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JosĂŠ Roberto Marques

Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Coaching Positivo

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Psicologia Positiva Aplicada ao Coaching


José Roberto Marques

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Coaching Positivo Psicologia Positiva aplicada ao Coaching

1ª Edição

Goiânia, 2014

Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Coaching Positivo

Copyright© 2014 by Editora IBC Ltda. Todos os direitos desta edição são reservados à Editora IBC Ltda e respectivo autor. Revisão Mario Pires (Editora IBC) Capa Ivan Silva (Editora IBC) Diagramação e Projeto Gráfico Thays Araujo (Editora IBC) Coordenação Editorial Fernando Morais (Editora IBC) Produção Editorial Gerciane Almeida (Editora IBC) Impressão: Imprensa da Fé Edição original, 2014 José Roberto Marques

Editora IBC Al. Pampulha, 561 - Quadra 07, Lote 04 Setor Jaó, Goiânia, GO - CEP: 74673-200 Telefone: (11) 4062-0988|(62) 4052-0988 Email: atendimento@editoraibc.com.br 4

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Sumário 1 – SELF COACHING O Poder do autoconhecimento Coaching: Um Termo, Um Conceito, Vários Campos Conhecendo o Self Coaching De que “Homem” Trata o Coaching Positivo? Linguagem e Transformação da Realidade

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2 – COACHING E PSICOLOGIA POSITIVA Compreendendo a Psicologia Positiva 21 Coaching e Psicologia Positiva: O Coaching Positivo 22 Coaching Positivo como abordagem transformadora 25 O Modelo PERMA 27 Modelo bioecológico de Bronfenbrenner 29 3 – CONCEITOS ESSENCIAIS Saúde e Felicidade 32 O Significado da Felicidade 33 Mecanismos da Felicidade para o Coaching Positivo 35 O Dinheiro e a Felicidade 38 FLOW, um Conceito Essencial 41 Flow e Coaching Positivo 43 O Caminho para Florescer 44 Um Exemplo Prático – case 47 Importância da Resiliência 50 4 – FORÇAS E VIRTUDES PESSOAIS DE CARÁTER Sabedoria e Conhecimento 53 Criatividade 54 Critério 56 Curiosidade 58 Amor ao aprendizado 60 Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Perspectiva 62 Coragem 64 Bravura 66 Perseverança 68 Integridade 70 Vitalidade 72 Virtudes Humanitárias 74 Amor 76 Generosidade 78 Inteligência Social 80 Justiça 82 Trabalho em Equipe 84 Equidade 86 Liderança 88 Temperança 90 Capacidade de Perdoar 91 Humildade 93 Prudência 95 Autocontrole 97 Transcendência 99 Apreciação da Beleza 102 Gratidão 104 Esperança 108 Espiritualidade 112 Humor 115 CAP 5 – COACHING POSITIVO E PENSAMENTOS CONVERGENTES A Busca da Felicidade está em Pauta 120 Pensamentos e Afirmações Positivas 131 O Efeito do otimismo 149 Gratidão: Cura e Evolução 166 A terapia do abraço e do sorriso 178 A Gratidão, o tempo presente e as pessoas 191 6

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A Abordagem Psicanalítica 205 Abordagens terapêuticas Quânticas 239 O mecanismo dialógico das terapias 255 O Efeito do Otimismo 262 Coaching: Intervenções para Dependentes químicos e Outros Vícios 272 O Hedonismo e a Dependência 281 Possibilidades de Atuação do Coaching 293 Hipnoses: o que são? 298 6 - AMARRANDO AS PONTAS Ultimas considerações

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Bibliografia

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Apresentação O que é a Felicidade pra você? Comece a pensar sobre isso agora, pois durante a leitura desse livro essa pergunta lhe será feita diversas vezes, e é normal que tenhamos uma reposta automática no início, que nos parece sólida e verdadeira, aquela que reflete realmente o que consideramos como felicidade. Mas quando essa mesma pergunta é feita uma segunda vez, uma terceira e uma quarta, intercaladas por uma sequência de textos, você verá que o terreno da felicidade é movediço, ele nos escapa, nos dinamiza, porque a subjetividade é sua principal característica. Dentro do escopo de objetos da psicologia, um grupo de pesquisadores se atentou para o fato de que, embora pareça algo banal, é em busca da felicidade que estamos o tempo inteiro. Se essa sensação ou conceito é tão importante, logo, ele é legítimo para uma investida científica. E assim nasce uma abordagem que preza pela busca do bem-estar com foco na felicidade e nas emoções positivas, em nossas virtudes pessoais e no otimismo. Acredite, sua saúde é um bem precioso. Acredite também que sua saúde está vinculada a muito mais que apenas suas células, hormônios e substâncias químicas. Se acreditarmos nisso, vamos acreditar que há outros “remédios”, tratamentos, que combatem e que evitam doenças, trabalhando para nosso bemestar. A felicidade e o bem-estar são situações extremamente próximas, e estão em um nível diferente daquele que concebemos cotidianamente, que considera apenas o completo funcionamento do corpo. Afinal, pessoas enfermas também podem cultivar o bem-estar e serem felizes. O Livro “Coaching Positivo: Psicologia Positiva Aplicada ao Coaching” quer apresentar a você, caro leitor, amigo de jornada, Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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os fundamentos do Coaching Positivo, uma forma de trabalhar o processo de Coaching atrelado à Psicologia Positiva. Trataremos a respeito da Psicologia Positiva (PP), seu cenário no Brasil e os pensamentos que dialogam com essa ciência. Apresentaremos um pouco sobre seu surgimento, sobre seus princípios, sobre suas fronteiras metodológicas e sobre como ela chegou ao Brasil e ganhou terreno em diversas instâncias. Em concomitância mostraremos também os pontos de aproximação entre ela e o Coaching como forma alavancar o desenvolvimento das pessoas. Elencamos também textos sobre assuntos que nos ajudam a compreender como a PP passou a ser tão utilizada no universo do Coaching, gerando o Coaching Positivo. Há uma convergência de assuntos, pensamentos e objetivos que fazem com que diversas ciências e abordagens criem vínculos teóricos e metodológicos sempre em prol do desenvolvimento humano. É importante que todas as reflexões propostas sejam feitas com verdadeiro interesse e honestidade. Não minta pra você mesmo. Descubra quem você realmente é para ajudar outras pessoas a fazerem esse mesmo caminho. Todo comportamento pode ser moldado, corrigido, repensado, mas precisa, para isso, de uma reflexão densa e bem construída. Refletiremos nessa etapa sobre nossa sensação de felicidade, sobre nossa alimentação, nossa autoimagem e autoaceitação, nosso estado de humor e otimismo, e conheceremos abordagens que estão em consonância com o Coaching e a Psicologia Positiva e que devem ser utilizadas para desenvolver um trabalho de excelência. Essa leitura é essencialmente teórica e reflexiva. Talvez um pouco mais do que você, coach, esteja acostumado. Nos habituamos a livros com técnicas, ferramentas, cases, e esquecemos que sem teoria, conceitos e reflexões nenhuma metodologia é possível. É como a alimentação, adianto-lhe que você realmente é o que você 10

