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O GLOBO

RAZAO SOCIAL

2 7 D E M A R Ç O 2 0 1 2 • N -o 138 | oglobo.com.br/blogs/razaosocial

Fábricas do

distrito industrial de Jundiaí

Terça-feira, 27 de março de 2012 ● O GLOBO

Pequena grande cidade Chegada da chinesa Foxconn ajuda a elevar PIB da interiorana Jundiaí e cria choque cultural

Razão Social ● 2


Editorial

Índice

H

á pouco mais de uma década a cidade de Jundiaí, a 50km de São Paulo, vem recebendo em seu território fábricas de renome, entre elas a chinesa Foxconn, que produz Iphones da Apple. Isso, é claro, ajudou a melhorar muito a cidade, outrora pacata e interiorana, que hoje já tem jeito de megalópole. Até aí, tudo bem. A reportagem de capa desta edição mostra, num minucioso trabalho dos repórteres Camila Nobrega e Carlos Ivan, que este desenvolvimento, no entanto, precisa de um olhar mais atento para se tornar sustentável. Com o dinheiro ganho dos impostos das fábricas a cidade se tornou organizada e, por isso, os serviços ficaram caros (o aluguel de um quarto e sala não sai por menos de R$ 1,2 mil). Desse jeito, é claro que os operários, que trabalham no distrito industrial construído a pouco mais de 10 quilômetros do centro, não têm condições de usufruir do crescimento de sua cidade. Jundiaí, então, se tornou quase um enclave de progresso cercada por pequenas cidades periféricas mais pobres que abrigam as pessoas que trabalham nas fábricas que a enriquecem. Não é um fenômeno novo, com certeza, e não será o único. O tema da próxima Conferência para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, é a economia "verde". E lá, com a presença de chefes de estado, pretende-se discutir, entre outras coisas, a erradicação da pobreza. Se não quisermos ficar em discursos "verdes", este tipo de situação precisa estar na mesa para discussão.

Rafael Andrade

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Cerca de 300 famílias de catadores do recém fechado Lixão de Itaóca, em São Gonçalo, vivem rotina de privação

Amelia Gonzalez

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Gro Brutland, representante da ONU, faz um alerta aos mercados no Fórum Mundial de Sustentabilidade, em Manaus

Divulgação

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Samyra Crespo, Secretária de Articulação e Cidadania do MMA, fala sobre o Plano de Produção e Consumo Sustentável

Amelia Gonzalez, editora

O GLOBO Razão Social Editor: Amelia Gonzalez (amelia@oglobo.com.br) • Repórteres: Camila Nobrega (camila.nobrega@oglobo.com.br) e Martha Neiva Moreira (martha.moreira@oglobo.com.br) • Projeto Gráfico: Andréa Paracat • Diagramação:Jacqueline Donola • Capa: Carlos Ivan • Contatos para consultas sobre o espaço publicitário: 21 2534-5500 e-mail: publicidade@oglobo.com.br • Correspondência: Rua Irineu Marinho 70/ 4 o- andar CEP 20230-901— Rio de Janeiro • Telefone: 2534-5000 As reportagens publicadas na revista Razão Social têm conteúdo estritamente jornalístico não cabendo, sob hipótese alguma, a divulgação de material de cunho publicitário sob forma de reportagem.

Terça-feira, 27 de março de 2012 ● O GLOBO

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Capa

Cidade do interior com jeito de megalópole

JUNDIAÍ é o quarto IDH do estado de São Paulo

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O GLOBO ● Terça-feira, 27 de março de 2012


