a ideia de mover-me e não ter, por outras vezes, mais desse mesmo. Adoçaste meu beijo que tanto quis o teu, mas amarguraste o peito que te daria por morada no conforto de tardes chuvosas ou ensolaradas dentro desse dia de domingo, que sem nós, se perdeu.

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Enseada Eu sei que andei meio perdido longe de casa e dos amigos sem os abraços que amortizam a solidão Que procurei um tal sentido em muitos corpos, outros sorrisos que se hospedam na enseada do coração Lá eu te olhei Reconheci o azul do mar E no brilho do seu olhar vi águas mornas, ondas sinceras um cais de pedra para ancorar E te beijei Deixei meu corpo banhar no mar O sal na pele, o corpo quente, a maré mansa de um oceano para me afogar E se andei meio perdido Nos teus braços achei um abrigo e hoje só restam as lembranças da solidão Você me trouxe outro sentido além dos corpos, outros domínios agora erguidos na enseada do coração

~ 16 ~


Onde eu te achei E mergulhei no azul do mar dentro do brilho do seu olhar de ĂĄguas claras, ondas sinceras o cais de pedra onde vim parar Eu te beijei Deixei meu corpo nadar no mar da tua pele, teu corpo quente, a marĂŠ alta de um oceano para navegar

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Ainda nós Ainda tenho aquele nosso velho retrato Ainda guardo as cartas que escreveu no passado e o disco da banda sueca que você me deu. Ainda que eu não esteja do seu lado, Nem ligue ou responda seus recados Te amo como sempre nosso amor não se perdeu Nem se perderá. Ainda que eu esqueça do seu aniversário e todas essas datas do nosso calendário Marcado em vermelho está o abraço que a gente deu Os filmes que nós vimos, os finais que choramos, os dias de domingo, as canções que tocamos os livros do Paulo Coelho que a gente leu E se você se for Eu vou te buscar praquela nossa vida de finais tranquilos na beira do mar E se em nossa história só couber o passado, não se esqueça nunca que como amigo fui seu melhor namorado

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Vício Quando toca meus lábios minha boca resseca tudo em mim se desperta Essa cor inebriante, esse verde hilariante que ao vermelho desperta Quando longe de mim, perco o tino total Quando perto de mim, a loucura ideal Teu odor fascinante O teu gosto vibrante Branco espesso no ar Quando dentro de mim, é delírio real Quando fora de mim, poesia carnal Dos corpos noite adentro, tragando os encontros que a natureza dá

~ 19 ~


Porta afora Volta meu bem, vamos recomeçar Deixa essa história de ir embora para lá Fique um pouco para lembrar tudo o que foi nós dois Desfaz as malas, vamos conversar Deixa meu corpo todo te tocar, te relembrar do prazer que eu posso te dar depois Lembra de quando você me dizia que nada mudou e era só fantasia. Mania de sempre sentir nossa cama vazia Dizer a verdade antes de me deixar Ver toda essa vida de poeira rolar porta afora, aberta, que eu deixei um dia Relaxa meu bem, vem tomar esse chá Deixa meu corpo todo te cercar Trazer para tua pele de novo meu jeito de amar devagar Despir mentiras, te fazer adiar, reter palavras para na boca guardar seu gosto leve, quente, sempre, sem parar depois Porta afora, aberta, que eu deixei um dia Na casa agora incerta, que restou vazia

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12:00 “Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” [Mateus 16:16]

~ 21 ~


Pessoas Quanto mais só estou, mais me cerco de pessoas imaginadas. Destas mulheres que me pedem para serem descritas - que sou eu -, essas entidades. Destes homens ambíguos, forças da natureza - esses também sou eu. Eu não sei quando toda essa gente se perdeu, se desprendeu de mim e o que eu sou. Parei de procurar! Se falam, quando falam fico atento, tento anotar Não quero esquecer depois. Aceitei o Dom de vê-las se manifestar. Nem tudo o que me dizem é bonito, é poético, é sobre esta vida. Muito não se aplica, elas o sabem e gargalham de mim sonoramente, cada vez que me empenho em explicar.