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come, por que os alimentos serão absorvidos por suas células, as substâncias lançadas na corrente sanguínea e serão distribuídas por todo seu corpo. Mas você também é o que você lê, por que cada parágrafo que é decodificado pelo seu cérebro, que tem seu sentido apreendido pela sua cognição é também introjetado na sua vivência, se você permitir que isso aconteça. Nós somos matéria, mas também somos mente, uma existência muito superior a matéria, e ambas precisam de alimento. É preciso permitir que essa leitura seja proveitosa. Os paradigmas existem e vamos nos deparar com eles todo o tempo. Você pode deixar que eles te paralisem ou pode ultrapassá-los. O Conhecimento sincero e a abertura ao novo são boas formas de superar os paradigmas. Esse livro está dedicado a aprimorar o conhecimento de profissionais que atuam com Coaching e qualquer leitor que queira saber um pouco mais sobre o papel da PP no Coaching e Saúde. Não é necessariamente uma leitura didática, mas suficientemente explicativa para todos os públicos. Temos um presente para você nesse livro. Durante toda a leitura você vai se deparar com algumas gotas de reflexão. Essas gotas são, em sua maioria, trechos do livro “Remédios Contra a Depressão” da querida amiga, Valquíria Aparecida Pinto. Por todos os capítulos espalhamos esses pensamentos poéticos e de exortação, para que você entre em conexão com o mais profundo da nossa intenção positiva para com essas linhas. Algumas são também de pensadores e poetas consagrados. As gotas são um presente nosso para vocês, e da autora, que sabiamente as escreveu e dedicou a cada leitor que possa ter contato com elas. Comecemos a conhecer então esse maravilhoso universo do Coaching Positivo, e tudo mais que lhe vem por acréscimo. Comecemos a compreender como podemos ser pessoas ainda melhores do que já somos e como podemos contribuir com o outro Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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e com o universo. Comecemos a trilhar caminhos novos em busca da felicidade sincera e plena. Comecemos a entender melhor nossa saúde e nosso bem-estar para além da condição do corpo, esse invólucro que nos aprisiona. Comecemos a valorizar estados que nos parecem sem importância, como o humor e o otimismo. Acima de tudo, sejamos gratos. A gratidão é um dos maiores bens que a humanidade pode cultivar. Ser grato não só pelo que recebemos dos outros, mas ser grato pelo próprio bem do universo, que ao receber nossa gratidão reverbera a energia ao outro que a conduz a um estado de gratidão plena, mútua, coletiva. Gratidão é processo de cura que transcende o bem interior e se eleva numa aura de bem-estar. Além de desejar-lhes uma boa leitura, desejo-lhes Felicidades! Então, o que é felicidade pra você? José Roberto Marques

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Cap. 1 SELF COACHING

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O Poder do Autoconhecimento Começarei esse maravilhoso livro, que desejava escrever já há alguns anos, tratando do Self Coaching. Na verdade, será necessário uma obra inteira para tratar apenas desse tema, mas é importante compreendermos de que tipo de atividade estamos tratando. Você perceberá que às vezes falarei com você de forma mais direta e outras de forma mais científica. Isso é necessário porque, afinal, estamos lidando de um lado com pesquisas de grandes cientistas, filósofos, psicólogos, médicos e sociólogos de outro lado estamos aprendendo a como exercer nosso ofício como coaches de maneira cada vez mais eficaz, ética e profissional. Assim, começaremos conhecendo um pouco do self Coaching como abordagem teórica e metodológica e em seguida conheceremos o Coaching Positivo. É claro que o Coaching Positivo também tem um viés de bussines, e isso é absolutamente verdadeiro, mas sua origem está no trabalho do desenvolvimento do self. Leia comigo o belo texto que segue: O ponteiro do relógio central já marcava 16h30, o céu estava pintado com tonalidades de um rosa alaranjado. A brisa que, suavemente percorria pelo parque levava consigo as folhas secas que caiam mansamente das árvores. O vento já não era tão morno pois o sol começava a dar seus primeiros sinais de despedida. Por todo parque era possível observar algumas crianças brincando livremente, enquanto os adultos em constante vigilância observavam com olhos inquietos o vai e vem dos pequeninos. Em um banco qualquer estava sentando um jovem que aparentava ter seus 25 anos de idade, não era nem alto nem baixo, estava vestido como Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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um estudante, calça jeans, camisa de malha e uma barba por fazer. Em seu colo repousava uma mochila, já surrada, e suas mãos sustentavam um livro. Os olhos do jovem estavam atentos e com ligeireza percorriam as letras miúdas do exemplar, como se aplacassem uma imensa ânsia de possuir todo o conhecimento contido na obra. Um senhor de idade com barbas e cabelos brancos começou a se aproximar a passos largos até o banco no qual o jovem estava sentado, olhou para o garoto e perguntou se poderia sentar ali. Para não ser indelicado o jovem consentiu com um gesto afirmativo. Então, o senhor indagou: – Nossa! Como essas caminhadas me deixam cansado. Mas, como o próprio médico me disse, é para minha saúde. E Deus me livre desobedecer ao doutor. O Jovem estava tão entretido com a leitura que apenas deu um sorriso amarelo no canto direito da boca, numa tentativa de parecer interessado no que o senhor dizia. Mas, percebendo isso o idoso comentou: – Desculpe meu filho! Estou atrapalhando sua leitura. Deixe-me ir. – Não! O senhor não precisa ir embora, já estou de saída. E fechou o livro. Ao fechar o livro o velhinho reparou no título e viu estampado na obra o seguinte: “A Arte de Ser Feliz – Arthur Schopenhauer”. E disse em seguida: – O que um garoto novo como você procura num livro que trata sobre a felicidade? – Coisas! 16

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– Coisas? – É! Sei lá... Estou com tantas dúvidas. – Filho, você acha que ao término do livro irá encontrar respostas para todas as suas dúvidas? – Acho que sim! Pelo menos eu tento mudar a minha vida sem graça. Quem sabe eu não acho algo que me sirva. O jovem de repente estava se levantando, quando o senhor o segurou pelo braço e disse: – Fui professor de filosofia durante vários anos de minha vida. Hoje, estou aposentado e posso lhe garantir que o que Schopenhauer propõe é uma tentativa de nos livramos e evitarmos a dor e o sofrimento como uma forma de vivermos felizes. Talvez suas dúvidas sejam maiores do que esta proposta apresentada por Arthur Schopenhauer. Violentamente o garoto pega a mochila do seu colo, abre o zíper e joga o livro bruscamente para dentro, fecha a mochila e diz: – Acho que nunca vou encontrar a felicidade, ela parece ser inalcançável e eu estou cansado disso tudo. O velho responde: – Como não? A felicidade está diante dos seus olhos! – Como assim, diante dos meus olhos? – Isso mesmo! Está vendo esta árvore em nossa frente? Ela é a própria felicidade. Veja como as coisas são simples. Todos os homens são parecidos com as árvores, mas eles estão cegos para as coisas simples da vida. Só pensam em trabalhar, trabalhar e trabalhar, com isso acabam deixando o essencial para depois.

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Pense comigo, para que uma árvore cresça e dê bons frutos precisamos fertilizar a terra, tirar as ervas daninhas, abrir pequenos caminhos no solo e plantar as sementes, certo? – Certo! – Pois bem, quando foi a última vez que você adubou seu coração, tirou as ervas daninhas e sentimentos negativos e abriu-se para que novos sentimentos pudessem brotar? O jovem ficou meio sem jeito. Abaixou a cabeça e decidiu continuar escutando o que o senhor havia para lhe dizer. – Está percebendo como as árvores são muito parecidas conosco? Mas, isso é só o começo. Para que aquela semente cresça, ela precisa de água fresca, luz solar e vários nutrientes. Quando foi a última vez que você se nutriu de bons conhecimentos, procurou se aproximar da luz, do bom, do bem e do belo? Dessa vez o nosso garoto ficou um pouco constrangido e falou baixinho: – Não me lembro. E o velhinho continuou: – As árvores vão crescendo à medida que vão recebendo mais luz, nutrientes e água. Deste modo, chega um momento em que ela começa a dar frutos. E os frutos serão reflexos daquilo que ela se nutriu. Ou seja, se a terra for fértil e rica em nutrientes os frutos serão belíssimos e doces, mas se a terra for seca, os frutos serão pequenos e azedos. Pense um pouco, e veja que os frutos são nossos atos, aquilo que doamos para as pessoas. Se nossos pensamentos forem positivos, estaremos refletindo bons comportamentos, mas se nossos pensamentos forem negativos e tempestuosos, nossos atos e comportamentos irão refletir isso. E ninguém irá se aproximar de nós. 18

