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EDITORIAL

DESIGN EDITORIAL É PARA OS FORTES! O objetivo geral do design, em qualquer uma das suas diversas variações, geralmente consiste na organização e composição de ideias. O material com que se trabalha são elementos visuais, funcionais ou conceituais, que geralmente partem do próprio designer ou de uma necessidade específica, o chamado briefing. É nesse aspecto, na origem e nos propósitos das ideias, que o design editorial se diferencia. O designer editorial tem a tarefa de apresentar para o mundo ideias criadas não por ele próprio e sim por uma variedade de outros profissionais como artistas, fotógrafos, escritores e jornalistas. Enquanto esses profissionais têm a tarefa de pesquisar e elaborar uma unidade de informação, a preocupação do designer é elaborar um conjunto dessas informações de forma clara, agradável e atrativa para o leitor sem distorcer ou prejudicar de qualquer forma o seu conteúdo original. Tratase de uma tarefa nobre e de muita responsabilidade, que pode ser comparada com a curadoria de uma exposição. Esta Edição Especial da Revista Top View consiste de uma parceria entre os Editores da Revista, as Professoras da disciplina de Projeto Visual II e os alunos do 2º ano do curso de Design Projeto Visual da Universidade Positivo.

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Nesta parceria, durante o segundo bimestre de 2013, os alunos puderam desenvolver o projeto de design editorial de uma revista. O projeto para um novo layout, o grid, a composição, a paleta de cores, cada tipografia e estilo de parágrafo, as imagens, a produção fotográfica, as horas em frente ao computador, a espera em sala para orientação com as professoras, cada linha órfã, cada ajuste na diagramação, testes de impressão, entre tantas outras especificidades fazem parte da tarefa do designer editorial. Assim, como professoras, esperamos que os alunos tenham experimentado neste projeto uma pequena parte desta área do design que, por vezes, carece de profissionais especializados e que também possam contar com este projeto como mais um artefato de importância para seus portfólios. Aos Editores da Revista Top View e aos demais leitores, esperamos que apreciem o trabalho de nossos alunos sob um novo ponto de vista e uma nova maneira de contar suas histórias, informações e imagens que estão prestes a desfrutar nas página que se seguem. Boa leitura. Boa apreciação visual. Professoras Eliza Sawada e Michelle Aguiar Design Projeto Visual | Universidade Positivo


NESTA EDIÇÃO CARTAS CANAL COM O LEITOR

A Top View que ouvir a sua opinião sobre o conteúdo da revista. Por isso abrimos um canal para você enviar seus comentários, criticas e sugestões de reportagens. Entre em contato pelo email faleconosco@topview.com.br ou envie cartas para o endereço: Rua Fernando Simas, 252. Batel. Curitiba PR. CEP 80430-190

“Eleonora Greca Hoje em dia é muito difícil encontrar jornalistas humanos, que ao escrever uma matéria sintam-se no lugar do entrevistado, captando todas as energias que percorrem seus corpos no momento. Acho que a repórter Bia Moraes d uma maneira muito especial, conseguiu isso ao escrever o perfil de Eleonora Greca na edição de fevereiro da Top View. Sou muito suspeito para falar qualquer coisa sobre ela, mas é a primeira vez que li uma matéria como se a própria Eleonora estivesse se entrevistando. Captar a alma de uma artista é para poucos, vocês conseguiram isso e muito mais. Parabéns! ”

Wanderley Lopes

Bailarino, coreógrafo e produtor cultural

“Parabenizo toda a equipe Top View pela brilhante matéria “Em Xeque”, publicada em fevereiro no encarte MORAR Curitiba, com perspectivas do mercado imobiliário.”

Jeferson Paulo Casagrande Diretor do grupo Casagrande

“Prezada Cintia Peixoto, receba meus cumprimentos pela qualidade e profissionalismo. O sucesso da revista Top View, orgulho de todos nós paranaenses, é notório e merece registro.”

Renato Barroso

Jornalista e proprietário da Editora Correio Paranaense Ltda

FOTOGRAFIA: WILLIAN BATISTA WSALVARIO@TOPVIEW.COM | DIAGRAMAÇÃO: DAFFNY DHEIN DAFFNY. DHEIN@TOPVIEW.COM - FERNANDA DE PAULA FERNANDA.DE.PAULA@TOPVIEW.COM - JHENIFER RINALDIN JHENIFER.RINALDIN@TOPVIEW.COM - JHÉSSICA RINALDIN JHESSICA.RINALDIN@TOPVIEW.COM - WILLIAN BATISTA WSALVARIO@TOPVIEW.COM | MODELO: JHÉSSICA RINALDIN JHESSICA.RINALDIN@ TOPVIEW.COM | EDIÇÃO DE IMAGENS: JHENIFER RINALDIN JHENIFER.RINALDIN@TOPVIEW.COM - JHÉSSICA RINALDIN JHESSICA.RINALDIN@TOPVIEW.COM - WILLIAN BATISTA WSALVARIO@TOPVIEW.COM View Editores Rua Fernando Simas, 252. Batel. Curitiba. CEP 80430-190 Tel.:3322-6000 e 3016-0060 www.topview.com.br Executamos sua assinatura, seu nome será incluido na lista de clientes preferenciais da Editora, que poderá cedê-lo a empresas idoneas para fins de divulgação e promoção de produtos de seu interesse. Caso não queira fazer parte dessa lista , escreva para revista. As matérias assinadas não expressam necessariamente a opnião da revista TOP VIEW Curitiba.

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VIEW MAKING OF

LUXO CONTEMPORÂNEO

O editorial de moda de junho é puro luxo. Para a produção da capa contamos com a ilustre presença de Jhéssica Rinaldin, modelo e estudante de Design Gráfico, que mostrou sua beleza e charme. A produção foi inspirada nas tendências de inverno 2013, apostando em transparências e estampas decorativas, fazendo um mix entre peças

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clássicas e contemporâneas resultando em um look elegante. Na cartela de cores, os tons escuros contrastam-se com os claros, elemento chave nas passarelas para esta estação. A equipe de fotografia buscou realizar fotos em estúdio para valorizar as estampas, peças e as marcantes cores que estão com tudo nessa estação.


ÍNDICE COLUNA

18 Passeio Literário com Leminski AGENDA

20 Show : God Save The Queen 22 Exposição: A Magia de Escher 24 Teatro: Balé Raymonda PERSONAGENS

26 O Homem-músico (Waltel Branco) 32 Festival de Teatro 40 A Lógica do Tropicalismo (Tom Zé) 48 The Drean Team (design e arquitetura) ESTILOS

62 O Frio vai ser Quente 72 Stand UP Paddle ESPAÇOS

80 Paixão Exclusiva (adega) SABORES

88 Bistronomique, bom e barato ARREDORES

98 Espírito aventureiro 104 Zaragoza


COLUNA PASSEIO LITERÁRIO

A VOLTA LÍRICA DO SAMURAI POLACO Por Mariana Sanchez O indefectível maxibigode na capa não deixa dúvidas: Leminski está de volta. E agora, por inteiro. Acaba de chegar às livrarias brasileiras Toda Poesia, obra que reúne, de cabo a rabo, a produção poética do bigodudo que sabia Latim. São mais de 400 páginas – um verdadeiro “catatau” – e absolutamente todos os cerca de 630 poemas que ele publicou, a maioria em livros esgotados há mais de uma década. Nos anos 90, quando eu era adolescente, fui incumbida de preparar um seminário no colégio sobre o poeta. Revirando acervos e me embrenhando em bibliotecas atrás desses volumes extraviados no tempo, eu conheci a cidade que o Leminski conhecia como a “palma da sua pica”. Hoje, a tarefa seria bem mais simples, á que Toda Poesia não traz apenas – como o nome sugere – toda a poesia leminskiana, mas também reflexões de inestimável valor sobre a mesma, em textos assinados por José Miguel Wisnik, Caetano Veloso, Haroldo de Campos e, entre outros, Alice Ruiz, responsável pela organização da obra. Quantos Leminskis cabem aqui dentro? Difícil precisar. Seja em versos concretos ou líricos, em haicais ou poemas-piada, o “polaco loco paca” confirma que, mesmo tendo sido múltiplo, foi único e inimitável. Faixa preta no judô e no manejo das palavras, manteve seu autodomínio equilibrando-se entre o zen budismo e a eloquência, o ensaio e o anseio, a

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“ESTA PÁGINA POR EXEMPLO, NÃO NASCEU PARA SER LIDA. NASCEU PARA SER PÁLIDA, UM MERO PLÁGIO DA ILÍADA, ALGUMA COISA QUE CALA, FOLHA QUE VOLTA PRO GALHO, MUITO DEPOIS DA CAÍDA.”

canção e a esculhambação, o capricho e o relaxo. Porque, apesar de ser um “inutensílio”, poesia é coisa séria e requer capricho estético. Exemplo disso é o terceto “Enfim / nu / como vim” e o poemeto “Haja hoje p/ tanto hontem”. Leminski tinha esse rigor, mas também sabia que, para sair vitorioso na literatura, era preciso estar distraído. Certa vez, profetizou em verso: “Vai vir o dia / quando tudo que eu diga / seja poesia”. O lançamento da Companhia das Letras é a prova de que este dia chegou. E que, quase 24 anos após sua morte, o poeta continua bem vivo. Aliás, como ele mesmo ameaçou no livro Caprichos & Relaxos, “é bem capaz de o filhadaputa ainda fazer chover em nosso piquenique.”


AGENDA SHOW

GOD SAVE THE QUEEN Teatro Positvo recebe a banda argentina God Save The Queen

Eleita recentemente como a melhor banda tributo do mundo pela revista Rolling Stone, a argentina God Save The Queen volta a Curitiba, no domingo, dia 23 de junho, para um show inédito. Nunca antes uma homenagem havia se proposto chegar tão longe: God Save The Queen é indubitavelmente um caso único, onde o tributo deixa de ser tributo para transformar-se num espetáculo musical e teatral de primeira qualidade. Durante os últimos 10 anos, a banda apresentou-se em três continentes. Na apresentação de seu novo espetáculo, “Alive at Wembley 1986”, God Save The Queen uniu-se aos melhores cenógrafos e diretores, para apresentar pela primeira vez, o show mais emblemático do Queen, o último que Freddie Mercury fez ao vivo com a banda, recorde de venda em todo o planeta.

SERVIÇO God Save the Queen Dia 23 de junho Teatro Positivo R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300, Campo Comprido, Curitiba www.teatropositivo.com.br

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AGENDA EXPOSIÇÃO

A MAGIA DE ESCHER Museu Oscar Niemeyer recebe a mais completa exposição de M. C. Escher já realizada no Brasil

O Museu Oscar Niemeyer (MON) recebe dia 11 de abril, quinta-feira, às 19 horas, a mais completa exposição já realizada no Brasil dedicada ao artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898 – 1972). A mostra “A magia de Escher” reúne 85 obras, entre gravuras originais, desenhos e facsímiles, incluindo todos os trabalhos mais conhecidos do artista. A exposição permitirá que o público passe por uma série de experiências que desvendam os efeitos óticos e de espelhamento que Escher utilizava em seus trabalhos. Experiências como olhar por uma janela de uma casa e ver tudo em ordem e, em seguida, ver tudo flutuando por outra janela, ou ainda assistir um filme em 3D, que possibilitará um passeio por dentro das obras do artista. A expografia ainda apresentará animações de algumas das gravuras de Escher.

SERVIÇO Fundação Escher - Holanda Até 11 de agosto Museu Oscar Niemeyer R. Marechal Hermes, 999, Centro Cívico, Curitiba www.museuoscarniemeyer.org.br

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AGENDA TEATRO

BALÉ RAYMONDA A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil apresenta uma Gala com o III Ato do Balé Raymonda.

A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil apresenta “Clássicos Bolshoi Brasil: Balé Raymonda e Chopiniana”, no dia 29 de junho, às 20h30, no Teatro Positivo. A apresentação faz parte da programação do Estação Volvo e conta com cerca de 60 bailarinos que têm a responsabilidade de interpretar essas obras que são clássicos do balé de repertório. A história “Raymonda” acontece no século XIII. O III Ato retrata uma grande festa, que acontece no parque do castelo de Jean de Brienne, e celebra o casamento de Jean e a protagonista Raymonda, abençoados pelo rei Andrei II. A comemoração termina com um baile húngaro em homenagem ao rei. O III Ato do balé “Raymonda” é considerado o destaque desta obra, pois traz ao palco, majestosos figurinos e fortes interpretações com as coreografias de dança a caráter, demicaráter e o mais puro clássico.

SERVIÇO Escola de Teatro Bolshoi Dia 29 de junho Teatro Positivo R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300, Campo Comprido, Curitiba www.teatropositivo.com.br

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PERSONAGENS WALTEL BRANCO

Do erudito ao popular, Waltel comp么s mais de cinco mil pe莽as

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O HOMEMMÚSICO Ele já ensinou Banden Powell, trabalhou com os expoentes da Bossa Nova, e compôs, entre tantas trilhas famosas, a do filme A Pantera Cor de Rosa. É assim, nos bastidores, que esse paranaense de temperamento tranquilo prefere agir. “Nunca quis ser famoso. O que me importa é a música. por Paula Melech

Talvez seja mera coincidência, ou, quem sabe, predestinação divina. Fato é que no dia 22 de novembro – dia do músico – nascia Waltel Branco. O homem- músico que está completando 83 anos pode ser descrito como um dos precursores do jazz fusion e da bossa nova. O maestro, compositor, violonista e arranjador foi professor de Baden Powell, arranjou discos de João Gilberto e criou trilhas sonoras de novelas e filmes – a mais conhecida, sem dúvida, é a famosa música de A Pantera Cor de Rosa. A lista de feitos é grande: do erudito ao popular, compôs mais de 5 mil peças. Fez arranjos e direções musicais para Dorival Caymmi, Nana Caymmi, João Gilberto, Roberto Carlos,Cazuza, Tim Maia, Djavan, Cartola, Gal Costa, Maria Creuza, Vanuza, Mercedes Sosa, Astor Piazzola, Zé Keti, Peri Ribeiro, Sérgio Ricardo, Tom Jobim e muitos outros. Produziu até um arranjo do Hino Nacional Brasileiro para a Orquestra de Viena executar. Dian-

te de tamanha importância, é até curioso que o seu nome não seja proferido aos quatro ventos. Talvez seja apenas reflexo de uma personalidade tranquila ou simplesmente um desinteresse pela fama. “Nunca quis ser famoso. O que me importa é a música”, comenta Waltel. A fala baixa e pausada sugere que se trata de um sujeito atento ao que diz. A conversa é olho no olho e, quando é o interlocutor que fala, ele ouve sem pressa.

