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ar, terra, รกgua, luz, aรงo, tempo


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Fernanda Fragateiro Nasceu no Montijo. Estudou na Escola Superior de Belas Artes e no Ar.Co, e desde meados dos anos 80 começou a expor publicamente em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Desde então, tem apresentado o seu trabalho em exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro. O seu trabalho de características multifacetadas tem-se revelado em diversos projectos de instalação, cenografia, ilustração e escultura, alguns dos quais resultaram de colaborações com outros artistas plásticos, arquitectos, arquitectos paisagistas e performers. Em 2001, ganhou o prémio Tabaqueira de Arte Pública com a escultura Um círculo que não é um círculo. Entre 2004 e 2005 foi bolseira da Fundación Marcelino Botín, Santander, Espanha, no âmbito da qual visitou a Ciudad Abierta, Ritoque, Chile. A partir desta experiência, desenvolveu vários projectos, entre os quais: Caixa para guardar o vazio. A sua obra está representada em várias colecções públicas e privadas, entre as quais o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Espanha. This Montijo-born artist made her studies at Escola Superior de Belas Artes and Ar.Co. In the mid-1980s, she started exhibiting her work in Lisbon, where she lives and works. Since then, her creations have appeared in many solo and group shows in Portugal and abroad. Her versatile body of work encompasses installation, set design, illustration and sculpture. Some of these projects were collaborations with other visual artists, architects, landscape architects and performing artists. In 2001, her sculpture Um círculo que não é um círculo won the Tabaqueira Public Art Prize. From 2004 to 2005, she held a scholarship from the Fundación Marcelino Botín, Santander, Spain, which enabled her to visit Ciudad Abierta, Ritoque, Chile. This experience inspired several new projects, including Caixa para guardar o vazio. Her work is featured in several public and private collections, including Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Portugal, and Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Spain.

Julho de 2008

retirar as plantas existentes sachar os canteiros deixar em pousio

Setembro de 2008

retirar parte da terra impermeabilizar o solo colocar terra preta limpar os caminhos lavar os lancis caiar o muro conversar

Abril de 2009

manter


fernanda fragateiro

ar, terra, รกgua, luz, aรงo, tempo


TEXTO ANA ISABEL RIBEIRO

O tempo é. Não consome nem se desgasta. O tempo do presente é efémero e disperso: irreversível. O do passado é permanente e espesso: comemorativo. O do futuro é contingente e incorpóreo: longínquo. O da espera é mediador e reflexivo: construtor. A experiência de tempo é determinada pela intensidade do desejo, que acelera, retarda ou imobiliza o estar, o ser realidade. A realidade perceptível é uma diferença, uma forma temporal de desejo anacrónico espacializada. O presente não é autónomo. A vida é lembrada como uma construção temporal incompleta. Nunca se vive o suficiente para desejá-la e senti-la concluída. É no seu presente que se vive a urgência de tempo. Todo o presente decifrável é, enquanto tal, definitivo. A expressão completa deste presente rui a possibilidade de futuro. Esperar é um défice constante. A imutabilidade aparente do estar em espera induz exteriormente à percepção de uma ocorrência de evento muda e estéril. É nesta circunstância de mudança imperceptível, tensa e regeneradora, que conscientemente se [re]cria. Um jardim é um lugar em espera de futuro. Todo o seu presente é retrospectivo. A actualidade objectiva de um jardim é o fim. A subjectiva é o instante. AR-ÁGUA-TERRA-AÇO-TEMPO manifesta-se presente aberto à subjectividade individual. A sua forma visível imediata é a condicionante de tempo encontrado que se reintegra para espacializar um tempo de espera, um tempo não específico concreto. O presente incorpora a imobilidade impossível do tempo na experiência de repetição. A sua realidade tensionada é performativa e a deformação inconstante e irrepetível conclui um presente no futuro.