Camila Nobrega

camila.nobrega@oglobo.com.br Enviada Especial

JUNDIAÍ — Antes das 6h da manhã, o centro de Jundiaí é como o da maioria das cidades brasileiras, com ruas escuras e vazias que aumentam a sensação de frio antes de o sol nascer. Mas a menos de dois quilômetros dali, a paisagem começa a mudar. Chegando às rodovias que cortam a cidade, Anhanguera e Bandeirantes, ônibus lotados de homens e mulheres, a maioria jovens vindos de pelo menos sete municípios dos arredores, seguem acelerados em direção ao Distrito Industrial da cidade, onde 60 mil pessoas estão empregadas. É lá que, a menos de 10 km do centro, Jundiaí parece se transformar em outro município. Ali não há calmaria. As luzes das 1.286 fábricas, que movimentam mais de R$ 5 bilhões por ano — 31,7% do Produto Interno Bruto (PIB) da cidade — estão acesas permanentemente. Ainda no escuro, centenas de pessoas saem das indústrias, enquanto outras descem dos ônibus, para a primeira troca de turno do dia, cujo horário varia entre 5h30 e 7h. A cena se repetirá entre 14h e 15h e entre 21h e 22h. É a outra Jundiaí que pulsa ali. Os protagonistas do distrito não tem nome de gente. São a Spal Indústria de bebidas, empresa que mais gera lucros na cidade, seguida da Sadia, das Casas Bahia e da Itautec. Já em termos de geração de emprego, a menina dos olhos está na ponta da língua, tanto para a prefeitura como para o Sindicato dos Metalúrgicos, como afirmou o presidente da instituição, Eliseu Silva Costa: — A Foxconn. Com a unidade da Apple, no total serão seis mil empregos. Ele se referiu à gigante americana Apple, que tem seus Iphones fabricados pela Foxconn no local, e e vai começar a fabricar Ipads. O município é a personificação de um desafio sem fórmula pronta: o de colocar o crescimento econômico, impulsionado pelo setor industrial, em função do desenvolvimento social, incluindo toda a população. Em outras palavras: crescer respeitando o tripé da sustentabilidade, que inclui o ambiente e Terça-feira, 27 de março de 2012 ● O GLOBO

Carlos Ivan

Destino de 1.286 indústrias, como a chinesa Foxconn, Jundiaí ainda se adapta a novo papel o econômico, além do social. Os ganhos já foram muitos: em oito anos, o Produto Interno Bruto da cidade cresceu 152% e, ao mesmo tempo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 51º para 4º no Estado de São Paulo, segundo as Nações Unidas. Há transporte coletivo de qualidade, a cidade é limpa e apresentou melhora no sistema educacional. Hoje, 98% do esgoto da cidade são tratados e coletados, segundo a prefeitura. No entanto, ainda há questões a resolver. Embora tenha um índice de área verde por habitante de 27,51m2, andando pelas ruas a sensação é de que as árvores só estão começando a tomar espaço. A cidade parece ter se dado conta muito recentemente de um dado importante. Está crescendo sem levar junto municípios vizinhos que exportam seus trabalhadores todas as manhãs. Várzea Paulista, Campo Limpo, Francisco Morato e pelo menos mais quatro cidades do entorno estão estagnadas. É o que faz com que os moradores dessas cidades atravessem estradas todos os dias. O motorista Pedro Amorim contou que ele e a esposa, moradores de Várzea Paulista, vão para Jundiaí para trabalhar, cuidar da saúde e até fazer compras. — Moro em Várzea há 22 anos e, nesse tempo, enquanto minha cidade ficou na mesma, Jundiaí cresceu. O jeito é viajar todos os dias para cá, e só dormir em casa. Faço até supermercado em Jundiaí. Só não moro aqui, porque tudo ficou muito caro. Esse é provavelmente o calcanhar de Aquiles do crescimento de Jundiaí, já que, se por um lado os moradores de cidades vizinhas dependem da cidade, o município também depende deles como combustível na escalada da expansão industrial. O desafio está em conter o inchaço e fazer com que as cidades no entorno não se tornem apenas dormitórios. No próprio distrito industrial não são as placas de ruas que ganham destaque, mas as que indicam os nomes e direções das indústrias. O local parece feito para fábricas, não para pessoas. Continua na página seguinte

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Por trás das altas torres e chaminés com nomes de diferentes indústrias que se estabeleceram no Distrito Industrial, é possível ver ao longe prédios luxuosos, escolas e parques, todos localizados no Centro do município. Há também muitos edifícios sendo erguidos e s a l a s c o m e rc i a i s . S ã o s i n a i s d e uma cidade cujo mercado imobiliário está aquecido e que tem se tornado destino de paulistanos em busca de boas ofertas de emprego, aliadas à qualidade de vida. É o caso de um engenheiro da Foxconn que não quis se identificar pois está sob sigilo máximo, já que acaba de se mudar para a cidade para trabalhar com a preparação de funcionários para a produ-

ção de tablets, os Ipads da Apple. Ele acredita que terá mais qualidade de vida do que na capital, mas está com dificuldade de achar um apartamento para alugar, de quarto e sala, por menos de R$ 1.200: — Eu não esperava. A cidade está encarecendo muito. Tem aura de cidade pequena, mas com alguns preços de São Paulo. De fato, Jundiaí ainda tem muitas características de cidade do interior, mas está tendo que se adaptar para acompanhar o desenvolvimento econômico. O clima durante a tarde é bucólico, e a cultura de se encontrar nas praças à noite permanece. Depois das 21h, só os frequentadores de um complexo de bares estão acordados no Centro

