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Célia Moura

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Célia Moura

A Função do Escritor Um escritor deve ser alguém que se coloque no lugar dos outras e tenha a sensibilidade de “possuir” várias vidas dentro de si. Digo isto pelo facto de algumas vezes aquilo que escrevo e publico ser confundido com a minha vida pessoal. É evidente que existe sempre um cunho próprio em cada pessoa que escreve, porémm isso não tem que “confundir” os leitores com o escritor. A meu ver, o escritor, tem a função, diria até a obrigação de estar atento a tudo o que se passa em torno dele, em vez de se centrar nas suas próprias vivências. Deverá pois, emergir de si mesmo, e na primeira pessoa ou não, denunciar ou simplesmente narrar factos. Aliás, toda a expressão artística deverá ser assim. Poderei estar redondamente enganada, mas a Arte, seja ela qual for, narra-nos períodos históricos importantíssimos, tal como a escrita, independentemente do seu género literário. Se cada um apenas escrevesse acerca de si mesmo, penso que a Cultura mundial seria um pouco pobre, o que não sucede, porque houve bastante desprendimento do “Eu” e muita ousadia. Grata. Célia Moura – 16 de Agosto/2013


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A TUA DOR, IRMÃO Doem-me todas as palavras No teu corpo de solidão Enquanto a madressilva me sorri. A Liberdade de um grito Cravado em mim Que desconheço. Doem-me inclusive as sílabas Dos teus lábios de silêncio Em redor da enseada. Doem-me castiçais de prata Transbordando corvos feridos, E sementes que jamais germinarão. Dói-me este pão de cada dia Irmão, A tua fome que encerro em mim, O teu frio que me rasga por inteira. Dói-me este sangue de traição, Esta ânsia de jasmim, Este beiral de pardais, Pedaço de ti. Dói-me a luz da cidade desperta. Mata-me o desassossego do fado Que me liberta e santifica Num altar de cravos e madrugada… …e finalmente já exausta de mais um hino à tua, nossa Dor Meu irmão, Todas as palavras me doem, Seja qual for o Caminho!

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PARTIDA Tirai-me do peito Esta ebulição constante, Angústia a latejar-me o corpo Em sobressalto! Dai-me mel de rosmaninho, No sóbrio exílio da loucura, Deliciai-me esta agonia, por favor! Trazei-me a criança, Nas margens da infância, esquecida, Entre vendavais de cardos, Perdida! Tirai esta ânsia de mim, Esta fantástica, soberba cruz, Que não é minha! Concedei-me o poema eleito, Memorial de ilusão maior, Cravejado de diamantes; Devolvei-me as pérolas negras da noite, Mas arrancai de mim, Esta adaga dourada de martírio! Deixai-me ir embora! Quero ir sozinha (foi assim que vim)! Levar nas mãos a coroa da glória, Para somente desfalecer Entre os mais bravios roseirais… …e, não mais voltar!

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CARTA A FLORBELA

Quão grandioso sopro Divino te incendiou E desventurou, ó “Poetisa Eleita”, Magnífica princesinha banida De Reinado tão distante! Ninguém em ti, O firmamento somente, Em quimeras, sorridente Gerado no Amor de tuas pálidas mãos acenando lamentos. Ó cruel ascese, Intangível revelação de Fim! Ninguém em nós amiga minha! Quem poderia sequer, entender tua Beleza, Sobrevoando cúmplices revoadas nas asas do condor, Silenciando teu corpo, No grito das planícies!? Quem poderia Florbela, Corromper tuas entranhas, Misterioso exército, Martírio em teu Ser? Ó desventurada irmã, Que somente te chorei a Dor imensa, Na Torre maior da Tristeza de te não ver, E florindo te beijei “Charneca em Flor”, Lânguidos candelabros pela praça! Ai mendiga das marés, Etérea em todas as searas, Clamando sempre mais além! Longínqua em terra ingrata, Embriaguez de Vida, Ânsia de morte ou de Alguém,

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Companheira de infinito, Rodopiando alento Na ferocidade do Tempo! Tudo tão perto, Todos tão Além! Terás porventura encontrado teu lauto amigo, Teu bem-amado…excelso Amor? Aconchegada estarás decerto, Mãe de coragem, Amante de todos e de ninguém, Semente por tuas mãos lançada à terra amada, Teu útero de sossego. Ressonância de término e de princípio, Ó insubmissa papoila, Singela Florbela, Sangue a fervilhar ainda No ventre da Charneca, Memorial a palpitar devir Em todas as alvoradas! A Vila Viçosa que te deu à Luz, e te acolhe em seu ventre em flor.

