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GUIA DA ARQUITETURA MODERNA NO RECIFE NÚCLEO

PERNAMBUCO


Copyright © 2016 by Docomomo_Brasil – Núcleo Pernambuco Versão digital Capa: Fernando Almeida Revisão: Responsabilidade dos autores Diagramação: Fernando Almeida Recife – 2016 Todos os direitos autorais deste livro são reservados ao Docomomo_Brasil – Núcleo Pernambuco


PERNAMBUCO

ABRIL

2 016


NOTA

INTRODUTÓRIA

O guia da arquitetura moderna no recife é uma produção coletiva dos pesquisadores associados ao docomomo_núcleo|pernambuco. Foi estruturado segundo cinco roteiros de visita oferecidos para os participantes do 11o Seminário Docomomo_Brasil, realizado no Recife entre os dias 17 e 22 de abril de 2016. Contempla uma produção arquitetônica, urbanística e paisagística de relevância e oferece as informações necessárias para uma aproximação de especialistas e leigos ao rico acervo modernista recifense. Os roteiros foram idealizados para serem percorridos, em sua grande maioria, a pé e pela possibilidade de visitar o interior de algumas das edificações selecionadas, de tal forma a garantir o pleno usufruto das obras selecionadas. Dois roteiros reúnem edificações construídas no centro da cidade, mais precisamente nos bairros do Recife, Santo Antônio, São José, Santo Amaro e Boa Vista, contemplando obras públicas e privadas, das décadas de 1930 e 1970. O bairro de Boa Viagem é objeto de outro roteiro, focado na produção de


edifícios de apartamentos entre as décadas de 1950 e 1980. O quarto roteiro contempla a arquitetura e o urbanismo do Campus Joaquim Amazonas da Universidade Federal de Pernambuco e edificações notáveis localizados em sua vizinhança. Em todos os roteiros foram contempladas edificações e obras públicas que abrigam bens integrados, tais como pinturas murais, azulejaria e vitrais, para que os visitantes conheçam a experiência modernista nos mais diversos campos da arte, a associação entre obra arquitetônica e os bens integrados e o rico ambiente artístico e cultural recifense no recorte histórico definido. O guia da arquitetura moderna no recife pretende ser uma obra aberta, a ser continuamente revista e ampliada e publicada em diversas mídias, com o firme propósito de aproximar estudiosos do movimento moderno, leigos e o poder público com o propósito de construir políticas públicas eficientes para a proteção, preservação e restauro do nosso acervo modernista.


SUMÁRIO

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

1 2 3 4 5 6

PRAÇA DE CASA FORTE PRAÇA EUCLIDES DA CUNHA PRAÇA DO DERBY PRAÇA DA REPÚBLICA LARGO DAS CINCO PONTAS PRAÇA FARIA NEVES

12 14 16 18 20 22

BAIRROS DE SANTO ANTÔNIO E SÃO JOSÉ

1 ED. DUARTE COELHO/CINEMA SÃO LUIZ 2 EDIFÍCIO CAETÉ 3 CAIXA ECONOMICA FEDERAL EDIFÍCIO SANTO ANTÔNIO 4 5 SECRETARIA DA FAZENDA 6 EDIFÍCIO JUSCELINO KUBITSCHEK 7 BANCO DO BRASIL DO RECIFE EDIFÍCIO BANDEPE 8 9 SEDE DA PREFEITURA DO RECIFE 6

26 28 30 32 34 36 38 40 42


10 11 12 13 14 15 16 17

18

44 46 48 50 52 54 56 58 SEDE DA RFFSA 60

EDIFÍCIO INCONFIDÊNCIA EDIFÍCIO IGARASSU EDIFÍCIO DA AIP BANCIPE BANCO DA LAVOURA AVENIDA 10 DE NOVEMBRO ED. TRIANON E CINEMA TRIANON CINEMA ART PALACIO

BAIRROS DA BOA VISTA E SOLEDADE

1 2 3 4 5 6 7 8 9

EDIFÍCIO SANTA RITA EDIFÍCIO PIRAPAMA EDIFÍCIO UNIÃO BIBLIOTECA PÚBLICA DO EST. DE PE INSTITUTO DE EDUCAÇÃO CASAS PURISTAS SANTUÁRIO N. S. DE FÁTIMA SEDE DA CELPE EDIFÍCIO BARÃO DE RIO BRANCO 7

64 66 68 70 72 74 76 78 80


10 11 12 13 14 15

82 84 86 88 PAVILHÃO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITOS 90 HOSPITAL DA BRIGADA MILITAR 92 EDIFÍCIO BARÃO DE SÃO BORJA PARQUE BOA VISTA CLÍNICA ARTUR MOURA EDIFÍCIO DUQUE DE BRAGANÇA

BAIRRO DA VÁRZEA

1 CHESF 96 2 EDIFÍCIO SEDE DA SUDENE 98 3 AGTEC 100 4 CAMPUS DA UFPE 102 5 FACULDADE DE MEDICINA 104 6 HOSPITAL DAS CLÍNICAS 106 7 INSTITUTO DE ANTIBIÓTICOS 108 8 C. DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 110 9 CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO 112 10 NÚCLEO TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO 114 8


BAIRRO DE BOA VIAGEM

1 2 3

4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18

EDIFÍCIO CALIFÓRNIA 118 EDIFICIO CASA ALTA 120 QUARTEIRÃO ENTRE RUAS EDUARDO WANDERLEY FILHO E P. CARAPUCEIRO 122

EDIFÍCIO FRANCISCO VITA EDIFÍCIO ACAIACA EDIFÍCIO MIRAGE EDIFÍCIO REMBRANDT EDIFÍCIO DEBRET EDIFÍCIO BOUGAINVILLE EDIFÍCIO HYDE PARK EDIFÍCIO SAHARA EDIFÍCIO PEDRA DO MAR EDIFÍCIO SIRIUS EDIFÍCIO QUEEN MARY EDIFÍCIO HOLIDAY EDIFÍCIO OÁSIS EDIFÍCIO MARIA JULIANA EDIFÍCIO MARIA LEOPOLDINA 9

124 126 128 130 132 134 136 138 140 142 144 146 148 150 152


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ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

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1 PRAÇA DE CASA FORTE 1935

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

Casa Forte

Em 1935, Burle Marx cria o Jardim da Casa Forte, fruto de uma reforma completa da praça existente: um jardim aquático constituído por três lagos, em perfeita harmonia com o conjunto edificado. Esse é o primeiro jardim moderno brasileiro. Com função educativa destaca a vegetação de regiões específicas da América, incluindo exemplares da Mata Atlântica, da Amazônia e espécies tropicais exóticas de outros continentes. Contornando os lagos estão as espécies arbóreas formando cenários variados de volumes e combinações de texturas. Para o lago central, o paisagista indicou a escultura de uma índia a se banhar que nunca foi executada. No contorno, duas alamedas de árvores sombreavam a fileira de bancos. A água represada em lagos, por sua vez, produzia efeitos cênicos e refrescantes e servia como meio de cultura botânica. Foram introduzidos paus-mulatos e plantas aquáticas como ninfeas, vitórias-régias e lótus. Os lagos retangulares foram restaurados em 2014 sendo introduzidas as plantas aquáticas e do seu contorno indicadas por ele (Ana Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde). 12


ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

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2 PRAÇA EUCLIDES DA CUNHA 1935

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

Madalena

Burle Marx traçou passeios e gramados em forma de elipse com um canteiro central dedicado às cactáceas e alamedas nas bordas com cortinas de árvores. A Praça Euclides da Cunha, assim denominada por Burle Marx em homenagem ao célebre escritor de “Os Sertões”, reproduzia um cenário do sertão nordestino em pleno litoral pernambucano, segundo sua concepção de jardim educativo. No final da década de 1950, a escultura de um vaqueiro, de autoria do pernambucano Abelardo da Hora, complementou as ideias do artista. A Praça foi restaurada segundo o projeto original, em 2004, numa parceria entre o Laboratório da Paisagem da UFPE e a Prefeitura do Recife. Foi introduzido um passeio no meio do cactário com a função de permitir a travessia de pedestres; plantadas cactáceas no canteiro central e árvores nos anéis do contorno, de forma a recriar o cenário sertanejo originalmente concebido (Ana Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde).

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3 PRAÇA DO DERBY 1937

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

Derby

Em 1937, Burle Marx elaborou um projeto de reforma para a Praça do Derby, introduzindo linhas curvas ao traçado de linhas retas e ampliando a Ilha dos Amores existente e criou novos caminhos e espaços abertos que poderiam servir para a recreação infantil. Ao longo do tempo, parte do traçado foi modificado, o comércio informal instalou-se nos limites da Praça e brinquedos infantis ocuparam grande área, antes destinada à contemplação. Em 2008, o projeto de restauro resgata o traçado original do paisagista com adaptações ao novo terminal de ônibus do corredor leste-oeste da Cidade. O lago da Ilha dos Amores e toda a vegetação do entorno foram recuperados. Os trabalhos de restauro foram realizados graças a uma parceria entre o Laboratório da Paisagem da UFPE e a Prefeitura do Recife (Ana

Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde).