Lei faz uso de sacolas plásticas cair 50% Carlos Ivan

Desde agosto de 2010, a cidade de Jundiaí atraiu olhos do Brasil inteiro, por ter se tornado o primeiro município brasileiro a tentar abolir as sacolas plásticas dos supermercados. Os estabelecimentos passaram a cobrar cerca de R$ 0,19 por cada sacola. Quase dois anos depois, em fevereiro desse ano, uma liminar suspendeu a lei, e obrigou os supermercados a fornecerem as sacolas plásticas de graça. Mas a mudança já havia ocorrido: a grande maioria dos consumidores já tem sua ecobag a tiracolo. A diferença nos supermercados de Jundiaí, em relação ao Rio de Janeiro,

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USO DE sacolas plásticas caiu mais da metade, em dois anos

por exemplo, é clara. As famílias entram nos locais carregando sacolas retornáveis. Moradora do centro da cidade, a enfermeira Roseli Teixeira é uma das que só pega sacos plásticos quando precisa para o lixo de casa. No porta-malas, cinco sacolas de pano suportavam as compras do dia: — Já virou um hábito para nós. Os jundiaienses gostam de saber que estão sendo exemplo. Dá prazer de carregar essas sacolas de pano. E antes da lei, eu sequer pensava nisso. A estimativa é que o uso de sacolas plásticas tenha caído para menos da metade.

da Cidade. Ainda são poucas as opções de lazer. U m p ro b l e m a c u r i o s o q u e g anhou espaço nos jornais locais esse mês foi a coleta seletiva. A cidade é um bom exemplo no país, já que os moradores de todos os bairros têm acesso ao serviço. Mas a adesão foi tanta que há recicláveis sobrando nas ruas. A prefeitura vai ter que trocar o contrato da empresa tercerizada para que ela passe a coletar uma quantidade de resíduos maior do que o combinado inicialmente. Outras grandes mudanças narradas pelos moradores são relativas ao transporte público e à própria aparência da cidade. Jundiaí é, de fato, uma cidade limpa, e a poluição não está acima do normal, já que as indústrias estabelecidas no distrito são em sua maioria de tecnologia de ponta, com menos emissões de carbono. Tem também transporte integrado de ônibus, que garante atravessar a cidade pelo custo de uma única passagem. No que diz respeito à arborização, porém, a cidade ainda vive processo de recuperação, e, embora as últimas gestões tenham investido em parques e praças, há um obstáculo maior a ser ultrapassado: a cultura dos próprios moradores. Assim como há poucos usando as ciclovias que começam a ser instaladas no centro da cidade, os parques também ficam quase vazios. O monitor do Jardim Botânico de Jundiaí, Ricardo Silva, de 31 anos, explicou: — O pessoal está acostumado a ir para shopping em Campinas, onde há lojas de luxo. Como os parques surgiram nos últimos dez anos, são poucos os jundiaienses que têm hábito de passear nesses lugares, caminhar, fazer trilhas com os filhos. E o pessoal anda muito de carro, o que vai ter que mudar, porque o trânsito está começando a piorar. As ciclovias da cidade só cobrem, por enquanto, 5,5 quilômetros, segundo a prefeitura. E são usadas exclusivamente para lazer, não para transporte. O município afirmou que como a maioria das indústrias é da área de tecnologia da informação, não geram uma grande quantidade de resíduos. No entanto, não soube informar como são descartados os resíduos dessas empresas.

Fotos de Carlos Ivan

Capa

PRAÇA no centro de Jundiaí: áreas verdes estão sendo implantadas na cidade, mas população não tem o hábito de usá-las

O GLOBO ● Terça-feira, 27 de março de 2012


“Não basta só Jundiaí se desenvolver” Carlos Ivan

O PREFEITO Haddad: “Espero que para nós eles deem descontos” Em seu terceiro mandato como prefeito de Jundiaí (já havia assumido em 1996 e 2001), Miguel Haddad aposta na industrialização como meio para o desenvolvimento, e tem conseguido elevar a qualidade de vida na cidade. Mas assume que fazer o entorno crescer junto ainda é desafio.