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PALOMA NEGRA

Resplandeces entre estilhaços de rosas na exuberante Beleza De teus bárbaros desvarios, Ao Poente dos Sentidos e dos Profetas, Expoente de infinito. Escrevo-te hoje, Na minha persistente insónia, Neste papel de ninguém, Entre poesia e aguaceiros, E em tua presença, com que ousaste pintar a vida, Chamo-te de amiga. Ai, “Paloma negra”, cujo resfolegar do Amor Tanto ansiaste, Sinto o pulsar do teu sangue em todas as minhas artérias, O teu odor em meu corpo, Tuas telas em meus lábios. Escrevo-te entre um tango de jasmim, E um estilete de fogo ardente, Ó apoteose de Pilatos em pleno deserto, Sempre consistente… Quão maravilhosamente pintaste a minha alma Entre os teus estilhaços de agonia! Quem te poderia entender, Frida? Sempre tão ferida, entre exílios e euforias, Esvoaçando qual condor, sobre todos nós, por aí, estremecendo alegria?! Quem, senão tu, conseguiria colorir a genialidade da Dor A mais sublime, com o sorriso do seu corpo rasgado, De alto a baixo?!

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Ai Ninfa feita mulher, Escrevo-te hoje para te entregar plena de beleza A uma constelação maior. À essência e ao sangue de uma águia real, Rumo aos Pórticos Sagrados Dos poetas, À Sr.ª D. Morte entre mariposas loucas, Orquídeas de despedida e Tequilla Minha irmã de infortúnio, Pedaço de poesia e de mim. A Frida Khalo, magnífica, para a eternidade "Enquanto Sangram As Rosas..." - Edição de Autor c/apoios à Edição – 2010


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A dado momento descobri que sou tal e qual como qualquer animal selvagem detentor de seu território, rondando desconfiado qualquer intruso como um felino disposto a atacar. Mas prevalecendo meu lado humano, descobri acima de tudo que a sobrevivência nunca estaria no ataque, mas sempre na rectaguarda do meu exílio e que o silêncio ou uma gargalhada seria sempre a melhor forma de rebolar meu desdém. 12 de Março de 2016


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A RIBEIRA A ribeira Ainda canta. Lá longe, Parece um manto de cristal Irrequieto. A ribeira Que afaga As indisciplinadas plantas, Desce, Predestinada ao seu amante. Parece um pranto Salpicado de esmeraldas. Traz-me A memória acorrentada Aos teus passos incertos, Ecoando bebedeiras de angústia, Risos de dor. Silenciosa, Ainda me ampara O encanto, Gravando na sua nascente O teu sopro fresco, Caricioso, Que teimo em guardar, Intacto, Aqui bem perto Num segredo, Adormecido Pelo rude tempo No desalento da Saudade. A ribeira. Aquela que sendo minha, Nunca o foi, E foi tanto. Talvez nossa! …a que ainda tece Cálidas visões No entardecer da infância.

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PREDESTINAÇÃO Adivinho-te As lágrimas E as quimeras derramadas Dos olhos hirtos da noite, E num abraço não contido Envolvo-te… Há diademas de Coragem Esculpidos no sopro da aurora, Estonteantes enigmas embutidos Nas paredes da casa branca. Predestinadas oscilações dos dias! A casa branca Chamou por nós. Etérea, Na derradeira aspiração, Em esgares de agonia, Ruiu Aos pés do desalento. Tristes tulipas, Apoteóticas ninfas, Dançam ainda Tchaikovsky No jardim.

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NO ESVOAÇAR DO DESTIN0 No Esvoaçar do Destino Em inexprimíveis gritos De puro absinto A imperatriz queimava A mais funda mágoa. No estonteante vazio Rompiam soluços gesticulando Infinito. De uma rara e malograda beleza Cantava ainda Com sua voz de menina A mais singela rosa de vermelho sangue Entre os bravios roseirais. A desejada! Esfinge de mármore esculpida… …Despida! Os seios como quimeras de solidão, Insatisfeitos Essa amante perdida em braços inundados De vazio… …E sorri, Como um mito presente Entre plumagens e cetim, Liberta da vida Onde as asas de puro cristal estilhaçado Já não sangram.