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4 PRAÇA DA REPÚBLICA 1937

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

Santo Antônio

A Praça da República é o mais antigo jardim público do Recife. Foi construída no sítio onde existiu o Parque e o Palácio de Friburgo no século XVII, edificados pelo Conde João Maurício de Nassau durante o domínio holandês em Pernambuco (1630/1654). Por volta de 1937, Roberto Burle Marx deixa sua marca na Praça da República, mantendo as esculturas clássicas e as palmeiras imperiais e especificando coqueiros, cajueiros e mangabeiras, entre outras espécies arbóreas. Substituiu os bancos por outros do mesmo modelo de granito polido que usou na Praça de Casa Forte e na Praça Euclides da Cunha. Desanuviou o traçado, conferindolhe um aspecto monumental ao acrescentar uma fonte luminosa no centro da composição. Também definiu passeios largos partindo dessa fonte para os edifícios do entorno e com as águas dos rios Capibaribe e Beberibe (Ana Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde).

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ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

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5 LARGO DAS CINCO PONTAS 1936-37

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

São José

Neste projeto desenvolvido entre 1936 e 1937, Burle Marx propõe um conjunto de jardins que contornam o Forte de São Tiago das Cinco Pontas promovendo uma “proteção verde” à fortaleza, por meio da inserção de uma linha de vegetação arbórea que também funciona como um elemento de ligação entre o conjunto compositivo. Este Jardim é composto por cinco partes que acompanham o traçado das vias lindeiras e a entrada do Forte. Em relação ao tipo de vegetação especificada, o paisagista contemplou espécies resistentes à salinidade do ar, uma estratégia semelhante a utilizada nas Praças Arthur Oscar e Dezessete (Ana Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde).

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ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

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6 PRAÇA FARIA NEVES 1958

ROBERTO BURLE MARX E O RECIFE

Dois Irmãos

Na gestão do prefeito Pelópidas Silveira, em 1958, Burle Marx foi convidado para criar um jardim recreativo para as crianças, com um brinquedo de concreto desenhado por ele (em forma de escultura), além de balanços, gangorras e escorregos, complementados por dois longos bancos. Na década de 1960, esta Praça passou a ser chamada Praça Faria Neves, em homenagem ao professor de História Natural José Pedro Faria Neves. A participação da comunidade do entorno foi muito importante para a sua restauração pela Prefeitura do Recife que, em 2006, devolveu este lindo Jardim de Burle Marx à população do bairro, com mesinhas para jogos, o brinquedo de concreto recuperado, áreas sombreadas para sentar e conversar e canteiros de cana-da-índia. Esta obra de Burle Marx, como entrada do Parque Estadual de Dois Irmãos, é um lugar público agradável para o convívio social (Ana

Rita Sá Carneiro, Aline Figueiroa, Fátima Mafra e Patrícia Ataíde).

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BAIRROS DE SANTO ANTÔNIO E SÃO JOSÉ

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EDIFÍCIO DUARTE COELHO/ CINEMA SÃO LUIZ 1952 américo campello, maurício coutinho e pedro correia de araújo

BAIRROS DE SANTO ANTÔNIO E SÃO JOSÉ

1

R. da Aurora, 175, Boa Vista

Este edifício de 13 andares abriga cinema no térreo e escritórios e residências nos pavimentos superiores. Apresenta composição tripartida e predominância de cheios sobre vazios. O cinema, que tem capacidade para 1260 espectadores, possui uma suntuosa entrada, com pé direito duplo esquadrias de bronze e vidro, pilares em granito e painel do artista plástico Lula Cardoso Ayres. No primeiro andar, uma ampla sala de estar, para a socialização antes e após os filmes, descortina uma vista para o Rio Capibaribe. Possui piso em mármore branco, revestimento de paredes em folheado de madeira, luminárias em bronze e sofás estofados na cor preta. A sala de exibições apresenta ostentosa decoração e revestimento à meia altura nas paredes, uma malha rendada de madeira jatobá e tecido em seda dourada, que produzem isolamento acústico, além de vitrais com motivos florais, de Aurora de Lima, nas laterais da tela (Kate Saraiva). 26


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EDIFÍCIO CAETÉ 1955 acácio gil borsoi

Rua da Aurora, 573, Boa Vista

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Composto de um bloco vertical de 18 pavimentos com cinco apartamentos por andar divididos em três entradas independentes e um bloco horizontal destinado ao uso comercial e de serviços, o projeto foi encomendado pelo Banco Hipotecário Lar Brasileiro. Trata-se de uma realização característica da primeira fase de atuação de Borsoi na cidade, juntamente com os edifícios Califórnia e União (ambos de 1953), nos quais os ensinamentos da ‘escola carioca’ se combinam com a pesquisa de soluções para enfrentar as condições climáticas locais. Representa a construção de habitações econômicas para investimento incorporadas por instituições financeiras que adotaram a linguagem moderna e realizaram milhares de unidades nas grandes e médias cidades brasileiras. Hoje, apesar da sua localização privilegiada e de seus amplos e espaçosos apartamentos, o Caeté vive momentos difíceis decorrentes de adaptações infelizes que culminaram na descaracterização parcial de sua arquitetura (Diego Inglez de Souza). 28


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CAIXA ECONÔMICA FEDERAL (Agência Praça da República) 1984-85

jerônimo da cunha lima e carlos fernando pontual Praça da República, 233, Santo Antônio

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A planta cruciforme forma generosos balanços no primeiro pavimento e áreas externas cobertas no térreo. O sistema estrutural se destaca da edificação com uma peculiar textura de concreto semelhante às pedras utilizadas para a base das casas coloniais. Os pilares soltos no térreo demarcam a pele de vidro, enquanto que o sistema de laje de piso do primeiro pavimento é apoiado em vigas encorpadas que se encerram no balanço da ‘cruz‘ sem amarração com viga final. A laje de coberta do 1º andar é de alvenaria armada abobadada que ao se estenderem para o balanço declinam até que as abobadas ficam planas (Aristóteles Cantalice).

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EDIFÍCIO SANTO ANTÔNIO 1960 acácio gil borsoi

Av. Dantas Barreto, 191, Santo Antônio

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Edifício de escritórios com quatro andares de escritórios e comércio no térreo, construído nos fundos do Convento de Santo Antônio, da ordem franciscana. A fachada sobre a Avenida Dantas Barreto tem orientação oeste, protegida por uma película de cobogós de concreto desenhados pelo arquiteto, que propiciam um espaço intermediário para filtragem do sol. O hall de acesso tem seus tijolos maciços aparentes manipulados de forma a gerar um painel de tijolos recortados, recuados e salientes, de autoria do próprio arquiteto. O acesso aos elevadores e as escadas são iluminados por uma claraboia (Aristóteles Cantalice).

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SECRETARIA DA FAZENDA 1939 fernando saturnino de brito

Rua Imperador Pedro II, Santo Antônio, s/ nº

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Projetado pelo arquiteto Fernando Saturnino de Brito e equipe, com cálculo estrutural de Joaquim Cardoso, trata-se de um dos primeiros exemplares da arquitetura moderna da era pós-Luís Nunes. Segue o repertório corbusiano: torre erguida sobre pilotis com pé-direito duplo, bloco horizontal perpendicular ao vertical, estrutura independente, janelas em fita, fachadas livres e teto jardim. O projeto do edifício contemplou a criação de uma rua que transformou o seu terreno em uma quadra isolada, segundo proporção diferente das existentes no bairro. Os murais do artista pernambucano Cícero Dias, pintados no ano de 1948 nas paredes internas de diversos pavimentos, adicionaram significado ao patrimônio, uma vez que se são uns dos primeiros murais abstratos pintados na América Latina (Paula Maciel Silva).

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ED. JUSCELINO KUBITSCHEK (JK) / Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) 1951

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instituto de aposentadoria e pensões dos industriários Avenida Dantas Barreto, 315, Santo Antônio

O Edifício JK foi construído em 1951 em um terreno de 968 m2 no antigo Pátio do Paraíso, tendo sido primeiro utilizado pela Sudene (até 1974) e depois pelo INSS (até 1998). Com seus 24,2 mil metros quadrados distribuídos em 20 andares e subsolo, fez parte do conjunto de obras do Governo Federal entre 1955 e 1960 por meio do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI). Seu volume prismático é composto por duas fachadas em brisessoleil e duas empenas cegas menores. A relação com a rua é marcada por pé direito duplo, fechamento em vidro e colunas independentes que apoiam a marquise de acesso. A cobertura do edifício abrigava espaço de convivência e restaurante do qual se descortinava uma vista para toda a cidade do Recife. Depois de anos de abandono, parte do edifício foi adquirido por um grupo de ensino superior que vem adaptando seus espaços internos para o novo uso (Natália Vieira). 36


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BANCO DO BRASIL DO RECIFE 1955-60 rubem de almeida serra

Avenida Rio Branco, s/ nº, Bairro do Recife

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O edifício-sede do Banco do Brasil localizado nas margens do Rio Capibaribe, no cruzamento da Avenida Rio Branco com o Cais do Apolo, teve a sua construção entre a segunda metade da década de 1950 e o início da de 1960. O prédio tem doze andares e uma empena de 36 metros de altura. Para tal, o arquiteto convidou o artista plástico e muralista carioca Paulo Werneck a executar o revestimento externo de todo o edifício, principalmente o imenso mural do volume de circulação. Foram utilizados 10.800 m2 de pastilhas de vidro, nas cores azul e cinza claro em todas as fachadas, e no painel cromático foi absorvido 1.320 m2 de pastilhas de vidrotil, nas cores cinzas claro, bege, azul claro e azul marinho. Werneck, em 1961, chegou a se mudar para a cidade de Recife, com a sua esposa, para dar início às obras do mural (Maria Luiza Freitas).

