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PROJECTO ACADÉMICO DESENVOLVIDO PELOS FINALISTAS DE DESIGN DA FACULDADE DE BELAS ARTES DA UNIVERSIDADE DO PORTO 02/03 ANA RAPOSO. FACULDADE DE ARQUITECTURA.


UPORTO EDITORIAL

As vicissitudes dos rankings

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No período do ano que vamos atravessando constitui particular preocupação para muitas famílias o desfecho do concurso nacional de acesso ao ensino superior. Nesse aspecto, a nossa Universidade não é das mais acolhedoras, pois, pela atractividade que vem revelando, requer a obtenção de elevadas classificações de ingresso na generalidade dos cursos do largo espectro de áreas do saber que cultiva. Frequentemente têm os meios de comunicação social salientado a Universidade do Porto como uma das instituições de ensino superior em Portugal que preenche em maior percentagem as vagas postas a concurso e com as mais elevadas classificações mínimas de ingresso. E, se tais apreciações de algum modo nos confortam, não poderão deixar de suscitar reflexões que deveremos fazer fria e objectivamente, considerando não só os resultados, mas também o modo como são apresentados e as causas que os determinam. O espaço disponível neste texto é insuficiente para caracterizar adequadamente todos os factores intervenientes, pelo que me dispensarei de tentar prosseguir tal objectivo, derivando antes para uma simples nota, à laia de advertência, relativa às tentativas, que têm surgido uma e outra vez, de divulgar o que vem sendo conhecido por “rankings” das universidades. Numa sociedade competitiva como a actual e em que o fenómeno desportivo assume particular relevo, desenvolve-se uma tendência para quase tudo ordenar por critérios de mérito ou qualidade, dando origem a “rankings”, fenómeno a que as universidades não estão naturalmente imunes. Só que uma ordenação correcta e objectiva exige a tradução em números de parâmetros que, pela complexidade da instituição universitária, são muito difíceis de quantificar devidamente e carecem sempre de uma interpretação inteligente e informada do que realmente representam e da relatividade de que se revestem. Há que ter o maior cuidado em aceitar, sem pertinente apreciação e reflexão, a notícia de que uma dada instituição, I1, é a mais qualificada no aspecto A1, enquanto que a instituição I2 é a segunda melhor no aspecto A2!… Mesmo que não exista qualquer tentativa de manipulação de dados, nada mais enganador do que aceitar-se ingenuamente a quantificação ou os critérios de relativização de parâmetros de qualidade. Continuarão certamente a ser publicitados nos meios de comunicação social “rankings” das universidades relacionados com as mais variadas vertentes. Os Antigos Alunos da Universidade do Porto ficarão satisfeitos ao verificarem que a sua Universidade se situa sempre numa posição muito favorável em qualquer “ranking”. É o reflexo natural da qualidade dos professores e investigadores que a servem e também da contribuição de outros funcionários e da selecção dos estudantes. Mas, por favor, questionem sempre os resultados divulgados à luz do que efectivamente representam!

José Novais Barbosa REITOR DA UNIVERSIDADE DO PORTO


SUMÁRIO UPORTO

UPORTO Nº 17 REVISTA DOS ANTIGOS ALUNOS DA UNIVERSIDADE DO PORTO DIRECTOR JOSÉ NOVAIS BARBOSA

EDITORIAL – 2

SABER EM MOVIMENTO – 27

AS VICISSITUDES DOS RANKINGS

LSRE LANÇA DUAS SPIN-OFF DE ENGENHARIA QUÍMICA NO MERCADO Parte do trabalho de investigação desenvolvido no Laboratório de Separação e Reacção (FEUP), o mais recente Laboratório Associado da UPorto, traduz-se em dois projectos empresariais que dão agora os primeiros passos.

ACTUALIDADES – 4

EDIÇÃO E PROPRIEDADE UNIVERSIDADE DO PORTO; RUA D. MANUEL II. 4050-345 PORTO. T. 226073565 + F. 226098736. PUBLICAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DA UNIVERSIDADE DO PORTO COMO DEVER ESPECIAL, CONFORME ART. 8º AL. E. DOS ESTATUTOS DA ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO CARNEIRO, ARMANDO LUÍS CARVALHO HOMEM, JORGE FIEL, JOSÉ FERREIRA GOMES, LUÍS MIGUEL DUARTE, RUI GUIMARÃES E RUI MOTA CARDOSO SUPERVISÃO EDITORIAL ISABEL PACHECO, JOÃO CORREIA REDACÇÃO ANABELA SANTOS SECRETARIADO PAULA CARVALHO COLABORAM NESTE NÚMERO ALÍRIO RODRIGUES, ANTÓNIO GIL MACHADO, BERNARDO PINTO DE ALMEIDA, DEOLINDA FLORES, FÁTIMA VIEIRA, FRANCISCO DUARTE MANGAS, FERNANDO CABRAL MARTINS, EURICO CARRAPATOSO, GÉMEO LUÍS, ISABEL BREDA VASQUEZ, JORGE EIRAS, JOSÉ CARLOS LOPES, LUÍS OLIVEIRA SANTOS, MARIA DANIEL VAZ DE ALMEIDA, MARIA JOÃO SARAIVA, MARIA JOSÉ CUNHA, MARIA PINTO, MARIA TERESA SANTOS, MILAN RADOS, TOMÉ RIBEIRO, VIRGÍLIO BORGES PEREIRA, VERA MATA. FOTOGRAFIA ½ FORMATO (EGÍDIO SANTOS, PAULO DUARTE) DESIGN RUI MENDONÇA DESIGN EXECUÇÃO GRÁFICA DIGIPRESS-EDIÇÃO ELECTRÓNICA DE IMPRESSOS, LDA LUGAR DE RAMOS, 4585-053 BALTAR

A ARQUITECTURA É O DIA-A-DIA FERNANDO TÁVORA (1923-2005) A notícia chegou no fecho desta edição. Textos de Fernando Távora, Manuel Graça Dias e excertos de uma entrevista dada a Bernardo Pinto de Almeida assinalam a obra que fica depois da morte do “pai” da “Escola de Arquitectura do Porto”. DEZ ANOS DA FACULDADE DE DIREITO: HONORIS CAUSA PARA ALMEIDA COSTA, JORGE MIRANDA E MARCELO REBELO DE SOUSA REITORIA MUDA GRADUALMENTE PARA OS “LEÕES” CORINO DE ANDRADE (1906-2005) VOZES DA UP – 13 FCNAUP: AS RAÍZES DO FUTURO A árdua evolução de uma nova faculdade que se movimenta numa ainda jovem área do saber. Texto de Maria Daniel Vaz de Almeida, directora da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação.

ICS 5691/2000

A PAZ FOI E CONTINUA A SER O OBJECTIVO MAIS IMPORTANTE Milan Rados, responsável pela Secção Autónoma de Jornalismo, escreve sobre a Constituição Europeia.

TIRAGEM 40.000 EXEMPLARES

DOSSIER – 16

DEPÓSITO LEGAL 149487/00

PERIODICIDADE TRIMESTRAL NA CAPA A PARTIR DE DESENHO DE ÁLVARO SIZA VIEIRA (FERNANDO TÁVORA)

REJUVENESCER O PORTO ANTIGO Diagnóstico e potenciais curativos para os problemas do centro histórico do Porto apontados por quem, da Universidade, já reflectiu sobre estas temáticas.

UJR OU A DESCOBERTA DA UNIVERSIDADE POR 3800 JOVENS NO VERÃO Com a Escola de Física, a decorrer em Setembro, termina um programa inédito de actividades no Verão destinado a jovens dos 10 aos 18 anos promovido pela Universidade do Porto – a Universidade Júnior. PERFIL – 34 NEM TODA A VIDA É CINEMA João Botelho, entrevistado por Fernando Cabral Martins, também ex-aluno da UPorto, defende uma produção ainda mais barata e radical como via para a sobrevivência do cinema em Portugal. CRÓNICA – 40 OFÍCIO DE ANDARILHO Francisco Duarte Mangas, jornalista e autor de “Geografia do Medo”, escreveu e Luís Oliveira Santos, fotógrafo de arquitectura, fotografou. IDENTIDADES – 42 AVENTUREIROS, NATURALISTAS E COLECCIONADORES Peças das colecções etnográficas do Instituto de Antropologia Dr. Mendes Correia abrem, a 18 de Outubro, um ciclo dedicado às colecções museológicas da UPorto e aos seus fundadores. ESTÓRIAS – “MEUS SENHORES, AGORA QUE ESTAMOS SÓ HOMENS, VAMOS COMEÇAR O CURSO” Tomé Ribeiro recorda outros tempos em que a Universidade era coisa quase só de homens e para homens. Ilustração de Gémeo Luís. A SABER – 46 TOME NOTA – 48

MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA


UPORTO ACTUALIDADES

Fernando Távora entrevistado por Bernardo Pinto de Almeida

A Arquitectura é o dia-a-dia

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Há doze anos atrás, quando da sua jubilação, Fernando Távora concedeu-nos uma entrevista, excepcional de lucidez, força de afirmação, inteligência das relações entre a arquitectura e a vida, questão esta que sempre dominou o seu traço exemplar. Figura maior da cultura portuguesa do século XX, um dos mais decisivos mestres da nova arquitectura portuguesa, Távora faleceu nos primeiros dias deste Setembro. Lembrá-lo de novo aqui, em excertos da sua fala – que continua actual – era dever desta revista de uma Universidade de que terá sido, no seu modo discreto, uma das mais altas figuras. Acabou de jubilar de uma carreira académica com cerca de 40 anos. Como revê esse percurso, e como entende a arquitectura depois desta vasta experiência? Como encaro o passado? Suponho que isso tem a ver com o modo como encaro o futuro. Como encaro este com certo optimismo, – ainda no outro dizia à minha mulher, “se eu morrer”, se, o que significa portanto que tenho esperança de vida no futuro, quase esperança de não morrer, o que ultrapassa as possibilidades, porque essa é uma das poucas certezas que podemos ter, – e embora de momento algumas circunstâncias não sejam muito favoráveis a esse optimismo, a verdade é que encaro também o meu passado com uma certa felicidade. Fui sempre muito realista, muito apaixonado pela realidade, pelo que existe. Por isso encaro o passado com a sensação de ter cumprido. Conservo a ideia do escuteiro que já fui... E como fui escuteiro e chefe da quadrilha de Âncora, posto importante na altura, conservei sempre um pouco esse espírito. O de uma certa ambição, mas uma ambição humana. Eu tenho, por temperamento e por formação, uma visão – não direi popular, porque pode às vezes cair mal – um pouco... milenar ou ancestral, da arquitectura. Eu como a arquitectura, ao almoço e ao jantar. Até já disse, atrevidamente, que sou a arquitectura portuguesa. Mas quem me conhece sabe que isso não corresponde a uma vaidade ou ambição, mas antes à ideia de incutir nos alunos e na instituição que a arquitectura é uma coisa que toda a gente faz. Uma pessoa quando se mexe, ou uma senhora quando escolhe a cor de uma parede está a fazer arquitectura, porque com isso produz um efeito a partir do qual a sala fica maior ou mais pequena, mais alta ou mais baixa...

Quando se escolhe o lugar para pôr uma cadeira está a fazer-se arquitectura. Num sentido amplo diria que a arquitectura é uma segunda natureza. E que, por isso, é porventura a arte no seu sentido mais abrangente, como agora se diz. (...) Eu joguei numa coisa perigosa, que não direi que consistiu em desintelectualizar a arquitectura mas em humanizar a arquitectura. (...) Trazer a arquitectura ao dia a dia tem a sua importância. Essa foi a minha escolha. A arquitectura é, primeiramente, um acto de inteligência. E requer, depois, uma clara consciência social. Costumo dizer que a utilização da profissão do arquitecto exige uma certa cultura, civilidade, sentido social, etc. Porque se formos a ver, a profissão de arquitecto é uma das mais dispensáveis da sociedade. O médico salva-lhe a vida. O advogado salva-lhe a fortuna e a honra. O engenheiro salva-lhe a segurança. O arquitecto que é que lhe salva? Salva-lhe a qualidade. Se você não é exigente com a qualidade, se se preocupa muito com a sua saúde, a sua fortuna, a sua honra ou com a sua segurança, você vive sem o arquitecto. Vivemos num período de liberdade mal assumida que dá este tipo de situações. Há falta de conceitos e de coragem. Acha que o debate pós-moderno enriqueceu de facto o contexto da arquitectura contemporânea? Acho que sim. Mais de um ponto de vista conceptual, pelas ideias que entraram em circulação, do que propriamente pelas realizações, que ficaram um pouco aquém da riqueza do debate. Mesmo assim, eu considero-me, em certo sentido, na minha humilde, simples e austera prática profissional, um pós-moderno, uma vez que creio ter ultrapassado uma certa ideia de Modernismo.


Depoimento para uma aula na Escola Superior de Belas-Artes do Porto em 21 de Maio de 1980 Fernando Távora

Eu sei, eu sei sim, eu sei. Sei-o agora e já há muito tempo o sabia. Sim, sei, sei isso. Mas eu sei isso e também sei o contrário. E é tão difícil saber isso e saber o contrário. Aceitar isso e não desprezar o contrário. Sim, eu sei eu sei que a Terra terá cinco mil milhões de anos eu sei que a Vida terá mil milhões de anos eu sei que a “pequena” distância da Terra à Lua anda aproximadamente pelos 400.000 kilómetros. Eu sei, sim eu sei eu sei eu sei que tenho apenas 56 anos de idade, 1,65m de alto e um passo de 70 centímetros. Sim eu sei, eu sei mas sei também que a praia ficará diferente se eu lhe roubar um grão de areia eu sei que o mar não será o mesmo se eu lhe chorar uma lágrima eu sei que o Universo se altera quando respiro ou mesmo quando penso. Sei, eu sei, eu sei que venho de longe e vou para longe sei que não estou apenas aqui mas em muito lado, sei que não vivo “apenas” o tempo que vivo. Sei que o infinitamente grande é tão infinito como o infinitamente pequeno. E sei e sei mais e muito mais. Sei que não sou excepção. Sei que sou como todos os homens os que nasceram e morreram os que hão-de nascer para morrer. Eu sei que entre mim e os outros há uma eterna e indissolúvel união. E que os outros precisam de mim, tanto quanto eu deles necessito. E sei que é este saber-mo-nos infinitamente grandes por sermos infinitamente pequenos que constitui a paixão da Vida. Eu sei, sim eu sei. E é sobre esta Vida de paixão que tem sido a minha que vou falar. Com ironia, com tristeza, por vezes com rancor, mas sempre, sempre com paixão. Há anos pensei um pensamento para gravar numa porta que ofereci, simbólicamente, para a casa de uns amigos. Esse pensamento pensava simplesmente: faz de cada momento uma Vida. Ofereci a porta mas não gravei o pensamento. Gravei-o na memória e procuro praticá-lo no quotidiano. E é essa paixão pela Vida que quero apaixonadamente transmitir. Porque não vive quem não mergulha permanente e apaixonadamente na paixão da Vida. Eu sei, sim eu sei. Eu sei.


UPORTO ACTUALIDADES

Coisas aparentemente pequenas

FERNANDO TÁVORA DESENHADO POR ÁLVARO SIZA

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Quando é que se conhece alguém? Não na profundidade ontológica a que conhecer remonta, mas quando, dos momentos muitos que a memória guarda confusos, foi o momento inicial primeiro de um conhecimento que já trazíamos e tomamos, depois, por contínuo, de sempre, quando aprendemos a distinguir a pessoa física? Tenho menos 30 anos que Fernando Távora. Conheci-o em 1971, sem o conhecer. Um fim de semana, em casa de amigos, em Gaia. Passeando ao acaso pelo Bairro do Cedro, mar de moradias quaisquer já nessa altura, chegámos ao largo ocupado pela Escola Primária. A lembrança é longínqua, mas sei que andei à volta, bebendo tudo, olhando tudo, tudo querendo perceber, porque parara. Desprendia-se da Escola, entendi-o mais tarde, essa “aura” que só certos objectos aportam, só determinados arranjos de matéria, de acertos, de sombras e lugares para as árvores, de conjuntos de janelas intencionais, ou panos de parede abrindo amáveis alturas várias de acordo com a topografia ou com os pretextos do programa, determinada e certa harmonia, coisas da proporção ou da compreensão do sítio (coisas que depois, muito depois, reencontrei, em Ofir, no Pavilhão de ténis, em Vila da Feira, na Foz, em Fermentões ou em Aveiro), coisas que nomeiam a verdadeira arquitectura. Penso que me referiram Távora, então. Depois aprendi, na Escola, na vida, com os outros arquitectos, nas revistas escassas, o respeito pelo seu nome. Vivendo e trabalhando em Lisboa, só 10 anos mais tarde pude estar verdadeiramente com ele. A simpatia irradiante era evidente, a minha empatia, imediata. Fomo-nos cruzando, acidentalmente em várias ocasiões. Em 1993 filmei-o, para um programa de televisão; em 1997 gravámos um “Ao volante pela cidade”, em Guimarães. Sempre amável, afectuoso, delicado, irónico, sábio. Com ele fui aprendendo coisas às vezes aparentemente pequenas. Compreendendo, sem nunca ter sido seu aluno, o inestimável contributo para o ensino de uma imensa geração. Mesmo os que nada percebessem não poderiam ficar insensíveis à alegria, à vida misturada nas histórias que contava, à arquitectura que dizia (à reflexão do espaço, sobre o espaço, sobre a organização do espaço, sobre a cidade), às gargalhadas, à boa mesa, ao remanso das conversas – sempre apropriadas, novas –, à distanciação do humor. Em Tomar, uma tarde, trocámos de chapéus. Um Domingo, em Serralves, encontrei-o no restaurante. Obrigou-me a sentar-me consigo, à mesa. Conversámos imenso. Foi a última vez que conversámos.

No fim, tirou-me a conta das mãos e disse-me, a rir: “Sabe que aquela história das ‘contas à moda do porto’ se refere a porto de mar, não à cidade do Porto? É a maior das mitificações; no ‘porto’ é que os marinheiros, por terem que partir logo a seguir, tinham de deixar as contas bem feitas!” Fernando Távora partiu. O que me ensinou nunca lho saldei. Guardo (muitas) pequenas grandes memórias gratas! Manuel Graças Dias Arquitecto e docente na Universidade Autónoma de Lisboa


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UP NOTÍCIA UPORTO ACTUALIDADES

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Reitoria muda gradualmente para os “Leões”

Dez anos da Faculdade de Direito: Honoris Causa para Almeida Costa, Jorge Miranda, e Marcelo Rebelo de Sousa

Os serviços da Reitoria da Universidade do Porto começarão em breve a mudar para o emblemático edifício “dos Leões”. O projecto de fundo está a ser elaborado, mas a equipa reitoral liderada por José Novais Barbosa acredita que, com pequenas e graduais adaptações enquadradas pelo programa preliminar acompanhadas pela equipa projectista, será possível começar a transferir os serviços centrais da Universidade, Reitoria e IRICUP. Mais tarde, avançarão as obras de fundo, mas procurando manter os serviços a funcionar no interior do edifício. A libertação das actuais instalações da Reitoria permitirá a construção das futuras instalações das Biomédicas e Farmácia na Rua D. Manuel II. Após a transferência do Departamento de Geologia e dos serviços centrais da Faculdade de Ciências para o antigo CIUP (Centro de Informática da Universidade do Porto), no Campo Alegre, onde até agora tem vindo a funcionar o Departamento de Ciência de Computadores, o edifício “dos Leões” continuará, em parte, ocupado pelo Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências (temporariamente) e pelas salas do Museu de História Natural, do Museu de Ciência e do Fundo Antigo da Biblioteca. A outra parte começará a ser ocupada gradualmente pelos serviços centrais da Universidade. O Departamento de Ciência de Computadores ocupará as instalações deixadas vagas pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (no Campo Alegre).

