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iSALTINO GOMES C. FILHO '


DIGITALIZAÇÃO: EMANUENCE DIGITAL

EDIÇÃO: ADRIANO LOPES


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NOSSO CONTEMPORÂNEO


CoMBelhoEditorialdaJMEF? D aru Dusilck. Fausto Aguiar de Vasconcelos. Joaquim de Paula Rosa, Joolcia Rodrigues Barreto. John Landcrs. José dos Reis Percii a. JObemur dc Sou/a Pinto. Marcílio de Oliveira Filho, Miiri>arida Lcmos Cjotit;al\cs. M trval dc Sou/ j Rosa. Msru-s Malhi Napolião José Vieira, Niander W inter. Orivaldo Pimentcl Lopes. O snaldo Ferreira Bomlim. Roberto Alves de Sou/a. Zaqucu Moreira de O livciu


ISALTINO GOMES C FILHO

NOSSO CONTEMPORÂNEO Um estudo contextualizado do Livro de Malaquias

2? Edição

A

JUERP


Todos os direitos reservados. Copyright © 1988 da Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira.

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Coelho Filho, Isaltino Gomes Malaquias, nosso contemporâneo: um estudo contextualizado do Livro de Malaquias/Isaltino Gomes Coelho Filho. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. 92p. 20,5 cm. Inclui bibliografia. 1. Malaquias, Livro — Comentário. I. Titulo CDD — 224.99

Gerência Editorial Josemar de Souza Pinto Edição de Arte Nilcéa Pinheiro Capa Queila Mallet Código para pedidos: 215028 Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Pbstal 320 — CEP: 20001-970 Rua Silva Vale, 781 — Cavalcânti — CEP: 21370-360 Rio de Janeiro, RJ — Brasil 3.000/1994 Impresso em gráficas próprias.


DEDICATÓRIA Ao meu filho Beny. Ãs mulheres que marcaram minha vida: Nélya, mãe Irinéa, irmã Meacir Carolina, esposa Nélia, filha.


SUMÁRIO Dedicatória........................................................................................ Agradecimentos................................................................................ Apresentação.................................................................................... Esclarecimentos................................................................................ Por Que Malaquias? ................................................................... Nome ou Pseudônimo? ............................................................... Um Amor Que Pode Ser Provado............................................... O Perigo de uma Liderança D ecadente..................................... O Perigo do Ensino Relaxado..................................................... Um Sério Perigo: Casamentos Mistos ....................................... Vislumbres do Messias ............................................................... A Violência Contra D eus............................................................. Existe uma Diferença ................................................................. O Grande e Terrível D ia .............................................................. O Desafio de Malaquias .............................................................. Notas Bibliográficas.......................................................................... Bibliografia........................................................................................

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AGRADECIMENTOS Ao Pastor JosĂŠ dos Reis Pereira, que me tem estimulado a escrever. Ao Pastor Josemar de Souza Pinto, que me incentivou e cobrou este livro. A eles, o muito obrigado.


Apresentação O Livro de Malaquias é um diálogo íntimo entre Iavé e Israel, seu povo. O tom é a reclamação: “Vós me roubais” (3:8). O sentimen­ to: tristeza e decepção. “Eu vos tenho amado, diz o Senhor” (1:2). Os assuntos: A liderança espiritual, a estrutura familiar correta, o culto agradável a Deus e a conduta coerente com a fé. O Pastor Isaltino Gomes Coelho Filho vem, ao longo do seu ministério, aplicando-se ao estudo em profundidade do Velho Testamento. A sua pertinaz dedicação a esta porção, por vezes esquecida, da Bíblia tem incentivado seminaristas e pastores a buscarem no Velho Testamento substancia para estudo e sermões. Alegro-me em apresentar esta produção do Pr. Isaltino, meu amigo pessoal, colega de magistério teológico e ministério. Estou certo de que a igreja hoje, às portas do século 21, precisa ouvir as exortações e promessas contidas em Malaquias: “Lembraivos da lei” (4:4) e “Para vós, os que temeis ao meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo curas nas suas asas” (4:2). Jorge Schütz Dias Pastor da Igreja Batista Sião S. José dos Campos — S. Paulo


ESCLARECIMENTOS 1. O texto bíblico utilizado neste trabalho é o da Versão Revisada da Imprensa Bíblica Brasileira, designada pela abreviatura VR, salvo menção de outra fonte. 2. O texto hebraico utilizado veio de duas fontes, a Stuttgartensia e o The Interlinear Hebrew/Greek English Bible. Sobre as duas obras, ver a bibliografia. 3. A divisão do livro, conforme aqui estudado, segue a estrutura proposta pela Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible e obedece à Septuaginta, que nos legou a divisão que nossa Bíblia registra, ao dividir o capítulo 3 do texto hebraico, dando-nos quatro capítulos então. Como o segundo oráculo (que pela Zondervan está em 1:6 a 2:9) é extenso e daria muito material para comentar, foi ele dividido. Sua divisão segue a obra de Joyce Baldwin, também constante da bibliografia. AC BJ BL BLH BdV BV DC ERAB KD LXX NT RE VR VT

ABREVIATURAS

— Antes de Cristo — Bíblia de Jerusalém — Bíblia Loyola — Bíblia na Linguagem de Hoje — Bíblia da Vozes — Bíblia Viva — Depois de Cristo — Edição Revista e Atualizada no Brasil — Keil and Delitzsch — Septuaginta — Novo Testamento — Review and Expositor — Versão Revisada — Velho Testamento


POR QUE MALAQUIAS? Há um silêncio muito grande em nossas igrejas sobre o Velho Testamento. Raramente se prega sobre ele e pouco se o usa. E assim mesmo, em boa parte das vezes, o seu uso é fragmentário, ou seja, citam-se versículos isolados, versículos que trazem verdades expres­ sivas, como as promessas de conforto e de segurança. A constatação desse fato não é uma declaração de que a prática está errada em si. Há no Velho Testamento muito de conforto e de segurança. O pro­ blema é que a visão que nos é passada nunca é global. O que chamo de leitura fragmentária é o que Martin-Achard intitula de “leitura atomizada” . Sobre o perigo de tal procedimento, comenta ele: “Não é suficiente citar um texto bíblico para se ter a verdade. Todas as seitas usam e abusam desse método para justificar as doutrinas mais extravagantes. O diabo, fato significativo, utilizou as Escrituras para tentar Jesus (Mat. 4:6) (...) Se é normal tirar do AT alguns textos inesquecíveis, não devemos nos contentar com tal uso da Bíblia, pois não leva a sério o fato de que Deus quis se revelar através da história dos homens.”1 Não bastasse o conhecimento fragmentário ou atomizado, o que do Velho Testamento se divulga em nosso meio pode ser resumido a poucas passagens. Um Salmo que é lido numa devocional, alguma passagem messiânica em Isaías, II Crônicas 7:14, o nascimento de Moisés, as chamadas de Samuel e de Isaías, Daniel na cova dos leões, é quase tudo que se divulga sobre o Velho Testamento em nossas igrejas. A razão do pouco uso pode ser explicada. Afinal, é no Novo Testamento que nos descobrimos como Igreja de Cristo que somos. Ê nele que embasamos nossas doutrinas e posturas. Há muita coisa no Velho Testamento que não nos diz respeito e nem mesmo nos faz qualquer sentido. Algumas de suas prescrições são inadequadas para nós, prendendo-se a uma cultura perdida no tempo e no


espaço. Por exemplo, o que significa para nossas igrejas e para nossas vidas toda a regulamentação sobre as vestes sacerdotais? É muito mais proveitoso debruçar-se sobre uma das cartas de Paulo e descobrir ali princípios para a igreja. Mas, como bem observa Wright ao discutir o assunto “A Necessidade Que a Igreja Tem do Antigo Testamento” : “Que espécie de Cristo podemos apresentar sem o Antigo Testamento?”2 Ê muito necessário para a igreja conhecer o Velho Testamento. Faço minhas as palavras de um erudito na matéria: “Quando Jesus andou pelos montes da Galiléia, o Novo Testamento ainda nãoexistia: só existia o Antigo. Falando aos judeus, Jesus disse: ‘Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim’ (João 5:39). Falando aos dois discípulos a caminho de Emaús, depois da sua ressurreição, Jesus disse: ‘Õ néscios e tardos de coração para crerdes tudo o que os profetas disseram! Porventura não importava que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória?’ E ainda Lucas escreveu estas palavras: ‘E começando por Moisés e por todos os profetas, expli­ cou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras’ (Luc. 24:25-27). Portanto, se o Antigo Testamento foi a Bíblia de Jesus, a única Bíblia que ele conheceu, não crê você que devemos usar o Antigo Testamento na nossa pregação? A mim me parece que a resposta é óbvia. O abandono do Antigo Testamento somente serve para empobrecer a nossa pregação. Por outro lado o uso adequado do Antigo Testamento só pode enriquecer a nossa pregação.”3 Antes mesmo de publicar Tiago, Nosso Contemporâneo almejava um dia poder publicar algo sobre um dos profetas do Velho Testa­ mento, disciplina que leciono há alguns anos e que se constitui em uma das minhas paixões. Aquele não foi um livro planejado. Brotou de estudos com grupos de jovens com os quais compartilhei o conteúdo da epístola (encontros de líderes da Aliança Bíblica Universitária e o Congresso da Juventude Batista da Capital, em Rondônia). Desejava, se Deus assim me permitisse, produzir algo na área que mais me atrai. Como escrever por escrever não é tarefa para quem anda ocupado, a idéia foi arquivada. Tempos depois, atendendo a uma solicitação da JUERP, preparei alguns estudos para a revista Pontos Salientes, sendo que alguns deles se baseavam no último profeta veterotestamentário, Malaquias. Foi então que “descobri” o profeta. Várias vezes o lera, estudara e ensinara, mas nunca me empolgara por ele. A razão pode ser que seu livro, além de pequeno, já está às portas do Novo Testamento e assim o lemos já na expectativa da pessoa do bendito Salvador. Malaquias é mais usado em nosso meio (haverá púlpito que não o tenha utilizado assim?) para o momento do culto em que os dízimos e as ofertas são entregues, no texto de 3:10. Mas, que conteúdo, que riqueza e que contemporaneidade seu livro possui! Uma das nossas grandes necessidades é analisarmos não só o mundo em que vivemos, mas


também as nossas igrejas, à luz da Bíblia. Malaquias é atualíssimo para nossas comunidades. Por isso, quanto mais eu o estudava, quanto mais sobre ele refletia, mais via quanto o profeta tem para dizer a nós, igreja de Jesus Cristo. Mais do que ouvir o seu chamado para a contribuição, chamado esse válido, diga-se de passagem, há mensagens outras muito mais atuais e relevantes para ouvirmos. Foi assim que surgiu Malaquias, Nosso Contemporâneo. Gostaria de ter escrito sobre Oséias, que é meu profeta predileto. Mas, dele a nossa JUERP tem um livro do erudito Crabtree.4 Como poderia eu fazer algo sobre Oséias, após Crabtree? Ele já supriu as deficiências* de informações sobre o profeta. Também poderia ter escrito sobre Habacuque, outro profeta que nossas igrejas precisam ouvir. Mas, sobre ele escreveu Lloyd-Jones,5 um dos meus expositores bíblicos preferidos. Como fazer algo para concorrer com Lloyd-Jones? Parece-me que ele esgotou o que poderia ser dito. Malaquias surgiu de reflexão e de uma compreensão, sem vaidades, sem pretensões, de que eu poderia compartilhar algo com o povo de Deus que outros ainda não tinham feito. Não me anima qualquer pretensão de esgotar o assunto ou de ser a última palavra sobre o profeta. Mas, há aqui, sim, o produto de ponderação e de estudos. Ã luz dos conceitos que o “meu mensageiro” (é este o significado do nome do profeta Malaquias) expendeupara Israel, o que diria ele para nossas igrejas? O que podemos receber dele? Por que Malaquias? Porque ele tem bastante para dizer à igreja de Jesus Cristo.


NOME OU PSEUDÔNIMO? A Palavra do Senhor a Israel, por intermédio de Malaquias (1:1). Quem é Malaquias? Fora da citação acima, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, a identificação do profeta é desconhe­ cida. Não temos qualquer menção do seu nome. Quanto ao Velho Testamento, isso pode. ser facilmente explicado. Se ele é o último dos profetas, não sendo sucedido por ninguém, a possibilidade de ser citado é quase nula. Basta que entre ele e o penúltimo, aquele que o antecedeu, tenha havido um bom espaço de tempo. Se o penúltimo não o conheceu, é óbvio que não poderá citá-lo. Para compreender melhor este argumento, lembremos que os livros de Moisés antecedem o livro de Josué, mas Moisés cita Josué (veja Núm. 13:8, onde o nome de Josué é traduzido como Oséias). Embora Josué tenha exercido sua atividade posteriormente a Moisés, este, como o conheceu, faz menção dele. Mas Malaquias está bem depois de seu antecessor. No Novo Testamento, o Evangelho de Marcos se abre com a citação de Malaquias 3:1 que o evangelista atribui a Isaías, muito provavelmente por ajuntar duas expressões proféticas, ficando então com o nome de Isaías, que é o autor de uma das duas expressões. Em Mateus 11:10, a palavra de Jesus, não padece dúvidas, é uma referência a Malaquias 3:1, que pode ter em Mateus 17:10 outra possível citação. Mas neste último parece haver mais uma observa­ ção sobre os comentários rabínicos ao texto malaquiano. Em Romanos 9:13, a declaração de Paulo: “Como está escrito: Amei a Jacó e aborreci a Esaú” é uma citação de Malaquias 1:2b e 3a. Não deixa de ser intrigante que Mateus, Marcos e Paulo não citem Malaquias nominalmente. Seria dúvida sobre sua historicidade ou algum outro motivo que desconhecemos? A rigor, a questão mais disputada no livro é exatamente sobre a identidade do profeta. Malaquias significa “Meu mensageiro” (Malâkhy, no hebraico). A tradução mais adequada para 1:1, no entendimento de alguns estudiosos, seria “A Palavra do Senhor a


Israel, por intermédio de meu mensageiro” . Poderia se adaptar também para a terceira pessoa (“seu mensageiro”), considerando que o profeta não é o protagonista das ações. Compreendendo que Malâkhy é uma abreviatura de Malakhyâh (“Mensageiro do Se­ nhor”), a idéia é viável. Alegam ainda os eruditos que em 3:1 se lê: “Eis que eu envio o meu mensageiro...” (Malâkhy, no hebraico). Os maiores argumentos contra a historicidade de um Malaquias são: 1?) O fato de que ele não aparece em outro lugar no Velho Testamento. A tal argumentação apresentamos o citado no segundo parágrafo deste capítulo. A possibilidade de um profeta ser citado por autores posteriores é bem grande. Esdras 1:1 cita Jeremias 25:12, por exemplo. Mas, ser citado por autores que o antecederam é uma possibilidade muito escassa. Joyce Baldwin responde a este argumento dizendo que Jonas e Habacuque também não aparecem fora dos livros que levam seus nomes e nem por isso a historicidade deles deixa de ser aceita.6 Baldwin se equivoca com Jonas, pois ele é citado em II Reis 14:25. E mesmo assim, no livro que leva o seu nome, sua historicidade é muito discutida. Quarito a Habacuque, Baldwin tem razão. ■2°) A ausência de identificação paterna. Não se diz “Malaquias, filho de...” , nominando-se o pai do profeta. Para se compreender o que significa este argumento, veja-se, entre outros, Isaías 1:1, Jeremias 1:1, Ezequiel 1:3 e Oséias 1:1. A alegação feita é que os profetas históricos são identificados dentro de um contexto familiar. No entanto, Obadias e Habacuque não têm a sua ascendência mencionada (veja-se Obadias, versículo 1 e Habacuque 1:1). A obje­ ção não pode ser encarada como rigorosa. Não é uma regra. 3?) A tradução do nome. A Septuaginta (o Velho Testamento vertido para o grego) traz ângeloü autoü (“meu anjo”). Recordemos que “anjo” significa “mensageiro” e não, necessariamente, um ser alado. Basta ver os destinatários das cartas às igrejas da Ãsia Menor (Apoc. 2 e 3). Nesta objeção baseada na tradução do nome, pode­ mos traçar duas linhas. Uma, a de Bentzen, que alega que nenhum pai colocaria no seu filho um nome como este, porque tal nome poderia significar “ anjo do Senhor” , eufemismo para o nome de Deus. Afinal, os judeus mantinham, no período pós-exílico, um profundo respeito pelo nome de Deus.7 Mas “poderia significar” não quer dizer “significa” . Não podemos alegar com segurança que tipo de nome um homem colocaria no seu filho há vinte e quatro séculos atrás, numa cultura diferente da nossa. A outra linha nesta objeção é a insistência en. ser Malaquias um título e não um nome próprio. Bentzen, por exemplo, anuncia taxativamente: “O último livro dos Doze Profetas é anônimp.”s Já Winward declara: “Mala­ quias não é um nome pessoal... É conveniente usá-lo, no entanto, para designar o autor anônimo sobre quem, à parte destes oráculos, nada se sabe.”9


Considerar Malaquias como título e não como o nome de uma pessoa histórica se popularizou muito. O Targum de Jonathan ben Uzziel (uma paráfrase do Velho Testamento para o aramaico) não só aceitou a idéia como ajuntou “cujo nome é Esdras, o escnba” , em 1:1. No entanto, este targum que é atribuído a um discípulo de Hilel (século I DC), tem sua data de composição estimada por alguns entre os séculos III e V DC, na Babilônia.10 É pouco razoável conceder-lhe autoridade para definir quem é Malaquias, pois o apego à historicidade não é o forte dos targuns (traduções aramaicas dos textos do Velho Testamento feitas pelos judeus da Palestina e da Babilônia, nas quais a interpretação se sobrepõe à tradução). Jerônimo, o tradutor da Vulgata, aceitou tal posição. Para ele, o último livro do Velho Testamento em nossas Bíblias (na Bíblia Hebraica, o VT conclui com II Crônicas, numa ordem diferente) fora escrito por Esdras, e Malaquias era um título que Deus lhe dera. Calvino, o grande reformador, presumiu que Malaquias fosse um apelido de Esdras. Alguns dos chamados “pais da igreja” (líderes da igreja cristã em seus primórdios históricos) chegaram a supor que o autor do livro fosse um anjo encarnado.11 Uma corrente judaica o identificou como sendo Ageu, e outra, como sendo Mordecai.12 A base para uma possível identificação de Malaquias com Ageu estaria em Ageu 1:13, onde este é chamado de “mensa­ geiro do Senhor” . Para a associação com Mordecai não há base bíblica. Pelo contrário, o livro de Ester localiza bem Mordecai na Pérsia e o autor do livro de Malaquias está, sem dúvida, em Jerusalém. Apesar de tantos argumentos, a maior parte das autoridades judaicas posteriores entendeu que Malaquias fosse uma pessoa histórica. A tradição judaica, inclusive, o dá como membro da “grande sinagoga”, juntamente com Ageu e Zacarias. Esta parece ter sido uma instituição surgida no período pós-cativeiro e seria uma espécie de tribunal para reger a vida dos retornados. Seu fundador teria sido Esdras. É a antecessora do sinédrio do Novo Testamento. A grande sinagoga se compunha de cento e vinte membros, e o sinédrio teve o seu número diminuído para setenta. Registre-se pois que uma forte tradição judaica opta pela historicidade de Malaquias e inclusive o insere como membro de uma organização judaica histórica. A pessoalidade do profeta é corroborada pelo fato de que não se registra outro anonimato nos profetas menores. Nem mesmo o pequeno livro de Obadias, que com seus vinte e um versículos é o menor livro do Velho Testamento, é anônimo. Por isso, na falta de dados concretos que provem ser Malaquias um título de Esdras ou de Ageu, ou ainda de Mordecai, a teoria deve ser descartada. Já a idéia de ter sido um anjo encarnado o autor do livro beira mais a fantasia.