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EDIFÍCIO BANDEPE 1969-71

acácio gil borsoi, janete costa e gilson miranda Avenida Cais do Apolo, 321, Bairro do Recife

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O edifício possui 18 andares tipo, garagem semienterrada e uma cobertura para reuniões e eventos. Os materiais utilizados foram predominantemente o concreto e a esquadria de alumínio com vidro. No térreo a base do edifício revestida em concreto se une ao corpo elevandose até a cobertura onde encerra-se formando um expressivo coroamento. Este elemento de concreto é separado das fachadas de vidro por uma profunda reentrância que, por sua vez, é marcada horizontalmente por jardineiras dispostas em alguns dos andares. Em três das fachadas há a utilização de brises verticais sobrepostos aos planos de vidro. As partes em concreto da fachada são feitas por meio de placas moldadas, que no térreo recebem uma textura ondulada (Aristóteles Cantalice).

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SEDE DA PREFEITURA DO RECIFE década de 1960 jorge martins júnior

Avenida Martin Luther King, 925, Bairro do Recife

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O projeto e a construção da sede da administração municipal do Recife tem uma longa história. Luís Nunes e sua equipe se debruçaram sobre o problema, nos anos de 1930, sem que o projeto fosse levado a cabo. Após estudos realizados, a escolha recaiu em terreno no aterro do Cais do Apolo, no Bairro do Recife. O arquiteto Jorge Martins Júnior é o autor do então denominado Paço Municipal do Recife, que abrigaria os poderes executivo e legislativo. O conjunto é composto por torre protegida por quebrasóis, sede do executivo, barra horizontal que abriga serviços, os únicos construídos, e conjunto para a Câmara de Vereadores, cuja assembleia em forma de tronco de cone seria destaque na composição do conjunto cívico. Por felicidade, não foi de todo prejudicado, tendo em vista a relativa autonomia das partes componentes do conjunto (Luiz Amorim).

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EDIFÍCIO INCONFIDÊNCIA 1942 carlos frederico ferreira

Avenida Martins de Barros, 660, São José

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O Edifício Inconfidência ou a Sede da Delegacia do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) foi implantado nas margens do rio Capibaribe, em quadra à beira do Rio Capibaribe, e era destinado para os funcionários do Instituto. É formado por dois blocos perpendiculares articulados pela circulação vertical. Os dois primeiros pavimentos eram destinados às atividades da Delegacia e os demais pavimentos aos apartamentos, todos dúplex. A circulação horizontal é feita por galerias longitudinais que tem aspectos de varanda. A entrada do apartamento ocorre pelo piso superior, por meio de hall que controla o acesso e a visão dos quartos. Ferreira defende que desse modo se consegue uma economia de espaço, diminuindo a circulação. Os apartamentos possuem sala de jantar e quarto de empregada, denunciando o padrão classe média. Apesar disso, o projeto segue a tendência do espaço mínimo defendida pelo arquiteto em seus projetos para o IAPI (Maria Luiza Freitas). 44


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EDIFÍCIO IGARASSU 1952-53 imobiliária nacional ltda.

Praça Nossa Senhora do Carmo, 30, Santo Antônio

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Seu projeto original, que contava com 29 pavimentos, foi aprovado em 1952 pelo Departamento de Engenharia e Serviços Técnicos Municipais, mas precisou ser ratificado após uma série de conflitos entre os empreendedores e a Superintendência do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), devido a sua proximidade com a Igreja e com o Convento de Nossa Senhora do Carmo. O Edifício Igarassu acabou sendo construído apenas em 1953, com um gabarito de 9 pavimentos, permitidos pela sua proximidade com o Edifício Leila, que conseguiu aprovação com altura semelhante alguns anos antes. Este projeto, assim como outros exemplares de novos edifícios erguidos às margens da recém-inaugurada Avenida Dantas Barreto é fruto de estímulo imobiliário gerado pela modernização do Bairro de Santo Antônio, consolidado como um importante centro de negócios da cidade, e que neste momento era o centro de um acalorado debate urbanístico acerca da sua remodelação, que teve início em 1927 (Patrícia Ataíde). 46


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EDIFÍCIO DA ASSOCIAÇÃO DE IMPRENSA DE PERNAMBUCO (AIP)

1959

delfim amorim Avenida Dantas Barreto, 576, São José

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O edifício sede da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP) é fruto de incorporação imobiliária viabilizada pela contratação da Construtora Figueira & Jucá e do escritório do arquiteto Delfim Amorim. A solução proposta para programa de uso misto, com loja no térreo, escritórios e sede nos pavimentos superiores, se fundamentou no aproveitamento máximo do lote e na ruptura de fachada plana segundo estratégias compositivas: a. Definição de plano da fachada por moldura, separando-o dos seus vizinhos; b. Utilização de janelas horizontais contínuas nos pavimentos-tipo e correspondentes à diretoria da AIP; c. Introdução de jogo volumétrico nos últimos pisos por meio de terraço de acesso ao auditório, de forma curva, e de varanda que se projeta sobre o vazio, no piso do restaurante. A marquise de acesso, que se projeta sobre a calçada, é o último elemento do seu exercício de rompimento da fachada plana (Luiz Amorim). 48


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BANCIPE (atual Edifício Guararapes) 1963-67 acácio gil borsoi e vital pessoa de melo, joaquim cardozo (consultor) Avenida Dantas Barreto, 498, Santo Antônio

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O BANCIPE comporta uma grande loja no térreo e destina o restante dos andares para salas de escritórios. A planta é em formato retangular no limite do lote, exceto na fachada lateral, que recua para obedecer aos requerimentos do IPHAN (na época SPHAN) em relação à Igreja de Santo Antônio. O sistema estrutural, desenvolvido por Joaquim Cardozo, é composto por uma leve laje nervurada que descarrega o peso nas vigas das fachadas limítrofes. Os pilares são incorporados à fachada e dialogam com as vedações verticais por meio de uma composição estratificada de aberturas com quebra sóis verticais e janelas, ora coloridas (azul, vermelho e verde), ora translúcidas. Os materiais utilizados são predominantemente o concreto e a esquadria de alumínio com vidro. As duas fachadas principais do volume são marcadas por esses quebra sóis, enquanto que as outras duas fachadas são cegas ou com aberturas compactas (Aristóteles Cantalice). 50


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BANCO DA LAVOURA 1958 alvaro vital brazil

Avenida Dantas Barreto, 512, Santo Antônio

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Evidenciando sua preferência pelas formas simples e ortogonais, Vital Brazil projetou este edifício de escritórios na recém-aberta Avenida Dantas Barreto. Em uma interpretação do cobogó local, dispôs em quase todas as fachadas uma malha de blocos de concreto pré-fabricado que protege os interiores da insolação enquanto deixa passar a ventilação. No final dos anos 1970, o novo proprietário descaracterizou o andar térreo ao inserir uma cobertura em policarbonato translúcido na lateral do edifício no trecho que corresponde ao painel cerâmico de autoria de Francisco Brennand. O painel Batalha dos Guararapes (1961-1962), com dimensões de 2,23 x 32,50m, mantém íntima relação com o espaço urbano. Após a sua restauração em 2005, visando protege-lo da exposição às intempéries e à ação humana, foram inseridos um piso de cerâmica, bancos de concreto, tratamento paisagístico e gradis de ferro na área correspondente ao painel (Fernando Diniz e Natália Vieira). 52


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AVENIDA 10 DE NOVEMBRO (atual Av. Guararapes) 1938-49 comissão do plano da cidade

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Construída durante o Estado Novo, ocupa tecido histórico do Bairro de Santo Antônio. Fruto de longa e intensa discussão urbanística iniciada em 1927, foi construída entre 1938 e 1943 para ser o novo centro de negócios da cidade. O último edifício foi concluído em 1949. Seu projeto foi feito pela Comissão do Plano da Cidade, que recuperou elementos do plano de Nestor de Figueiredo (1932). A unidade do conjunto foi atingida por meio de diretrizes influenciadas pelo plano Agache para o Rio de Janeiro, como a altura e espaçamento das galerias e a altura dos edifícios (segundo ângulo de 60º em relação ao lado oposto da rua). Destacamse o edifício Sulacap, de Robert Prentice (1941), que marca sua entrada leste com o edifício Santo Albino, e o Trianon, de Rino Levi, projeto de 1937, que, juntamente com o edifício dos Correios e Telégrafos, marca sua entrada oeste (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO TRIANON E CINEMA TRIANON 1937-40 rino levi

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Avenida Guararapes, s/nº, Santo Antônio

Este exemplar segue os mesmos princípios utilizados por Rino Levi no Cine Ipiranga/Hotel Excelsior, em São Paulo, ou seja, edifícios de uso misto, associando escritórios, hotel e cinemas no térreo, o que acarreta uma série de desafios para a compatibilização de diferentes circulações e de adequação das estruturas. O elemento marcante do edifício reside na grande reentrância curva que domina sua fachada na esquina, entre a Avenida Guararapes e a Rua do Sol, já prevista pela legislação. Os pavimentos são bem marcados por pestanas de concreto que conferem horizontalidade ao conjunto. As amplas aberturas receberam esquadrias em guilhotina. No projeto original constavam apenas quatro pavimentos, ampliado para sete para integrar o perfil desejado para o conjunto. O cinema Trianon com capacidade para 611 lugares, consiste em um grande volume, no interior do lote, com coberta em tesouras em concreto e telhas cerâmicas (Fernando Diniz e Kate Saraiva). 56


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CINEMA ART PALACIO 1940 rino levi

Rua da Palma, s/nº, Santo Antônio

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Este cinema era considerado uma das melhores salas de exibição do Recife, até o encerramento de suas atividades em 1993. O projeto de Rino Levi apresenta linguagem protomoderna: volumes “puros” e preocupação com a economia e a racionalidade construtiva. O edifício apresenta uma planta em formato trapezoidal, fachada simétrica, colunas cilíndricas nas esquinas, volume da cabine de projeção sacando na fachada, aberturas circulares e iluminação feérica abaixo da marquise em concreto. A placa em concreto com letras em argamassa armada indica o nome do cinema, localizada em uma das quinas do prédio. No interior apresentava figuras em relevo, nas paredes laterais, com motivos indígenas. Foi o primeiro cinema a implantar sistema de ar-condicionado no Recife (Kate Saraiva).