espera

Que tempo é o imaginado do tempo em espera? É o da possibilidade de um desejo de realidade: uma construção dilatada e subjectivamente localizada entre dois tempos marginais, o encontrado e o idealizado. O tempo do presente é efémero e disperso: irreversível. O do passado é permanente e espesso: celebratório. O do futuro é contingente e incorpóreo: longínquo. O da espera é mediador e reflexivo: construtor. A vida é lembrada como uma construção temporal incompleta. Nunca se vive o suficiente para desejá-la e senti-la concluída. É no seu presente que se vive a urgência de tempo. Todo o presente decifrável é, enquanto tal, definitivo. A expressão completa deste presente rui a possibilidade de futuro. Esperar é um défice constante. A imutabilidade aparente do estar em espera induz exteriormente à percepção de uma ocorrência de evento muda e estéril. É nesta circunstância de mudança imperceptível, tensa e regeneradora, que conscientemente se [re]cria. O tempo é. Não consome nem se desgasta. A experiência de tempo é determinada pela intensidade do desejo, que acelera, retarda ou imobiliza o estar, o ser realidade. A realidade perceptível é uma diferença, uma forma temporal de desejo anacrónico espacializada. O presente não é autónomo. Um jardim é um lugar em espera de futuro. Todo o seu presente é retrospectivo. A actualidade objectiva de um jardim é o fim. A subjectiva é o instante. ar, água, terra, aço, tempo manifesta-se presente aberto à subjectividade individual. A sua forma visível imediata é a condicionante de tempo encontrado que se reintegra para espacializar um tempo de espera, um tempo não específico concreto. O presente incorpora na experiência de repetição a imobilidade impossível do tempo. A sua realidade tensionada é performativa e a deformação inconstante e irrepetível conclui um presente no futuro. Fernanda Fragateiro propõe um espaço como contingência de instante. Um efémero no qual se pode imaginar uma condição suspensa de estar, de ser um aqui sempre agora. A experiência subjectiva de futuro é criada pelo instante no qual desejo é uma realidade. Claudia Taborda


[e]motion, still

What time is the imagined time of the time in waiting? It is the time of the possibility of a desired reality: an expanded construct which is subjectively located between two marginal times, the found and the idealized. The time of the present is ephemeral and diffused: irreversible. The one of the past is steady and thick: celebratory. The one of the future is contingent and disembodied: far. The one of waiting is mediatory and reflexive: constructive. Life is remembered as an incomplete temporal construct. One never lives enough to desire it and feel it accomplished. The urgency of time is experienced in its present as such. Every perceptible present is ultimate. The complete expression of this present undermines the possibility of future. To wait is an uninterrupted deficit. The apparent stillness of waiting suggests a mute and sterile exteriority of the event. Within waiting, change is ungraspable. It is in it, bound by tension and regeneration, that one is consciously able to [re]create. Time is. It neither devours nor wears itself out. The experience of time is founded on the intensity of desire, which accelerates, slows or stills our existence, our being reality. Perceptible reality is a difference, a spatialized temporal form of anachronistic desire. The present is not autonomous. A garden is a place waiting for the future. All of its present is retrospective. The objective presentness of a garden is inherent to its end. Its subjective one is the moment. ar, รกgua, terra, aรงo, tempo is a present open to individual subjectivity. Its immediate visible shape is a contingency of found time which is assimilated as spatiality of a time in waiting, a non-specific concrete time. The present embodies the impossible stillness of time through experiences of repetition. Out of its unrepeatable and uneven tense reality, a present is finished in the future. Fernanda Fragateiro puts forward a spatial momentum that is contingent to the instant. Within its ephemerality one can envision a suspended way of being, of a being always here now. The subjective experience of the future is engendered by that instant in which desire is a reality. Claudia Taborda


Exposição | Exhibition: ar, terra, água, luz, aço e tempo. Fernanda Fragateiro. Ficha técnica: ar, terra, água, luz, aço e tempo, 2008. Jardim dos Pintores – Chão das artes – Jardim Botânico Produzida pela | Produced by: Casa da Cerca — Centro de Arte Contemporânea | Câmara Municipal de Almada 27 de Setembro 2008 – 30 de Abril 2009 | September 27 2008 – April 30 2009 2008 Projecto | Project: Fernanda Fragateiro Colaboração | Contribution: Filipe Meireles Direcção | Director: Ana Isabel Ribeiro Serviço Educativo | Education Service: Emília Ferreira Produção e Comunicação | Production and Communication: Vanda Piteira Secretariado | Administration: Isabel Ferreira Apoio de Montagem | Exhibition Assembly: Victor Borges Divisão de Manutenção e Logística da CM Almada Catálogo | Catalogue Coordenação Geral | Overall Coordination : Emília Ferreira Textos | Texts: Ana Isabel Ribeiro, Claudia Taborda Traduções | Translations: José Gabriel Flores Centro de Documentação e Investigação | Research and Documentation Centre: Ana Margarida Martins Créditos Fotográficos | Photography: Miguel Ângelo Guerreiro Design Gráfico | Graphic Design: Patrícia Cativo Impressão | Printing: Jorge Fernandes ISBN: Depósito legal:

Morada: Rua da Cerca casadacerca@cma.m-almada.pt www.m-almada.pt/casadacerca

Ar, terra, água, luz, aço e tempo