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Quando uma árvore dá bons frutos ela deixa as sementes, que serão replantadas e darão vida a outras árvores. Mas, quando uma árvore não dá frutos ou os frutos são de péssima qualidade, dificilmente uma nova árvore irá nascer, e se surgir, será fraca e suscetível ao ataque de fungos e insetos. Quais são os frutos que você está doando meu jovem, são bons ou maus frutos? As coisas são mais simples do que parecem. Não precisamos de tratados para encontrarmos as respostas para nossas dúvidas. Lembre-se que a felicidade está nos olhos de quem vê. As respostas para suas dúvidas estão dentro de si mesmo. Não procure fora. Você é o maior filósofo, psicólogo e pensador para o seu EU. Não há ninguém que o conheça melhor do que você mesmo. O jovem ficou cabisbaixo como se entendesse que o velhinho estivesse acobertado de razão. Então o senhor disse: – Sabe por que eu decidi sentar neste mesmo banco que você? – Não! Por quê? – Eu e minha esposa tínhamos o costume de passear todos os fins de tarde de mãos dadas, e quando dávamos uma volta inteira no parque, sentávamos neste mesmo banco e atentos esperávamos que as primeiras estrelas do céu surgissem. Nunca deixamos que a rotina diária atrapalhasse nosso passeio sagrado nos fins de tarde. Mas, há cerca de um ano ela faleceu. E eu religiosamente venho lhe fazer companhia neste banquinho após minhas caminhadas. Admiro o céu e vejo que ela agora faz parte de uma daquelas estrelas que daqui a pouco vão surgir. O jovem disse: – Sinto muito! Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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O senhor já com lágrimas no canto dos olhos disse: – A semente que nós plantamos deu um belo fruto, e ele se chama AMOR. Fico feliz que ela tenha partido primeiro que eu, seria insuportável para mim saber que ela iria sofrer com minha ausência. Nosso sentimento, nossa felicidade e nossa comunhão foram reflexos do que aprendemos com as árvores. Para que pudéssemos entender um ao outro, tivemos que olhar primeiro para dentro de nós. Tiramos nossas ervas daninhas e assim começou a brotar o amor. Até hoje trago o sentimento de felicidade comigo, e lhe digo, a felicidade está dentro de você, só basta olhar para o lugar certo. O jovem emocionado e convencido daquilo que o velhinho havia lhe dito, apertou a mão dele e disse em seguida: – Muito obrigado! O senhor me mostrou o caminho para a verdadeira felicidade, pois grande parte das respostas para nossas dúvidas estão dentro de nós, agora entendi o poder do autoconhecimento. Depois ambos se abraçaram, o frio já começava a marcar presença. O velhinho puxou um casaco, se agasalhou e ficou olhando para o céu com um sorriso sereno. O jovem partiu com passos firmes e com uma certeza estampada no rosto, de que ele iria procurar a sua estrela. *** O conto representa o drama pessoal de muitos de nós, que vivemos incessantemente em busca da felicidade e de outros sentimentos que possam preencher o vazio que há dentro do peito. Diante disso, inicia-se uma corrida desenfreada por respostas. Essa corrida é tão ligeira que acabamos nos esquecendo de observar as respostas que estão bem próximas de nós, ou melhor, dentro de nós. Segundo algumas tradições orientais, o homem já possui dentro de si todas as soluções para suas dúvidas, ele só precisa saber acessar a sua inteligência superior ou essência, que pode ser traduzida por “Self”. Existe um aforismo de Sócrates que 20

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traduz essa mensagem: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. Portanto, podemos compreender que o autoconhecimento é importante para que possamos nos tornar senhores de nossas escolhas, conscientes de nossas posturas e líderes de nós mesmos. Aquele que se conhece sabe aonde quer chegar, para onde quer ir, e o que fazer para alcançar sua realização pessoal. Mas, você deve estar se perguntando, como eu faço para acessar esse lado subjetivo que há dentro de mim? A tarefa não é fácil, mas não é impossível. Existem diversos métodos e técnicas para que você possa encontrar o que há de mais precioso dentro de si, além de ajudar outras pessoas nessa mesma tarefa. Imagine a seguinte situação: você acaba de receber um mapa contendo as instruções para encontrar um tesouro que vale milhões em barras de ouro. Mas, para chegar até esse tesouro, será preciso fazer uma longa viagem, enfrentar alguns desafios e mergulhar profundamente em um ponto do oceano para resgatar esse prêmio. Você estaria disposto a encarar este desafio? Agora imagine que o tesouro é o seu EU, aquilo que há de mais divino dentro de você. Nós daremos as instruções (mapa) para que você possa trilhar essa caminhada rumo ao encontro com o seu EU. Contudo, nesta viagem, será preciso superar medos, enfrentar desafios (programações mentais negativas), e mergulhar profundamente para dentro de si, até encontrar o verdadeiro ouro, que é o conhecimento. Você quer ser feliz e bem-sucedido? Então, comece a se conhecer e a viver em equilíbrio com as leis universais. O ser humano é um microcosmo, uma cópia do que há no macrocosmo, que é o Universo. Uma das metodologias que possibilita o “empoderamento do EU” e o equilíbrio é o Coaching. Portanto, lhe convidamos rumo a essa jornada, onde a principal missão será vencer os obstáculos Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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que lhe privam de crescer e de despertar todo potencial que há em você. Estamos acostumados a ver nos noticiários informações que tratam das constantes mudanças que estão ocorrendo por todo o mundo. Alguns chamam estas mudanças de globalização, outros de avanço tecnológico e tantos outros chamam de progresso. Independente da denominação, o fato é que estas mudanças estão afetando a forma como nos relacionamos uns com os outros. A busca incessante por mais conhecimento, por uma vaga no mercado de trabalho e a vontade de sempre querer ter mais e mais, acaba forjando o modelo do homem contemporâneo, que parece ser mais reservado, ansioso, carrega consigo uma sensação constante de medo e insegurança e sempre vive em busca de algo. Não é por acaso que no Google existe mais de noventa mil buscas mensais pela palavra felicidade. Afinal, o que é este sentimento que promete mudar nosso estado de humor e proporcionar uma sensação de contentamento e alegria? A fórmula da felicidade já é alvo de indústrias farmacêuticas como uma tentativa de vender este sentimento em cápsulas. A verdade é que estamos passando por um momento de crise, mas não é uma crise política nem econômica, é uma crise com o nosso EU. O EU pode ser traduzido como espírito, essência divina, Mônada, ou aquilo que há de mais elevado no homem. Quando nos sentimos infelizes, isso significa que estamos em desequilíbrio com o nosso EU, e acabamos passando por dificuldades. Estas dificuldades representam nossas dúvidas, incertezas, medos, angústias, apreensões, doenças e programações mentais negativas. O Coaching surge como uma resposta para essas dificuldades e crenças limitadoras, propondo soluções que visam impulsionar o indivíduo rumo ao sucesso. Mas, o que é o sucesso? O sucesso é tudo aquilo que você deseja alcançar, seja na sua vida pessoal ou profissional. 22

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Diferente do que muitos pensam o Coaching não é apenas um treinamento. O conceito é bem mais amplo, e podemos defini-lo como uma poderosa metodologia voltada para o desenvolvimento de habilidades e competências que estão latentes dentro de cada um de nós. O processo de Coaching é conduzido pelo Coach (profissional especializado em Coaching), visando auxiliar o coachee (cliente) a definir metas e objetivos de curto, médio e longo prazo, que serão acompanhados e analisados no decorrer do tempo para avaliar os progressos do cliente. O Coaching faz uso de técnicas e procedimentos de outras ciências afins, visando maximizar os resultados. Entre elas se encontram a Neurociência, a Hipnose Ericksoniana, a Programação Neurolinguística (PNL), a Psicologia Positiva, Terapia Comportamental, entre outras. Ainda podemos acrescentar que o Coaching é bastante utilizado para diversas finalidades, como treinamento de equipes, desenvolvimento da liderança (Leader Coach), auxílio na automotivação, superação de bloqueios, despertar habilidades corporativas, profissionais e mudar o estilo de vida. Didaticamente o Coaching pode ser dividido em Personal Coaching (Coaching Pessoal), Business and Executive Coaching (Coaching Corporativo) e Life Coaching (Coaching de Vida). Dentro do Life Coaching existe uma subdivisão denominada de Self Coaching.