Evitar precipitações e sensacionalismo é sempre uma boa medida também no estudo bíblico. Infelizmente, alguns estudiosos da Bíblia nutrem uma atração muito grande pelo inusitado. Qualquer teoria diferente é abraçada, como sinal de erudição. Idéias novas não devem ser rejeitadas só pelo fato de serem novas. Não teríamos avançado muito na história da civilização se assim procedêssemos. Mas tampouco devem ser aceitas só pelo fato de serem novas. Se a maior reivindicação de uma idéia é o seu ineditismo, há pouco valor nela. Não há bases históricas consistentes para negar a historicidade do profeta Malaquias. E isso aumenta o valor do livro. Não é uma obra anônima. É um profeta identificado e tão bem usado por Deus que foi tido pelo próprio Senhor como “meu mensageiro”. E é oportuno recordar que, no Velho Testamento, o nome de uma pessoa está associado ao seu caráter. O nome é a personalidade do indivíduo. Malaquias é, portanto, o mensageiro do Senhor por excelência. Pela missão que desempenha e também pelo seu caráter, este exibido no nome. Considerada esta questão, ainda que de forma superficial, consi­ deremos o destinatário da profecia. É Israel. O nome agora não se restringe mais, como nos profetas pré-exílicos, ao reino do Norte, as dez tribos que seguiram a Jeroboão, quando da divisão do reino. Esta história se encontra em I Reis 12. Em 722 AC, o reino do Norte, Israel, foi levado em cativeiro pelos assírios, história registrada em II Reis 17:24-41, e de lá não regressou mais. O reino do Sul, que permaneceu fiel à dinastia davídica, com Roboão, tomou o nome de Judá. Foi levado ao cativeiro na Babilônia. A história pode ser lida em II Crônicas 36. De lá retornou, como podemos verificar no livro de Esdras. Ao voltar, Judá reassumiu o nome de Israel. A distinção entre as tribos do Norte e do Sul já não mais fazia sentido e os retornados adotaram o nome do reino unido (o período com Saul, Davi e Salomão). É muito importante localizarmos bem o profeta. Seu contexto de tempo e de espaço nos lançará algumas luzes sobre sua mensagem. Ele é um dos três profetas pós-exílicos, juntamente com Ageu e Zacarias. Parece que ele sucede aos outros dois. Com Ageu há uma luta para a reconstrução do templo (veja-se principal­ mente o capítulo 1). Zacarias é contemporâneo de Ageu (veja-se Esd. 5:1). A pregação de Malaquias nos mostra um templo já terminado. Sua preocupação não é com uma obra que deve ser concluída, mas sim com a natureza pouco espiritual do culto que se prestava a Deus no templo já construído. Sem nos delongarmos muito em discussões sobre datas, o que tornaria o assunto fastidio­ so, podemos localizar Ageu e Zacarias em 520 AC (sendo que Zacarias pode ter continuado o seu ministério até 485, aproxima­ damente) e Malaquias em 433 AC. O período em que ele profetiza é de frieza espiritual e de culto insincero. Há um certo ritual, mas não há vida alguma. O culto que está sendo prestado agrada aos homens, mas conforme mostra o profeta, desagrada a Deus. Isso pode nos ajudar em alguns aspectos. Muitas pessoas afirmam hoje,


com uma ênfase muito grande, que tipo de culto Deus aceita e não aceita, baseadas em formas. Instrumentos e ritmos são impugnados à luz de gostos pessoais e de posturas definitivamente culturais. Deus é usado para justificar e apoiar posições de pessoas que, não gostando de um determinado ritmo ou de um determinado instru­ mento, dizem que Deus não gosta também. E isso ele nunca revelou nas Escrituras. A preocupação de Malaquias é com a qualidade espiritual do culto que se deve oferecer a Deus. Podemos correr o grave risco de lutar pelo acessório, pelo circunstancial, e deixar de lado o funda­ mental: Deus quer vida. Ele não fez opção por ritmo ou instrumen­ tos (pelo menos a Bíblia não nos declara), mas sim por sinceridade e amor à sua pessoa. O culto não se caracteriza por formas humanas às quais atribuímos valor permanente, quando formas são transitó­ rias. O verdadeiro culto, há de nos mostrar Malaquias, se caracteri­ za por uma postura correta diante de Deus. A profecia de Malaquias é chamada na VR de “a palavra” . O he­ braico traz masâ. Uma tradução que seria mais adequada é “peso, sentença”, como faz a ERAB. Significa mais do que apenas uma palavra da parte do Senhor. A raiz de masâ é nâsâ, que significa “erguer, carregar um peso” . Traz mais a idéia de algo pesado, duro, que o Senhor vai dizer. Em Isaías 13:1 e 23:1, a palavra foi traduzida por “oráculo” (VR), um termo que designa algo também severo. Masâ é uma carga colocada sobre os ombros do profeta. Ê algo profetizado com dor porque nem sempre é muito agradável se pregar contra o seu próprio povo. Veja-se, por exemplo, a dor de Jeremias ao compreender o desgosto divino contra o seu povo: “Ah, entranhas minhas, entranhas minhas! Eu me torço em dores! Paredes do meu coração! O meu coração se aflige em mim. Não posso calar; porque tu, ó minha alma, ouviste o som da trombeta e o alarido da guerra” (Jer. 4:19). É um peso para o coração do profeta. E é um peso também para Israel. Não é uma mensagem leve, digestível e descartável, fácil de se ouvir. É uma palavra dura que dói. A igreja de Cristo está precisando ouvir a masâ profética. Precisa ser confrontada com uma palavra pesada por parte do Senhor. Isto não quer dizer que os crentes devem ouvir desaforos e palavras pouco educadas dos pregadores. Quer dizer, sim, que à semelhança dos contemporâneos de Malaquias, estamos com sérias deficiências na espiritualidade. Podemos tentar minimizá-las, di­ zendo que temos servido ao Senhor, que há progresso em nossas igrejas (e sejamos honestos, bem pouco), que tais coisas não se dizem porque podem desanimar muita gente simples, etc. Tudo isto soará muito mais como desculpas para não ver o que há por corrigir. A Palavra de Deus é um peso para quem a profere. O profeta ou pregador que a tem, nem sempre a apregoa com felicidade. Com que dor não se admoesta a uma congregação errada! Só mesmo um


pregador doentio sentirá alegria em apontar as falhas do povo de Deus. Mas, mesmo sendo sadios (ou talvez porque desejamos ser sadios) é necessário mostrar o peso de Deus sobre nós. E que Deus nos conceda humildade para sentirmos o peso de suas palavras e nos corrigirmos, ao invés de tentarmos ignorá-las.


UM AMOR QUE PODE SER PROVADO Eu vos tenho amado, diz o Senhor. Mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Acaso não era Esaú irmão de Jacó? diz o Senhor; todavia amei a Jacó e aborreci a Esaú; e 'fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto. Ainda que Edom diga: Arruinados estamos, porém tornaremos e edificaremos as ruínas; assim diz o Senhor dos exércitos: Eles edificarão, eu, porém, demolirei; e lhes chamarão: Termo de impiedade e povo contra quem o Senhor está irado para sempre. E os vossos olhos o verão e direis: Engrandecido ê o Senhor ainda além dos termos de Israel (1:2-5). O primeiro tema abordado por Malaquias é a eleição de Israel como povo de propriedade divina. A Versão Revisada dá ao texto o título de “Ò amor de Deus por Jacó”. A Bíblia da Vozes intitula-o de “Israel é o povo eleito” . Os dois títulos se harmonizam e se complementam. O assunto tratado é o amor eletivo de Iavé por Israel. No versículo 2 encontramos o termo hebraico ahab (amar). É o termo empregado para o amor que escolheu Israel dentre as nações para ser a possessão divina. Malaquias acompanha a temática de Oséias ao tratar do amor divino pelo povo escolhido. Isso fica bem claro em Oséias 11:1: “Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei a meu filho.” Deus ama a Israel e é seu pai, a mesma idéia que, mais tarde, Malaquias exibirá em 1:6. A semelhança entre os dois profetas é aumentada quando verificamos que, em Oséias 11:1, “amei” é o mesmo verbo ’âhab utilizado por Malaquias. “Eu vos tenho amado.” Que declaração estupenda! Apenas quatro palavras, mas que impacto nos causam! Nenhum outro livro da Bíblia começa de forma tão expressiva, com Deus anunciando de maneira tão enfática o seu amor pelo povo. Toda a argumentação do livro está dependendo desta expressão. Iavé é o Deus que amou o seu povo. E a reclamação dele através do profeta é que o seu povo não tem correspondido ao seu amor.


Mas Deus não deixa sua declaração de amor cair no vazio, sem apresentar evidências do que afirma. Seu amor pode ser comprova­ do na história: "Amei a Jacó e aborreci a Esaú.” Os dois gêmeos de Isaque (Gên. 25:24-26) exemplificarão o amor divino. Jacó deu origem à nação de Israel. “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel” (Gên. 32:28). Esaú deu origem a Edom. Os edomitas são descenden­ tes de Esaú. O texto bíblico que narra o episódio em que Esaú vendeu a sua primogenitura diz: “Por isso se chamou Edom” (Gên. 25:30). Lemos ainda em Gênesis 36:1: “Estas são as gerações de Esaú (este é Edom).” Duas nações se originaram dos filhos de Isaque e Rebeca, cumprindo a palavra que o Senhor dissera: “Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entra­ nhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais moço” (Gên. 25:23). A história dos dois irmãos é pontificada por manifestações de antagonismo. Esta rivalidade pessoal acabou por se projetar na história das duas nações. Em Números 20:14-21 lemos que Moisés pediu ao rei de Edom para que fosse concedida autorização para os filhos de Israel passarem pelas terras edomitas quando da peregri­ nação pelo deserto, encurtando assim o caminho. O apelo de Moisés se inicia com “Assim diz teu irmão Israel” . E o episódio termina, após consultas e gestões, com uma firme resolução dos edomitas: “Não passarás” . E para fazer valer sua decisão, saíram armados ao encontro dos seus irmãos para lhes impedir a passagem. A rivalidade terminou em ódio. Uma leitura do profeta Obadias é suficiente para mostrar como o ódio estava enraizado nas relações entre as duas nações. Os versículos 11-14 relatam que os edomitas, quando da destruição de Jerusalém, se alegraram, participaram do saque, mataram os que fugiram e entregaram outros aos ininigos. Deus usa os dois gêmeos para mostrar ao povo o seu amor: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú” . Ambos os povos foram atacados e suas cidades destruídas pelos invasores. A destruição de Jerusalém trouxe grande júbilo aos edomitas, conforme lemos no Salmo 137, escrito no cativeiro judaico na Babilônia: “Lembra-te, Senhor, contra os edomitas do dia de Jerusalém, porque eles diziam: Arrasai-a, arrasai-a até os seus alicerces” (v. 7). Os edomitas desejavam a ruína total de Jerusalém. No cativeiro, arruinados, os filhos de Israel desejam o juízo divino contra Edom. O pedido foi atendido e se cumpriu a profecia de Joel 3:19, que diz: "O Egito se tornará uma desolação, e Edom se fará um deserto assolado, por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, em cuja terra derramaram sangue inocente.” Os nabateus, que o livro não canônico de II Macabeus chama de árabes, deram contra Edom e o destruíram anos depois. Judá foi restaurado, mas Edom não. Houve reconstrução para Jerusalém, e a prova disso era o auditório a quem Malaquias se dirigia. Eram os descendentes dos retornados. Para Edom não houve restauração. Por isso, diz o texto de Malaquias, num evidente


contraste: “Eu vos tenho amado” (v. 2) e “povo contra quem o Senhor está irado para sempre”. Para Israel, amor. Para Edom, ira. O Salmo 136 traz o belo estribilho “porque a sua benignidade (hesedh) dura para sempre”. Sim, para Israel, hesedh, o amor do pacto, o amor eterno, uma benignidade para sempre. Para Edom, é a ira que dura para sempre. Apesar de tão profunda e tão fundamentada declaração de amor, o povo não cria nela. “Em que nos tens amado?” . Há uma série de desacertos no relacionamento entre Deus e o seu povo. A origem de todos eles brota daqui: o povo não compreendia o amor de Deus. Grande parte do relacionamento inadequado entre os crentes e seu Senhor também nasce aqui. É porque não compreendemos a profundidade do seu amor por nós que levamos uma vida que deixa a desejar e damos um testemunho claudicante. O apóstolo Paulo compreendeu muito bem isso quando declarou: “O amor de Cristo nos constrange” (II Cor. 5:14). A compreensão do amor de Cris­ to para conosco produz um sentimento de gratidão e constrangimen­ to. Se nos falta consagração, se nos falta mais vida de serviço, se nos falta um engajamento maior é porque nos falta a compreensão do seu amor. O livro de Malaquias nos descreve oito discussões entre Deus e o povo. Elas são encontradas em 1:2, 6 e 7, 2:14 e 17 e 3:7, 8 e 13. Anteriormente, o profeta Habacuque utilizara a forma de um diálogo entre ele e Deus para trazer o seu ensino. Malaquias amplia o gênero literário empregado por Habacuque, dando-lhe a forma de diatribe. A influência de Malaquias se fará sentir nos escritos dos doutores da lei, que mais tarde muito se valerão da diatribe para transmitir os seus conceitos. Nosso tão pouco conhecido Malaquias fez escola literária entre seus pósteros. A escolha de Jacó e a rejeição de Esaú é a resposta que Deus oferece aos contestadores do seu amor. Não é um amor apenas de palavras. É um amor de fatos. Está enraizado na história. Iavé faz um apelo à experiência passada do povo^ O apelo não é a uma experiência mística, de sentido espiritual. É um apelo à experiência histórica. O amor de Deus pode ser provado. Não se recorda Israel das inúmeras manifestações do amor divino? Olhando para o passado não pode ver as ocasiões em que o amor divino foi manifestado de forma irrefutável? Ê muito necessário que recordemos que a nossa fé não está alicerçada apenas em impressões espirituais e emocionais. Está, também, enraizada no tempo, através de fatos. Quem lê a história da igreja cristã, a história da Reforma, a história dos batistas, sabe das manifèstações várias da proteção divina por seu povo. E quem lê a sua própria vida pregressa pode reconhecer as incontáveis mani­ festações de como o amor divino providenciou segurança. E se alguém ler a sua vida e não descobrir nela qualquer evidência do


amor divino, deve ponderar seriamente sobre sua conversão. Nosso passado apresenta aos nossos olhos o amor de Deus por nós. É por isso que tanto os profetas exortavam Israel a olhar para trás e recordar a sua história. Recordemos a nossa: não temos visto como Deus nos tem amado? A igreja de Jesus Cristo não pode nunca olvidar que o amor de Deus é um amor comprovado: “Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rom. 5:8). Desde o fato de que Cristo morreu por nós até o fato de que ele vive em nós, tudo atesta o amor divino. “Amei a Jacó e aborreci a Esaú.” Uma outra tradução é “odiei a Esaú” (BdV). Esta declaração traz dificuldades para alguns. Como pôde Deus odiar ou mesmo aborrecer alguém, antes mesmo que este alguém fizesse algo de errado? Não é isto um jogo de cartas marcadas em que um dos participantes já está sem oportunidades antes do início da partida? Que culpa o pobre coitado do Esaú teve para ser aborrecido, logo de saída? “Aborrecer” não significa “indispor-se contra” . A tradução “odiei” é absolutamente inadequada, por exemplo. Não retrata fielmente o sentido do texto. “Aborrecer” significa “amar menos” . Ele amou a Jacó e a Esaú, mas amou mais a Jacó. Amou também a Esaú, mas menos que a Jacó. Veja-se o exemplo que nos dá Gênesis 29:30-33, onde lemos a história do amor de Jacó por suas duas esposas, Raquel e Léia. Observemos que no versículo 30 se lê: “E amou a Raquel mais do que a Léia.” No versículo 33, Léia, que também é amada, é declarada como “desprezada”: “Porquanto o Senhor ouviu que eu era desprezada.” Ela não era desprezada. Era amada, mas ocupava o segundo lugar. O grande amor era Raquel. O gênio maior de nossa língua, Camões, captou isso muito bem no célebre soneto que começa com “Sete anos de pastor Jacó servia” e que conclui com “Dizendo: — Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida!” . O poeta latino Petrarca já escrevera: “Per Rachel ho servito e non per Lia.” Léia era amada, mas como era amada menos, diz-se que era aborrecida. No Novo Testamento, a idéia é também esclarecida em dois textos paralelos. Lemos em Lucas 14:26: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo.” A pri­ meira idéia que pode vir à nossa mente é que o seguidor de Jesus é uma pessoa emburrada com o mundo, relacionando-se mal com os parentes e zangada com a vida (infelizmente, alguns crentes se esforçam para ser assim, e o conseguem). Mas, em Mateus 10:37, lemos: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” O que em Lucas é “aborrecer”, em Mateus é “não amar mais” , ou seja, amar menos.


Na realidade, Deus amou a Esaú, mas amou muito mais a Jacó. O juízo posterior sobre Edom é pela sua impiedade mostrada no Velho Testamento. Por isso, o Senhor usa os dois para estabelecer um contraste. É como se dissesse: “Olhem para os descendentes de Esaú! Eles pecaram, foram julgados e eu não os restaurei. Agora, olhem para vocês mesmos. Vocês pecaram, foram julgados e eu os restaurei. Eles e vocês pagaram pelos pecados, mas para vocês houve restauração.” E mesmo que Edom quisesse tornar a se reedificar, o Senhor dos exércitos poria abaixo. “Senhor dos exércitos” é o hebraico Y^hvâh CKbhâ 'ôth, que é o termo preferido pelos três profetas pós-exílicos. Sobre o termo, assim nos diz Manley: “Dife­ rente dos nomes anteriores, Y ehvâh Cebhâ 'ôth, o Senhor dos exérci­ tos, é um título divino. Não ocorre no Pentateuco, e aparece pela primeira vez em I Samuel 1:3 como o título mediante o qual Deus era adorado em Siló. Foi usado por Davi ao desafiar o gigante filisteu (I Sam. 17:45); e novamente foi empregado por Davi como clímax de um glorioso cântico de vitória (Sal. 24:10). É comumente encontrado nos livros dos profetas (88 vezes só em Jeremias), e é empregado para exibir Iahweh em todas as ocasiões como o Salvador e Protetor de Seu povo (Sal. 46:7,11). Os ‘exércitos’ são todos os poderes celestiais, prontos para obedecerem ao Senhor.”13 O ’âhâbh não podia ser negado pelo povo. “E, porquanto amou a teus pais, não somente escolheu a sua descendência depois deles, mas também te tirou do Egito com a sua presença e com a sua grande força” (Deut. 4:37). A escolha foi provada. E foi por amor e não por merecimento. “O Senhor não tomou prazer em vós nem vos escolheu porque fósseis mais numerosos do que todos os outros povos, pois éreis menos em número do que qualquer povo; mas, por­ que o Senhor vos amou...” (Deut. 7:7,8). O amor de Deus não é motivado pelo nosso mérito. Se assim fosse, estaríamos perdidos. Que mérito temos? O que poderíamos apresentar a Deus para conseguir seu beneplácito? “Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia...” (Is. 64:6). O amor de Deus nasce do seu querer, da sua soberania. Ele amou mais a Jacó do que a Esaú. Ele nos ama. Por quê? Porque ele quis e porque ele quer. É o amor divino que faz a diferença nas vidas. Edom será chamado “termo de impiedade” . Uma tradução mais adequada é “terreno de impiedade” (como fazem BJ e BL). Há um contraste com Zacarias 2:12 (que Malaquias por certo conhecia): “Então o Senhor possuirá Judá como sua porção na terra santa, e ainda escolherá Jerusalém.” A terra onde os judeus estão, para Deus, é a terra santa. A terra de Edom é terreno de impiedade. Olhando a diferença entre a terra santa e o terreno de impiedade, o povo reco­ nheceria: “Engrandecido é o Senhor ainda mais além dos termos de Israel.” Alguns comentaristas querem ver aqui um sentido messiâ­ nico. Parece-me que é ver no texto mais do que ele diz, analisando-o


com uma ótica de antemão estabelecida. O texto mostra que Deus é Deus sobre o seu povo e é também Deus sobre quem não é seu povo. Não há limites para o seu poder e ele não pode ser restringido geograficamente. Em I Reis 20:23, os servos de Ben-Hadade, rei da Síria, vindos de uma derrota para os israelitas, disseram-lhe: “Seus deuses são deuses dos montes, por isso eles foram mais fortes do que nós; mas pelejemos com eles na planície, e por certo prevaleceremos contra eles.” Iavé, o Deus de Israel, é Deus em todos os lugares. Por isso logo veio a sua resposta: “Porquanto os sírios disseram: O Senhor é Deus dos montes, e não Deus dos vales, entregarei nas tuas mãos toda esta grande multidão, e saberás que eu sou o Senhor” (v. 28). Não se pode restringir o poder de Deus a determinados quadrantes. Esta é uma lição para aprendermos. Nosso Deus é um Deus que ama, que escolhe e que protege os seus. Ele tem manifestado o seu cuidado por nós. Ele tem provado o seu amor ao homem, tanto na história das nações quanto na nossa história pessoal. Mas não nos esqueçamos que ele é Deus em todos os lugares. Não restrinjamos o seu poder às nossas igrejas. Ele age fora delas e é grande por todo o universo. Louvado seja ele por isso.


O PERIGO DE UMA LIDERANÇA DECADENTE O filho honra o pai, e o servo ao seu amo; se eu, pois sou pai, onde está a minha honra? e se eu sou amo, onde está o temor de mim? diz o Senhor dos exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que temos nós desprezado o teu nome? Ofereceis sobre o meu altar pão profano, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que pensais, que a mesa do Senhor é desprezível. Pois quando ofereceis em sacrifício um animal cego, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou o doente, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; terá ele agrado em ti? ou aceitará ele a tua pessoa? diz o Senhor dos exércitos (...) Oxalá que entre vós houvesse até um que fechasse as portas para que não acen­ desse debalde o fogo do meu altar. Eu não tenho prazer em vós, diz o Senhor dos exércitos, nem aceitarei oferta da vossa mão. Mas desde o nascente do sol até o poente é grande entre as nações o meu nome; e em todo lugar se oferece ao meu nome incenso, e uma oblação pura; porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos. Mas vós o profanais, quando dizeis: A mesa do Senhor é profana, e o seu produto, isto é, a sua comida, é desprezível. Dizeis também: Eis aqui, que canseira! e o lançastes no desprezo, diz o Senhor dos exércitos; e tendes trazido o que foi roubado, e o coxo é o doente; assim trazeis a oferta. Aceitaria eu isso de vossa mão? diz o Senhor. Mas seja maldito o enganador que, lendo animal macho no seu rebanho, o vota, e sacrifica ao Senhor o que tem mácula; porque eu sou grande Rei, diz o Senhor dos exércitos, e o meu nome é temível entre as nações (1:6-14). Já analisamos o primeiro oráculo de Malaquias no capítulo anterior. Foi o trecho de 1:2-5. O segundo oráculo é o mais extenso do livro: vai de 1:6 a 2:9. O seu tamanho está diretamente relacio­ nado com o seu valor dentro da estrutura do livro. Ele se ocupa dos pecados dos sacerdotes que eram os responsáveis pela condução moral e espiritual da nação. Eram líderes decadentes, quer do ponto de vista moral, quer do ponto de vista espiritual. O seu declínio estava empurrando Israel ladeira abaixo. Isso já acontecera no


passado. Jeremias culpou os sacerdotes e os profetas pela queda de Judá (para uma visão melhor do assunto, leia Jeremias 23:9-40). Um dos maiores perigos para o povo de Deus, ainda hoje, é o de uma liderança relaxada. Líderes acomodados, sem visão de vitória, levando uma rotina apática, produzem um povo acomodado, sem visão alguma. Líderes decadentes, quer moral, quer espiritualmen­ te, jamais conseguirão produzir liderados em ascensão. Ponderemos seriamente a liderança que exercemos ou que temos: cultos desin­ teressantes, sermões apáticos que nada acrescentam a não ser mesmice, pregações e ensinos que não produzem mudanças nem efetuam crescimento, o que são, senão reflexo de crise de uma liderança eficiente? De que valem? O segundo oráculo, por ser o mais extenso, foi subdividido para efeito de análise. Estudaremos agora o texto de 1:6-14. Depois, o texto de 2:1-9. Temos aqui uma arenga contra os sacerdotes, mas bem o nota KD, “se aplica a toda a nação” .14 Os sacerdotes formavam a alma da vida nacional, mas “para o israelita leigo, a perversidade de seus sacerdotes não era desculpa. Deus sabia que podia, cada um, saber o necessário para se salvar” .15 O texto se inicia com um provérbio. “O filho honra o pai, e o servo (teme) ao seu amo.” Deus apela para duas das mais fortes relações humanas: o amor filial e o temor do servo. A LXX acrescenta o verbo “teme” na declaração alusiva ao servo, o que parece razoável. Inclusive a Bíblia Loyola traduz assim: “O filho honra ao pai e o servo teme ao seu senhor.” Dito o provérbio, Deus levanta duas questões. Ele é pai e é senhor. Onde estão a honra e o temor que lhe são devidos pelo filho e servo Israel? “Se eu, pois, sou pai, onde está a minha honra?” O hebraico nos traz kâbhôdh, que algumas vezes é traduzido por “glória”. Veja na história da arca tomada pelos filisteus (I Sam. 4) que o filho de Finéias recebeu o nome de Icabôde (conforme tradução da ERAB) que significa “Foi-se a glória” ou “Não há glória”. Kâbhôdh, literal­ mente, tem o sentido de “ dar peso” , “mostrar atenção” , “consi­ derar como importante” . É que Deus quer dizer no quinto manda­ mento (“Honra a teu pai e a tua mãe” — Êx. 20:12 e Deut. 5:16): “mostra atenção, considera teu pai e tua mãe como importantes”. E a queixa divina é exatamente esta. O Senhor esperava que o seu povo o considerasse como importante, que lhe desse atenção. No entanto, ele é um pai desprezado. A paternidade de Deus é uma das mais profundas doutrinas bíblicas. O leitor com desejo de conhecêla mais e melhor deve \erA Mensagem Central do Novo Testamento, do erudito teólogo luterano alemão Joachim Jeremias. ‘J’ Mas, para nós, neste contexto, bastam-nos as referências de Exodo 4:22: “Então dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito” e Deuteronômio 32:6, no último canto de Moisés: “É assim que recompensas ao Senhor, povo louco e insensato? não é ele teu pai, que te adquiriu, que te fez e que te estabeleceu?”