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BAIRROS DE SANTO ANTÔNIO E SÃO JOSÉ

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SEDE DA REDE FERROVIÁRIA FEDERAL (RFFSA) 1970 frank svensson e marcos domingues Av. Rio Capibaribe, 147, São José

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O edifício foi pensando como um grande bloco de horizontal em formato quadrangular com um amplo pátio interno. Dentro desse pátio está implantado o corpo vertical da edificação. Os volumes mais baixos apresentam-se, ora com reentrâncias, ora com saliências, ora mais baixos e ora mais altos. Para proteção da incidência solar, os arquitetos lançam mão de quebra sol em concreto armado e cobogó cerâmico criando uma rica composição. O sistema estrutural é em concreto e as vedações são em placas de concreto moldadas. As esquadrias são de ferro pintado de preto. O interessante sistema de laje é confeccionado, ora por vigotas de ferro que apoiam blocos em forma de arco em concreto; ora por laje maciça em concreto aparente (Aristóteles Cantalice).

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BAIRROS DE SANTO ANTÔNIO E SÃO JOSÉ

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EDIFÍCIO SANTA RITA 1962 delfim amorim

Avenida Conde da Boa Vista, 85, Boa Vista

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O Edifício Santa Rita é uma feliz associação entre produto imobiliário e inovação arquitetônica. Amorim atende à demanda programática de abrigar apartamentos de 1 a 3 quartos e unidades comerciais no pavimento térreo. Após o sucesso da aplicação de azulejos com padrões de sua autoria no edifício Acaiaca (ver verbete), Amorim repete a mesma solução para o revestimento dos planos de alvenaria que também recebem, pioneiramente, caixas em concreto armado para a instalação de aparelhos de ar condicionado. O volume é ordenado pela retícula estrutural e animado pelo jogo alternado de planos de alvenaria azulejada e esquadrias de madeira e vidro, além do uso de elemento vazado cerâmico. O último pavimento abriga ampla área coberta de uso condominial, solução adotada pelo arquiteto em vários edifícios, como o Barão do Rio Branco (consultar verbete) (Luiz Amorim).

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EDIFÍCIO PIRAPAMA 1956-60 delfim amorim e lúcio estelita

Avenida Conde da Boa Vista, 250, Boa Vista

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Empreendimento foi idealizado pelo senador João Cleofas de Oliveira, proprietário do terreno, e realizado pela construtora Figueira & Jucá, com quem Delfim Amorim realizou inúmeras obras, como o Edifício Francisco Vita (ver verbete). É composto por um corpo horizontal organizado por uma rua interna que abriga unidades de comércio, no térreo, e serviços, na sobreloja, e uma torre de planta retangular, dividida em dois blocos, com distintos acessos: o bloco A reúne apartamentos de 2 e 3 quartos, e o bloco B, com apartamentos de tipos e tamanhos variados - quitinetes, 1 ou 2 quartos. A torre de circulação vertical do bloco B, que se destaca volumetricamente pela planta elipsoidal, tem fechamento de elementos vazados cerâmicos. A fachada é predominantemente revestida em pó de pedra (Luiz Amorim e Cristiano Nascimento).

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EDIFÍCIO UNIÃO 1953 acácio gil borsoi

Rua da União, 543, Boa Vista

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Esta obra corresponde ao primeiro de uma série de edifícios que serão desenvolvidos pelo arquiteto Acácio Gil Borsoi na cidade do Recife, encomendados pelo Banco Hipotecário Lar Brasileiro, que visava oferecer habitações econômicas em edifícios altos. As suas referências plásticas demonstram estreitas relações com a linguagem da escola carioca, sobretudo pelo uso do pilotis com colunas em V, disseminado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, e pelo tratamento de fachada, que faz uso de uma superfície de cobogós ritmicamente interrompida por janelas quadrangulares, semelhante à solução utilizada por Lúcio Costa no projeto do Parque Guinle (Patrícia Ataíde).

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BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE PERNAMBUCO 1968-70

maurício do passo castro, reginaldo esteves e josé geraldo paes Rua João Lira, s/nº, Santo Amaro

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A origem da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco remonta à sede da Biblioteca Pública Provincial, criada em 1852. Ocupou diversas edificações até ser abrigada, definitivamente, em edificação resultante de concurso público de projetos. Está localizada em área anteriormente destinada ao Instituto de Educação (ver verbete), rompendo a harmonia do conjunto existente. O edifício é composto por dois corpos sobrepostos, sendo o primeiro, térreo, destinado às atividades administrativas da unidade, e o segundo, a este sobreposto, de dois pavimentos, destinado às salas de consulta e acervo bibliográfico. Sobre este, teto jardim abriga unidades complementares. Devem ser destacados os sistemas de iluminação zenital das salas de leitura e de proteção solar que, juntamente com a solução em pé-direito duplo do seu acesso principal, contribuem para criar uma luminosidade apropriada para a leitura e concentração (Luiz Amorim). 70


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INSTITUTO DE EDUCAÇÃO (IEP) 1956

marcos domingues da silva e carlos falcão correia lima Rua João Lira, s/nº, Santo Amaro

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O conjunto do Instituto de Educação de Pernambuco (IEP) é resultado de concurso público nacional, realizado em 1956, após campanha promovida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Pernambuco. O projeto vencedor organiza o programa em quatro edificações: O Jardim de Infância Ana Rosa, térreo, e Escola Primária Cônego Rochael de Medeiros, o Colégio Estadual do Recife e o Instituto de Educação, os últimos foram organizados em blocos sobre pilotis, de dois pavimentos, acessados por meio de rampas. O conjunto é completado com por bloco horizontal que abriga atividades administrativas e espaços de uso comum (biblioteca, laboratórios, vestiários) e volume para abrigo do auditório, este último, nunca construído. A disposição dos volumes de sala de aula busca a melhor orientação para a iluminação e a ventilação naturais para as salas de aula. Destaque deve ser dado ao jardim da infância, que expressa com mais clareza a influência de Richard Neutra e dos preceitos pedagógicos inspirados em Fröbel, Montessori e Dewey (Luiz Amorim). 72


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CASAS PURISTAS 1931 georges mounier

Rua Bispo Cardoso Ayres com a Av. Visconde de Suassuna

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O conjunto é constituído por seis casas conjugadas duas a duas. Os volumes geométricos puros, rompidos apenas pelas pérgulas e balcões, e a ausência completa de ornamentos aludem claramente ao funcionalismo europeu dos anos 1920 e qualificam-nas como um dos primeiros exemplares modernos do país, tendo em vista que são contemporâneas às residências projetadas por Gregori Warchavchik em São Paulo. Ao mesmo tempo, as plantas e a construção em si remetem às formas tradicionais prevalentes em Recife naquele momento. As casas constituem uma Zona Especial de Preservação Histórica - ZEPH 11 (Fernando Diniz e Aristóteles Cantalice).

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SANTUÁRIO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA (antiga capela do Colégio Nóbrega) 1933-35 georges mounier

Rua Oliveira Lima, 824, Soledade

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A Igreja construída pelos Jesuítas adjacente ao Colégio Nóbrega, origem da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), foi projetada pelo arquiteto francês e professor da Escola de Belas Artes Georges Mounier responsável por outros projetos religiosos em outras capitais nordestinas como Fortaleza e Natal. Mounier associa o princípio clássico da cruz latina à “moderníssima arquitetura” na nave, composta de seis semi-elipses de concreto armado de 26 metros de altura. Trata-se da primeira igreja no construída no mundo dedicada à aparição da “Senhora do Rosário de Fátima” em 1917, o que por um lado demonstra claramente a importância e a capacidade econômica da colônia portuguesa na cidade durante o século XX, além da pluralidade de matrizes que convergiriam na formação da arquitetura moderna em Pernambuco e no Brasil, para além das narrativas já consagradas acerca da “aparição” da mensagem moderna em Pernambuco (Diego Inglez de Souza). 76


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SEDE DA COMPANHIA ENERGÉTICA DE PERNAMBUCO (CELPE) 1972-75 vital pessoa de melo e reginaldo esteves Avenida João de Barros, 111, Boa Vista