~ 22 ~


Benção Eu te abraço, beijo sua testa e te abençoo, pedindo ao Universo que mantenha nossa luz. E fico a esperar que você volte, que complete sua volta em torno dos astros, uns mais brilhantes do que eu em sua órbita. Nenhum que te abra o portão como eu, em sua despedida. O amor não é essa tal liberdade?

~ 23 ~


Quando eu? Quando eu trancado no quarto Quando eu dias de chuva Quando eu ouço o trovão Quando eu na sombra da música Quando eu canto Quando, quanto? Quando eu? Quando eu ardendo fogo Quando eu madrugada Quando eu toco a brasa Quando eu estremeço Quando eu gozo Quando, quanto? Quando eu? Quando eu correndo campo Quando eu noite de ano Quando eu falo com ciganos Quando eu leio a minha mão Quando eu encanto Quando, quanto? Quando eu? Quando eu deitando no campo Quando eu dias de sol Quando eu sinto o vento Quando eu vou com ele Quando, quando Quando eu?

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Virgem do Silêncio Do concerto mais reverente de instrumentos afinados à mais bela sinfonia não ouvida: compassos de ausências. Como as montanhas que se ergueram há milhares de anos no dançar dos continentes, tudo é teu, tudo te pertence. Tudo te manifesta calado. Grande é o teu domínio! Como o vapor escapando do tronco das árvores, dos galhos, do chão quando o sol esquenta. Estás nos céus, nos desertos, na mata e no profundo azul dos mares, dentro e fora do mundo e tuas terras são o tudo e o nada. Senhora do culto mais reverente A tua orquestra é de silêncios.

~ 25 ~


Velha escola pública É um mistério esse espaço coletivo e o gênero humano, no canto, dele transformando-o, tentando entendê-lo. Quanto esforço! E gênero modifica tudo: as florestas, os rios, o urbano, o rural tudo que é material. O imaterial é outra história. Engenharia do coração não se aprende nas universidades, a escola é a Vida, uma escola pública estadual. Para a maioria faltam carteiras, as lousas para instruções estão gastas, faz calor e molha em dia de temporal. Acima disso, faltam professores (acabamos sempre aprendendo com os maus) O ensino público da Vida é deficitário, não estou dizendo novidade. Revira o externo do gênero mais rápido, como mais força que o interno: máquina de pessoas nem tão humanas. Então por que viver tem tributos tão pesados? Porque a experiência de frequentar - alguns não estudam, frequentam apenas não tem como mensurar.

~ 26 ~


Voo dos olhos vermelhos A chama queima na parte escura onde a lua, virgem relicário, não beija. Não seja! Na parte escura que eclodem desejos mais vindos de bem dos recantos em que as chamas gotejam e em sentido inverso flamejam trêmulas no reverso da ordem do dia Reza de santo proferida sob o fio da Justiça do machado alto-erguido do Rei São João, o Batista concebido, primo do Deus Menino Senhor do Raio e Trovão Kawó Kabiesilé Xangô! O lado em que a chama queima há três amores, três esposas: a com quem divide o Fogo; a por quem chorou; e a que o amou sem ser amada.

~ 27 ~


Nesses desamores, desamores fazem morada onde a chama queima, brasas de tempo gotejam, orvalhos carbonizados flamejam gotas de espera a se enterrar. Reza de santo proferida Reza forte bendizida na beleza da cor do entardecer, por trás da cachoeira, bem ali, no ciúme de amar, onde não se conhece a cabeça de homem: “red eye flights make the stars out” - A luz da chama alumeia, a mente clareia, faz a chama clarear as rochas, que se derretem tudo, todas, ao calor da larva no olhar a tragar.

~ 28 ~


Escrevendo silêncios Comecei a escrever silêncios. Existem muitas maneiras de fazê-lo. O ponto final é a principal delas, depois as vírgulas, as reticências, as fermatas nos compassos, as suspensões ao sabor do intérprete. Há meios de calar-se, conter-se. O amolar da língua, faca afiada. Esquecer, perdoar, dar o braço a torcer, vingar-se, chorar-se, despir-se, matar-se. Silêncios matam aos montes é preciso escrever com cuidado. É preferível escolher os que antecedem do que os que encerram um beijo, os que parecem medo, covardia. O silêncio de se segurar a mão pelo tempo que for preciso. Mais do que isso é perigo, mata. Escreva-se cuidadosamente: silêncio demais mata, grita, seca, cega a faca.