O glorioso Senhor dos exércitos é um pai sem honra por parte do filho. “E se eu sou amo, onde está o temor de mim?” “Amo” não é a tradução mais expressiva. O hebraico nos traz ’adhônym, que é o plural majestático de “senhor” e que seria a melhor tradução. Ele também é senhor de Israel. Isto fica bem claro em Levítico 25:55: “Porque os filhos de Israel são meus servos; eles são os meus servos que tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.” Também é um senhor a quem o servo não respeita. Esta é a grande reclamação divina em Malaquias. Deus é um pai que não é valorizado pelo filho e um senhor a quem o servo não teme. A culpa cabe aos sacerdotes. Eles desprezam o nome de Deus. Sabendo-se que no Velho Testamento o nome é o caráter, a perso­ nalidade da pessoa, isso eqüivale a dizer que eles afrontavam o ser de Deus, a pessoa divina, e não apenas um atributo dele. Tendo os corações endurecidos, os saçerdotes ainda inquiriam: “Em que temos nós desprezado o teu n<j>me?” É uma pergunta que eqüivale a “Não, nós não temos desprezádo o teu nome. Tu estás exagerando!” Os sacerdotes minimizavam a sua culpa. O versículo 7 traz a resposta de Deus: “Ofereceis sobre o meu altar pão profano, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que pensais, que a mesa do Senhor é desprezível.” É uma repetição do assunto anteriormente introduzido. O desprezo ao nome de Deus é mostrado pelo oferecimento de pão profano. A BJ traz “alimentos impuros”. A paráfrase da Bíblia Viva é bem feliz: “sacrifícios impuros” . Não bastasse o grave pecado do oferecimento inadequa­ do, ao serem questionados, os sacerdotes não aceitavam a repreen­ são: “Sacrifícios impuros? Quando fizemos uma coisa dessas?” É o pecador que ofende a Deus com suas atitudes e acha que não está procedendo erradamente. A idéia de oferecer alimentos à divindade é antiga e precede a lei mosaica. Em Gênesis 4:4 lemos que “Abel trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura” . Em Gênesis 8:20 é Noé quem traz ao altar do Senhor holocaustos em gratidão. Animais limpos e aves foram abatidos como oferta ao Senhor. Mais tarde, a lei incorporou a prática, como se lê em Levítico 3:1-11. Mas, sobre o sacerdote, que era a pessoa incumbida do oferecimento, repousava uma grande responsabilidade: ele precisava se santificar, ou seja, ser puro. “Santos serão para seu Deus, e não profanarão o nome do seu Deus; porque oferecem as ofertas queimadas ao Senhor, que são o pão do seu Deus; portanto serão santos” (Lev. 21:6). Ã luz disto se compreende bem o alcance da reclamação divina: “desprezais o meu nome” . Os sacerdotes pensavam que a mesa do Senhor era “desprezível”. A palavra hebraica traduzida por “desprezível” é a mesma encontrada em Daniel 11:21 e ali traduzida por “vil”, numa referência a Antíoco Epifânio, um rei sírio que sacrificou um porco


(animal cerimonialmente impuro, no judaísmo) dentro do templo de Jerusalém, numa atitude blasfema e provocadora, no ano de 165 AC. Era um conceito muito baixo de Deus o que os sacerdotes contemporâneos de Malaquias estavam fazendo. A impureza ou o caráter profano da oferta fica patente nos versículos 8, 13 e 14. “Cego, coxo, doente e roubado” são os adjetivos empregados para mostrar o que estava sendo dado ao Senhor. Esclareça-se que “roubado” não significa que eles estives­ sem roubando o animal de alguma outra pessoa. O hebraico traz gâzül, que significa “dilacerado por fera” que provavelmente o roubara do rebanho. Era uma atitude extremamente imoral! O que estava sendo oferecido a Deus era a carniça! A que ponto descera o povo! E como os sacerdotes compactuavam com isso, aceitando oferecer tais coisas ao Senhor! As prescrições de Levítico 22:18-25 eram bem claras sobre as condições dos animais que deviam ser ofertados a Deus. Mas, dava-se a carniça a Deus e se perguntava: “Sacrifícios impuros? Quando fizemos uma coisa dessas?” (v. 7, BV). Quanta desfaçatez! Mas, paremos e analisemos o que vemos em nosso contexto presente. Não sucede assim, em nosso meio, com muitos cristãos? “Com muita freqüência, os cristãos acham que podem ofertar qualquer coisa a Deus. Contanto que alguém ou alguma atividade seja dedicada a Deus, mesmo sem entusiasmo, imaginam que Deus ficará contente. Por isso a Igreja segue claudicando com orações que não são ouvidas, e com falta de poder, porque os crentes não levam a sério os padrões divinos.”17 Temos dado o melhor para Deus, ou, como os judeus, temos dado o resto? Tem ele o melhor das nossas emoções, o melhor do nosso tempo, o melhor dos nossos bens? Ou cuidamos da nossa vida e lhe damos o restolho? Aborrecido, Deus lhes diz que ofereçam o animal doente ao governador. Era também um costume presentear autoridades com animais e cereais. E pergunta: “Terá ele agrado em ti? ou aceitará ele a tua pessoa?”. A resposta a ambas as perguntas é um sonoro não. Mas, por que dar o melhor aos homens e o pior para Deus? Infelizmente, é verdade também que muitos cristãos atualmente estão mais preocupados em agradar aos homens do que a Deus. Ora, se os homens não aceitam receber carniça de presente, por certo que Deus também não aceita. O versículo 9 nos ensina que Deus não aceita nada menos do que o melhor. Ele não precisa de restos. Na VR, o texto do versículo 9 pode nos soar um tanto ambíguo. “Agora, pois, suplicai” pode ser interpretado como se estivesse no tempo imperativo, vendo-se assim um mandamento a ser acatado. Discutindo o sentido real da declaração, a RE declara: “A paráfrase da Bíblia de Jerusalém reflete muito bem o tom irônico do versículo 9.”'8 Por isso, vejamos a versão aludida pela RE, mas lembrando apenas que ela é uma tradução e não uma paráfrase:


“E agora quereis aplacar a Deus, para que tenha piedade de vós (e, contudo, de vossas mãos vêm estas coisas): acaso vos receberá amigavelmente? Disse Iahweh dos Exércitos!” . A BJ deixa claro que o povo, dando restos a Deus e esperando dele coisas boas, recebia agora não um mandamento, mas um desafio. “Vocês me dão o que não presta e querem receber bênçãos por isso? Supliquem para ver se eu dou!” seria, então, o sentido do texto. “Oxalá que entre vós houvesse até um que fechasse as portas para que não acendesse debalde o fogo do meu altar.” Que terrível declaração! Deus prefere ter o seu templo fechado a receber nele um culto hipócrita! Pensemos seriamente nisto! Ele não precisa do nosso culto. Quando nós o cultuamos, não o tornamos melhor porque ele não tem como melhorar. Já é totalmente bom. Se o deixarmos de cultuar, não o fazemos piorar, simplesmente porque ele nunca pode deixar de ser totalmente bom. Nós é que precisamos cultuá-lo! O culto a Deus é devido a ele por causa do seu caráter, mas faz bem a nós. Nós é que somos os grandes beneficiados com o culto. Um culto hipócrita não significa nada, absolutamente nada. Não tem valor algum para Deus e nada produz em nossas vidas, e ainda se torna uma ofensa à santidade e onisciência divinas. Ele sabe perfeitamente que aquilo não é autêntico. O culto insincero, hipócrita, é um ato de escárnio. Qual é o culto que nossas igrejas estão prestando a Deus? E particularmente, qual é o culto que nós oferecemos a Deus? “No cenário moderno, nada é tão automaticamente elogiável como o abrir as portas das igrejas todos os domingos. Comparecer a atos de um ritual vazio não agrada a Deus mais do que os falsos cultos dos tempos de Malaquias. É o caso de indagar quantas igrejas merecem permanecer abertas, igrejas que realizam verdadeiramente um culto a Deus e ministram educação religiosa. Ouvi dizer de certa igreja evangélica na qual, por mais de trinta e cinco anos, ninguém abraçou o ministério. Como Deus reagirá em face de tanta falta de frutos?”19 E o que dizer de igrejas que ficam dez anos sem ver uma conversão? Igrejas nas quais não se evidencia crescimento espiritual, onde os crentes, entra ano e sai ano, continuam com as mesmas deficiências espirituais, sem nunca amadurecerem? Não resta ne­ nhuma dúvida de que os movimentos chamados de paraeclesiásticos algumas vezes prejudicam muito a igreja local. E não é menos verdade que muitas vezes as igrejas novas que surgem acabam trazendo problemas bem sérios para o bom nome do evangelho. Mas, sem concordar com os erros e desvios de alguns desses grupos, perguntemo-nos: “Não acontece isso por desilusão de muitas pes­ soas com a absoluta irrelevância de muitos dos nossos cultos?” . Será que não cabe à própria igreja uma considerável parcela de responsabilidade pela decepção que muitos têm experimentado com ela? Um triste exemplo: este autor cronometrou, em um culto do qual participou, o tempo dispensado a anúncios. Exatamente 46 minutos! Quase uma hora de irrelevâncias, de repetições, de gente


desfilando diante de um microfone, numa estranha compulsão de falar, para notas absolutamente desnecessárias. Notava-se a angús­ tia das pessoas no seu desejo de irem embora. O que acontece em nossos cultos? O poder de Deus é manifestado ou fazem discursos sobre um Deus que fez coisas no passado? A gra­ ça de Deus é compreendida? A Bíblia é ensinada? Ou faz-se apenas um discurso operacional ou um discurso apologético, elogiando-se a igreja e a denominação? O centro do nosso culto é Deus, ou ele é periférico, apenas um pretexto para um grupo se reunir e proclamar suas idéias? “Eu não tenho prazer em vós” , diz o Senhor dos exércitos, “nem aceitarei oferta da vossa mão.” Há bastante semelhança entre esta declaração e a contida em Isaías 1:11-15, principalmente com o versículo 13: “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene!” Mais do que ofertas, mais do que culto, Deus espera obediência do seu povo. Lemos em I Samuel 15:22: “Tem, porven­ tura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros.” O sacrifí­ cio era a forma mais elevada de culto no Velho Testamento, mas o profeta Samuel nos diz que Deus prefere obediência. Obedecer é mais valioso do que o cultuar. Uma pessoa pode cantar até ficar rouca, pode bater palmas e orar até que suas mãos e joelhos se calejem, mas se não tiver uma vida de obediência, nada disso terá qualquer valor. O que Deus mais espera é a obediência à sua Palavra: “Como também é culpada a igreja dos dias presentes de um culto indiferente e relaxado!”20 “Oxalá que entre vós houvesse até um que fechasse as portas...” As portas do templo foram fechadas, por assim dizer, no ano 70 de nossa era. Desde então, os gentios substituíram Israel (compare Êx. 19:5,6 com I Ped. 2:9, onde os títulos que eram de Israel são aplicados à Igreja). Cumpriu-se a declaração de Mateus 21:43 que diz: “Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos.” Muito cuidado, igreja de Jesus Cristo! Não se pode lidar com Deus levianamente. A igreja deve exibir frutos que agradem ao Senhor. Uma igreja local ou até mesmo uma denominação inteira pode ver o seu momento histórico passar se banir Deus para a periferia das suas emoções. Isto é muito sério. “É grande entre as nações o meu nome.” Por quatro vezes Deus declara que o seu nome é “grande” . Nos versículos 5, 14 e aqui, por duas vezes. Isso deve ficar bem claro para os sacerdotes e para o povo de Israel. O sentido do versículo 11 é bastante discutido. Que oferta é essa entre as nações? Quatro linhas podem ser aqui apresentadas.


A primeira: Seriam ofertas oferecidas pelos não judeus às suas divindades, ofertas que, na realidade, acabariam sendo para Iavé. É a interpretação prevalecente entre os judeus, considerando-se que só Iavé é Deus. Quando uma pessoa, na sua ignorância, adora a uma pseudodivindade (porque todas elas são falsas) e lhe oferece tributos, este tributo é do Senhor porque só ele é Deus. A interpreta­ ção é um tanto perigosa, pois se aproxima muito da infeliz declaração, com sentido religioso, de que “todos os caminhos dão em Roma”. Não bastante isso, o texto é bem explícito ao afirmar: “o meu nome...ao meu nome” . A segunda: Seriam ofertas feitas pelos israelitas em seu exílio pessoal, mesmo no período pós-cativeiro. Seria uma referência, portanto, aos judeus dispersos fora da Palestina. Uma questão que deve ser levantada é que nas sinagogas, local de adoração dos judeus dispersos, nunca se ofereceu oblação. Mas, a RE faz o seguinte comentário sobre esta posição: “É mais adequado interpretar que 1:11 se refere à interpretação surgida no judaísmo posterior segundo a qual os sacrifícios no templo poderiam ser substituídos pela oração e pelo estudo da Lei até que o culto no templo fosse restaurado.”21 Os sacrifícios seriam substituídos pela oração e estudo da Lei, pela prática da piedade, atitude que os judeus até hoje, sem templo, ainda seguem. A terceira: O texto estaria continuando a ironia dos versículos 8-10. A adoração prestada em Jerusalém era de qualidade espiritual tão baixa que a efetuada em qualquer outro lugar seria melhor. A quarta é a interpretação escatológico-messiânica. Traduz-se “é” por “será” e se projeta para o futuro. Quando o mensageiro de 3:1-4 viesse e purificasse os sacerdotes e o templo, isso se tornaria possível. É a interpretação que mais se popularizou no início da igreja. Mas, considere-se que o nome de Iavé já era grande entre as nações. A grandeza do seu nome não estava dependendo do futuro messias. Lemos no Salmo 126:1,2: “Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, éramos como os que estão sonhando. Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cânticos. Então se dizia entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor por eles.” O retorno do cativeiro produziu um forte impacto entre as nações gentias e tornou o nome do Senhor grande entre elas. E também nos versículos 5 e 14 se diz que o nome do Senhor já é grande e não que será grande. Como sempre acontece quando nos defrontamos com múltiplas irterpretações, a escolha torna-se mais uma questão de opção do que propriamente de análise. Torna-se difícil estabelecer uma posição e dizer: Esta é a certa. Mas, se elas são mencionadas aqui é porque, ao desejarmos um estudo criterioso, não podemos omitir algo só por julgá-lo complicado. O fato mais importante é que o versículo 11 mostra o ideal de Deus, e o versículo 8 mostra a atitude


real do povo. Há uma grande diferença entre o que Deus quer e o que o povo faz. No versículo 12 retorna a reclamação divina. O seu nome, que é grande entre as nações, é profanado em Jerusalém. “Nações” é o hebraico gôyim, plural de gôy. Geralmente o hebraico utiliza ’am para nação no sentido de etnia, de consangüinidade. Gôy é empregado mais no sentido de Estado, de organização social, conforme Clemente.22 Os judeus de hoje parecem usar o termo mais para significar “gentio”. Se no versículo 6 o nome divino é desprezado, aqui é profanado. As idéias contidas aqui são as mesmas dos versículos 7 e 8. A BV parafraseou bem a primeira parte do versículo 13: “Vocês dizem: Ah! é tão difícil servir ao Senhor e fazer o que Ele pede! Não dão a mínima importância às Leis que eu dei para vocês obedecerem...”. Não é diferente o procedimento de muitos ainda hoje. Acham muito difícil uma vida de serviço e não me importam em obedecer! Quando a vida cristã é enxergada como sendo um fardo, não só deixa de haver alegria, como se presume que qualquer coisa que se dê a Deus serve. Continua bem a paráfrase do versículo 13: “Pensem nisso! Animais roubados, aleijados e doentes como ofertas a Deus! Será que posso aceitar ofertas dessa espécie?” “Mas, seja maldito o enganador que, tendo animal macho no seu rebanho, o vota, e sacrifica ao Senhor o que tem mácula”. “Maldito” é o hebraico arür, o mesmo termo empregado nas maldições de Deuteronômio 27:15 em diante. O castigo vem descrito em Deuteronômio 28:15 em diante. Não é, portanto, um termo banal, sem significado, mera retórica. E forte e expressa um profundo desgosto divino, bem como acena com a possibilidade de um julgamento. É maldito aquele que, tendo animal macho, o vota e oferece o que tem mácula. As ofertas deveriam ser de animal macho, sem defeito, conforme Levítico 1:3 e 10. Simbolizavam não apenas o futuro sacrifício de Cristo, macho, sem defeito, como eram também as mais custosas. O animal reprodutor é o mais valioso no rebanho. As exigências de Deus eram no sentido de que o mais caro lhe fosse dado. Afinal, é ele o grande Rei e todas as coisas nos vêm de suas mãos (I Crôn. 29:14). O cultuar ao Senhor com os bens nada mais é que reconhecer não apenas a sua soberania, mas a sua dadivosidade. O adorador dos dias de Malaquias estava prometendo um macho e oferecendo ao Senhor um animal imprestável. A expressão “com mácula” é o hebraico moshhâth (há uma longa discussão sobre o termo em KD) que indica doente ou defeituoso, aquele que o dono do rebanho sabe que vai perder logo e no qual não vale a pena investir. Votava-se o bom para Deus e dava-se-lhe o imprestável. “Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. O que votares, paga-o. Melhor é


que não votes do que votares e não pagares” (Ecl. 5:4,5). Devemos ter muita cautela com nossos votos e propósitos diante de Deus. Ele não gosta de gente sem palavra. Quem vota e não cumpre é “enganador” (VR, ERAB) ou “embusteiro” (BJ e BdV) ou ainda “mentiroso” (BL). As variações nas traduções não são infelizes. Cada uma mostra, acertadamente, o desagrado divino com pessoas que não são fiéis nos compromissos que assumem com ele. Pensemos em quantos votos fizemos diante de Deus: consagrar nossas vidas, ler a Bíblia naquele ano, assumir responsabilidades na obra, melhorar áreas deficientes no nosso viver, e tudo acabou permanecendo exatamente como sempre esteve. Temos dado a Deus o melhor das nossas intenções e cumprido nossa palavra empenhada com ele? Ou somos levianos? “Eu sou grande Rei” e “o meu nome é temível entre as nações” mostram o conceito que Deus tem de si mesmo. E não é um conceito exagerado. Ele é grande e temível. Merece o respeito do seu povo. Raabe, uma gentia, ouviu falar do seu nome e o temeu. Cornélio, um gentio, e o etíope, um judeu prosélito, evangelizado por Felipe, e tantos outros vultos fora de Israel temeram o nome de Iavé. Fato que, infelizmente, nem sempre ocorreu com seu povo. Deus nunca pode deixar de ser grande e temível em nosso meio. Nunca permitamos que a familiaridade com ele nos conduza à irreverência. Ele nos oferece o amor e a convivência amiga, mas não desce da sua santidade para se nivelar por baixo conosco. Deve continuar como Grande e Temível Rei. “Deus requereu ser temido como Senhor, honrado como Pai, amado como marido. Qual é o ponto comum, a linha mestra, de tudo isso? Amor. Sem amor, o temor é um tormento e a honra não tem sentido. O temor, se não contrabalançado pelo amor, é medo servil. A honra, quando vem sem amor, não é honra, mas adulação. A honra e a glória dizem respeito a Deus, mas nenhum dos dois será aceito por ele, se não forem temperados com o mel do amor.”23 Amemos a Deus. Mas, não apenas com palavras. Amor não é palavras. Nem sentimento. Na Bíblia, o amor é dinâmico; é ação. Mostremos o nosso amor a Deus com uma vida coerente. Que o nosso amor por ele seja provado no que fazemos, naquilo que lhe dedicamos.