O GLOBO: Como fazer com que o crescimento não se torne nocivo à cidade? MIGUEL HADDAD: Temos nosso Plano Diretor. Um terço da cidade hoje é a Serra do Japi, que está tombada e preservada. Sabemos que temos que preservar os mananciais que abastecem a cidade. Não temos feito expansões da zona urbana, sobre a zona rural. Queremos fixar o agricultor no campo. Crescimento não significa inchaço. Nosso IDH hoje é 8,2. Com planejamento, é possível colocar o crescimento em função da qualidade de vida. O GLOBO: Mas há limites para as indústrias? HADDAD: Sim, hoje talvez uma montadora de automóveis não conseguisse se instalar em Jundiaí. Precisa de um terreno enorme, que não temos. Mas uma empresa de Tecnologia da Informação é possível. Elas geram o mesmo número de empregos, mas com menos impactos ambientais. Não aceitamos indústrias químicas pesadas em Jundiaí, por exemplo, isso já foi vencido aqui. O GLOBO:Mas, enquanto Jundiaí

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se desenvolve, a região permanece estagnada... HADDAD: O primeiro aglomerado urbano do Estado de São Paulo acaba de ser implantado. São sete municípios, no entorno de Jundiaí. Agora vamos poder discutir coisas como transporte público, saúde, segurança. Hoje nós fornecemos água para Várzea Paulista. Nós vendemos, mas de certa forma nós os socorremos. Somos uma cidade sede. Saúde, por exemplo, toda a população da região é atendida aqui. É importante o desenvolvimento dessas cidades. Não basta só Jundiaí se desenvolver. O GLOBO:As empresas têm ações de mitigação do impacto que causam na cidade? HADDAD: Sim, estamos começando parcerias. A Coca-Cola, por exemplo, está fazendo conosco adutoras de água. Interessa a eles, mas a nós também. O GLOBO:E a Foxconn, quais são as expectativas? A cidade tem esperança de ter mais acesso à tecnologia? HADDAD: Espero que para nós eles deem descontos, mas não acredito. Mas isso é da alçada do governo federal. A ideia é que o acesso possa ser facilitado no Brasil, com redução de preços. E, sobre questões trabalhistas, o Ministério do Trabalho e o sindicato acompanham. Não tivemos grandes problemas até hoje.

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Choque cultural no chão de fábrica Camila Nobrega

camila.nobrega@oglobo.com.br

Duas semanas atrás, funcionárias da unidade de fabricação de computadores da Foxconn em Jundiaí foram surpreendidas ao chegar ao trabalho. Ao saírem do ônibus, em vez de passar da portaria e seguir normalmente para seus lugares na linha de produção, tiveram que formar uma fila indiana. Seguiram todas, uma atrás da outra, sem saber se riam ou disfarçavam o incômodo de se sentirem num colégio interno. Dentro da fábrica, mais uma novidade. Idas ao banheiro também haviam ganhado nova regra. Só com acompanhante. E a fila indiana se repetiu no caminho para o refeitório, e no fim do expediente. Após a reclamação dos funcionários ao Sindicato dos Metalúrgicos local, as normas, que haviam sido negociadas com a empresa, estão sendo revistas. Tem sido assim a cada tentativa de implantação da cultura chinesa nas fábricas brasileiras, desde o início da operação da primeira unidade da Foxconn em Jundiaí, em 2007. A empresa está aprendendo a se adaptar fora do seu país. — A principal dificuldade com os chineses é que eles entendam nossa cultura. Houve um momento em que tivemos de dizer “Aqui não é a China”, partindo para o enfrentamento. Mas o diálogo se abriu e se tornou a melhor saída. — contou Andréa Ferreira Barbosa, líder sindical dentro da Foxconn. A presença de Andréa dentro das fábricas já foi um grande ganho. De início, os chineses da Foxconn se assustaram com a exigência, assim como com as lutas dos trabalhadores por melhores condições dentro das fábricas, transporte, refeitório e participação nos lucros. Não foram poucas as paralisações dentro da primeira unidade da empresa em Jundiaí, e a briga não foi pouca. Sintomas de um choque cultural extremo, já que a legislação trabalhista brasileira é muito mais pró trabalhadores do que a chine16 ● Razão Social

