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Escola Secundária c/ 3º Ciclo Henrique Medina

Metas Curriculares de Português Ensino Básico 3º Ciclo

CADERNO DE APOIO POESIA

ANTÓNIO GEDEÃO

Biblioteca Escolar


VIDA E OBRA DE ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1997) BIOGRAFIA António Gedeão, (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho), nasceu em Lisboa em 1906. Criança precoce, aos 5 anos escreveu os seus primeiros poemas e aos 10 decidiu completar "Os Lusíadas" de Camões. A par desta inclinação para as letras, ao entrar para o liceu Gil Vicente, tomou contacto com as ciências e foi aí que despertou nele um novo interesse. Em 1931 licenciou se em Ciências Físico Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e em 1932 conclui o curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras do Porto, prenunciando assim qual seria a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos: professor e pedagogo. Exigente e comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão e uma dedicação. E assim, além da colaboração como co director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentrou durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da colecção "Ciência Para Gente Nova" e muitos outros títulos, entre os quais "Física para o Povo", cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho nunca esqueceu a arte das palavras e continuou sempre a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca seria útil a ninguém, nunca tentou publicá-la, preferindo destruí la. Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publicou, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas "Movimento Perpétuo" com o pseudónimo António Gedeão. Continuou depois a publicar poesia, aventurando se, anos mais tarde, no teatro, no ensaio e na ficção. Nos seus poemas há uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram esses dois interesses totalmente distintos… A poesia de Gedeão é bastante comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade. É deste modo que "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho. Mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido". Nos anos seguintes dedicou se por inteiro à investigação, publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continuou a sonhar, mas o fim aproximava se e o desejo da morrer determinou, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos. Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assumiu a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenharia até ao fim dos seus dias. 2


Quando completou 90 anos de idade, a sua vida foi alvo de uma homenagem a nível nacional. O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta, foi reconhecido publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música. Faleceu em 1997.

POEMAS INDICADOS NAS METAS CURRICULARES DO ENSINO BÁSICO

Impressão digital Os meus olhos são uns olhos. E é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos onde outros, com outros olhos, não vêem escolhos nenhuns. Quem diz escolhos diz flores. De tudo o mesmo se diz. Onde uns vêem luto e dores uns outros descobrem cores do mais formoso matiz. Nas ruas ou nas estradas onde passa tanta gente, uns vêem pedras pisadas, mas outros, gnomos e fadas num halo resplandecente. Inútil seguir vizinhos, querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos. Onde Sancho vê moinhos D. Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes.

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Pedra filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

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Lágrima de preta Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.

Propostas de Análises dos poemas “Impressão digital” O poema “Impressão digital” de António Gedeão termina assim: Inútil seguir vizinhos querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos. Onde Sancho vê moinhos D. Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes. …Variações poéticas de uma ideia que com frequência se repete, nas discussões mais diversas sobre os mais diversos assuntos, e se pode abreviar na fórmula “o que é verdade para ti pode não ser verdade para mim”.

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A ideia de que a verdade é relativa ao ponto de vista do sujeito (a minha verdade / a tua verdade) é a tese central do relativismo. Mas, por mais tentadora que seja a vestimenta com que se vista, tal tese é insustentável. Em primeiro lugar, um relativismo que se afirme de modo absoluto (isto é, que defenda que todas as verdades – e não apenas algumas – são relativas) é (auto)contraditório: admitindo esse relativismo como verdadeiro, haveria, pelo menos, uma verdade que não seria relativa – precisamente a tese do relativismo, segundo a qual todas as verdades são relativas. Mas essa tese também não resiste a uma análise que não precisa de ser muito profunda (basta distanciarmo-nos da ilusão que criamos muitas vezes, repetindo ideias que acabamos por tomar como obviamente verdadeiras): é logicamente impossível que duas proposições contraditórias sejam simultaneamente verdadeiras. Se é verdade que, neste momento, estou a escrever, então é forçosamente falso que não estou a escrever. Se a afirmação não está a chover é verdadeira, então a afirmação está a chover é forçosamente falsa. Generalizando, se a afirmação A é verdadeira, então a afirmação não-A não pode ser verdadeira. O que torna tão “popular” o relativismo é o facto de, sobre um qualquer assunto, ser difícil haver acordo entre todas as pessoas. Para constatar essa diversidade de opiniões, não precisamos de recorrer a áreas tradicionalmente polémicas, como a política; basta compararmos épocas ou culturas diferentes – e ela saltará à vista… fácil. Contudo, há aqui uma confusão nem sempre suficientemente esclarecida: a confusão entre o que alguém pensa ser verdade e o que de facto é verdade. Para os medievais (argumenta-se, por vezes, exemplificando, a favor do relativismo) era verdade que o Sol girava em torno da Terra; atualmente, isso é falso. Na verdade, foi sempre falso que o Sol gira em volta da Terra; os medievais acreditavam que era verdade, mas estavam enganados – na verdade, é a Terra que gira em volta do Sol. Em algumas áreas, não é fácil saber se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Parece-me que, no domínio dos valores, é particularmente difícil: como saber se, globalmente, a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven? Contudo, mesmo em casos como este, a verdade continua a não depender de quem ouve a música dos dois compositores. Vamos admitir que há quem defenda que Beethoven supera Mozart e quem defenda o contrário; se é verdade que a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven, então qualquer tese que contradiga esta é falsa. Não pode ser simultaneamente verdade que a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven e que a obra de Mozart não é mais valiosa do que a de Beethoven. Não adulterássemos o poema de Gedeão, e reescreveríamos os seus últimos versos: Vê moinhos? Serão moinhos. Ou não. Vê gigantes? Serão gigantes. Ou não.