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Coaching: Um Termo, Um Conceito, Vários Campos

A palavra Coaching é uma daquelas que quanto mais se fala – e como se tem falado sobre isso ultimamente! – menos se sabe exatamente o que ela é. Isso acontece com todo conceito que entra em voga numa determinada época. Ele explode, vira moda, por vezes acaba banalizado, e sua definição de tão ampla acaba quase incompreensível. É o risco de se ampliar demais um campo e acabar perdendo a identidade. Aliás, muito já se fala sobre a banalização do uso do termo Coaching. Não acredito que a realidade atual seja de banalização – ainda. De qualquer forma, a melhor maneira de nos voltarmos sempre para a essência do Coaching é recorrermos a uma definição que nos limite o recorte e deixe clara a compreensão sobre “de que Coaching estamos tratando”. O fato das técnicas de Coaching terem atingido tantos campos do conhecimento é um fenômeno fruto da sua transdisciplinaridade. Seu caráter genérico possibilita que tanto seus princípios quanto suas técnicas sejam, com um pouco de criatividade e conhecimento teórico, adequadas a uma gama enorme de realidades pessoais e profissionais. O “ouse ir além”, uma das máximas do Coaching, talvez seja o responsável por essa alavancagem do conceito. De tanto os coaches ousarem ir além chegamos a todos esses lugares em que já atuamos hoje. Desde seu primeiro conceito, como sendo uma forma de treinamento pessoal em que em vez de respostas o “treinador” fomenta a reflexão do próprio atleta, o Coaching já partia da premissa de que, embora dependamos de estímulos externos, as soluções para nossos problemas e as assertivas para nossas indagações estão dentro de nós. A sistematização desse simples gesto de provocar a reflexão por meio de perguntas que ativam 24

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nossa sensibilidade e cognição deu origem a um complexo campo de estudo que hoje atinge organizações públicas e privadas dos mais diversos campos de atuação e a vida particular de um número enorme de pessoas. Para entender de forma abrangente o Coaching, diríamos que ele é uma ciência de desenvolvimento. E se falamos em desenvolvimento falamos em processo, que, por conseguinte, nos remete a algo que é realizado em etapas. De fato, o Coaching não é algo tão mágico, ou talvez até seja “mágico” no que diz respeito aos seus resultados, mas nada é alcançado com sombra e água fresca, o processo de Coaching exige esforço, disciplina e uma enorme capacidade de lidar com mudanças, uma vez que se trata de uma modificação, às vezes brusca, de comportamento pessoal e para os casos de empresas, também mudança de cultura organizacional ou, pelo menos, mudanças no campo da gestão. Essa “ciência do desenvolvimento” tem sido chamada de ciência por utilizar, no âmbito da formulação de suas técnicas, estudos das ciências humanas, como a Linguística e a Antropologia, das Ciências Psicológicas e da Neurociência, entre outras que em menor grau emprestam seus resultados de pesquisa para o desenvolvimento de ferramentas de Coaching – inclusive algumas áreas do conhecimento que não são necessariamente ciência. Uma vez institucionalizado, os atendimentos de Coaching começaram a tomar forma e sua atuação foi aos poucos ganhando reconhecimento e legitimidade. Atuando individualmente ou com grupos, as técnicas desenvolvidas por grandes estudiosos do tema de todo o mundo passaram a ter em seu favor três aspectos dessa nova metodologia: a) a flexibilidade de atuação nos mais diversos campos; b) o controle do tempo de desenvolvimento do processo; c) a mensuração do alcance de resultados. Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Essas três características básicas do processo de Coaching imprimiram uma marca de identidade que faz dessa metodologia um grande sucesso desde o começo dos anos 2000 – no Brasil. Embora haja uma vertente que atua exclusivamente sobre os aspectos da vida de cada um, mesmo quando atua nas empresas, a autorrealização das pessoas é considerada também como um objetivo. Se as repostas e a possibilidade de desenvolvimento estão dentro das pessoas, como poderia o Coaching focar um resultado sem que o meio para alcançá-lo – as pessoas – não fosse contemplado? No que concerne ao tempo, o Coaching entende que se este não for determinado, o resultado ganha uma dimensão intangível, abstrata, e, por tanto, o compromisso tende a diminuir. É o estimulo causado Instante Presente pela materialidade das coisas. Diga pra A nostalgia, a esperança, o apego ao passado e a preocupação com o futuro uma criança que ela ganhará um presente nos levam a perder o instan te presente. no natal se tirar notas boas e, do mesmo Lembrate que cada um de nós só vive modo, diga pra uma criança que ela no momento pr esente, instante. ganhará um presente no natal se tirar O resto é passado ou ob scuro futuro. notas boas e, no dia seguinte, monte a árvore de natal e coloque embaixo uma enorme caixa com um lindo laço vermelho. Consegue perceber a diferença? O estabelecimento do tempo para o atingimento do resultado – que sempre será determinado em parceria com o coachee, e não pelo coach de maneira arbitrária e impositiva – passa a atuar como a caixa de presente, dando uma materialidade, um aspecto concreto que trabalhará como mecanismo de estímulo. O que entendemos como Coaching, nesse caso, avança do campo epistemológico para o campo metodológico, ou seja, Coaching não é só um determinado conhecimento sobre um determinado campo que eu adquiro em uma formação, mas Coaching é também, e principalmente, uma metodologia de transformação comportamental que tem seu objeto de atuação, 26

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sua abordagem – de natureza indutiva – e seus resultados mensuráveis. Desde o seu surgimento, o Coaching, baseado em alguns princípios próprios, acumulou uma diversidade de testes, rodas, tabelas, técnicas de toda natureza, a fim de que a prática se estabelecesse. Da teoria à prática, o Coaching foi se consolidando como uma forma eficaz de gerenciamento do comportamento humano em diversos ambientes e com diversas finalidades. No nível organizacional, ser coach configurava-se, de início, como um diferencial. Hoje, é uma necessidade das mais básicas, de modo que se antes ter um profissional coach dentro de uma empresa era algo inovador, hoje, não ter um profissional coach é sinal de atraso, uma vez que é uma obrigação mercadológica o acompanhamento da evolução dos modelos de gestão. Alguns autores passaram a organizar categorizações para o Coaching de acordo com o foco do processo. Dessa forma passamos a ter como os mais básicos: Executive Coaching, Life Coaching e o Coaching Esportivo. Dentro dessas modalidades várias abordagens podem ser utilizadas, entre elas o neurocoaching, a programação neurolinguística (PNL), a hipnose e as demais técnicas. No que concerne ao processo de Coaching o mais importante é o estabelecimento do acordo coach-coachee, ou seja, o planejamento que envolve o objetivo, o tempo e as etapas, observando que nesse processo o coachee é que deve tomar frente no planejamento, pois todas as respostas estão dentro dele. O papel do coach nesse processo é o de alinhar essas decisões, tornando-as mais plausíveis e coerentes. Importante perceber que, embora alguns teóricos definam o Coaching como uma relação de aprendizado “one to one”, ou seja, “um pra um”, nem todo processo de aprendizado nesses moldes pode ser considerado Coaching. A banalização do termo vem exatamente desse entendimento errôneo. Se não houver uma coerência entre o que chamamos de princípios de Coaching e Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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as metodologias que acompanham esses princípios, não haverá Coaching. O que acontece na verdade é que estamos o tempo todo tentando definir, compreender, delimitar sua atuação, compreender seus mecanismos, organizar suas ferramentas, solidificar suas bases teórico-filosóficas, parametrizar suas peculiaridades na comparação com outros processos similares, e ampliar nosso grau de amadurecimento quanto ao Coaching. Como tudo na ciência, precisamos lidar com os terrenos movediços, dinâmicos, que no momento em que parecem firmes se esmaecem sob nossos pés. Mas é justamente essa instabilidade que não nos permite ficar acomodados imaginando que dominamos o maior poder do mundo – até porque o poder se perde na mesma rapidez com que se ganha. O que o Coaching nos permite é alcançarmos uma evolução contínua que nunca está pronta, fechada e a acabada. Se nós somos tão passíveis de mudança e precisamos estar o tempo todo nos revendo, nos reinventando, reconstruindo, precisamos também lidar com teorias que estão continuamente sendo reformuladas, verticalizadas e ampliadas. Criando conexões umas com as outras, links e hiperlinks infinitos. Assim é o Coaching, assim somos nós, assim é o universo.