sa. Mas a situação melhorou. Trata-se de linhas de produção rígidas, com metas acompanhadas de perto e exigidas diariamente, num esquema que se originou no fordismo e se repete não só ali, mas na maioria das indústrias. A mais nova batalha de Andréa é para que os trabalhadores da linha de produção de computadores, na unidade da Foxconn localizada bem no centro do distrito industrial da cidade, possam ter dez minutos de descanso em dois momentos durante o expediente de oito horas diárias. A maioria trabalha de pé, na linha de montagem dos equipamentos, em esteiras. Se o setor não para, os trabalhadores também não podem parar um segundo sequer, o que tem acarretado incômodos relatados à líder sindical. A reclamação mais frequente é de dores nos ombros, devido à montagem minuciosa de componentes dos computadores produzidos no local. — A empresa prometeu fazer estudo de ergonomia para isso. As pessoas precisam se mexer, alongar, parar nem que seja um minuto para falar com a família no celular, se não acabam tendo Lesão por Esforço Repetitivo (mal associado à repetição de movimentos, geralmente no trabalho). Os olhares estão voltados agora à nova unidade da Foxconn, que fica fora do distrito industrial e isolada de todas as outras indústrias. É lá onde já estão sendo fabricados Iphones 4 e de onde, em breve, sairão Ipads made in Brazil, produtos da Apple. Ali o sigilo e a desconfiança são máximos. As portarias são blindadas e a única coisa que identifica a empresa é um papel A4 pendurado na grade que diz: “Entrada restrita a funcionários da Foxconn”. Por enquanto, os operários — em sua imensa maioria mulheres — estão fazendo um só turno, das 6h às 15h. Eles têm refeitório no local e transporte para casa. No total, 15 ônibus esperam na porta da fábrica para levar os grupos para bairros

Fotos de Carlos Ivan

Capa

QUINZE ônibus esperam a saída dos funcionários da nova Foxconn

da periferia de Jundiaí ou para municípios vizinhos. Os cerca de 800 funcionários saem juntos. Enquanto os poucos homens estão suados e cansados, as mulheres não deixam de lado a vaidade, e esbanjam tons de batom vermelhos e cabelos penteados. Todos estão acostumados a entrar direto nos ônibus, mas naquela tarde (dia 8 de março) foram surpreendidos com a presença inédita de uma Kombi que avisa a promoção de “sorvete a R$ 1”. Como a unidade é isolada, dificilmente ambulantes chegam ali. O calor, de 35 graus, convidou a uma parada para o sorvete. Foi o momento em que pararam para conversar. O medo de falar sobre a empresa é constante, já que paira o receio de ultrapassarem a barreira do sigilo tão reforçado pelos coordenadores de áreas. Os trabalhadores só falaram sob a condição de terem seus nomes preservados (usamos pseudônimos). Mara, de 22 anos, da cidade de Itupeva, faz a preparação da

placa para o Iphone 4. Primeiro, faz questão de dizer que a fábrica é boa, o salário também (de R$ 1.150) e que gosta dos benefícios. Confessou que não entende o porquê de tanto sigilo, já que nem os empregados sabem direito notícias sobre os produtos da empresa e disse que um turno só de produção é puxado. Naquele dia, ela tinha cumprido a meta de preparar a placa de três mil celulares: — Não dá para parar. Na minha área, a maioria é de mulheres, porque é uma função minuciosa, com peças pequenas. Agora temos aulas para manter a postura correta, evitando problemas de coluna. Os chineses só não gostam que a gente fale alto, gostam de silêncio. Mas as mulheres encontram formas de se divertir. Laura, que trabalha na linha de produção embalando Iphones, garante que é a conversa que ajuda a permanecerem atentas, enquanto fazem tarefas tão mecânicas. Ela é apontada pelas amigas como uma das mais rápidas, O GLOBO ● Terça-feira, 27 de março de 2012


CERCA DE 700 trabalhadores fazem viagens de em média uma hora para ir e voltar da Foxconn para casa aquela que sempre bate suas metas, indicadas no início de cada dia e conferidas em relatórios de produção diários: — A gente trabalha mais com a língua do que com os Iphones, é o jeito que tem de não desligar. Hoje fiz 300, porque era dia fraco, mas chego a fazer dois mil. Aí é Terça-feira, 27 de março de 2012 ● O GLOBO

pesado. Mas eu acho chique trabalhar na Apple, tem fila de espera isso aqui. Nos dias puxados, são 250 Iphones embalados por hora. Pelo menos quatro por minuto, para bater a meta. É o tempo de pegar a caixa e colocar três códigos de barra, terminando a embalagem e

passando o produto adiante. Como trabalham sentadas, os pés estão a salvo, mas o que dói de vez em quando, segundo relato de várias trabalhadoras, são punhos e ombros. Para a maioria, porém, o trabalho é uma benção, comparado a outras fábricas por onde já pas-