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O conjunto é composto por quatro blocos com alturas e usos diferentes, suas fachadas principais são protegidas por uma “grelha” de quebra sóis verticais e horizontais, dispostos de modo a proteger os seus planos de vidros. A fixação dos quebra sóis é feita ora por uma estrutura vertical independente do bloco ora por vigas do edifício que estendem-se para apoiá-los. A fachada longa e curva abre um espaço para um jardim projetado por Roberto Burle-Marx, no qual a disposição dos caminhos e do espelho d’água estabelece uma série de enquadramentos para a fachada e conduz o transeunte ao uma escada em concreto, protegida por uma coberta em balanço. Além do jardim de Burle-Marx, o edifício destaca-se pelos seus bens artísticos integrados, como os painéis nas áreas sociais, no subsolo – de Paulo Neves – e no pavimento térreo – de Francisco Brennand (Ana Holanda Cantalice e Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO BARÃO DO RIO BRANCO

1965-69

delfim amorim e heitor maia neto Rua do Giriquiti, 205, Boa Vista

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O BRB é uma das mais relevantes realizações da arquitetura moderna no Brasil. É parte de conjunto originalmente composto por torre de um apartamento por andar (BRB) e edificação com quatro apartamentos de três quartos por andar (edifício Amapá), nunca construída. Expressa regra compositiva experimentada por Amorim anteriormente e incorporada por lei municipal que permitia a construção de espaços de pequena permanência (varandas, closets, etc.) sobre os recuos exigidos. O conjunto foi concebido segundo as linhas de investigação construtiva e expressiva fundada materiais aparentes. Sua composição se baseia na constituição de retícula estrutural tridimensional em concreto aparente, definidora dos planos de vedação preenchidos em tijolo aparente, esquadria de madeira e vidro, elemento vazado de cimento e areia e volumes suspensos revestidos em azulejos concebidos por Amorim. Recebeu o prêmio de melhor edifício de habitação coletiva concedido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Pernambuco em 1969 (Luiz Amorim). 80


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EDIFÍCIO BARÃO DE SÃO BORJA 1974 vital pessoa de melo

Rua Barão de São Borja, 460, Soledade

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Localizado num lote angular de esquina entre as Ruas da Soledade e Barão de São Borja, o Edifício Barão de São Borja possui uma implantação convidativa, recepcionando os transeuntes de ambas as ruas, havendo assim uma interessante integração com o entorno. O mural resultante da parceria com o artista plástico Anchises Azevedo, é geométrico abstrato e feito de concreto aparente, material que dialogava com a paginação original do edifício. A implantação do mural também chama a atenção, pois ele perpassa por toda a extensão da testada do lote, de forma bipartida, pois é interrompido pelo bloco vertical da edificação. O painel inicia e finaliza junto à rua, passando pelas garagens, hall de entrada e jardim frontal do edifício. Dessa forma, ele se comunica não apenas com aqueles que se encontram dentro do lote, mas também com as pessoas que circulam nas proximidades do edifício. Vale salientar que o edifício passou por reformas, que alteraram o revestimento da fachada e as esquadrias (Ana Holanda Cantalice). 82


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PARQUE DA BOA VISTA 1967-69 gp arquitetura

Rua Manoel Borba com Avenida Dom Bosco

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Exemplo ímpar de megaestrutura habitacional construída na cidade, é composta de um longo bloco horizontal com unidades de dois quartos e duas torres com apartamentos maiores, de três e quatro quartos, totalizando 270 unidades. Ela reflete uma intenção deliberada de acolher famílias de composição e rendimentos diversos num mesmo empreendimento, hoje dividido em distintos condomínios por dificuldades administrativas. O conjunto foi edificado sobre o terreno da antiga residência da família Pessoa de Queiroz e projetado pelo Grupo de Planejamento Físico e Arquitetura (GP), então formado pelos arquitetos Geraldo Santana, José Fernando Carvalho e Moisés Sampaio Andrade (Diego Inglez de Souza).

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CLÍNICA ARTUR MOURA (atual sede da FACHESF) 1945 josé norberto castro e silva

Rua do Paissandu, 58, Paissandu

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Originalmente concebido para uma clínica médica, é um exemplo pioneiro da arquitetura moderna nos moldes corbusianos no Recife, contando inclusive com a planta livre, o teto jardim e a fachada livre com suas longas janelas. O corpo central da fachada é marcado por uma marquise com formas curva sustentada por delgadas colunas, talvez uma influência da obra de Niemeyer na Pampulha. Seus interiores contem espaços fluidos com rampas interligando os andares e um belo painel de Lula Cardoso Ayres (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO DUQUE DE BRAGANÇA 1970-72 delfim amorim e heitor maia neto Rua Miguel Couto, 89, Derby

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É uma das últimas obras projetadas por Amorim antes do seu falecimento, em 1972. Foi concebido segundo o mesmo programa do Edifício Barão do Rio Branco (ver verbete), mas com apenas seis apartamentos. A interpretação adequada de norma municipal que permitia construção de coberta até o limite do lote com apoio no recuo obrigatório viabilizou área de lazer no pavimento vazado e garagem no térreo. Os elementos estruturais ordenam a composição das fachadas Norte e Sul ao enquadrar as aberturas, originalmente em madeira e vidro, e armários em tijolo aparente. Sistema de ventilação natural é introduzido como variante do peitoril-ventilado utilizado por Amorim nos edifícios Acaiaca e Francisco Vita (ver verbetes). Neste caso, o componente serve de banco-ventilado. Algumas alterações significativas foram feitas na edificação que alteraram sensivelmente a concepção original: a substituição das esquadrias de madeira e do azulejo original, em tons de castanho (Luiz Amorim). 88


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PAVILHÃO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITOS (atual sede do IAB-PE) 1936 luís nunes e fernando saturnino de brito Rua Jenner de Sousa, 130, Derby

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Luís Nunes assumiu a direção do Setor de Obras Públicas do Estado de Pernambuco, em 1934, convidado pelo interventor Carlos de Lima Cavalcanti. Criou no mesmo ano a Diretoria de Arquitetura e Construção, depois Diretoria de Arquitetura e Urbanismo, responsáveis pelo projeto de edificações públicas segundo procedimentos de estandardização de elementos da arquitetura e racionalização da construção. O Pavilhão de Verificação de Óbitos é uma de suas obras mais representativas. Construído para atender as funções de laboratório de anatomia da Faculdade de Medicina, da qual era anexo, e do instituto de medicina legal do estado. Foi concebido segundo os cinco pontos da nova arquitetura, segundo Le Corbusier e Pierre Jeanneret, em 1926, percebidos na estrutura e fachada independentes, janela horizontal, teto jardim e pilotis parcialmente encerrado. A fachada oeste é composta por plano contínuo de cobogó, utilizado pioneiramente por Nunes e equipe para a proteção solar e aeração (Luiz Amorim). 90


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HOSPITAL DA BRIGADA MILITAR (atual Hospital da Polícia Militar) 1934 luís nunes e equipe

Rua Betânia, s/nº, Derby

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O Hospital da Brigada Militar foi projetado por Luís Nunes e equipe em sua primeira fase no Recife e fez parte do programa de reestruturação da Força Pública do Estado, que se encontrava bastante fragilizada e mal equipada. O edifício seguiu os modernos padrões de projeto para hospitais, adotando as disposições em blocos no lugar de pavilhões, consistindo em dois blocos levemente inclinados cruzados por um bloco central. A leve inclinação dos blocos confere certa inovação ao conjunto. Nas fachadas da edificação percebe-se a estrutura em concreto armado. O avanço tecnológico, entretanto, é marcado pela escada helicoidal com solução ousada, com cálculo estrutural de Joaquim Cardozo, que se apoia apenas nas extremidades. Internamente, o programa foi distribuído conforme recomendações das ciências médicas, separando as enfermarias por tipos de doenças, e segundo ordens militares, de acordo com a patente do paciente (Laura Alecrim). 92


BAIRROS DA BOA VISTA E SOLEDADE

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BAIRRO DA VÁRZEA

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COMPANHIA HIDROELÉTRICA DE SÃO FRANCISCO (CHESF) 1975-76 mauricio do passo castro e dinauro esteves

BAIRRO DA VÁRZEA

Rua Dr. Delmiro Gouveia, 333, San Martin

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A sede da CHESF está distribuída em três blocos administrativos com três andares cada, cujas ligações são feitas por meio de passarelas. O pátio interno, marcado pelo volume da caixa de água que apresenta expressiva textura de concreto, propicia uma ótima área de descanso para os funcionários graças à boa aeração e às árvores. O principal material utilizado na edificação é o concreto. Ele está presente nos quebra sóis verticais e nas paredes que possuem marcação das fôrmas de madeirit, nas paredes dos corredores internos, na forma de placas de concreto. As vigas da passarela possuem dos encaixes das peças, desenhados de forma aparente demonstrando a montagem estrutural. A circulação vertical principal possui um grande vitral com desenho com vidros coloridos, enquanto que a circulação vertical do segundo bloco possui um sistema de iluminação zenital por meio de claraboias de concreto, ora sacando com chanfros triangulares, ora quadrangulares (Aristóteles Cantalice). 96


BAIRRO DA VÁRZEA

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EDIFÍCIO SEDE DA SUDENE 1975-76

paulo roberto barros e silva, ricardo couceiro e maurício do passo castro

BAIRRO DA VÁRZEA

Ministro João Gonçalves de Souza, s/nº, Engenho do Meio

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O edifício sede da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) é um edifício de referência para a região. Um primeiro estudo foi realizado por equipe coordenada por Glauco Campello, mas o projeto definitivo foi desenvolvido por Maurício do Passo Castro, Paulo Roberto Barros e Silva e Ricardo Couceiro, em 1968. O prédio é constituído de uma extensa lâmina vertical subdividida em duas partes articuladas por torres de circulação vertical. Castro teve a oportunidade de aplicar na escala de um grande edifício muitos dos princípios de adequação climática que caracterizam a sua obra. Estes são evidenciados no grande painel de elementos vazados em pré-moldados de cimento e areia que protege os corredores da fachada poente. Painéis pré-fabricados compõem a fachada nascente, definindo os vãos para a inserção das esquadrias, sendo concebidos de forma a permitir a circulação permanente de ar (Luiz Amorim e Cristiano Nascimento). 98