O PERIGO DO ENSINO RELAXADO Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós. Se não ouvirdes, e se não propuserdes no vosso coração dar honra ao meu nome, diz o Senhor dos exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o vosso coração. Eis que vos reprovarei a posteridade, e espalharei sobre os vossos rostos o esterco, sim, o esterco dos vossos sacrifícios; e juntamente com este sereis levados para fora. Então sabereis que eu vos enviei este mandamento para que o meu pacto fosse com Levi, diz o Senhor dos exércitos. Meu pacto com ele foi de vida e de paz; e eu lhas dei para que me temesse; e ele me temeu, e assombrou-se por causa do meu nome. A lei da verdade esteve na sua boca, e a impiedade não se achou nos seus lábios; ele andou comigo em paz e em retidão, e da iniqüidade a apartou a muitos. Pois os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instru­ ção, porque ele é o mensageiro do Senhor dos exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei; corrompestes o pacto de Levi, diz o Senhor dos exércitos. Por isso também eu vos fiz desprezíveis, e indignos diante de todo o povo, visto que não guardastes os meus caminhos, mas fizestes acepção de pessoas na lei (2:1-9). No estudo anterior vimos que o texto de 1:11 se apresenta como passível de quatro interpretações. Se dentre elas optar­ mos pela que nos mostra o versículo se referindo às nações gen­ tias já temendo o nome do Senhor naquela ocasião, a força dramática do texto de 2:1-9 aumenta assustadoramente. Veremos aqui, mais uma vez, um sacerdócio negligente no cumprimento dos seus deveres. A negligência sacerdotal era uma evidência muito clara de falta de seriedade no relacionamento com Deus. Haver!"1 mais seriedade por parte dos pagãos para com Deus do que por parte do seu próprio povo. No início da história de Israel, a função dos sacerdotes e levitas era cuidar das obrigações culturais e lidar com questões atinentes à


pureza de alimentos e de animais (veja Lev. 13 a 15). No período do exílio, sem a liderança palaciana, o povo se aglutinou ao redor dos sacerdotes. Um exemplo disso podemos ver com o profeta Ezequiel, que era também da linhagem sacerdotal (Ez. 1:3). No capítulo 20 do seu livro vemos que os anciãos (os líderes civis do povo) vinham consultar a ele. Quando os judeus regressaram do cativeiro, não se deu a restauração da monarquia. A liderança da nação passou a ser exercida pelos sacerdotes. Israel deixou de ser uma nação política e se tornou um rebanho religioso, vivendo em função do templo e de suas expectativas messiânicas, com todas as características religio­ sas de uma igreja. Pari passu à liderança civil, os sacerdotes exerceram também o ofício profético. Não encontramos mais profetas descompromissados com a estrutura civil e religiosa, como no período pré-exílico (Elias é um exemplo do profeta sem ligação com qualquer estrutura, um profeta free lance, por assim dizer). O estudo e o ensino da Palavra passaram a ser uma incumbência dos sacerdotes. Desde Neemias 8 que o judaísmo passara a ser uma religião normatizada por um livro. Ali a lei foi lida por Esdras e, explicada por alguns dos seus auxiliares, provocou grande comoção em Israel. A literatura toma, então, um impulso extraordinário e o livro passa a ser de importância capital para a religião. Após Ageu, Zacarias e Mala­ quias não houve mais profetas. Os judeus diziam que “os céus se tinham fechado” . A ausência de profetas tornou-se uma calamidade nacional. Quando Judas Macabeu morreu, levantou-se uma grande perseguição contra os judeus, movida por Báquides. Ao falar da crueldade deste, assim registra I Macabeus 9:27: “Foi esta uma grande tribulação para Israel, qual não tinha havido desde o dia em que não mais aparecera um profeta no meio deles” (BJ). É possível notar que a ausência de profetas foi um duro golpe para Israel e se tornou um marco histórico dolorido. Já nos dias de Malaquias a profecia começava a escassear. Não havia profetas em abundância. O próprio Malaquias deveria receber uma atenção muito especial do povo exatamente por causa disso. Entre Zacarias e ele, por exemplo, houve um espaço de aproximada­ mente 50 anos. Foi meio século de silêncio. A tarefa dos sacerdotes em instruir o povo dentro da Palavra se tornou uma responsabili­ dade enorme. Era a única forma de se conhecer os ensinos divinos. Pois bem, os homens que deviam ensinar a Palavra de Deus ao povo não o estavam fazendo adequadamente. A situação denuncia­ da por Malaquias era, portanto, muito grave. Ainda hoje, o relaxamento no ensino bíblico é coisa deplorável. Como é triste saber-se de pregadores preguiçosos e arrogantes, cheios de empáfia, que não estudam, que não examinam a Palavra e abrem a boca para dizer qualquer coisa, mesmo que sem nexo, “em nome do Senhor”. Algumas denominações evangélicas, inclusive, possuem uma con­ cepção mágico-mística de inspiração. O pregador não deve estudar


nem preparar um sermão, pois isso é carnalidade, é ir contra a inspiração que o Espírito Santo (ó Espírito Santo, quantas coisas erradas se fazem em teu nome!) concede aos pregadores. Deve-se abrir a Bíblia ao acaso e o que saltar aos olhos do pregador é o que Deus deseja que ele pregue. E depois, diga-se o que se quiser, pois “foi o Senhor quem mandou” . Isso nada mais é que um misticismo leviano e irresponsável. É falta de seriedade no ensino da Palavra. Ensinar a Palavra de Deus aos homens é coisa muito séria. Também é deplorável o caso do pregador que não vive a Palavra e que não a internaliza na sua experiência. Um homem não pode falar de coisas que lhe são estranhas e que o seu viver desconhece. Sua pregação, além de incoerente, será ineficaz. Tudo isso realça a seriedade do texto em estudo. “Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós.” A queixa é particular­ mente dirigida aos sacerdotes. “Mandamentos” é o hebraico miçvâh. O sentido é diferente daquele empregado para designar os dez mandamentos. Não se trata de uma ordenança e sim de uma sentença irrecorrível, ditada por um juiz, sentença da qual não se pode escapar nem apelar. O sentido é de uma condenação. Os sacer­ dotes são condenados por causa da sua negligência em ensinar a Palavra ao povo. A reclamação anterior foi motivada por causa do oferecimento de animais impuros. A reclamação presente é por causa do relaxamento em instruir o povo nos caminhos do Senhor. Os sacerdotes devem ouvir e devem propor no seu coração dar honra ao nome de Iahweh Sebaôth, ou seja, devem conduzir-se de maneira que o glorifiquem com a sua conduta. Se não ouvirem e se assim não propuserem, o Senhor lhes trará maldição. O versículo 2 é bastante expressivo. “Honra” é o hebraico kâbhôdh, já anterior­ mente discutido. Deve-se prestar kâbhôdh ao nome do Senhor. O que significa esta expressão? Honrar significa “dar peso, mostrar aten­ ção, considerar como importante” como já anteriormente comenta­ do. O nome é o caráter do indivíduo. Para o hebreu, o nome era a extensão da personalidade da pessoa. Abrão teve o nome mudado para Abraão. Sarai teve o nome mudado para Sara, e Jacó teve o seu mudado para Israel. Mudando-se o aspecto central do indivíduo, muda-se o seu nome, pois este está ligado ao caráter e destino. Deus está pedindo que se dê peso, que se valorize o seu caráter. As atitudes dos sacerdotes são atitudes de pessoas que não valorizam Deus. Honrar o nome de Deus não é recitá-lo com os olhos revirados e com a voz impostada. É respeitar o seu caráter, é valorizar o próprio Deus. Isso se faz com atos, mostrando-se assim uma vida compatível com as exigências de Deus. Os sacerdotes não estavam procedendo desta maneira. Se o nome de Deus não for honrado pelos sacerdotes, vale dizer, se os sacerdotes não viverem em consonância com a santidade de Deus, sobre eles virá a maldição. Atente-se para a definição: a


maldição. A alusão é a uma maldição definida e singular. O mais provável contexto é a declaração contida em Deuteronômio 27:15-18 (as maldições que serão lançadas do monte Ebal) e Deuteronômio 28:15-68, com as maldições por desobediência. A proposta divina é bênção em caso de obediência e maldição em caso de desobediên­ cia. Por isso, “escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Deut. 30:19). A especialização da maldição vem no versículo 3 e oferece algumas alternativas quanto à sua compreensão. “Eis que vos reprovarei a posteridade” (VR) é uma tradução um pouco disputa­ da. A mudança de algumas vogais (pequenos sinais, no hebraico) produz “Eis que vou cortar o vosso braço” (BJ e BL), trazendo a idéia de uma ação divina impedindo os sacerdotes de oficiarem a liturgia. Sem braço, não poderiam ser sacerdotes. Esta variante do texto mostra o Senhor proibindo os sacerdotes de continuarem em seu ofício. Literalmente, sem a variante adotada pela BJ e BL, o texto traz “reprovar a semente” , o que permite duas compreensões. Uma delas é interpretar “semente” como sendo alusiva à descen­ dência. Por isso a VR traz “posteridade”. A outra é interpretar “semente” literalmente, como sendo de plantação. Deus traria colheitas fracas, fazendo com que os dízimos entregues aos sacerdo­ tes fossem diminuídos. A posição é corroborada por Ageu 1:10,11, onde o castigo prometido segue nesta direção, a de escassez de gêneros alimentícios. O fato certo, seja qual for a interpretação que se dê, é que Deus não deixará impunes os corruptores da sua vontade. E isto se constitui numa advertência também para nós. Deus não se agrada da falta de seriedade para com suas coisas. Quantos crentes negligentes encontramos hoje! São relapsos com sua vida pessoal, com as atividades do reino e no seu relacionamento pessoal com o Senhor. Ele não deixa passar em branco. “Espalharei sobre os vossos rostos o esterco.” Outras versões trazem “excremento”. A BV parafraseou desta forma: “...Atirarei em seus rostos as fezes dos animais impuros que vocês me oferecem. Vou jogá-las fora como esterco.” Outra tradução é “entranhas” . As entranhas dos animais sacrificados, bem como o seu esterco, deveriam ser levados para fora do arraial (Êx. 29:14, Lev. 4:11 e 16:27). Eram imundícies e deveriam ser levados para fora. Deus promete esfregá-las no rosto dos sacerdotes. Jogar algo no rosto de uma pessoa era uma ofensa muito grave. Veja-se em Naum 3:6 como Deus promete tratar Nínive, humilhando-a. Esfregar alguma coisa no rosto de outro era mais vergonhoso e ofensivo ainda. Deus envergonharia publicamente os sacerdotes. Mas, não apenas isto. “Sereis levados para fora.” Seriam tirados do templo e lançados no monte de entranhas e excrementos. Uma ofensa sem igual. Inclusive a BL traduz “Sereis levados com ele” (o excremento). A deturpação das coisas santas ofende gravemente a Deus e recebe dele uma resposta de juízo.


O versículo 4 recorda que Deus firmou um pacto com Levi. Não há um pacto formal de Iavé com Levi, nas Escrituras. Devemos, no entanto, à luz da declaração divina de um pacto de paz, considerar o episódio de Números 25:11-13, onde, com base na fidelidade de Finéias, Iavé pactuou com a tribo de Levi. Em Malaquias, o pacto com Levi é o pacto com os levitas (Levi é o representante da tribo sacerdotal). A base foi a fidelidade de Finéias, e os sacerdotes deveriam imitá-lo. Não foi assim, no entanto. O sacerdote ideal (e aqui os comentaristas divergem se o sujeito no versículo 5 é Levi ou Finéias, mas qualquer um dos dois valida a idéia) deve temer o Senhor e se assombrar diante do seu Nome. O sacerdote ideal “andou comigo em paz e em retidão”. Nos versículos 6 e 7 encontramos a grandeza do sacerdócio. Eram homens que deveriam andar com Deus (à semelhança de Enoque, em Gênesis 5:24) e apartar os homens da iniqüidade. Uma vida santa e dedicada a desviar os outros da morte. Na boca do sacerdote deve estar “a lei da verdade”. “Lei” é o hebraico tôrâh que traz a idéia de uma lei com autoridade divina. Na boca do sacerdote ideal deve estar a Palavra de Deus. Não consideramos que os pastores sejam sacerdotes, no sentido veterotestamentário. Mas, vemo-los como líderes do povo, à seme­ lhança dos levitas. Na boca dos pastores e dos líderes de nossas igrejas deve estar a Palavra de Deus. Eles também devem andar com Deus e desviar as pessoas da iniqüidade. Num contexto mais amplo para nós, vemos que o ensino aos homens deve ter a tôrâh como base. Ê a Palavra de Deus que deve ser ensinada. Há muitos ensinos baseados em costumes puramente pessoais de alguém que lidera. Isso é perigoso e beira à idolatria por considerar a opinião pessoal de alguém em pé de igualdade com a revelação. Com muita facilidade se usa a Bíblia para apoiar posições culturais. Por isso é bastante oportuna a advertência de Glendon Grober no estudo “A Igreja — a Família de Deus”: “A harmonia na Igreja exige que o crente não confunda doutrina com conduta, especialmente na vida alheia. Eu, como crente, não devo procurar medir a fé de meu irmão pelas minhas convicções pessoais quanto à conduta.”24 O padrão para doutrinar e firmar as pessoas deve ser a Palavra de Deus e não a tradição humana ou denominacional ou ainda as idiossincrasias particulares da liderança. Numa determi­ nada igreja, um irmão foi impugnado ao diaconato por usar bigode e isso era, para os demais, sinal de mundanismo. Ora, se alguém não gosta de bigode, que não o use, mas que não faça uma declaração desse tipo! O evangelho não é uma coleção de regrinhas sem respaldo para determinar o corte dos cabelos, mangas compri­ das, legislação sobre posse de televisão, proibição de passeios e esportes. Sucede que, muitas vezes, as pessoas têm um tipo deter­ minado de comportamento que é seu, produto pessoal, surgido de um temperamento e de sua cultura, e querem impô-lo aos outros,


alegando que “o crente deve ser assim” . O crente deve ser como a Palavra de Deus prescreve. Uma das mais duras advertências de Jesus foi contra os fariseus que atavam fardos pesados e difíceis aos homens, mas não moviam um dedo sequer para ajudá-los. O evan­ gelho não é para colocar fardos sobre os homens, mas sim para tirá-los. “Da sua boca devem os homens procurar a instrução.” O dever do sacerdote era ensinar ao povo sobre Deus. Nos seus lábios não deveria haver iniqüidade e sim a Palavra. O que há nos nossos lábios? Maledicência ou a Palavra? Fofoca, irreverência, ou a Palavra? Tradicionalismo ou a Palavra? Conceitos de classe média ou a Palavra? Lamentavelmente, em algumas ocasiões, o mundo não tem visto a Palavra e sim o tradicionalismo de um grupo ou de uma classe social na boca da igreja. Quando, em alguns países, as igrejas defendem o racismo, não é a Palavra de Deus que está sendo proclamada. É a maldade humana. É a pervertida ideologia de uma classe dominante. Quando algumas correntes teológicas fazem apologia do uso de força militar para apoiar os seus conceitos, não é a Palavra que está sendo proferida. Ê uma ideologia humana que se verbaliza pela boca de quem nunca a deveria defender. Como igreja de Jesus Cristo, como o sacerdócio real que somos, devemos proferir para este mundo a Palavra de Deus. Se ela não concorda com os nossos conceitos, que mudemos estes! Mas que nunca a entortemos para fazê-la concordar com os nossos pontos de vista. “Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei.” Os sacerdotes não viviam a Palavra e por isso fizeram com que muitos outros caíssem. Quando um cego conduz outro cego, ambos caem no buraco. Ou, numa linguagem mais contextualizada, ambos são atropelados. A dura-crítica de Jesus aos fariseus deveria nos incomodar: “Ai de vocês, professores da Lei e fariseus, hipócritas! Pois atravessam os mares e viajam por todas as terras para procurar converter uma pessoa à sua religião. E quando conseguem, tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que vocês mesmos” (Mat. 23:13-15, BLH). Infelizmente, para nós, hoje, o termo fariseu acabou com outra conotação. Significa hipócrita, fingido. Mas lembremos que, nos dias de Jesus, fariseu era o homem ultra-rigoroso no cumprimento dos seus deveres religiosos. Ortodo­ xo, fundamentalista até, excessivamente conservador em matéria de práticas, mas sem uma vida autêntica. Como corpo sacerdotal, a igreja não pode dissociar sua mensagem de sua vida. O mundo está vendo o evangelho em nossas igrejas e em nossas vidas pessoais ou apenas conservantismo? A decadência moral e espiritual do povo coincidiu com a deca­ dência moral e espiritual do sacerdócio. E não se pense que foi mera coincidência. Foi uma conseqüência inevitável. Ponderemos séria e detidamente sobre a decadência moral e espiritual do mundo em que vivemos. Vem num crescendo impressionante. E também não é


acidental. “Os ministros de religião têm uma responsabilidade tremenda, porque eles não padecem sozinhos. Na sua queda, eles arrastam outros consigo e se tornam responsáveis por parte dos pecados daqueles que eles arrastaram consigo.”25 A responsabili­ dade de transmitir os ensinos divinos aos homens é uma responsabi­ lidade muito séria. Não limitemos isso aos pastores, mas apliquemos a todos os crentes (porque todos são sacerdotes e testemunhas de Cristo) que têm responsabilidade diante do mundo. Estendamos esta responsabilidade à totalidade da igreja. O versículo 9 apresenta dois pecados do sacerdócio: não guardava a lei e fazia acepção de pessoas. O juízo sempre pendia para favorecer o poderoso. O pecado da parcialidade no juízo é deplorá­ vel. Nunca deveria ser encontrado no meio do povo de Deus. Mas nós também pecamos quando favorecemos alguém por causa do seu maior volume de posses ou por causa do seu prestígio ou grau acadêmico. As igrejas onde as pessoas recebem honra ou distinção pelo seu nível social estão cometendo pecado. Lemos em Levítico 19:15: “Não farás injustiça no juízo; não farás acepção da pessoa do pobre, nem honrarás o poderoso; mas com justiça julgarás o teu próximo.” Um pastor contou-me o sucedido em certa ocasião com ele, em determinada região do país. Realizava ele uma série de pregações evangelísticas na igreja de um colega. No sábado, a igreja comemorava o seu aniversário e recebeu um auditório bem represen­ tativo da sociedade local. O pastor hospedeiro solicitou ao pastor visitante que naquela noite não efetuasse um apelo evangelístico, embora o tivesse feito em todas as noites anteriores. É que naquele culto de aniversário estavam presentes o prefeito da cidade, alguns vereadores e colegas da faculdade onde o pastor local estudava. Ele não desejava constrangê-los com o apelo. Quer dizer, para os outros, diga-se que são pecadores e que devem submeter-se a Cristo. Já para a elite e para os amigos, diga-se coisa boa. Graças a Deus, o visitante se recusou a modificar o seu estilo. A igreja não pode advertir uns e cortejar outros. A igreja de Cristo não faz opção pelos pobres nem pelos ricos. Ela fez sua opção por Deus e sua Palavra. Deve proclamar a Palavra, gostem ou não o prefeito e os colegas de alguém. No período pós-exílico, os sacerdotes também eram juizes e vinham falhando na aplicação das leis aos ricos. Como resultado, Deus os desmoralizaria: “Eu vos fiz desprezíveis e indignos diante de todo o povo.” Anteriormente isso já fora afirmado em I Samuel 2:30: “ ..iporque honrarei aos que me honram, mas os que me desprezam serão desprezados” . Falharemos grandemente, como já dito, se restringirmos as reclamações e o desgosto de Deus com os sacerdotes da época de Malaquias apenas aos pastores. Num sentido geral, todos os crentes somos sacerdotes. Todos podemos comparecer diante de Deus com o nosso culto e com as nossas ofertas. Todos nós temos responsabili­


dades diante deste mundo tão desorientado. Qual é a nossa conduta diante de Deus? Temos um culto sincero? Valorizamos a pessoa de Deus ou damos-lhe o resto da nossa vida? E aos que exercem a liderança, fica uma indagação: Há coerência nas atitudes? Há amor, misericórdia e retidão?


UM SÉRIO PERIGO: CASAMENTOS MISTOS Não temos nós todos um mesmo Pai? não nos criou um mesmo Deus?por que nos havemos aleivosamente uns para com os outros, profanando o pacto de nossos pais? Judá se tem havido aleivosa­ mente, e abominação se cometeu em Israel e Jerusalém; porque Judá profanou o santuário do Senhor, o qual ele ama, e se casou com a filha de um deus estranho. O Senhor extirpará das tendas de Jacó o homem que fizer isto, o que vela e o que responde, e o que oferece dons ao Senhor dos exércitos. Ainda fazeis isto: cobris o altar do Senhor de lágrimas, de choros e de gemidos, porque ele não olha mais para a oferta, nem a aceitará com prazer da vossa mão. Todavia perguntais: Por quê? Porque o Senhor tem sido testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, para com a qual procedeste deslealmente, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança. E não fez ele somente um, ainda que lhe sobejava espírito? E por que somente um? Não é que buscava descendência piedosa?Portanto guardai-vos em vosso espírito, e que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade. Pois eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel, e aquele que cobre de violência o seu vestido; portanto, cuidai de vós mesmos, diz o Senhor dos exércitos; e não sejais infiéis (2:10-16). O terceiro oráculo trata de um grave perigo para a comunidade dos retornados: casamentos inter-raciais. Junto com eles vem o divórcio, mas este surge como conseqüência dos casamentos dos judeus com as mulheres de outras raças. É no casamento misto, portanto, que reside a raiz dos problemas. A argumentação se inicia com uma declaração da paternidade de Iavé sobre o povo. Ã luz disto, alguns comentaristas presumem haver aqui a súmula de três sermões. Um versaria sobre a paterni­ dade de Deus e os outros dois se ocupariam da problemática familiar, sendo um sobre o casamento inter-racial e outro sobre o divórcio. Não é necessário pensar assim para harmonizar os assun­ tos, mesmo porque eles não conflitam entre si. Estão intrinseca-


mente ligados na argumentação de Malaquias, como veremos mais adiante. O povo estava se esquecendo de dois princípios de grande valor: a integridade da família, que era uma das pilastras da nação, e a teocracia judaica, que ficaria esfarelada com os casamentos com adoradores de falsas divindades. A integridade da família pode ser bem observada desde os Dez Mandamentos. O quinto prescreve o respeito aos pais. O sexto, o respeito ao cônjuge. O décimo, o respeito ao cônjuge alheio. Quanto a este último mandamento, observe-se que, na redação de Êxodo, a proibição de cobiçar o cônjuge alheio vem em segundo lugar. Já na redação de Deutero­ nômio, efetuada em um momento mais próximo ao ingresso na terra prometida, onde sucederia um convívio mais intenso com outras nações, a proibição de cobiçar o cônjuge alheio vem em primeiro lugar. A respeito das conseqüências funestas dos casamentos com pessoas de outros povos, bastam-nos dois exemplos. O de Salomão, que pode ser verificado em I Reis 11:1-13, e que foi a causa de uma longa série de males, e o de Acabe, que despontou Jezabel (I Reis 16:31), a grande inimiga dos profetas do Senhor. O mesmo proble­ ma já fora enfrentado no seio da nova comunidade por Esdras (Esd. 9 e 10) e Neemias (Neem. 13:23-31). Inclusive alguns estudio­ sos propugnam uma data um pouco mais recuada para Malaquias, de sorte a encaixá-lo dentro dos episódios de Esdras e Neemias. Mas o conteúdo do livro do último profeta é bem diferente. Lida mais com problemas éticos do que com construção de muro e de templo e a reconstrução da sociedade. Não vemos indícios de pressões de inimigos externos, e a esperança messiânica, um produto elaborado mais agudamente no período intertestamentário, é bem forte, indicativo de estarmos chegando ao período sem profetas nos moldes do Velho Testamento. O versículo 10 começa com duas perguntas que são retóricas. Delas não se espera resposta. A primeira pergunta, a que abre a discussão, é sobre a paternidade de Deus. Ele é pai de todos, mas não no sentido de um universalismo religioso. “Todos” é Israel. A segunda pergunta explicita a primeira, desdobrando-a. Ele é o Deus de todo o povo. Kunstmann interpreta que estas eram descul­ pas dadas pelo povo para se lançar ao casamento inter-racial.26 Afinal, que diferença faz, se Deus é pai de todas as raças? No entanto, é mais fácil e mais coerente com a estrutura do texto, ver como perguntas retóricas e não como uma desculpa do povo. Jerônimo e Calvino interpretaram que o pai a quem o texto se refere é Abraão. Mas a segunda pergunta é um paralelismo, recurso da poesia hebraica, onde se repetem conceitos, enfatizando-os. É tam­ bém um recurso didático e mnemônico. Quem está sendo focalizado é Deus. Ele é o Pai de Israel. “Israel é meu filho, meu primogênito; e eu te tenho dito: Deixa ir meu filho...” (Êx. 4:22,23).