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EM DELÍRIO Em Delírio Ergo apenas Ao céu Minhas mãos fugidias De momentos. O teu olhar preso Em mim É um hino E os teus braços Um ninho Onde adormeço sem destino Num delírio repentino Que me enaltece e destrói, Revelando a nudez dos gestos Percorridos neste caminho ermo Onde infinitamente nos amamos e perdemos "Vestida De Silêncio" - Universitária Editora - 2000


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Precisávamos ser pequenos como pardais para conseguir discernir a quantidade de sementes que todos os dias negligenciamos pelo chão. Abençoada seja a brisa de vento que tantas vezes as leva como uma melodia até à terra onde farão morada e de novo se multiplicarão!


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A TERNURA DO SANGUE A Ternura Do Sangue Na foz do teu corpo brando de seda, de açucenas brancas libertei o grito nutrido de água, sangue, amor,… dor! Na foz do teu corpo nascente, parti. Resplandeces ainda devoção, pelo jardim suspenso na ilusão, sorrisos teus Mãe num botão de rosa, a rodopiar segredos de outrora gerados na berma do teu ventre de essência. E, nas mãos da evasão, ergo teu rosto de prata, reflexo deste trémulo anoitecer em que te olho e regresso, desvendo e prendo, meu sangue, minha dádiva de candura… …e, ouço ainda tua voz de cristal, lá longe, tão longe Mãe, a embalar meu sono na ternura das colinas.

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A JORNADA Tenho o corpo aberto Em chaga. Tragam álcool puro Para a jornada Que é longa! Tenho o riso enclausurado Nos becos de uma promessa. Tragam gargalhadas armazenadas No baú de prata Que o circo anuncia a chegada! Tenho um poema asfixiado Na garganta, De sangue sufocado. Tragam mel, Tragam bastante, Que as palavras são amargas!

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NOCTURNO Rodopiem gargalhadas paridas Em turbilhões de medo! Geradas no fel De todas as ausências, permaneçam grotescas, Mas libertem um novo cântico À solidão das sereias. Hermética, Esta aura, Ferindo antigos candelabros Vadiando histéricas Gargalhadas internas. Arranquem de mim, Esta raiz do ser! Não há ninguém aqui. Ninguém em mim me dói, E tantos gritos Ferindo minha paz, Tanta agonia A transbordar o silêncio Da poesia!

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Ó INSPIRADA Ó Inspirada, hoje te convoco nos trémulos braços da cidade louca, expandindo a alma exilada na foz do grito! A Terra vai rasgando seu ventre flamejante num convite de amante, e é nesta inquietude suspensa, que, desvendada sorris no cais da inocência, dançando com a neblina revoadas de espanto na penumbra do ocaso. Ó Inspirada na tua última jornada, como és bela! Mostra-nos a sublimação das causas nesses enaltecidos voos das pombas brancas, em cálidas vénias ao Embaixador da Luz, segredando a paixão dos girassóis!

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Quão nobre é a arte de perdoar! Porém, quanto maior for a ofensa, quanto maior for a perseguição do teu inimigo perante ti, e em silêncio o conseguires perdoar, mais elevado serás, não tu enquanto Homem, mas enquanto espírito rasgando horizontes…


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CONTOS


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Promessa Com ele vivera o auge do amor e da paixão. Dera-se por inteira como canteiro de flores que se abre na Primavera e era assim em todas as estações…sempre Primavera mesmo quando chovia intensamente e corriam à chuva ou simplesmente permaneciam de corpos enrolados um no outro noite e dia. Só ele lhe sabia a linguagem do corpo, nunca ninguém mais a havia descoberto, e eram um só na plenitude do amor. Sofia viajava através de José e ele no corpo dela iniciara já uma viagem sem retorno… No dia em que se despediram pela última vez, Sofia recorda-lhe a mão a acenar adeus. José partia para um Congresso de onde não voltaria. Ainda hoje passados trinta anos, Sofia olha o mar, e sussurra-lhe um poema…sente que o seu amado lá onde ficou lhe sorri, e sempre se despede dele acenando-lhe um adeus com a promessa de voltar.