A Universidade do Porto vai atribuir Doutoramentos Honoris Causa a Jorge Miranda, Marcelo Rebelo de Sousa e a Mário Júlio Almeida Costa, no dia 6 de Outubro, coincidindo com a abertura solene do ano lectivo de 2005/2006, no âmbito do programa de comemorações do décimo aniversário da Faculdade de Direito que se prolongará ao longo de um ano lectivo. A Faculdade abriu as portas em finais de 1995, perfazendo 10 anos no final deste ano. O início das comemorações coincidirá, portanto, com este mês de Outubro, terminando em Setembro de 2006. Os três professores que vão receber a distinção fizeram parte da Comissão instaladora da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Jorge Miranda, conhecido especialista em Direito Constitucional, é professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e da Universidade Católica Portuguesa, autor de diversas obras de referência na área do Direito e já foi agraciado com a Comenda da Ordem de Santiago de Espada, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, para além de ter sido deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Marcelo Rebelo de Sousa, também professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, é presidente do Instituto de Ciências Jurídicas e Políticas desde 2004 e autor de diversas obras científicas, foi condecorado em 1994 com a Comenda da Ordem de Santiago de Espada e, em 2005, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Ocupou diversos cargos governativos, foi deputado à Assembleia Constituinte e presidente do PSD. Mário de Almeida Costa é professor catedrático jubilado da Faculdade de Direito da

Universidade de Coimbra. Exerceu actividade docente na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e em universidades de diversos países, sobretudo do Brasil. É professor honorário da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Rio Grande do Sul e faz parte, desde 1989, do Conselho Superior do Instituto Universitário Europeu (Florença). É autor de várias obras científicas como Direito das Obrigações, 9ª ed., Noções Fundamentais de Direito Civil, 4ª ed., e História do Direito Português, 3ª ed.. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e com a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul (Brasil). Para além da atribuição dos Doutoramentos Honoris Causa, está ainda programada a exposição “Cem anos de Parlamento” – entre 15 de Novembro e 15 de Dezembro de 2005 –, organizada pela Assembleia da República, ilustrativa dos vários momentos da vida constitucional portuguesa. O programa inclui ainda ciclos de conferências e momentos culturais e artísticos (em particular musicais) no período que medeia entre Fevereiro e Maio de 2006. A cerimónia de encerramento decorrerá a 27 de Setembro de 2006, durante a qual será entregue uma lembrança comemorativa do 10º aniversário e será editada uma obra científica, com estudos dos docentes e colaboradores (actuais e passados) da Instituição.


UPorto prepara centros de investigação de interface

Estímulo à Excelência 2005 para investigadores da UPorto

Psicologia e Ciências da Educação em mudanças

Na sequência de uma estratégia traçada pelo Instituto de Recursos e Iniciativas Comuns (IRICUP), a UPorto prepara a criação de cinco centros de investigação no quadro de um programa de I&D interdisciplinar do IRICUP, sendo que dois deles já dispõem de regulamento aprovado pelo Reitor. Os dois regulamentos aprovados correspondem ao Programa de Nanociências e Nanotecnologias da Universidade do Porto (NANUP) e ao Centro de Ciência Cognitiva da Universidade do Porto. O primeiro é criado para promover a formação e investigação e desenvolvimento (I&D), tendo em vista a visibilidade nacional e internacional da UPorto nesta área, actuando nas áreas da saúde, ambiente e mar, nanofabricação e análise de risco. O segundo terá como missão a investigação e, como domínios de actuação, a filosofia, psicologia, linguística, inteligência artificial e neurociência. Entre os restantes pólos de investigação e desenvolvimento interdisciplinares a constituir sob a égide do IRICUP está um em restauro de arte contemporânea, outro em saúde pública e um terceiro, em fase menos adiantada, subordinado à temática do desenvolvimento sustentável. Vários destes domínios coincidem com áreas prioritárias de cooperação do 7º Programa Quadro (2007-2013) da União Europeia (Direcção Geral de Investigação).

Três investigadores da Universidade do Porto mereceram, este ano, o Prémio “Estímulo à Excelência” atribuído pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: Artur Águas e Mário Sousa, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, e Maria Renata Arala Chaves, da Faculdade de Ciências (Instituto de Física dos Materiais). Artur Águas é professor catedrático e director do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Mário Sousa é professor associado no Departamento de Microscopia no ICBAS e investigador na área da infertilidade humana e reprodução medicamente assistida. Maria Renata Arala Chaves é professora catedrática jubilada da Departamento de Física da Faculdade de Ciências e coordenadora do Instituto de Física dos Materiais da Universidade do Porto (IFIMUP). Dos 73 investigadores distinguidos o ano passado pela Fundação, 12 eram da UPorto.

Setembro é tempo de mudanças para a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. Localizado na Asprela, perto da Faculdade de Medicina Dentária, o novo edifício de planta quadrangular com 3 pisos, acrescidos de estacionamento subterrâneo para mais de 100 veículos, foi desenhado pelo prestigiado arquitecto da “escola do Porto” Fernando Távora. Terá 4.770 m2 de implantação, 2.530 m2 de parque de estacionamento subterrâneo para 108 veículos e 9.330m2 área de arranjos exteriores. Ao lado, passará a linha do metro até Santo Ovídio, com uma paragem entre esta Faculdade e a de Medicina Dentária. Uma das particularidades do edifício é o conjunto de três anfiteatros dispostos em “T” (dois com 117 e outro com 272 lugares), separados por portas amovíveis que, se recolhidas, transformam os três num só. Para além de salas de aula, gabinetes, espaços para consulta e biblioteca, o edifício incluirá ainda um outro auditório com 159 lugares e café/snack-bar. A Faculdade é a sétima unidade orgânica da Universidade do Porto a instalar-se no Pólo II (Asprela), depois da Faculdade de Medicina, a primeira a instalar-se (no edifício partilhado com o Hospital de São João), Economia, Medicina Dentária, Ciências do Desporto e Educação Física, Nutrição e Engenharia.


UPORTO ACTUALIDADES

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Joaquim Bairrão lecciona última aula

Ruy Luís Gomes, um “sábio sério”

Docente da Faculdade de Psicologia desde 1979, com vasta experiência no estudo e investigação em Portugal e no estrangeiro em psicologia da criança com necessidades educativas especiais, Joaquim Bairrão Ruivo jubila-se a 12 de Outubro, data prevista para a sua última aula. Joaquim Bairrão Ruivo licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1964) e concluiu, no mesmo ano, o curso em Ciências Pedagógicas. Em 1967 obtém o Diplome d’Etudes no Institut de Psychobiologie de l’Enfant (Sorbonne) na especialidade de Psychopédagogie Spéciale. Em 1973, obteve o diploma na especialidade de PsychoBiologie de l’Enfant na L’École Pratique des Haute Études. Entre 1968 e 1992, dirige o Centro de Observação e Orientação Médico-Pedagógico, depois designado Direcção de Serviços de Orientação e Intervenção Psicológica (DSOIP). Leccionou várias disciplinas, coordenou a investigação em Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança do Centro de Psicologia da Universidade do Porto (financiado pela FCT) e, entre outros, pelo Projecto Socioeducativo da Cruz de Pau, que incidiu sobre uma comunidade em desvantagem social do concelho do Porto.

Natural do Porto e filho de um político da primeira República, Ruy Luís Gomes foi um matemático de mérito reconhecido internacionalmente, coarctado no seu trabalho de docência e investigação por um regime que não admitia uma postura política activa baseada na liberdade de pensamento. Depois de ter sido várias vezes preso e demitido dos seus cargos na Universidade do Porto (em 1947), emigrou em 1958, primeiro para a Argentina e depois para o Brasil. Na Universidade de Pernambuco, onde fez investigação, formou matemáticos e criou publicações científicas. Regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974, foi nomeado Reitor da Universidade do Porto, cargo que exerceu até final do ano seguinte, ao jubilar-se. Ruy Luís Gomes doutorou-se na Universidade de Coimbra, com 23 anos, passando depois a leccionar na Universidade do Porto (a partir de 1928) cadeiras de Álgebra Superior e Geometria Projectiva e ainda Física-Matemática. Com 28 anos, em 1933, tornara-se catedrático. Com outros matemáticos da sua geração impulsionou a ligação entre o ensino e a investigação e a criação de publicações e de estruturas que permitissem à investigação portuguesa contribuir para a discussão dos avanços científicos a nível mundial. O esforço dessa geração, em que participava também Bento de Jesus Caraça, traduziuse, por exemplo, na criação das revistas Portugaliae Mathematica, em 1937, e Gazeta Matemática, em 1939, ainda hoje publicadas pela Sociedade Portuguesa de Matemática.

Na Universidade do Porto, Ruy Luís Gomes cria, em 1942, o Centro de Estudos Matemáticos, dinamizando seminários de investigação, de acordo com uma prática de troca de experiências que começou neste período a tornar-se regular, e formando novos matemáticos. No anos 30 e 40, o investigador e docente trocava correspondência com grandes vultos da Matemática e da Física. O matemático italiano Tullio Levi-Civita, no seu rigoroso vocabulário, caracterizava Ruy Luís Gomes como “um sábio sério”. Mereceu referências de diversos outros investigadores, como Louis de Broglie (Nobel da Física) e John von Neumann. Em 1938, o matemático portuense publica Teoria da Relatividade Restrita e, em 1940, Teoria da Relatividade – Espaço, Tempo, Gravitação. Muito activo politicamente, em 1951 tentou candidatar-se à Presidência da República pelo Movimento Nacional Democrático, mas foi impedido pelo Conselho de Estado, entretanto criado pelo governo de Salazar. A Universidade do Porto, que liderou como Reitor entre 1974 e 1975, vai homenagear Ruy Luís Gomes a 5 de Dezembro, dia em que se assinala o centenário do seu nascimento.


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UPORTO ACTUALIDADES

Corino de Andrade (1906-2005)

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Mário Corino de Andrade faleceu no Porto no passado dia 16 de Julho, 6 dias depois de ter completado 99 anos. O Dr. Corino de Andrade descreveu em 1952 na prestigiada revista “Brain” a primeira forma de amiloidose hereditária, a polineuropatia amiloidótica familiar ou PAF, vulgo paramiloidose, que afecta principalmente o sistema nervoso periférico, também conhecida na literatura científica mundial como Doença de Andrade. Nascido no Alentejo, em Moura, em 1906, o Dr. Corino de Andrade licenciou-se em Medicina na Universidade de Lisboa, em 1931, sendo um dos seus tópicos favoritos a Neurologia Clínica, o que o levou a escolher para especialização a Universidade de Estrasburgo, particularmente o laboratório de Neuropatologia, dirigido na altura pelo Professor Barré. Um ano depois da sua chegada a França, recebe o Prémio Déjerine, pelo trabalho realizado sobre a fisiologia das meninges do cérebro. Este seria o primeiro prémio atribuido a um estrangeiro. Seguiu-se um estágio em Berlim com Oskar Vogt. Aí conviveu com os mais distintos neurologistas da época, tais como Pavlov. Os ventos da guerra que se aproximava trouxeram-no de volta a Portugal em 1938, acabando por se instalar no Hospital Geral de Santo António, no Porto. Criou vários departamentos dentro do Serviço de Neurologia, onde a sua acção foi fantástica, apesar de graves dificuldades. Em 1939, observou diferentes doentes com queixas de perda de sensibilidade à temperatura e à dor; estas queixas atingiam outras famílias na área da Póvoa de Varzim, uma região de pescadores, cujo primeiro sintoma era a perda de sensibilidade nos pés que os levava a cortarem-se nas cordas dos barcos sem o sentirem. O Dr. Corino de Andrade, com a sua admirável intuição, que todos os colaboradores sempre admiraram, pensou estar perante uma doença diferente do que tinha visto até então, e tratar-se de uma rara doença hereditária. Para perceber em detalhe esta nova entidade clínica, procurou a colaboração de especialistas em diferentes campos, tais como Genética Humana e Patologia. Confirmou-se a natureza hereditária da doença e a presença de depósitos nos tecidos de uma substância fibrilar altamente insolúvel, designada por amiloide, que atinge particularmente o nervo periférico. A publicação deste trabalho-chave e a ajuda de ferramentas de biologia molecular permite-nos neste momento desenvolver potenciais terapias.

Para além da PAF, o Dr. Corino de Andrade caracterizou nos anos setenta, juntamente com a Drª Paula Coutinho, doentes açoreanos com a doença de Machado-Joseph. Durante décadas lançou a carreira de um número elevado de médicos e cientistas. O seu espírito inovador que via para além do tempo foi importante para iniciar, conjuntamente com o Prof. Nuno Grande, um instituto inovador em Portugal, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, um instituto pluridisciplinar, que dá formação básica em Biomedicina para diferentes licenciaturas. O Dr. Corino de Andrade foi um Homem extradionário, de rara inteligência e cultura geral impressionante, com elevadas qualidades humanas, e para todos que tiveram o privilégio de o conhecer, uma pessoa inspiradora. Em resumo, uma vida dedicada à Ciência e à Comunidade. Maria João Saraiva Professora Catedrática de Bioquímica, ICBAS


VOZES DA UPorto UPORTO

FCNAUP: As raízes do futuro

As raízes da Faculdade encontram-se no bacharelato em Nutricionismo, criado em 1976, na dependência directa da Reitoria da Universidade do Porto. Em Portugal, a formação académica de nutricionistas começou na Universidade do Porto e é com orgulho que afirmamos que durante décadas a nossa Universidade foi a única instituição universitária pública a formar nutricionistas. Pensamos portanto que a UPorto deve tirar proveito deste pioneirismo e apostar no desenvolvimento desta área das ciências da saúde, constituindo-se como uma instituição líder tanto a nível nacional como internacional. Aliás a projecção internacional da Faculdade, nomeadamente no que respeita à actividade científica, é visível na participação em uma dezena de projectos europeus de investigação. Para um melhor conhecimento da FCNAUP, na actualidade, importa referir alguns marcos ao longo destes 29 anos em que identificamos três factores limitativos do nosso desenvolvimento e que nos permitem afirmar que a FCNAUP, enquanto unidade orgânica, em circunstâncias de igualdade com as outras faculdades só existe desde 1999. Com efeito, conferir-se um bacharelato como grau máximo limitava a formação e, consequentemente, a esfera de acção dos diplomados, até na própria carreira docente universitária. Assim, logo em 1980, apresentou-se um plano de estudos para a licenciatura. No entanto, apesar de aprovada pela tutela em 1983, esta só pôde iniciar-se em 1987. Por outro lado, o facto de estar na dependência directa da Reitoria da UPorto – único curso nestas circunstâncias –, sem autonomia administrativa e financeira, impediu a constituição e evolução de um corpo docente próprio, com as consequentes limitações ao desenvolvimento enquanto escola universitária. Iniciámos assim o projecto de constituir uma unidade orgânica com uma forte ênfase na saúde e no interface com as disciplinas da área da alimentação, as ciências sociais, económicas e políticas. Este projecto foi amplamente discutido na UPorto, sendo aprovado em plenário do Senado em 1992. No entanto, foram precisos 4 anos para que a criação da unidade orgânica fosse homologada pela tutela, em 1996! Finalmente, a autonomia pedagógica, científica, administrativa e financeira da FCNAUP foi consagrada nos seus estatutos em 1999. Em rigor deve portanto considerar-se que só há 10 anos foi possível à quase totalidade dos docentes progredirem na sua vida académica dentro da Faculdade. Importa salientar que a grande maioria se tinha mantido como monitor por mais de 15 anos.

MARIA DANIEL VAZ DE ALMEIDA PRESIDENTE DO CONSELHO DIRECTIVO DA FACULDADE DE CIENCIAS DA NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO PORTO PROFESSORA CATEDRÁTICA

Os docentes de formação de base em nutrição que entretanto se tinham doutorado fizeram-no em universidades estrangeiras ou em outras faculdades da UPorto. Com o primeiro doutoramento na Faculdade a ser concluído em 1998, o corpo docente da FCNAUP conta hoje com 10 doutorados e 4 em doutoramento. Temos também atraído alunos de doutoramento com outras licenciaturas ou nutricionistas que procuram especializar-se numa determinada área de investigação. Tão ou mais grave que a situação dos docentes foi a dos funcionários não docentes, a maioria dos quais esperou mais de vinte anos pelo respectivo quadro. São ambos casos exemplares de empenho, interesse e dedicação à docência, investigação e serviço à comunidade. Esta é uma das qualidades humanas de que a Faculdade tanto se orgulha e lhe permitiu não apenas sobreviver, mas desenvolver-se e criar o seu lugar próprio no panorama universitário português. É esta dimensão humana que mantém os antigos alunos ligados à Faculdade ao longo da sua vida profissional. Numa altura em que se afigura inevitável – e mais do que nunca desejável – a utilização comum de recursos (humanos e materiais), para a FCNAUP essa é já uma realidade de anos. Se inicialmente essa parceria ocorreu fruto das condições de criação do bacharelato em que os seus docentes eram professores das Faculdades de Medicina, Farmácia, Economia e do Instituto Nacional de Saúde, actualmente os protocolos estabelecidos com as Faculdades de Medicina e de Farmácia e com a Universidade Católica permitem que os nossos alunos usufruam de ensino de qualidade por professores com larga experiência docente nas ciências básicas e também recorram aos laboratórios que as actuais instalações não comportam. A diversidade académica é referida simultaneamente como um factor que pode ser positivo ou negativo. Por um lado, reconhece-se que a diversidade na diferenciação dos docentes envolvidos numa Faculdade que inclua sectores como a bioquímica, genética, fisiologia, imunologia, saúde pública ou psicologia, por exemplo, estimula um ambiente intelectual dinâmico e facilitador da inovação e investigação multidisciplinar, além de individualizar a especialidade científica. Por outro lado, apesar dessa diversidade na formação ser essencial para abordar muitas questões complexas, pode ter um efeito adverso no diálogo entre os membros das diferentes faculdades, e prejudicar a comunicação entre programas académicos. Aliás, dado reconhecer-se que a diversidade académica nas ciências da nutrição tende a aumentar no futuro, as questões relacionadas com a coesão devem ser continuamente equacionadas, principal-


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mente nos períodos de reforma curricular, sob pena da Nutrição, como disciplina, não capitalizar os benefícios que lhe podem ser conferidos pela perspectiva de integração de saberes. Nesta conformidade, pensamos que a FCNAUP deverá manter este tipo de parcerias em articulação permanente com as outras instituições com o objectivo de um ensino de qualidade e adequado ao futuro graduado em Nutrição. Esta gestão racional de recursos permitir-nos-á uma concentração no desenvolvimento das áreas específicas da Faculdade, contribuindo assim para a diversidade da UPorto. A FCNAUP é a mais jovem das 14 unidades orgânicas da Universidade do Porto. O longo e tortuoso caminho de construção e afirmação da sua identidade explicam que esta comunidade se mantenha ainda nos actuais pavilhões. Soubemos mostrar que em instalações exíguas e precárias é possível edificar uma Faculdade desde que os seus docentes e funcionários se mantenham motivados, trabalhem e progridam para oferecerem uma formação de qualidade. Mas essa dedicação necessita agora de ser recompensada com o novo edifício. A aprovação do projecto das novas instalações e o início da sua construção é o incentivo de que precisamos a curto prazo. O novo espaço dará certamente um outro élan aos alunos, professores e funcionários da FCNAUP. Saberemos certamente responder aos desafios actuais de reformulação da formação académica de base, de atractividade de alunos de qualidade para a graduação, pós-graduação e formação ao longo da vida a par do desenvolvimento de uma cultura de qualidade no ensino e na investigação, sempre em articulação com a comunidade. Tal como soubemos responder às adversidades destes 29 anos de vida.