saram. Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí, Eliseu Silva Costa, as brigas para que a empresa se adeque a melhores condições de trabalho não são privilégio da Foxconn, mas há fatores que dificultam particularmente a relação com a companhia. O principal é a falta de transparência: — Os chineses são muito fechados. Lidam com todas as informações como se fossem sigilosas, inclusive as de utilidade pública. No início, a relação com o sindicato foi na base do porrete, mas aos poucos eles estão se abrindo. Até a prefeitura tem dificuldade de conseguir informações da empresa. Segundo funcionários do município que não quiseram se identificar, a falta de transparência é uma barreira difícil, inclusive no que diz respeito a dados cuja divulgação para a prefeitura é obrigatória. A empresa é, no entanto, uma das principais empregadoras da cidade, com mais de cinco mil empregados no total, número que em breve chegará a seis mil. É a menina dos olhos, especialmente a unidade que vai fabricar Iphones e Ipads da Apple. Segundo um consultor da diretoria geral da Foxconn, que se alterna entre Brasil e China, e não quis se identificar, a empresa tem encarado o Brasil como um desafio, e reconhece que ainda está em processo de adaptação: — A Foxconn sabe onde está se metendo. A empresa é fornecedora de companhias como a Apple e estudou o histórico de São Paulo antes de se instalar em Jundiaí. Não ia burlar leis trabalhistas num local de sindicato tão atuante. Segundo o funcionário, a empresa opta pelo sigilo pois não é a dona da marca dos produtos que coloca no mercado, atua como fabricante. Mas o consultor afirmou que a Foxconn tem desenvolvido programas de responsabilidade social, capacitando donas de casa e mulheres que trabalhavam como domésticas, para fabricarem Iphones: — Cerca de 700 mulheres já foram capacitadas, e outras estão em treinamento para o Ipad. A Foxconn e a Apple não vão queimar seus nomes no Brasil. Sabemos que, com cinco mil funcionários, pode haver ajustes a serem feitos. Quando há denúncias, corremos atrás. Ninguém quer ser acusado de trabalho escravo. Continua na página seguinte Razão Social ● 17


Capa

Jundiaí tem mais de 60 mil pessoas em indústrias Nas ruas principais do Distrito Industrial de Jundiaí, onde fica a unidade mais antiga da Foxconn na cidade, está localizada a maior parte das 1.286 indústrias do município. Ali, não há sinais de trânsito, os ônibus têm destinos certos e nunca param em pontos, e o único espaço de convivência é a van de Elisângela Viana, que às 5h30m já está parada na porta das fábricas com suas esfihas e coxinhas de galinha, acompanhadas de café e refresco. O primeiro horário de pico é a troca de turnos nas fábricas, que acontece entre as 5h30 e as 7h. É ali que os trabalhadores param, para descansar e seguir para casa, ou tomar um café antes de encarar a rotina da fábrica. João — pseudônimo de um funcionário da Parmalat, que não quis se identificar — é um dos que só têm tempo de engolir o café, para não perder o ônibus fretado pela empresa de volta para casa. Com olheiras bem marcadas, ele espera ao lado do ônibus. O turno dele começa às 21h e acaba às 6h15m. Em vez de horário de almoço, tem direito a intervalos de 15 minutos, de três em três horas. Naquele dia, produziu 23 mil biscoitos ao leite, e, em vez de ir ao banheiro, deu uma cochilada de 15 minutos, para voltar depois à linha de produção. — É como se fosse um bolo. Coloco um pouquinho de cada ingrediente, e a máquina mistura. Se é cansativo? Quem tem filho para sustentar não pode se cansar. Quero fazer um curso de torneiro mecânico, para mudar de vida. Aqui não posso piscar um minuto. Funcionária da Sapore, empresa tercerizada que presta serviço de alimentação no refeitório da fábrica da Parmalat, no distrito industrial, Luana, outro pseudônimo, era uma das poucas trabalhadoras que não têm direito a transporte pela empresa. Saiu às 6h e pegaria ainda três ônibus para chegar ao município de Várzea Paulista, onde mora. Dentro da fábrica, tem na cozinha uma rotina mais puxada que a maioria dos trabalhadores da linha de produção. Trabalha de segunda a sexta, e dois finais de semana por mês, por um 18 ● Razão Social

Fotos de Carlos Ivan

PLACAS INDICAM as fábricas do Distrito Industrial de Jundiaí, São Paulo

Um dia vou parar na indústria e ficar só como carpinteiro, fazendo coisas lindas Osvaldo Ferreira, Itautec

Eram cinco minutos, no máximo, para os espelhos grandes. Tinha que colocar o módulo de madeira, cortar com estilete e aparafusar