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O cão Piruças e a boneca Tucha – Episódio Natalício de Infância Comparada com as minhas amigas, eu era uma criança pobre, para além disso preferia que me oferecessem livros a bonecas, e tinha um cão, um rafeiro chamado Piruças que o meu pai me dera aos sete anos, e que como filha única que era, fazia todo o meu encanto. Aliás, era o meu melhor amigo. Para onde eu ia, lá ia ele, e vice-versa, porém naquele Natal não foi bem assim. Como era hábito, íamos passar aquela época a casa dos meus avós maternos na Beira Baixa, mas como eu já estava de férias e a minha mãe não trabalhava, fomos uns dias antes do meu pai, no carro dos meus tios com o meu primo. O Piruças ficou em Lisboa com o meu pai que se juntaria a nós precisamente na véspera de Natal lá na terra. Que saudades do meu menino! Mas teve que ser, no carro dos meus tios, não entravam cães… E há muito que eu tinha um enorme anseio, normal para uma menina da minha idade e difícil de comprar para os meus pais. Era uma boneca muito especial que todas as minhas amigas tinham, algumas até mais do que uma. Era linda, de cabelos compridos lisos, escuros e com um rosto perfeito, do género das “Barbies” de hoje, mas aquela era a “Tucha”, e recordo-me exactamente o preço dela – quatrocentos escudos! Era na altura, algo dispendioso para os meus pais me comprarem, e eu não insistia. Ia brincando com as das minhas amigas ricas na casa delas. Porém, naquele Natal, a vida e o amor decidiram cedo colocar-me à prova. E, que prova! Recordo aquela noite de angústia como se tivesse sucedido ontem, e na minha inocência, chorando rezava ao tal Deus que podia todas as coisas. Decerto que ele me ia ouvir naquele Natal. Lembro-me de ter feito com ela a troca, e de súbito algo que eu desejava tanto, passou a não ter significado algum para mim. Passo a contar. Dia 24 de Dezembro, e todos esperávamos o meu pai vindo da viagem de Lisboa com o Piruças. Desse ninguém se lembrava, mas eu acima de tudo! A minha mãe insistira em dar-me o jantar e deitar-me no sobrado alto à luz de uma velha lamparina de azeite, e logo que o pai chegasse viria dar-me um beijinho de boa noite, o que aconteceu. E, alegria das alegrias, o meu presente de Natal era a boneca “Tucha”! Pulei, abracei o meu pai, a minha mãe… Mas, perguntei de imediato pelo meu rafeiro, ao que o meu pai respondeu: – Não o vi filha, assim que sai do carro, saltou disparado e não sei para onde foi, pois não o vi mais. Vou procurá-lo, deve estar lá para baixo. Neste momento algo me apertou o peito. Larguei de imediato a boneca. Queria lá saber da “Tucha”, enquanto não aparecesse são e salvo o meu Piruçinhas! Mas nada! O meu pai, o meu avô, o meu tio bem o procuraram na escuridão da noite e nem rasto dele.


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Tinha acabado tudo para mim naquele momento. Mas o bom Deus que sempre ouve as crianças, ouvira-me, nesta minha oração: – Se é para me dares esta boneca em troca do meu cão, eu prefiro o meu cão, traz-me de volta e leva a boneca. Não a quero mais. No dia seguinte, lá fomos cumprir a tradição da missa de dia de Natal e ninguém me arrancava um sorriso que fosse. Não largava o meu pai, para que ele não desistisse de o procurar. E o grande medo eram os poços que sempre havia por ali sem qualquer protecção. Eu chorava e chorava só de pensar nisso. E, já mesa posta para o grande almoço de Natal, eis que surge o meu pai, com o mais belo sorriso do mundo estampado no rosto: – Célinha, anda cá fora ver quem eu encontrei? Dei um pulo da cadeira, e vejo o meu tufo de pelo negro, como se nada tivesse acontecido. Abracei-o tanto, e perguntei: – Pai, onde o encontrou? Então o Sr. D. Piruças havia decidido passar for a a consoada, sabe-se lá a fazer o quê, e foi encontrado a alguns, poucos Kms da povoação dos meus avós, na berma da via rápida…talvez estivesse a pensar pedir boleia para regressar a Lisboa. Malvado cão!


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Violência doméstica (um texto com alguma ficção e bastantes factos verídicos) Quando é que a Mulher terá sua ‘Carta de Alforria’ e todo o crime de violência doméstica seja físico, seja psíquico ou ambas as situações seja severamente punido ao ponto de um homem olhar para o tal chamado ‘sexo fraco��� aquela mulher que tanto amava, que ele mesmo escolheu para partilhar a vida e possa pensar duas vezes antes de a agredir, olhando-a nos olhos tendo a noção que no momento em que o fizer a sua vida deixará de existir. Para quando?! Quantas vidas, quantas mulheres mais terão que perecer? Será que será ainda neste Século XXI?! A Deus o que é de Deus, aos Homens o que compete aos homens.