Uma Constituição para a União Europeia

A Paz foi e continua a ser o objectivo mais importante

A União Europeia (UE) nasceu como consequência da Segunda Guerra Mundial e, para além de muitas outras coisas, conseguiu solucionar um conflito secular entre a França e a Alemanha. O dinheiro, isto é, o preço das batatas, das peras ou das cabras e das ovelhas não deve ser mais importante do que a paz no velho continente. Utiliza-se a palavra crise para descrever a actual situação no relacionamento entre os Estados-membros da UE (nomeadamente depois da rejeição do tratado constitucional por parte dos cidadãos da França e da Holanda). Isto devia significar que a perturbação do funcionamento da integração europeia atingiu todos os sectores e que dura há bastante tempo. Ora, isto não é evidente. A UE desempenha muitas funções: económicas, monetárias, sociais, de protecção do meio ambiente, energia, saúde pública, segurança, cidadania, etc. O comércio entre os Estadosmembros não parou, o Euro continua a funcionar, os subsídios continuam a chegar a Portugal… Enfim, não há perturbação no funcionamento da UE, logo não há crise. Mas há problemas graves. Concretamente, há uma grande preocupação quanto ao futuro da integração europeia, ou seja, a dificuldade principal prende-se com aquilo que a UE deve ser nos próximos tempos. A questão que levantou essa mais recente inquietação no seio da UE foi o último alargamento, dito a Leste. Nos anteriores alargamentos a UE admitiu países já desenvolvidos; e quando isto não era um facto, como no caso de Portugal e Espanha, a UE teve vontade e dinheiro para ajudar os novos membros. O alargamento a Leste preparou-se durante longos 15 anos, provocando muitas dúvidas sobre os sistemas democráticos destes países, bem como sobre as incertezas da preparação económica dos novos parceiros. Enfim, vieram dez novos membros muito mais pobres do que o resto da Europa Ocidental. A esta situação, pouco favorável, A EU deveria responder com a própria reorganização, para poder satisfazer os pedidos de ajuda do Leste. Essa reorganização negociou-se no Conselho Europeu em Nice, com um resultado desastroso. Em vez de preparar um sistema institucional e financeiro capaz de controlar os acontecimentos numa Europa “dos 25” os Estados-membros da UE empenharam-se em preservar a sua posição privilegiada. Os britânicos não querem desistir do seu cheque. Os franceses não querem perder os subsídios para a agricultura. Para os portugueses a diminuição dos fundos comunitários põe em causa a

MILAN RADOS RESPONSÁVEL PELA SECÇÃO AUTÓNOMA DE JORNALISMO DA FLUP E REGENTE DAS DISCIPLINAS DE FORMAÇÃO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO, CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS, NO ÂMBITO DA LICENCIATURA EM JORNALISMO E CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

viabilidade económica do país… A verdade é que a UE neste momento tem muito menos dinheiro do que tinha há 20 anos e ainda menos vontade de solidariedade. Nos anos noventa acreditava-se que a globalização deveria trazer um crescimento económico ilimitado, o que não se verificou. Pelo contrário, os países da UE evidenciaram novos problemas. Em vez de “rios de dinheiro” resultantes da globalização, há na Europa Ocidental um número crescente de desempregados provocado pela deslocalização das empresas. No momento, e quando se verificam problemas no funcionamento da UE, a preocupação dos Estadosmembros passa a ser de ordem nacional: conseguir que o nível de vida não piore. Por outras palavras, quando as coisas correm mal os Estados-membros fecham-se em proteccionismos, procurando unilateralmente resoluções para os seus problemas. E quando a luta nacional por cada euro se torna primordial, não sobra muito espaço para a solidariedade europeia. Recorrendo a esta justificação, a larga maioria dos actuais governantes dos Estados-membros da UE afirma que única solução é diminuir o Estado social. Caso contrário, corremos risco de choque fiscal, isto é, de ficarmos sem dinheiro suficiente para assegurar as funções básicas da sociedade. Ou ainda uma outra ameaça: podemos entrar definitivamente em situação de ingovernabilidade. Se não aumentarmos o horário laboral (de 35 para 40 horas), se não aumentarmos os anos de trabalho (de 60 para 65), se não diminuirmos os salários e as pensões… vai acontecer um desastre total! Ora bem, esta situação não permite pensar em solidariedade para com os parceiros pobres do Leste europeu. É preciso sublinhar que foram os ideais de prosperidade e de solidariedade que deram grande prestígio internacional à UE. Foi por isso mesmo que os países de Leste proclamaram como seu primeiro e mais importante objectivo: a entrada na UE. É preciso lembrar também que foram outros governantes que tiveram uma outra visão de organização da sociedade. Estes visionários, no tempo do pós Segunda Guerra, criaram os ideais de solidariedade e prosperidade geral como única forma de preservar a paz. Durante a Segunda Guerra Mundial morreram na Europa mais de 30 milhões pessoas. Na sua larga maioria civis. Só uma sociedade próspera e solidária poderá garantir que a Europa não mais venha a conhecer uma loucura chamada Guerra dos Cem Anos. É preciso chamar à razão: criar uma sociedade próspera e solidária custa um pouco. O preço das cabras e das ovelhas não deve pôr em causa a paz no velho continente.


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Rejuvenescer o Porto antigo

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Sem uma articulação entre as instituições públicas, agentes e proprietários não pode haver reabilitação urbana. É esta a principal conclusão de um Estudo Estratégico para a reabilitação do edificado da baixa portuense desenvolvido por Isabel Breda da FEUP (principal responsável), Teresa Sá Marques da FLUP e Paulo Conceição da FEUP. Consciente da diversidade de factores que caracterizam esta área, o estudo identifica problemas, define prioridades de intervenção e apresenta “oportunidades” diferenciadas, zona a zona, para contrariar a espiral de degradação do edificado, das fragilidades sociais, funcionais e económicas. A população é envelhecida, as rendas são baixas, há até quem diga que o investimento na baixa não se faz porque existem condições mais propícias noutros espaços da AMP. Os agentes queixam-se da falta de incentivos e da rentabilidade incerta do investimento. O “como fazer” constitui a questão chave deste estudo, entregue à PORTO VIVO – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU). O Presidente da Comissão Executiva da SRU diz que esta foi a base para definir o plano estratégico de actuação no centro da cidade do Porto. O primeiro passo consistiu em definir zonas estratégicas de intervenção. Dada a vasta extensão da Área Crítica de Recuperação e Reconversão Urbanística (ACRRU) definida para a cidade do Porto (abarca oito freguesias centrais: Sé, Miragaia, São Nicolau, Vitória, Santo Ildefonso, Cedofeita, Bonfim e Massarelos) e a perspectiva “micro” introduzida pelo novo regime jurídico excepcional de reabilitação urbana foi necessário definir uma Zona de Intervenção Prioritária (ZIP), ou seja, de toda esta área localizar os pontos mais problemáticos. O estudo aponta “Elementos de Diagnóstico”, que descrevem o estado de degeneração urbana da área em estudo; uma “Visão e Forças de Estratégia” para orientar a reabilitação, com factores de qualificação e atractividade; “Contextos de Dinamização da Reabilitação Urbana”, com espaços estratégicos e “Condições Complementares de Intervenção” que passam pela “Mobilização de Agentes e o Uso de Incentivos”. Identificadas as dificuldades de investimento e com base em estudos comparados e entrevistas a agentes interessados na reabilitação são apresentadas sugestões que passam por simplificar os procedimentos urbanísticos, em especial das operações de licenciamento e fornecer incentivos fiscais. Como explica Isabel Breda “fazer reabilitação implica uma capacidade de mobilizar pessoas

e articular as instituições. Ou seja, não é só o privado vs o agente público, mas dentro do agente público as instituições têm de estar mobilizadas para este desafio. Nomeadamente no que tem a ver com questões muito concretas ligadas aos processos de licenciamento e no modo como se podem criar outro tipo de incentivos, por exemplo relacionados com a combinação de taxas, incentivos fiscais, etc. Quando falamos em capacidade de inovação falamos em articular soluções, agentes e mobilizá-los. Não só dos promotores privados. Dos proprietários também. Das pessoas que vivem na cidade. Sem isso não é possível haver reabilitação”. É que, apesar dos processos de declínio, esta é, ainda, uma zona densamente povoada. “Nas ZIP temos 43.200 pessoas. Estamos a falar de uma zona densa. E essas pessoas têm de ser enquadradas no processo! O problema fundamental não é a falta de gente, mas o facto de as famílias e os jovens terem saído da cidade. As pessoas que ficam constituem um grupo específico, idosos, com problemas financeiros e que carecem de incentivos.” Sinais de degradação Em toda a zona da ACRRU residem quase 19.500 pessoas com mais de 65 anos. De acordo com os Censos de 2001 no núcleo histórico (Miragaia; Vitória; São Nicolau e Sé), onde 71% dos edifícios são exclusivamente residenciais, vive “uma população com uma estrutura etária envelhecida (24% tem mais de 65 anos), pouco instruída (52% não tem nenhum nível de ensino ou possui apenas o 1º ciclo), com fracos níveis de qualificação profissional e com elevados indicadores de desemprego. A população residente diminuiu muito nas últimas décadas (na de 90 perdeu 7 mil habitantes), mas a densidade populacional continua elevada. As famílias habitam em alojamentos na maioria das vezes arrendados (metade dos quais com rendas inferiores a 35 euros), muitas vezes superlotados e sem as infra-estruturas mínimas de confor-

“O problema fundamental não é a falta de gente, mas o facto de as famílias e os jovens terem saído da cidade. As pessoas que ficam constituem um grupo específico, idosos, com problemas financeiros e que carecem de incentivos.”


FOTOGRAFIAS (DOSSIER) PEDRO MÓIA E FREDERICO MOURA E SÁ (BOLSEIROS DE INVESTIGAÇÃO DA FEUP)

to”. De sublinhar que nestas freguesias foram contabilizados 32 alojamentos familiares sem electricidade; 102 sem água; 553 sem retrete; 73 sem esgotos; 977 sem banho; 2.744 sem aquecimento e 125 sem cozinha. Os sinais de degradação física do parque edificado são “muito intensos”: em 2001 contabilizavam-se 2.600 imóveis a necessitar de intervenção nas coberturas. O abandono do núcleo histórico reflecte-se no número de alojamentos vagos existentes (entre 1991 e 2001 passou de 836 para 1.950). A população residente no “anel central” (Cedofeita; Santo Ildefonso; Bonfim e Massarelos), onde 82% dos edifícios são exclusivamente residenciais, também é, sobretudo, envelhecida (23% tem mais de 65 anos), mas já com “níveis de instrução e de qualificação profissional mais favoráveis” (um quarto da população tem um nível de ensino superior). A perda demográfica (quase 20 mil habitantes) e a desocupação funcional foram “muito expressivas” na década de 90, o que se traduziu numa preocupante degradação dos imóveis. Cerca de 11 mil necessitam de intervenções de conservação. Entre 1991 e 2001 o número de alojamentos vagos no anel central passou de 4.271 para 7.440. Em 2001, no núcleo histórico e no anel central, onde perto de 5.000 edifícios são anteriores a 1919, viviam, aproximadamente, 84 mil pessoas registando-se, ainda assim, 10 mil alojamentos vagos. Este número corresponde, aproximadamente, a um quinto dos alojamentos existentes nessa área e a metade do número de alojamentos vagos no concelho do Porto. Destas 8 freguesias pertencentes à ADDRU e analisadas as situações mais críticas passaram a ser consideradas Zonas de Intervenção Prioritária as freguesias de Santo Ildefonso; Vitória; Miragaia; São Nicolau; Sé; parte da do Bonfim, da de Cedofeita e de Massarelos. Só nesta área vivem 43.200 pessoas, sendo que perto de 11.000 têm mais de 65 anos. Em 10.500 edifícios 3.700 são anteriores a 1919 e há 5.800 alojamentos familiares vagos.

No núcleo histórico (…) as famílias habitam em alojamentos na maioria das vezes arrendados (metade dos quais com rendas inferiores a 35 euros), muitas vezes superlotados e sem as infra-estruturas mínimas de conforto.

Diagnosticar causas e apontar soluções Tratam-se de zonas, sublinha Isabel Breda, “onde o declínio foi selectivo. Saíram os jovens e as famílias. Ficaram os idosos. As necessidades de recuperação são imensas… Falamos de indicadores básicos como a existência de instalações sanitárias”. Problemas que se vêm aprofundando ao longo do tempo o que, por si só, também constitui um factor inibidor do investimento… Mas afinal, o que estará na base desta contínua dificuldade em investir no edificado? Um conjunto de entrevistas a diversos agentes serviu para encontrar algumas respostas às quais o estudo acrescenta propostas de resolução: - O investimento gera rendimentos insuficientes (rendas baixas); Resolução: Alterar os níveis e subsídios das rendas e aumentar a intervenção pública no apoio à reabilitação. - Não há certezas quanto à rentabilidade futura; Resolução: A permanência de mecanismos de apoio e a concessão de “prémios de risco”. - Problemas de mediação e adequação entre a oferta e a procura; Resolução: Promover agências de intermediação, criar sistemas de garantias dos contratos, reorganizar a estrutura da propriedade (providenciando espaços de estacionamento, por exemplo). - Problemas de financiamento para as obras; Resolução: Modificação dos planos ou criação de agências ou fundos alternativos de financiamento; mecanismos de garantia dos empréstimos. - Perspectiva de valorização posterior do património; Resolução: Penalização fiscal. - Dificuldades de gestão das intervenções; Resolução: contratos temporários de gestão do parque privado; criação de agências para a manutenção dos alojamentos; estratégias dirigidas para a indústria de construção, etc. - Dificuldades de organização das políticas (locais ou nacionais). Resolução: harmonização dos instrumentos de política habitacional. De todos estes factores, os de maior peso prendem-se com as questões da regulação do arrendamento e dos sistemas de apoio à reabilitação habitacional. O mesmo é dizer que “uma mobilização generalizada dos agentes carece de alguns sinais – políticos – em torno da resolução dessas problemáticas. Esses sinais requerem um esforço de articulação entre a SRU, a administração municipal e a administração central”. Para calcular a rentabilidade das intervenções outro factor importante é o tempo necessário para obter uma licença, a articulação entre as diversas entidades envolvidas no processo de licenciamento e a clarificação dos critérios de aprovação dos projectos.


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Dinamizar oportunidades de intervenção Diagnóstico traçado, importa definir as Áreas de Dinamização da Reabilitação Urbana (ADRU) e os Eixos de Dinamização da Reabilitação Urbana (EDRU) que permitam, em simultâneo, responder aos problemas, mas também potenciar oportunidades de intervenção. Para combater a espiral de declínio, diz Isabel Breda, “é necessário identificar elementos de atractividade do ponto de vista cultural, das artes, dos equipamentos, entre outros, e combiná-los com situações de degradação para criar zonas com capacidade de reabilitação”. É neste contexto que a Baixa do Porto surge como um “espaço de oportunidades” que decorre, por exemplo, da existência de investimentos recentes num conjunto de espaços públicos e de infra-estruturas urbanas (Porto 2001); da existência de uma rede de equipamentos universitários e culturais e de um “espaço de afirmação patrimonial e turística associado à classificação do centro histórico como património da humanidade, às intervenções na zona ribeirinha e às interligações entre estes espaços e as referidas redes de equipamentos”. Numa perspectiva mais “micro” foram definidas as seguintes Áreas de Dinamização da Reabilitação Urbana (ADRU) e Eixos de Dinamização da Reabilitação Urbana (EDRU): - ADRU Almada onde, para além da “não ocupação dos alojamentos (em 1.179 alojamentos familiares 368 estão vagos), do estado degradado do edificado e dos baixos índices de qualificação dos residentes” existem também “dinâmicas comerciais específicas e uma elevada concentração ou proximidade de eixos e espaços de singularidade”. As sugestões passam por captar e desenvolver “projectos bandeira” que funcionem com “ímanes” do processo de reabilitação física do património edificado; apoiar modelos habitacionais diversificados que se adaptem à “classe criativa”, aos estudantes e às famílias; mobilizar os proprietários para acções de reabilitação habitacional estimulando e facilitando o recurso a programas e mecanismos de apoio e reforçar as actividades criativas. - ADRU Miguel Bombarda, naturalmente associada a “dinâmicas criativas”, para a qual se defende a criação de condições que permitam o surgimento de outras actividades, directa ou indirectamente ligadas (por exemplo no domínio da formação; das artes gráficas e dos conteúdos para a Internet); o desenvolvimento de actividades de comércio e de serviços orientados para este nicho de mercado e a existência de tipologias habitacionais para universitários e outros grupos sociais com necessidade de soluções de baixo custo.

- ADRU Bolhão – São Lázaro, com uma “elevada percentagem de alojamentos vagos e níveis importantes de degradação do edificado”, mas com forte “densidade comercial e de equipamentos”. Nesta área, e para promover a capacidade de reabilitação e ocupação do edificado, ganha especial relevância o sistema de licenciamento e a mobilização coordenada dos programas de apoio à reabilitação; a manutenção de uma oferta de alojamentos arrendados de baixo custo; atrair novas empresas e utilizar a recuperação do Mercado do Bolhão como elemento dinamizador do processo de reabilitação. Os primeiros sinais de alarme relativamente à degradação do mercado surgiram com os autos de vistoria da própria CMP em 1984 e 1986. Dois anos depois a autarquia aprova um projecto de autoria do Arquitecto Joaquim Massena. Com um custo aproximado de 12,5 milhões de euros o projecto, que entretanto obteve o acordo do IPPAR, não passou do papel por alegada falta de verbas. Quando em Julho passado o relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil alertava para “risco iminente de ruína” na ala sul do Mercado do Bolhão já eram conhecidos os planos da autarquia de, em parceria com privados, e no âmbito da SRU, lançar até final deste ano um concurso internacional para reabilitação do mercado com o objectivo de criar um espaço misto de actividades. - ADRU Lóios – Alfândega, onde para além dos problemas sociais e de degradação do parque habitacional se verifica uma “proximidade com eixos de potencial dinamizador”. A estratégia para esta zona sugere um levantamento dos espaços disponíveis (alojamentos vagos ou cujos proprietários queiram colocar no mercado) constituindo uma “bolsa” para captar intervenções de promotores habitacionais e a mobilização dos senhorios para a reabilitação através de mecanismos de apoio. - ADRU Infante, marcada por contextos de “fragilidade social”,

“é necessário identificar elementos de atractividade do ponto de vista cultural, das artes, dos equipamentos, entre outros, e combiná-los com situações de degradação para criar zonas com capacidade de reabilitação”.


mas também com fortes “potencialidades de afirmação patrimonial, turística e económica”. Os mecanismos de atracção de novas actividades deverão ter em atenção os modelos de inovação nas economias dos centros da cidade, nomeadamente no investimento em infra-estruturas; outro factor importante é a qualificação dos serviços prestados, sobretudo em actividades relacionadas com cultura, turismo e património; dada a elevada percentagem de alojamentos vagos a aposta passa por difundir e mobilizar os mecanismos de apoio à reabilitação arrendada. As intervenções no edificado deverão prever a dotação de espaços de apoio para projectos de desenvolvimento social local (apoio ao emprego, à formação e aos jovens). - ADRU Lapa-Bonjardim, com uma funcionalidade predominantemente residencial apresenta problemas de habitação degradada e um considerável número de “ilhas”. A estratégia passa aqui por combinar acções de renovação ou de consolidação com uma transformação completa das estruturas já existentes (as “ilhas”); apoiar a preparação de candidaturas e projectos e estimular esforços individuais com a simplificação dos procedimentos de licenciamento e mobilização coordenada dos programas nacionais de apoio à reabilitação. - EDRU Aliados / Mouzinho da Silveira – Rua das Flores; Santa Catarina; Cedofeita. Eixos de valor patrimonial e identitário com capacidade de articulação territorial onde a “diversidade de funções e actividades pressupõe a definição de critérios gerais para a reabilitação do edificado em cada eixo, que garantam a coerência do conjunto das intervenções”. Sendo um espaço de convergência de diversas funções, da residência aos serviços, a estratégia deverá passar também pela consolidação do comércio e das actividades relacionadas com o turismo e o património. Linhas mestras de intervenção Para além das especificidades de cada área (quer a nível de fragilidades, quer da respectiva estratégia de regeneração) há linhas mestras que facilitam a obtenção de resultados: - Uma discriminação positiva, por parte do controlo administrativo, dos processos de reabilitação revestindo-os de interesse público urgente; - A constituição de um “front office”, ponto de atendimento comum para todas as iniciativas; - Encarar o pedido de informação prévia (PIP) sobre operações urbanísticas como um instrumento acelerador de procedimentos

e fornecedor de garantias aos interessados em reabilitar; - Homogeneizar os critérios de análise dos técnicos que avaliam os processos; - Articular de forma eficiente as diversas entidades que intervêm na gestão dos processos de reabilitação. Cativar agentes implica uma estratégia de reorientação espacial do investimento imobiliário, nomeadamente quando surgem novas dinâmicas imobiliárias, apoiadas em estratégias de investimento no espaço público, em áreas como o eixo da Boavista e a zona afecta ao Plano de Pormenor das Antas que estão em “competição” com a zona central da cidade. Tornou-se igualmente claro, ao longo do estudo, que a capacidade de implementar iniciativas empanca com a morosidade e complexidade dos procedimentos urbanísticos. É que se as obras de conservação estão isentas de licença, os restantes casos (alteração, ampliação, reconstrução/demolição) implicam uma comunicação prévia e autorização ou licenciamento, o mesmo é dizer: uma sucessão de procedimentos, prazos e entidades interventoras. A simplicidade e celeridade dos processos já funcionariam como um incentivo às acções de reabilitação. O regresso das famílias e dos jovens constitui um dos principais objectivos desta estratégia o que implica criar tipologias habitacionais adequadas e resolver problemas como o do estacionamento próximo da habitação. Crucial, sublinha Isabel Breda, “é articular estratégias. Da SRU, da Câmara, dos agentes económicos e dos proprietários. Todos têm de aderir à mesma ideia forte. Diferenciada para cada zona”.