BAIRRO DA VÁRZEA

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AGTEC Comércio e Indústria Ltda. 1976 glauco campelo

BAIRRO DA VÁRZEA

Travessa Prof. Moraes Rêgo, 220, Engenho do Meio

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O edifício foi elaborado para abrigar uma oficina de fabricação e revenda de equipamentos agrícolas. A sua estrutura é em concreto armado, numa sucessão de pares de colunas. O pavimento térreo apresenta pé-direito duplo, um requerimento de segurança em função das enchentes na região. Seus apoios, recuados das fachadas, são envolvidos por septos, ora em alvenaria de tijolos, ora em elementos vazado. Sobre o térreo há uma massa compacta com uma extensa abertura em forma de rasgo contínuo, que acentua a sua horizontalidade. O contraste entre as partes inferior e superior confere ao edifício um aspecto leve e de proporções inusitadas. O edifício possui recortes e diferenças de textura nas paredes de vedação por meio dos painéis com elementos vazados e também vazios que conectam os pavimentos. Estas conexões verticais promovem uma dinâmica interna, onde não há praticamente repetição de espaços, cada lugar do edifício é único (Renata Caldas). 100


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CAMPUS JOAQUIM AMAZONAS (UFPE) 1949, 1951, 1955 e 1957

mario russo e escritório téc. da cidade universitária

BAIRRO DA VÁRZEA

Cidade Universitária

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As primeiras ideias urbanísticas e projetos arquitetônicos para a então chamada Cidade Universitária da Universidade do Recife (1949, 1951 e 1955) são de autoria do arquiteto italiano Mario Russo, que a concebe como uma “verdadeira e organizada cidade moderna, estendida sob o sol e o verde [...] autônoma como vida e como desenvolvimento”. Como em outras cidades universitárias do país, possuia unidades didáticas, de lazer, de esporte e residenciais. Russo deixa a cidade em 1956, mas o projeto para a Cidade Universitária é continuado. As avenidas diagonais que cortavam o campus deixam de existir, passando a haver apenas uma avenida com saída para as ruas perimetrais. É essa a estrutura viária que permanece até hoje. Os projetos para os prédios ganham a assinatura de profissionais como Filippo Mellia, Maurício do Passo Castro, Hélvio Polito Lopes, Reginaldo Esteves, dentre outros, alguns deles ex-alunos e excolaboradores de Russo (Renata Cabral). 102


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FACULDADE DE MEDICINA 1949-1958 mario russo

BAIRRO DA VÁRZEA

Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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Primeiro projeto do Escritório Técnico da Cidade Universitária, a Faculdade foi projetada a partir da articulação de cinco blocos, seguindo uma divisão de tipo funcional. Nos blocos de aula, foi garantida a presença das salas juntamente com laboratórios e centros de pesquisa, respondendo aos anseios da época por um ensino, além de teórico, também prático. Encontram-se indícios do interesse do seu projetista pela arquitetura moderna, como as colunas separados das paredes, ressaltando sua condição não estrutural. Em termos compositivos caracteriza-se por planos de fachada deslocados diferentemente em relação à rua e com alturas diferentes entre si. Todos os volumes são definidos pela retícula estrutural, cuja presença na fachada proporciona uma visualidade ao mesmo tempo moderna e clássica. Essa relação de dependência entre a estrutura e a vedação não se repetirá nos próximos projetos do arquiteto para o campus (Renata Cabral). 104


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HOSPITAL DAS CLÍNICAS 1950-51 mario russo

BAIRRO DA VÁRZEA

Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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Entre 1950 e 1951, é desenhado o Hospital das Clínicas, do qual só a estrutura foi construída segundo o projeto de Mario Russo. Arquitetonicamente, como explica Russo, o Hospital seria “[...] um compromisso entre as soluções extremas de pavilhões isolados e tipo monobloco[...]”. O arquiteto cria, então, um conjunto composto por blocos interligados. Pela primeira vez nos projetos do campus de autoria do arquiteto, os pilares foram separados das vedações externas, dando lugar a uma parede curva de grande expressividade formal no pavimento térreo do bloco das clínicas médicas e a uma horizontalidade na fachada nos demais pavimentos desse bloco, a partir do uso de varandas e corredores em balanço. Também pela primeira vez, o volume principal foi solto do chão. Parece que o arquiteto caminha, a partir desse projeto, para a busca de novas relações entre estrutura e vedação que conferem maior variedade plástica às soluções, como aparecerá claramente no Instituto de Antibióticos (ver verbete) (Renata Cabral). 106


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INSTITUTO DE ANTIBIÓTICOS 1952-56 mario russo

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Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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Nesse último projeto desenhado para a Cidade Universitária, percebe-se o habitual cuidado do arquiteto com a organização funcional dos espaços, assim como com a relação entre estrutura e forma (há, por exemplo, vigas que afinam e conferem leveza ao volume) e com os detalhamentos executivos. O resultado volumétrico alcançado é mais ousado do que o de projetos anteriores (ver Faculdade de Medicina). Agora não é mais um prisma puro, mas um volume que incorpora outros menores, como o do auditório, a partir de uma relação de distorção. A malha estrutural é identificável já que os pilares aparecem no segundo pavimento, mas são os balanços e não essa malha a dar forma ao volume final, com seus planos de fachada inclinados. A unidade é conseguida pela empena lateral que se articula com a laje de cobertura, desenhando o contorno do edifício. Atualmente o estado de conservação do prédio é precário, exigindo projeto de restauração e plano de manutenção (Renata Cabral). 108


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CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS (CFCH) década de 1960 felippo melia

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Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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O projeto do CFCH é de autoria do arquiteto italiano Filippo Mellia, que chega ao Brasil por convite do seu conterrâneo Mario Russo e aqui se radica definitivamente. Mellia assina ao menos outros sete projetos da Cidade Universitária. O primeiro projeto pensado para a então Faculdade de Filosofia de Pernambuco seguia o modelo horizontalizado da Faculdade de Medicina. O edifício construído, contudo, é bastante verticalizado, marcando a paisagem do campus, e corresponde a apenas um dos blocos do segundo projeto de Mellia, não tendo sido construídos os demais. Destaca-se no edifício a grande eficiência da ventilação cruzada, facilitada pelo uso de cobogós cerâmicos na cor natural, paredes com buzinotes, grandes aberturas horizontais. Recebe desenho cuidadoso a relação dos pilares redondos com o peitoril nos corredores do edifício. Ao longo dias anos o edifício passou por intervenções que acabaram por ocupar grande parte do seu pilotis antes liberado (Renata Cabral). 110


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CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO (CAC) 1973-76 reginaldo esteves e adolfo jorge

BAIRRO DA VÁRZEA

Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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A concepção teve como princípio criar um edifício permeável, para isso foram projetadas três entradas em três fachadas distintas. Os pátios internos, dotados de vegetação de porte para que se propicie a boa aeração e sombra, propiciam um espaço de convivência e de contato entre os alunos dos departamentos. As faces favoráveis aos ventos possuem grandes aberturas e quebra sóis verticais e horizontais todos em concreto armado. Deixado de forma aparente, este material é o protagonista da obra, como em outros edifícios públicos dos anos 1970. Foram feitas três adições ao longo dos anos, sempre pelos mesmos arquitetos, mantendo o espírito da concepção (Fernando Diniz e Aristóteles Cantalice).

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NÚCLEO TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO (NTI) 1976 sena caldas & polito

BAIRRO DA VÁRZEA

Campus Joaquim Amazonas (UFPE), Cidade Universitária

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Este projeto foi desenvolvido pelo escritório Sena Caldas & Polito e inaugurado em 1976 para acomodar o sistema de informação da UFPE. O volume de base é um tronco de pirâmide com vazio central, originalmente a céu aberto com os recintos dispostos em seu perímetro, remetendo claramente a um claustro. Para reforçar esta ideia de reclusão e proteção (necessária para guardar as informações) é praticamente “cego” para o exterior. O acesso se dá pela articulação entre profundas aberturas verticais, onde se encaixa a porta e uma passarela sobre um espelho d’água que circunda a edificação e liga ao pátio externo. A textura de seu volume é única, em pó de pedra graúda. Pela sua singularidade e força é hoje um ponto de referência no Campus da UFPE (Renata Caldas).