DO ERUDITO AO POPULAR, O MAESTRO COMPÔS MAIS DE CINCO MIL PEÇAS. Mas, por trás do semblante calmo, há uma mente inquieta capaz de memorizar a primeira música que aprendeu a tocar, ainda criança. Mal termino de perguntar se ele se lembra da canção, rapidamente saca o violão e começa a dedilhar os acordes. É assim, musicalmente, que Waltel se comunica: recorda da música, mas não do nome dela.

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PERSONAGENS WALTEL BRANCO PREDESTINADO Waltel teve dois nascimentos. Sem maior alarde, veio ao mundo em uma tarde de novembro de 1929 na cidade de Paranaguá, surpreendendo os pais. A previsão era que o menino nasceria somente dois meses depois. Os pais moravam em Curitiba e estavam no litoral a passeio. Com a chegada surpresa do filho, subiram a serra e foram direto para o Hospital São Vicente, onde o pequeno foi registrado em uma

lão sete cordas), Efigênio Goulart (acordeonista), além de outros que atuam no cenário musical. Durante a gravação de um disco com o acordeonista italiano Cláudio Todisco nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro, conheceu o maestro Radamés Gnattali. Waltel lembra que estava tocando a Tocata e Fuga em Ré Menor (de Bach) quando o maestro perguntou se ele estava lendo a partitura. “Respondi que sim, pensando que estava errando alguma nota. Então ele me convidou para trabalhar com ele”, conta.

“EU NUNCA PARO, GOSTO DE ESTAR EM MOVIMENTO.” Esse primeiro contato evoluiu para uma amizade que duraria até o fim da vida de Gnatalli. Juntos, participaram de gravações de discos e apresentações de recitais. A partir daí, passou a ter aulas de regência com outros mestres, como Alceu Bocchino e Mário Tavares, e ensaiou a orquestra nos concertos de Stravinsky na capital carioca. Na Escola de Música, no Rio, também teve aulas com nomes de peso como o violoncelista Iberê Gomes Grosso e com o violonista Othon Salleiro.

NO RITMO LATINO

Waltel escolheu o violão, contrariando a preferência do pai.

data que se tornaria emblemática na sua carreira. A música fazia parte da família. Seu primeiro professor foi o pai Ismael Helmuth Scholtz Branco, saxofonista, clarinetista e maestro. Crescendo nesse meio, os filhos sempre foram incentivados a tocar algo e Waltel escolheu o violão – meio a contragosto, já que o pai achava que era um instrumento de menor importância. Teve alguns mestres ao longo do aprendizado, como o maestro Bento Mossurunga e Jorge Koshag. Em Curitiba, as atividades profissionais começam na rádio com Janguito do Rosário (cavaquinista), Arlindo (vio-

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Na trajetória do mestre Waltel, um dos momentos mais decisivos aconteceu a partir do contato com a cantora cubana Lia Farrel, no final de 1940. Os caminhos da vida tomaram um rumo definitivo para a sua carreira. Durante a temporada de shows no Rio, ocupou o cargo de violonista do conjunto que a acompanhava e passou a assinar a direção musical e os arranjos da intérprete. Após a última apresentação, seguiu com Lia para Montevidéu, no Uruguai, e depois para Cuba. Os dias eram agitados e a música estava por todas as partes. Morando em Havana, conheceu artistas de renome da música cubana como o pianista, compositor e maestro Perez Prado, o percussionista Mongo Santamaría e Chico O’Farrell. Profundamente envolvido com o som latino, Waltel começa a se interessar por jazz e segue para os Estados Unidos. Lá, busca o guitarrista San Salvador – inte-


grante do trio de Nat King Cole – para tomar aulas. Em Nova Iorque, tocou com Laurindo de Almeida e gravou trabalhos com Franco Rosolino, Charles Mariano, Sam Noto, Mel Lewis e Max Bennett. Definitivamente, a música ocupava tamanho espaço na vida do maestro que influenciou até sua vida afetiva. Nos Estados Unidos, Waltel conheceu a cantora Peggy Lee, que era casada com o maestro Quincy Jones. Waltel teve um affair com a irmã de Peggy, Lede Saint-Clair, tornando-se assim, próximo de Jones. Juntos, tocaram muito jazz e música clássica. Foi quando conheceu o maestro Henry Mancini, que na época abria um escritório para atender à demanda por trilhas sonoras para TV e cinema. Waltel foi contratado e tornou-se o arranjadWor de uma das músicas mais famosas da história do cinema, a do filme A Pantera Cor de Rosa, de Blake Edwards.

A BOSSA BRASILEIRA Depois da temporada no exterior, Waltel sentiu um chamado interior para regressar à terra natal. Quando aterrissou por aqui, no final dos anos 50, a Bossa Nova já estava no ar e o maestro entrou no movimento de cabeça. Tornou-se amigo de ninguém menos que João Gilberto, com quem inclusive dividiu um apartamento. “Somos amigos até hoje”, conta. A amizade e parceria musical resultaram no álbum Chega de Saudade, lançado em 1959, coarranjado pelo paranaense. A Bossa Nova foi fundamental para trazer à tona a importância de Waltel como um dos mais talentosos músicos brasileiros. Era muito requisitado para tocar e respeitado como arranjador. Sempre trabalhando – “Eu nunca paro, gosto de estar em movimento” –, o maestro dava aulas para Baden Powell e tocava com vários músicos quando recebeu um convite para trabalhar na Rede Globo. Roberto Marinho procurava alguém para comandar a equipe musical da emissora. Sob os seus cuidados foram compostas trilhas de novelas famosas até hoje, como a de Roque Santeiro, A Gata Comeu, A Moreninha e A Escrava Isaura. O grupo de trabalho era formado por ninguém mais ninguém menos que Radamés Gnatalli, Guerra- Peixe e Gui-

do de Moraes. Foram 20 anos de trabalho na televisão. Mas não quis ser conhecido por este tipo de atuação, por isso assinava com pseudônimos. Hoje, a sua vida em Curitiba é tranquila. Mora no bairro Batel e gosta de sair de casa para caminhar ou ir a alguns shows e eventos em que é homenageado. Recentemente foi lançado o seu primeiro livro de partituras, que reúne grande parte da extensa obra para violão. O projeto, capitaneado pelo produtor Alvaro Collaço, ganhou tanta repercussão que, dois anos depois, 20 violonistas populares e eruditos da cidade começaram a gravar algumas das mais de 200 composições suas para violão. O resultado foi a gravação do disco O Violão Plural de Waltel Branco. Muito procurado por músicos que querem a sua opinião sobre alguma composição, o maestro recebe a todos com muito carinho. Não tem mágoa de não ter ficado famoso como a turma da Bossa Nova, mas diz que Curitiba precisa se orgulhar mais dos seus artistas. “Não sei direito por que isso acontece, mas o meu trabalho foi mais reconhecido fora da cidade.”

Aos 83 anos, o maestro é muito procurado por músicos que querem a sua opinião sobre trabalhos.

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PERSONAGENS FESTIVAL DE TEATRO

ARTE VERTENTE Para orientá-lo na vasta programação do Festival de Teatro de Curitiba, a TOP VIEW foi consultar quem relamente conhece o assunto. Confira as peças imperdíveis desta 22a edição, indicadas por um time de peso. por Daniel Batistella

SERVIÇO 22O FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA, DE 26/3 A 07/4 PREÇOS -Mostra 2013: R$ 60 -Fringe: de entrada franca a R$ 60 -Risorama: $60 MAIS INFORMAÇÕES www.festivaldecuritiba.com.br www.bilhetedigital.com.br

COMO COMPRAR - Bilheteria Shopping Mueller, Av. Cândido Abreu, Centro Cívico, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e domingos e feriados, das 14h às 20h - Bilheteria Park Shopping Barigui, Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 600, Mossunguê, de segunda a sexta das 11h às 23h, sábado, das 10h às 22h, e domingos e feriados, das 14h às 20h -Bilheteria Shopping Palladium, Av. Presidente Kennedy, 4.121, Portão, de segunda a sexta, das 11h às 23h, sábados, das 10h às 22h, e domingos e deriados, das 14h às 20h

Homem Vertente: cada apresentação utiliza em torno de 30 mil litros de água, reutilizando 80% em futuras apresentações.

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As dicas de

GIL BARONI Artista MultimĂ­dia

â€œĂ‰ DE UMA COMPANHIA ARGENTINA MARAVILHOSA. TRAZEM ESSE TRABALHO FANTĂ STICO, BEM SENSORIAL. É ALGO PARA VER E CURTIR.â€? (Sobre O Homem Vertente)

GONZAGĂƒO A LENDA

O HOMEM VERTENTE

A trajetória de vida de Luiz Gonzaga Ê somada aos mitoscriados acerca do Rei do Baião para contar a história de um dos mais importantes nomes da música brasileira, no ano de seu centenårio. No sertão de Araripe, uma trupe de atores chega embalada pelos sons do Nordeste e recria, sem se prender ao onde e ao quando, a atmosfera de nascimento de um dos principais gêneros da nossa música, que de tão original parece ter sempre existido. Com mais de 30 cançþes interpretadas, Ê um agradecimento ao compositor de Asa Branca pela riqueza cultural conferida por sua obra ao nosso Brasil. t %JSFÎ�P +P�P 'BMD�P &MFODP .BSDFMP .JNPso, Laila Garin, AdrÊn Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros. Teatro Positivo - Grande Auditório (Rua Professor Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300, Campo Comprido), dias 31/3 (19h) e 1/4 (21h).

A montagem brasileira do espetĂĄculo da companhia argentina OjalĂĄ ĂŠ uma produção multissensorial, na qual mĂşsica, projeçþes, dança, performance e teatro se juntam e o espectador recebe um “bombardeioâ€? de estĂ­mulos. Conta a viagem de um homem por meio de sua imaginação. Passando por baixo de muita ĂĄgua, ele deverĂĄ enfrentar desafios e atravessar mundos fantĂĄsticos repletos de criaturas e personagens alucinantes. Uma odissĂŠia emocionante pelos caminhos da fantasia. SĂł no final descobriremos se foi encontrada a saĂ­da, e os espectadores serĂŁo a chave para chegar atĂŠ ela. t %JSFĂŽĂ?P 1JDIĂ˜O #BMEJOV &MFODP OĂ?P divulgado. Arena Parque Barigui(Av. Cândido Hartmann s/no), dias 30/3 (21h), 31/3 (19h), 5/4 (21h), 6/4 (21h) e 7/4 (19h).

(drama)

(multimĂ­dia, estreia nacional)

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PERSONAGENS FESTIVAL DE TEATRO

As dicas de

GUILHERME WEBER Ator

Renata Sorrah: “Reconheço aquelas mĂŁes, aqueles pais. As relaçþes sĂŁo tĂŁo reconhecĂ­veis!â€?

ESTA CRIANÇA

PARLAPATĂ•ES REVISTAM ANGELI

Estrutura-se em dez cenas curtas e apresenta como tema único, ao mesmo tempo fragmentado em diferentes aspectos de abordagem, a relação entre pais e filhos. Constrangedoras, engraçadas, tristes, estranhas, as situaçþes de morte, nascimento, adoção, abandono, agressão e desabafo ilustram pontos cruciais e eternos na vida dos personagens sem nome, reconhecidos apenas pelas relaçþes de parentesco que se tornam aparentes no desenvolvimento dos diålogos. t %JSFÎ�P .BSDJP "CSFV &MFOco: Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez, Edson Rocha. Guairinha (Rua XV de Novembro, 971, Centro), dias 31/3 (19h) e 1/4 (21h).

Estrutura-se em dez cenas curtas e apresenta como tema único, ao mesmo tempo fragmentado em diferentes aspectos de abordagem, a relação entre pais e filhos. Constrangedoras, engraçadas, tristes, estranhas, as situaçþes de morte, nascimento, adoção, abandono, agressão e desabafo ilustram pontos cruciais e eternos na vida dos personagens sem nome, reconhecidos apenas pelas relaçþes de parentesco que se tornam aparentes no desenvolvimento dos diålogos. t%JSFÎ�P.BSDJP"CSFV&MFODP3FOBUB4PSSBI (JPWBOB4PBS  Ranieri Gonzalez, Edson Rocha. Guairinha (Rua XV de Novembro, 971, Centro), dias 31/3 (19h) e 1/4 (21h).

(drama)

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(drama)

“O TEMA DE RELAÇÕES ENTRE PAIS E FILHOS SURGE COM DIREĂ‡ĂƒO PRECISA DE MĂ RCIO ABREU, CONFIRMANDO RENATA SORRAH COMO UMA DAS MOIORES ATRIZES DO PAĂ?S.â€? (Sobre Esta Criança)


As dicas de

DIOGO PORTUGAL Comediante Nem Freud Explica: uma crĂ­tica bem humorada, inteligente e divertida a todas as teorias psicanalĂ­ticas

RISORAMA

NEM FREUD EXPLICA

Se o que você curte Ê dar boas risadas, Ê a escolha perfeita. Comediantes de todo o país desembarcam em Curitiba trazendo seus melhores quadros de stand-up. As apresentaçþes acontecem em um ambiente descontraído, perfeito para você relaxar e dar muita risada em boa companhia. Com curadoria do humorista Diogo Portugal e a presença da anfitriã Nany People, o Risorama chega à sua 10ª edição. Elenco: 35 convidados, entre eles Rafinha Bastos, Marco Luque e Danilo Gentili. ParkCultural, ParkShopping Barigui (Rua Professor Pedro Viriato Parigot de Souza, 600, Mossunguê), dias 28/3 (20h), 29/3 (20h), 30/3 (20h), 31/3 (20h), 1/4 (20h) e 2/4 (20h).

A peça brinca com as formas tradicionais de terapia e discute deforma ampla o estado da arte da psicanålise. Conta a história de Frederic o, homem atormentado por um problema incomum: todos que olham para ele morrem de rir – literalmente. Brinca com as relaçþes entre pacientes e analistas, em uma crítica a todas as teorias psicanalíticas. Mostra uma situação em que analista e paciente se enxergam refletidos um no outro e não veem diferenças no aspecto da impossibilidade de compreensão. Encontram-se diante da escorregadia e deslizante dimensão da psique humana. t%JSFÎ�P+P�P-VJ['JBOJ&MFODP+P�P-VJ['JBOJF.BSJOP+S Teatro Fernanda Montenegro (Shopping Novo Batel, Rua Cel. Dulcídio, 517, Batel), dias 6/4 (19h) e 7/4 (19h).