ZONA DE INTERVENÇÃO PRIORITÁRIA


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Breves apontamentos sociais sobre a reconfiguração do centro da cidade do Porto

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Consciente da “pluralidade” de situações “que fazem o centro da cidade”, Virgílio Borges Pereira identifica o “envelhecimento (muito frequentemente feminizado), amplamente empobrecido e socialmente excluído”; o desemprego; a crise do edificado e a ausência de agentes sociais como alguns dos problemas que acompanharam a “reconfiguração do centro da cidade do Porto”. Professor do Departamento de Sociologia e Investigador do Instituto de Sociologia da FLUP, Virgílio Borges Pereira apresentou como tese de doutoramento em Sociologia: Classes sociais e modalidades de estilização da vida na cidade do Porto: classes e culturas de classe das famílias portuenses. A cidade do Porto dos últimos anos tem reaprendido a retratarse como palco de um conjunto vasto de problemas onde avulta a sua nítida componente social. As tendências gerais são conhecidas. Ao longo das últimas décadas e depois de um período de significativo crescimento, a cidade do Porto conhece, à sua escala, uma severa quebra demográfica; esta quebra demográfica é selectiva (a tendência centrífuga é alimentada sobretudo por adultos-jovens) e tem contornos conhecidos e comparáveis com situações sociais de outras cidades ocidentais (neste e noutros momentos históricos); simultaneamente, a cidade desindustrializa-se e, não obstante as particularidades sociais do Porto quando comparado com o Grande Porto e o Norte de Portugal (genericamente, a cidade tem uma população mais qualificada tanto em termos de capitais escolares como no que reporta à configuração dos activos empregados), o desemprego cresce e as relações salariais desestruturam-se. A cidade permanece densa, continua a ser um importante centro de emprego (nomeadamente, no sector terciário – ele próprio em ampla reconfiguração, nomeadamente ao nível do comércio) e um relevante ponto de passagem obrigatório para uma imensidão de pendularidades diárias. A cidade estrutura-se, igualmente, como uma referência material e simbólica para vastos conjuntos populacionais da envolvente mais próxima e do Norte do País. Contudo, esta dimensão projectada em torno do espaço físico e da memória da cidade não é suficiente para atenuar o relevo dos problemas em torno do seu espaço físico e social presentes. Sabe-se que nem sempre as tendências gerais se traduzem homogeneamente nos territórios. No centro do Porto, nos termos da sua definição geral ultimamente consagrada em objecto de eleição de política territorial, a relação com essas tendências é

diferenciada e é também sabido que a diversidade existe. Assim, ao ensaiar uma breve interrogação em torno da dimensão social dos problemas do centro da cidade do Porto, valerá a pena, mais uma vez, reter a sua pluralidade. A centralidade portuense comporta histórias diferentes e consagra modalidades alternativas de espacialização do social. Não sendo possível ser exaustivo, é importante reter as diferenças de mundos sociais que separam o núcleo antigo da Baixa e esta das suas imediações, mais ou menos periféricas, que comportam função de residência; também se terão, obviamente, de registar as divisões entre a cidade antiga recuperada (ainda muito pouco recuperada face às necessidades) e a cidade antiga abandonada e esquecida, ou ainda entre os quarteirões esparsamente habitados durante a noite da área central e as ruas mais dinâmicas e criativas, no mix de actividades comerciais e funções diferenciadas de residência, que se encontram em segmentos territoriais sob ampla pressão imobiliária e que, muito dificilmente, encaixam no perfil da zona com problemas (é conveniente não esquecer o imenso potencial atractivo destes segmentos territoriais), ou, no interior de muitos dos quarteirões da expansão urbana oitocentista do centro citadino, a velha e duradoura divisão entre fachadas de habitação pequeno-burguesa e traseiras (e/ou quarteirões inteiros) de ilhas operárias. Retendo, então, a pluralidade das situações que fazem o centro do Porto, é importante perspectivar as dimensões mais relevantes da reconfiguração social que neste se têm vindo a estruturar. Esta reconfiguração é visível em vários domínios e estará relacionada com a conjugação, em registos variáveis (consoante as freguesias e os quarteirões), de uma crise, não propriamente de preços, mas, sobretudo, do edificado (casas muito antigas, não recuperadas, sem elevador e sem o precioso e inevitável, para efeitos de recuperação, estacionamento automóvel), com a ausência qualificada (no que respeita à idade e à fase do ciclo de vida) de agentes sociais, com a anomização do espaço público (do associativismo à vida do café) e, em determinados casos, da rua e das relações de vizinhança (fruto da sua conquista, real e/ou imaginária, pelo medo). Este conjunto de propriedades actuantes tem protagonismos sociais e está, inevitavelmente, relacionado com as transformações verificadas no interior de segmentos específicos do espaço social citadino. Pense-se no operariado industrial (muitas fábricas desapareceram e os prismas geográficos da procura de trabalho operário, para os que permanecem no centro e ainda se esforçam,


são muito restritos), mas também nas franjas menos qualificadas do emprego de execução no comércio e nos serviços (as lojas também se abatem e o emprego torna-se amplamente precário...). Neste sentido, e entre várias figuras da dominação social vivida como problema, sem dúvida que aquela que, neste momento, mais se destacará no centro da cidade (em particular no núcleo antigo, mas também em determinados contextos de Santo Ildefonso ou do Bonfim) passa pelo envelhecimento sofrido (muito frequentemente feminizado), amplamente empobrecido e socialmente excluído, quer dizer, com generalizado isolamento físico e social, de segmentos muito relevantes da respectiva população. Uma outra figura social problematicamente sentida no centro passa pela vivência do desemprego, da precariedade e da inactividade constrangida em muitos adultos (mais ou menos envelhecidos) para quem, pelas razões já aludidas, não se torna objectivamente e/ou subjectivamente possível encontrar pelo trabalho forma de organizar a vida nos termos para as quais se foi socializado. Igualmente relevante é o modo como se constrói a juventude e a entrada para a vida adulta, em particular, o que resulta de uma difícil relação com a escola e, lembrando as preocupações de muitos daqueles que procuram lutar contra a reprodução de tais situações, o que também resulta de processos cumulativos e variados de desestruturação familiar. Contudo, o que, de um ponto de vista interventivo, talvez seja verdadeiramente fracturante na reconfiguração do centro existente é, por um lado, a noção de que a crise económica e social dos espaços de residência é acompanhada (para alguns será uma das suas causas) pela crise do comércio e dos serviços e, por outro, a noção de que várias das situações vividas se articularão, progressivamente, com uma potencial ausência de diversidade social próxima (diversidade que, mesmo quando relativa e definida por divisões sociais finas na apropriação do espaço, foi, durante anos e anos, uma marca social relevante do centro do Porto). Ora, se atentarmos bem nas propriedades sociais inerentes à reconfiguração em curso verificaremos que, na sua definição, estão propriedades que encontramos regularmente em contextos periféricos determinados, o que, em última análise, nos diz que parte dos problemas do centro são também aqueles que encontramos nas periferias. Virgílio Borges Pereira Professor do Departamento de Sociologia e Investigador do Instituto de Sociologia da FLUP; colabora com a FAUP.

Esta reconfiguração é visível (…) e estará relacionada com a conjugação (…) de uma crise, não propriamente de preços, mas, sobretudo, do edificado (...), com a ausência qualificada (...) de agentes sociais, com a anomização do espaço público (...) e, em determinados casos, da rua e das relações de vizinhança.


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A estratégia da SRU

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Constituída a 27 de Novembro de 2004, a Porto Vivo SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense S. A., é uma empresa de capitais públicos, do Estado (I.N.H.) e da Câmara Municipal do Porto, cuja missão é “conduzir o processo de reabilitação urbana da Baixa Portuense”, devendo, para tal “elaborar a estratégia de intervenção e actuar como mediador entre proprietários e investidores, entre proprietários e arrendatários e, em caso de necessidade, tomar a seu cargo a operação de reabilitação, com os meios legais que lhe foram conferidos”. De acordo com o Presidente da Comissão Executiva da Sociedade, o Estudo Estratégico apresentado pela Faculdade de Engenharia (ver textos anteriores) “foi a base para definir o plano estratégico – Masterplan – da Porto Vivo”. Reconhecendo que os processos de licenciamento se traduzem num “calvário” a SRU definiu duas vias para contornar a questão. A primeira prende-se com a intervenção a nível dos quarteirões. “Nós definimos um projecto para cada quarteirão e antes de chegarmos à fase de licenciamento consultamos todas as entidades envolvidas, o IPPAR, os Bombeiros, etc. Ou seja, quando notificarmos os proprietários para que façam obras o projecto já está, praticamente, pré-aprovado. Para além disto, vamos ter capacidade de licenciamento. Os nossos projectos não vão ter de ir à Câmara. As Sociedades foram criadas com esses poderes excepcionais de se substituírem às autarquias no licenciamento. Portanto, é um processo célere”. A nível do proprietário individual, que não entra neste esquema de “quarteirão”, e para minimizar os efeitos da tal “saga” que o espera, Joaquim Branco anunciou para Setembro a criação da Loja de Reabilitação “para dar apoio a todos os proprietários que queiram reabilitar os seus prédios. Vai ser uma espécie de Loja do Cidadão, onde trataremos de todos os aspectos ligados à reabilitação. Iremos também montar uma via verde para os licenciamentos. Claro que demorará sempre mais tempo do que no caso dos quarteirões porque o tal ‘calvário’ tem de ser sempre percorrido”. Definidas as Zonas de Intervenção Prioritária e, dentro destas, as que poderiam gerar uma maior dinâmica de intervenção, a SRU optou pelo Eixo Avenida dos Aliados / Ribeira como primeira aposta “pela sua importância em termos de comércio e turismo”, tendo por objectivo “transformar esta zona num pólo de atracção de investimento”. Para o conseguir a Porto Vivo pretende criar a figura do Gestor do Centro Urbano. “Alguém que tem a responsabilidade de contactar potenciais investidores, empresários, proprietários, arrendatários, e atrair investimento para esta zona. Vamos arrancar com o projecto-piloto na zona da Sé”.

Joaquim Branco sublinha que, muitas vezes, a reabilitação tornase difícil porque “os actuais proprietários são herdeiros e não se preocupam em reabilitar o edifício”, sendo esta uma “componente determinante para o estado do actual edificado”. Quarteirões piloto Mesmo antes de adoptar o referido estudo estratégico, a SRU elegeu cinco quarteirões piloto (Carlos Alberto; Cardosas; Infante; D. João I e Cais das Pedras) onde irá intervir mediante as propostas apresentadas pela Quaternaire Portugal. Paralelamente, os alunos do Curso 2004/2005 da Pós-Graduação de Gestão Imobiliária da Faculdade de Economia da Universidade do Porto desenvolveram quatro propostas de intervenção (ver textos das páginas seguintes): Vintage Plaza e Cardosas Central Park, para o quarteirão das Cardosas; Praça Carlos Alberto e Oporto Fashion Headquarter para o quarteirão de D. João I. De acordo com Joaquim Branco são projectos semelhantes aos que a Porto Vivo quer implementar. “O caso mais paradigmático é o das Cardosas. Aparece a ideia do Hotel, da habitação, do comércio, do estacionamento na praça interior. Tudo isto também consta do nosso estudo prévio e da proposta que foi elaborada pelo Arquitecto Rui Mealha e que pretendemos desenvolver neste quarteirão”. Os trabalhos que de seguida se apresentam foram compilados no livro “Estratégia em Imobiliário – Aplicação à Reabilitação Urbana do Centro do Porto”. A obra reúne ainda o Masterplan da Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana e um resumo da disciplina de Estratégia Imobiliária, da autoria de António Gil Machado. A edição do livro esteve a cargo da revista Vida Imobiliária, Grupo Editorial Vida Económica.

A Porto Vivo pretende criar a figura do Gestor do Centro Urbano. “Alguém que tem a responsabilidade de contactar potenciais investidores, empresários, proprietários, arrendatários, e atrair investimento para esta zona.”


VINTAGE PLAZA Vintage Plaza é uma proposta estratégica, elaborada por um grupo de alunos da Pós-graduação em Gestão Imobiliária da FEP. O objecto do estudo é o Quarteirão das Cardosas, integrado numa das primeiras áreas de intervenção da “Porto Vivo”, Sociedade de Reabilitação Urbana. A conjuntura macro-económica e a análise sócio-económica que se realizou à cidade e AMP, apontaram para a realidades inquestionáveis, como o envelhecimento e diminuição da população do Porto e simultaneamente, o aparecimento de novas estruturas familiares, mais pequenas, fruto da baixa taxa de nupcialidade e alta taxa de divórcio. A existência de muitos indivíduos que vivem sozinhos e uma população universitária superior a 65.000 estudantes orientaram, na sua componente de habitação, a proposta para este segmento de público alvo. O conceito do projecto, apoia-se na singularidade cultural do Centro do Porto, patente no património edificado e nos habitantes que lhe dão vida. A topografia, a morfologia, o sistema construtivo dominante e até a estrutura fundiária, conferiram a esta zona da cidade, características que lhe atribuem um rosto único que devemos preservar, adaptando-o a novos usos, ou iguais destinos mas com novos padrões de qualidade e conforto. Dinamizando as vivências urbanas através do encorajamento à fixação de usos qualificados, que autonomizarão este quarteirão, projecta-se uma unidade de referência no tecido urbano da cidade do Porto. Como actuaremos? • Reinventando a Rua das Flores com o seu nome associado à ourivesaria e joalheira de alta qualidade; • Transformando o palácio num hotel de charme (num local sem paralelo); • Atraindo os potenciais segmentos da nossa sociedade para um novo conceito de habitação que passa pelo loft, adaptado à imagem e características físicas, estruturais e arquitectónicas do construído; • Dotando este quarteirão de uma área comercial de qualidade, servida por estacionamento automóvel; • Criando uma Praça de reunião e lazer.

O projecto assenta num Hotel e numa Praça no miolo do quarteirão, associado ao comércio que preenche o r/c das construções onde se encontram os acessos verticais às habitações. A habitação apresenta neste projecto novos conceitos que se baseiam na ideia de “espaços em liberdade”, criando-se lofts e habitações que associam a novos estilos de vida, onde se habita, trabalha e se convive com o espírito liberal possuido por aqueles que gostam de viver sozinhos ou bem acompanhados. O desafio do Vintage Plaza é reinventar a baixa da cidade do Porto, com a tradição e a inovação, num projecto sustentado por factores críticos de sucesso como a centralidade, as tipologias únicas das habitações, do hotel de charme, e os novos conceitos de comércio associados à tradição do Porto. A missão de revitalizar o centro da cidade depende e muito da vontade política. Um primeiro passo foi dado com a constituição da SRU, resta-nos aguardar uma nova lei do arrendamento, que assegure os direitos de senhorios e inquilinos e a atractividade deste projecto, permitindo a entrada de novos operadores no mercado, nomeadamente os investidores privados. TRABALHO REALIZADO POR: ALEXANDRA CARMO JOÃO PEDRO BARBEIRO LUÍS BRITO MIGUEL NOGUEIRA PEDRO CANEDO


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CARDOSAS CENTRAL PARK Projecto Imobiliário de Recuperação e Reabilitação Urbana no Quarteirão das Cardosas, na Baixa do Porto. Inserido na actividade da SRU – PORTO VIVO, propusemo-nos estudar a viabilidade da reabilitação do Quarteirão da Cardosas, na Baixa do Porto. A situação presente do Quarteirão é de grande degradação, falta de dinâmica e qualificação de espaço próprio e envolvente. Identificámos que os problemas na reabilitação da Baixa passam pela alteração dos seguintes factores políticos: rendas, segurança, acessibilidades, cultura e amenidades. Começámos por perceber que era fundamental dar continuidade ao corredor verde existente nos Aliados e convergi-lo no interior do quarteirão, criando-se assim, uma relação de exterior – interior. O quarteirão foi idealizado de forma a ser permeável, dotado de uma fluidez natural de percursos, transformandose num espaço apelativo e convergente. Com esse objectivo previmos para o seu interior cafés, galerias de arte, bares e toda a envolvência de espaços culturais que promovem a sã convivência tão característico do ambiente cultural do Porto. Os objectivos de projecto assentam essencialmente na captação de pessoas, dinamizando o centro, tornando-o atraente redescobrindo-se assim, a alma e identidade da Baixa Portuense. Confere-se um ecletismo ao conjunto, através de uma linguagem contemporânea nas novas intervenções, transformando o quarteirão num pólo cultural. Estabelecidos estes parâmetros do Projecto, desenvolvemos estudos Financeiros, que sustentam e garantem a viabilidade do investimento. Pressupostos do problema Investimento total – 30.000.000 euros. Faseamento do Investimento 2 anos Financiamento do projecto: • 50% Capital Próprio (destes até 49% de free float – % do capital disperso em bolsa – e estímulo aos proprietários dos edifícios como forma de poderem fazer parte do projecto através de entradas de capital ou via abatimentos nas alienações dos imóveis) • A dívida será paga em 9 anos, com os CF’s (cash flows) do projecto sendo os dois primeiros de carência com pagamento de juros. • O serviço da dívida a partir do ano 3 é de 2.200.000 euros com juros incluídos à taxa de 7%.

Custos e proveitos As vendas no geral representarão cerca de 35.700.000 euros correspondendo a 68% das receitas totais do projecto a receber nos 4 primeiros anos o que contribuirá como auto-financiamento do projecto. Habitação 10.000 m2 distribuídos da seguinte forma: • T0 – 100 unidades com 50 m2 cada e P.V. de 120.000 Euros. • T1 – 35 unidades com 80 m2 cada e P.V. de 136.000 Euros. • T2 – 22 unidades com 100 m2 cada e P.V. de 170.000 Euros. Âncora no cômputo geral, a área de lazer, com receitas escalonadas em 3 anos, produzirá 12.400.000 euros. Hotel composto por 60 quartos a serem vendidos por 75.000 euros cada, renderá cerca de 5.250.000 euros. Cinemas com 2.775 m2, serão vendidos por 3.000.000 euros. Health Club – o espaço acabado com 1.500 m2, sem das máquinas, será vendido por 3.300.000 euros. Os arrendamentos a iniciar no 3º ano do projecto, com uma taxa de ocupação crescente até 99% nos 3 anos seguintes, deverão garantir um encaixe de 1.500.000 euros. Os custos operacionais com manutenção, segurança, pessoal, etc, cifram-se na ordem dos 700.000 euros, os quais são pagos com as receitas do condomínio. Nos primeiros 10 anos, prevê-se obter cerca de 52.500.000 euros de receitas e 15.000.000 euros de EBIT (resultados operacionais antes de impostos e amortizações). Este EBIT representa cerca de 30% dos proveitos e 20% dos R.L. Depois de paga a dívida, as receitas provenientes, apenas dos arrendamentos, terão um valor médio de 2.200 K euros/ano. Partindo de um cenário prudente, e admitindo uma yield de capitalização (taxa de actualização de capital) de 9% sobre o CF do ano 10 actualizado, obtemos um terminal value de 4.000.000 euros, o que representa cerca de 30% da avaliação final do projecto. O somatório dos CF actualizados dos 10 primeiros anos é de cerca de 9.300.000 euros, pelo que estamos em condições de afirmar que o projecto é viável e que o seu valor é de cerca de 13.400.000 euros. TRABALHO REALIZADO POR: ANA PAULA CONDE RIBEIRO JOANA HORSTER LÍDIA VITÓRIA ALBUQUERQUE NELSON FRANÇA PEDRO LEITÃO VASCO RITES


REQUALIFICAÇÃO DA PRAÇA CARLOS ALBERTO A Praça Carlos Alberto, a beleza e magia do Rio Douro, da Cidade e do seu Centro Histórico – parte do qual já se encontra classificado como Património da Humanidade – dá inicio a um novo potencial de desenvolvimento, pelo que a reabilitação urbana é condição necessária para a revitalização dos centros históricos. Neste sentido, e tendo em consideração o espaço, sua envolvente e os objectivos propostos pela Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), procedemos ao levantamento da situação actual na procura dos seus pontos fortes, pontos fracos, assim como as oportunidades do local evidenciadas no quadro seguinte. Análise SWOT (Análise de Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) Alicerçados nestes princípios, definimos a nossa missão: Reabilitar, para seduzir e conquistar um segmento alvo com desígnio crescente de se fixar no centro, em circunstâncias e condições, compatíveis com os hábitos de qualidade e conforto contemporâneos, de forma rentável. Optamos assim, pela criação de um projecto imobiliário que privilegie dois tipos de espaços distintos. Habitação e Comércio, devolvendo ao local a cumplicidade e alternância de ocupação entre estes dois espaços. Os espaços reservados à habitação, assentam em quatro tipologias distintas (T0, T1, T2 e T3). • Tipologias T0 e T1 (conceito City-Lofts/Flats) Estas tipologias possuem características específicas que lhes permitem diferenciarem-se da concorrência, nomeadamente: áreas reduzidas (45 a 55 m2), com reduzidas zonas de circulação no seu interior, com flexibilidade da ocupação dos espaços, conducentes a uma vivência individual (solteiros e ou divorciados) ou de casal jovem. • Tipologias T2 e T3 (conceito familiar) Estes espaços caracterizam-se também pelo seu conceito inovador e jovem. Em qualquer das tipologias propostas, está associado um elevado padrão estético e ambiental, cujo mercado alvo é o segmento médio/alto, composto por famílias jovens que privilegiem o factor localização. Não poderíamos aqui deixar de inserir uma componente comercial, dada a proximidade que existe à Rua de Cedofeita (zona fortemente marcada pelo comercio tradicional).