Conhecendo o Self Coaching A palavra self não é tão nova assim, ela remonta aos primeiros estudos de psicologia e psicanálise, e alguma menção a esse conceito já estava presente também na filosofia grega. Self é Centro direcionador da consciência e da inconsciência. A história desse termo na psicologia (Self ou ‘Si mesmo’) aparece já na teoria de William James, um dos precursores da Psicologia, que distingue em 1892 entre o “eu”, que ele concebe como a instância interna conhecedora (I as knower), e o “Si mesmo”, como sendo o conhecimento que o indivíduo tem sobre si próprio (Self as known). 28

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Outro importante autor, Baumeister (1993), partindo da de­finição de James e do trabalho de C. H. Cooley propõe que o “Si mesmo” se baseia em três experiências básicas do ser humano, sendo elas: 1. A consciência reflexiva, que é o conhecimento sobre si próprio e a capacidade de ter consciência de si; 2. A interpessoalidade dos relacionamentos humanos, através dos quais o indivíduo recebe informações sobre si; 3. A capacidade do ser humano de agir. A chave da questão teórica proposta por esse autor é que esse conhecimento que o “eu” tem sobre “Si mesmo” tem dois aspectos distintos: por um lado ele possui um aspecto descritivo que foi denominado ‘autoimagem’, de outro lado ele suscita um aspecto valorativo, a ‘autoestima’. Numa acepção geral, alicerçada nesses pressupostos, entende-se por Self aquilo que de­fine a pessoa na sua individualidade e subjetividade, isto é, a sua essência. O termo Self em português pode ser traduzido por “si” ou por “eu”, mas a tradução portuguesa é pouco usada na literatura da psicologia, logo, o termo em inglês ficou consagrado. Entre os primeiros psicanalistas a utilizarem esse termo em suas pesquisas está Donald Winnicott. Para ele o self designa a pessoa enquanto lugar de atividade psíquica, ou seja, o ele seria o produto de processos dinâmicos que asseguram a unidade e a totalidade do sujeito. Para alguns psicanalistas norte-americanos o Self ou o “si” é assimilado ao objeto do ‘investimento narcísico’ – a palavra narcísico diz respeito a Narciso, aquele personagem da mitologia grega que se apaixonou pela própria imagem –, assim, a representação do Self seria uma construção do Ego. Isto porque Self e ego não são a mesma coisa, sendo o ego uma das três instâncias do aparelho mental, ou seja, uma das subestruturas da personalidade. Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Nesta base, muitos dos analistas preferem referir-se à ideia de “representação de si” em vez de simplesmente falar num “si” autônomo. Para Hartmann, o termo Self foi conceitualizado como a “imagem de si mesmo” sendo composto de estruturas, entre as quais consta não somente o ego, mas também o Id, o Superego e, inclusive, a imagem do corpo, ou seja, a personalidade total. Acredita-se que ao nascermos temos um Self que é um fenômeno biológico, não psicológico. O Ego, porém, é uma organização mental que se desenvolve a medida que a criança cresce. A consciência do Self nasce quando o Ego passa a estar de­finido através da autoconsciência, da autoexpressão e do autocontrole. Mas estes termos referem-se à sensibilidade, à consciência, lugar de expressão e domínio das sensações. O Self, portanto, pode ser de­finido como um aspecto sensível do corpo. “Na realidade, o ego representa a autoconsciência ou consciência do Self. A identidade dual do sujeito assenta na capacidade para formar uma imagem do Self na sua percepção consciente do Self corporal. Numa pessoa saudável, as duas identidades são congruentes. A imagem ajusta-se à realidade do corpo, mas quando existe falta de congruência entre a imagem do Self e o Self, ocorre então um distúrbio de personalidade.” Dentro dessa confluência é que se trabalha com o conhecido Self Coaching. Ele é um trabalho pessoal, enquanto o Professional Coaching é um processo que trabalha com o sujeito e a corporação à qual ele pertence, visando seu desenvolvimento como profissional, o Self Coaching trabalha o sujeito e seu desenvolvimento pessoal, humano, cognitivo. Em alguma medida, ambas as formas visam o desenvolvimento pessoal, no entanto, o horizonte profissional/ corporativo é determinante em um e não o é em outro. Muitas vezes essa modalidade de Coaching é confundida como uma 30

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forma de terapia. Realmente o Self Coaching tem uma função terapêutica à medida que ele também atua com as dimensões do bem-estar holístico, no entanto por estar distante das práticas médicas ele não pode ser concebido como tal. No Self Coaching o profissional coach vai estar atento às crenças, valores e padrões que o sujeito criou e que regem sua ação sobre o mundo, seu comportamento, bem como a imagem que ele tem de si, o modo como se enxerga, as características que se autoatribui, o potencial que acreditar e não ter. O Self Coaching acredita que todas as respostas estão dentro de nós, mas que temos que aprender a acessá-las. Por outro lado, se temos todas as respostas e curas dentro de nós, é também de dentro de nós que nascem todos os males e doenças, de forma que o Self Coaching também nos ajuda a não criar mais essas condições de enfermidades físicas, mentais e espirituais.

O Self Coaching e suas Aplicações O Homem vive em constante interação com o meio, e isso engloba as relações com as pessoas. Diante desta afirmação, podemos entender que o comportamento humano se apresenta de diversas formas, diante de múltiplas situações. Para que determinado indivíduo enxergue as oportunidades que surgem no seu caminho e viva em equilíbrio é preciso tomar posse de si mesmo. E isso significa se autoconhecer. O Self Coaching surge como um segmento do Life Coaching, ou seja, uma metodologia que leva em questão o lado mais íntimo e profundo de cada um de nós. Enquanto o Life Coaching se preocupa em desenvolver habilidades ligadas ao âmbito pessoal, o Self Coaching procura se aprofundar naquilo que compõe nosso Eu. O Self Coaching, objetiva auxiliar o cliente no processo de autoconhecimento, visando superar as limitações e bloqueios que nos impedem de alcançar o sucesso e a felicidade. Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Nosso cérebro é dividido em dois hemisférios, o da direta e o da esquerda. Segundo a neurociência, o lado direito do cérebro é responsável pela mente emocional, é neste hemisfério que surge a criatividade, a intuição e a imaginação. Já o lado esquerdo é responsável pela mente racional, no hemisfério esquerdo o pensamento é concreto, analítico e lógico. Contudo, muitas pessoas vivem em desequilíbrio com estes dois polos. Umas são muito racionais e outras são muito emocionais. A consequência desse desajuste se reflete por meio de doenças, aflições, bloqueios, distúrbios, pensamentos de natureza inferior, descontentamento, e a necessidade de sempre viver em busca de algo que dê sentido à vida. Você já percebeu que em certos casos algumas pessoas compram por impulso, agem pela emoção e depois acabam sofrendo na hora de pagar as contas? Neste exemplo, essa pessoa não ponderou a situação, esqueceu-se de analisar e de usar a razão para saber se seria possível quitar a despesa ao fim do mês. Nesse caso, a emoção sobrepôs à razão. Agora vamos utilizar outro exemplo: Imagine alguém que antes de tomar qualquer iniciativa passa várias horas analisando se deve ou não agir, qual o melhor caminho, e sempre está preocupada com as consequências e com o que pode acontecer. Geralmente, pessoas que se comportam desta forma, tendem a “sufocar” os sentimentos e acabam vivendo de um modo restrito, dentro de uma redoma criada pela própria mente. Toda essa emoção que ficou presa e foi reprimida, acaba se exteriorizando por meio de doenças com o decorrer do tempo. Além do envelhecimento precoce. Neste caso, percebemos que o sujeito se preocupa demais com a razão e acaba esquecendo-se de dar lugar aos sentimentos. Mais um caso de desequilíbrio. A felicidade, o sucesso, a prosperidade e tudo que desejamos, só irá brotar se estivermos vivendo em harmonia. Krishna defendia que o verdadeiro caminho para o equilíbrio estava na neutralidade, ou seja, nem se deixar influenciar demais 32

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pela tristeza de uma derrota, nem pela alegria de uma vitória. O homem neutro alcança a verdadeira felicidade. Já para Aristóteles, o homem virtuoso é aquele que evita os extremos. Desta forma, é possível ser virtuoso e viver em equilíbrio. Certa vez, Sidarta Gautama (O Buda), estava à beira de um rio e ouviu de um músico os seguintes dizeres: “se afrouxar não toca, se apertar arrebenta”. Diante desta afirmação, ele teve um insight, e difundiu o caminho do meio. Para Buda, o homem encontrará o equilíbrio e a felicidade no caminho do meio, evitando os excessos. Diante de tudo que foi explanado, podemos entender que o Self Coaching visa auxiliar as pessoas a encontrarem este equilíbrio, por meio da reflexão e do autoconhecimento. A principal aplicação do Self Coaching é fazer com que o cliente acorde para aquilo que ele já tem, mas não sabe que tem - que nada mais é do que o poder contido no EU superior.