(comĂŠdia)

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(comĂŠdia)

“COM JOĂƒO LUĂ?Z FIANI E MARINO JĂšNIOR, ESSA PEÇA SE TORNOU UM CLĂ SSICO E TODOS DEVEM ASSISTIR .â€? (Sobre Nem Freud Explica)

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WW

PERSONAGENS FESTIVAL DE TEATRO

As dicas de

MĂ RCIO ABREU Diretor

Ficção: cinco espetåculos curtos ocupando o mesmo espaço cênico em períodos diferentes.

FICĂ‡ĂƒO

HAIKAI

Composto por cinco espetĂĄculos curtos independentes – porĂŠm complementares – acerca de questionamentos sobre a necessidade da ficção e nossa impossibilidade de abandonĂĄ-la, tanto na vida real quanto nas produçþes artĂ­sticas. Cada ator ĂŠ tambĂŠm autor de seu prĂłprio solo, e apresenta depoimentos ficcionais em que as ideias de intimidade e documento sĂŁo indissociĂĄveis. Chamados pelo prĂłprio nome, os atores simulam um estado confessional, assumindo-se personagem, confundindo o espectador com histĂłrias reais e histĂłrias inventadas. t%JSFĂŽĂ?P-FPOBSEP.PSFJSB&MFODP"MJOF'JMĂ˜DPmo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Mariah AmĂŠliaFarah, Thiago Amaral. Teatro Paiol (Praça Guido Viaro, s/nÂş, Prado Velho), dias 6/4 (17h) e 7/4 (17h).

A forma de poesia japonesa que trabalha com a síntese para sugerir, por meio de livres associaçþes, infinitos significados possíveis, confere ao espetåculo mais que o próprio nome. Em três momentos distintos – como nas três frases que compþem os haikais –, Ê desenhada uma espÊcie de paisagem humana traumåtica, com símbolos que evocam a morte, o crime, a ausência, a presença do invisível e a impossibilidade de compreendermos a nós mesmos e nossas açþes. Traz, nas palavras, a força desorganizadora e criadora de infinitas formas de instabilidade sensorial. t%JSFÎ�P3PCFSUP"MWJN&MFODP.BSUJOB Gallarza, Nena Inoue e Paulo Alves. Espaço Cênico (Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305, São Francisco), dias 30/3 (21h) e 31/3 (21h).

(drama)

(drama, estreia nacional)

“UMA ESTRUTURA DE CINCO SOLOS, CRIADAS POR CADA ATOR. REFLEXĂƒO SOBRE O LUGAR DA FICĂ‡ĂƒO E SUAS RELAÇÕES COM O REAL.â€? (Sobre Esta Criança)

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As dicas de

FOTO ANDREI MOSCHETO

RANIERI GONZALEZ Ator

Marcos Caruso e Erom Cordeiro: duelo inteligente em um espetĂĄculo eletrizante e totalmente inesperado.

O MÉDICO E O MONSTRO

EM NOME DO JOGO

Dr. Jekyll acredita que em todos os seres humanos existem tanto o bem quanto o mal, e parece ter finalmente encontrado uma fórmula capaz de comprovar sua teoria. Após muito empenho, chega à poção que promete separar os indivíduos de seus comportamentos, e decide tornarse sua própria cobaia. Combinada ao cafÊ intragåvel da empregada Minerva, a fórmula traz à tona a metade perversa do mÊdico, autodenominada Edward Hyde, que passa a consumir e a mandar na personalidade generosa de Jekyll. t%JSFÎ�P$FTBS"VHVTUP&MFODP#SVDF(PNMFWTLZ  DÊbora Lamm, Erica Migon, Hugo Resende, Isabel Cavalcanti, Marcelo Olinto e Michel Blois. Teatro da Reitoria (Rua XV de Novembro, 1.299, Centro), dias 5/4 (21h) e 6/4 (21h).

Um famoso escritor de romances policiais convida o amante de sua esposa, um cabeleireiro italiano, para um encontro, a fim de propor um golpe baseado em um jogo de encenação do qual ambos sairiam com lucro. A convivência entre os dois, porÊm, desencadeia uma batalha de gênios com potencialidade para resultados inesperados. O espetåculo tem em sua construção o que hå de melhor nos romances de suspense: uma sucessão de jogos entre os dois homens, nos quais nem sempre Ê claro quem estå realmente dominando ou sendo dominado. Direção: Gustavo Paso. Elenco: Marcos Caruso, Erom Cordeiro, Felipe Miguel e Vinícius Marins. Guairão (Rua Conselheiro Laurindo, s/ nº, Centro), dias 30/3 (21h) e 31/3 (21h).

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“INDICO PELOS ATORES MARCOS CARUSO, QUE É BRILHANTE, E EROM CORDEIRO , QUE É SUPERTALENTOSO. SĂƒO Ă“TIMOS. PARA QUEM GOSTA DE ATUAĂ‡ĂƒO, É UMA AULA.â€? (Sobre Em Nome do Jogo)

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PERSONAGENS TOM ZÉ

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“Ele é o que há de mais próximo de um matemático-roqueiro”, afirmou Jon Pareles, crítico musical do The new York Times.

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A LÓGICA DO

TRO PI CA LIS MO

Em seu novo álbum, Tropicália Lixo Lógico, Tom Zé usa elementos de história, literatura, antropologia e até neurociência para rever o movimento do qual fez parte no final dos anos 60 por Abonico R. Smith

A

companhar o ritmo de Antonio José Santana Martins é um desafio extramusical. O artista – que completou 76 anos no último dia 11 de outubro – tem uma das mentes mais irrequietas da música brasileira. Isso se não for a mais irrequieta. Conseguir uma entrevista com ele é sempre uma tarefa difícil, talvez pelas reminiscências da mágoa que – segundo dizem – ele e a esposa Neusa, que também é sua empresária, têm da imprensa, devido ao período no qual o músico ficou no obscurantismo, nos anos 70 e 80. Sua peculiar linha de raciocínio sempre vai longe. A disposição também. “Eu não sou um gênio, sou um carpidor de tirar sangue da pedra. Trabalho 16 horas por dia para tirar meia dúzia de compassos. Esse trabalho é feito dessa maneira e agora ainda com a responsabilidade de tentar fazer canções que tenham também a beleza como parte de sua estrutura”, emenda. Por causa de toda essa disposição para criar – embora tenha tantos afazeres, como o de ser o jardineiro do prédio onde mora, em São Paulo – Tom Zé parece manter infinita sua capacidade de fazer discos. Nos últimos 15 anos ele já lançou 15 títulos diferentes, entre álbuns de carreira e alguns EPs. Sua mais nova invencionice chegou em setembro do ano passado e chama-se Tropicália Lixo Lógico, sua versão sobre o movimento liderado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Trata-se do álbum mais independente já feito por ele, pois não saiu com o rótulo de um selo fonográfico e ainda está disponível para ser adquirido no site oficial do cantor e compositor (www.tomze.com.br). “Todos os meus últimos discos têm tido temas que são trabalhados, desenvolvidos no decorrer deles”, explica. “Então, a Tropicália é mais um desses temas.” E é justamente por isso que Tom Zé já começa surpreendendo. Muito já se falou de toda a ebulição artística e cultural vivida no Brasil do final da década de 60. Depois de muitos livros, documentários, depoimentos e relançamentos fonográficos, o que haveria de novo para ser explorado a respeito do Tropicalismo?

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PERSONAGENS TOM ZÉ

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No que depender deste que foi um dos baianos que se tornaram vértices do movimento em sua facção musical, ainda há muita coisa para ser descoberta e dita. Nem que, para tal, seja preciso navegar entre diversas áreas, como história, literatura, antropologia e – acredite – neurociência. São cinco as faixas que compõem a coluna vertebral temática de Tropicália Lixo Lógico. Apocalipsom A (O Fim no Palco do Começo) e Apocalipsom B (O Começo no Palco do Fim) servem de introdução e encerramento do trabalho. Na abertura, Tom Zé apresenta uma espécie de nascimento mitológico. Quanto à vinheta final, ele mesmo assume. “Faço plágio de um poema chamado The Second Coming, no qual [o famoso poeta e dramaturgo irlandês] Yeats trata da necessidade que o mundo tem de uma segunda encarnação de Cristo.” Tropicalea Jacta Est é uma ode a alguns dos principais estandartes das artes e ideias tropicalistas naquela São Paulo da segunda metade dos anos 60. José Celso Martinez Corrêa, Décio Pignatari, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Torquato Neto aparecem na letra. Embora não

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cite nominalmente a dupla Gilberto Gil e Caetano Veloso, Tom Zé usa os dois como exemplo para explicar a faixa. “Ela se refere a Caetano e Gil tirando o Brasil daquela idade média emperrada que o país vivia no fim dos anos 60, injetando energia na mentalidade dos jovens para o país encontrar logo depois a segunda revolução industrial”. Já Marcha-Enredo da Creche Tropical, e a faixa que dá título ao álbum, amarram-se em uma dobradinha que discorre sobre as ideias centrais por trás da formação artística e intelectual de alguns dos grandes tropicalistas – mais precisamente ele próprio. “Na primeira, eu faço um gráfico explicativo que conta o que era a creche tropical. A nossa educação antes de, na escola primária, entrar em contato com a concepção aristotélica [que afirma, a grosso modo, que todo ser humano pode decidir se conformar ou não com alguma coisa] que predomina em todo o pensamento ocidental”. Já deu para perceber que para entender – e explicar – Tropicália Lixo Lógico, é preciso muitos minutos de conversa com Tom Zé (na verdade, seria melhor descrever como assistir a uma aula).

“NA UNIVERSIDADE, ENTÃO, É LIXO LÓGICO QUE NÃO ACABA MAIS.”


NÚMERO ZERO Curioso é ver os caminhos que a mente do tropicalista percorreu para desenvolver o conceito do novo álbum. A complexa tese tem início em um livro de ficção científica e no ano em que o homem chegou à lua. Naquela ocasião, ele – e quase toda a humanidade – estava no frisson e na excitação com aquela que vinha sendo anunciada como “a mais audaciosa aventura humana de todos os tempos.” “Foi quando eu li uma coisa que aguçou muito a minha curiosidade: a novela de ficção científica O Fim da Infância, de Arthur Clarke.” O cantor mergulhou profundamente nas páginas desse livro escrito pelo autor mais conhecido por outro romance, 2001 – Uma Odisséia no Espaço (que acabou sendo adaptado para o cinema pelo diretor Stanley Kubrick e até hoje é um dos filmes mais cultuados de toda a história do cinema). “Tomei conhecimento dessa coisa que me tirou do chão e despertou a minha curiosidade. Pela letra de 2001, que eu fiz e a Rita Lee veio a musicar, você pode imaginar como aquele assunto me interessava”, relembra. Em O Fim da Infância, Clarke diz que os árabes, que já haviam invadido a Península Ibérica no século 8, desejavam entrar em toda a Europa. E, se o rei da França, Charles Martel, não tivesse impedido que os exércitos árabes expandissem a sua invasão, nós estaríamos indo às estrelas mais próximas e não simplesmente ao nosso satélite. “Nossa! Quando eu li isso, acompanhando como eu acompanhava com toda curiosidade cada passo que aproximava o momento do homem chegar à lua, me admirei com o fato de o homem ir às estrelas mais próximas.” Naquele mesmo século 8, segundo Clarke, os árabes eram o povo com as ciências mais desenvolvidas da Terra. Eles haviam acabado de inventar o número zero e estavam divulgando esse novo recurso de operações aritméticas e matemáticas. Combustível suficiente, aliás, para alavancar a estupefação de Tom Zé. “Como é que a civilização da Babilônia se pôs em pé? A civilização egípcia, a greco-romana, que é, enfim, a

base de toda a nossa cultura... Pensava que o zero tinha sido concebido desde que o mundo é mundo, lá na Arca de Noé, e depois saber que esse zerinho tão esquivo, retardado e preguiçoso foi pensado apenas em uma época tão próxima de nós?” A explanação continua agora com Tom Zé lançando um olhar sobre o que acontecia na Europa naquele século. Segundo o cantor, a Península Ibérica (Portugal e Espanha) era civilizada pela mais sofisticada cultura do momento. Se na Idade Média esses conhecimentos científicos estivessem na mão de todos os povos da Europa, o desenvolvimento das ciências estaria muito mais sofisticado.

DO HIPOTÁLAMO AO CÓRTEX A empolgada explicação não só con- tinua como também ganha ligações com a história do nosso país. “Imagine minha admiração quando eu percebi que toda essa história da inteligência no planeta Terra tinha a ver com a vida no Nordeste.” Logo quando os árabes se retiraram da Península Ibérica, os portugueses saíram para as suas grandes navegações e o Brasil foi descoberto. “A mentalidade do povo português estava contaminada com aquele amor pelas ciências e as primeiras bandeiras que foram para o sertão em 1576 levaram essa mente carregada de curiosidade especulativa.” Tom Zé lembra que o caboclo – a primeira sub-raça brasileira a habitar o Nordeste do país, e que é fruto da miscigenação de portugueses, índios e negros – vivia em situação de pobreza e analfabetismo. Mesmo assim, fazia questão de preservar suas raízes culturais, principalmente o culto da palavra: “A palavra, no Nordeste, é a moeda mais forte, mais valorosa que circula e energiza a vida mental das populações. Como a cultura moçárabe estava como uma constante no sertão e em parte do recôncavo, acabávamos

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PERSONAGENS TOM ZÉ sendo educados até os oito anos de idade com ela. Só vínhamos a tomar contato com a concepção de mundo aristotélica no momento em que entrávamos na escola primária.” O baiano de Irará, então, volta os olhos para o raciocínio que veio a de- sencadear a ideia do tal “lixo lógico” que faz parte do título do álbum e de uma das faixas. “Enquanto o professor resolvia as questões e os raciocínios de uma maneira aristotélica, nós imaginávamos ‘e se eu pensasse isso com o tipo de avaliação e pensamento com os quais eu fui criado?’.” No final das contas, o problema também poderia ser resolvido. “A verdade é que dava um restinho, uma ligeira diferença.” Só que essa “pequena diferença” nunca acaba sendo descartada. E, para o artista, é acumulada durante a vida. “O cérebro humano desde os tempos das cavernas não joga absolutamente nada fora. O conhecimento que deixa de ser usado é acumulado no hipotálamo. Durante toda a escola primária, lá vai o hipotálamo sendo carregado com uma espé-

cie do que vim a chamar de ‘lixo lógico’. No ginásio, isso aumenta imensamente. E tome-lhe lixo lógico no hipotálamo. Na universidade, então, é lixo lógico que não acaba mais”, exclama. Tom Zé finaliza sua aula desembocando na formação do movimento do qual ele fez parte e agora revê de maneira singular. Ele relembra que dois gênios como Gilberto Gil e Caetano Veloso estavam em São Paulo na época em que houve a redescoberta da poesia de Oswald de Andrade e que, no final dos anos 60, havia uma grande animação com Helio Oiticica e seus parangolés, sem falar do encontro com [o maestro] Rogério Duprat, Rita Lee e os Mutantes. “Toda aquela agitação cultural acabava criando uma espécie de necessidade iminente de pensar um Brasil diferente. E aí eu digo que isso serviu como uma espécie de gatilho disparador, que fez o lixo lógico vazar do hipotálamo para o córtex de Gilberto Gil e Caetano Veloso. A consequência disso, por fim, teria sido o desencadeamento do Tropicalismo.”