Propõe-se então a criação de áreas inovadoras, vocacionadas para um grupo de estabelecimentos modernos, enquadráveis no comércio tradicional existente, mas que representem uma alternativa em termos de espaço e conceito, com inclusão de infra-estruturas de lazer, como complemento aos espaços desenvolvidos. Ao mesmo tempo, propomos um aproveitamento de algumas das infra-estruturas existentes, nomeadamente do parque de estacionamento, através da celebração de acordos e ou parceria fazendo assim ligação deste ao interior do quarteirão, servindo simultaneamente as habitações e os comércios, colmatando assim de forma mais económica a falta de locais de estacionamento no local, ao mesmo tempo que se rentabiliza uma infra-estrutura existente. Nesta conformidade, é nossa convicção que estamos perante um projecto bastante atractivo, dado o conceito e a possibilidade de, facilmente e de forma harmoniosa, se conciliar duas vivências distintas que se complementam, habitação e comercio. TRABALHO REALIZADO POR: ANTENOR FERREIRA CARLOS CORREIA FÁTIMA LAMEIRO FERNANDO TAVARES LUÍS GUIMARÃES PAULO SÁ MACHADO


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OPORTO FASHION HEADQUARTER – PROPOSTA DE REABILITAÇÃO URBANA DO QUARTEIRÃO D. JOÃO I O Quarteirão D. João I insere-se na centralidade alta do tecido histórico da cidade do Porto, na encosta que se estende a Nascente dos Aliados. Regista-se a requalificação do espaço público envolvente, no âmbito da Porto 2001, tendo sido parcialmente executado o projecto de pedonalização, reperfilamento e reformulação viária, elaborado pelo Atelier 15, para reabilitação da Praça D. João I. Do património edificado que constitui o quarteirão destacam-se, na frente Sul, a sede do Banco Millennium e o Hotel, que contrastam com a heterogeneidade das restantes frentes constituídas por edifícios de utilização mista, alguns devolutos e pontuados por edifícios dissonantes de construção recente. Estrategicamente inserido na rede de fluxos de mobilidade urbana, o quarteirão assume ainda a centralidade face à concentração, na envolvente próxima, de edifícios de referência na vida social e cultural da cidade. Do diagnóstico ao património edificado, atendendo aos objectivos estratégicos definidos pela SRU|PortoVivo e ao enquadramento legal e âmbito operacional desta, definiram-se como conceitos fundamentais da proposta de intervenção a auto-sustentabilidade financeira e física, a constituição de parcerias público-privadas, a apropriação do quarteirão enquanto unidade mínima, o intercâmbio funcional, as sinergias operacionais de amenização, a flexibilidade tipológica e eficiência ecológica dos edifícios. Face ao resultado da análise estratégica – contextual e transaccional – e da viabilidade de resposta aos factores críticos de sucesso inerentes à pretensão – centralidade, estacionamento e conceito – definiu-se que o projecto de investimento radicaria na captação de um sector industrial/empresarial vital da nossa economia, com baixos índices de crescimento e dificuldade de penetração no mercado global, pelo que, face à tradição regional e antecedentes culturais da cidade, se perspectivou a criação de um Centro de Negócios afecto ao sector têxtil, tecnologicamente evoluído, potenciando economias de aglomeração e beneficiando da criação da imagem de marca ‘oPorto Fashion Headquarter’. Estruturou-se um Centro de Negócios vocacionado para o acolhimento de empresas industriais e de cadeias de comércio e retalho nacionais, com elevada capacidade de inovação e forte ligação aos criadores de moda e instituições de ensino, em espaços comerciais (11.625 m2 | 99 unidades) e escritórios (4175m2 | 35 unidades), beneficiando da integração de equipamentos comuns de consultoria, apoio técnico especializado, apoio logístico, administrativo e

de gestão, e espaços para instalação de parceiros institucionais de fomento à exportação. O Centro de Negócios é complementado pela oferta de unidades de habitação (5240 m2 | 89 estúdios), para fixação de população estudante e quadros profissionais, e pela requalificação do Hotel (5725 m2 | 200 quartos) enquanto reforço de centralidade. Aferida a viabilidade financeira do investimento e sistematizado o programa funcional, definiu-se que a prioridade na elaboração da proposta arquitectónica radicaria num layout flexível, sustentável e maleável no que se refere à gestão do empreendimento. Pretende-se deste modo aglutinar o interesse comum de diversos intervenientes, em torno de um empreendimento singular, que contribuirá para a excelência na produção de moda, enaltecida pelo valor patrimonial dos edifícios a reconstruir, contribuindo para a revitalização e requalificação do núcleo histórico da cidade do Porto e seu prestígio internacional. TRABALHO REALIZADO POR: ALEXANDRE SARAIVA ANTÓNIO VIEIRA FILIPE MATIAS NUNO MARTINS RAFAEL MADEIRA SÉRGIO ESTEVES


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LSRE lança duas spin-off de Engenharia Química no mercado

Duas jovens empresas de base tecnológica na área da Engenharia Química, com elevado potencial de inovação, estão prestes a dar o primeiro passo no mercado aberto e concorrencial. As duas spin-off resultam de uma evolução natural, embora menos natural no contexto português, da experiência adquirida em trabalhos de investigação ao longo de vários anos, nesta área preferencial de cooperação com a indústria e o mundo empresarial, que é a Engenharia Química, e do trabalho do Laboratório de Processos de Separação e Reacção (LSRE), centro de investigação sediado na Faculdade de Engenharia. Em parceria com o Laboratório de Catálise de Materiais (LCM), o LSRE, sedeado na FEUP e com um pólo no Instituto Politécnico de Bragança, avaliado sempre como excelente pelo painel de avaliadores internacionais, foi constituído Laboratório Associado em Dezembro de 2004, o sexto a funcionar na esfera da Universidade do Porto. Poucos dias antes de ter recebido o estatuto, os coordenadores do LSRE, Alírio Rodrigues, e do LCM, José Luís Figueiredo, foram dois dos 73 investigadores portugueses distinguidos com o prémio Excelência, atribuído pelo Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior, por publicarem mais de 100 artigos científicos e terem mais de 500 citações em revistas científicas. Entretanto, os prémios atribuídos a trabalhos de investigação do LSRE têm-se sucedido: um Primeiro Prémio Solvay, uma distinção máxima e uma Menção Honrosa do Prémio CUF. O Prémio Solvay foi atribuído à investigação Processo Industrial de Produção de Acetais num Reactor Adsorptivo de Leito Móvel Simulado, de Alírio Rodrigues, Viviana Silva, Mirjana Minceva e Ganesh Kumar, concluído em 2004 e actualmente em fase de registo de patente. O Primeiro Prémio CUF foi atribuído à tese de doutoramento de Luís Pais, sob orientação de Alírio Rodrigues e José Miguel Loureiro, pelo trabalho Separação Quirais por Cromatografia em Leito Móvel Simulado em Fevereiro de 2003, e a Menção Honrosa CUF foi atribuída a Ricardo Santos por Mecanismos de Mistura em Reacção por Injecção em Molde (RIM) sob orientação de José Carlos Lopes. Estes projectos representam apenas parte do trabalho desenvolvido pelo LSRE. A investigação organiza-se em quatro áreas fundamentais da Engenharia Química: Engenharia da Separação; Engenharia da Reacção; Modelização, Simulação e Controlo de Processos; Ciência e Engenharia de Ambiente.

A cooperação com a indústria decorre por vezes da publicação dos resultados em revistas científicas e dos contactos que surgem. Sobretudo do estrangeiro. Não por impossibilidade de aplicação das inovações tecnológicas na indústria portuguesa, mas porque a grande indústria estrangeira tem estado, genericamente, mais atenta à inovação. Em resultado dos trabalhos do LSRE na área da tecnologia de leito móvel simulado (uma tecnologia existente na Petrogal para separação de p-xileno) foram assinados contratos com CECA (França) para avaliação de adsorventes destinados a separação de p-xileno, com Chiral Technologies (Estrasburgo) para separações quirais e com IFP (França) que financia uma tese de doutoramento dum estudante francês no LSRE. Perfumes made in Portugal Uma das spin-off prestes a cortar o cordão umbilical é o mediatizado projecto empresarial impulsionado por duas jovens investigadoras do LSRE que pretende abrir espaço no seio do especializadíssimo e concorrencial mercado da indústria de perfumes, embora num nicho dedicado à produção de perfumes por encomenda, em escala mais reduzida, portanto. O atrevido projecto da I-Sensis – Investigação e Desenvolvimento em Engenharia Química, assim se designa a jovem empresa, vai produzir perfumes e outros produtos afins “à medida” das necessidades do cliente, assim como desenvolver trabalho de prestação de serviços e consultoria.

A cooperação com a indústria decorre frequentemente da publicação dos resultados em revistas científicas e dos contactos que surgem. Sobretudo do estrangeiro. Não por impossibilidade de aplicação das inovações tecnológicas na indústria portuguesa, mas porque a grande indústria estrangeira tem estado, genericamente, mais atenta à inovação.


UPORTO SABER EM MOVIMENTO

ALÍRIO RODRIGUES

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Durante o mês de Setembro de 2005 a I-Sensis terá começado a instalar-se no TecMaia-Parque Tecnológico da Maia, após a chegada do equipamento encomendado e a defesa da tese de doutoramento de Paula Gomes, que ficará a coordenar tecnicamente os trabalhos da jovem empresa e que desenvolveu o seu trabalho de investigação precisamente nesta área. Paula Gomes e a investigadora pós-doutorada Vera Mata formam a equipa impulsionadora da spin-off que, na fase de projecto de investigação que esteve na sua origem, contou com a orientação e acompanhamento do coordenador do LSRE, Alírio Rodrigues. Apesar de, durante o desenvolvimento do projecto, ter sido usada uma técnica inovadora e limpa para extracção (designada extracção supercrítica) de óleos essenciais de plantas, usando dióxido de carbono sob pressão e usando plantas com potencial aromático da flora portuguesa, nesta fase inicial a empresa terá de recorrer à importação de óleos essenciais para a produção de perfumes, ultrapassando portanto a fase de extracção das essências. O projecto que esteve na base da spin-off, Design de um Perfume Usando Recursos Naturais e Tecnologias Limpas, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia com 99.800 euros, verba em grande parte investida em novo equipamento, assumira o desafio de chegar à concepção de um “perfume português”, com recurso a plantas da flora portuguesa e com técnicas inovadoras desenvolvidas no LSRE. No entanto, justifica Paula Gomes, e apesar dos contactos exploratórios com técnicos e empresários do sector agrícola, ainda não existe em Portugal uma capacidade de produção destas plantas adequada à escala industrial. Entre as testadas estão, por exemplo, a alfazema, a menta, tomilho, alecrim, esteva e gerânio, que correspondem, consoante o caso, às chamadas notas de base, médias (que caracterizam), ou de topo (a que primeiro é sentida) num perfume. Os conhecimentos específicos nesta área foram sendo adquiridos em encontros vários com especialistas do sector e um curso, frequentado por Paula Gomes, em Plymouth, com Tony Curtis, um reputado entendido nestas questões. Um outro conhecido especialista, Solke Bruin, director da unidade de investigação da Unilever holandesa durante 20 anos, será arguente da tese de doutoramento de Paula Gomes. Entre os trabalhos desenvolvidos pela equipa de investigadoras, está uma amostra criada para um dossier de apresentação da Brandia, um grupo nacional de comunicação e gestão de marcas que foi responsável pelo rebranding da GalpEnergia e TAP, que trabalhou com a Vodafone na marca Yorn e reformulou a imagem da RTP2.

PAULA GOMES E VERA MATA: A I-SENSIS

Ideia de negócio premiada Galardoada em Dezembro de 2004 com o Prémio FIVE, promovido pelo IAPMEI, ITP – Instituto de Turismo de Portugal e INTELI-Inteligência em Inovação – Centro de Inovação, em colaboração com a ADI-Agência de Inovação, a proposta de negócio ForFluin, apresentada por José Carlos Lopes, professor da FEUP e investigador do LSRE, vai agora dar origem à empresa FluidInova. O Projecto FIVE seleccionou ideias inovadoras de negócio de base tecnológica, em vários sectores de actividade, no âmbito do Programa NEST. A FluidInova, Engenharia de Fluidos, prestará serviços de engenharia, de consultoria e projecto, para o desenvolvimento de novos processos e tecnologias industriais, actuando nas áreas de abastecimento, tratamento e exploração de água, engenharia do ambiente interior de edifícios e da indústria transformadora. Para isso, comercializará três produtos pioneiros. Um deles é um equipamento robotizado de aplicação e teste de tintas em laboratório, designado RobPaint®. Outro é uma máquina de injecção de plásticos reactivos para a indústria automóvel, designada RimCop®, que usa a mesma tecnologia usada na tese de doutoramento Mecanismos de Mistura em Reacção por Injecção em Molde (RIM) que valeu uma Menção Honrosa do Prémio CUF 2004. O terceiro é um misturador em rede para novos processos/equipamentos/reactores que pode ser usado para fabrico de novas emulsões, microcápsulas e nanomateriais na indústria química e farmacêutica. Designa-se NetMix®. No dia 13 de Julho a equipa de investigação do LSRE conseguiu um feito inédito: produzir nanocristais de hidroxiapatite de calibre controlado através deste misturador em rede. A hidroxiapatite é um dos raros materiais classificado de bio-activo, ou seja capaz de promover o crescimento ósseo e integração óssea quando utilizado em próteses ortopédicas, dentais e maxilofaciais.


Todas estas marcas correspondem a patentes já registadas ou em registo. Para além destes produtos, a FluidInova desenvolverá trabalhos de consultoria e projectos sobre dinâmica e comportamento de fluidos (ar, água, entre outros) no espaço, como por exemplo, a dinâmica de gases em espaços interiores de edifícios, usando a tecnologia CFD – iniciais para Computação em Fluidos Dinâmicos – que, nomeadamente, podem complementar ou ser articulados com projectos de arquitectura. Num bloco operatório, o estudo da circulação do ar com recurso a CFD permitiria prevenir situações inesperadas e indesejáveis de contacto com o ar e eventual contaminação. O plano de negócios prevê um arranque da jovem empresa com sete pessoas e a possibilidade de alargamento para 20 o número de colaboradores num horizonte previsível de cinco anos, fase em se prevê uma facturação aproximada de 2,5 milhões de euros por ano. O projecto da jovem empresa já foi aceite para apoio na Iniciativa NEOTEC.


UPORTO SABER EM MOVIMENTO

ou a descoberta da Universidade por 3800 jovens no Verão

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A Universidade do Porto foi ocupada, durante o mês de Julho, por uma multidão de jovens dos 10 aos 18 anos (do 5º ao 11º ano do ensino secundário) que se instalou nas suas várias faculdades, institutos, laboratórios e espaços de cultura, naquela que se configurou ser uma experiência arrojada de abertura da instituição na sua totalidade a uma população que não é, habitualmente, a sua, decorrente da criação de um movimento e de uma estrutura de ligação com os jovens – a Universidade Júnior – que se inaugurou com inegável sucesso. Em Setembro, uma Escola de Física ajuda a despedir do Verão um último grupo destes utentes especiais dos espaços de estudo e de investigação da UPorto, e faz a ponte para outras iniciativas que, ao longo do ano, e até Julho de 2006, ocasião em que recomeçará a turbulência, irão manter aceso o espírito de uma instituição aberta às inquietações dos mais novos, à qual estes trouxeram, por seu turno, uma vitalidade muito particular. Através de um ambicioso programa que implicou o desenho de uma Escola de Línguas e de três grandes projectos de actividades: Experimenta no Verão; Oficinas de Verão e Verão em Projecto, dirigidos a diferentes faixas etárias e procurando responder às diferentes motivações dos vários grupos, a Universidade tornouse permeável à curiosidade e agitação dos alunos do secundário que, vestindo as cores da nova casa, puseram à prova a criatividade da academia e das suas gentes e a sua capacidade de trabalhar em conjunto – esta foi, na opinião dos intervenientes mais directos, uma das características mais enriquecedoras da Ujr –, cruzando áreas do saber e práticas, de forma a oferecer a um público pré-universitário uma experiência única. O projecto foi organizado num tempo extraordinariamente curto, de Janeiro a Junho do corrente ano – a selecção de projectos do concurso de ideias para concretização da programação das actividades teve lugar em Janeiro – só compensado pela dedicação a 200% das pessoas que nele estiveram envolvidas (como refere Deolinda Flores, um dos elementos da direcção da iniciativa e docente da FCUP) e pela “afinação” virada para o futuro de uma instituição cujas raízes remontam a 1762, mas cumprindo todas as exigências de rigor que caracterizam as práticas de uma grande Universidade. A sua realização implicou reuniões prévias de carácter exploratório, definição de uma estratégia organizativa e de divulgação, articulação com o exterior na auscultação do interesse das comunidades, criação

de um núcleo directivo, criação de um conselho científico para avaliação das propostas apresentadas pelas faculdades e institutos de investigação, criação de um secretariado, organização de um corpo de monitores de cerca de 175 elementos, tendo em conta uma ratio de acompanhamento dos alunos de 1 para 8. O programa foi desenhado nos seus mais ínfimos detalhes: alojamento, quando necessário, transportes, alimentação, ocupação de tempos livres, animação, contemplando uma oferta cultural também ela formativa, como a concertação com a Casa da Música que às sextas-feiras acolheu os alunos da Escola de Línguas e do Verão em Projecto, oferecendo-lhes concertos didáctico-pedagógicos. Para apoiar a gestão e a logística dos alojamentos, sem esquecer também aqui a vertente lúdica do projecto, foi contratada uma empresa especializada em animação de programas similares – a Vértico. Para garantir o interesse dos programas ao ar livre, no Parque da Cidade, foi contratado o grupo desportivo Quatro Caminhos que desenhou as provas de orientação. Os números do programa Cinquenta euros de propina era o custo das actividades semanais, incluindo deslocações entre os locais, alimentação, organização de tempos livres, visitas culturais. Os custos para alojamento semanal eram igualmente de cinquenta euros. A modalidade de alojamento foi prevista para os alunos deslocados, nos casos em que as câmaras municipais não pudessem assegurar-lhes um transporte diário. As autarquias de Arouca, Famalicão, Valongo ou Barcelos, por exemplo, encarregaram-se diariamente do transporte dos alunos dessa localidades e deram ainda apoio à sua deslocação entre os pólos da Universidade do Porto. Havia 65 diferentes projectos de actividades, para além da Escola de Línguas que implicava uma frequência de duas semanas, de modo a facultar a realização de “um conjunto diversificado de actividades que permitisse recrear a vida do país da língua”, como explica Eurico Carrapatoso, também director do projecto e docente da FEUP, e da Escola de Física, programa que conta com o apoio do Ciência Viva, em que os alunos são seleccionados a partir de uma apreciação curricular, mais orientado para uma prática de investigação continuada ao longo do mês. O programa “Verão em projecto”, dedicado aos alunos do 9º, 10º e 11º anos e que permitia uma opção entre cerca de 50 cursos repartidos por várias faculdades, foi o que recebeu mais inscrições – 2000. O Experimenta no Verão, diz-nos Fátima Vieira (um dos elementos da direcção do projecto e docente da FLUP), “ficou