~ 29 ~


18:00 “Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.” [Mateus 16:17]

~ 30 ~


Instantes do Paraíso Quando toca meu lábio, em seda cheiro invade meu corpo, lento e viscoso, seco e esvaziado Deusa de conhecimento Erva solta de futuro cedente entregue à vibração do agora, onde dormente abraço, sou passado que nunca se deu Lá sou tempo, pretérito que nunca foi feito nem sob asas, nem em realidade Um gosto de esquecimento Um beijo de memória, tarde e riso de apenas círculo Ê, mistério dos acordados! Viajante do pensamento em forma, dos entregues é o achado ora perdido no caminho afora, andar no devaneio do equilíbrio Sentar é entrar e o mover-se, o barco Coisa a falar com espíritos: é ouvir os sons do sempre Olhos vermelhos buscado vazios de total e sentido É o natural da liberdade, é fumaça pairada em instantes, que trago do paraíso

~ 31 ~


Deleite da boca Felação e poesia: as duas são poesias, as duas deleite da boca. Uma é expressão do corpo, outra expressão da alma. Quando uma é outra e a outra é uma, ninguém, ninguém sabe ou sabe? São versos curtos e longos, são breves do desejo. Sonatas que em comum, terminam em espasmos, na alvura temporária do doce rio do orgasmo.

~ 32 ~


Último gole Que líquido satânico vermelho encarnado é esse, por nossa senhora? Que cor do veneno da cor do diabo é esse, nossa senhora? Desceu ai, desceu botando fogo em tudo. A fogueira do não resolvido: Tomei um gole. Esqueci o não telefonema; Esqueci o não cancelamento do esquema; o não esqueço que tenho hora; o não gostar de cozinhar. Pegou fogo em tudo, carvão, brasa Eu cambaleei nas cinzas e comi qualquer besteira e bebi também. Que líquido satânico vermelho encarnado Que cor do veneno da cor do diabo Na garrafa só tem mais um gole É esse minha nossa senhora!

~ 33 ~


Prece às Ausências Salve, minha Nossa Senhora, à luz, do Silêncio! Cavaleira de dragão em solo de prata, a ti rendo graças, Tu que abre os caminhos, tu que reproduzes baixinho as vozes que os homens não podem ouvir e faz isso no silêncio desse campo vasto que ocupa a cabeça do homem Reverência Mãe, tu me geras! Em teu ventre não há princípio nem fim nem homem que não foi contado Tu cresces a planta à noite, leva o mar para perto de ti, cresces as unhas e os cabelos, o crescer de porcos e bezerros, teu Silêncio é o poder de orientar. Lava-me, ó Senhora! com a água de pranto parada no teu olhar, e limpa-me para que se possa escrever em mim o que Está Escrito e não pode mudar. Concede-me, Senhora das Ausências, a grande e divina alegoria de aceitar o Faltar.

~ 34 ~


Madrugada Não sei como se dá esse rito de escrever. Ele se dá melhor na madrugada, isso é certo! Sentado no escuro, fumando um cigarro, Lendo o caderninho ao som dos meus dedos dizendo aquilo ao teclado ouvindo os carros passarem na rua às 5h43. Eu deveria estar sonhando. Eu deveria estar dormindo, eu sei. Esse coisa vai me buscar na cama, puxa o meu pé, me xinga e me bate e se eu tento dizer não, ela me grita um silabado covarde. Os ritos atormentam os homens com um disfarce de coragem.

~ 35 ~


Flagelados A luz me devora e, quanto mais a inalo, mais ela me devora, me desintegra e me faz partículas de fumaça, moléculas de carbono e solidão. Física complicada, que transforma presença em calor, elogios em reflexo e interação em fotossíntese. Plantas precisam de luz para produzir alimento (adoradores de likes também), pois como haveriam de chamar de escura a noite se dela viesse mantimento? A escuridão é uma invenção! Uma regalia que Deus dá ao que faz, sem luz, seu sustento e um flagelo para quem, com luz, alimenta-se de reflexos. E faz isso para que todos lembrem, que não há dom sem flagelação.