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“Pedra Filosofal” Pedra Filosofal é uma substância que, segundo uma crença da Idade Média, teria o condão de converter qualquer metal vil em ouro. No entanto, no sentido figurado, pedra filosofal, consiste em algo muito desejado, mas difícil de atingir ou concretizar. O sujeito poético quer que vejamos o sonho como algo que é inerente ao ser humano e não deve ser tratado como algo abstrato e falacioso, mas como algo mais concreto, visto que ele existe realmente. António Gedeão deseja banalizar o sonho, visto que, para ele, o sonho é efectivamente banal: é como uma pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso, No poema de António Gedeão a Pedra Filosofal é o sonho, sonho esse que nos acompanha ao longo da vida. Por vezes os nossos sonhos são difíceis de concretizar, no entanto, é através deles que o mundo avança. São os nossos sonhos que nos guiam, que nos fazem delimitar horizontes que iremos preencher ao longo da nossa vivência. O “sonho” em António Gedeão é sinónimo de liberdade, pois todo o Homem é, ou pelo menos possui tal faculdade, de sonhar através da qual consegue progredir na vida. Esse sonho ou ambição controlada permite-nos mudar o mundo, simplesmente sonhando com um melhor e lutando por esse sonho – António Gedeão acredita neste poder do Sonho. Na quarta estrofe, António Gedeão dá-nos exemplos do que o sonho pode conquistar e descobrir. É a sonhar que o pintor se inspira para os seus quadros. Até na arquitectura podemos ver o quão importante é sonhar com mais e mais. Algo mais ousado, tal e qual como a "dobragem" do agoirento Cabo da Tormentas, que o sonho dos navegadores portugueses tornou possível pois deu-lhe coragem e força para o "tornarem” no da Boa Esperança e assim obtiveram as especiarias da Índia. Foi através do sonho e da ousadia de Bartolomeu de Gusmão que se inventou a Passarola Voadora. E não só, segundo António Gedeão temos “uma estrofe” de exemplos, que é o mesmo que dizer uma infinidade de invenções, acontecimentos, descobertas só possíveis devido ao sonho. Tal como os alquimistas procuravam incansavelmente a pedra filosofal devido a todos os artifícios que ela poderia trazer, nós tentamos, na vida, concretizar os nossos sonhos - lutamos por eles. Mas no nosso caso não transformamos chumbo em ouro, mas transformamos sonho em realidade… Como António Gedeão afirma “o sonho comanda a vida” pois é sonhando que criamos objectivos na vida e através deles triunfamos. É tão simples sonhar e progredir e alcançar e atingir e obter e prosperar e avançar: é

como bola colorida entre a mãos de uma criança

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“Lágrima de Preta” Tema: Condenação do racismo Assunto: O sujeito poético analisa uma lágrima de uma preta, testa de maneira científica e chega à conclusão que essa lágrima é igual a todas as outras. O teste da lágrima: Este poema é como que um relatório científico, elaborado através de uma experiência feita com uma lágrima de uma mulher preta. A figura principal é uma mulher preta que o sujeito poético encontrou a chorar nalgum lado “Encontrei uma preta/ que estava a chorar, (…)” (v.v. 1-2). Este ao observar esta cena, pede-lhe uma lágrima para a analisar de uma forma científica, daí a presença, no texto, de diversos termos científicos. Exs: “(…)num tubo de ensaio bem esterilizado(…)” (v.v. 7-8) “Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, (…)” (v.v. 13-14) Trata-se, assim, de uma análise química que o sujeito poético vai fazer à lágrima, seguindo um certo método experimental: . Começa por recolher a lágrima e coloca-a num tubo de ensaio esterilizado “Recolhi a lágrima/ com todo o cuidado/num tubo de ensaio/bem esterilizado.” (v.v. 5-8), para que esta não ficasse contaminada e os resultados modificados. . Seguidamente a lágrima é observada cuidadosamente “Olhei-a de um lado,/ do outro e de frente: (…)” (v.v. 9-10) igualando-a com uma gota transparente “(…) tinha um ar de gota/ muito transparente.” (v.v. 1112). . Depois começa a análise experimental, recorrendo a vários reagentes “Mandei vir os ácidos,/ as bases e os sais,/ as drogas usadas/ em casos que tais.” (v.v. 13-16) e a processos experimentais “Ensaiei a frio,/ experimentei ao lume (…)” (v.v. 17-18) e repetiu-os várias vezes, como se deve fazer em todas as experiências químicas “(…)de todas as vezes” (v. 19). . Após as repetições da mesma experiência o resultado foi sempre o mesmo “(…)deu-me o que é costume: (…)” (v.20), ou seja, a lágrima desta mulher negra tem uma constituição igual à de uma pessoa branca ou de outra cor: é constituída por água e cloreto de sódio “Água (quase tudo)/ e cloreto de sódio.” (v.v. 23-24) e não apresenta sinais de negro ou de ódio “Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio.” (v.v. 21-22). . Resultados: Este poema é para nos mostrar que somos todos iguais independentemente da nossa cor de pele. Facto que ele demonstrou com a inexistência de diferenças entre a composição química entre aquela lágrima e a de outras pessoas de outras cores (que se supõe que o sujeito poético já tenha analisado para poder comparar e retirar as suas conclusões). . É assim que o autor evidencia a sua condenação ao racismo, mostrando que até cientificamente está provado que somos todos iguais. . Este poema também demonstra a formação académica e profissional de António Gedeão, tanto a nível de ciências (pois este era professor de Física ou Química) como na sua oposição ao racismo.

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Vida e obra de António Gedeão