preenchido em Março, bem como a Escola de Línguas. No Verão em Projecto: Medicina, Ciências do Desporto, Comunicação e Jornalismo, Design de Comunicação em Belas Artes, ou o IBMC, ficaram logo completos, porque aí nota-se que existe, por parte dos alunos, uma grande apetência por essas áreas. Depois, houve outros projectos que até nos surpreenderam, programas que achávamos até que íam ter dificuldade em conseguir alunos e que tiveram bastantes inscrições.” Inscreveram-se 3.800 alunos, a maior parte deles da região Norte – porque o esforço de articulação com as autarquias e escolas secundárias por parte da Universidade, no ano de lançamento do programa, se exerceu principalmente dentro da ampla área geográfica em que a UPorto se insere –, mas a Ujr contou, também, com a participação de alunos de Lisboa, do Alentejo, do Algarve ou dos Açores. Para viabilizar o programa e assegurar-lhe uma dimensão significativa, de modo a optimizar os meios disponibilizados pela instituição, alargando simultaneamente o alcance de uma missão de serviço público, foram estabelecidos protocolos de colaboração com 30 câmaras municipais, todas elas de localidades em que as escolas secundárias aderiram prontamente. Essa invulgar articulação com as autarquias e escolas da região foi fruto de um trabalho prévio de divulgação do programa, na sua ambição e linhas mestras, realizada pela equipa que idealizou e construiu os seus meios de concretização. Deolinda Flores conta-nos como foi: “durante uma semana, visitámos aquilo que considerávamos que podiam ser câmaraspadrão. Para fazer uma avaliação da sua abertura a esta iniciativa. A resposta foi positiva, mesmo numa altura em que ninguém sabia ainda o que era a Universidade Júnior” e acrescenta, com a satisfação da realização de uma tarefa difícil e um optimismo patente no olhar: “para o ano será com certeza mais fácil...” Eurico Carrapatoso acrescenta: “Todos nós fomos visitar câmaras municipais, falar com os presidentes, falar com vereadores; todos nós fomos a escolas secundárias, falar com presidentes dos conselhos directivos, psicólogos e directores de turma. Todos participámos na articulação com as comunidades locais”, e explica que na generalidade dos casos o acolhimento foi muito bom. Desígnios e experiência feita O “Experimenta no Verão”, dedicado a jovens do 5º e 6º ano, estava “organizado em quatro tempos diários”, como explica Eurico Carrapatoso, de forma a propiciar ao longo de um dia a variabilidade adequada a uma faixa etária para a qual um

programa diário se pode tornar monótono, e de forma a permitir juntar a diversão à aquisição de informação, na intenção maior de “sensibilizar os jovens para as grandes áreas do saber, as letras, as artes, as ciências”, continua Fátima Vieira. Aí, explica, “Houve a preocupação de juntar as duas vertentes – lúdica e teórica”, e também a de permitir a estes alunos, mesmo assim, o acesso à “ideia de que estavam a contribuir para um todo. Foi montado, por exemplo, um painel cerâmico, com cerca de 1 metro por cinco – que esteve em exposição no Jardim Botânico no dia de encerramento do programa de Julho da Ujr-, com os trabalhos realizados por todos os alunos deste projecto”. As Oficinas de Verão, dirigidas a alunos do 7º e 8º ano, ofereciam actividades delineadas para um dia. Fátima Vieira explica que, para esse grupo, “havia a preocupação de ajudar no processo de exploração vocacional, dando uma perspectiva do que se faz na Universidade. A nossa intenção era que conhecessem os espaços da Universidade e durante o dia realizassem um pequeníssimo projecto como, por exemplo, proteger um computador de um vírus, instalar um servidor web pessoal (na Engenharia), ou participar numa oficina de poesia”. A ideia relativamente ao Verão em Projecto era já a de informar escolhas, conforme refere Eurico Carrapatoso. Fátima Vieira prossegue: “demos-lhes a oportunidade de irem para uma faculdade realizar um projecto, um mini-curso que tinha que ter um lado divertido mas, por outro lado, devia já puxar por eles e dar-lhes uma perspectiva daquilo que se faz, não apenas a nível de licenciatura mas de pós-graduação. Por exemplo, no final de um curso feito no Departamento de Química da Faculdade de Ciências íam visitar os laboratórios, onde trabalham alunos de mestrado e doutoramento, conversavam com eles e viam o que se fazia. Era-lhes dada já uma perspectiva da investigação”. A sessão de encerramento do programa teve lugar a 29 de Julho. Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, visitou de manhã alguns dos espaços em que decorreram actividades da UJr. À tarde participou no fórum que reuniu na Casa da Música organizadores, apoiantes, intervenientes, alunos e professores da UPorto. Lembrando o índice de satisfação dos estudantes da Júnior - 99,8% de acordo com as respostas aos inquéritos - José Ferreira Gomes, vice-reitor da Universidade, anunciou uma nova edição do projecto em 2006.


UPORTO SABER EM MOVIMENTO

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Universidade unida Delinear um programa de actividades de Verão na UPorto para alunos do ensino secundário com interesses e preocupações muito diversificadas, como os que distinguem os alunos do 5º e 6º, 7º e 8º e os dos restantes anos, a partir do momento charneira em que é realizada a opção por uma determinada área científica, implicou uma mobilização de esforços e uma inventiva em torno de um projecto comum. Esta iniciativa deu a ganhar aos agentes universitários uma experiência de pertença a um corpo global que não é evidente nas práticas quotidianas de ensino e de investigação. Estas estão muitas vezes cantonadas aos espaços específicos do instituto, departamento, faculdade ou, mesmo a um nível mais geral, do pólo em que se localizam e ancoradas a domínios do saber que nem sempre se cruzam, apesar do tão apregoado desígnio da interdisciplinaridade e da maleabilidade. Quer isto dizer que, por vezes, a prática ultrapassa as intenções desejáveis e que, neste caso, a Universidade se uniu efectivamente para programar e concretizar uma oferta muito especial, acontecendo que, no decurso desse processo, o que os participantes na iniciativa experimentaram foi, como relatam, a sensação de pertencerem a um corpo comum, vivo e unido, capaz de se mobilizar entrando em diálogo e de se renovar por dentro na abertura ao exterior. Como explica Fátima Vieira: “Quando foi lançado o concurso de ideias não sabíamos o que ía acontecer. Ficámos muito surpreendidos com o número de projectos que foi apresentado e com a qualidade das propostas. Isso significa que a Universidade está viva e que o que dizemos, que os professores e os investigadores não estão disponíveis para aderir a novas ideias (mesmo neste momento em que se coloca o desafio de Bolonha), ou que não estamos preparados, etc., não é verdade. Tivemos uma resposta incrível que excedeu todas as expectativas.”


UPORTO PERFIL

João Botelho entrevistado por Fernando Cabral Martins

Nem toda a vida é cinema

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Aos 56 anos João Botelho, que cursou Engenharia na Universidade do Porto, realizou já mais de uma dezena de filmes, tendo obtido desde Conversa Acabada (1982) diversas nomeações e prémios nos mais importantes certames do cinema europeu. Várias vezes presente em Cannes e Veneza, entre outros festivais internacionais, Botelho apresentou este ano o mais recente trabalho, O Fatalista, na selecção oficial do Festival de Veneza, ao lado de Manoel de Oliveira, assegurando-se assim duas presenças portuguesas, quando prepara já a saída de um novo filme, misto de documentário e ficção, A Luz na Ria Formosa. Nesta entrevista realizada por Fernando Cabral Martins, crítico de cinema, escritor e professor associado de literatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, que igualmente foi aluno na Universidade do Porto, o cineasta fala da sua obra e dos seus projectos. Estiveste no Porto, a estudar na Faculdade de Engenharia, onde nos conhecemos. Não acabaste o curso e foste para o cinema. Quando vim para Lisboa já estava ligado ao cinema há muitos anos no Porto. Foi um percurso antigo que passou pelo acesso às salas de cinema. Lembro-me de ir a Espinho ao cinema. E lembro-me de ter visto 14 vezes o “Pierrot le Fou”… Teve tudo a ver com o facto de me ter viciado na visão de filmes. No Porto houve uma grande agitação naquela altura. Começou em Coimbra, com a crise de 69, e houve uma revolução de costumes e uma mudança de mentalidades. Depois, houve um vazio a seguir a 69 que fez com que estivéssemos dois anos em Coimbra sem fazer absolutamente nada a não ser participar em coisas como o Círculo de Artes Plásticas e grupos de teatro. Aulas nem pensar. Tive dois anos sem ir às aulas, a seguir a 69. Houve uma crise. Mas é evidente que essas coisas chegam a um certo ponto e cansam. Eu acabei por ir para o Porto, para a Faculdade de Engenharia, estive lá três anos e no último, em 73, dei aulas numa escola em Matosinhos. Mas lembro-me que a nossa actividade principal no Porto, nessa altura, para além de pequenas actividades políticas mais ou menos clandestinas que fazíamos todos, era a paixão pelo cinema. Víamos os filmes todos que havia, as reposições, tudo. Frequentávamos o Cineclube do Porto, íamos às meias-noites fantásticas e às manhãs clássicas do Batalha. Houve aí uma cinefilia. Depois, o 25 de Abril foi para muita gente uma ruptura decisiva. Para mim

Aprendi muito com o Manoel de Oliveira…. Lembras-te da primeira entrevista que lhe fizemos? Ele dizia unicamente: “façam só as coisas em que acreditam. Não façam para ninguém. Façam! Façam o melhor que souberem. Façam!”

também. Pensei: “Não estou aqui a fazer nada, não quero ser engenheiro, vou para Lisboa. Vou para a Escola de Cinema. Quero fazer filmes. Quero fazer filmes.” E já sabias como os querias fazer? Queria fazer cinema. É muito engraçado porque havia um radicalismo, um afunilamento radical. Lembro-me de chegar à escola de cinema com dois cineastas focados. Só. Só havia dois cineastas à face da terra que me interessavam: um era o Godard e outro era o Straub, diferentes, mas eram as únicas pessoas que pensavam o cinema. Com os anos, e à medida que se vai envelhecendo, uma pessoa percebe que não há dois mas 5000 interessantes e quinhentos muito bons. Mas naquela altura o radicalismo apontavanos para Godard e Straub, mais nada. Isso também tinha a ver com os próprios professores… Tinha a ver com os professores e com a situação do cinema no mundo. O que nos interessava. Tinha tido uma formação universitária, contacto com o radicalismo de várias artes e de comportamentos. Éramos filhos dos Cahiers du Cinéma, se quiseres, da leitura dos Cahiers. E tinha a ver com a sequência do Neo-Realismo e da Nouvelle Vague, a transformação do cinema clássico. E depois conseguimos sobreviver em Portugal. Aqui o cinema não é uma indústria. O cinema foi sempre metade comércio metade arte, desde o início. Portanto, mesmo que não soubesses que filmes querias fazer, sabias como é que não os querias fazer. Como não queria fazer e o que rejeitar. E fomos sobrevivendo a assistir à decadência dos cinemas nacionais. Tinha sido o pós-guerra italiano, o Rosselini, poucos meios e grandes ambições. Não havia muito dinheiro. Aliás uma das coisas que identifica Portugal e os cineastas portugueses é um modo de produção artesanal. Sim, grandes ambições mas poucos meios. Poucos meios e a ideia de não fazer concessões. Aliás, aprendi muito com o Manoel de Oliveira…. Lembras-te da primeira entrevista que lhe fizemos? Ele dizia unicamente: façam só as coisas em que acreditam. Não façam para ninguém. Façam! Façam o melhor que souberem. Façam! Esse tipo de atitude moral, em


© BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

relação ao cinema, que nos pôs um bocado fora da realidade, mas sem concessões…. Somos os últimos à face da terra. Nem há um «cinema português». Não há uma linha Oliveira, não há uma linha António Reis, não há uma linha César Monteiro. Não há outras pessoas que os imitem. Quando há, é fraco. Mas há seis ou sete coisas. O Pedro Costa não tem nada a ver comigo, ou eu com o Zé Álvaro Morais. É tudo diferente. Não é a história do cinema de autor, não tem nada a ver com isso. É um trabalho colectivo que depende de muitas coisas. Mas há um poder sobre a decisão, que é nosso. Nenhum produtor interfere nas nossas decisões. Isto é um luxo. Isto é um luxo! Eu sou responsável pelo bem e pelo mal que está nos meus filmes. A única responsabilidade que não tenho é a do orçamento ser pequeno. Há uma coisa que me interessa e que sempre defendi, que é a questão da autonomia absoluta… Um gosto pela palavra Sempre tiveste um grande gosto pela palavra literária… Sim. Mesmo o “Adeus Português” é uma espécie de ai-ku. Lembro-me que quando cheguei ao cinema, em Portugal, o primeiro filme que vi fazer na vida foi o “Amor de Perdição” do Manoel de Oliveira. Fomos lá filmar umas cenas e a maneira de desenhar a posição da câmara do Manoel de Oliveira com dois pregos e uma corda, a determinar o ângulo… parecia um jardineiro. E aquela ideia do texto, da palavra ter a primazia… porque a imagem já se sabia o que era. Percebes? Ou seja, encontrar o texto como matéria. Respeitar o texto, o som, mesmo quando se dizia que o som português era mau. Não tem nada a ver com isso. As pessoas o que não estavam habituadas era a ouvir a oralidade portuguesa. Por outro lado, esse cinema português de que tu fazes parte assentou muito naquilo a que se chama som directo. A nossa ideia foi sempre a procura da verdade. Das palavras, do som. É que o som é mais verdadeiro do que a imagem, porque o som capta o in e o off, capta o que se vê e o ambiente que entra, e na imagem tu escolhes sempre um rectângulo e deixas muita coisa de fora… O que fica de fora entra pelo som… Mas voltemos ao Porto. Aquela nossa desilusão em relação à política levou-nos a escolher caminhos que não tivessem nada a ver com a prática política directa. Os filmes…

Mesmo a “Conversa Acabada”? A “Conversa Acabada” é sobre Portugal e a luta de classes contemporânea. Mas é também um filme sobre clássicos. Porque repara, tu tens “Conversa Acabada” que é sobre o Pessoa e o Sá-Carneiro, depois “Tempos Difíceis”, a partir de Dickens, depois “Quem És Tu?”, de Garrett, e agora o “Fatalista” de Diderot. Mas todos os filmes que eu fiz são sempre sobre o Portugal contemporâneo. “Tempos Difíceis” era sobre o cavaquismo e o aparecimento dos novos ricos. O “Aqui na Terra” era um filme sobre a rejeição do dinheiro, e o “Conversa Acabada” sobre Portugal naquela altura, ou seja, para criar é preciso morrer, era uma coisa sobre isso: a depauperação dos criadores e dos artistas. O Pessoa publicou um único livro em português, e hoje alimenta 200 mil pessoas. Quando fizemos “Conversa Acabada”, para além dos textos da Ática, ninguém conhecia o Pessoa. Mas isso não tem a ver com a luta de classes, mas sim com uma reflexão sobre a situação do artista, numa sociedade que não o acarinha. Não é só não acarinhar. É que a criação é rejeitada em Portugal, em geral. Não temos um meio culto. Não tem a ver só com isso, tem a ver com o facto das pessoas desconfiarem da grandeza. Isso é típico da ausência de cultura. As pessoas não prezam a grandeza. E porque é que nós vamos buscar o Pessoa e o Sá-Carneiro em 1980? Primeiro eram os nossos únicos criadores contemporâneos do modernismo europeu, na altura em que existiu. Era o drama de um criador genial como o Mário de Sá-Carneiro morrer aos 25 anos, por paixão de corpo e de vida. E o outro morreu de cirrose aos 40 e poucos. E sobre essa história de esquecimento e de rejeição, de não-importância, eu lembro-me de ter a arca do Pessoa em casa, quer dizer os papéis todos, os óculos, as canetas, porque ninguém ligava nada, nada. Mas também “O Adeus Português” era sobre a guerra colonial, não uma história de guerra, mas o luto da guerra.


UPORTO PERFIL

Eu acho que chegou a altura de mudar o modo de produção português. Temos que fazer ainda mais barato e mais radical, que é a única maneira de sobreviver.

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Manoel de Oliveira e António Reis De facto, o Manoel de Oliveira tem uma importância crucial na tua e na história do cinema português. Há dois pais para o cinema português, um é o Oliveira e o outro é o António Reis, que também criou outra direcção. Mas o António Reis fez três ou quatro filmes. O problema é esse. Por exemplo, o Pedro Costa é António Reis. No meu primeiro filme, o Manoel de Oliveira faz de padre que dá a extrema-unção ao Pessoa. Por alguma razão lá está. E no meu segundo filme, que é “O Adeus Português”, o António Reis faz de camponês. Não há que saber, fui exorcizar dois pais do cinema. Mas no Oliveira há uma coisa que é incomensurável que é a quantidade de filmes que ele já fez e sobretudo a dimensão que cada um deles tem. O Oliveira é muito estranho. Muito estranho. O “Douro Faina Fluvial” é de 30, e o segundo filme só o faz 12 anos depois. O “Aniki Bóbó” de 42 é um filme anunciador do Neo-Realismo tal como havia de se fazer no final dos anos 40. “O Passado e o Presente” de 72 é um filme que rebenta com todas as convenções, à maneira de um Buñuel última fase. O facto de tu teres ido ver o “Amor de Perdição” a ser feito quando estavas a estudar cinema de certeza que foi decisivo. Claro, mas tão marcante como ir à mesa de montagem ver o António Reis a montar o “Trás-os-Montes”. Sobre a ideia de verdade: um, a verdade da matéria das pedras, e o outro, a verdade da matéria da alma, se quiseres. Tanto um como o outro me marcaram. Agora é evidente que o Oliveira marca mais porque tem mais peso, mais filmes, e criou um plano, chamado o “plano Oliveira”, uma maneira de pôr a câmara que mais ninguém tem, que é dele. Ele põe a câmara e aquele plano é dele. Aliás, eu lembro-me, no “Amor de Perdição” fazia-me espécie e perguntei-lhe porque é que a câmara se põe ali e não se põe além. E ele disse-me há sempre só uma posição da câmara para cada momento. E o Oliveira não tem teoria sobre isso. Tem intuição. Lembro-me dele a fazer planos fixos de dez minutos, ia mudar a bobine e ninguém se mexia para aquilo aguentar o tempo. Para ele o cinema não existe, é só um registo do teatro. O teatro é que é a verdade.

Mais, o teatro é a verdade da própria vida. Isto é, se eu fizer um dado gesto isto significa qualquer coisa, ou seja, há uma convencionalidade em cada gesto que se acrescenta ao gesto propriamente dito, e o transforma numa representação. Eu não sou tão radical como ele, acho que há efeitos de cinema, percebes? E que são tão importantes como a história do registo de teatro. Ele usa muito isso, a ideia do plano fixo, a captação da cena total o máximo possível, não liga muito ao fora de campo – para o Oliveira está sempre tudo em campo. Para mim existe o fora de campo. O Oliveira é uma experiência-limite. Sim, a que é possível fazer com poucos meios e respeitar a palavra como matéria, como uma pedra, como um sentimento. Aliás, o Oliveira passa a vida a tentar filmar a alma. Põe a alma cá fora. Fantasmas, personagens, a alma a falar. Mas como matéria. Parece que se pode tocar a metafísica das coisas. Lembro-me de uma vez o Straub, na Figueira da Foz, sair indignado do “Acto da Primavera”. Aquilo era o que o Straub queria fazer. No entanto saiu de lá aos berros, a dizer: “Filme de padre! Filme de padre! Não aguento isto.” Ou seja, o Manoel de Oliveira, intuitivamente, tinha feito o que o Straub iria fazer 10 anos depois, eis a sua grandeza. Mas, ao mesmo tempo, há nele uma ingenuidade enorme. Um grande desafio formal Nos teus três filmes a partir de clássicos – falta sabermos como é o “Fatalista” – deu-se essa conjunção curiosa entre um texto e um grande desafio formal. Sim, tentar criar um espaço novo abstracto: tentar tornar o mais abstracto possível e o mais formal possível um texto. Ou seja, na “Conversa Acabada” o ideal era um ecrã preto e os textos ouvirem-se muito bem. O César Monteiro depois fez isso com a “Branca de Neve”… Porque mais importante do que qualquer coisa que eu faça no cinema são os textos do Pessoa e do Sá-Carneiro. Aí é que tem que se respeitar tudo, foi o que fiz, só tirei a ganga e deixei os ossos todos. Mostrei a estrutura. E há outra coisa também que tem a ver comigo, é que quando combato com o texto é uma coisa, quando sou eu a escrevê-lo é outra. Mas se reparares bem, em todos os filmes filmo sempre duas coisas, duas histórias, dois modos, e isso é uma coisa que aprendi com o Brecht, com o Faulkner. Ou seja, ter sempre duas hipóteses a correr lado a lado para as pessoas poderem escolher e contrapor uma à outra. Sempre.