~ 36 ~


Memórias Fui ver a tarde e lembrei que “you got me wrapped around your finger” mas deixa isso passar, deixa para lá. Hoje a gente gosta de umas músicas, amanhã de outras, algumas tocam, ficam guardadinhas dentro de gente, outras não. A gente dança, esquece, mas quando aquela velha canção toca, seu sentimento reaparece encarnado em lembrança, dessas, das memórias: servem para recordar, mentir, rebobinar, encarar, devagar, chorar, correr, sorrir, mentir, servem para mentir, fazer sentir o que é sem Ser e isso não se sente. É mentira! Vigarice, gatunagem, conversa! Não toque essa música, eu temo que eu possa não ouvi-la, pois ela traz essa mentira do amor que perdi e das lágrimas da derradeira saudade entre tantas mentiras, é a verdade: essa música fere, eu não posso ouvir.

~ 37 ~


00:00 “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” [Mateus 16:18]

~ 38 ~


Registro Ponha algo no papel, pinte os espaços, cresça para dentro, preencha os vazios, troque os cantos; troque a luz, da sala, suavize as arestas, curve a linha reta, circunscreva o ato, afine o grito e caia! Role, levante, ande, marque carreira, conte até três e corra! Corra, pague conta, nade. Mude de lado, de linha, de pena e de caderno; mude de emprego, marido, mude de casa, gênero, transite. Tomé café, leite, vergonha; tome na cara, porre, porra, menos boca, mais o ouvido; Um, dois ansiolíticos, calma!

~ 39 ~


Atende a porta, diga alĂ´, ponha para fora, tire o lixo; durma, acorde, saia, volte. Ousadia ĂŠ registrar o cotidiano.

~ 40 ~


Peregrinação Ó senhora dos peregrinos descansa meus pés cansados doídos em teus encontros e me dá de beber da água ardente de tua garrafa Limpa meu rosto da poeira da estrada e cinge meus lombos para começar a subida Ó senhora dos sem destino Desenha tua rota em minhas pálpebras puídas deixa tua risada aliviar minha fadiga e teu canto cigano me fazer rodar Gira em mim, ó senhora dos caminhos que te encontro na próxima descida na encruzilhada das esquinas quando o povo da rua eu for festejar

~ 41 ~


A queda A escrita é o último sacerdócio que me resta Único que me conecta à performance de Deus, um qualquer dos mortais desconhecidos. Nem o maior nem o menor, nem o do diabo. É o que sobrou da traição dos ritos, da flecha partida ainda no ar flutuante a caminho do alvo. Minha boca é arco, gatilho, é buraco nela caem os rebanhos de meu irmão, saem disparos, tiros e quedas. Caio sempre atirando palavras, flechas, balas, credos. Não sei; sou eu guardador de meu irmão? Não faltam alvos, falta vê-los, distingui-los, derrubá-los puxar a corda-gatilho de minha boca, abrir a mão e deixar sair: flecha que liga o Céu, bala que desliga a Terra; os anjos às crianças, os homens aos demônios, o simples a Deus. O sacerdócio não é só Dele, é das criaturas do Alto e Embaixo.

~ 42 ~


Beija-me Beijo, devagar. Porque nosso beijo não merece o movimento deste mundo. Beijo com toda minha boca, porque você merece tudo de mim. Tudo de um amor. E num beijo eu lhe entrego um mundo, um mundo só meu, disposto livremente no universo disperso e, ainda assim, coeso, que se forma e se desfaz cada vez que nossas línguas se tocam, se sugam, se perseguem, se enroscam. Eu beijo. Não como os outros garotos Meus beijos tem som: o burburinho de palavras, essas, que filtradas pelos sentimentos colocam meu espírito em contato com o seu. Agora, enquanto lhe beijo, e a qualquer hora que você me sentir em desejo, de me ter entre os teus lábios nesse lugar nenhum que vejo de olhos fechados enquanto lhe beijo do outro lado do Atlântico.