Subitamente veio à memória de Maria aquela noite em que após ter sido brutalmente espancada, tal como sua mãe, os Guardas Nacionais Republicanos, amigos e conhecidos de seu pai, chamados pela vizinhança acudindo aos gritos de sua mãe e a tudo o que lá dentro de casa se ia quebrando, bateram na porta e entraram na sua casa vendo-a bem marcada no corpo, assim como sua Mãe, pois na alma nunca ninguém poderia ter RX capaz de vislumbrar. Mais tarde seriam vistas pelo Ministério Público e a coisa levaria tão somente a 30 dias de incapacidade física para ambas. Mas nessa noite fria de Dezembro os senhores agentes da autoridade estavam simplesmente questionando o homem da casa se ele estaria ou não calmo, preocupando-se com o seu estado, e não propriamente com o delas. Porque seria? Claro que ele estava calmo! Ora essa! Uns tabefes na mulher e na filha era coisa normal e de homem de família, disso toda a gente sabia e fazia! – Vamos lá amigos a um copinho? – convidou seu pai. E, não é que eles tomaram mesmo, os Srs. Agentes da Autoridade em pleno serviço! Foram todos para a cozinha beber uns copos de tintol, enquanto Maria e sua Mãe choravam abraçadas uma à outra num pânico assombroso sem saberem o que fazer e a quem recorrer. Estavam completamente sós e sabiam que iria ser muito pior depois da GNR ir embora. Ele vingar-se-ia nelas ainda mais. E foi exactamente o que sucedeu, sem dó nem piedade. Espancou-as com toda a raiva que sentia, como se sobre elas recaisse a frustação e a culpa dos seus árduos dias e da maldita guerra que nunca naquela mente tivera cessado. Era como se os seus inimigos da guerra do Ultramar o perseguissem e a G3 há muito inexistente, estivesse sempre ali atrás da porta.


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Transfigurava-se, o rosto ficava alterado, e subitamente era como se deixasse de reconhecer a mulher e a própria filha que ele tanto amava. O álcool era o seu único refúgio para além do trabalho e das recordações de Angola. Que orgulho tinha no louvor de guerra que recebera! Porém, naquela noite, a fúria dele foi tão terrível que Maria conseguiu agarrar na Mãe em choque, abrir a porta e fugir pela rua abaixo até alguém as socorrer. Hoje, passados quase 40 anos, Maria pertence a uma Associação de Direitos das Mulheres e constata que a Legislação em muito pouco mudou em relação às vítimas de violência doméstica, na prática. A teoria existe e chama-se crime público à violência doméstica, mas a verdade é bem mais cruel e nada funciona como deveria. A legislação em vigor não protege as vítimas mas sim os agressores, ou seja, a vítima pode e deve apresentar queixa na esquadra, de seguida é chamada ao Ministério Público, mas na prática ou tem para onde ir viver ou fica debaixo do mesmo tecto que o agressor, tipo um filme que deu e se chamava “Dormindo com o Inimigo”. Caso tenha tanto medo que pretenda protecção terá que fugir da sua própria habitação, ela mulher, ela mulher e filhos, igualmente vítimas, e ir para um refúgio, um lar onde estão mulheres na mesma situação que ela. Isto, porque a Lei actual não protege a vítima de maus tratos, nem sequer dá poder às forças de autoridade para agirem, mesmo em casos de situações flagrantes, salvo excepções raríssimas. Não é de estranhar por isso, tantas mortes em Portugal vítimas de violência doméstica mesmo após uma separação. Portugal é um país de gente hipócrita, um país de faz de conta, onde tudo funciona sempre na teoria, mas a realidade nada tem a ver com isso. Maria tem agora um caso entre mãos. Uma mãe e uma filha. Tal como ela um dia, também elas não têm para onde ir. O homem já deu uma facada na mulher e maltrata a miúda. Levou pena suspensa mas continua à solta e persegue-as. Elas conseguiram ser acolhidas em casa de uns familiares. Um dia sucedeu o óbvio. O sujeito fez uma espera à saída do trabalho da senhora e disparou-lhe dois tiros na cabeça, de seguida disparou nele mesmo. – Crime cada vez mais banal num Portugal do Séc. XXI, venham lá falar de crime público! – pensamento nobre este de Maria. Num destes dias, Maria, soube de outro caso curioso. Ele espancava-a física e psicologicamente, e ela sempre que podia chamava a polícia. Fechava-se no quarto às escondidas e marcava o número a medo. A Polícia vinha, ela implorava que o levassem dali, a casa era dela, ele nem sequer trabalhava, tinha-a espancado, havia marcas no corpo, porém a PSP somente lhe deixava uma notificação para ir a Tribunal no dia seguinte apresentar queixa. Claro que ela não ia. Tinha pavor. Ou fugiria para longe de sua própria casa, ou o levariam dali. Encetar uma guerra com ele em Tribunal vivendo com ele na mesma casa, sujeita a levar uma pancada na cabeça ou uma facada é que não. Este País é de gente louca… Não sabem mesmo o que é violência a sério, violência doméstica!