PASSADO, PRESENTE E FUTURO NAS TELAS

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o final de 2012, para marcar o ano de celebração do 35° aniversário da Tropicália, dois documentários ganharam as telas de cinemas alternativos de todo o país. Em Tropicália (da paris Filmes, que acaba de lançar o documentário em DVD), o diretor Marcelo Machado preserva imagens da época e adiciona o depoimento de pessoas envolvidas com os olhos e sentimentos do presente, sem poupar as dores provocadas pelas atitudes políticas de artistas e militares do regime ditatorial da década de 1960. Já a dupla Ninho Moreas e Francisco César Filho se preocupa em olhar, sob a ótica do século 21, um dos momentos culturais mais ricos do Brasil. Futuro do pretérito: Tropicalismo now! (Vitrine Filmes) traz esquetes protagonizados por atores e um show com músicos como André Abujamra, Luiz Caldas e Alexandre Nero fazendo releituras contemporâneas de clássicos e pérolas perdidas naquele tempo. Também há espaço para pitadas de politização, como a inclusão da primeira presidenta brasileira, Dilma, e o depoimento de Gil, o tropicalista que recentemente ocupou o cargo de ministro da cultura no governo Lula.

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OS CONVIDADOS ESPECIAIS DE TOM ZÉ t.BMMV.BHBMIÍFTGPJDPOWJEBEBQBSBQBSUJDJQBSEBTGBJYBTTropicalea Jacta Est e o Motobói e Maria Clara. Ela, que já tinha a admiração do cantor, trouxe jovialidade ao álbum. t3PESJHP"NBSBOUFQBSUJDJQBEFNYC Subway Poetry Department, uma canção que Tom Zé fez depois de observar o metrô em Nova Iorque. “Na hora em que o trem vai partir e as portas vão se fechar, uma voz grave repete: ‘Stand clear of the closing doors’, que quer dizer ‘Afastem- se das portas, pois elas irão fechar’. A frase é tão bonita, tem duas linhas aliterativas, parece um verso”, diz o cantor. t0SBQQFS&NJDJEBBQBSFDFOBTGBJYBTApocalipsom A (O Fim no Palco do Começo) e Apocalipsom B (O Começo no Palco do Fim). “Ele, que é um poeta das coisas da cidade, cantor das coisas urbanas, interpretou algo que é profundamente nordestino e relativamente distante da linguagem dele.”

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Por seis anos, o cantor cursou a Universidade de música da Bahia e entrou no curso laureado pelo primeiro lugar no vestibular.

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PERSONAGENS DESIGNERS E ARQUITETOS

THE DREAM TEAM A TOP VIEW reuniu nesta edição dez dos mais notáveis profissionais do design e arquitetura da atualidade que ganharam destaque mundial com suas criações. Tem até suingue brasileiro. Confira! por Patrícia Ribas

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PHILIPPE STARCK BELEZA É UTILIDADE

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esign é uma ferramenta para ajudar a tribo.” Autor de frases como essa – mote para a criação de produtos funcionais, em detrimento de peças apenas bonitas –, o parisiense Philippe Starck, 63 anos, consolidou-se como criador inquieto e preocupado com questões como a democratização do design e o meio ambiente. Suas peças tornaram-se icônicas, como a cadeira Louis Ghost ou o espremedor de suco Juicy Salif. Starck também virou grife para hotéis, restaurantes e cafés descolados no mundo todo – do aguardado Ma Cocotte, em Paris, com inauguração prevista para setembro deste ano, ao Hotel Fasano, no Rio de Janeiro, remodelado por ele em 2007. “Ele transmite uma postura confortável mesmo quando está ousando e/ ou subvertendo”, diz Dulce Albach, coordenadora do curso de Design de Produto da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Isso libera limites, configurando sua atuação nas mais diferentes áreas, com diferentes materiais, em diversos países e com grande segurança, para além das críticas e das controvérsias.”

ABRACCIAIO Elegante candelário de alumínio que na disposição das duas velas sugere um abraço apaixonado. As duas peças unidas dão ainda estabilidade ao conjunto. Criação da coleção deste ano desenvolvida por Starck para a marca italiana Kartell.

MASTERS CHAIR Também para a Kartell, a cadeira

Masters foi criada especialmente para o Salão Internacional do Móvel de Milão de 2009. Combina os contornos de três cadeiras icônicas do design: a Tulip Armchair, de Eero Saarinen, a Series 7 Chair, de Arne Jacobsen, e a Eiffel Chair, de Charles Eames.

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KARIM RASHID EXCENTRICIDADE NO LUXO

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om uma personalidade solar, que reflete muito de sua origem multicultural – egípcio criado em Londres e radicado em Nova Iorque – Karim Rashid, 52 anos, trouxe ao design contemporâneo algo de ousado e – por que não? – excêntrico. Dono de um currículo que soma cerca de 3 mil projetos com sua assinatura, trabalha com marcas absolutamente diversas: Citibank, Hyundai, Samsung, Veuve Clicquot, Audi e Swarovski, para citar algumas. Sua atuação abrange desde a criação de produtos até o desenvolvimento de marcas e artigos de luxo, além de design de interiores para hotéis, bares e restaurantes. Tem quase uma década de experiência como professor e – surpresa – eventualmente se apresenta como DJ. “Rashid consegue provocar a percepção sensorial dos objetos através do seu design ousado e inusitado. Potencializa grandes marcas através da pluralidade de sua autoria, deixando em evidência sua assinatura e reiterando o seu compromisso comercial, conquistado pela visibilidade de suas criações”, diz Ana Brum, coordenadora do curso de Design da Unicuritiba e diretora técnica do Centro de Design do Paraná. “As criações dele são ainda extremamente sensuais”, avalia.

BOOBLE Inovação e sustentabilidade: a garrafa d´água, além do desenho moderno, tem um filtro de carvão (que pode ser trocado e é vendido separadamente). A proposta é encher com água da torneira mesmo – o filtro garante a retirada de impurezas e o frescor.

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GARBO Com a lixeira de contornos suaves, que sugerem curvas hollywoodianas, criada para a canadense Umbra, na década de 1990, Rashid mostrou que até o lixo pode ter sua dose de graça e glamour. A peça virou uma febre nas lojas e até hoje é sucesso de vendas.


PATRÍCIA

URQUIOLA FEMININA SEM FRESCURA

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om móveis e produtos repletos de curvas e formas arredondadas, que às vezes remetem a flores ou ondas, a espanhola Patricia Urquiola, 51 anos, transmite muito de feminilidade – mas sem a pecha de “mulherzinha”. Como define a designer Dulce Albach, coordenadora do curso de Design da UFPR: “Ela representa em grande estilo um sofisticado aconchego, delicadeza e contato humano característicos de uma especial ‘alma feminina’.” Exemplos disso são as linhas de sofás produzidas para a rede italiana Moroso, a série de porcelanas e cerâmicas Landscape, desenvolvida para a

tradicional fábrica Rosenthal – que foi exibida em 2008, no Design Museum, de Londres – e, mais recentemente, a delicada rolha Fil d’Or, desenvolvida para o champanhe francês Ruinart. Nascida em Oviedo, Patricia cursou a Faculdade de Arquitetura da Politécnica de Madri e o Politécnico de Milão, onde se formou em 1989. Há muitos anos trabalha na Itália, onde mantém desde 2001 seu próprio estúdio. Lá, além de design de produto, trabalha com arquitetura, instalações e desenvolvimento de conceito.

CANASTA Essa série de sofás e poltronas que remetem à textura arredondada e trançada de cestas de palha (“canasta”, em espanhol) foi desenvolvida para a rede italiana B&B em 2007, para ambientes externos. Combina a nostalgia do material à modernidade das formas.

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IRMÃOS CAMPANA BRASILEIROS SINGULARES

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iscreta e pouco chegada a holofotes, a dupla brasileira ganhou o mundo com projetos que trazem muito de inusitado, especialmente no que diz respeito à escolha de materiais. São cadeiras de imensos emaranhados de cordas, poltronas feitas com centenas de bonecas e bichos de pelúcia, mesas com tampo de ralo de PVC, luminárias de gravetos de bambu e sandálias de plástico. “Os irmãos Campana conseguem em sua irrequieta obra trazer a expressão brasileira, inventiva, instigante, lúdica. Ao mesmo tempo em que retratam um momento e local, o Brasil, eles são universais”, diz Ken Fonseca, mestre em Tecnologia e professor do curso de Design da UFPR. “Eles rompem as tênues barreiras entre a arte e o design ao trabalhar com uma linguagem híbrida, rompendo também com os aspectos puramente funcionais dos produtos.”

Nascidos no interior de São Paulo, Humberto e Fernando Campana, 59 e 51 anos, foram os primeiros designers brasileiros a exibir trabalhos no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), em 1994. Recentemente, receberam mais uma premiação internacional: o prêmio Criação e Patrimônio 2012 do Comitê Colbert, instituição que reúne 75 casas de luxo francesas e 13 instituições culturais.

MELISSA Experimentação com o mundo da moda: em 2004 foi iniciada parceria dos Campana com a Grendene, empresa brasileira de calçados. A série foi idealizada a partir do próprio trabalho dos irmãos com fios de PVC e já ganhou várias reedições.

CADEIRA VERMELHA Criada em 1993, é formada por um calculado emaranhado de corda amarrado a uma estrutura de aço. Produzida pela italiana Edra, foi a obra que deu projeção internacional à dupla e marcou o início da produção industrial de seus trabalhos.

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KONSTANTIN

GRCIC SIMPLES E EFICIENTE

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specializado na criação de mobiliário – sempre com foco no consumidor final –, o alemão Konstantin Grcic, 47 anos, é hoje um dos mais respeitados designers industriais do mundo. Desenvolve produtos para grandes companhias, como a japonesa Muji, a italiana Magis e a alemã Authentics, além de manter seu próprio negócio, a Konstantin Grcic Industrial Design (KGID), empresa criada por ele em 1991, com sede em Munique. Grcic tem entre suas criações mais conhecidas a cadeira Myto e a luminária Mayday Lamp, ambos projetos premiados com o Compasso d´Oro, uma das mais importantes e tradicionais premiações do design industrial europeu. Recentemente, ganhou repercussão sua cadeira Médici, criada para a italiana Mattiazzi. A peça, toda em madeira, de linhas retas e concepção clássica, foi definida pelo próprio designer como uma espécie de “volta às origens” – na juventude, Grcic fez um curso técnico de marcenaria, anos antes de estudar design no Royal College of Art, em Londres. Além da produção de móveis, também atua como curador de exposições sobre design para museus no mundo todo.

CREIO QUE A PROPOSTA FOI A MISTURA ENTRE INGENUIDADE E ERUDEZA.” Konstantin Grcic, sobre a cadeira Chair one.

CHAIR ONE Pensada a partir de uma bola de futebol tradicional, a cadeira Chair One, lançada em 2004, tem o assento feito em alumínio e pelo menos duas opções de base. É uma das peças mais populares do designer.

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TOM

DIXON DESIGN PARA TODOS

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riatividade com tino comercial é a habilidade de Tom Dixon, 59 anos, que começou a carreira por acaso – soldando sozinho uma motocicleta quebrada, em 1983. Pegou gosto pela coisa e passou a criar peças de mobiliário: ganhou o mundo. Questionado certa vez sobre sua falta de formação acadêmica em entrevista concedida à equipe do Museu Design, de Londres, declarou que via nisso algo positivo: “Pude experimentar sem restrições e cometer meus próprios erros. Como resultado, desenvolvi minha própria atitude.” A partir de criações com a cadeira S-chair e a luminária The Jack Light, passou da produção “caseira” para a profissionalização. Apurou o faro comercial na Habitat, rede de móveis e decoração britânica. “Com firmeza geométrica, ele dá leveza a produtos tradicionais, transformando-os em objetos de desejo democráticos, quase unânimes”, diz a designer Ana Brum, diretora técnica do Centro de Design do Paraná. Nascido na Tunísia de pai inglês e mãe franco-letã, Dixon cresceu em Londres, onde mantém desde 2002, entre outros projetos, a companhia de criação e produção de peças de iluminação e mobiliário que leva seu nome. A marca lança coleções anualmente e vende em mais de 60 países.

FAN CHAIR NATURAL Aqui, como em várias de suas criações, Dixon faz uma releitura de móveis ingleses tradicionais. Lançada em 2011, a peça de madeira foi idealizada como uma versão moderna da clássica cadeira Windsor, um dos ícones do design britânico.

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ETCH WEB Parte da coleção Luminosity, apresentada no Salão Internacional do Móvel de Milão deste ano, a luminária pendente Etch Web é composta por uma grande e leve esfera (65 cm de diâmetro, com menos de 1 quilo). Quando acesa, produz sombras em forma de ângulo.


RON ARAD EXPERIMENTAÇÃO

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vesso a rótulos, o designer israelense Ron Arad, 61 anos, projetou-se internacionalmente com obras desafiadoras e a proposta de fugir do comum e da produção em massa. “Para ele não existe uma linha entre arte e design”, diz o professor Ken Fonseca, do curso de Design de Produto da UFPR. “Desenvolve peças únicas ou em pequenas séries, não mais definidas pelos processos produtivos, mas desafiando as limitações existentes.” Nascido em Tel Aviv, mudou-se para Londres em 1973 para estudar arquitetura. Ganhou fama nos anos 80 como designer autodidata, fabricando móveis que mais pareciam esculturas – caso da

Rover Chair, primeira peça que ganhou destaque: um assento velho de carro acoplado a uma estrutura de sucata. Arad também especializou-se em unir tecnologia a seus projetos, como na instalação Curtain Call. Essa cortina feita de 5.600 barras de silício, suspensa em um anel de 18 metros de diâmetro, serviu de tela para filmes, performances e interação com o público durante o festival Bloomberg Summer do centro cultural Roundhouse de Londres, em 2011. “Com ele, o design redescobriu a sua liberdade de criação”, conclui Fonseca.