~ 43 ~


Pó Desisti dos corpos, eles cansam, cansam muito mais do que podem correr Desisti porque casam, cansa! Dá trabalho para ter e para manter o físico, o imaginado, o espiritual. Quando cansam, só a alma resta só ela tem mais fôlego, um sopro que o material, o corruptível que o vil, que o mal. É fato que eles cansam, cansa! Cansam tantos como os meus, Uns de câncer, outros mágoas, outros dessa uma, mesma coisa, ou de um amor que se perdeu. Enquanto cansam, pensam que dançam e espantam o destino que já se escreveu. Se iludem e se repetem, não servem até que em pó dancem e descasem no vento da calunga de vez.

~ 44 ~


Eu sou filho da Sereia Eu sou filho da sereia, moro no fundo do mar Ela tem cabelo grande e gosta de se enfeitar Quando canta, um delírio, corpo todo se arrepia Dona de cabelo longo É Oloxum, é Janaína Pescador que ouviu seu canto nunca mais se esqueceu Marinheiro viajante no seu porto adoeceu de saudades, de amor, dessa dor que se sente distante dos lábios do Amor Quando chega fevereiro, já me encho de emoção Vou levar minha oferenda e entregar meu coração, que um rio chorou dessa dor que se sente distante dos lábios do Amor

~ 45 ~


Ela é a mãe de muitos filhos, mora lá em Aiocá De um cabelo tão comprido feito as ondas do mar Quando canta, um delírio, já começo a chorar Senhora dos Oceanos Ela é Dona Iemanjá

~ 46 ~


Cais de pedra Há um porto, um destino, um cais desses de pedra, que se estende pelo mar no meio de mim aglutinando faltas umas sobre as outras, em móveis e em silêncio no lamento do eterno movimento dos barcos. À espera da volta do meu barco, que se encontra fazendo oferenda. Nesse cais tão comprido quanto os dias de fome, deveras taciturno como a distância, continuamente se evoca a solidão das faltas. E à medida que se caminha nesse destino ou porto, se avança para dentro do oceano em direção ao ponto onde não se contam os anos, a unidade de tempo é saudade.

~ 47 ~


E houve companhia, som e oração. Porém permanecia a saudade; as pedras desse cais não se movem.

~ 48 ~


“Ele se levantou e repreendeu o vento a violência das águas; tudo se acalmou e ficou tranquilo. ‘Onde está a sua fé?’, perguntou ele aos seus discípulos.” [Lucas 8: 24-25]

~ 49 ~


Notas:

1. “Cristo na tempestade no Mar da Galileia” (p. 9) de Rembrandt [Original: Christ in the storm on the Sea of Galilee, 1633. Stewart Gardner Museum]. 2. O verso “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”

(p. 11) é um verso de Ode Marítima, poesia de Álvaro de Campos: Fernando Pessoa. 3. O verso “red eye flights make the stars out” no poema

‘Voo dos olhos vermelhos” (p. 28) é da canção ‘03.45: No Sleep’, escrita por Nina Persson [The Cardigans]. 4. O verso “you got me wrapped around your finger” no poema “Memórias” (p. 37) é da canção “Linger”, escrita por Noel Hogan e Dolores O'Riordan [The Cranberries]. 5. A última estrofe do poema “Memórias” (p. 37) faz referência à canção “Não toque esta música”, escrita por Antônio José e Célio Roberto. 6. A primeira estrofe do poema “A queda” (p. 42), faz referência à canção “Sangue Latino”, escrita por João Ricardo e Paulinho Mendonça.

~ 50 ~


7. O verso “Não sei; sou eu guardador do meu irmão?” no poema “A queda” (p. 42) é um trecho da conversa entre Deus e Caim, registrada em Gênesis 4:9. 8. A primeira estrofe do poema “Cais de pedra” faz referência à canção “Movimento dos barcos”, escrita por Jards Macalé. 9. Os poemas “Enseada” (p. 16), “Ainda nós” (p. 18), “Porta afora” (p. 20) e “Eu sou filho da Sereia” (p. 45) foram originalmente escritos como canções.

~ 51 ~


21 de agosto Salve Nossa Senhora Virgem do SilĂŞncio!

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Cais de Pedro | Fernando Nunes  

"A grande mensagem do livro é a beleza de reservar-se um tempo para estar só, em silêncio, sentir saudade e aproximar-se do Divino." - Ferna...

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