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BAIRRO DE BOA VIAGEM

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EDIFÍCIO CALIFÓRNIA 1953 acácio gil borsoi

BAIRRO DE BOA VIAGEM

Rua Artur Muniz, 82, Boa Viagem

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O Edifício Califórnia foi um dos primeiros exemplares verticais de uso misto construído da praia de Boa Viagem, contribuindo para o início da ocupação permanente do litoral, até então ocupado por residências de veraneio e quase nenhum serviço. O projeto original (1953) apresentava um programa inovador para a época, distribuído numa torre principal com 15 pavimentos voltados para o uso habitacional (com 70 apartamentos de 1 a 3 quartos) e numa base de predominância horizontal, com três andares destinados aos seguintes usos: um cine teatro com plateia de 739 lugares e balcão de 270 lugares, 7 lojas, restaurante e um terraçojardim. Devido ao pouco sucesso das vendas, o projeto foi alterado em 1956 e passou a abrigar 225 apartamentos do tipo kitchenette. Esta modificação de projeto, além de se apresentar como uma inovação tipológica para a cidade – o apartamento mínimo – era mais compatível aos costumes das elites da época, que tinham suas garçonnières. Além disso, o apartamento requeria pouca manutenção doméstica, adequando-se melhor à condição de apartamento para veraneio (Carolina Brasileiro). 118


BAIRRO DE BOA VIAGEM

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EDIFÍCIO CASA ALTA 1985-88

jerônimo cunha lima e carlos fernando pontual

BAIRRO DE BOA VIAGEM

Av. Boa Viagem, 2054, Boa Viagem

É um dos edifícios mais emblemáticos da Avenida Boa Viagem, devido ao seu formato bastante diferenciado em relação aos demais presentes na Avenida. A planta do edifício foi criada tirando partido do formato peculiar do terreno. Foram criadas então amplas e sombreadas varandas que circundam quase todo o perímetro do edifício e cujo desenho suave atenua a noção de fachada principal. O volume final adquire assim uma forma dinâmica e monumental com seu coroamento bem marcado pela quebra no ritmo da fachada onde se localiza a cobertura do edifício. O edifício era originalmente revestido em mármore verde acinzentado que realçava o jogo entre claro e escuro criando pelas sombras das varadas, mas há cerca de três anos foi trocado por um outro material (Fernando Diniz e Cecília Masur).

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BAIRRO DE BOA VIAGEM

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QUARTEIRÃO ENTRE A RUAS EDUARDO WANDERLEY FILHO E PADRE CARAPUCEIRO 1986-94

edifícios de acácio gil borsoi, marco antonio borsoi, alexandre castro e silva e jerônimo e pontual

BAIRRO DE BOA VIAGEM

Av. Boa Viagem entre nº 2486 e nº 2682

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Os edifícios desta quadra foram todos erguidos, com exceção dos dois edifícios de esquina, entre meados dos anos 1980 e início dos anos 1990. Com terrenos estreitos e compridos, a solução comum adotada foi dispor as a áreas sociais (salas de estar e varandas) na frente com vista para o mar, áreas íntimas na face sul e área de serviço na face norte. Apesar das limitações em termos de volume, os arquitetos procuraram dar mais movimentação e dinamicidade por meio de jogos de materiais de revestimento nas fachadas. Todos apresentam a tradicional divisão entre base, corpo e coroamento e uma relação fluida com a rua, em alguns casos interrompidas por guaritas adicionadas a posteriori. Destacam-se os edifícios Renato Bezerra de Melo, de Marco Antônio Borsoi, com suas faixas horizontais de mármore branco em contraste com os tons de marrom do granito, e o Raul Freire, de Jerônimo & Pontual, com suas suaves curvas na fachada (Fernando Diniz). 122


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EDIFÍCIO FRANCISCO VITA 1968 delfim amorim e heitor maia neto

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Av. Boa Viagem, 3040, Boa Viagem

Uma das últimas realizações da parceira Figueira & Jucá e Delfim Amorim, em sociedade com Heitor Maia Neto. O empreendimento compreende três apartamentos por andar. Aquele voltado para a praia compreende programa com quatro quartos. Tal programa permite uma mistura salutar de níveis de renda, posteriormente abandonado pelo mercado imobiliário. Especial atenção deve ser tomada à variação da solução do peitoril ventilado, neste caso disposto no centro do intercolúnio e revestido em placa de mármore travertino. Alterações significativas foram realizadas no pilotis, com a remoção de jardineiras e revestimentos, adequados à composição do conjunto edificado (Luiz Amorim).

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EDIFÍCIO ACAIACA 1957 delfim amorim e lúcio estelita

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Av. Boa Viagem, 3232, Boa Viagem

Poucas edificações recifenses são tão conhecidas quanto o Edifício Acaiaca, ponto de referência na praia de Boa Viagem desde a sua construção, por sua posição de destaque na paisagem e características inovadoras e raras. Foi concebido e comercializado como segunda residência para fins de veraneio. O projeto expõe magistralmente temas que irão orientar a produção do edifício em altura na região, como o revestimento em azulejos, de fato, a primeira vez em que o arquiteto teve a oportunidade de revestir grandes superfícies com o material, e o uso do peitoril ventilado, solução ideal para permitir o constante fluxo de ar nos ambientes, mesmo em dias de chuva torrencial. Infelizmente, a concepção original que previa espaço avarandado protegido dos ventos fortes marítimos, claramente inspirada nos edifícios de dois e três pavimentos existentes na praia de Boa Viagem, não foi construída (Luiz Amorim).

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EDIFÍCIO MIRAGE 1967-69 acácio gil borsoi

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Rua dos Navegantes, 1617, Boa Viagem

Este edifício demarca um novo período em relação às soluções de projeto comumente utilizadas até então. Evitando a ortogonalidade, sua planta apresenta a disposição de diversos ambientes internos procurando obter a melhor ventilação e a melhor vista para o mar. Assim, a forma externa da edificação distancia-se da caixa prismática e apresenta diversas reentrâncias e saliências. O volume é finalizado por meio de um coroamento em concreto aparente. Os materiais utilizados são o tijolo aparente e o concreto empregados em planos distintos. As aberturas procuram marcar a edificação com ricos detalhes de acabamento, o contraste entre o concreto e o tijolo são marcados também por um peitoril ventilado de placas de concreto. O detalhe de assentamento das peças e da localização dos frisos mostra o cuidado com o processo construtivo e assentamento dos materiais (Aristóteles Cantalice).

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EDIFÍCIO REMBRANDT 1980-82 acácio gil borsoi

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Av. Boa Viagem, 3456, Boa Viagem

É notável neste exemplar a preocupação de Borsoi com a quebra do volume ortogonal. A disposição de enormes varandas em sentidos alternados a cada andar, ora a esquerda ora a direita, confere um intenso jogo plástico e um enorme movimento à fachada principal. A dinâmica volumetria é constantemente marcada por recortes e cavidades que servem tanto para proteção como para a composição. Borsoi também fez uma clara distinção entre base, corpo e coroamento. A planta segue o princípio adotado em toda Avenida com seus lotes longos e estreitos: a área social voltada para a frente, os quartos para o Norte e os serviços para o Sul (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO DEBRET 1979-83 acácio gil borsoi

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Av. Boa Viagem, 3416, Boa Viagem

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Situado na orla de Boa Viagem, este edifício residencial possui a clássica diferenciação entre base, corpo e coroamento e uma volumetria simples. Borsoi explorou o dinamismo da composição por meio de um intenso jogo de cheios e vazios expresso por linhas horizontais (varandas) e verticais (volumes prismáticos em vidro) que conferem enorme movimento à fachada principal. A disposição alternada em planta entre varanda e sala de estar, além de guarda-corpos em vidro em algumas das varandas gera este dinamismo. Esses prismas de cortina de vidro, consistem naquilo que Borsoi chamava de saleta-aquário, ou seja, um ambiente da sala de estar, geralmente quadrado e envidraçado. É um dos últimos exemplares nos quais Borsoi usa concreto aparente, que é substituído por mármores e granitos. A planta segue os mesmos princípios do Edifício Rembrandt, localizado nas proximidades Apesar da guarita construída anos depois, o edifício ainda guarda uma rica integração visual com a rua (Fernando Diniz). 132


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EDIFÍCIO BOUGAINVILLE 1973 armando de holanda

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Rua.dos Navegantes, 1363, Boa Viagem

Este pequeno edifício apresenta pilotis praticamente livre. A partir de um volume puro, um prisma de base retangular, foram feitas algumas aberturas para as janelas e varandas. Nessas janelas, as esquadrias estão recuadas e não alcançam o teto, permitindo a ventilação constante. O arquiteto procura deixar a mostra nas fachadas a marcação das lajes, como uma forma de destacar os pavimentos; e se utiliza de materiais como tijolos aparentes e cobogós nos peitoris. Um belo exemplar da arquitetura residencial em altura entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1970 (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO HYDE PARK 1986-88

jerônimo cunha lima e carlos fernando pontual

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Rua dos Navegantes, 1203, Boa Viagem

Com 16 pavimentos-tipo com uma lâmina de 250m2, está localizado a poucos metros do mar da Praia de Boa Viagem. Sua volumetria é resultante da forma triangular do terreno e da necessidade de garantir vistas para o mar entre os edifícios altos localizados nos quarteirões seguintes. Os cômodos foram dispostos de forma a dar prioridade à vista ao mar, assim o edifício se abre para o mar numa varanda contínua que tem sua rigidez quebrada por curvas sutis, resultando um volume elegante. Nas fachadas foram utilizados distintos tipos de materiais criando um contraste entre estes. A fachada principal, composta pela grande varanda foi revestida em mármore travertino, enquanto no interior destas varandas foi utilizada uma cerâmica mais escura (Fernando Diniz e Cecilia Masur).