De que “Homem” Trata o Coaching Positivo? Há anos uso uma frase que muitos de vocês já devem ter ouvido diversas vezes em palestras, cursos e livros. Sempre digo que “quanto mais me conheço mais me curo e me potencializo”. Sonho que um dia todos entendam o poder dessa afirmação, não importa se de forma filosófica, conceitual, espiritual ou mesmo afetiva. O importante é compreender que nosso trabalho está concentrado no conhecimento da essência (ou das essências) do homem. Em todas as ciências humanas, e o Coaching está nesse campo, sempre estamos à volta com o conceito de homem, sujeito, Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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etc. Essa compreensão é basilar porque estamos lidando com a matéria humana, logo merece ser esclarecida. Por isso começamos esclarecendo o Self, o conhecimento primordial para essa discussão introdutória. Podemos pensar o Homem a partir da sua constituição biológica. O homem biológico é um complexo orgânico que tem necessidades básicas para sua manutenção. A medicina tradicional, por exemplo, lida com esse homem biológico, cujos hormônios e reações bioquímicas precisam estar em equilíbrio para que toda a máquina esteja em pleno funcionamento, viva. Se há um problema em determinada “parte” do homem, logo, um especialista daquela “parte” encontra um antídoto, uma solução, para que o problema seja resolvido, consertado. Esse homem é instintivo. Ele tem suas condições naturais que estão impregnadas na sua espécie desde o nascimento. Assim, ele, naturalmente, consegue se adaptar pois seu organismo está pronto. Se pensarmos na famosa pirâmide das necessidades básicas de Maslow, estamos falando do primeiro nível. Mas o “homem biológico” vive em um meio. Aliás, não apenas vive, também pensa e age sobre esse meio – nesse caso é mais coerente dizer que o meio age sobre esse homem. Percebeu-se, então, que havia algo a mais dentro desse homem que não apenas reações químicas, bioquímicas e aparelhos em funcionamento. Esse homem é dotado de uma mente, que gera emoções, sensações e sentimentos. Aos poucos foi se institucionalizando uma ciência próxima à ciência médica que tratasse desse “de dentro” do homem. Esses processos complexos que envolvem o pensamento e a construção de sentido para as coisas do mundo e do Ser no mundo, trilhou, primeiro, um caminho que considerava que tudo que ocorre na mente do homem, suas emoções, comportamentos e práticas são reações de estímulos do meio. Bastaria então compreender como 34

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o meio afeta o homem gerando determinados comportamentos e determinadas situações. A concepção de homem biológico não desaparecera completamente, afinal, o homem, nessa concepção é um organismo que reage/interage com o meio. O Ser passivo, nesse caso, é um produto do meio. Somos o que o meio faz de nós. Somos o resultado dos aprendizados que já estavam no mundo quando nós chegamos. A cognição e o comportamento são reflexos dos valores e discursos que nos constituem. Talvez o que essas teorias primeiras desconsiderassem de mais importante é que o homem se constitui por relações em que ele também tem um poder de agente. Nós não somos meros espectadores do mundo. Não ficamos sujeitos à tudo de forma conscientemente passiva. Não! Nós agimos e modificamos o meio e as demais pessoas. Não desconsideremos que somos também resultado de uma história, a história que nos trouxe até aqui, nesse lugar, nessa determinada condição, com essas determinadas possibilidades. Além do que, nossa referência de pessoa são as outras pessoas. Ou seja, o homem não é só biológico, nem apenas sociológico, mas o homem é relacional. Parece confuso, mas vamos entender com calma. Algumas das máximas do Coaching podem nos ajudar a entender isso. Dizemos por exemplo que cada pessoa traz em si um universo inteiro de possibilidades que, uma vez descobertas, podem levar cada um de nós a realizar coisas extraordinárias. Esse é o nosso potencial infinito, que temos que conhecer, explorar e desenvolver. Logo, estamos tratando não da existência ou não de algo interior em nós, isso já está posto! Mas estamos pensando em como nos relacionamos com esse algo que está dentro de nós.

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Você tem diálogos internos? Conversa com você mesmo e com seu interior? Como são essas conversas? Você fala e ouve, apenas fala ou apenas ouve? O medo, a insegurança, a agressividade, a angústia são sensações às quais todos nós estamos sujeitos. O “x” da questão está em como nos relacionamos com esses monstros que moram dentro de nós. A mesma regra vale para as relações externas. O homem não é apenas um produto do meio. O homem modifica o meio o tempo inteiro. Nossa ação sobre o meio não apenas de assujeitamento, mas é também como agentes transformadores e modificadores. É uma relação dialógica. Eu me constituo na tensão da relação com os demais, ao passo que os demais são também constituídos quando estão em contato comigo. É uma relação mútua de aprendizado, crescimento, evolução continua. Quando um professor diz que aprende com seus alunos as pessoas podem achar estranho. Mas, como um professor pode aprender com alunos, muitas vezes crianças? Essa questão é facilmente respondida quando compreendemos o tipo de homem, de sujeito, que o Coaching trabalha. O Homem para o Coaching é um ser relacional. Que tem sua subjetividade, seu interior pulsante, mas que trabalha essas forças internas em contato com as outras pessoas, a história, o tempo, os valores sociais, a afetividade, os saberes, etc. Alguém pode dizer: então isso é contraditório, pois se o dispositivo de mudança está dentro do homem, eu sou então o grande poderoso da história. Se você está pensando assim, vá com calma! Duas coisas ainda se fazem importantes de serem esclarecidas. Em primeiro, é importante perceber que, embora todo esse potencial de mudança esteja dentro de nós mesmos, e 36

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o acesso à ela está, como sempre esteve, na nossa mão, é sempre necessário que alguém nos conduza nesse processo, ou que pelo menos nos chame a atenção, nos desperte para essa realidade, gerando o insight propulsor da mudança. Não fosse assim, não existiria a figura do coach. Tudo está dentro de nós, mas se somos seres relacionais, estamos sempre à mercê do resultado de nossas relações intrapessoais (relação com nosso self) interpessoais (com as outras pessoas) e espiritual (relação com a dimensão etérea). Alcançar o nosso potencial interior pode ser o resultado de uma relação interpessoal, como por exemplo o processo de Coaching. O Coaching Positivo, fruto da junção entre a Psicologia Positiva e o Coaching, embora tenham como mola propulsora a crença de que podemos, nós mesmos, encontrar todas as respostas dentro de nós e nos autodesenvolver, não entende o homem como ser isolado e autossuficiente. Ele é resultado das relações que estabelece em todos os níveis. Não obstante, o homem desde que nasce está inserido num grupo, assim ele constrói sua identidade, sua cognição, sempre na relação com os demais. Com certeza, a interpelação desses seres infinitamente relacionais se dá por meio da linguagem – ou das linguagens. O mundo só adquire sentido por meio dos signos, linguísticos e não-linguísticos, mas via de regra usando a palavra dita ou escrita para esses fenômenos de transformações. Como as ideias nos viriam se não fosse por meio do conhecimento e domínio de uma língua e seu sistema? Ou não será por meio da linguagem que um palestrante, professor ou trainer consegue fazer com que dezenas de pessoas tenham grandes descobertas de si mesmos e a partir de então modifiquem suas práticas, seus hábitos, seus valores, suas crenças. É por meio da palavra, não importa sua materialidade, que conseguimos mexer com as estruturas emocionais e intelectuais das pessoas. Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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As relações se baseiam nos princípios dialógicos, logo, mesmo quando penso comigo mesmo, e até quando falo sozinho, dentro da minha mente ou em voz alta – por que não!? – estou confirmando a posição de um homem que se constitui nas relações, e é nesse ser relacional que o Coaching acredita e é com esse ser relacional que o Coaching trabalha.