Em certo sentido, Deus é pai de todas as raças. Lemos em Atos 17:26 que ele fez toda a raça humana de um só. Mas, neste caso, enfoca-se a paternidade criadora. Sua paternidade espiritual é exclusiva ao seu povo. Ele não é pai espiritual de todos, pois o versículo 11 mostra a sua reprovação ao casamento com mulheres de outras raças. O procedimento de Judá em desposar mulheres gentias profanou o santuário. A BJ, em nota de rodapé, interpreta que o santuário, neste caso, não é o templo, mas sim a própria nação. Inclino-me a concordar com a BJ. A interpretação faz sentido. O termo hebraico para santuário é qôdhesh (santidade, santo). Pode se referir ao templo, mas em Êxodo 19:6 (“nação santa"), Isaías 6:13 ("santa semente”) e Jeremias 2:3 (“santo") o termo é aplicado ao povo, a pessoas, e não a um prédio. Nesta linha de interpretação, Judá teria profanado o seu próprio caráter de nação santa ao ligar-se a pagãos. A santidade de Deus está no meio do seu povo, das pessoas, e quando a santidade do povo é maculada, o santuário (não necessa­ riamente uma construção, mas o lugar onde a glória de Deus está) é profanado. Mais tarde, o Novo Testamento desenvolverá a doutrina aqui ape­ nas esboçada. O santuário de Deus não é um prédio. Apesar de muitos hoje chamarem o prédio onde a igreja se reúne de “casa de Deus” e o salão de cultos de “santuário”, o Novo Testamento não aplica os dois termos a nenhuma construção. Examine-se as passa­ gens de Atos 7:48 e 17:24, I Coríntios 3:16,17 e 6:19, II Coríntios 6:16, Hebreus 3:6 e I Pedro 2:5, a kâbhôdh de Deus não está entre as paredes, mas nas pessoas e estas é que lhe são qôdhesh. O casamento inter-racial era um seríssimo perigo para a fé. Mais tarde, com o advento do cristianismo, as divisões entre as raças perdem o sentido. “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gál. 3:28). O mundo pode conhecer barreiras sociais, culturais e raciais, mas o evangelho irmana os homens fiéis a Cristo. E se há um inconveniente no cristianismo não é para casamento entre raças diferentes, mas sim de crentes com descrentes. Paulo prescreve o casamento no Senhor (I Cor. 7:39 e II Cor. 6:14), expressão que designa que ambos os cônjuges devem ser converti­ dos. O corpo é visto como templo do Espírito Santo. Tanto Malaquias quanto Paulo vêem o casamento com incrédulos como errado (“Judá profanou o santuário... casou com a filha de um deus estranho”). Não se deve presumir que esta atitude seja um racismo judaico. As repetidas declarações de perigo no casamento inter-racial não podem ser interpretadas como manifestações racistas. Considere­ mos que uma multidão mista saiu junto com hebreus do Egito (Êx. 12:38) e mais tarde, ao que tudo indica, se submeteu à circun­ cisão e celebrou a páscoa (Êx. 12:48 e Núm. 9:14). Na linhagem de


Jesus encontramos gentias como Raabe e Rute. A questão crítica está aqui: “filha de um deus estranho” . Eram mulheres que mantinham o mesmo caráter de suas pseudodivindades, trazendo toda sorte de corrupção espiritual e moral que as mulheres de Salomão trouxeram. Para Wolf,27 o casamento era proibido porque as mulheres levavam os seus maridos para o culto pagão. Mas nem sempre acontece assim. Há homens de firmeza espiritual, como há mulheres casadas com maridos incrédulos e que têm firmeza espiritual. O maior problema é com os filhos. Em Neemias 13:23,24, vemos que, como resultado do casamento misto, os filhos dos judeus casados com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas já não falavam mais hebraico e sim “meio asdodita” . Os filhos sempre assimilam alguma coisa do sotaque pagão. Este é o grande problema. Há jovens em nossas igrejas que parecem desesperados para casar. Parece que, se permanecerem solteiros, estarão em grande desgraça social. E acabam casando com o primeiro que aparece. “Imagina se eu vou ficar solteira”, disse certa feita uma jovem desejosa de se casar com um rapaz não crente e de caráter pouco recomendável. E casou, apesar de todos os argumentos em sentido contrário. Hoje não é mais solteira. É divorciada, com um filho para criar, e bastante amargurada. Mas há outra importante questão em pauta. É o uso do corpo. Assim nos diz Pusey: “A proibição é uma antecipação da plena revelação no Evangelho, em que o corpo é o templo do Espírito Santo e onde o pecado contra o corpo é profanação contra o templo de Deus.”28 É bem mais cômodo acreditar que uma construção de tijolos seja a casa de Deus. Mas saber que ele habita no corpo dos crentes traz uma responsabilidade muito mais elevada. Não é por vitrais e por chão atapetado que ele anda ansioso. É por vidas puras. A punição para os transgressores é dura: “O Senhor extirpará das tendas de Jacó.” Ê uma referência ao início de Judá. Era um povo nômade, habitando em tendas. Os transgressores serão elimi­ nados desde a raiz. “O que vela, e o que responde” parece continuar desenvolvendo o hábito dos nômades em montar guarda diante de suas tendas. Quando o Senhor julgar, nem sentinelas poderão impedir sua ação. Uma lição muito clara aqui é que Deus pune o pecado. Num sermão sobre este texto, o grande expositor bíblico Alexander Maclaren declarou que “a miséria e o sofrimento que acompanham nossos pecados são auto-infligidos e, na maior parte das vezes, automático”.29 Uma forma de juízo já estava em andamento. “Ele não olha mais para a oferta, nem a aceitará com prazer da vossa m ão/’ A primeira conseqüência do pecado é o distanciamento entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana. Bem o diz Lockyer: “Os sacrifí­ cios daqueles que ofendem a lei de Deus não podem ser aceitos por Ele.”30 Ele deseja que nos apartemos do pecado. Disse com proprie­


dade o salmista: “Se eu tivesse guardado iniqüidade no meu coração, o Senhor não me teria ouvido” (Sal. 66:18). Deus não aceita culto de hipócritas, como bem pode ser lido em Isaías 1:11-15. É uma séria admoestação para nós que desejamos que ele ouça nossas orações e aceite o nosso culto. O que leva o Senhor a aceitar a nossa adoração não é um “ortoaineo” (uma forma ortodo­ xa de culto e de louvor), mas a sinceridade de lábios e de vida. Um padrão estereotipado de culto pode se assemelhar muito a uma reza evangélica, mas sem vida alguma. O que valida um culto não são os instrumentos que algumas pessoas dizem convictamente que são aqueles que Deus aceita nem a presença ou ausência de palmas. É o estado espiritual do adorador. É preciso saber distinguir entre o senso de estética e o senso de culto. Havia choros, gemidos e lágrimas, mas infelizmente havia peca­ do. É o pecado guardado, não confessado, não eliminado, que acarreta a obstrução na comunhão com Deus. Assim também sucede conosco. Procuremos uma vida limpa diante de Deus para bom sucesso na comunhão com ele. Mas, não recebendo respostas às suas orações, não poderia o povo deixar de indagar: “Por quê? Afinal de contas, o que há de errado com as nossas orações?” Também conosco este fato ocorre. Por que muitas reuniões de oração em nossos templos são desin­ teressantes, reuniões em que, como diz o nosso povo, “muitas orações não passam do teto”? A resposta divina é bem simples e direta: “Porque o Senhor tem sido testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, para com a qual procedeste deslealmente, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança.” Deus não tolera a quebra de palavra e o procedimento desleal para com os outros, principalmente, neste caso, com o cônjuge. Os contemporâneos de Malaquias estavam procedendo deslealmente com a esposa. A pala­ vra “companheira” é o hebraico habkert^khâ, literalmente, “a que está atada a ti” . A palavra é bastante significativa. Marido e mulher estão atados um ao outro. É uma boa explicação da palavra divina em Gênesis 2:24: “...e serão uma só carne” . O casamento não deve ser rompido. E lembremos que antes de ser desmanchado em tribunais, ele o é nos corações, nas mentes dos cônjuges. Não é suficiente que nossas igrejas censurem o ato jurídico do divórcio. É necessário censurar as atitudes que o produzem. É necessário educar os jovens para que jamais venham a entrar em um processo de separação. Combater é fácil. Reclamar que está errado é fácil. O correto é prevenir. E isto é bem mais difícil. O divórcio legal é apenas a expressão formal e jurídica de atitudes intimamente assumidas. O casamento não deve ser rompido com atitudes erra­ das. Por isso, de forma muito correta, Pusey nos diz: “O casamento foi instituído e consagrado por Deus no Paraíso.”31 O versículo 15 apresenta muitas dificuldades quanto à sua tradução e algumas versões o expressam de maneira bastante


diferentes. A BJ traduziu “Ele não fez um único ser, carne e sopro vital? O que procura esse único ser? Uma descendência de Deus! Guardai-vos, pois, no que diz respeito às vossas vidas; não traias a esposa da tua juventude!” . A tradução da VR é “E não fez ele somente um, ainda que lhe sobejava espírito? E por que somente um? Não é que buscava descendência piedosa? Portanto guardaivos em vosso espírito, e que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade”. Já na ERAB lemos: “Ninguém com um bom resto de bom senso o faria. Mas que fez um patriarca? Buscava descendência prometida por Deus. Portanto cuidai de vós mesmos e que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.” A parte final do versículo, em todas as versões, segue na mesma direção: não deve haver infidelidade para com a mulher da juventu­ de. O problema é a primeira parte. Quem é o “um” ou “único”? Para alguns é Iavé. Para outros, é Abraão. A ERAB segue esta posição. Alguns interpretam até como sendo Adão. A respeito das dificuldades na interpretação, Baldwin comenta: “Aqui o texto se torna difícil. Talvez ele tenha sofrido às mãos dos escribas que não concordaram com seu ensino. Um guia à interpretação é que ele tem que concordar com a intenção clara de Malaquias, expressa no fim do versículo, que incentiva os maridos a continuarem fiéis à sua primeira esposa. É impossível tirar algum sentido do hebraico como ele está, por isso todas as traduções, inclusive as versões antigas, contêm um elemento de interpretação. O problema em parte é que a palavra “um” pode ser entendida de várias ma­ neiras.”32 A opção entre as várias versões torna-se problemática. Partamos da suposição de que a ERAB esteja correta. Não seria uma boa desculpa para os judeus? Ora, se Abraão também desposou uma esposa pagã, não podiam eles tomar o exemplo do patriarca? E se Abraão despediu uma esposa, por que eles não podiam fazer da mesma maneira? E antes que pudessem utilizar tão respeitável figura para seus propósitos escusos, Deus diz: “Ninguém com um resto de bom senso o faria” e, a seguir, invalida o argumento. Abraão tomou uma egípcia porque buscava descendência (Sara era estéril). Conclui Deus: “Portanto cuidai de vós mesmos, e que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.” Não há desculpas relevantes para abandonar a esposa. Lutero fez uma excelente observação, seguindo a tradução da ERAB que mostra uma possível tentativa de empregar Abraão como desculpa: “Nós devemos obedecer àquilo que Deus na sua lei nos manda fazer, não ao que alguma outra pessoa faz.”33 São oportunas as palavras do grande reformador. O padrão para nós é aquele que a Palavra de Deus nos exibe e não o exemplo dos outros. Pensemos nisto porque, em nossos dias, muitos desejam estabelecer doutrinas em experiências que alguém teve. As experiências devem estar subordinadas às Escrituras. Estas sim é que são o padrão aferidor.


Eis a questão fundamental: “Que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.” Presentemente, o padrão definido pelos meios de comunicação como sendo a mulher ideal é a sensual, geralmente pouco vestida, que exibe seu corpo como mercadoria. Não importa que a mulher não preste, desde que tenha um corpo e um rosto atraentes. Não se procura a “mulher virtuosa”, mas a “mulher formosa” . É o reflexo de uma sociedade que cultua o corpo. O teólogo brasileiro Rubem Alves, numa de suas preleções, reafirmou a grande diferença entre o homem e o animal. O animal, lembra ele, é o seu corpo. O homem tem o seu corpo.34 O homem é mais do que o corpo. Os movimentos de libertação feminina deveriam insistir com as mulheres para que não aceitassem ser apenas um pedaço de carne em exposição num açougue chamado Exibicionismo. O tempo desgasta a estética. As mulheres de meia-idade estariam em desvantagem dentro desta mentalidade de privilegiar o corpo sobre o resto. Duas lembranças, portanto, se fazem necessárias. A primeira: foi a mulher da mocidade quem sofreu as durezas de uma vida econômica iniciante. Ela padeceu as dificuldades de se iniciar a construção de um patrimônio conjugal. Agora, com tudo estabelecido e firmado, é justo colocá-la de lado? É decente? A se­ gunda: os homens também ficam velhos. Os homens também engordam, também ficam flácidos e, pior, ficam calvos. Uma boa coisa para marido e mulher é envelhecerem juntos, e numa frase de Simone de Beauvoir, “envelhecer com dignidade” . Deus não leva a serio quem trai seu cônjuge. É a pessoa mais real e mais próxima. É o ser mais concreto para alguém. Como se portará com Deus que não é visível nem concreto como o cônjuge? “Pois eu detesto o divórcio” é a palavra divina. “Num mundo que exalta o divórcio, a declaração de Deus de que ele detesta o divórcio exige de nós séria reflexão.”35 Por tudo isto, torna-se excelente a recomendação final do terceiro oráculo do profeta Malaquias: “ ...e não sejais infiéis”.


VISLUMBRES DO MESSIAS Tendes enfadado ao Senhor com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o havemos enfadado? Nisto que dizeis: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do Senhor, e desses é que ele se agrada; ou: Onde está o Deus do juízo? Eis que eu envio o meu mensageiro, e ele há de preparar o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, e o anjo do pacto, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o Senhor dos exércitos. Mas, quem suportará o dia da sua vinda? e quem subsistirá, quando ele aparecer? Pois ele será como o fogo de fundidor e como o sabão de lavandeiros; assentar-se-á como fundidor e purificador de prata, até que tragam ao Senhor ofertas em justiça. Então a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, e como nos primeiros anos. E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente, contra os que defraudam o trabalhador em seu salário, a viúva, e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos exércitos (2:17 a 3:5). O quarto oráculo de Malaquias expressa a esperança messiânica do povo. Inicia-se no versículo 17 do capítulo 2 e relata um grave pecado em Israel: a não aceitação da moralidade de Deus. Acusa­ vam-no de tolerar o mal e até mesmo considerá-lo como sendo o bem. E faziam uma pergunta: “Onde está o Deus do juízo?” Uma aflição que, ainda em nossos dias, se abate sobre muitos crentes é exatamente esta: por que Deus tolera o mal? Por que, às vezes, ele se mostra tão indiferente à situação humana? Onde está a sua justiça? O problema vem de longa data. O Salmo 73 nos mostra a angústia de Asafe ao ver a prosperidade do ímpio e a aniquilação do justo. Até Jeremias expressou seu desânimo: “Por que prospera o caminho dos ímpios? Por que vivem em paz todos os que procedem aleivosamente?” (Jer. 12:1).


O povo deixara de ver Deus como um ser moral que pune e que galardoa. Tinha-o na conta de um Deus apático. Os contemporâ­ neos de Sofonias pensaram a mesma coisa: O Senhor não faz o bem nem faz o mal” (Sof. 1:12), mas o Senhor declarou que estavam bêbados. Asafe reconheceu que quando pensava assim, estava embrutecido (Sal. 73:22). Além de não ser um Deus apático, ele é um Deus moral. Pensar de outra forma é falta de bom senso. Ele castiga e recompensa. Nosso texto começa com o povo declarando que Deus não tomava medidas e termina com uma declaração divina de que entrará na história e tomará medidas. Mas, contra o povo. É bem provável que a reclamação popular fosse motivada pelas faltas morais dos sacerdotes. Já vimos antes que estes não eram sérios no trato com as coisas divinas, e alguns fiéis poderiam estar se sentindo desgostosos. Por isso, a pergunta: “Onde está o Deus do juízo?” Além dos sacerdotes relaxados, havia também um desapontamen­ to muito grande com o fato de que a reconstrução do templo não trouxera qualquer evento sobrenatural. Alguns esperavam que Deus fizesse prodígios e até mesmo que estabelecesse seu reino em Israel, sobre outras nações. Além disso, passagens como Zacarias 8:3 e Ezequiel 43:1-5 traziam a perspectiva de maravilhas, lembrando como a glória do Senhor entrara no primeiro templo de forma sensível e visível. Nada semelhante acontecera até agora. Como podemos nos frustrar se tentarmos enquadrar Deus dentro dos nossos planos, de nossas perspectivas, desejando que ele aja como nós queremos! “O Deus do juízo” . A RE interpreta esta expressão de uma forma positiva. Diz ela: “Este é o único título aplicado pelo povo a Deus, mas é usado para sumariar a expectativa do povo pelo Deus que há de punir o mal e estabelecer a justiça.”36 Para Moore, no entanto, a expressão é irônica e não respeitosa. Na realidade, a perguftta queria dizer “Onde está a prova de que existe alguma mão divina dirigindo os negócios humanos?”37 Na interpretação de Moore, o único título que o povo aplica a Deus no livro é num contexto de zombaria. É verdade que muitas vezes nos sentimos desanimados diante do progresso da maldade e das contrariedades que se abatem sobre os justos. Um homem leva uma vida séria, decente, cumpre seus deveres, paga os impostos devidos e se esforça para não prejudicar a outrem. No entanto, está sempre marcando passo. Já outro é corrupto, vive sempre envolvido em negócios desonestos, prejudica o próximo, e, no entanto, progride. É desalentador. No versículo 17 do salmo anteriormente citado, Asafe afirma: “Até que entrei no santuário de Deus; então percebi o fim deles.” Seu desânimo era produzido por uma visão puramente humana. Mas, ao entrar no


templo, ele compreendeu. Ou seja, quando ele passou a ver a vida do ponto de vista de Deus, teve o discernimento necessário. Diante das injustiças, das desonestidades e das frustrações, é necessário ver as coisas do ponto de vista de Deus. Estão dizendo que Deus não faz nada? Aqui está a sua resposta: “Eis que...”. Eqüivale a “Olhem para mim! Prestem atenção!” . Ele vai fazer algo. “Eis que eu envio o meu mensageiro.” Ele intervirá na história. Deus pode tardar, mas suas ações nunca são pequenas, tampouco insatisfatórias. Quando ele age é para resolver e não para remediar ou improvisar. Quem é o mensageiro a ser enviado? Em 4:5 ele é chamado de Elias. Desde seu arrebatamento, Elias passou a ser visto na religiosi­ dade popular judaica como alguém que retornaria a este mundo para ser um dos artífices de uma nova época. A menção do seu nome significa que Deus está para realizar algo extraordinário. Uma nova idade está para se iniciar. A idéia não é nova. Em Isaías 40:3 se fala de alguém que prepararia o caminho para o Senhor. Em Mala­ quias 3:1, o mensageiro a vir também prepararia o caminho para o Senhor. Pois bem, o evangelista Marcos começa seu Evangelho unindo estes dois versículos, fazendo-os desembocar em João, o Batista. Em Mateus 11:14, Jesus declara que João é o Elias que deveria vir. Ele veio para preparar o caminho para o Senhor. A in­ tervenção divina na história preconizada por Malaquias é o advento da pessoa de Jesus Cristo. A associação de Elias como sendo João Batista suscita os ânimos de alguns que defendem a velha teoria oriental (não é uma nova revelação, como alguns querem fazer crer) da reencarnação. No entendimento deles, João Batista seria a reencarnação de Elias. Duas considerações devemos fazer, portanto: A primeira — Como João Batista poderia ser a reencarnação de Elias se este não morrera? Ora, se vamos utilizar a Bíblia para apoiar nossas idéias, devemos aceitar toda a Bíblia e não apenas a parte que nos interessa. Não podemos ser desonestos. O relato de II Reis 2 mostra que Elias foi transportado ao céu num redemoinho. Ou aceitamos o fato por completo, ou não o aceitamos. A segunda — Conforme Gabriel, João não seria o Elias redivivo, mas “irá adiante dele no espírito e no poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido” (Luc. 1:17). A identificação não é, portanto, em termos de um corpo físico, mas em termos de ministério. Ressalte-se que a função do mensageiro é “preparar o caminho diante de mim” . Depois do caminho preparado, o Senhor (e aqui o hebraico traz adhôn e não Iahweh, dando um sentido de soberania majestática) viria ao templo. A Majestade virá ao templo depois do mensageiro. Estão reclamando que não se viu o Senhor entrar no segundo templo como se viu entrar no primeiro? Ele virá.