PARA ELE NÃO EXISTE UMA LINHA ENTRE ARTE E DESIGN.”

Ken Fonseca, professor da UFPR.

LOOP LOOP CHAIR O preço da exclusividade: cadeira de malha de aço e curvas sinuosas é parte de um lote de apenas cinco peças, criado por Arad em 1994. Durante um leilão, em 2009, foi arrematada por um colecionador suíço por 88.600 euros (R$ 225 mil, em cotação atual).

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ZAHA

HADID TOPOGRAFIA VISIONÁRIA

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om suas linhas fluidas e formas dinâmicas, a iraquiana Zaha Hadid, 62 anos, conquistou respeito mundial por seu trabalho tanto em arquitetura quanto em design. Para entender o porquê desse sucesso, basta ver a mesa Glacial Liquid ou o projeto do Centro Aquático de Londres, onde foram realizadas as provas de natação e outras modalidades aquáticas nas Olimpíadas deste ano. “Difícil falar desta arquiteta que, pelo menos na nossa cultura, parece não estar neste tempo”, diz a coordenadora do curso de Design de Produto da UFPR, Dulce Albach. “Zaha é do futuro, nos leva a pensar: ‘Isso é ficção ou realidade?’”. Zaha trabalha a interação entre paisagem, geologia e arquitetura utilizando tecnologia de ponta, o que leva a resultados por vezes inesperados. “É genial ter sempre uma sensação de surpresa e admiração pelas novas possibilidades que ela apresenta, para além do óbvio, pela inquietação que me provoca quanto à relação tempo e espaço”, opina Dulce. Premiada internacionalmente, também tem sua obra exposta com destaque em museus do mundo todo. Em 2010 recebeu da Unesco a condecoração Artista da Paz, e neste ano o título de Dame Commander da Ordem do Império Britânico.

ETCH WEB Parte da coleção Luminosity, apresentada no Salão Internacional do Móvel de Milão deste ano, a luminária pendente Etch Web é composta por uma grande e leve esfera (65 cm de diâmetro, com menos de 1 quilo). Quando acesa, produz sombras em forma de ângulo.

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ROCA GALLERY O projeto desta galeria situada em Londres, mantida pela empresa de acessórios para banheiros Roca, é todo baseado no movimento da água, com formas fluidas e curvas. O prédio foi inaugurado no ano passado e tem na arquitetura de Zaha uma de suas atrações.


OKI SATO ORIENTE COSMOPOLITA

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anadense de origem japonesa, Oki Sato, 35 anos, emprega muito das raízes nipônicas em seus trabalhos. Mas sem cair no caricato e com um toque bem- -humorado – como na Cabbage Chair, cadeira repolho, em tradução livre –, uma de suas criações mais conhecidas: um grande rolo de papel que, desfolhado, transforma-se numa cadeira. Apontado pelo New York Times como designer superstar, também figura na lista dos 100 Japoneses Mais Respeitados da revista Newsweek. Formouse em arquitetura pela Universidade Waseda, de Tóquio, em 2002. No mesmo ano, abriu seu próprio estúdio na cidade, o Nendo. Três anos depois, inaugurava uma filial em Milão. Tem suas coleções exibidas em museus do mundo todo e somente neste ano já recebeu dois prêmios como designer do ano, pelas revistas especializadas Elle Décor e Wallpaper.

Na relação de clientes, quase uma centena de marcas, uma rica amostra da diversidade do trabalho da Nendo. Estão lá desde a tradicional rede de móveis italiana De Padova às maisons de luxo Louis Vuitton e Hermès. Também estão nesse rol o chá inglês Lipton e produtos de beleza da japonesa Shu Uemura.

THIN BLACK LINES A cadeira de metal, que compõe a série Thin Black Lines, foi exibida em diversos museus pelo mundo a partir de 2010. O desenho é todo inspirado na caligrafia japonesa e cria um efeito bidimensional, dependendo do ângulo em que a peça é vista.

CABBAGE CHAIR Peça criada em 2008 a pedido do estilista japonês Issey Miyake, que

buscava uma forma de reaproveitar as sobras resultantes da fabricação de papel plissado. O material recebeu resina, foi enrolado e só: nem pregos nem nada. Para sentar, basta cortar o rolo e desfolhar.

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ANTONIO CITTERIO DESIGN ITALIANO

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ono de um estilo que mescla o luxo a formas limpas e simples, o italiano Antonio Citterio, 62 anos, começou a trabalhar com projetos de arquitetura e design mesmo antes de se formar: iniciou o próprio negócio em 1972 e não parou mais. Desde 1999 é parceiro da arquiteta italiana Patricia Viel em um estúdio de criação de nível internacional. Nele trabalha desde desenvolvimento de móveis e produtos de decoração (algumas linhas são fabricadas na filial brasileira da Axor-Hansgrohe) até grandes construções, como o hotel da marca de luxo Bulgari, em Londres, e a igreja de Áquila, cidade italiana que há três anos foi devastada por um terremoto.

Essa obra, aliás, é finalista do prêmio Medaglia d’Oro all’Architettura Italiana, que será anunciado em outubro. O arquiteto também é professor na Academia de Arquitetura da Universidade da Suíça Italiana. “Citterio reflete o que entendemos comumente por ‘design italiano’, ou seja, a perfeita combinação entre os objetos e o espaço, entre forma e função, somando e tensionando formas simples, planos e sólidos, com cores e sombras”, explica Ken Fonseca, professor do curso de Design da UFPR. “É simples e elegante.”

MART Série de cadeiras e poltronas de couro e tecido criada por Citterio em 2003 para a rede de móveis italiana B&B. Reúne os traços que marcam o trabalho do designer, com linhas puras. Aqui, versão em tecido para poltrona pequena.

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A poltrona em couro reclinável também faz parte da coleção da B&B. Nesse material, o trabalho de artesanato tradicional italiano do couro modelado foi somado a um processo tecnológico moderno. A peça prima pela qualidade e pelo conforto.


ESTILOS MODA

O FRIO VAI SER QUENTE As principais tendências para a próxima estação sugerem looks carregados de sensualidade e elegância - elementos perfeitos para aquecer os dias mais gelados do ano. por Greyci Casagrande fotos por Agência Fotoside e Divulgação

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TRANSPARÊNCIA No outono/inverno 2013, as transparências – em evidência na temporada passada – voltam com detalhes mais elaborados e menos vulgares. Sobrepondo com outras peças e brincando com texturas e recortes, essa tendência esteve presente nas passarelas das grandes marcas ano passado; e segue em alta. “O jogo de esconde e revela deve aparecer muito em camisaria, peças com recortes e alguns looks mesclados com a renda”, afirma Junior Gabardo, professor e consultor de moda. Para compor um look mais leve no inverno, a blogueira Tatiana Klimovicz, mais conhecida como Tati Kli, recomenda o uso da transparência com peças de tecidos como couro e veludo.

“ASSIM, ESSA TENDÊNCIA FOGE DOS COMUNS LOOKS INVERNAIS, GERALMENTE PESADOS DEVIDO ÀS CORES E TECIDOS.” NAS RUAS: cuidado para não cair no vulgar. Equilibre os itens transparentes com outras peças mais comportadas e deixe à mostra as partes que deseja valorizar.

Teca

Auslander

Samuel Cirnansck

FH

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ESTILOS MODA

COURO Outro que está sempre aparecendo nas coleções outono/inverno, volta em uma releitura mais sexy e trabalhada. “Couro que parece renda, cortado a laser, grafitado, desgastado... Ele está cada vez mais presente nas coleções, principalmente nas brasileiras, e ganha destaque nesta temporada com suas variações”, explica Tati. Em versões femme fatale e produzido com couro de porco, de vaca, com pelo e sem pelo, nas passarelas o material esteve em saias, vestidos, jaquetas, mangas de suéteres e até na trama trabalhada da Tufi Duek. Gabardo orienta:

“O COURO PRATICAMENTE NUNCA SAI DE MODA. PODEMOS USÁ-LO EM JAQUETAS, CALÇAS COMPONDO LOOKS COM JEANS E CAMISETA PARA O DIA-A-DIA E UMA MINISSAIA PARA A NOITE.” NAS RUAS: todos podem usá-lo, mas é preciso evitar um look total só no couro. Isso funciona apenas nas passarelas.

Teca

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Auslander

Patachou

Espaço Fashion


ALFAIATARIA Presente nos ombros e nas cinturas das modelos nos desfiles do ano passado, a forma arredondada reaparece, dando a pitada delicada e romântica da próxima estação. “Provavelmente, iremos encontrar essa tendência em looks inspirados nos anos 60, estilo Twiggy Lawson”, aposta Junior Gabardo. Já Tati Kli acha que essa tendência ainda não caiu totalmente no gosto popular. “ACREDITO QUE ELA SEJA MAIS PARA PASSARELA. NÃO É UM ESTILO QUE FAVORECE A MAIORIA DAS MULHERES. O modelo estruturado no ombro, porém, combina com as brasileiras de quadris largos, pois dá postura e equilibra o corpo.

NAS RUAS: o vestido de modelagem “A”, com formas arredondadas (Herchcovitch), é o coringa desta tendência e veste bem quase todos os biotipos.

Triton

Auslander

Maria Garcia

Ellus

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ESTILOS MODA

FORMAS ARREDONDADAS Presente nos ombros e nas cinturas das modelos nos desfiles do ano passado, a forma arredondada reaparece, dando a pitada delicada e romântica da próxima estação. “Provavelmente, iremos encontrar essa tendência em looks inspirados nos anos 60, estilo Twiggy Lawson”, aposta Junior Gabardo. Já Tati Kli acha que essa tendência ainda não caiu totalmente no gosto popular. “ACREDITO QUE ELA SEJA MAIS PARA PASSARELA. NÃO É UM ESTILO QUE FAVORECE A MAIORIA DAS MULHERES. O modelo estruturado no ombro, porém, combina com as brasileiras de quadris largos, pois dá postura e equilibra o corpo.

NAS RUAS: o vestido de modelagem “A”, com formas arredondadas (Herchcovitch), é o coringa desta tendência e veste bem quase todos os biotipos.

Andrea Marques

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Sacada

Herchcovitch

Herchcovitch


MILITAR Inspirada em uniformes, roupas de guerra, camuflados e utilitários, essa tendência desperta autoridade e heroísmo. Surgiu nas passarelas há algum tempo e está sempre se transformando. Ela segue com tudo na estação mais fria deste ano e, segundo Tati Kli, surgirá em formas menos óbvias, com cores fortes e tecidos inusitados, como os casacos de pele. Gabardo acredita que peças como a calça cropped, estampada em verde militar, casacos trench coat, parca e peças com abotoamento duplo estarão em evidência.

NAS RUAS: para usar o militarismo e fugir da supremacia do verde oliva, invista em cortes e estilos em tons mais suaves.

Ellus

Andrea Marques

Andrea Marques

Colcci

Ellus

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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS

NOVA ONDA Surfe com remo firma-se como modelidade esportiva e promete ser a grande sensação do verão de 2013 em praias, rios e lagos de todo o país por Melissa Medroni

A modalidade começou a ser praticada no Havaí nos anos 40.

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Um remo, uma prancha e uma superfície aquática, que pode ser um lago, um rio, uma praia ou até mesmo uma piscina. Esses são os três elementos indispensáveis para a prática do stand up paddle, o SUP, ou, simplesmente, surfe com remo. Desde 2006, a modalidade desponta como novidade esportiva de norte a sul do país e agora promete ser a grande vedete do verão brasileiro. A moda pegou principalmente nas paisagens cariocas, onde não raro artistas como Marcelo Serrado, Isis Valverde, Suzana Werner e outros globais são flagrados pelos paparazzi com pranchões e remos. Um dos principais expoentes no esporte é, no entanto, um paulista. Leco Salazar, de 24 anos, natural de Santos, é filho de uma lenda do surfe: Picuruta Salazar, mais de dez vezes campeão brasileiro de longboard, conhecido como “gato” por manter os pés grudados na prancha durante a execução das manobras. “Comecei meus primeiros passos no surfe graças ao meu pai, que me empurrava nas ondas quando eu era criança, com dois ou três anos de idade”, conta. Foi com o auxílio de um remo, no entanto, que o herdeiro da família Salazar

passou a escrever o seu próprio nome na história dos esportes aquáticos. “Comecei a praticar stand up faz uns quatro anos, em Santos mesmo.” A modalidade mudou os rumos da carreira. “Sempre surfei com pranchas pequenas, surfo até hoje com qualquer tipo de prancha, só que o stand up mudou minha vida, pois graças a ele consegui patrocínios e viajar por várias etapas do circuito mundial”, revela. Embora também participe de provas de corrida, sua especialidade é a categoria wave, praticada no mar, na qual foi campeão brasileiro em 2009, venceu as duas etapas do circuito mundial realizadas no Brasil (2010 e 2012) e chegou ao vice-campeonato mundial em 2011. “Tento fazer no SUP as manobras radicais das pranchinhas de surfe tradicional, como aéreo (voo sobre a onda), snap (mudança brusca de direção), 360 (giro completo) e outras coisas. Tento buscar a evolução no esporte.” A responsabilidade de Leco, que tem outros dois irmãos surfistas – Matheus e Caio – é grande. “Minha família foi uma das primeiras a aderir ao stand up no Brasil, então tenho sempre que representar muito bem a modalidade.”

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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS ORIGEM HAVAIANA

”TENTO FAZER NO SUP AS MANOBRAS RADICAIS DO SURFE TRADICIONAL.” Leco Salazar, surfista

A prática como uma modalidade esportiva, mais próxima do que conhecemos hoje, começou no Havaí, nos anos 40 do século passado. Inicialmente, o remo era usado pelos professores de surfe para ter mais estabilidade e, dessa forma, poder tomar conta dos alunos que estavam na água. “Isso era conhecido como beachboy surfing e foi caindo em desuso ao longo dos anos, para ressurgir com força total no início dos anos 2000, quando caras como Laird Hamilton e Dave Kalama repaginaram o esporte, investiram em novos materiais para a concepção das pranchas e remos e os tornaram muito mais leves e resistentes”, conta Meneghello. “A prática foi rebatizada como stand up paddle e desde então vem tendo um crescimento vertiginoso”, diz o surfista, que também é editor convidado da primeira revista de SUP do Brasil, a Fluir Stand Up. O lançamento de uma publicação totalmente dedicada ao assunto mostra o alcance que o esporte vem conquistando. Encartada a cada três meses na Fluir, a mais tradicional revista de surfe brasileira, a Fluir Stand Up está na segunda edição. Se o projeto decolar, pode se tornar um veículo independente.