Sulen, ex-funcionária Profax

salário de R$ 700 e só consegue parar dez minutos durante o expediente. Colocou as mãos nas cadeiras dez vezes durante a conversa, para descansar as costas, onde sente dores. Mas tem vergonha de assumir o cansaço: — Tenho que ser forte. Faço comida o dia todo para 130 funcionários. Só de arroz são 12kg, sem contar feijão, carne e guarnição, além dos omeletes. Mas estou aqui, contando os minutos para chegar em casa, morrendo de fome. Não consegui parar para comer, não sentei, só fui ao banheiro uma vez — contou ela, confessando o que passa na cabeça nessas

horas: — Se tivesse tido oportunidade de estudar mais eu podia ser secretária. Ia me vestir bonita e atender telefone. Dentro da fábrica, não faz diferença quem você é, não se tem muito valor. Segundo a Sapore, que respondeu por e-mail, há 10 funcionários no restaurante com carga horária de 9 horas, sendo oito de trabalho e uma de almoço. Luana divide sonhos com muitos outros operários do local. A maioria tem na ponta da língua o que quer fazer quando sair dali, como o jovem William, de 20 anos, funcionário da fabricante de peças de plástico para automóveis Plascar.

— Quero fazer Medicina. Trabalho das 22h30m às 5h30m para guardar dinheiro e, chegando em casa, ainda estudo — disse ele, que carrega uma mochila cheia de livros no caminho para casa, no município de Várzea Paulista. Não são poucos também os operários que têm rotina dupla. É o caso de Osvaldo Ferreira, de 62 anos, que trabalha na fábrica de celulares da Itautec, também durante a madrugada, das 22h às 6h. De lá, ele pega três ônibus e segue para Cajamar, onde mora e presta serviços como carpinteiro à prefeitura: — Um dia ainda vou parar na indústria e ficar só como carpinteiro, fazendo coisas lindas. Mas, por enquanto, vale a pena, ganho R$ 1.200 por mês. Ele anda oito quilômetros por dia, percorrendo todos os cantos da fábrica da Itautec para recolher os resíduos recicláveis e empilhá-los. Às 8h20m já está na prefeitura de Cajamar. Dorme três horas. Boa parte da população de Jundiaí, especialmente os que têm graus de instrução mais baixos, já trabalhou em fábricas. Mas nem todos aguentam o ritmo. Suellen Cristina, de 17 anos, acabou sendo demitida da fábrica da Profax, uma das empresas da Astra — fornecedora de materiais para construção civil — por ter sido considerada lenta. Ela não conseguia bater a meta de fabricação de 700 espelhos por dia. — Eram cinco minutos no máximo para os espelhos grandes. Tinha que colocar o módulo na madeira, cortar com estilete, aparafusar. Doía o pé, dava um cansaço danado, mas o salário era bom. Eles contam por cada gaiola feita, já com o espelho embalado. Segundo a Astra, dona Profax, algumas áreas produtivas da empresa trabalham 24 horas por dia, em três turnos (6h às 14h, 14h às 22h e 22h às 6h). A rotatividade nas indústrias é, segundo trabalhadores, grande. Quando alguém não bate a meta por dois meses, a regra na maioria das fábricas é ser dispensado, ou ter a última chance em outra função. Além disso, com aumento de empregos, é comum a rotatividade entre as indústrias. Estima-se que um terço da população já trabalhou em indústrias. O GLOBO ● Terça-feira, 27 de março de 2012


Carlos Ivan

Troca de turno de fábricas em Jundiaí, às 5h30m

Na Foxconn chinesa, contrato para reduzir suicídios Em terras chinesas, as regras são outras. Desde 2010, a Foxconn vem tentando lidar com suicídios coletivos de funcionários de suas fábricas, que empregam aproximadamente um milhão de pessoas no país. A informação é da ONG Estudantes e Especialistas contrários à Má Conduta Empresarial — Sacom, sigla em inglês), sediada em Hong Kong, que acompanha os casos de perto e divulgou recentemente a inclusão de uma cláusula polêmica nos novos contratos de trabalho da empresa. Os novos funcionários assinam eximindo a empresa da culpa por “infortúnios não acidentais”. Segundo a coordenadora da Sacom, Debby Chan, que acaba de voltar de uma pesquisa de campo nas indústrias da Foxconn, feita em janeiro e fevereiro, a cláusula é considerada ilegal: — Eles praticamente são obrigados a dizer que não vão cometer suicídio. Se cometerem, de acordo com o contrato, a família não pode reivindicar seguro da empresa. É um documento absurdo — contou, por telefone. Trechos do contrato desvendados pela Sacom foram publicados pela revista Samuel, no início de março. O segundo item é bastante direto: “Se eu tiver dificuldades ou frustrações, procurarei meus familiares ou o diretor da empresa (...)”. E ainda: “Não farei mal nem a mim nem aos outros; confirmo que posso ser mandado ao hospital caso venha a ter problemas físicos ou mentais”. Em outro item do contrato, mais um compromisso: “Em caso de infortúnios não acidentais (entre os quais suicídio), confirmo que a empresa seguiu as leis e regulamentos e me Terça-feira, 27 de março de 2012 ● O GLOBO