Outra figura que deve ser notada em Malaquias 3:1 é “o anjo do pacto”. Esta expressão só aparece aqui. Mas é a sexta vez que Malaquias se refere ao pacto (as outras são em 2:4,5,8,10,14), enfa­ tizando o relacionamento pessoal e compromissado de Deus com o povo. O anjo é o próprio Iavé (veja-se Êx. 3:2 e 23, conferindo-se com Gên. 16:7 e 13). Ao testemunhar de João, Jesus Cristo deixou claro que ele, Jesus, veio como o Senhor (Mat. 11:7-19). Jesus é o estabelecedor de um novo pacto. “E a Jesus, mediador de um novo pacto...”JHeb. 12:24). Assim como um anjo estabeleceu a primeira aliança (Êx. 3:2), um anjo estabeleceria a segunda (que é vislumbra­ da em Jer. 31:31 e Ez. 37:26). Cristo veio para estabelecer um novo pacto de Deus com os homens. No relato de Malaquias, Elias precederia a Iavé. Em Mateus, o Batista precedeu a Jesus Cristo. O famoso pregador expositivo Alexander Maclaren, em um sermão neste texto de Malaquias, declarou: “A vinda do Senhor seria imediatamente precedida pelo surgimento de um profeta cuja função seria efetuar uma reforma moral e religiosa que prepararia o caminho para Ele.”38 Esta sua observação é corroborada pela declaração de Zacarias, pai de João, no cântico conhecido como Benedictus: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos” (Luc. 1:76). O curto ministério de João mostrou que ele foi assim realmente. Uma declaração bem acertada é feita pela RE: “Calvino, por exemplo, identifica as quatro figuras em 3:1 e 5 como segue: (1) meu mensageiro (3:1) é João, o Batista, segundo Mateus 11:10, zEu é Cristo. (2) O Senhor e (3) o anjo do pacto, ambos se referem a Cristo que é ao mesmo tempo rei e reconciliador do povo. (4) Deus é aquele que virá julgar e testemunhar contra os maus. A multiplici­ dade de títulos fornece possibilidades para uma interpretação cristológica do texto de Malaquias.”39 Mais duas expressões do versículo primeiro devem ser ressalta­ das: “De repente” e “eis que ele vem”. A primeira mostra a subitaneidade da sua vinda. Realmente, quando João Batista e Jesus Cristo vieram, foi algo inesperado. Até mesmo o grande Herodes foi apanhado de surpresa com a notícia de que havia nascido o rei dos judeus. A segunda mostra a sua intervenção na história. Ele é o Deus que age. A história é o seu palco de ação. Por isso é muito interessante a citação de Wright: “A Teologia Cristã mostra-se propensa a pensar na Bíblia fundamentalmente como ‘a Palavra de Deus’, embora, na realidade, a designação mais precisa seria ‘os Atos de Deus’. Certamente, a Palavra está presente nas Escrituras, porém é raras vezes, ou nunca, dissociada do Ato.”40 O nosso Deus não é apenas o Deus da palavra, mas é também o Deus da ação. “Mas, quem suportará o dia da sua vinda?” Não se alegrem pensando que quando ele vier exaltará vocês sobre seus inimigos. O profeta Amós já dissera algo semelhante: “Ai de vós que desejais o


dia do Senhor! Para que quereis vós este dia do Senhor? Ele é trevas e não luz (...) Não será, pois, o dia do Senhor trevas e não luz? não será completa escuridade, sem nenhum resplendor?” (Am. 5:18 e 20). Ao vir, o Senhor que eles ardentemente desejavam seria como o fogo de fundidor e como sabão de lavandeiros. Ainda não havia o sabão como conhecemos. Outras traduções trazem “potassa” (BL e ERAB) e “lixívia” (BdV e BJ). A idéia é de algo para branquear o que está manchado. O fogo do fundidor elimina a escória do metal a ser purificado. A potassa retirava as manchas da roupa. Uma das tarefas do Senhor seria a de purificar o seu próprio povo. Com que facilidade também a igreja se presume preparada para a vinda do Senhor! E maior é a facilidade em pensar que é o mundo quem precisa da obra de Cristo, porque o mundo está engolfado em seus pecados, enquanto a igreja está salva. No entanto, esses mesmos pecados estão presentes na igreja! O povo de Deus também precisa de purificação! Também há maldade, ódios, calúnias e desonestidades no meio dos cristãos. Muitas vezes fica até difícil ver alguma diferença entre a conduta dos cristãos e a dos incrédulos. Por certo que deveria ser uma diferença maior do que o lugar onde passam os domingos: os incrédulos nos clubes e nos bares, e os crentes na igreja. O povo de Deus deveria ter uma conduta marcantemente diferente. Como não a tem, o Senhor virá purificá-lo. Ê lamentável que, no passado, algumas das mais candentes advertências divinas contra o pecado foram dirigidas ao seu povo. Isaías 1 é um bom exemplo. Também não deixa de ser lamentável que a situação não tenha mudado e que o cenário hoje seja o mesmo. Os filhos de Levi seriam purificados e refinados. Deus precisa de líderes puros. O povo nunca é muito melhor do que os seus líderes. Pode haver exceções, mas via de regra sucede assim. Os sacerdotes precisariam ser purificados para trazerem ofertas em justiça. O ver­ sículo 4 declara que “Judá e Jerusalém” (enfatizando assim a totali­ dade da nação) terá de novo um culto agradável ao Senhor “como nos dias antigos, e como nos primeiros anos”. Deus tinha saudades do passado! Lemos em Jeremias 2:2: “Lembro-me, a favor de ti, da devoção da tua mocidade, do amor dos teus desposórios, de como me seguiste no deserto, numa terra não semeada.” Acabara-se a luade-mel. O que havia agora era uma esposa desinteressada, em nada ligando para o esposo. Muitos crentes já perderam o ardor dos primeiros tempos de sua vida cristã. Infelizmente, também há obreiros que já perderam o entusiasmo inicial pelo ministério. Agora tudo segue numa rotina apática e descolorida. A grave queixa do Senhor contra a igreja de Efeso foi exatamente esta: “Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor” (Apoc. 2:4). Deus espera que retornemos ao entusiasmo dos dias iniciais, ao ardor perdido. Os profetas, principalmente os chamados “menores”, pintam com cores negras “o dia do Senhor”. Israel esperava que fosse um


dia em que ele interviesse na história, destruindo os inimigos da nação e afirmando o seu poder sobre os inimigos de Israel. Ou seja, o dia do Senhor seria contra os outros. Mas o dia do Senhor viria também contra Israel. Assim é dito em Malaquias: “E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra...” e relacionam-se as classes de pessoas contra as quais o Senhor testemunharia. Primeiro ele denunciaria os pecados do seu próprio povo: “avós”. O Batista entendeu isto muito bem: “ ...ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo” (Luc. 3:16). Ele traria a salvação (ilustrada pela expressão “batismo no Espírito Santo”) e a condena­ ção (definida na expressão “em fogo”). Veja-se que Lucas 3:17 nos diz que “A sua pá ele tem na mão para limpar bem a sua eira”, uma figura de linguagem que a BLH traduziu como “Com a pá que tem na mão ele vai separar o trigo da palha” . O trigo, ele recolherá no celeiro (salvação — no paralelismo do versículo anterior, “batis­ mo no Espírito Santo”). A palha, ele queimará em fogo inextinguível (perdição — no paralelismo do versículo anterior, “batizará com fogo”). Jesus Cristo, o Messias esperado, não veio para exaltar a sua nação sobre as demais. Veio para afirmar a moralidade de Deus. Ele não aceita pecado no incrédulo nem no crente. “Chegarei a vós para juízo.” É bom registrarmos que ele também julga o seu povo. Alguns crentes possuem um raciocínio bastante estranho. Presumem que Deus não tolera o pecado no incrédulo e o condena por isto, mas que faz vista grossa aos pecados dos crentes. Talvez isso explique a k-uirgia espiritual de tantos cristãos. Ora, ele tolerará a sujeira na sua piopriedade? O juízo de Deus começa pela sua própria casa! “Pois o lempo de começar o julgamento já chegou, e os que pertencem ao povo de Deus serão os primeiros a serem julgados...” (I Ped. 4:17, BLH). A igreja precisa recordar que, além de ser o padrão para o mundo, ela está sob os olhos de um Deus moral e imparcial. Quem seriam os primeiros a receber o julgamento divino? A pri­ meira classe anunciada é a dos “feiticeiros” . O Oriente Médio era dominado pela bruxaria e a feitiçaria. Muitas vezes a sua dissemi­ nação envolveu o povo de Deus. Moisés teve que enfrentar os magos do Egito quando de sua apresentação a Faraó. Saul envolveu-se com uma médium. A astrologia caldaica foi duramente combatida pelo profeta Isaías (Is. 47:13). Até a igreja primitiva enfrentou problemas com a bruxaria (At. 8:9). Hoje a força demoníaca não é menor. A superstição, o demonismo e a feitiçaria são promovidos com ares de ciência e cultura. Mas Deus não aceita o ocultismo. Ele é o Deus das coisas claras. Ê o Deus que se revelou em Jesus. Ê o Deus que se revelou verbalmente dando-nos uma revelação proposicional na sua Palavra. O ocultismo é envolver-se com demônios. Não traz bem algum. Apenas acarreta o juízo divino.


A segunda classe a sentir o juízo é a dos “adúlteros” . Boa parte do livro já se preocupou com esta classe. A integridade da família era extremamente necessária naqueles dias. Era a base da sociedade judaica e também da própria religião. Em Deuteronômio 6:7 se vê que a instrução dentro dos caminhos do Senhor era responsabilida­ de também da família. Hoje as forças do mal também se voltam violentamente contra a família e contra a igreja de Cristo. Sabem elas que famílias destroçadas produzem sociedades caóticas e, se forem famílias cristãs, abalam a igreja. Deus deseja a santidade da família. Não quer que os laços sejam quebrados. Ele também viria “contra os que juram falsamente” . No judaísmo havia uma ênfase muito forte no testemunho correto e verdadeiro. A palavra era o caráter. Tanto é assim que dabhâr (termo hebraico para “palavra”) era mais que um som, era a extensão da personali­ dade da pessoa. Numa sociedade que acatava a pena de morte, o falso testemunho era, praticamente, a condenação à morte. Corres­ pondia a uma tentativa de assassinato. Não temos pena de morte no Brasil. Mas muita gente já se viu arruinada pela fofoca e pela mentira. Muita gente já perdeu a alegria de viver e até mesmo desejou a morte por ver o seu nome arrastado para a lama por “pessoas zelosas pela pureza da igreja”. Além de crime, o falso testemunho é grave pecado diante de Deus. Pode se eqüivaler a um covarde e premeditado assassinato. Manifesta um baixo nível espiritual. Uma pessoa que assacou inverdades contra a reputação de outra, disse: “Quero vê-lo arruinado.” Depois, foi para um culto de oração... Todos nós somos unânimes em rejeitar o feiticeiro e o adúltero. Mas já não temos tanta unanimidade contra o maledicente. Este não só é tolerado, mas também é muitas vezes estimulado com o interesse anormal que algumas pessoas têm de ouvir referências desabonadoras sobre a vida alheia. O maledicente, entretanto, é colocado lado a lado com o feiticeiro e com o adúltero. Sim, o fofoqueiro não é nada melhor que os outros dois. Lado a lado com o feiticeiro, com o adúltero e com o mentiroso caluniador, está o defraudador do salário do trabalhador, da viúva, do órfão e o que perverte o direito do estrangeiro. Nenhuma igreja decente aceitaria um feiticeiro para o batismo. Tampouco toleraria um adúltero em seu rol de membros. Porém, por que não se vêem exclusões de fofoqueiros? Por que não se disciplinam patrões crentes exploradores do pobre? Por que se excluem pessoas por corte de cabelo, por modelo de roupa, por questões banais e se omitem as questões mais sérias? O Pastor Caio Fábio diz em um livro seu: “Disciplina-se mais na Igreja do Brasil por quebra do estatuto interno do que por desobediência cínica à Palavra de Deus.”41 O que ele, como presbiteriano, chama de “estatuto interno” é o que nós, batistas, chamamos de “disciplina da igreja”. Mas, independente do termo, desconfio que ele tem razão. E isto é muito triste.


No Velho Testamento, a opressão aos pobres é pecado abominá­ vel, e tanto a lei quanto os profetas censuram-na veementemente. A visão social do Velho Testamento é muito aguda e há muitas leis para proteger os necessitados. Mas hoje muitos se agarram a Mateus 26:11 (“os pobres sempre os tendes convosco”) e se eximem de qualquer responsabilidade social. O trecho citado por Jesus é uma parte de Deuteronômio 15:11 que diz: “Pois nunca deixará de haver pobres na terra; pelo que eu te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre ha tua terra.” Jesus empregou apenas a frase contida em Mateus 26:11 porque no contexto em que estava, era o que lhe interessava. Mas ele não revogou Deuteronômio 15:11. Quem desejar usar a frase que ele citou deve cumprir o resto: abrir a mão para o necessitado. Porque Jesus citou Deuteronômio e cumpriu na sua vida o que citou. “Eu te ordeno... livremente abrirás a mão para o teu irmão.” O que dizer de crentes e igrejas insensíveis ao clamor do pobre? O que dizer de igrejas que pagam salários miseráveis a seus pastores? O que dizer de instituições evangélicas que descontam o INPS de seus funcionários e não o recolhem? Que lançam um determinado salário em carteira e pagam outro menor? O que dizer de líderes religiosos que pressionam funcionários a pedir demissão e lhes negam os direitos? Tais líderes estão na mesma categoria de feiticeiros, de adúlteros e de perjuros. Por que não são desligados da igreja? É a igreja realmente o corpo de Cristo ou uma instituição social que pretende manter um moralismo de fachada? Muitas vezes tenho ouvido dizer que a igreja deve ser a consciência crítica do Estado. E quando a igreja não tem consciência, como fazer? Eis uma declaração de Robinson Cavalcanti que nos deve provocar séria reflexão: “A cena de um linchamento de negros nos Estados Unidos, liderado, aliás, por diáconos de Igreja Batista, foi um dos motivos que induziu o grande escritor e sociólogo Gilberto Freyre, exmembro da Primeira Igreja Batista do Recife, a afastar-se da igreja.”42 É pena que a falta de consciência de crentes e igrejas tenham afastado do evangelho aquele que alguns dizem ter sido o maior intelectual do Brasil.43Talvez muito aqui pudesse ser diferente se Gilberto Freyre continuasse como evangélico. Mas pessoas que pensam, que se dão a considerações, em não vendo diferença entre a igreja e o mundo, por que permanecerão na igreja? O Messias voltará. Ele julgará o seu povo. Julgará a igreja. Julgará as instituições e organizações que dizem servi-lo. E, lamen­ tavelmente, se cumprirão as palavras ditas pelo Salvador: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim vós que praticais a iniqüidade” (Mat. 7:22,23).


“Não me temem, diz o Senhor dos exércitos.” Aqui está a resposta. É a falta de temor divino que produz tudo isto. Neemias também viu que sua sociedade estava marcada pela opressão. Vendo o que se passava, declarou: “Porém eu assim não fiz, por causa do temor de Deus” (Neem. 5:15). Lembremos disso e não permitamos nunca que a familiaridade com Deus nos leve a perder o temor que sua santidade exige. E se o tememos, lembremos que o juízo começará por nós. Mas, sem dúvida, a grande mensagem do quarto oráculo é esta:, o Senhor já veio ao seu templo. O anjo do pacto já veio. Esteve aqui em forma humana e se chamava Jesus de Nazaré. Ele virá de novo. Graças a Deus, ele colocará o ponto final na história. Como cristãos, devemos dizer: “Amém; vem, Senhor Jesus” (Apoc. 22:20). Mas fica uma pergunta que não pode ser respondida de forma banal: Quando ele vier, estaremos nós preparados para recebê-lo?


A VIOLÊNCIA CONTRA DEUS “Pois eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. Desde os dias de vossos pais vos desviastes dos meus estatutos, e não os guardastes. Tornai vós para mim, e eu tornarei para vós, diz o Senhor dos exércitos. Mas vós dizeis: Em que havemos de tornar? Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Vós sois amaldiçoados com a maldição; porque a mim me roubais, sim, vós, esta nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança. Também por amor de vós reprovarei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; nem a vossa vide no campo lançará o seu fruto antes do tempo, diz o Senhor dos exércitos. E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o Senhor dos exércitos (3:6-12). O quinto oráculo de Malaquias é intitulado pela BL de “Só se ama a Deus com retidão” . Já a ERAB intitula, por sua vez, de “O roubo no tocante aos dízimos”. É possível ajuntar os dois títulos e compreender que o verdadeiro amor a Deus se manifesta também com as contribuições. O amor a Deus não se exibe apenas com palavras ou com cânticos. Sabendo-se que uma das coisas a que o ser humano mais se apega é os seus bens (e, contextualizando, o seu dinheiro) o verdadeiro amor a Deus há de se expressar na contri­ buição. O tom do presente oráculo é solene. Por quatro vezes encontramos a expressão “diz o Senhor dos exércitos” (v. 7, 10, 11 e 12). O início da argumentação é uma declaração de Iavé sobre si mesmo. Ele afirma a sua imutabilidade: “Pois eu, Iavé, não mudo”. Tiago diz que nele “não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Iavé é imutável. Aliás, o seu próprio nome designa isto: “Eu sou o que sou”. Ele é o Deus que é. Mais do que apenas existir, ele é. Por isso, com bastante propriedade, a BLH traduz o hebraico Iahweh como O Eterno (o que a Bíblia francesa já fizera antes).


Há pecado, há coisas que desgostam o seu ser, que suscitam o seu juízo, mas ele prometeu que protegeria os fiéis, e o faz. O profeta Isaías alista várias declarações candentes sobre o juízo divino contra Judá, mas não deixa de mencionar “o resto” ou “o remanes­ cente” (Is. 10:22). Seu amor dura para sempre e, como ele empenhou a sua palavra com Jacó, há bênçãos para Israel. O versí­ culo 6 chama a atenção para as promessas do passado: “vós, filhos de Jacó” . Iavé está envolvido com os descendentes do homem que com ele lutou e “chorou e lhe fez súplicas” (Os. 12:4). Ele ê leal aos compromissos que assume. E isto é uma grande garantia para nós. Porque ele não muda, “não sois consumidos” . Na VR, a segunda parte do versículo consta como “Por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos”. A idéia é que a fidelidade de Deus ao pacto com Jacó mantém o povo existente. A BdV verte de outra maneira: “Mas vós não deixastes de ser filhos de Jacó” e explica, em nota de rodapé: “A comunidade estava deixando de contribuir com o dízimo. O profeta os censura de tentarem trapa­ cear com Deus como fez Jacó com Esaú” (Gên. 25:29-34). A Bíblia de Jerusalém segue na mesma direção. Sua tradução ficou assim: “Mas vós, filhos de Jacó, não cessastes!” e comenta no rodapé: “Subentendido: ‘de ser o filho daquele que suplantou e enganou seu irmão’ (cf. v. 8, 9)” . As duas versões interpretam que há um jogo de palavras no texto. Mais à frente isso será comentado. Observe-se que há um contraste entre 3:3 (“filhos de Levi”) e 3:6 (“filhos de Jacó”). A palavra não se dirige apenas aos sacerdotes e sim a todo o povo. O pecado que agora se analisa não é de um grupo, mas da nação em peso. O povo estava apartado do caminho “desde os dias de vossos pais” . Não é um pecado inédito (e haverá algum pecado novo debaixo do sol?). Suas raízes podem ser encontradas no passado. Sempre houve em Israel uma incrível vocação para se desviar da Palavra. Há muito que o povo se apartava “dos estatutos” (a Pala­ vra Revelada é assim chamada algumas vezes, principalmente no Sal. 119 — veja os versículos 5, 12 e 16, por exemplo). Muitas vezes os crentes também manifestam a tendência de se prenderem a costumes, a tradições, a regrinhas humanas, minimizando e entor­ tando a Palavra. Isto é pecado. Ele, Iavé, não mudou. O povo mudou. Nós também mudamos. Mas ele permanece o mesmo. De forma admirável o apóstolo Paulo expressou isto: “Se somos infiéis, ele permanece fiel; porque não pode negar-se a si mesmo” (II Tim. 2:13). Mesmo quando nos apartamos dele, ele permanece fiel à palavra que empenhou, esperando o nosso retorno. Por isso que ele diz: “Tornai vós para mim, e eu tornarei para vós.” Tiago também expressou a mesma idéia: “Chegai-vos para Deus e ele se chegará para vós” (4:8). Deus chama o seu povo ao arrependimento. E quando o seu povo se arrepende, ele se chega para abençoá-lo. Ele deseja nos abençoar, e


se não o faz, é porque nossos pecados o impedem. É por isso que ele nos chama à mudança. Ouvindo o chamado ao arrependimento, o povo, cinicamente, indaga: “Em que havemos de tomar?” Para o povo, não havia necessidade alguma de mudança. A BV parafraseou desta maneira: “Quando foi que deixamos o Senhor?” O povo achava que a sua situação espiritual estava boa. Pior que o pecado é a inconseqüência de achar que não se está em pecado. Sim, pior que o pecado é o cinismo de desdenhar o chamado ao arrependimento e obstinar-se em continuar vivendo erradamente. A insensibilidade espiritual é uma desgraça para o homem. Já que o povo acha que não tem do que se arrepender, Deus passa a mostrar o que está errado: “Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos?” O termo hebraico para “roubais” éqâbhâ' que tem a idéia de “tomar à força”. Não era o furto nem a obra de um “descuidista” (como a Polícia costuma chamar os ladrões que se aproveitam de uma ocasião de descuido da vítima). Era algo planejado, intencional. Por isso, Deus via como violência. O termo qâbhâ' só aparece aqui e em Provérbios 22:23, no contexto de uma agressão ao pobre. A subtração do dízimo é vista por Deus como uma violência contra ele. Alguns exegetas traduzem (e parece-me que acertadamente) “roubará” por "suplantará” . Fica então “Suplantará o homem a Deus?” . E assim fazem um jogo de palavras: qâbhâ' (suplantar) com Ya'aqobh (Jacó, suplantador). Assim se justificam as interpretações da BdV e da BJ: o povo é “filhos de Jacó” , ou seja, “filhos do suplantador” . O povo não per­ dera o caráter do velho Jacó. Continuava desonesto. Uma possível desculpa que poderia ser dada era que a situação econômica estava difícil. Os versículos 9-11 mostram que os tempos eram difíceis. Era uma ocasião de crise econômica. Não seria desculpável, neste momento, suprimir o dízimo e cuidar de si mesmo? Winward comenta sobre esta provável desculpa dos pão dizimistas: “As pessoas, sem dúvida, usam a dificuldade dos tempos como uma desculpa para a sua frouxidão nos compromissos, mas o profeta interpreta isso como se fosse o sinal exterior de um desprezo interno por Deus.”44 É uma questão de prioridades. Se Deus tiver o primeiro lugar, a sua causa não será nunca prejudicada. Mas, quando se despreza a Deus, no íntimo, qualquer desculpa é saudada com alegria. “Em que te roubamos?” Permanece o cinismo do povo. “Nos dí­ zimos e nas ofertas alçadas” (VR) ou, como diz a BL: “nos dízimos e nos impostos". Trata-se dos impostos do templo que susientavam os levitas. Sobre as “ofertas" ou "impostos", assim comenta a Deã das Mulheres do Trinity College, Joyce Baldwin: “Ofertas eram as partes dos sacrifícios separadas para os sacerdotes (Êx. 29:27,28, Lev. 7:32,_Núm. 5:9), e as ofertas voluntárias com uma finalidade especial (Êx. 25:2-7). Uma das tarefas de Neemias foi garantir que


os suprimentos destinados ao serviço do templo não faltassem, como ocorreu durante sua ausência (Neem. 13:10-13). Quando ninguém trazia ofertas, os levitas não tinham outra opção senão desistir do seu ministério e ganhar o seu sustento na agricultura.”45 “Sois amaldiçoados.” Pela terceira vez, Malaquias trata da questão de uma maldição divina. A primeira vez é em 1:14 e se dirige contra um elemento qualquer. A segunda, em 2:2, tem como alvo os sacerdotes. E a terceira é aqui, mas contra toda a nação. Deus não vê apenas os pecados de indivíduos. Ele também vê o das nações. Por isso que o seu juízo, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, se derrama sobre nações. Individualizamos em dema­ sia o interesse de Deus. É por todos. Ê por países. Imaginemos, então, o nosso Brasil: nele campeiam a idolatria, a feitiçaria, a corrupção e a exploração dos menos favorecidos. E ainda se emprega a ridícula frase “Deus é brasileiro.” Há muito tempo que somos uma nação em pecado, sob o juízo de Deus. Nossa situação econô­ mica, por exemplo, consegue ser pior de um ano para outro! O que se pode esperar de um país onde não há verbas para saúde e para a educação, mas há de sobra para bacanais como o carnaval? Deus declara o seu juízo sobre quem não o honra, sobre quem o defrauda. Deus não se agrada da exploração do pobre (e aqueles que julgam que declarar isto é pronunciar-se politicamente, devem optar: ou aceitam a declaração, ou renunciam ao ensino do Velho Testamen­ to) . Deus não vê com satisfação os pecados sociais. No versículo 11 encontramos a explicitação do juízo divino sobre Judá: seca, crise econômica e fome. Há uma firme convicção no Velho Testamento, principalmente nos profetas: Iavé é o Senhor da natureza. Ele é o Deus do tempo, do clima. Já cometemos um grave equívoco quando banimos Deus da sociedade para dentro de nossos templos. Cometemos outro quando o banimos da esfera do poder da natureza para a esfera do individual e do pessoal. Muitas das dificuldades climáticas que hoje enfrentamos podem perfeitamente ser conseqüência do pecado. Pecamos contra o Deus da natureza quando destruímos sua criação, desmatando, desarborizando, cons­ truindo em encostas, alterando microclimas, e depois nos surpreen­ demos com os “acidentes climáticos” como os que sucederam em Petrópolis e no Rio de Janeiro, em 1988. Mas vou um pouco além, mesmo correndo o risco de vir a ser chamado de ingênuo ou de medieval: creio piamente que Deus pode trazer juízo sobre nações inteiras em forma de acidentes climáticos, por causa do pecado. Não crer nisto é encarar o ensino do Velho Testamento que nos mostra o poder de Iavé sobre as forças da natureza como rudimentos infantis de uma religião primária. É um perigo não honrar a Iavé. É grave risco defraudá-lo. Por isso nos diz Moore: “Podemos tentar defraudar a Deus, mas no final das contas, estaremos defraudando a nós mesmos.”46 Como bem o disse o profeta Obadias, “o teu feito tornará sobre a tua cabeça” (Ob. v. 15).