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4 FORMAS DE PRATICAR RACE A modalidade elege vencedor o atleta capaz de realizar o percurso estabelecido para a prova em menor tempo, ultrapassando, assim, a linha de chegada à frente dos demais.

WAVE A modalidade faz uso das habilidades e possibilidades do surfe de praia clássico ou moderno, só que praticado com remo.

RAFTING Tem como meta descer rios sobre a prancha apenas com a mobilidade do corpo e auxílio do remo.

FREESTYLE A modalidade de estilo livre avalia a variedade de manobras realizadas sobre a prancha de SUP apenas com a mobilidade do corpo e o auxílio do remo.

quintasprivate

A ideia de flanar sobre as águas com a ajuda de um remo não é exatamente nova. “Eu penso assim: se você encara o SUP como remar em pé em uma embarcação, então é impossível determinar a sua origem, pois essa é uma prática adotada ao longo dos séculos por inúmeras civilizações”, esclarece Luciano Meneghello, editor do site especializado SUP Club, há dois anos no ar. “Afinal, os árabes há pelo menos cinco séculos remavam em pranchas chamadas hasakes, assim como os moches, extinto povo peruano, já deslizavam pelas águas em seus caballitos de totora e os polinésios faziam o mesmo em canoas em forma de prancha.”

Fonte: Associação Brasileira de Stand Up Paddle (ABSUP)


NO PARANÁ O SUP ainda é pouco conhecido dos paranaenses, mas é crescente o número de adeptos. Segundo Berndt, há principalmente três perfis de praticantes: surfistas mais experientes, afastados das pranchas, que procuram um esporte para retomar as atividades aquáticas; surfistas na ativa em busca de uma opção para dias de poucas ondas; e o público em geral, que toma conhecimento da novidade pela mídia ou em viagens. “As pessoas têm contato pela primeira vez principalmente no Nordeste do país, onde é comum alugar pranchas e remos para turistas”, afirma. Por aqui, os lugares mais recorrentes para a prática são as praias do litoral, os rios de Paranaguá e as represas do Passaúna (na divisa

entre os municípios de Curitiba e Campo Largo), do Capivari (a 30 km da capital, pela BR116) e do Vossoroca (a 60 km da cidade, pela BR- 376). Por enquanto, não há escolas de SUP, mas na própria loja onde os equipamentos são vendidos é possível obter orientações básicas. Ainda não são realizadas muitas competições, mas existe uma associação, a Associação de Stand Up Paddle do Estado do Paraná (Asupep), que promoveu uma prova de race (corrida) em Caiobá, em janeiro de 2012. No ano anterior, a modalidade de surfe do SUP (wave) foi incluída no calendário de provas do Circuito Paranaense de Longboard. É apenas o começo para um esporte que, ao que tudo indica, terá um futuro bem promissor.

Em 2011 o SUP foi incluído no calendário de provas do Circuito Paranaense de Longboard

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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS ENTENDA O ESPORTE Mercado consumidor nĂŁo falta. Atualmente, existem 500 filiados Ă  Associação Brasileira de Stand Up Paddle (Absup), entidade criada em 2009. “Mas estimamos que existam no Brasil aproximadamente 10 mil praticantesâ€?, afirma o presidente da Absup, Ivan Tadeu dos Santos. A instituição organiza campeonatos no Rio de Janeiro, SĂŁo Paulo, BrasĂ­lia, Santa Catarina, CearĂĄ e Bahia, em diferentes modalidades. O SUP ĂŠ divido em quatro categorias: race, wave, rafting e freestyle. A Race, mais popular, ĂŠ uma corrida em um percurso predeterminado. A wave ĂŠ praticada sobre as ondas, no mar, enquanto a rafting acontece em corredeiras e a freestyle ĂŠ uma modalidade sem regras e limitaçþes. â€œĂ‰ um esporte muito versĂĄtilâ€?, ressalta Meneghello. “VocĂŞ pode surfar, fazer uma remada tranquila ou forte, praticar rafting, pescar em cima da prancha, usĂĄ-la como plataforma para exercĂ­cios de yoga, pilatesâ€?, enumera. Assim, a cada dia, surgem mais pessoas inventando coisas novas. “Acredito esse ĂŠ um dos motivos que justificam a rĂĄpida popularização do SUP no Brasil e em diversos paĂ­sesâ€?, conclui. Santos concorda que o crescimento ĂŠ exponencial e simĂŠtrico no mundo todo. “Estados Unidos, AustrĂĄlia, Brasil e a maioria dos paĂ­ses europeus sĂŁo destaques nesse cenĂĄrioâ€?, diz. Por aqui, o maior nĂşmero de adeptos encontra-se, por enquanto, no Rio de Janeiro e em SĂŁo Paulo.

PARA COMEÇAR Uma caracterĂ­stica que atrai os praticantes ĂŠ o fato de ser um esporte de aprendizagem rĂĄpida. “NĂŁo precisa de conhecimento prĂŠvio, com pouco treino a pessoa jĂĄ ĂŠ capaz de sair remandoâ€?, garante Peter Berndt, da loja Kanaha, que vende artigos para SUP no Shopping Omar, em Curitiba. O segredo ĂŠ ter persistĂŞncia. â€œĂ‰ normal cair no começo, depois vocĂŞ vai pegando jeitoâ€?, complementa Leco. Quem jĂĄ pratica um esporte com prancha – como surfe, skate ou

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windsurfe – costuma ter facilidade. Aos iniciantes ĂŠ indicado, para começar, escolher um dia sem vento, em um lugar com ĂĄguas calmas, como uma represa, e uma prancha grande, que proporciona maior estabilidade. “Recomendo uma com no mĂ­nimo dez pĂŠs de altura e com uma boa largura, com cerca de 30 polegadasâ€?, sugere Meneghello. Os equipamentos sĂŁo, contudo, mais caros que os utilizados no surfe convencional. Em Curitiba, a prancha varia de R$ 2.900 a R$ 5.000, valor justificado pelo tamanho maior e pelo material mais resistente. JĂĄ o remo pode ser de alumĂ­nio (R$ 250 a R$ 350), hĂ­brido (R$ 600 a R$ 700) ou 100% carbono (R$ 850 a R$ 1.250). “As pessoas se assustam com os preços, mas as melhores pranchas sĂŁo importadas e com a alta do dĂłlar os custos subiram mesmoâ€?, justifica Berndt. No Brasil, um dos fabricantes ĂŠ a famĂ­lia Salazar, que produz remos e acessĂłrios. PARA SABER MAIS t "TTPDJBĂŽĂ?P #SBTJMFJSB EF 4UBOE 6Q 1BEEMF (Absup) www.absup.com.br t461$MVC TJUF XXXTVQDMVCDPNCS ONDE COMPRAR EQUIPAMENTOS t$VSJUJCB,BOBIB"SUJHPT Esportivos_(41) 3233-9511 Rua Comendador AraĂşjo, 268, Loja CA 16 (Shopping Omar) www.kanaha.com.br ONDE FAZER AULAS t4BOUB$BUBSJOB&TDPMBEF4VSGF4UBOE6Q1Bddle Evandro Santos_(48) 3232-7753 / Rua Santos Reis, 88 – FlorianĂłpolis (SC) www.escolinhadesurf.com t4Ă?P1BVMP&TDPMBEF4VSG1JDVSVUB4BMB[BS@ (13) 3251-2999 / Parque Roberto MĂĄrio Santini, Quebramar/ JosĂŠ Menino, canal 1 – Santos (SP) www.picuruta.com.br t3JPEF+BOFJSP4UBOEVQ1BEEMF3JP@ (21) 8293-8483 / Praia de Ipanema, em frente Ă  Rua Garcia d’à vila (posto 10) – Rio de Janeiro (RJ) www.standuppaddlerio.com.br


ESPAÇOS ADEGA PARTICULAR

A adega subterrânea, destinada principalmente aos vinhos, é também um espaço de confraternização.

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PAIXÃO EXCLUSIVA Ter uma adega em casa e colecionar rótulos raros e especiais é um sonho possível. Aprenda com o s especialistas e aventure-se nesse universo. por Paula Melech | fotos New Brew Thursday Tá certo que para ter uma adega em casa é preciso um bom caixa para investir na estrutura adequada e em rótulos de qualidade. Mas, com calma, persistência para encontrar as melhores garrafas e, claro, muita paixão, é possível montar uma coleção de peso e valor. E alguns segredinhos são muito bem-vindos para aqueles que querem se dedicar a essa arte. “Fui conhecendo o mundo das bebidas e criando gosto pela coisa”, conta o empresário do setor de bebidas Waldomiro Fávero. Depois de 18 anos de envolvimento nesse universo encantador, hoje ele tem em sua casa duas adegas: uma subterrânea, destinada principalmente para os vinhos, e outra para o dia a dia, onde ficam os destilados. O primeiro passo para quem quer montar uma adega em casa, aconselha o empresário, é escolher uma categoria de produtos. “Ter garrafas de todas as idades, por exemplo, é uma boa escolha.” Outro detalhe importante é sempre estar atento aos movimentos do mercado. Como investimento, uma boa opção são as edições limitadas, lançadas sempre no

final do ano ou em alguma data especial. Uma das principais raridades da adega de Fávero é o uísque Royal Salute Diamond Jubilee, lançado em homenagem aos 60 anos de reinado da rainha da Inglaterra. Outro destaque é a bela garrafa de Johnnie Walker, embalada em uma luxuosa caixa de madeira com detalhes em ouro, que ocupa um lugar importante na estante. O empresário destaca que, no longo prazo, esses itens valorizam a adega. Encontrar esses rótulos raros exige certa determinação e um conhecimento razoável do mercado. Como nem sempre chegam ao Brasil, é interessante visitar adegas e vinícolas que oferecem novidades exclusivas. Foi em uma empreitada dessas que Fávero encontrou o uísque Cardhu, principal single malt que compõe o Johnnie Wakker. Esse eu não bro. A não ser em uma ocasião muito especial”, diz. Essa, inclusive, é uma questão importante que envolve a adega: é sempre bom garantir a compra de duas garrafas do mesmo rótulo. Uma fica guardada, enquanto outra é degustada.

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ESPAÇOS ADEGA PARTICULAR Para o dia a dia, essa adega guarda os destilados e alguns vinhos para serem consumidos em ocasiões mais informais.

VINHO Bebida mais encontrada em adegas e uma das mais consumidas do mundo, o vinho tem necessidades diferentes dos destilados no armazenamento. O ideal é que a adega oucupe uma zona mais fresca da casa e sem luz, para não alterar as características da bebida. “Essas seriam as regras mais básicas. Mas, se for para fazer uma adega de grandes proporções, devemos ter um espaço com temperatura e umidades controladas e pouca luz”, diz Ana Urbano, enóloga da vinícola portuguesa Caves Messias. Portanto, vale a pena investir num ambiente climatizado, já que não é raro o preço de uma única garrafa ser bem maior do que o da adega que o armazena. Além disso, ela diz que é

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necessário verificar de vez em quando a integridade das rolhas e, se necessário, trocá-las. Para quem não é familiarizado com esse universo, tudo pode parecer um pouco complicado no início. Uma boa ideia para começar uma adega sem se perer entre tantos detalhes e decisões é contar com a ajuda de um personal wine. Este é um dos serviços oferecidos pelo maître sommelier da Adega Brasil, Washington Uchôa. Além da acessoria no assunto, ele ainda dá uma mãozinha na harmonização dos pratos. Na hora de comprar, por exemplo, ele diz que existem duas possibilidades que precisam ser levadas em conta: vinhos mais simples, para ocasiões informais, e os grandes vinhos, para momentos epeciais.


BONS RĂ“TULOS

ESCOLHA CERTA

Para quem busca vinhos como investimento, a enĂłloga Ana Urbano define pelo menos trĂŞs estilos que atingem valores bem elevados no mercado: Porto Vintage, Pinot Noir da Borgonha e Sauternes. Mas o que vai determinar a qualidade da adega tambĂŠm ĂŠ a variedade de bons vinhos. Ana diz que, se possĂ­vel, ĂŠ bom ter espumantes, brancos frescos, brancos com madeira, tintos leves, tintos bem estruturados, colheitas tardias e licorosos como o vinho do Porto e o vinho da Madeira. Comprar duas garrafas, uma para beber e outra para guardar, ĂŠ importante caso o vinho tenha potencial de guarda. Como o vinho ĂŠ uma bebida viva, conta UchĂ´a, durante o armazenamento ele irĂĄ desenvolver aromas mais ontensos. Isso acontece com vinhos mais elaborados para ter uma longevidade de 30 anos, por exemplo. “Vai envelhecer sem perder suas qualidadesâ€?, saliente o maĂŽtre sommelier. Quando entra em contato com o oxigĂŞnio, “despertaâ€? e deixa transparecer as nuances e qualidades da bebida.

Jå que cada ocasião pede um vinho especial, contamos com a ajuda do sommelier da Grappolo e Vino, Fåbio Cardoso, para dar algumas dicas de como impressionar em um encontro de amigos, festas, almoço ou jantar.

O local de armazenamento deve conter uma temperatura especĂ­fica para que nĂŁo comprometa a bebida..

COM OS AMIGOS:

ALMOÇO OU JANTAR:

FESTAS:

São momentos para bater um papo e muitas vezes não são acompanhados por jantar, mas sim couvert ou aperitivos. Por isso Ê recomendåvel vinhos prontos para beber (que não necessitam de decantação).

Para valorizar a ocasião, o vinho certo faz toda a diferença. Se a base do prato Ê carne, devemos harmonizar com vinhos mais tânicos. Se o prato Ê mais leve, o vinho precisa ser mais leve. A dica são vinhos ais gastronômicos (adequados para serem harmonizados).

O espumante moscatel (ou Asti) Ê ideal para festas como formaturas, casamentos, aniversårios e confraternizaçþes. O Brasil se destaca pelos espumantes de grande qualidade com ótimos preços.

t 4VHFTUĂ?P $BDUVT 3FTFSWB Carmenere (Valle Central Chile) R$ 34,90

t 4VHFTUĂ?P )BSBT EF 1JSRVF Character Syrah (Maipo - Chile) R$ 79,90

t 4VHFTUĂ?P .POUF 1BTDIPBM Moscatel (Farroupilha - Brasil) R$ 16,90


SABORES BISTRÔS EM PARIS

Com cozinha de vanguarda, os bistronomiques parisienses são lugares gastronômicos, porém econômicos.