Linguagem e Transformação da Realidade

Sempre fiquei me perguntando o que eu mais admirava nas pessoas que eu admirava. Quando vemos um grande líder na televisão, ou um político, cientista, ou mesmo algum artista que ganha nosso carinho, temos, no fundo, a pretensão de nos parecermos com eles. Não em tudo, mas alguma parte. Com o tempo, percebi que entre várias características que eu entendo serem importantes para qualquer pessoa que quer se destacar, a que mais me deixava hipnotizado era a capacidades que aqueles “caras” tinham de se conectar com as pessoas por meio da fala. Você com certeza já se viu horas diante de alguém que está, apenas, falando. E você completamente envolvido por aquele discurso que mexe com você em vários níveis. Era isso. Era o poder da linguagem que me mais me impressionava e ainda impressiona nas pessoas. Fui então observando ao meu redor, e então constatei que tudo a nossa volta é linguagem. Tudo envolve comunicação, tudo envolve língua e sentido. Você acorda e, pelo som de um aparelho, se desperta. Através desse som você sabe exatamente que horas são, o que deve fazer em seguida, e quanto tempo tem até a próxima atividade. Depois encontra as pessoas da sua casa e observa seus rostos para saber se dormiram bem. E não adianta mentir, porque você conseguirá saber, pela forma como está cada expressão, se estão dizendo a verdade. 38

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Você lê o jornal, ou liga a tv no noticiário da manhã. Pega o trânsito e tira suas conclusões sobre o tempo, o movimento, as pessoas... tudo se comunica conosco. De tudo conseguimos compreender suas “linguagens” próprias. Você chega ao trabalho e novas informações, senta para conversar com os colegas e ouve atentamente (ou não!) o que aconteceu com cada um no final de semana. Alguns de tocam mais profundamente, outros apenas te fazem cumprir o papel do bom colega de sala – aquele que não quer ser chato. Você pode observar as roupas das pessoas que trabalham ou estudam com você perceber facilmente quem saiu de casa apressado, ou não dormiu em casa (e repetiu a mesma roupa). Quem está mais sorridente ou com cara de poucos amigos. A movimentação no ambiente, as cores que mais aparecem... tudo ao seu redor se comunica com você. Você consegue Ler tudo. Estamos lendo os gestos, os desenhos, as cores, as letras, o tempo, a natureza. Tudo é leitura, tudo é linguagem. Isso me impressiona, e me faz pensar que compreender e dominar diversas formas de linguagem é ter acesso a um poder impressionante. Observe que quando assistimos na televisão ou lemos em alguma revista que determinado alimento faz mal à saúde, imediatamente mudamos nosso comportamento com relação àquele alimento. Não sabemos, não fomos ao laboratório fazer a pesquisa, mas alguém que reconhecemos como especialista nessa área disse, e isso por si só já é suficiente. Os mais religiosos têm toda sua forma de pensar e agir norteada pelas palavras bíblicas, ou pela interpretação de uma pessoa – pastor, padre, ou qualquer outra denominação – dessas mesmas palavras. Ou apenas choramos quando toca uma bela música cuja letra ou melodia aciona uma emoção latente dentro de nós. Os exemplos são inúmeros, mas basta compreendermos que o homem, ao falar, transforma o outro, e por sua vez, é também Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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transformado pelas consequências de suas palavras. Quando dizemos que a palavra tem poder estamos falando dessa forma transformadora pela qual as palavras, dentro de um contexto e ditas por um sujeito legitimo para cada discurso, podem criar e modificar realidades diversas. Bakhtin, um filósofo da linguagem, diz que o que dizemos não são palavras, ou frases, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis. O que ele quer dize é que a palavra, ao ser dita, enunciada, verbalizada, ela está carregada de um conteúdo vivencial. Dessa forma, o que dizemos está carregado de conteúdo subjetivo, e diz muito mais que apenas o sentido dicionarizado de cada palavra. A linguagem tem uma dimensão individual, tanto na sua execução como na forma com que cada sujeito seleciona as palavras e constrói seus textos mentais, orais, escritos, visuais. Mas essa mesma É Preciso Confessar linguagem é também social pois aprendemos a usar nossa língua O que desejamos de fato, acima de tudo? - Não queremos ficar materna a partir de um coletivo. ser compreendidos, sozinhos, queremos amados, não queremos Aprendemos o uso de acordo com os ficar separados do próximo, em resumo, demais que estão à nossa volta. Quando não queremos morrer, nem que eles aprendemos nossa língua quando morram. criança estamos inseridos num contexto histórico e também social. Veja que a linguagem muda conforme muda a sociedade e suas necessidades comunicativas. Quando crescemos e passamos a transitar por outros espaços vamos compreendendo que agir em sociedade entender outros universos de linguagens além daquele que nos foi apresentado quando crianças. Estamos então num universo de linguagem plural, de significados múltiplos, em situações que uma palavra que aprendemos pode ter, para o 40

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outro, não só um sentido diferente como completamente oposto. Cada palavra é “um microcosmo da consciência humana. Nessa linha de raciocínio que estou traçando com você, quero leva-lo a compreender que a linguagem é fundamental para o desenvolvimento do self, da consciência de Si e do mundo. A tríade pensamento-linguagem-ação é a unidade básica da existência humana. Pensamos, falamos e agimos sobre nós mesmos, os outro, e o meio em que vivemos e assim construímos a nossa realidade. Essa relação coloca bastante clara a relação entre as palavras e as coisas. As coisas são o que dizemos sobre elas, pois isso reflete nosso pensamento sobre tal. É assim que muitas pessoas dizem não gostar de um alimento quando nunca o experimentaram na vida. Esse exemplo reflete tanto o modo como eu mesmo posso falar e criar uma verdade para mim mesmo quanto o modo como somos influenciados pelo discurso alheio, pois posso não gostar de algo porque ouço dizerem que esse algo é ruim e tomo essa palavra como verdade. Não há verdades absolutas. Toda verdade é construída linguisticamente. Falar sobre algo é atribuir significados que serão assumidos por você mesmo, por um grupo, ou por uma sociedade inteira. É necessário sempre pensar em como eu me defino, que características me atribuo, escrever, falar em voz alta para que a palavra enunciada crie essa realidade de uma forma palpável. É um exercício poderoso de autoconhecimento e de reconhecimento do self.

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A linguagem na Sessão de Coaching Quando você vai à faculdade, entra em uma sala de aula, o que acontece em seguida? – uma pessoa fala sobre algo, outros escutam e refletem, ou leem algo e em seguida escrevem a respeito. Quando você vai ao médio o que acontece? – ele faz questionamentos que você responde, ele lê imagens ou laudos escritos, explica um problema, depois você faz perguntas, ele responde. Depois te dá uma receita médica ou um encaminhamento qualquer. Quando você vai às compras, o que acontece? – você olha vitrines com placas promocionais, enfeites, valores e tira suas conclusões de tudo. Depois entra em uma loja, visualmente percebe os produtos, chama um vendedor que te explica sobre ele, negocia valor e forma de pagamento, conversam um pouco sobre entrega e fecha a venda. Percebe? Nossa vida é feita de relações dialógicas. Não importa a forma, se escrita, verbal ou visual, estamos imersos no mundo da linguagem 100% do tempo. E então eu te pergunto: O que acontece em uma sessão de Coaching? É uma relação dialogal, onde o mais importante é conduzir a comunicação compreendendo todo o universo linguístico que envolve o ambiente. Lembra quando lhe contei que tudo que mais admirava nos meus grandes exemplos de profissionais e homens era o domínio da linguagem? Sempre fiquei admirado em como o discurso dos grandes mexia comigo. Grandes personalidades são, em geral, grandes comunicadores. Mesmo que essa comunicação não seja para uma plateia com milhares de pessoas, ela deve ser desenvolvida, aprimorada, valorizada, almejada.