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E fazem-se tantas petições, e dizem-se tantos disparates nos meios de comunicação! Para quê, afinal? Maria ainda olha para o vazio. Ainda acorda a meio da noite atormentada por todas as noites da sua infância e adolescência repletas de horror e hoje só anseia que a Lei possa ser mais eficaz, não em teoria somente, mas sim em prática, e que a violência doméstica seja punida de modo a não serem as vítimas a fugirem do agressor e terem que se esconder dele mas sim o contrário e este país deixe de ser a vergonha que tem sido ao longo de décadas. “A covardia é a mãe da crueldade” (Montaigne)


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Célia Moura nasceu em Lisboa no dia 02 de Junho de 1971. Cedo se iniciou na escrita tendo escrito seus primeiros poemas por volta dos seus doze anos de idade e começando a participar com alguma periodicidade no Suplemento “Correio Dos Jovens” aos 17 anos e durante onze anos na modalidade poesia e prosa poética do Jornal diário “Correio Da Manhã”. Em simultâneo colaborava noutros Jornais Literários, nomeadamente no Jornal “Artes & Artes” e no Jornal “Poetas & Trovadores”. Foi durante anos (até 2004) membro da A.P.P. (Associação Portuguesa de Poetas), tendo participado em tertúlias e eventos vários. Em 2010 obteve uma menção honrosa com a sua participação no 3.º Prémio Literário Irene Lisboa levado a efeito pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos com o poema “Deixa-me ficar pousada em teu corpo”. Participou no Primeiro “Primeiro Ecopoético na Rádio Comunitária Campeche” (Florianóplis, SC – Brasil), Março/2014, com o poema: “A Festa Dos Rouxinóis”. PONTO E VÍRGULA 08-05-2015 | Canal 20 – com Natália Correia e Célia Moura. Actualmente reside em Lisboa e tem dois livros de poesia para editar, são eles “No Hálito De Afrodite” e “Terra De Lavra”. Tem-se dedicado um pouco mais à prosa e à reflexão social e humana.


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Obras Publicadas e Projectos Literários - "Vestida De Silêncio" - Universitária Editora - 2000 - "Millenium - 77 Vozes de Poetas Portugueses" - Antologia Poética Universitária Editora - "Timor - Do Poder Das Armas À Força Do Amor" - Antologia de homenagem à Independência do Povo Timorense - Universitária Editora - "Jardins Do Exílio" - Hugin Editores - Apoio à edição Câmara Municipal de Cascais – 2003 - Revista De Poesia Saudade N.º 10 - Antologia - "O Tempo" - 2008 - "Enquanto Sangram As Rosas..." - Edição de Autor c/apoios à Edição 2010 - Antologia "Asas Do Amor" - Poesia Erótica - Coordenação Carlos Margarido - 2014 - Antologia Poética - “Palavras leva-as o Vento... Menos o Sonho e o Encantamento” – 2014 - “Uni duni tê um poema pra você” – poemas literatura infanto juvenil – colaboração de vários autores. Projecto de Tânia Amares Bueno – Brasil - "Ecos De Apolo" - Colectânea de Poesia - Edições Vieira da Silva - 2016 - Oitava Antologia "Ponto & Vírgula" - Ribeirão Preto - Brasil – 2016


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Sites/Blogues: https://www.celiamoura.wordpress.com/ https://www.laosdepoesia.blogspot.pt/ https://wwwceliamoura.tambemescrevo.com/ https://dasculturas.com/2013/04/30/orgias-celia-moura/ www.homemarara.com/?canal=folia&pag_int=maislidas...506. www.luso-poemas.net › Rede de Poetas

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Eu nunca escrevi poesia. A poesia foi quem sempre me escreveu.

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