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Bistronomique

BOM E BARATO

Restaurantes parisienses com alma de bistrô em relação aos preços, mas que têm a criatividade de chefs premiados na hora de definir e apresentar os pratos. São os bistronomiques, que atendem as expectativas de quem quer comer bem e pagar pouco. por Jussara Voss, de Paris.

Poucas e boas opções de pratos, vinhos regionais, ambiente informal, equipe reduzida no salão e na cozinha, e, claro, bom preço. Com essa equação muito simples ficaram famosos os bistronomiques, expressão de moda em Paris para designar os bistrôs econômicos com pretensões de alta gastronomia. Desta forma, sem toda aquela pompa de restaurantes estrelados, esses novos bistrôs souberam exatamente como atrair e fidelizar uma fatia de consumidores muito exigentes, que almeja nada mais nada menos que o nirvana

gastronômico s e m te r qu e ab a l ar s e us orç ame nto s . Evidente que, às vezes, o barato não é exatamente o que imaginamos. Um jantar custando 120 euros por casal, incluindo serviço e vinho, pode não ser considerado exatamente uma pechincha, porém se levarmos em conta a qualidade, os produtos frescos e da estação, além da criatividade do chef, esse valor passa a valer muito a pena. Mas calma, existem cardápios cujos preços são bem menos proibitivos – é possível encontrar menus degustação que não passam de 40 euros.

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SABORES BISTRÔS EM PARIS

Muitas vezes os bistrôs estão em bairros afastados, mas a boa comida compensa a distância.

MELHOR COMIDA, MENOR PREÇO Há aproximadamente 20 anos, o chef francês Yves Camdeborde apresentou no seu Le Comptoir a proposta de oferecer alta gastronomia em ambientes pequenos, despojados e geralmente com apenas um garçom – tudo isso compensado pelos preços convidativos. A partir daí, outras casas foram se adaptando e conquistando clientes ávidos por comida saborosa, bem apresentada, outrora com preços proibitivos. Os chefs que aderiram ao movimento podem ser chamados de reis da alta gastronomia de cifras atraentes, sem medo de exagerar. O badalado Le Dauphin é um dos endereços mais quentes da cidade. O minirrestaurante é inteiro de mármore branco – um projeto do arquiteto - estrela Rem Koolhaas.

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Na cozinha, outra estrela, o jovem Iñaki Aizpitarte toca as panelas ao som de rock e divide seu tempo com outro espaço, quase ao lado, o Le Chateaubrian, que também merece uma visita. Em pouco tempo, os dois lugares já têm uma legião de fãs – esta que vos escreve entre eles. Um amigo gourmet conheceu os dois e elegeu o Le Dauphin como o melhor restaurante da sua última viagem. Três porções bastam e a conta: trinta euros. Outra referência de alguém de paladar afinado, o gourmand Jacques Trefois, no qual confio totalmente no quesito boa comida, foi categórico: “Se fosse para escolher apenas um, eu iria no Le Chateaubriand, caso não achasse lugar no Le Baratin. Le Troquet ou Chez Michel são também ótimos.”

Consegui um lugar no Le Chateaubriand, sem reserva, uma chance na segunda rodada da noite que começa às 21h30. Nem a noite fria me fez desistir. Deixar Paris sem conhecer a comida desse francês criativo, filho de bascos, não estava nos meus planos. O lugar é como um simples restaurante de bairro: pequeno, barulhento, quase sem decoração, e você ainda fica colado no vizinho. O menu degustação de cinco pratos é no escuro, não há outra alternativa.

A COMIDA CONSEGUE SINTONIA ENTRE PRODUTOS FRESCOS E TÉCNICA.


Terrine de foie gras: especialidade francesa preparada “comme il faut”, como deve ser.

A opção a prix-fixe, que muda diariamente, é a única opção e garante o preço baixo para esse tipo de restaurante: 60 euros. Le Chateaubriand subiu na primeira colocação como um foguete na lista dos 50 melhores restaurantes da revista Restaurant, depois desceu seis casas, entretanto, ainda brilha na 15ª posição. Ao final do jantar, veio o veredito: a comida consegue uma perfeita sintonia entre produtos frescos e técnica, é extremamente delicada e saborosa, tão apetitosa a ponto de seduzir até quem tem medo de combinações ousadas. O lombo de porco ibérico feito à baixa temperatura, servido com alcaparras crocantes, que eu nunca tinha comido; os queijos excepcionais; um sorvete de leite com maçã; e uma sobremesa de chocolate, deixaram-me completamente feliz. Com outra listinha feita pelo gourmand Trefois de quatro bistronomiques imperdíveis na mão

– Le Ribouldingue, Les Papilles, L’Entredgeu e Le Repaire de Cartouche –, consegui conhecer os três primeiros e posso seguramente recomendá-los. Destaco o Le Ribouldingue. “Vamos fazer a festa!”, é assim que o restaurante se apresenta, numa tradução livre do seu nome. Na entrada, entreguei-me de corpo e alma à terrine da casa feita de bochecha e de nariz de porco. Depois, faltou coragem para pedir a sugestão do dia: tripas e cérebro – talvez em pequenas porções, mas um prato inteiro, não sei não. “Eles adoram o abate”, avisam no cardápio. Eu vou com calma. Dos franceses na mesa ao lado só escutei: “Hum, hum.” Encerrei com um inesquecível sorbet châtaignes aux marrons confits. Tudo isso por 32 euros. Na saída, como avisou Trefois, foi só olhar à esquerda e ver a beleza da Catedral de Notre Dame iluminada.

LEITURA OBRIGATÓRIA Além desta relação, o leitor poderá encontrar dicas gastronômicas no caderno trimestral Paris Chique, um guia editado pelo jornal Le Figaro - o de maior circulação na França - todo em português. O novo caderno será vendido nas bancas e distribuído gratuitamente nos locais frequentados por turistas de luxo e nas agências de viagem de alto padrão de São Paulo e Rio. Mas eu não poderia deixar de citar também o Paris by Mouth (parisbymouth.com), que , além de dicas fantásticas, promove os passeios temáticos: só chocolates, só queijos, só doces, que eu, juro, ainda farei um dia.

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SABORES BISTRÔS EM PARIS Toque especial: os doces ao final da refeição garantem a satisfação do comensal. No detalhe, Les Ambassadeurs, dentro do requintado Hotel Crillon, também oferece uma versão bistronomique.

Também fui bem sucedida na missão de encontrar um restaurante da minha lista numa sexta-feira à noite em Paris, sem reserva: La Gazzetta! Um encaixe e, pronto, rumo à Bastille. Na descrição das indicações, apenas “um italiano com aspirações gourmet.” Nem pense que vai encontrar um prato de massa leve, o chef quer mesmo é mostrar que sabe ousar. Ele sabe o que faz. Receitas clássicas executadas com perfeição. Há duas opções de cardápio. É um italiano gourmet em terras francesas para se recomendar. Quase todos os grandes hotéis oferecem em seus restaurantes opções de entrada, prato e sobremesa por preços camaradas para os padrões da cidade.

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Vale a pena. Eu escolhi o do hotel Crillon para um almoço no Les Ambassadeurs. Todo o luxo, o serviço impecável e a qualidade na refeição num endereço clássico por 68 euros no almoço é algo a ser considerado, já o jantar é para poucos. Não esqueço a terrine de foie gras – a melhor que já experimentei. O La Cuisine, do renovado hotel Royal Monceau, que no verão serve as refeições no terraço, é outra indicação especial. Apesar de mais caro, é para ser visitado sempre que possível. Algumas horas para comer bem também devem ser reservadas à Place de la Madeleine. No Café Prunier peça o caviar francês, acompanhado por blinis, creme azedo e batata. Sim, caviar fica uma delícia com o tubérculo.

Eu achei mais suave do que o caviar russo. Quanto mais velho, mais acentuado o sabor, contaram-me. O salmão defumado nos Alpes Suíços “usando receita milenar” também é recomendado. Além das compras nas redondezas, como na Fauchon, que tem até escargots preparados para ir direto ao forno, pães, chocolates e doces, pode-se encontrar uma variedade de produtos de qualidade na Hediard, que tem seus famosos crepes dentelle, entre as atrações. As melhores trufas negras da França estão em La Maison de la Truffe, tudo isso com a Madeleine ao fundo. Programa para deixar qualquer um satisfeito.


Se estiver andando pelo charmoso bairro do Marais vá almoçar naquela que é considerada a melhor crepere de Paris, o Breizh Café, que lota nos fins de semana. Um toque japonês no lugar e uma lojinha para levar produtos especiais para casa são atrativos, além dos crepes, claro. É um lugar para se passar horas agradáveis. E se a temporada na cidade for mais longa, eu arriscaria um chinês, que não aceita reserva, tem bom preço e é mais do que recomendável. Falo do Délices de Shandong,

descoberto por acaso. Voltando às compras, outro endereço para um momento caseiro, principalmente se um hotel não foi a hospedagem escolhida, é visitar a La Grande Épicerie de Paris, aliás, uma passada por lá é obrigação de qualquer gourmet. É impossível resistir ao “melhor mercado de comida do mundo”. E antes de deixar a cidade, é aconselhável visitar alguns endereços obrigatórios como a Pâtisserie des Rêves. Também visitei o Hugo et Victor e sai carr egada de chocolates porque não

conseguia mais comer na hora da visita. Sem arrependimentos. Endereço imperdível, assim como o Jacques Genin se o desejo for comer um mil folhas. E depois de fazer tantas indicações, foi inevitável lembrar de uma pessoa adorável, apreciadora de boas comidas e bebidas e frequentadora de bons lugares, thá alguns anos, que eu iria começar a escrever sobre gastronomia: “Nunca indique um restaurante para ninguém, cada um tem um gosto.” Agora é tarde.

ONDE COMER Comida boa, bonita e barata em Paris LE COMPTOIR 33 1 4427-0797 5 Carrefour de l’Odéon, 75006 LE DAUPHIN 33 1 5528-7888 131 Avenue Parmentier, 75011 LE CHATEAUBRIAND 33 1 43 57 45 95 129 Avenue Parmentier, 75011 LE RIBOULDINGUE 33 1 4633-9880 10 Rue Saint-Julien le Pauvre, 75005 LES PAPILLES 33 1 4325-2079 30 Rue Gay Lussac, 75005 L’ENTREDGEU 33 1 4054-9724 83 Rue Laugier, 75011 LA GAZZETTA_ 33 1 4347-4705 29 Rue de Cotte, 75012

BREIZH CAFÉ 33 1 4272-1377 109 Rue Vieille du Temple, 75003 HÔTEL CRILLON - LES AMBASSADEURS 33 1 4471-1616 10 Place de la Concorde, 75008 HOTEL ROYAL MONCEAU - LA CUISINE 33 1 4299-8800 37 Avenue Hoche, 75008 DÉLICES DE SHANDONG 33 1 4587-2337 88 Boulevard Hôpital, 75013 CAFÉ BOUTIQUE PRUNIER 331 4742-9898 15, Place de la Madeleine, 75008 FAUCHON 33 1 7039-3800 26 Place de La Madeleine, 75008

FAUCHON 33 1 7039-3800 26 Place de La Madeleine, 75008 HEDIARD 33 1 4312-8888 21 Place de la Madeleine, 75008 CAVIAR KASPIA 33 1 42 65 33 32 17 Place de la Madeleine, 75008 LA GRANDE ÉPICERIE DE PARIS 33 1 4439-8100 38 Rue de Sèvres, 75007 PÂTISSERIE DES RÊVES 33 1 4284-0082 93 Rue du Bac, 75007 HUGO ET VICTOR 33 01 4439-9773 40 Boulevard Raspail, 75007 JACQUES GENIN_33 1 45772901 133 Rue de Turenne, 75003

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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS

ESPÍRITO AVENTUREIRO Se você ama viajar e gosta de praticar esportes, junte a mochila, uma boa dose de disposição e aventure-se por algum destes roteiros por Fabiane Tombely

SOBRE RODAS Se você é aficionado por carros, motos e estradas, esta viagem foi feita para você. A Bike Road Tour, agência especializada em viagens internacionais de moto e carro, reúne grupos interessados em destinos cobiçados como Califórnia e Flórida. Nesse tipo de aventura é importante ter experiência e uma boa programação. Para isso, a agência acerta todos os detalhes da rota. No pacote está incluído o acompanhamento para a retirada dos passaportes e vistos, aluguel das motos ou caros, reservas em hotéis, restaurantes e passeios, guia bilíngue, caminhão para transporte de bagagens e apoio.

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Ao chegar a esses lugares, os grupos alugam carros (as opções incluem Camaro e Mustang) ou motos (Harley-Davidson, BMW e Honda) e viajam pelo roteiro previamente escolhido. A próxima aventura na Califórnia está marcada para 22 de outubro de 2012. O roteiro inclui Los Angeles, Monument Valley, Las Vegas, San Francisco e Costa do Pacífico (Big Sur), com duração de 18 dias e 17 noites. No caminho, especificamente em Las Vegas, o grupo terá a oportunidade de participar de eventos como o Sema Show (considerada a maior festa de customização de carros e mo-

tos dos Estados Unidos) e o NHRA (National Hot Rod Association), campeonato americano de arrancadas. Tudo isso devidamente gravado e fotografado pela equipe.

QUEM LEVA BIKE ROAD TOUR (41) 3024-6761 www.bikeroadtour.com.br A empresa reúne grupos de pessoas interessadas em viagens de moto ou carro pela Califórnia e Flórida.


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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS

SURF TRIPS Contato com natureza, cultura local e ondas perfeitas são os atrativos que a operadora de turismo Welcome Surf Trips oferece a seus viajantes. Os três sócios da agência são surfistas e, claro, conhecem os principais destinos de surf do mundo. Juntos, prestam consultoria especializada na hora de escolher os roteiros, que são preparados de acordo com a experiência de cada surfista. Costa Rica, El Salvador, Indonésia e Peru estão na lista dos países mais procurados por quem busca boas ondas. O “O Surfe Só Para Meninas” na Costa Rica, por exemplo, e as chamadas boats trips são os roteiros mais

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procurados. O primeiro inclui acompanhamento de guias locais surfistas que ficam encarregados de levar as garotas para surfarem nos melhores picos do país. Durante a viagem também há aula diária de yoga, massagem e outras atividades. As boat trips acontecem nas Ilhas Mentawais, na Indonésia, e também fazem a cabeça dos aventureiros. Durante 12 dias os surfistas ficam a bordo de um barco totalmente equipado, desfrutando de uns dos melhores picos de surf do mundo. As viagens são realizadas durante o ano todo, de acordo com a época das melhores ondas de cada destino. Révellion na Costa

Rica e nas Ilhas Mentawais são as próximas saídas programadas. A dica da agência para esses roteiros é muita disposição, preparo físico para enfrentar longas sessões de surf, e uma boa máquina fotográfica para registrar tudo.