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Seja o melhor comunicador que você possa ser, e você será o melhor coach entre todos. Para isso é preciso compreender que a linguagem produz um fio ininterrupto de significações. Essa produção de significados, ou de sentidos, está vinculado ao que chamamos de processo de comunicação, e ele vale não apenas para a comunicação verbal, mas para toda forma de produção de sentido pela linguagem, mesmo a visual, a espacial e gestual. Quando eu estudei, na antiga escola primária, hoje o ensino fundamental, aprendi que a comunicação se faz a partir do seguinte esquema: Perceba que nesse esquema, clássico, há um emissor (pessoa que fala) um receptor (pessoa que ouve, ou recebe a mensagem) uma mensagem que é transmitida de um a outro, um referente, ou seja, do que trata a mensagem, um canal utilizado para essa comunicação e um código, uma materialidade dessa mensagem, que pode ser a voz, a escrita, o gestual etc. Algo te incomoda nesse esquema? Você aceita que a comunicação se dá nesse modelo? Se você observar com mais cuidado verá que a seta, que indica a direção na qual segue a comunicação, tem apenas um sentido, ela apenas vai de um ponto a outro, do emissor para o receptor. Esse esquema desconsidera a participação ativa de ambas as partes. Poderíamos entender que nos modelos mais antigos de educação e até mesmo nas igrejas esse seria o mais próximo do real, afinal, os professores e os sacerdotes são dotados de um saber que é depositado no outro por meio da linguagem. É o que Paulo Freire chamava de “educação bancária”, aquela em que um indivíduo dotado de saber deposita no outro todo o seu conhecimento, e esse outro, que antes se encontrava como uma “tábula rasa”, vazio de conhecimento, era passivamente beneficiado pelo ensino do “doutor”. Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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Contudo, mesmo que não haja uma resposta verbalizada, um feedback do outro sujeito que participa desse processo, conhecido no esquema acima como receptor, há, dentro dele, uma série de diálogos que ou aceitam ou contestam ou ruminam a fala proferida pelo “emissor”. De forma consciente ou não o “outro” da comunicação responde àquilo que lhe foi dito. Essa responsividade é a base das novas compreensões da comunicação. Um importante estudioso da linguagem diz que “toda fala proferida está prenhe de resposta”. Toda vez que dizemos algo a alguém essa fala é respondida, mesmo que mentalmente. Ela gera insights, pensamentos diversos, contestações e, no futuro, mesmo que não seja diretamente para você, essa fala que foi ouvida será utilizada de alguma maneira, em novos enunciados, proposições, textos. Constatando que há então uma participação ativa de ambas as partes envolvidas numa comunicação, os estudiosos da linguagem têm proposto um esquema de comunicação que se parece com o esboçado abaixo.

O que é importante enfatizar nesse esboço de esquema, e que o coach, especialmente quando tratamos de Self Coaching, deve se atentar, é a característica cíclica da comunicação. Em qualquer relação dialogal, a fala de um é sucedida pela fala do outro que, organizava mentalmente uma resposta, uma 44

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intervenção, antes mesmo que o outro terminasse de dizer algo. Todas as pessoas que participam de uma comunicação são participantes ativos, até mesmo porque, aquele que assume a palavra deve, obrigatoriamente, se preocupar com aquele que recebe a mensagem, com o outro. O bom comunicador se preocupa com quem o ouve. É aquela clássica história de “quem é a culpa por uma falha na comunicação?” quando não entendo algo que você diz, quem é o responsável? Eu respondo: ambos! Aquele que diz deve, sim, se preocupar com o entendimento do outro. Aquele que diz algo sem se preocupar em como esse algo será recebido e entendido não está efetivamente interessado no sucesso da comunicação. É por esse motivo que tendemos a usar diversas variantes do português. O Português brasileiro, como língua natural, adquire variações que podem ser regionais, culturais, etárias (pelas faixas de idade), profissionais, variações de gênero (uma variação mais própria para a comunicação com mulheres, homens, homossexuais) enfim... há várias situações em que a língua sofre modificações no seu vocabulário, na sua prosódia (ritmo de fala), na sua morfologia (a composição das palavras) e principalmente fonológicas. Com o tempo, conforme vamos transitando por diversas eixos da vida cotidiana vamos nos apropriando de várias variantes da língua e, mais importante, aprendendo a usá-las de maneira mais adequada à cada situação. Dessa forma, se um comunicador não se preocupa com o universo linguístico e cultural do seu interlocutor ele sim será responsável pelas falhas na comunicação. De outro lado, se o interlocutor não se atenta ao que está sendo dito, ou não se interessa pelo que está sendo dito, ele pode ser responsabilizado pelas mesmas falhas. Logo, se estávamos falando de um processo que envolve mais de um lado, todos esses lados são responsáveis Editora IBC | Instituto Brasileiro de Coaching

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por fazer com que a relação dialógica seja capaz de produzir atitudes reais que visem a mudança de comportamento e de hábitos. Reflexões que façam sentido e que deem frutos. Coach – numa sessão de Self Coaching, é necessário que sua comunicação esteja inteiramente voltada para o universo do seu coachee. Temos o hábito de tentar entender o outro a partir do nosso ponto de vista, e isso é extremamente nocivo. O mais complexo da comunicação numa sessão de Self Coaching é a competência de usar todo seu conhecimento, mas compreendendo o universo do outro. Posso ilustrar isso com uma questão do dia a dia: quando encontramos alguém que tem uma crença diferente da nossa tendemos a “torcer o nariz”. Há pessoas que quando ouvem alguém contar sobre sua religião ou igreja e esta é substancialmente diferente, em termos de concepção do mundo ou de ritualística, vemos reações sempre preconceituosas, repletas de julgamento que partem do ponto de vista de quem ouve, falas do tipo: “Deus me livre, você acredita nisso?” ou “isso é errado você tem que mudar de igreja, não tá certo” ou ainda: “isso nem religião é, isso não é de Deus” ... Uso o exemplo da religião porque também sou teólogo e creio que esse exemplo é fácil de ser assimilado por vocês. De fato, é bastante complexo, por um momento que seja, abandonar nossas crenças, mas numa sessão de Coaching, quando o coachee está falando sobre si, especialmente sobre sua subjetividade e aquilo que lhe constitui como ser humano, devemos não só suspender todo tipo de julgamento – talvez a regra mais importante do Coaching – mas buscar compreender que sentido aquilo faz a partir do ponto de vista do outro, do universo do outro, da realidade do outro e não da minha... eu sou apenas o ponto de intersecção entre o coachee, sua história, e as possibilidades de desvendar caminhos que modifiquem sua realidade. Eu ouço, compreendo e interfiro não a partir de mim, mas a 46

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partir do meu interlocutor. Não fosse assim, o Coaching entraria numa linha doutrinária, em que as pessoas se submetem a um processo de disciplinamento que vem de uma filosofia de vida institucional da qual o coach é o detentor. Não! O Coaching desperta, através de suas ferramentas, aquilo que já está dentro de nosso coachee, logo, o cuidado com a comunicação deve ser extremo, para não criarmos com nosso discurso, situações de confronto para com aquilo que o coachee acredita. É claro que nosso conhecimento estará sempre à serviço da evolução de quem nos procura, no entanto, o ponto de vista que deve ser considerado é o do outro, é o seu universo. Por isso, a comunicação é circular e não monodirecionada. Ela acontece na relação igualitária de dois interlocutores, e não de um detentor do saber e outro uma “tábula rasa” de conhecimento. Todo o saber do outro deve ser considerado, e suas experiências de vida honrada e valorizada, logo, o nosso discurso como coaches deve evidenciar isso a todo momento. Suas palavras podem ser a semente que gerará um broto, uma vida nova, um lampejo de ideia, ou pode ser a lâmina que corta, que ceifa, que abafa toda possibilidade de crescimento e desenvolvimento. Sua comunicação pode gerar a esperança e a humildade a partir do reconhecimento ou pode gerar a angústia e a descrença. A sessão de Coaching se faz por meio da comunicação. A Psicologia já advertia seus profissionais sobre como conduzir a fala e a escuta numa relação de consultório. Aprendamos o efeito de nossas palavras e o efeito do desprezo pelo universo do outro para que possamos, por meio do nosso discurso produzir positividades.

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Cap1 issu coahcing positivo  
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