IMAGEM DE “O FATALISTA”

Sim, mas tu repara, no “Adeus Português” o efeito formal não funciona como invenção cinematográfica mas como ficção, ou seja, existe para a própria percepção que o espectador tem do mundo que tu lhe queres mostrar. Não. Tem a ver com a abstractização do mundo. No “Adeus Português” a guerra colonial é feita de papelão, em estúdio, é tudo pintado, a lua é pintada, as galinhas são postas lá. A palmeira é de plástico, Mafra é de plástico, percebes? E quando estou a escrever, não os textos mas o filme, já tenho os planos todos, que depois coincidem em 99%. É evidente que há textos, como é o caso deste último, “O Fatalista”, que são uma maravilha de estrutura. Tenho a papinha toda feita. É só deitar fora o que não me interessa. Podia fazer um filme de 10 horas com o Diderot, quem me dera! Não tenho é meios para filmar tanto. Mas a estrutura que lá está é a estrutura ideal para o cinema de que eu gosto. O Diderot é pai do Faulkner e de uma data deles, pai do Brecht e da escrita nova do Joyce, não estou a dizer das palavras, mas da estrutura do romance, da caixa dentro da caixa, e do autor contestando o narrador, e do leitor contestando o autor. O Diderot é da família das coisas que eu gosto na arte. A ideia de uma pessoa dizer ao espectador: você é igual a mim. Calma! Mas há uma coisa que o Pessoa dizia, que é o seguinte: um escritor policial pode não ser Shakespeare, mas Shakespeare contém em si um escritor policial. Quer dizer, há uma necessidade que toda a grande arte tem de ser simultaneamente divertida, ou agradável, ou interessante. Há uma necessidade disso. As pessoas têm necessidade de narrativa. De ouvirem contar histórias, reconheço isso, mas esse é o pecado original do cinema. Não, não. De toda a grande arte. Toda a grande arte nada. O Rothko não tem história nenhuma. São só riscas e não é chato. Como o Schönberg. E, no entanto, pode-se chorar com o Schönberg. E o problema com o cinema é que é tão promíscuo com as outras artes, vai roubar a tantas, que não chegou ainda à abstracção que devia ter. O mais abstracto de todos chama-se Hitchcock. Que é muito divertido. Não. É que tinha muitas cascas como a cebola. Conseguia fazer um cinema com muitas camadas. E alguns viam cinco, outros viam sete, é uma pura brincadeira. Mas o ideal é isso, tentar lutar sempre pela abstracção, sabendo que ela é impossível, porque as

pessoas estão sempre às espera das histórias e da narrativa. Mas o ideal para mim seria fazer um cinema não narrativo. O cinema narrativo tem 100 anos, ou 150. Para que é que eu hei-de contar histórias? Aliás o Diderot brinca com isso a todo o momento. É tão fácil contar histórias! A tradição do burlesco (ou a lição de Buñuel) Há um momento, surpreendente para as pessoas, que é aquele que surge com “As Três Palmeiras” em 94. O que acontece aí é, de alguma maneira, a síntese do que tinhas feito até então, e que é, por um lado, o cinema que tem a ver com a realidade ficcionada e, ao mesmo tempo, o delírio formal, a invenção pura. Portanto, esse momento inaugura aquilo que depois dará “Tráfico” e “A Mulher que Acreditava ser Presidente dos EUA”. Aqui há uma mutação que tem a ver com uma auscultação de uma outra forma de ser do cinema, que não existe no Oliveira e que, se pensarmos no “Tráfico”, e até na homenagem que o seu título implica, terá antes a ver com Jacques Tati. Neste sentido, poderíamos dizer que tu coincides com a transformação que levou o João César Monteiro a fazer a trilogia de João de Deus, qualquer coisa segundo a tradição do burlesco. Mas o Tati é inatingível. Primeiro era um delirante construtor de cenários. No burlesco interessa-me essa questão de situações de farsa, mais do que de comédia, porque a comédia é muito imediata. A farsa aguenta-se mais tempo, do meu ponto de vista. Mas há uma coisa, é que de repente compreendi que o Buñuel é 100 vezes mais importante que o Oliveira. Tem a ver com isso. Eu ria-me imenso com “O Passado e o Presente”, mas o Oliveira tomava-o a sério, achava aquilo de um realismo absoluto. Quer dizer, o catolicismo do Oliveira interessa-me menos do que o ateísmo do Buñuel, no caso deste eu tenho a certeza de que ele sabe o que está a fazer. O Buñuel permite que tu consigas escolher as variáveis fundamentais de cada plano, que é a relação que tu tens com o espectador. Eu fui muito formalista. Tinha influências da pintura e do grafismo. Mas cada vez sou menos. O “Anjo Exterminador” é extraordinário, como todos os últimos filmes do Buñuel que eu não entendia quando os vi pela primeira vez, enquanto hoje os vejo como um cinema cada vez mais de vanguarda, mais perfeito. Cinquenta anos antes dos atentados, ele andava a fazer atentados. Não tenho um porco no “Tráfico”? De onde é que vem?


UPORTO PERFIL

IMAGEM DE “O FATALISTA”

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A ideia é então explorar outro caminho? Estamos cá para surpreender as pessoas, não para as confortar. Eu tenho uma filosofia na vida que é assim: a felicidade dá trabalho. É preciso trabalhar para ter o prazer de ouvir música. É preciso estar com atenção. Como diz o senhor Straub, quando eu ouço música não vejo nada. As pessoas querem metáforas, eu gosto de metonímias. Quero associações de ideias, quero que uma pessoa ao ver um quadro, ou ao ver aquele vento nas árvores, se lembre de outra coisa que produza um sentido. Portanto, todos estes filmes são construídos para agitar, são panfletos, sempre. Eu acho que chegou a altura de mudar o modo de produção português. Temos que fazer ainda mais barato e mais radical, que é a única maneira de sobreviver. Porque todas as tentativas que têm sido feitas de fazer cinema “para o público”, de fazer um cinema comercial, são desastres absolutos. Fazer um filme custa 600 mil contos, e se tens uma receita de 10 mil, fica por 590 mil. Mas quando fazes um filme que custa 150 mil contos e não tens nenhum espectador, só perdeste 150 mil contos, o que é um quarto do valor. E pode ser que resista ao tempo. Não achas que o caminho do burlesco pode estabelecer familiaridade entre ti e o último César Monteiro? O João César exibiu-se todo. O seu corpo, a sua cabeça, a sua paixão suicida, tudo. Meteu-se dentro do filme e criou um personagem. Os filmes mais interessantes do João César são os filmes em que ele está lá dentro, também. Tem uma coisa fantástica, é que escreve maravilhosamente, e portanto o peso dele é o peso de um estilo. Agora, há uma soltura de meios e um tom de irrisório e de tempo e de desperdício que começa a ficar nos filmes, quer nos dele, quer nos meus, quer nos de outros mais velhos. Há colegas meus que dizem: “Vou fazer um filme para Veneza”… Não vão fazer filme nenhum. Fazem o melhor filme que sabem, e depois quem quiser que os veja! É necessário pôr em causa tudo. Nós próprios quando estamos a filmar devíamos ser capazes de pensar que era possível fazer melhor. O tipo de atitude é que se mantém, como uma força terrível no nosso cinema que é diferente de todos. Não há ninguém no mundo que faça isto. Não é normal. Há dezoito filmes em Veneza em competição e dois são portugueses. E aqui há uns anos havia nove em Veneza, em várias secções, três em Cannes, dois não sei mais onde… Mesmo se é um cinema que não dá um tostão. Isto é a nossa liberdade. É um pequeno comércio, como dizia o senhor Godard.

Um pequeno comércio económico, um grande comércio cultural. Nós continuamos a achar que essa liberdade é uma coisa que não tem preço, o facto de ter dinheiro a fundo perdido para fazer filmes que não te obrigam a uma rentabilidade de mercado. Pode-se tratar o cinema como tratas um romance, ou uma pintura, ou uma música, porque não tens a obrigatoriedade da rentabilidade económica. Isto tem a ver com a liberdade que temos de fazer aquilo que queremos e em que acreditamos. E que corresponde ao desafio que o Oliveira já anda a lançar desde 1930. Desde que nasceu. O Oliveira só fez aquilo em que acreditou. Nunca cedeu nada a ninguém. Podia ir ao Presidente da República apertar-lhe a mão. Vai ao beija-mão, vai ao Cavaco, como vai a toda a gente. Mas nos filmes não cede nada. Cede em relação a coisas sociais, até a coisas políticas, se quiseres, mas em relação à sua obra não cede em nada. É o nosso pai moral, de todos, dos que estão mais à esquerda, ou mais ao centro, ou mais à direita. Quando ele fez o “Aniki-bóbó” havia uma data de tipos que estavam ligados ao regime e que faziam filmes subsidiados pelo estado, ao contrário do que as pessoas pensam. Usufruiam do dinheiro do estado para fazer filmes. E ao contrário do que a maioria das pessoas pensa todos os filmes dos anos 40 eram fracassos económicos subsidiados pelo estado. Era uma coisa regional e sem saída. E isso ainda durou para aí 15 anos. E se voltássemos um bocadinho ao Porto? O ponto de origem é o Porto. O Porto foi fundamental para mim em relação ao cinema. Não acreditava em mais nada a não ser no cinema naquela altura. Era a coisa que me movia, percebes? Tudo o resto era a frustração em relação a uma coisa que nós acreditavamos que ía acontecer, que era a revolução, e no cinema refugiavamo-nos na aprendizagem cinematográfica. Eu decidi no Porto ir para o cinema. Foi ali, nas conversas no Piolho e nas conversas nocturnas até às 5 da manhã. E quando fomos para a escola de cinema, lembras-te que ela estava numa degradação absoluta. Nós tivemos a vantagem de quê? De ter uma aprendizagem de seminários muito engraçada. Víamos filmes na mesa de montagem na escola. Como é que se construía um filme, o que eram as diagonais, o que eram os enquadramentos, o que era a montagem. Essa foi a minha aprendizagem prática. A hipótese de fazer.


Eu decidi no Porto ir para o cinema. Foi ali, nas conversas no Piolho e nas conversas nocturnas até às 5 da manhã.

Tu achas que o teu cinema tem mais a ver com o Eisenstein ou com o Expressionismo alemão? Mais com o Eisenstein. É um cinema em que há um privilégio enorme da composição formal do quadro que sempre me atraiu. Há um espaço vazio. O que é que vamos meter lá dentro? Este “Fatalista”, portanto, recupera a tua linha de retorno aos clássicos. É o envelhecimento. Há uma coisa sinistra neste momento: é que as pessoas se estão a borrifar para os clássicos da literatura, não sabem nada, nunca leram um romance e tudo que dê um bocadinho de esforço ao cérebro, recusam. O desastre principal português é o investimento no sistema educativo. Os nossos filhos sabem muito mais inglês do que português. O regresso aos clássicos é uma boa coisa. Primeiro, já está escrito. E é maravilhoso. O “Quem És Tu?” tinha a ver com a situação portuguesa, com a perda da identidade. Os Filipes hoje são Maastricht, e compram tudo. A Av. da Liberdade é espanhola, metade do Algarve é espanhol, os bancos e os supermercados são espanhóis. “Quem És Tu?” tem a ver com isso: quem és tu, Portugal? Eu pus a pergunta e não dou a resposta. É só saber quais são as coisas que são ainda verdadeiras em nós. As respostas têm que ser das pessoas todas, não devemos ser nós a dar as respostas. Os filmes americanos retiraram a possibilidade de escolha do espectador e a capacidade de pensar. Lembro-me de ir ao cinema e de passar uma semana a discutir um filme. Era uma tradição do cinema europeu – fazer pensar, e hoje vais ao cinema e levas dois minutos a dizer: é giro! E vais à vida.

João Botelho nasceu em Lamego, em 1949. FILMOGRAFIA 1977 Alto do Cobre e Um Projecto de Educação Popular, curta-metragem para TV; 1978 Alexandre e Rosa (de Jorge Alves da Silva), curta-metragem; 1980 Conversa Acabada; 1985 Um Adeus Português; 1988 Tempos Difíceis (de Charles Dickens); 1992 O Ar: no Dia dos Meus Anos; 1993 Aqui na Terra; 1994 3 Palmeiras; 1995 Treze Filmes de 5’, para TV; 1998 Tráfico; 1999 Se a Memória Existe, curta-metragem vídeo digital; 2001 Quem és Tu?; 2001 As Mãos e as Pedras, curta-metragem vídeo digital; 2002 Viagem ao Coração do Douro, a Terra Onde Nasci, curta-metragem vídeo digital; 2003 A Mulher que Acreditava ser Presidente dos EUA; 2005 Estudo da Luz na Ria Formosa, documentário vídeo digital; 2005 O Fatalista. Para além da sua actividade de cineasta, João Botelho desenvolveu ainda actividade de artista gráfico, tendo sido autor de várias centenas de capas de livros, autor do design de várias colecções editoriais (A Regra do Jogo, Afrontamento, Relógio de Água, Cotovia, etc) e de outros trabalhos, entre os quais, o grafismo do jornal diário O Público.


UPORTO CRÓNICA

Ofício de andarilho

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Quem arroteou a rispidez da pedra: pacientes pastores da transumância, ou a sede dos animais? Os esquivos bichos do monte caminham de noite, rasurados pela noite, na porfia de água. E sempre pelo mesmo carreiro: fraqueza que os predadores – mais a sua secreta arte – bem conhecem. Por este trilho esculpido nas fragas (começa nas nuvens e em aluvião desagua no infinito) passaram lobos, javalis, algumas raposas; em viagem menos longas, répteis em busca do sol (os répteis bebem a sombra) também o cruzaram. Todos estes bichos, e muitos outros provavelmente já abolidos, burilaram a rispidez da pedra, ofício imperceptível de andarilho tocado pelo medo. E o pastor mais o cão de coleira de picos (que lhe apoucava a bravura)? Em tempos, por certo, na cumplicidade emudecida seduziram o gado ao caminho agreste. Na Primavera, sim – quando a vegetação rasteira reinventa o húmus na avareza da pedra e começa a cerzir flores pequeninas na paisagem. O pastor, alcançada a lonjura do cume, cedeu por inteiro ao cão o dever de zelar o rebanho. Sentou-se. Do alto da penedia, terá olhado o mundo – o silêncio do mundo.

TEXTO DE FRANCISCO DUARTE MANGAS FOTOGRAFIA DE LUÍS OLIVEIRA SANTOS


UPORTO IDENTIDADES

Colecções do Instituto de Antropologia Dr. Mendes Correia abrem ciclo de exposições

“Aventureiros, naturalistas e coleccionadores”

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A partir do próximo dia 18 de Outubro e dentro do espírito de abertura da Universidade do Porto ao exterior, especialmente dirigido aos mais jovens promovido pela recém-criada Universidade Júnior, estará patente no átrio do edifício do Instituto de Botânica Dr. Gonçalo Sampaio, na Rua do Campo Alegre – a casa de infância de Sophia de Mello Breyner –, a primeira de um conjunto de exposições que a Ujr organizará ao longo do ano, destinadas a dar a conhecer parte do seu valioso espólio museológico, muitas vezes guardado dos olhares do público nos espaços destinados ao seu armazenamento nas faculdades. Os Institutos e Museus da Universidade do Porto conservam o nome dos homens de ciência que lhes deram origem e corpo, através do brilhantismo do seu trabalho, nos anos em que a Universidade, como tal, dava os primeiros passos. Em homenagem a esses académicos, pioneiros da investigação científica, que recolheram, estudaram, conservaram e expuseram peças, objectos e instrumentos associados às suas áreas de interesse, abraçando o ensino e a investigação, ao mesmo tempo que delimitavam e definiam campos do saber, pautados pelo rigor e exigência de um conhecimento científico em construção, a UPorto entendeu designar o ciclo de exposições que agora inicia de “Aventureiros, naturalistas e coleccionadores”. Nos primórdios da Universidade estes homens foram, a seu modo, arrojados exploradores, ou não se aproximará a ciência da aventura quando, em estado nascente, se atreve a explorar territórios estranhos e a inovar, à procura da coerência de um sentido que permita aceder a uma nova compreensão das coisas, ou da confirmação de uma hipótese que abale a descrição mais convencional dos fenómenos? Colecções do Instituto de Antropologia saem da sombra O primeiro museu a expor alguns dos seus tesouros, será o do Instituto de Antropologia Dr. Mendes Correia, que pertence, actualmente, ao Museu de História Natural da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. O Instituto conserva abertas ao público as Salas de Arqueologia e Pré-história – nas quais se destaca uma importante colecção de arte egípcia – que, em certa medida, retomam os materiais da antiga Sala de Antropologia Geral e Metropolitana do primitivo museu, mas numa linha expositiva vocacionada para o apoio ao ensino de nível secundário.

Estas salas dão a ver em exposição permanente uma pequeníssima porção de um espólio muito variado, na sua riqueza e diversidade, na proveniência das colecções, e mesmo nas suas pequenas histórias por vezes associadas a grandes peripécias. As restantes peças (cerca de 2.000), que pertencem a um importante conjunto de colecções etnográficas portuguesas, coloniais e estrangeiras, encontram-se arrumadas em armazém, apenas acessíveis aos estudiosos que se dirigem à Faculdade para realizar investigação sobre situações específicas, como aconteceu com a colecção de Angola, composta por 325 peças, que já foi trabalhada para doutoramento. Com alguma frequência peças notáveis são requisitadas para integrar exposições internacionais de arte negra, como é o caso de duas estatuetas em Madeira provenientes do Moxico (Angola): Tshibinda Llunga e o Chefe Sentado. No seu conjunto, o acervo é composto por objectos recolhidos nos trabalhos de campo por investigadores ligados ao Instituto, como Mendes Correia, Rocha Peixoto, Fonseca Cardoso, Serpa Pinto ou Santos Júnior, mas também por curiosos e amadores que o foram acrescentando com doações. A título de referência indique-se que o museu possui uma colecção que é única no país, a “Colecção dos Mares do Sul” – adornos, utensílios, armas, máscaras e esculturas –, que hoje está em exposição no Museu de Etnologia de Lisboa, depois de ter sido alvo de um intenso trabalho de investigação por parte dos antropólogos Mary Bouquet e Jorge de Freitas Branco. Os artefactos melanésios faziam parte de uma remessa de objectos das secções etnográficas dos museus de Berlim e constituiram uma parcela do acordo de troca entre Portugal e a Alemanha, de uma colecção assíria apresada no país a bordo de um vapor alemão, na I Grande Guerra. A aparente dispersão das peças agora expostas, numa selecção que privilegia a vertente etnográfica, tem a virtude de tornar visível quanto o interesse de Mendes Correia e dos seus colaboradores mais próximos se alargou a vários continentes, indo ao encontro também da cultura material de etnias muito diversas, no desejo de conhecer e compreender povos na América, Ásia, África e ilhas do Pacífico. Todas as peças que agora estarão patentes no Jardim Botânico, estiveram em exposição no Museu Colonial do Instituto de Antropologia até à data do incêndio que em 20 de Abril de 1974 afectou a ala da Faculdade de Ciências em que este se encontrava instalado.