Há uma ordem divina no versículo 10: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro.” Este é o trecho mais conhecido e utilizado em Malaquias. A VR traz “todos os dízimos”. A BL traz “todo o dízimo” , já apresentando outro sentido que a BdV e a BJ ampliam: “o dízimo integral”. É para se trazer o dízimo todo e não apenas uma parte dele. Ananias e Safira trouxeram apenas uma parte, e o Senhor os castigou, não tanto por terem trazido apenas uma parte, mas por terem querido dar a impressão de que deram tudo. O Se­ nhor merece a integralidade da oferta. Os dízimos devem ser trazidos “para que haja mantimentos” . O hebraico traz tereph, "comida”. Sem os dízimos e as ofertas (ou impostos do templo), os levitas não tinham como se manter. Sobre seu valor, diz-nos Wolf: “Os dízimos e as contribuições foram instituídos no tempo de Moisés e eram muitas vezes um barômetro do estado espiritual em que a nação se encontrava. Tais recursos pertenciam ao Senhor, juntamente com os holocaustos, os sacrifícios, as ofertas votivas, e também o ‘primogênito das vossas vacas e das vossas ovelhas’ (Deut. 12:6). O dízimo é a décima parte da renda da pessoa, o produto dos campos e das árvores frutíferas (Lev. 27:30; Deut. 14:22). Visto que os levitas não possuíam terras, o dízimo lhes pertencia (Núm. 18:21). Normalmente, era levado ao santuário em Jerusalém e usado nas refeições sacrificiais (Deut. 14:22-27). Cada terceiro ano, o dízimo devia ser usado na cidade natal da pessoa pelos levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas (Deut. 14:28). Falhar em dar o dízimo constituía outra maneira de oprimir o pobre (3:5).”47 Era um problema antigo, e Neemias já o enfrentara: “Também soube que os quinhões dos levitas não se lhes davam, de maneira que os levitas e os cantores, que faziam o serviço, tinham fugido cada um para o seu campo” (Neem. 13:10). Infelizmente esse não foi um problema que o tempo esgotou. Sucede ainda hoje, em nossos dias. Comentando o texto ora citado de Neemias, em outra publicação, este autor declarou: “Há pastores que optaram pelo ministério de tempo parcial. Respeite-se a decisão deles. É questão de foro íntimo. Mas alguns gostariam de exercer um pastorado de tempo integral, estão à frente de igrejas que poderiam dar-lhes sustento integral (pois tempo integral deve merecer sustento integral) e são obrigados a ‘fugir para o seu campo’. Isto é falta de visão dos membros da igreja.”48 Como estão os nossos levitas? “Fazei prova de mim”. Deus pede para ser posto à prova! Ele é fiel. Ele promete abrir as janelas do céu e derramar bênção sobre o dizimista fiel. Em Gênesis 7:11 as janelas do céu se abriram para derramar o juízo. Então veio o dilúvio. Iavé anuncia dilúvios de bênçãos para o fiel. A BL traduziu como “as cataratas do céu”. É uma idéia de fartura. Por isso, bem parafraseou a BV: “Abrirei as janelas do céu e derramarei uma bênção tão grande que não terão lugar onde guardá-la.” Devemos ter muita cautela para evitarmos a “teologia do suces­ so”, um estranho tipo de pregação que insinua que o sinal mais


evidente de fidelidade a Deus é a prosperidade e a riqueza. Ou seja, se alguém estiver em dificuldades financeiras ou mesmo qualquer outro tipo de problema, aí está um crente em pecado. Sobre tal pensamento, assim nos diz Robinson Cavalcanti: “Condicionado a esse pensamento, se você se colocar dentro das teologias do nosso tempo, especialmente a famosa teologia da vida cristã vitoriosa — ‘converta-se, trabalhe e enriqueça!’ — e não ficar rico, é porque algo em sua vida espiritual deve estar errado...Infelizmente esta é a maneira de muitos pensarem. Se fizermos uma analogia com o pessoal do Maranhão, por exemplo, o que seriamos levados a concluir, dentro desses termos, é que todos ali estão péssimos espiritualmente, pois não conseguem enriquecer.”49 A “teologia do sucesso” é um primarismo intelectual e bíblico muito grande. Não é verdade que prosperidade, por si só, seja sinal de bênção de Deus. Por analogia, teríamos que dizer que dificuldades, por si sós, são sinal de pecado. Os mártires do cristianismo seriam, então, grandes pecadores. Aliás, uma excelente refutação à “teologia do sucesso” é Quando Coisas Ruins Acontecem com Pessoas Boas, do rabino Kushner,50 inclusive com uma muito bem fundamentada crítica à postura de muitos cristãos em adotarem um padrão conformista diante do mal, dizendo que a desgraça que lhes sobreveio é vontade de Deus. Mas se devemos nos prevenir contra o engodo da “teologia do sucesso” , precisamos levantar uma questão: É bíblico um cristão viver sempre derrotado? Estará certo um crente marcar passo por toda a vida, jamais recebendo qualquer bênção de ordem material, sabendo que a bondade de Deus não se restringe ao campo espiritual? Nosso mundo é muito mais intrincado do que o de Malaquias, com vários fatores determinantes da vida interligados, mas não é possível presumir que alguém ame a Deus e nunca tenha sua orientação e bênção também na esfera dos negócios materiais. O versículo 11 nos permite ver qual era a maldição: seca e gafanhotos. A VR traz “reprovarei o devorador” e, em nota de rodapé, remete o leitor para Joel 1:4, onde “devoradora” é o gafanhoto. Além disso, ele impediria que o fruto secasse no pé e caísse. Quando houvesse arrependimento e adoração com dízimos e ofertas, a bênção voltaria, pois os inimigos da colheita seriam afastados. Então, “todas as nações vos chamarão bem-aventurados”. “Nações” é o hebraico gôyim, termo já comentado na página 35. Outros países reconheceriam que Judá era “bem-aventurado”. A LXX traz makaryôsyn, que é o mesmo termo utilizado nas bem-aventuranças do sermão do monte, makaryôy. As nações gentias veriam a bênção de Iavé sobre Judá. Isto deve nos instigar. O mundo vê a bênção de Deus na igreja? Ou a vê como uma comunidade desorientada, cheia de conflitos e de traumas? Em nossas vidas é possível as pessoas verem o cuidado de Deus por nós?


Que estão mostrando ao mundo igrejas derrotadas e crentes frustra­ dos, em cujas vidas nunca se vê o poder de Deus operar? “Sereis uma terra deleitosa.” Para povos camponeses, nada melhor que uma terra edênica, repleta de prazeres. Era um sinal do favor divino. Pois bem, nossas igrejas são uma terra deleitosa, um Éden, ou um deserto?


EXISTE UMA DIFERENÇA As vossas palavras foram agressivas para mim, diz o Senhor. Mas vós dizeis: Que temos falado contra ti? Vós tendes dito: Inútil é servir a Deus. Que nos aproveita termos cuidado em guardar os seus preceitos, e em andar de luto diante do Senhor dos exércitos? Ora pois, nós reputamos por bem-aventurados os soberbos; também os que cometem impiedade prosperam; sim, eles tentam a Deus, e escapam. Então aqueles que temiam ao Senhor falaram uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que lembravam do seu nome. E eles serão meus, diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que prepararei; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve. Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que o não serve. Pois eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como restolho; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo. Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo curas nas suas asas; e vós saireis e saltareis como bezerros da estrebaria. E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas dos vossos pés naquele dia que prepararei, diz o Senhor dos exércitos (3:13 a 4:3j. No sexto oráculo de Malaquias estaremos acompanhando a divisão do texto bíblico que nos foi legado pela LXX, que tem o capítulo 4. Nossas bíblias em português, tanto da IBB quanto da SBB, aceitaram o esquema do texto grego. As versões católicas mais modernas (BdV, BJ e BL) seguem alguns textos hebraicos que estendem o capítulo 3 até o versículo 24, englobando assim o capítulo 4. A Matos Soares, católica, porque traduzida da Vulgata, tem o capítulo 4. Em inglês, a King James e a New American Standard Bible têm o capítulo 4. Da mesma forma a Version Reina-Valera, em castelhano.


Sobre as variações é oportuna a declaração de Bennett: “A Sep­ tuaginta, a Vulgata e alguns manuscritos hebraicos começam um capítulo novo em 4:1. Mas a melhor tradição hebraica (MT) estende a continuação do capítulo 3 até o fim do livro.”51 Isso explica as variações nas traduções. Conforme os textos antigos que seguem, dividem ou não o capítulo 3 em dois, fazendo surgir um quarto. O assunto é o mesmo de 2:17: a queixa divina contra a acusação que o povo lhe fizera de omisso e de favorecimento do injusto. Os versículos 13-15 narram o desgosto divino com a acusação, princi­ palmente o versículo 13: “As vossas palavras [as de 2:17] foram agressivas para mim.” O versículo 14 traz a queixa explícita do Senhor: “Vós tendes dito: Inútil é servir a Deus. Que nos aproveita termos cuidado em guardar os seus preceitos, e em andar de luto diante do Senhor dos exércitos? Sim, vale a pena guardar a lei e manter uma atitude humilde e quebrantada? O versículo 15 resume bem a posição do povo: “Ora, nós reputamos por bem-aventurados os soberbos; também os que cometem impiedade prosperam; sim, eles tentam a Deus e escapam.” Ê a mesma acusação contida em Sofonias 1:12. O povo servia a Deus, estudava a lei, sacrificava e dizimava. Mas a sua vida era difícil! Os pagãos em redor não faziam nada disso e prosperavam. Estavam vivendo bem. Qual é, então, o valor da fidelidade? Este é um problema contemporâneo. No nosso país, infelizmente, a corrupção campeia. A prosperidade de gente desonesta é flagran­ te. O homem cumpridor dos seus deveres, honesto, acatador da lei, vê-se muitas vezes imobilizado. Nem sempre prospera. Vale a pena, em nossos dias, ser justo? Consideremos alguns fatos como resposta: Primeiro: Deus merece o nosso amor pelo que é e não pelo que pode nos dar. Quando Jesus decidiu que voltaria à Judéia para ver Lázaro, os discípulos se inquietaram: “Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejarte, e voltas para lá?” E diante da obstinação do Mestre vem a extraordinária palavra de Tomé (tão criticado em nossas pregações): “Vamos nós também, para morrermos com ele” (João 11:16). Se a única coisa que Jesus podia oferecer a Tomé era a morte, Tomé a aceitava resolutamente. Nós amamos a Cristo ou queremos apenas o seu favor? Segundo: A situação presente é transitória. No meio dos seus sofrimentos, Jó nos brindou com dois discursos sobre o ímpio na terra, sendo que o segundo complementa o primeiro. No capítulo 21 Jó fala sobre a prosperidade dos ímpios. Eles prosperam. Mas, no capítulo 24, Jó contesta que eles fiquem sem castigo nesta vida. Prosperar eles prosperam, mas Deus os julga. Terceiro: Lembremos o comentário de Paulo em I Coríntios 15:19: “Se é só para esta vida que esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima.” Não podemos reduzir as implicações da fé à dimensão horizontal. A necessidade de recuperarmos a noção de justiça social,


tão deslustrada em nosso meio, não pode nos levar à perda da convicção de uma justiça escatológica. Seria um reducionismo secularizante. O versículo 15 recebeu uma redação bem expressiva na BJ: “Agora, pois, vamos felicitar os arrogantes; aqueles que praticam a iniqüidade e prosperam; eles tentam a Iahweh e saem ilesos.” Mas será que saem mesmo? “Certamente tu os pões em lugares escorre­ gadios, tu os lanças para a ruína. Como caem na desolação num momento! ficam totalmente consumidos de terrores” (Sal. 73:18, 19). A diferença fundamental entre o que teme a Deus e o que não o teme é que, no momento de crise, o temente tem onde firmar os pés. E qual é a segurança espiritual e emocional do que não teme a Deus? Se a prosperidade fosse o bem maior, não haveria suicídios, crises existenciais e abarrotamento de clínicas psiquiátricas, por parte dos ricos. Mas aqueles “que temiam ao Senhor” (e por duas vezes o versículo 16 usa a expressão) reagiram. Mesmo nos momentos de decadência espiritual, os fiéis aparecem. Sempre há um grupo temente a Deus. Aqui, eles se unem. Falam uns com os outros, apóiam-se mutuamente e se ajudam. É muito bom quando isto acontece. Neste caso, o Senhor os ouviu e atentou para eles. “Um memorial foi escrito diante dele” (do Senhor). Era costume dos reis orientais ter um livro de feitos, de atos memoriais. Veja-se Ester 6:1, na ERAB, por exemplo. Deus também tem um livro de registros. Moisés pediu: “Agora, pois, perdoa o seu pecado; ou se não, risca-me do teu livro, que tens escrito” (Êx. 32:32). Mas, bem o nota Adamsom, e conceda-se-lhe o crédito da observação: “Malaquias parece ser o primeiro que relaciona este livro com a escatologia.”52 Mais tarde, a identificação do livro de anotações divinas com o sentido escatológico se tornará cada vez maior, como em Apocalipse 20:12 (“livro da vida”). Sobre o “memorial” eis o que diz a RE: “Livro das recordações é um termo raro no Velho Testamento, mas há várias outras referências aos registros feitos por Deus sobre os atos do povo (Neemx 13:14, Dan. 7:10 e 10:21) ou dos nomes das pessoas leais a Ele (Êx. 32:32-34, Sal. 69:28, Ez. 13:9) (...) Livro das recordações pode ser uma metáfora para o compromisso de Deus em lembrar e salvar os fiéis na hora do julgamento (cf. Is. 4:3, Dan. 12:1). Por outro lado, dá-se importância na comunidade pós-exílica ao registro dos nomes de pessoas que decidiram servir a Deus quando do retorno a Jerusalém ou quando se tornaram participantes do pacto. ”S3 Os que tiveram seus nomes registrados serão “minha possessão particular”, diz o Senhor dos exércitos. Em Exodo 19:5, a expressão se aplica a todo o Israel. Agora, após o cativeiro, aplica-se a um pequeno grupo dentro da comunidade. Vai-se refinando, afunilan­


do, o povo de Deus. Não é mais a totalidade dos judeus. “Porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Rom. 9:6). Deus se lembrará deles “naquele dia que prepararei”. Em 4:3, Iahweh Sebaôth fala novamente do “dia que prepararei”. Em João 14:2, Jesus diz: “Vou preparar-vos lugar.” Ele prepara lugar para o seu povo, mas também o faz para os rebeldes. Ele está preparando juízo, é o ensino malaquiano. Naquele dia, “poupá-lo-ei, como um homem poupa o seu filho, que o serve” (v. 17). É a mesma idéia do Salmo 103:13. Ele vela pelos seus. É o Deus que guarda o seu povo. Naquele dia “vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não serve”. Existe uma diferença. Deus a apregoa por toda a Bíblia. Israel viu isso nas pragas do Egito que não o atingiram. E lê-se em Êxodo 11:7: “Mas contra os filhos de Israel nem mesmo um cão moverá a sua língua, nem contra homem nem contra animal; para que saibais que o Senhor faz distinção entre os egípcios e os filhos de Israel.” O dia do Senhor “vem ardendo como fornalha”. Em 3:2 se fala do fogo do ourives para purificar os filhos de Levi. Aqui, é para juízo. “Fornalha” é o mesmo termo traduzido por “forno aceso” em Oséias 7:4. Ele vem para julgar e deixará os ímpios “sem raiz nem ramo”, figura de queima total. “Mas para vós que temeis o meu nome” há um outro tratamento. “Nascerá o sol da justiça”. Bela expressão poética e de rico significado teológico. Em Isaías 60:19-20, Iavé é a luz perpétua. Já no Salmo 84:11, ele é “sol e escudo” . O sol é fonte de vida. Sem ele nós não viveríamos. Deus é o sol do fiel. Mas não apenas o sol, e sim o sol da justiça. O termo hebraico é c^dhâqâh. Sobre a expressão, assim comenta KD: “Cedhâqâh é aqui, como o é freqüentemente em Isaías (e.g. 45:8, 46:13, 51:5, etc.), retidão em suas conseqüências e efeitos, a totali­ dade e a essência da salvação.”54 Sim, existe uma diferença entre um fiel e um ímpio, entre um salvo e um perdido. “Sol”. Entre os orientais, o sol era cultuado como se fosse uma divindade. No Egito, chamado de Ra, e na Babilônia, chamado de Shamash. Os judeus, porém, nunca cultuaram os astros. O texto de Gênesis 1 mostra Deus como o criador da natureza e não um com a natureza. Ele não se mistura com ela. Em Isaías 44 e 45 o poder criador de Deus é muito bem ressaltado. Não se confunda, portanto, a figura de linguagem. O leitor desejoso de conhecer mais sobre o ponto de vista bíblico que relaciona corretamente Deus e a criação, deve ler Poluição e a Morte do Homem, de Francis Schaeffer.55 “Sol da justiça” é um termo messiânico. Jesus Cristo é aquele que traz a totalidade das promessas de Deus para nós. É a presença dele na vida de uma pessoa que faz com que haja uma diferença. Existe nma diferença entre aquele que o tem como Salvador e aquele que não o tem.