comprometo a não processá-la, a não fazer exigências excessivas e não empreender ações que possam prejudicar a reputação da companhia.” A Sacom foi fundada em 2005 e, desde 2008, já fez cinco investigações sobre a Foxconn em três cidades chinesas: Shenzhen, Chengdu e Zhengzhou. Mas a instituição não foi impulsionada pelas atitudes da Foxconn. A Sacom nasceu após uma filial da Disneylândia ter sido instalada em Hong Kong. Foi quando um grupo de estudantes e professores de universidades se uniram para estudar a cadeia produtiva de produtos, como bonecos. Debby Chan se formou em Ciências Políticas e, aos 30 anos, é uma das principais figuras do movimento. — Observamos as indústrias locais.

Dois anos atrás, as horas extras dos funcionários da Foxconn passavam de cem por mês. Já conseguimos que elas não passem de 60. Mas alguns trabalhadores só têm duas folgas por mês e os salários continuam baixos. As pessoas não têm vida social. Sempre descrevem que levantam, trabalham, trabalham, comem, jantam, deitam e voltam a trabalhar. A realidade é diferente da brasileira. Debby Chan sequer sabia como funcionavam sindicatos, já que eles são proibidos na China. Os funcionários trabalham oito horas por dia, mas na maioria das cidades o turno vai das 8h às 20h, já que as fábricas exigem duas horas de pausa para almoço e duas de janta. Somado a isso, há ainda o deslocamento dos dormitórios às fábricas.

Nas fábricas, elas são as protagonistas Leslie Chang: As garotas da fábrica; Intrínseca, 376 páginas Mais fáceis de lidar que os homens e mais esforçadas. Esses são os motivos de as mulheres serem maioria nas fábricas chinesas, segundo narrativa da jornalista americana Leslie Chang, filha de pais chineses, que passou três anos no país para acompanhar de perto a vida de moças que saem de zonas rurais do país, para tentar a vida em indústrias do país. Recheado de histórias de chinesas que passam a vida em função das fábricas onde trabalham, a obra expõe a fragilidade

do modelo econômico chinês, desvendando rostos que existem por trás da acelerada produção de mercadorias, que tem elevado o Produto Interno Bruto (PIB) do país. Dormitórios coletivos lotados e exploração da mão de obra por excesso de trabalho e baixos salários são só alguns dos elementos que fazem parte da denúncia, escrita em forma de romance. O livro foi eleito um dos melhores livros pelo New York Times, em 2008.

Os entrevistados pela Sacom relataram que sequer têm tempo de visitar as famílias em outras cidades, mesmo no Ano Novo Chinês. Segundo a legislação chinesa, eles têm cinco folgas por ano, o que se somaria a feriados como o ano novo e totalizaria 11 dias. Mas, com o lançamento do novo Ipad, as unidades da Apple estão exigindo mais horas extras. É o que salva, no entanto, em termos salariais. Um funcionário da linha de produção da Foxconn na China recebe cerca de US$ 285. No caso de Shenzhen, por exemplo, é próximo do salário mínimo, de US$ 237. E isso já representa melhora, já que, em 2010, os trabalhadores ganhavam em torno de US$ 142. Segundo a assessoria de imprensa da Foxconn Brasil, os contratos brasileiros foram adaptados à legislação local, e não incluem cláusulas como a relativa a suicídios. A dirigente sindical que atua na Foxconn em Jundiaí, Andréa Barbosa, confirmou a informação. Outra ONG independente que está investigando as condições de trabalho na Foxconn é a Fair Labor (FLA), da qual a própria Apple se tornou parceira em fevereiro. A organização está visitando fábricas da Foxconn em diferentes locais e verificando se as condições de trabalho estão de acordo com o código de conduta da instituição. Por enquanto, eles divulgaram pareceres falando sobre a monotonia do dia a dia, que pode ter levado aos suicídios em massa, mas não dão entrevistas enquanto a investigação não estiver completa. Os resultados serão divulgados no site fairlabor.org. (C.N) Razão Social ● 19


Jundiaí - O Globo