COMBATE DE GALOS. TIMOR. PONTA DE BÚFALO PENTE. ANGOLA. MADEIRA DINHEIRO INDÍGENA DO SEC. XVIII. ANGOLA. COBRE PURO DEUSA SENTADA SOBRE OKI-LIN. EXTREMO ORIENTE. BRONZE MÁSCARA DE CHOCALHEIRO. PORTUGAL. MADEIRA ESCURA ESTATUETA DE JOVEM GUERREIRO. QUÉNIA. MADEIRA, MISSANGAS, PANO E METAL

Quem foi Mendes Correia? António Augusto Mendes Correia nasceu no Porto, a 4 de Abril de 1888. Concluiu em 1911 (ano em que foi criada a UPorto) a sua formação em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica. Nesse mesmo ano, encetou na recém-criada Faculdade de Ciências, de que se tinha tornado assistente, o ensino da disciplina de Antropologia. Criou na Faculdade de Ciências, em 1912, o museu e o laboratório antropológicos – que, em 1926, havia de adquirir o estatuto de Instituto – ligados ao ensino e à investigação. Foi Director do Instituto e do Museu. Foi fundador, em 1918, conjuntamente com Luís Viegas, Aarão de Lacerda e José Ferreira, da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, de que foi presidente e grande animador, e criador da revista “Trabalhos de Antropologia e Etnologia” (1919). Leccionou, desde 1919, as disciplinas de Geografia e Etnologia na Faculdade de Letras. Tornou-se professor catedrático da Faculdade de Ciências em 1921. Designado director do Museu de Arqueologia Histórica da Faculdade de Letras em 1931, não chegou a tomar posse devido ao encerramento da Faculdade. É, no entanto, ele quem, com Luís Cardim, subscreve a relação dos espólios que integravam o museu de Arqueologia Histórica e de Etnologia e a Galeria de História de Arte da Faculdade de Letras, encarregando-se da sua transferência para o Museu de Antropologia da Faculdade de Ciências. Foi Director da Faculdade de Ciências entre 1929 e 1935. De 1936 a 1942 foi presidente da Câmara Municipal do Porto e Procurador à Câmara Corporativa. Entre 1945 e 1956 foi deputado da Assembleia Nacional. Em 1946 foi nomeado Director da Escola Superior Colonial, mais tarde designada Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. À época, presidiu à Junta das Missões Geográficas e de Investigação Coloniais. Foi presidente, desde 1951, da Sociedade de Geografia de Lisboa. Jubilou-se em 1958. Faleceu em Lisboa em 1960. Mendes Correia realizou trabalhos de investigação em diversas áreas, numa abertura de interesses e temas que vão desde a Arqueologia à Etnologia e à Antropologia, sobretudo no domínio da Antropologia Física, mas também da Antropologia Cultural, como é patente no trabalho desenvolvido na SPAE. Os seus estudos, de que é produto uma muito vasta bibliografia, trouxeram-lhe renome internacional. Ele e os seus colaboradores mais próximos, como Rui Serpa Pinto, A. Ataíde, ou Santos Júnior, construíram a reputação da chamada “Escola Antropológica Portuense”.

Mendes Correia organizou e orientou múltiplas campanhas no terreno; daquelas em que participou destacam-se as arqueológicas nos concheiros de Muge e as antropológicas da Guiné e de Timor. São inúmeros os títulos honoríficos e as condecorações com que foi distinguido, no país e no estrangeiro. Das prestigiadas instituições científicas a que pertenceu releve-se a sua eleição como sócio honorário do Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland.


UPORTO IDENTIDADES

Estórias da Universidade

“Meus senhores, agora que estamos só homens, vamos começar o curso”

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Desde há mais de dez anos que, na Faculdade de Medicina do Porto, os estudantes do sexo feminino ultrapassaram, em número, os do sexo masculino. Lembro-me que, alguns anos atrás, estava eu na sessão solene que se intitulava “O dia da Faculdade” e na qual, além de vários discursos, entre os quais o do Director da Faculdade que historiava o que de relevante tinha acontecido na vida da Escola, no último ano, havia a apresentação dos que se tinham doutorado ou agregado esse ano. Havia, também distribuição dos prémios habituais aos melhores alunos de cada ano, e aos melhores de algumas cadeiras para as quais, geralmente, Mestres já falecidos tinham deixado legados cujo rendimento anual constituía o prémio. Ao meu lado estava sentada uma professora de uma cadeira das básicas. Éramos e somos amigos e eu não resisti em dizer-lhe: “Há mais alunas do que alunos, mas na distribuição dos prémios vai ver quem vai receber mais prémios”. Eu queria dizer, e ela percebeu bem, que os rapazes arrecadariam muitos mais prémios do que as raparigas. Já não se tratava de adolescentes, entre os quais as raparigas têm fama de ser mais estudiosas. Agora estávamos na Universidade onde se cultiva o pensamento, se faz progredir a ciência através da investigação, e onde os espíritos livres fazem a crítica do mundo de hoje e procuram o caminho para o de amanhã. Embora o número de doutoradas tenha vindo a aumentar e cada vez haja mais assistentes e professores do sexo feminino, os homens “ainda” continuam a dominar o corpo docente. A professora amiga, que estava sentada a meu lado, aconselhou-me a não me entusiasmar antes do tempo e esperar pelo fim. “Os tempos estão a mudar”. Começou a distribuição dos prémios e aos poucos deixei-me dominar pela menta1idade do espectador de futebol: afinal, quem vai ganhar? O Secretário da Faculdade ia chamando os premiados um a um, que iam receber do Reitor o respectivo diploma e as felicitações. Pelo sim pelo não, puxei de um papel e fui riscando uns tracinhos para rapaz ou rapariga premiados. A cerimónia da distribuição dos prémios chegara ao fim. “Então, é necessário contar os tracinhos ou não vale a pena?” perguntou-me a colega sentada ao meu lado. Envergonhado, tive que lhe responder: “Não vale a pena”. De facto, os prémios foram, em maior número, para as raparigas. Apenas pude dizer, meio em surdina: “Não admira, há mais alunas do que alunos! Mas a percentagem de alunos premiados, fazendo a conta só aos rapazes, deve ser maior do que a percentagem de alunas premiadas. Foi uma defesa que me ocorreu à falta de melhor.

Lembrei-me, então, de um episódio, passado há 40 anos, quando eu era aluno. Último ano, cadeira de Medicina Legal, primeira aula. O professor, depois de saudar a todos e de expor o programa e finalidades da disciplina, resolveu dar exemplos de casos sobre os quais o médico legista poderia ter que se debruçar. Contou, então, uns três ou quatro casos de violação e estupro que fizeram corar as minhas colegas, as quais, geralmente, ocupavam as primeiras filas. À segunda aula teórica, (a frequência às aulas teóricas era facultativa) metade das minhas colegas resolveu não ir. O professor contou mais casos e com um pormenor que ou aterrorizavam um morto ou faziam corar o mais barbudo. À terceira aula, definitivamente as minhas colegas faltaram todas. Então, o professor abriu a aula dizendo: “Meus senhores, agora que estamos só homens, vamos começar o curso”. Tomé Ribeiro (Medicina, 1949) Professor Catedrático Jubilado de Gastrenterologia na FMUP


“ESTÓRIAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO”, UM DESAFIO AO LEITOR Esta página é feita de pequenas histórias ou episódios curiosos que fazem parte da memória de todos os que passaram ou desenvolvem actividade na Universidade do Porto. Pequenas memórias com apontamentos de humor, sobre situações ou personagens que vão construindo o património emocional da UPorto. Em cerca de 2.500 caracteres (incluindo espaços) ou sensivelmente página e meia de texto manuscrito, para cada estória, a UPorto convida os leitores a divulgarem este património ze enviarem os textos para UPorto – Estórias da Universidade do Porto, Gabinete de Imagem e Relações Públicas da Universidade do Porto, Rua D. Manuel II, 4050-345 Porto, ou através de correio electrónico, para jcorreia@reit.up.pt, escrevendo Estórias da Universidade do Porto no assunto da mensagem.

ILUSTRAÇÃO DE GÉMEO LUÍS


UPORTO A SABER

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Histórias da luz e das cores VOLUME 1 Luís Miguel Bernardo (FCUP)

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto VOLUMES 4 E 5

À Procura de Intimidade Maria Emília Costa

Neste volume de Histórias da Luz e das Cores – cobrindo o período histórico desde a Antiguidade até ao século XIX – são descritas muitas das concepções sobre a luz e as cores que os nossos antepassados elaboraram. Muitas não têm qualquer valor filosófico ou científico; outras, porém, vieram a constituir os pilares em que assenta o conhecimento científico moderno. Não foram esquecidos nem os desenvolvimentos tecnológicos relativos à óptica nem os desenvolvimentos referentes aos vários ramos da ciência e tecnologia ligados à luz e às cores. O leitor interessado por temas científicos, ou culturais mais abrangentes, aqui encontrará informação relevante, histórias curiosas e divertidas, e um vasto conjunto de dados que poderão ajudá-lo a melhor compreender a intrincada ligação entre ciência, cultura e civilização. O autor, Luís Miguel Bernardo, é professor catedrático no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Fez mestrado e doutoramento em Física na Universidade Estatal de Virgínia nos Estados Unidos da América.

Jorge Olímpio Bento, director da Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, lançando mão às etapas já percorridas e às que ainda estão por calcorrear, lembra no editorial do número Julho-Dezembro de 2004, o ressurgimento do espírito desportivo através do Campeonato Europeu de Futebol, dos Jogos Olímpicos de Atenas e da intenção da ONU de transformar 2005 no Ano Internacional do Desporto. No artigo “O exercício físico crónico altera o perfil leucocitário e a taxa de fagocitose de ratos estressados” os resultados sugerem que “o exercício físico moderado, durante 6 semanas, atenua os efeitos do stress agudo no perfil leucocitário e melhora a função de macrófagos”. No volume 5 (Janeiro-Abril de 2005), Jorge Olímpio Bento anuncia que o número de edições anuais passa de dois para três, devido ao aumento de propostas para publicação, sem diminuição da qualidade global; avisa ainda que tanto os trabalhos de revisão bibliográfica como os ensaios só serão publicados se tiverem sido elaborados a convite da revista. Uma outra mudança tem a ver com a nova designação e composição dos órgãos editoriais e de consultoria. Os números com mais de dois anos passam a estar disponíveis no portal da revista na Internet. Um dos estudos publicados neste número conclui, entre outros aspectos, que os adolescentes têm uma grande componente de tempo livre não estruturado.

As expectativas, investimentos, idealizações e vicissitudes várias que acompanham o crescimento, amadurecimento e, por vezes, o fim de uma união conjugal são alguns dos temas abordados nesta obra onde a intimidade aparece como “estrutura que suporta a relação e o amor” e que começa na infância: “A criança no seio da sua família e, posteriormente, alargando os seus elementos de referência vai construindo uma imagem de casal e das relações, que vai reformulando ao longo do seu crescimento, bem como uma imagem de si própria, dos outros e de si com os outros”. Este trabalho foi desenvolvido com base na experiência clínica da autora, consciente de que está a ver “o filme apenas depois do intervalo”, um filme com “dois realizadores” e “um guião diferente para a mesma história”, onde se esqueceu que o encontro “implica de ambas as partes a consciência da sua individualidade e da do outro, para que desta forma todas as cedências ou mudanças aconteçam por si e pelo outro e não apenas para manter uma relação”. A obra reúne ainda “teorias desenvolvimentais”, nomeadamente de autores como Bowlby e Erikson, sublinhando os “contributos mais fortes para a análise da intimidade como uma estrutura em desenvolvimento desde o nascimento até à morte”.

edição: Editora UP preço: 35 euros

edição: Faculdade de Desporto da UPorto preço: 15 euros

edição: ASA preço: 10 euros


A Universidade e a cidade Mário Mesquita Foi editado o catálogo da exposição “A Universidade e a Cidade – O património edificado da U.Porto”. Até 1 de Maio último, o edifício mais emblemático da Universidade do Porto, a Faculdade de Ciências, esteve de portas abertas para dar a conhecer pedaços da história da instituição que cresceu com a cidade. A exposição foi buscar aos arquivos fotográficos e documentais de diversas instituições, sinais da evolução histórica do património edificado da Universidade e respectivas repercussões no tecido urbano. Com entrada pela Praça Gomes Teixeira, o visitante era convidado a percorrer corredores, átrios, bibliotecas e espaços museológicos, com fotografias de faculdades, residências, cantinas, edifícios administrativos, do Hospital de S. João e da Maternidade Júlio Dinis. Em simultâneo com as imagens foram afixadas reproduções de jornais da época. Tudo isto foi reunido no catálogo da exposição da qual foi comissário Mário Mesquita, docente da Faculdade de Arquitectura. “O que se propõe aqui é, pois, uma viagem no tempo e no espaço através de registos de uma memória cruzada entre a Universidade, a cidade e o país, percorrendo a República, a Ditadura e o Estado Novo, o 25 de Abril e a Democracia”, explica o comissário no texto introdutório. edição: Universidade do Porto preço: 35 euros (+ IVA) para membros da UPorto; 45 euros (+ IVA) para o público em geral

Utopia Matters: Theory Politics, Literature and the Arts Fátima Vieira & Marinela Freitas (eds.). Haverá ainda lugar para a utopia no século XXI? Utopia Matters, o primeiro número da nova colecção em inglês – Perspective Series – da Editora da Universidade do Porto, dá resposta inequívoca a esta questão. O volume divide-se em duas partes. Na Parte I – Utopia Matters –, encontram-se reunidos os testemunhos de alguns dos mais conhecidos investigadores da área dos Estudos sobre a Utopia. Em tom autobiográfico, estes investigadores explicam de que forma a ideia de utopia se tornou importante para as suas vidas, a nível pessoal e académico; e todos afirmam acreditar na capacidade transformadora do pensamento utópico. Mas se existe um lugar para a utopia no século XXI, que lugar é esse, e onde o poderemos encontrar? A Parte II do volume – Utopian Matters – centra-se na análise de três aspectos diferentes do utopismo contemporâneo, a que correspondem três diferentes secções do livro. A secção sobre Teoria problematiza o papel da utopia nos nossos dias; a secção sobre Política examina a praxis da utopia; por fim, a secção sobre Literatura e Artes detém-se na consideração das visões utópicas / distópicas dos nossos dias. A edição em inglês dirige-se a um público mais vasto, dando visibilidade internacional às actividades desenvolvidas no seio da Universidade. edição: Editora da Universidade do Porto, Perspective Series, 1 preço: 15,5 euros

Homenagem ao Professor Doutor José Marques Nesta obra foram reunidas as actas do Colóquio “Do Documento à Informação” e da “Jornada sobre Sistemas de Informação Municipal”, acompanhadas de um texto em “Memória do Curso de Especialização em Ciências Documentais” (1985-2003), fundado pelo Professor Doutor José Marques, coordenador, até Fevereiro de 2003, da Secção de Ciências Documentais, actualmente, Secção de Ciência da Informação da FLUP. Foi também um elemento activo na criação, em 2001, da Licenciatura em Ciência da Informação, resultante de uma parceria entre as Faculdades de Letras e de Engenharia. O colóquio decorreu de 26 a 27 de Junho de 2003 e reuniu especialistas em Arquivos, Bibliotecas, Centros de Documentação e Sistemas de Informação. edição: Faculdade de Letras da Universidade do Porto preço: 10 euros


UPORTO TOME NOTA

ARTUR MAGALHÃES BASTOS – RETRATO POR GOUVEIA PORTUENSE, 1954

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30 DE SETEMBRO A 1 DE OUTUBRO 1ST IBERIAN INTERNATIONAL BUSINESS CONFERENCE – MULTINATIONALS, FOREIGN DIRECT INVESTMENT AND INTERNATIONALISATION Faculdade de Economia da Universidade do Porto INFORMAÇÕES: T. 22 5571234 + F. 22 5571242 + iibc2005@fep.up.pt 17 E 18 DE OUTUBRO 2º FÓRUM CIÊNCIA Auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Após uma primeira edição em 2004, o Fórum Ciência debruçar-se-á sobre duas grandes áreas: A Cultura Científica no Ensino e Conhecimento Científico e Desenvolvimento. ORGANIZADORES: Joaquim Góis, Marques de Sá, João Carvalho e José Cavalheiro (FEUP), Alexandre Quintanilha, (IBMC/ICBAS) e Ana Monteiro (FLUP). INSCRIÇÕES: T. 22 5081986/60 até 28 de Setembro 19 DE OUTUBRO A 17 DE NOVEMBRO CINEMA N’UPORTO Auditório da Reitoria da Universidade do Porto, M/12. A iniciativa parte de um projecto, apoiado pelo Consorcio Audiovisual de Galicia e a Dirección Xeral de Comunicación e Audiovisual, para promover e difundir anualmente, dentro e fora da Galiza, a produção de curtas-metragens galegas. PROGRAMA 19 DE OUTUBRO 18h00, Curtas 03 – Mostra de Curtas-metragens Galiza A Subela de Luís Avilés Baquero (21’50’’) Ciclo de David e Tristán Ulloa (22’) Meigallos, Sombras e Papas de Arroz de Tomás Conde e Virgínia Curiá (12’) Taxia de David Robles (3’40’’) 26 DE OUTUBRO 18h00, Curtas 04 – Mostra de Curtas-metragens Galiza Minotauromaquia de Juan Pablo Etcheverry (11’) La Teoria del Espejo de Pedro Corredoira Alonso (10’) La Valiente de Isabel Ayguavives (5’35’’) Minas de Dani de la Torre (15’) Notamotof de Rubén Coca (9’)

11 DE NOVEMBRO 21h45, Tim Watcher de Ricardo da Costa Pinho (54’) 14 DE NOVEMBRO 21h45, Retrospectiva Pedro Pena – O meu cinema é poesia, a 24 palavras por segundo América (17’) Talassa (22’) A Árvore de Edgar Reis (17’) Um Jantar de Alberto Caeiro (13’) 15 DE NOVEMBRO 21h45, Retrospectiva Pedro Pena – O meu cinema é poesia, a 24 palavras por segundo Hospital Psiquiátrico (13’) Tabacaria (11’) Apita o Comboio (20’) Humano, Demasiado Humano (3’) Aurum (1’) Solis (6’) 16 DE NOVEMBRO 21h45, Retrospectiva Pedro Pena – O meu cinema é poesia, a 24 palavras por segundo O Mar tudo Devolve (20’) O Mensageiro do Cosmos (40’) Eidos, um banquete do penitente com a Ex.ª Senhora Ana Plácido (12’) 17 DE NOVEMBRO 21h45, Retrospectiva Pedro Pena – O meu cinema é poesia, a 24 palavras por segundo A lembrança e o desejo (16’) O escritor sem tinta para escrever (44’) PREÇO: 1 Euro Estudantes da UP/ 2 Euros Outros CO-PRODUÇÃO: IRICUP/ Cineclube do Porto CONTACTO: Ana Martins + T. 22 6073500 (ext. 343) + amartins@iric.up.pt

7,8 E 9 DE NOVEMBRO WORKSHOP EUROCAMP Auditório da Reitoria da Universidade do Porto. Reunião do grupo de trabalho sobre autenticação e autorização da Trans-European Education and Research Networking Association (TERENA), que integra os organismos gestores das redes informáticas nacionais de ciência e educação em cada país europeu. Em Portugal, o organismo gestor da Rede de Ciência, Tecnologia e Sociedade (RCTS) é a Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN). Trata-se de um encontro de carácter técnico dirigido a todos os interessados nas áreas de autenticação e autorização (middleware). INFORMAÇÕES: http://www.terena.nl 26 DE NOVEMBRO 2005 A 29 DE JANEIRO 2006 ARTUR MAGALHÃES BASTO – UM HISTORIADOR DO PORTO Exposição e ciclo de conferências que constituirão uma homenagem da Universidade do Porto ao professor, historiador, comunicador, cidadão exemplar que foi Artur de Magalhães Basto, pela acção que dedicou à cidade e à sua Universidade. Programa em http://www.iric.up.pt. COMISSÁRIO: António Barros Cardoso. 1, 2 E 3 DE DEZEMBRO FÍSICA 2005 – FÍSICA PARA O SÉCULO XXI Centro de Congressos e Exposições, Edifício da Alfândega – Porto Organização da Sociedade Portuguesa de Física no encerramento das celebrações do Ano Internacional da Física 2005. INFORMAÇÕES: T. +351 22 6082729 + F. +351 22 6082706 + http://fisica2005.fc.up.pt + spf@fc.up.pt + fmartins@fc.up.pt

MAIS INFORMAÇÕES: http://www.up.pt


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