A LXX traduziu “sol da justiça” por anatolê. É o mesmo termo encontrado em Lucas 1:78: “Graças à entranhável misericórdia do nosso Deus, pela qual nos há de visitar a aurora lá do alto”, referência àquele que viria após João, o Batista. Refere-se a Jesus Cristo, portanto. “A aurora lá do alto” é ele. O texto grego traz anatolê, procedendo a uma identificação muito acertada. O “sol da justiça” traria “curas nas suas asas”. Comentando a passagem, em outra publicação, este autor declarou: “A profecia do Senhor é gradual, de completação sucessiva. O cumprimento é paulatino: ‘Mas, para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça trazendo cura nas suas asas.’ É esta a melhor tradução. É o que o hebraico diz, literalmente. Entenda-se que as asas do sol são seus raios. Aos ímpios, o fogo destrói. Aos justos, o sol traz ‘cura’ (ou ‘saúde’, que é o que se entende). Esta é a proposta do Senhor: morte ou vida.”56 “E vós saireis e saltareis como bezerros das estrebarias.” É a ale­ gria do justo quando o Senhor se revelar. O profeta nos traz a figura dos bezerrinhos presos na estrebaria. Eles necessitam exercitar as pernas, mas estão presos. Quando se abrem as portas (“e vós saireis”) eles saem aos saltos, de alegria, pela liberdade e pelo exercício. É uma figura de alegria e de liberdade. Existe uma diferença: o medo do juízo para o que não teme a Deus, mas a alegria para aquele que teme. Não é apenas a alegria, mas a vitória escatológica: “E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas dos vossos pés.” O justo é pisado pelo ímpio, explorado por este. A noção de uma vitória final do oprimido e a destruição do opressor é uma nota constante da literatura apocalíptica. E, no caso, é o próprio justo quem vence e esmaga o injusto. A idéia de os ímpios se desfazerem em cinzas sob os pés dos justos mostra a vitória total do bem e a aniquilação total da impiedade. Existe uma diferença: o fiel há de triunfar e os infiéis hão de ser aniquilados. Assim termina o sexto oráculo de Malaquias. E se aceitarmos a idéia de que a admoestação final (4:4-6) é uma adição ao livro dos Doze (assunto a ser tratado no próximo capítulo), o livro terminaria com a palavra “Senhor dos exércitos”. Mas, mesmo não aceitando a idéia, o fato é que o “Senhor dos exércitos” é a última expressão do último oráculo de Malaquias. _


O GRANDE E TERRÍVEL DIA “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, a qual lhe mandei em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e ordenanças. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição (4:4-6). É oportuno começarmos este capítulo com a citação do The Broadman Bible Commentary: “H. H. Rowley sugeriu que o editor geral que completou a redação do Livro dos Doze (os profetas meno­ res) é o responsável pelos versículos finais de Malaquias. Com isso ele pretendia muito mais completar a coleção profética do que propria­ mente o livro em si.”57 Registre-se a opinião do ilustre professor e observe-se que os versículos finais de Malaquias servem tanto para um fim quanto para outro. No entanto, parece mais lógico aceitar a unidade do livro e que os versículos finais dizem respeito a Malaquias. O trecho começa com “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo” . Embora em todo o livro, anteriormente, não apareça a expressão “lei de Moisés” (o que poderia fortalecer o argumento de Rowley) por todo ele se enfatiza a obediência devida à lei. A chamada à obediência e ao compromisso está presente em cada declaração do profeta. “Lembrai-vos” é uma típica expressão do Deuteronômio, onde a admoestação principal é a recordação dos atos e da palavra de Deus. Os hebreus são exortados a olharem para trás, para o passado, e recordarem dos compromissos, estatutos e ordenanças do Senhor. Assim termina Malaquias: exortando os fiéis aos “estatutos e ordenanças” que o Senhor entregou a Moisés no Horebe. Junto com Moisés cita-se Elias. Mas se o primeiro aponta para o passado, o segundo, embora seja do passado, aponta para o futuro, para aquilo que o Senhor fará: “enviarei o profeta Elias”. É bem


sábio que o Velho Testamento termine mostrando o que Deus fez e o que ele fará. Porque Deus não morreu. Ele ainda age na história. Mas por que, mais uma vez, surge a figura de Elias? Porque “novamente Elias serve de catalisador moral da nação. Nenhum outro profeta mudou a atitude dos seus contemporâneos de maneira tão dramática, nem influenciou tanto o destino da nação. Se Malaquias tinha em mente o mensageiro de 3:1-3, Elias tinha mandado descer fogo do céu (I Reis 18:38), visto o vento, o terremoto e o fogo do Senhor no Horebe (I Reis 19:11,12), e subira ao céu num carro de fogo diante de Eliseu. O fato de ele não ter passado pela morte sugeriu que ele ainda vivia para terminar seu trabalho (cf. II Crôn. 21:12).”58 Por isso que ele viria “antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” . Nos profetas menores, a expressão “dia do Senhor” é escatológica, aludindo a uma súbita e decisiva intervenção de Deus na história. Neste sentido, o dia terrível se deu em Jesus Cristo e o Elias que o precedeu foi João Batista, como visto antes. Uma das suas funções foi converter o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. Isto significa mais do que acabar com os conflitos de gerações. Há um sentido mais amplo, que é o de unir pais e filhos em torno de uma pessoa. No judaísmo, o lar era um centro de ensino sobre Deus e sua Palavra. A nova idade que Elias viria anunciar e que Jesus Cristo, o Messias, implantaria, teria uma mensagem possível de reunir toda a família. Os laços familiares continuam sagrados na nova revelação. Mas há algo mais a considerar. Moisés tipifica a Lei. Elias tipifica os Profetas. Em Mateus 17:5, eles estão com Jesus, no episódio da transfiguração. Lei e Profetas (a velha revelação) e a Graça (a nova revelação) estão presentes. Temos, então, a declaração do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” A nova idade a ser inaugurada será regida pela voz de Jesus Cristo. O povo é exortado a lembrar da lei de Moisés e dos estatutos e ordenanças que o Senhor lhe entregou em Horebe, mas como bem o dirá o Novo Testamento: “Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (João 1:17). O Velho Testamento vai definindo a vinda súbita do Senhor e o Novo utilizará seus elementos para mostrar que Deus interveio na pessoa de Jesus de Nazaré. “E erguendo eles os olhos não viram a ninguém, senão a Jesus somente” (Mat. 17:8). É Jesus, e não Moisés e Elias, quem deve ser ouvido. É Jesus o foco de atenção na nova revelação, e não Moisés e Elias. “Para que eu não venha e fira a terra com maldição.” Os corações de pais e filhos, unidos, seriam motivo para sustar a ação divina em ferir a terra com maldição. “Maldição” é o hebraico herem, o mesmo termo de Josué 6:17 e ali traduzido por anátema na VR. Ê um termo ligado à destruição. Não se trata de maldição corretiva, mas punitiva. O sucessor de João viria para anunciar a salvação e


para evitar a punição de Deus aos homens. Em Jesus Cristo, Deus nos salva e nos livra do juízo. “Maldição” é a última palavra do Velho Testamento, na ordem das nossas bíblias (a ordem do Velho Testamento hebraico tem II Crônicas em último lugar). As cortinas da Velha Revelação se fecham com “maldição” . É muito atraente a estrutura dos livros bíblicos. O livro de Gênesis começa com o homem num jardim e termina com o homem num caixão. Dois limites: onde Deus o colocou e onde o homem termina, por ter optado pela desobediên­ cia. O livro de Gênesis termina com a família escolhida se instalando no Egito e o do Êxodo se abrirá com a família escolhida oprimida no Egito, de lá precisando sair. O Velho Testamento termina com “maldição” e o Novo se abrirá com a expressão “Livro da genealo­ gia de Jesus Cristo” . Nele não há maldição. Ele veio para removê-la de sobre nós. O reino que ele veio implantar não conhece maldição: “Ali não haverá jamais maldição” (Apoc. 22:3). Jesus Cristo veio para acabar com a maldição Ele venceu o pecado e aboliu a maldição do castigo. Ele derrotou a Satanás e nos abriu a possibili­ dade de uma vida livre do jugo do inimigo das nossas almas e debaixo dos cuidados de Deus. Ele nos trouxe bênçãos sem conta prometidas aos que crêem nele. Por isso, “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo” (Ef. 1:3). E assim se fecha o Velho Testamento: falando do Messias que vem. E assim se abrirá o Novo Testamento, pouco depois, anun­ ciando que o Messias nos veio. E, o mais comovente: o Novo Testa­ mento se encerrará anunciando o retorno do Messias. Regozijemonos com a excelente notícia de que ele já veio. Firmemos a nossa fé na doce expectativa que pode ser resumida na extraordinária promessa: ele voltará. “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim, Amém” (Apoc. 1:7). Na expectativa de que ele voltará, digamos: “Amém; vem, Senhor Jesus” (Apoc. 22:20).


O DESAFIO DE MALAQUIAS Tendo visto o conteúdo do livro do último profeta, não podemos deixar de considerar o desafio que ele traz para as nossas vidas. Na realidade, o desafio de Malaquias é bem simples e se resume em uma das maiores necessidades da igreja contemporânea: levar o Senhor a sério, correspondendo ao seu amor. O número de “encos­ tados” em nossas igrejas é muito grande. E a mensagem de Malaquias se aplica a nós também. Iavé tem ahâbh pela sua igreja: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Ef. 1:4). Um amor tão sério e tão profundo não pode ser tratado levianamente por nós. A visão do amor divino deve produzir em nós um sentimento de gratidão e um constrangimento que nos leva a um envolvimento maior com ele. “Pois o amor de Cristo nos constrange...” (II Cor. 5:14). É o amor que deve motivar toda a nossa vida cristã, inclusive o serviço. Assim nos diz Autrey: “Jesus exigiu que o motivo de Pedro para seu serviço fosse agápe, e não dever. Prevalece o institucionalismo, quando a igreja serve motivada por qualquer outra lealdade que não o agápe. O ponto de vista e a atmosfera de uma igreja são determinados pela motivação. Isto é muito mais básico no evangelismo do que em qualquer outra coisa.”59 Há o desafio da necessidade de uma liderança séria. Se o coronelismo e o mandonismo são errados (João se queixou do “mandão” Diótrefes — III João 9), a frouxidão não é mais correta. Malaquias nos desafia ao exercício de uma liderança espiritual séria, quebrantada, que honre a Deus com a sua vida. Uma liderança que seja pautada por valores espirituais e não por rabugice. Seriedade e austeridade não significam mau humor. Precisamos de uma lideran­ ça que ame a Deus mais do que às suas próprias idéias. Uma liderança que antes de exigir do povo dê-se primeiro a Deus, servindo assim de um exemplo para o povo. Não nos esqueçamos do desafio que Malaquias nos faz de um ensino não relaxado. É triste observar o malbaratamento do púlpito, com tanta falta de conteúdo. É um pouco desagradável um pastor


falar sobre isto porque alguém, sentindo-se atingido, poderá acusálo de se colocar como melhor do que os outros. E um risco a correr, porque pior é silenciar diante de tanta banalidade e irrelevância e até mesmo de ufanismo pessoal, em nome do Senhor. O púlpito é um lugar sério. Não é para mediocridade. E, além de um ensino necessariamente coerente e lúcido, este precisa ter autoridade espiritual. “É preciso acreditar no que se faz ou diz. Um bom advogado é o que acredita na sua causa, na inocência do cliente que defende. Um bom pregador é o que crê realmente em Deus. Um bom professor é o que transmite realmente conhecimentos profun­ damente digeridos e simplificados.”60 Um bom pregador crê no que prega e vive o que crê. A integridade moral e espiritual do líder é fundamental para o sucesso do seu trabalho. Outro desafio, vimos, é o da manutenção da família e sua utilização para promoção do reino de Deus. O casamento que envolva a mistura de “fés” não é o ideal de Deus. O divórcio também não é o ideal divino. Vivemos numa sociedade que banaliza o adultério e as relações efêmeras. Por isso, a palavra de Deus exaltando a família e declarando que ele odeia o divórcio deve ser bem ouvida. E fica o desafio de medidas profiláticas que a igreja deve tomar. O sexo não é imundo nem matéria a ser omitida nos currículos da igreja. Uma teologia do sexo e da família deve ser objeto de consideração por parte da igreja. E lembremos que a família não é meramente um evento social. Cada família cristã deveria ser uma igreja. Paulo saudou ao casal Ãqüila e Priscila com uma frase de profundo conteúdo: “Saudai também a igreja que está na casa deles” (Rom. 16:5). O binômio “igreja e casa” deveria ser uma constante entre nós. Há também o desafio de uma adoração não apenas com os lábios, mas com a vida. Com os bens. O desafio de dar o melhor para Deus e não o bagaço. Os latinos usavam a expressão res.non verba (fatos, não palavras) para designar uma situação que exigia atos e não apenas declarações. O autêntico culto a Deus é aquele ao qual se pode aplicar o adágio latino. Iavé espera a coerência dos seus fiéis. Não apenas declarações verbais, mas atos de vida. Mais: o desafio de se crer que existe uma diferença entre o justo e o ímpio e que devemos viver diferentemente. Que não podemos nos desesperançar com o progresso do mal, mesmo que avassalador. Nas palavras de Jesus, o joio cresce junto com o trigo, mas há de ter o seu fim. O cristianismo é a mensagem do Cristo vitorioso, et pour cause nunca pode servir de pretexto para conformismo e acomoda­ ções derrotistas. Não é o abrigo dos fracassados, mas daqueles cheios de ideais, que amam e que buscam a vitória. Não se permite ao cristão ser massificado pelo mundo. Dele se espera a coragem de ser diferente, sabendo que sua ousadia não é em vão. E o agradabilíssimo desafio: O que dizer da incomum figura do Messias de Deus, Jesus de Nazaré, deste homem que dividiu a


história em antes dele e depois dele? Como permanecer alheio e desatento a tão provocativa figura? Ei-lo a exigir de nós um engajamento total na sua obra e não uma adesão parcial ou ocasional. Ei-lo a nos dizer que voltará e concluirá sua obra, em termos de consumação. Ei-lo a esperar de nós amor por ele e santificação de vida para dedicá-la na sua obra. É o desafio que deve nos incomodar: viver à altura do nome de “cristãos”.


NOTAS BIBLIOGRÁFICAS 1. MARTIN-ACHARD. Como Ler o Antigo Testamento. São Paulo, ASTE, 1970, p. 77-78. 2. WRIGHT, G. E. O Deus Que Age. São Paulo, ASTE, 1967. p. 17. 3. KELLEY, P. H. Mensagens do Antigo Testamento Para os Nossos Dias. Rio de Janeiro, JUERP, 1980, p. 31-32. 4. CRABTREE, A. R. O Livro de Oséias. Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1961, p. 224. 5. LLOYD-JONES, M. Do Temor à Fé. São Paulo, Editora Fiel, 1985, p. 90. 6. BALDWIN, Joyce. Ageu, Zacarias e Malaquias. São Paulo, Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, s.d., p. 177. 7. BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Pau­ lo, ASTE, 1968, vol. 2, p. 182. 8. Ib, ibid. O grifo é de Bentzen. 9. WINWARD, Stephen. A Guide to Prophets. Atlanta, John Knox Press, 1976. p. 216. 10. PAUL, André. O Que Ê Intertestamento. São Paulo, Edições Paulinas, 1981, p. 40. 11. FEINBERG, Charles. The Minor Prophets. 5® ed. Chicago, Moody Press, 1980, p. 249. 12. MOORE, Thomas. A Commentary on Haggai and Málachi. 3?ed. Edimburgh, The Bannerof Truth, 1974, p. 102. 13. SHEDD, Russel (ed.). O Novo Dicionário da Bíblia. 3 vols. São Paulo, Edições Vida Nova, s.d., 1? vol., p. 411. 14. KEIL, C. F. e DELITZSCH, F. Biblical Commentary on the Old Testament — The Twelve Minor Prophets. Grand Rapids,


Michigan, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1949, 2? vol., p. 432. 15. KUNSTMANN, W. Profetas Menores. Porto Alegre, Concórdia Editora, s.d., p. 203. 16. JEREMIAS, Joachim. A Mensagem Central do Novo Testa­ mento. São Paulo, Edições Paulinas, 1977. Este é um dos poucos livros reeditados pelas Paulinas, o que prova o seu valor. E ainda mais por ser de um teólogo protestante. , J 17. WOLF, Herbert. Ageu e Malaquias. Miami, Editora Vida, 1986. p. 76-77. 18. A BAPTIST THEOLOGICAL JOURNAL. Review and Exposi­ tor. Louisville, Kentucky, Faculty of The Southern Baptist Theological Seminary, vol. 84, n° 3, Summer 1987, p. 397. A RE é uma publicação trimestral do Southern Baptist Theolo­ gical Seminary. A edição do Verão de 1987 foi dedicada ao livro de Malaquias. 19. WOLF. Op. cit., p. 77. 20. LOCKYER. Herbert. Ali the Books and Chapters to the Bible. 9? ed. Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans Pu­ blishing Company, 1974. p. 215. 21. A BAPTIST THEOLOGICAL JOURNAL. Op. cit., p. 398. 22. CLEMENTS, Ronald. Gôy. In: Theological Dictionary of the Old Testament Edição revisada. Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans, 1977, vol. 2, p. 426. 23. PUSEY, E. B. The Minor Prophets — A Commentary. 14? ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 2? vol., p. 468. 24. GROBER, Glendon. A Doutrina Bíblica da Igreja. 5? ed. Rio de Janeiro, JUERP, 1987, p. 21. 25. MOORE, Thomas. Op. cit., p. 129. 26. KUNSTMANN, Walter. Op. cit., p. 205. 27. WOLF, Herbert. Op. cit., p. 94. 28. PUSEY, E. B.Op. cit., p. 482. 29. MACLAREN, Alexander. Expositions of Holy Scriptures — Ezekiel, Daniel and Minor Prophets and St. Mattew chapters I to VIII. Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans Pu­ blishing House Company, 1932, p. 339. 30. LOCKYER. Op. cit., p. 215. 31. PUSEY, E. B. Op. cit., p. 483.


32. BALDWIN, Joyce. Op. cit., p. 201. 33. KUNSTMANN, Walter. Op. cit., p. 206. 34. ALVES, Rubem. Fé Cristã e Ideologia. São Paulo, Imprensa Metodista, 1979, p. 15. Ê uma citação livre, não aspeada, que o teólogo brasileiro faz de M. Merleau-Ponty, em The Structure ofthe Behavior, p. 174. 35. BENNETT, Miles, In: ALLEN, Clifton J. Broadman Bible Commentary. Nashville, Tennessee, Broadman Press, 1972, vol. 6, p. 386. 36. A BAPTIST THEOLOGICAL JOURNAL. Op.cit., p. 410. 37. MOORE. Op. cit., p. 143. 38. MACLAREN, Op. cit., p. 344. 39. A BAPTIST THEOLOGICAL JOURNAL. Op. cit., p. 412. 40. WRIGHT. Op. cit., p. 13. 41. D’ARAÜJO FILHO, Caio Fábio. Novos Ministros Para uma Nova Realidade. Brasília, Editora Sião, 1986, p. 21. 42. CAVALCANTI, Robinson. Igreja: Agência de Transformação Histórica. Niterói, Associação Religiosa Editora e Distribuidora Vinde, e São Paulo, Editora Sepal, 1987, p. 45. 43. CIVITA, Victor(ed.). Veja, n? 1008, Seção “Gente — 1987” — p. 142. 44. WINWARD. Op. cit., p. 322. 45. BALDWIN. Op. cit., p. 206. O grifo é dela. 46. MOORE. Op. cit., p. 162. 47. WOLF. Op.cit., p. 112. 48. COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Jovens e Adultos, 1? T 88, estudo “O Povo de Deus Separa-se do Pecado”. Rio de Janeiro, JUERP, p. 63. 49. CAVALCANTI. Op. cit., p. 24. 50. KUSHNER, Harold. Quando Coisas Ruins Acontecem com Pessoas Boas. São Paulo, Círculo do Livro, 1984. Sobre a crítica do rabino Kushner à postura de alguns cristãos em atribuir o mal a Deus, ver a p. 43. 51. BENNETT. Op. cit., p. 392. A expressão MT, entre parêntesis, significa Texto Massorêtico.


52. FAFASULI, Tito et alii. Nuevo Comentário Bíblico. 5® ed. El Paso, Texas, Casa Bautista de Publicaciones. 1985, p. 608. 53. A BAPTIST THEOLOGICAL SEMINARY. Op. cit., p. 415­ 416. 54. KEIL, C. F. eDELITZSCH F. Op. cit., p. 468. 55. SCHAFFER, Francis. Poluição e a Morte do Homem — Uma Perspectiva Cristã da Ecologia. Rio de Janeiro, JUERP, 1976. 139p. Ê pena que este livro, ao meu saber, o único em português sobre a ecologia por um ângulo cristão, seja tão pouco divul­ gado. 56. COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Jovens e Adultos. 3o. T 83, estudo “Malaquias Apela à Honestidade Para com Deus” . Rio de Janeiro, JUERP, p. 56. 57. BENNETT, Miles. Op. cit., p. 393. 58. BALDWIN, Joyce. Op. cit., p. 211. 59. AUTREY, C. A Teologia do Evangelismo. Rio de Janeiro, JUERP, 1967 p. 37. Este é um livro sobre evangelismo que não apresenta técnicas, mas a motivação para a obra de evangelização. Para Autrey, é o amor e não o dever que deve motivar o serviço. É um livro extraordinário e muito edificante. 60. BLOCH, Pedro. Você Quer Falar Melhor? 2? ed.Rio de Janei­ ro. Bloch Editora. 1967. p. 91. A primeira frase da citação é o título do tópico.


BIBLIOGRAFIA A BAPTIST THEOLOGICAL JOURNAL. Review and Expositor. Louisville, Kentucky, Facult of the Southern Baptist Theologi­ cal Seminary. Vol. 84, n?3, Summer, 1987. 579p. Editor-Chefe: Roy L. Honeycutt. ANGUS, Joseph. História, Doutrina e Interpretação da Bíblia. 2 vols. Trad. de J. Santos Figueiredo. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista, 1953. ARCHER, Gleason. Merece Confiança o Antigo Testamento? Trad. de Gordon Chown. 2? ed. São Paulo, Edições Vida Nova, 1979, 575p. BALDWIN, Joyce. Ageu, Zacarias e Malaquias. Trad. de Hans Udo Fuchs. São Paulo, Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, s.d., 212p. BENNETT, Miles. In: ALLEN, Clifton J. Broadman Bible Commentary. 12 vols. Nashville, Tennessee, Broadman Press, 1972. BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. 2 vols. Trad. de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo, ASTE, 1968. BORN, A. Van Dean. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis, Editora Vozes, 1977,1588p. BROWN, Francis. The New Brown, Driver, Briggs, Gesenius Hebrew and English Lexicon. Lafayette, Indiana, Associated Publishers and Authors, 1980,1118p. EARLE, Ralph. Conozca Los Profetas Menores. Kansas City, Missouri, Casa Nazarena de Publicaciones, s.d., 112p. ELLIGER, K. e RUDOLPH, W. (eds). Bíblia Hebraica Stuttgartensia. 2?ed. Germany, Biblia-Druck, Stuttgart, 1977, 1574p. FAFASULI, Tito et alii. Nuevo Comentário Bíblico. 5? ed. El Paso, Texas, Casa Bautista de Publicaciones, 1985, 972p. FEINBERG, Charles. The Minor Prophets 5? ed. Chicago, Moody Press, 1980. 360p. GREEN, Jay. The Interlinear Bible Hebrew, Greek and English. 4 vols. Evansville, Indiana, Associated Publishers and Authors, 1978. vol. 3, 2186p. JAMIESON, Roberto et alii. Comentário Exegetico y Explicativo de


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O livro de Malaquias é mais em nosso meio (haverá culto que o tenha utilizado assim?) para o mo­ mento do culto em que os dízimos e as ofertas sào entregues, no texto de 3:10. Mas, que conteúdo, que rique­ za e que contemporaneidade seu li­ vro possui! Uma das nossas grandes necessidades é analisarmos não só o mundo em que vivemos, mas tam­ bém as nossas igrejas, à luz da Bí­ blia. Malaquias é atualíssimo para nossas comunidades(...) Malaquias, Nosso Contemporâneo surgiu da re­ flexão e de uma compreensão, sem vaidades, sem pretensões, de que eu poderia compartilhar algo com o povo de Deus que outros ainda não tinham feito. Não me anima qual­ quer pretensão de esgotar o assunto ©u de ser a última palavra sobre o profeta. Mas, há aqui, sim, o produ­ to de ponderação e de estudos. Ã luz dos conceitos que o “ meu mensagei­ ro” (é este o significado do nome do profeta Malaquias) expendeu para Israel, o que diria ele para nossas igrejas? O que podemos receber dele? Por que Malaquias? Porque ele tem bastante para dizer à igreja de Jesus Cristo.

Do Prffácio do Autor

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Malaquias nosso contemporâneo isaltino g c filho  

comentario biblico batista

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