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EDIFÍCIO SAHARA 1972 vital pessoa de melo

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Rua Bruno Veloso, 60, Boa Viagem

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Prevendo a futura existência de barreiras construtivas que impedissem a visualização da praia, o arquiteto compôs um volume de esquinas angulosas com aberturas em suas quinas. O edifício apresenta rasgos de peitoris ventilados e composições de linhas verticais e horizontais expressas em sua fachada por meio de diferentes materiais, como painéis de concreto moldados in loco e pastilhas brancas (substituídas em 2010 por placas cerâmicas 0.10m x 0.10m). A composição é comandada por uma grelha não-aparente, a exemplo das aberturas de serviço, que são inscritas em um quadrado revestido de concreto diferenciando-se das paredes brancas. O lobby se encontra elevado em relação ao nível da rua, criando uma plataforma onde os pilares tomam forma de dois grandes septos. Com isto, foi delimitado um espaço fluido que cria uma ambiência propícia para se admirar o belo painel de Anchises de Azevedo (Ana Holanda Cantalice e Fernando Diniz). 138


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EDIFÍCIO PEDRA DO MAR 1983 alexandre de castro e silva

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Avenida Boa Viagem, 3754, Boa Viagem

Este pequeno e gracioso edifício tem um apartamento por andar, com cerca de 150 m2. Apesar do pouco espaço disponível, Castro e Silva conseguiu criar ambientes amplos e bem articulados. O inusitado recorte anguloso da fachada frontal, o detalhe em vermelho na esquadria e o sutil coroamento contribuem para singeleza do edifício. A fachada lateral sul, dos quartos, apresenta janelas inscritas em recortes profundos, obedecendo a um claro padrão geométrico (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO SIRIUS 1983-85

alexandre de castro e silva

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Avenida Boa Viagem, 3854, Boa Viagem

A configuração deste terreno, com uma testada bastante longa para a rua, pouco comum na Avenida Boa Viagem, tornou possível voltar todos as áreas íntima e social para o mar. É possível ver a fachada dividida igualmente entre estes dois setores. Para evitar que a simplicidade e sobriedade do edifício se traduzisse em monotonia, três dos andares receberam maiores áreas de jardineira e de varanda no quarto do casal, em detrimento da área social. Assim, os 6º, 7º e 8º andares são virtualmente deslocados do eixo principal do corpo do edifício, criando uma agradável e peculiar movimentação na fachada, que confere graça e quebra a excessiva sobriedade. Essa sensação era aprofundada pela diferenciação cromática destes andares que desapareçam devido a uma reforma recente que trocou os revestimentos originais por um novo material de uma única cor (Fernando Diniz).

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EDIFÍCIO QUEEN MARY 1966 wandenkolk tinoco

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Avenida Boa Viagem, 3906, Boa Viagem

Este projeto é um dos primeiros edifícios em altura desenvolvido por este arquiteto que mais tarde consolidará esta tipologia como marca registrada de sua produção, sobretudo com os projetos para os edifícios Villas, da construtora A. C. Cruz. Nesta solução, que embora ainda não carregue a identidade plástica dos futuros exemplares, já demonstra preocupações que permearão todas as obras desenvolvidas por Tinoco. A fachada oeste é protegida por uma malha de brise- prémoldados em concreto aparente, evidenciando a preocupação com o conforto térmico no interior dos apartamentos. O apego à expressividade dos materiais brutos é uma tendência identificada na obra deste arquiteto durante este período de sua carreira (Patrícia Ataíde).

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EDIFÍCIO HOLIDAY 1957

eng. joaquim de almeida marques rodrigues

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Rua Salgueiro, 73, Boa Viagem

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Um dos primeiros edifícios altos de Boa Viagem, possui 18 andares ao longo dos quais estão dispostas 416 unidades habitacionais de diversos tamanhos (317 quitinetes, 65 apartamentos de um quarto e 34 com dois quartos), Seguindo a receita do grande edifício multifamiliar de apartamentos mínimos segundo o padrão inaugurado pela Unidade de Habitação de Marselha, sua composição formal se destaca numa curva acentuada, que se estrutura a partir de sete colunas de sustentação, composição esta que faz com que o edifício permaneça sendo, indiscutivelmente, um marco na paisagem urbana da região. Sua fachada posterior, que abriga as circulações que dão acesso às unidades habitacionais, é composta por um jogo que intercala painéis fechados e painéis vazados por cobogós, além do volume da escada. Já a fachada principal se caracteriza pelas janelas em fita das numerosas unidades habitacionais, cuja possível monotonia é quebrada por meio da inserção de pequenos volumes, dispostos aleatoriamente, que sacam do plano principal da fachada sem interromper a continuidade de suas janelas em fita. O pavimento térreo abriga unidades comerciais e tem o acesso à torre residencial marcado por uma marquise também em curva (Natália Vieira). 146


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EDIFÍCIO OÁSIS 1970 glauco campello

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Avenida Boa Viagem, 4100, Boa Viagem

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Glauco Campello iniciou seus estudos na Escola de Belas Artes de Pernambuco e os concluiu na Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, no final dos anos de 1950. Entre sua formatura e ida para Milão, para acompanhar o projeto e a construção da sede da Editoria Mondadori, foi professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Recife e atuou profissionalmente, tendo deixado um acervo de obras exemplares. O edifício Oásis é uma obra excepcional tanto pela solução construtiva, quanto pelo arranjo espacial. A caixa edilícia estrutural em concreto aparente define o plano livre, cujas divisórias em gesso, dispostas para atender programa-tipo, podem ser alteradas, com ressalva para os pontos sanitários. As circulações verticais são dispostas em caixas externas, em consonância com o princípio do plano livre. As aberturas na caixa edilícia – janelas e varandas – são ressaltadas por sua projeção e cor dos peitoris – em branco. Finalmente, cabe destacar a solução escultórica dada aos pilares, torcidos para permitir o estacionamento de veículos no pavimento semienterrado (Luiz Amorim). 148


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EDIFÍCIO MARIA JULIANA 1983-85

acacio gil borsoi e marco antonio gil borsoi

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Avenida Boa Viagem, 4398, Boa Viagem

Procurando dotar o edifício de mais dinamicidade, os arquitetos alteraram a disposição das varandas, ora lançadas a esquerda ora a direita. Para a captação da ventilação, varandas são lançadas também na lateral do prédio, dispostas em um ritmo denteado. Na outra fachada, é a vez da caixa de escada ser utilizada para romper a ortogonalidade. Para a proteção da insolação do poente, a fachada posterior é praticamente cega. A distinção entre base, corpo e coroamento é bem marcada. Na obra são utilizados revestimentos mais nobres como mármores, granitos e peles de vidro que destacam os diferente elementos de composição das fachadas. A obra encontra-se hoje conservada de acordo com o seu projeto original, apenas com inserção de um muro e guarita (Fernando Diniz e Paula Nichel).

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EDIFÍCIO MARIA LEOPOLDINA 1983 acacio gil borsoi e marco antonio gil borsoi

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Avenida Boa Viagem, 4558, Boa Viagem

Já com o benefício pela Lei de Uso e Ocupação do Solo nº 14.511, de 1983, que estimulou a verticalização em diversas áreas da cidade do Recife, Borsoi, em parceria com seu filho, desenvolve mais um projeto residencial multifamiliar para a orla da Praia de Boa Viagem. O edifício Maria Leopoldina reedita soluções já anteriormente empregadas pelo arquiteto como a utilização das varandas como um elemento de forte expressividade plástica que promove um jogo de reentrâncias e saliências na fachada leste em contraposição com superfícies envidraçadas (Patrícia Ataíde).

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F OTO S ROTEIRO 1. Roberto Burle Marx e o Recife. 11, 13a, 13b, 15, 17a, 17b, 19a, 19b, 21a, 21b: Laboratório da paisagem / UFPE. ROTEIRO 2. Bairros de Santo Antônio e São José. 27: Kate Saraiva. 29: Lorena Veloso. 31, 35a, 41, 45, 47, 49, 51, 53, 55, 57a, 57b: Aristóteles Cantalice. 33: Fernando Diniz. 35b: Paula Maciel da Silva. 37, 39, 43: Diego Beja. 59: Gustavo Maia. 61: Ana Holanda. ROTEIRO 3. Bairros da Boa Vista e Soledade. 65, 67, 89: Pamella Clericuzzi. 69a: Diego Inglez de Souza. 69b: Lorena Veloso. 71, 73a, 73b, 75, 77, 78a, 78b, 83, 85, 87a, 87b,: Aristóteles Cantalice. 154


81: Luiz Amorim. 91a, 91b: Natália Vieira. 93a: Desenho de Luís Nunes. 93b: Fernando Diniz. ROTEIRO 4. Bairro da Várzea. 97a, 97b, 99a, 101b, 105b, 107, 115a, 115b: Aristóteles Cantalice. 99b, 109a, 109b: Natália Vieira. 101a: Renata Caldas. 103: Desenho de Mario Russo. 105a, 111: Lorena Veloso. 113a, 113b: Diogo Barretto. ROTEIRO 5. Bairro de Boa Viagem. 119, 121a, 121b, 127, 129, 131, 133, 149, 151, 153: Aristóteles Cantalice. 123a, 123b, 141, 143, 145, 147: Fernando Diniz. 125: Luiz Amorim. 135, 139: Ana Holanda. 137: Lucas Jordano. 155


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Guia da Arquitetura Moderna no Recife  

Guia produzido para o 11° Seminário Docomomo_Brasil, realizado pelo Núcleo Pernambuco em Recife, entre os dias 17 e 22 de abril de 2016.

Guia da Arquitetura Moderna no Recife  

Guia produzido para o 11° Seminário Docomomo_Brasil, realizado pelo Núcleo Pernambuco em Recife, entre os dias 17 e 22 de abril de 2016.

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