QUEM LEVA WELCOME SURF TRIPS (41) 3249-4416 www.welcometripsurfs.wordpress.com Costa Rica, El Salvador, Indonésia e Peru estão na lista dos países mais procurados por quem busca boas ondas.


TRAVESSIA 4X4 Percorrer as mais selvagens paias do extremo norte da costa brasileira em jipes 4x4 é a proposta deste roteiro. Uma verdadeira expedição, que possibilita ao viajante conhecer toda a região costeira entre Lençóis e Jericoacoara. Os Lençóis Maranhenses são famosos por suas dunas brancas recortadas por águas verde-azuladas, rios e manguezais. No litoral cearense, Jericoacoara tem praias extensas de mar azul, e atrai muitos praticantes de kitesurf e windsurf pelas excelentes condições de vento. Por ser uma travessia, dor-

me-se em cinco hotéis diferentes durante a viagem. No final, as duas noites em Jeri são suficientes para repor todas as energias. Um motorista profissional, um guia e um anfitrião da agência acompanham os viajantes durante a expedição. As noites são distribuídas entre as pequenas cidades e vilarejos de Santo Amaro, Atins, Barra Grande e Jericoacoara. Após explorar o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, os aventureiros em embarcam em veículos 4x4, percorrendo alguns trechos por praias virgens e outros por estradas de areia e asfal-

to até chegar a Jeri e , aí sim, relaxar por alguns dias. O roteiro dura dez dias e nove noites. Quem proporciona a experiência é Matueté Brasil, considerada a principal operadora de viagens personalizadas do Brasil.

QUEM LEVA MATUETÉ BRASIL (41) 3071-4515 www.matuete.com Caminhadas nas dunas, mergulhos nas lagoas e passeios de barco também fazem parte do roteiro.

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ARREDORES VIAGENS ESPORTIVAS

MERGULHO O Arquipélago de Fernando de Noronha é um dos destinos mais belos e desejados do Brasil. Para os amantes do mergulho, então, nem se fala. O local é o principal e mais bonito parque marinho, considerado por muitos profissionais como um dos melhores lugares do mundo para a prática de mergulho. A operadora Freeway Diving (divisão da Freeway Brasil, operadora pioneira em ecoturismo no Brasil) traz alguns roteiros com viagens voltadas para a prática de mergulho autônomo, ou seja, para mergulhadores credenciados.

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Há opções de mergulho em nível básico e avançado. No roteiro estão inclusos quatro noites e cinco dias, três saídas com dois mergulhos - incluindo guia, cilindro e lastro (equipamento utilizado para compensar a flutuabilidade causada principalmente pela roupa isolante). Apesar das belezas do fundo do mar serem a principal atração, os passeios na Trilha do Atalaia, do Golfinho e do Leão onde se encontram as melhores praias de Noronha -são imperdíveis. Então, caso sobre um tempinho, não se esqueça de agendá-los.

QUEM LEVA FREEWAY DIVING (11) 5088-0999 www.freeway.tur.br Fernando de Noronha é considerado o principal e mais belo parque marinho brasileiro. O mergulhador pode desfrutar de uma visibilidade de até 50 metros.


ARREDORES ZARAGOZA

BORJA a cidade do Ecce Homo

O restauro infeliz de uma pintura do século 19 em Borja, Espanha, tornou-se um dos maiores fenômenos midiáticos de 2012 e revelou um curioso destino turístico por Juliana Reis

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FOTO: LUIS SANZ

“Sí, Borja está de moda”, respondeu a moça do escritório de turismo quando finalmente expliquei meu interesse nesse município espanhol de 5 mil habitantes na provínciWa de Zaragoza, Comunidade Autônoma de Aragão. Deixando tudo às claras ficou mais fácil, uma vez que o motivo do interesse era um tanto constrangedor. É que Borja tem sido palco de um dos maiores fenômenos midiáticos de 2012, desde que uma octogenária local resolveu restaurar uma pintura do século 19 em uma das igrejas da cidade, em agosto. Desprovida de qualificações adequadas, a borjana Cecilia Giménez provocou um dos mais infelizes retoques de obra de arte que se tem notícia de todos os tempos. O restauro teve repercussão internacional e a pacata Borja ganhou a atenção do mundo inteiro.

Até a companhia aérea britânica Ryanair – atuante em 28 países – anda anunciando pacotes para lá.

BORJA É MAIS DO QUE BOAS RISADAS DO RESTAURO MAL SUCEDIDO.

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ARREDORES ZARAGOZA A CIDADE E o roteiro não é mesmo um má ideia. Quem for até Borja, além de dar boas risadas, terá pelo menos três oportunidades: descobrir uma cidadezinha que guarda vestígios de todos os povos que por ali passaram – celtas, romanos, mouros e cristãos; conhecer os vinhos locais da Denominação de Origem “Campo de Borja”; e, obrigatoriamente, passar por uma das joias mais bem guardadas da Espanha: Zaragoza, capital de Aragão, verdadeira compilação de três civilizações e que, de quebra, guarda a construção moura mais importante da Espanha fora da Andaluzia – região mais fortemente marcada pela antiga dominação moura (árabe-muçulmana) da Península Ibérica.

ONDE ESTÁ A OBRA A cinco quilômetros do centro de Borja, em uma colina repleta de árvores e fontes d’água, ergue-se o Santuário de Misericórdia, em cuja igreja está o Ecce Homo – pintura em parede realizada pelo artista Elías García Martínez no século 19 e restaurada por Dona Cecilia no século 21.

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Esse santuário foi construído no século 16 para acomodar uma imagem da Virgem de Misericórdia, que durante o domínio mouro ficou enterrada no claustro da Colegiata de Santa Maria – outra igreja importante de Borja.

ALÉM DO ECCE HOMO Depois de matar a curiosidade diante da obra de Dona Cecilia, é hora de observar que uma fortificação mesclada a uma rocha paira no alto da cidade. É o que dá nome ao lugar: Borja, em árabe, significa torre ou fortaleza. Essa corcunda seca que sobe inesperadamente, desafiando a área urbana, é um enigma arqueológico. Uma escavação científica jamais foi feita ali, mas acredita-se que essa coisa meio castelo meio rocha foi utilizada por Celtas, Romanos, Bárbaros e até pelos Banu-Qasi, uma família que dominou Borja e seus arredores no século 9, chegando até a confrontar abertamente os importantes emires de Córdoba. Os Banu-Qasi eram muladís, cristãos convertidos ao islamismo para desfrutar dos mesmos direitos dos muçulmanos no al-Andalus

(nome dado à Península Ibérica pelos conquistadores islâmicos). Séculos mais tarde, já reconquistada pelos cristãos, Borja ganharia novas ruas, casas e palácios que representam a arquitetura renascentista aragonesa. Nesse universo vale destacar ainda o casario dos séculos 16 e 17 e monumentos como a Colegiata de Santa Maria, antiga igreja cuja torre é um minarete – estrutura que pertence a mesquitas e de onde um encarregado anuncia as cinco preces diárias do Islã.

A CIDADE TEM VESTÍGIOS CELTAS, ROMANOS, MOUROS E CRISTÃOS.


QUEREMOS QUE SE QUEDE ASÍ! Restauro feito de maneira inadequada (para não dizer grotesca) virou sátira no mundo todo

Anotícia do restauro veio à tona em 7 de agosto por meio do blog do Centro de Estudos Borjanos, que documenta a história da cidade. Desde então, ganhou repercussão mundial e (pasmem) muitos admiradores. Os quase 28 mil fãs da recém-criada página “Club de fans de

Cecilia Giménez, la restauradora del Ecce Homo”, no Facebook, pedem que a restauração seja mantida como está e dão uma ideia do alcance do fato. A obra pode ser visitada no Santuário de Misericórdia, a cinco quilômetros do centro de Borja, das 10h às 14h e das 16h às 20h.

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ARREDORES ZARAGOZA

ZARAGOZA Surpresa de vizinha Quem se aproxima de Zaragoza (a 65 quilômetros de Borja) atravessando a Ponte de Pedra rumo ao centro histórico e enxerga, às margens do Rio Ebro, a colossal Basílica da Nossa Senhora do Pilar, tem a impressão de estar em algum lugar mais ao oriente – como Istambul, talvez. É que as 11 cúpulas dessa igreja que mescla estilos cristãos e muçulmanos dominam a paisagem e formam o cartão postal mais famoso de Zaragoza, capital da Comunidade Autônoma de Aragão e um dos destinos mais fortemente marcados pela dominação muçulmana da Península Ibérica entre os séculos 11 e 14. A capital aragonesa pode não estar nos folhetos de viagem mais tradicionais – talvez a Andaluzia lhe roube essa chance – mas é, sem dúvida, uma surpresa. Fundada pelos romanos sob o nome de Caesaraugusta, tomada durante qua-

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tro séculos pelos mouros e conquistada pelo rei cristão Alfonso I em 1118, ela reúne vestígios de três civilizações. Se ruínas romanas aparecem em uma esquina, na próxima o domínio muçulmano escancara sua herança, tendo o Palácio de la Aljafería como seu exemplo arquitetônico mais impressionante. O toque final é capricho dos monarcas cristãos: exemplos da arquitetura renascentista, barroca e gótico-mudéjar (que mescla componentes cristãos com muçulmanos).

ZARAGOZA: PASSADO RICO E LIÇÃO DE APRENDIZADO ENTRE CULTURAS.


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ARREDORES ZARAGOZA MOURA A maior atração de Zaragoza é a gigantesca e já citada Basílica de la Virgen del Pilar, com seus Goyas, seus Velazquez e até duas bombas expostas na parede – sim, bombas! (veja box). Mas o Palácio de la Aljafería impressiona tanto quanto o templo cristão, e é a construção moura mais importante da Espanha fora da Andaluzia. Construído pelos mouros nos século 11 e tomado pelos cristãos no século 12, torna-se o palácio dos reis católicos Fernando e Isabel no final do século 15 e funciona por um tempo até como sede do Tribunal da Inquisição espanhola. Apesar das sucessivas reformas realizadas pelos monarcas aragoneses, a arquitetura muçulmana teima em continuar lá, visível e maravilhosa. A mescla de culturas continua na Catedral del Salvador, também chamada de La Seo, onde eram coroados os reis de Aragão na Idade Média. Começou em estilo românico no século 12, passou para gótico no século 14, e o que se vê hoje é resultado de um trabalho que termina no século 17: fachada barroca, cobertura de ladrilhos e azulejos no estilo mudéjar (arte que se desenvolveu entre os séculos 12 e 16 e é mais representativa na Espanha, com destaque na Andaluzia, em Toledo e no Vale do Ebro), muros com detalhes góticos, interior barroco e renascentista.

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TEMPOS DE PAZ E PROSPERIDADE Dominada pelos árabes, Zaragoza floresceu e se converteu num verdadeiro caldeirão de cultura, numa lição de convivência e aprendizagem mútua entre muçulmanos, cristãos e judeus. Em seu período de máximo esplendor – do século 11 até a conquista pelos cristãos em 1118 –, acolheu intelectuais de diferentes pensamentos e religiões. Figura fundamental foi Abu Bakr ibn al-Sa’ig ibn Bayya, considerado o maior dos filósofos do al-Andalus. Conhecido pelos cristãos como Avempace, foi também poeta, matemático, astrônomo, músico e médico, além de vizir (conselheiro) de três reis. Com a reconquista cristã, teve que se exilar. Acabou seus dias em Fez, no Marrocos, em 1138, provavelmente envenenado. O movimento do exílio e a morte repentina contribuíram para que seus escritos ficassem desorganizados. Sua perda é lamentada no Centro de Historia de Zaragoza, onde é possível conhecer a trajetória da Zaragoza e da Espanha dos mouros.

ROMANA Essa civilização já se revela no subsolo da Plaza del Pilar, coração do centro histórico de Zaragoza, com o Museu do Fórum de Caesaraugusta: ali estão os vestígios do fórum, de um mercado, de pórticos e até do sistema de esgoto da cidade romana utilizado entre os anos 1 a.C. e 1 d.C. Já o Teatro de Caesaraugusta, do século 1, é o monumento romano mais bem conservado da cidade.

O primeiro andar apresenta cenas de seu descobrimento em 1972, retrocedendo no tempo e sugerindo como foi ocupado durante as épocas cristã, muçulmana e romana. Quem não quiser entrar, pode se contentar em ver o teatro pelo lado de fora, já que ele é fechado ao público apenas por uma grande barreira de vidro. E ainda aparecem pela cidade restos da muralha que protegia Caesaraugusta.


RECONQUISTA

SERVIÇO

A reconquista cristã de Zaragoza aconteceu em 1118 por Alfonso I. A expulsão definitiva dos judeus e dos mouros ao longo dos séculos desacelerou o seu crescimento. No século 19, Zaragoza converteu-se num símbolo de resistência contra as tropas de Napoleão, na Guerra de Independência. Hoje é a quinta maior cidade espanhola. No vale do importante rio Ebro, renasce esplendorosa numa posição estratégica a meio caminho entre Madri e Barcelona.

Como chegar

De carro a partir de Zaragoza (65 km) pela Ruta Nacional 232 ou de ônibus pela companhia Therpasa (www.therpasa.es, 0034 976-225-723, 1h30 de viagem).

O que visitar

Santuário de Misericórdia Monte Muela Alta (a 5 km de Borja, seguindo pela estrada Borja al Buste) Aberto das 10h às 14h e das 16h às 20h.

Onde ficar

Os melhores hotéis estão no centro histórico de Zaragoza. O centro de informação turística (Plaza del Pilar 0034 976-201-200) oferece uma lista com preços e faz reserva gratuita pelo site www.zaragoza.es/turismo ou pessoalmente.

BOMBAS Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39), três bombas foram atiradas em Zaragoza: uma delas caiu do lado de fora da Basílica de Nossa Senhora do Pilar e as outras duas, dentro. Nenhuma explodiu. O fato é compreendido como sendo um milagre. Após esse episódio, as bombas foram pregadas numa parede, dentro da basílica, e estão lá até hoje.

Exterior da Aljafería: palácio fortificado abrigou uma dinastia árabe, os reis católicos e a Inquisição Espanhola.

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