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nº 26 • novembro/2016 • distribuição gratuita • Periodicidade: mensal www.facebook.com/fepianojornal

“A Praxe dava um bom Mestrado”

Adeus FEP Tudo o que muda em 2017 Página 18

Feminismo, uma ideia radical Página 4

Como melhorar a imagem profissional em 3 passos Página 6

A Insolvência da cultura Página 15

FEP League Página 23


A vitória da democrassia

Índice De liberal para liberal..................... 3

N

a noite do dia 8 de Novembro deitei-me já depois das 2 da manhã, confiante de que Hillary Clinton seria, em algumas horas, eleita presidente por sufrágio universal. Não escondo a surpresa de uma eleição tão absolutamente desastrosa: uma campanha de um populismo como nunca tinha visto em 19 anos de vida, privada de um programa de governo digno desse nome, um senhor que tinha a desplicência de fazer comentários xenófobos, machistas, anti-semitas e racistas de todo o tipo; um homem que foi apoiado pelo KKK; que sugeriu a deportação en masse de muçulmanos, a execução das famílias de terroristas e a construção de um muro na fronteira com o méxico; que se recusou a pagar impostos e, finalmente, entre tantas outras, celebrizou o ‘grab’em by the pussy’. Mas para lá de tudo o que já foi dito várias vezes nos últimos dias, convém saber até que ponto é que esta administração Trump irá poder, ou mesmo querer, implementar todas as suas promessas de campanha. É que os EUA não são Portugal, nem mesmo uma imponente Alemanha. São, isso sim, o antro do capitalismo moderno, um lugar em que a força política tem poderes só ao nível da garantia da segurança da população, manutenção de condições mínimas da habitabilidade (serviços e educação, saúde e insfrastrutura) e promoção de liberdade através de estímulos negativos. Conseguirá Trump sobreviver aos implacáveis lobbies de D.C. ou terá o novo presidente que se subjugar à enormidade do sistema que o elegeu? JOSÉ PEDRO SOUSA

FEPIANO Juntos fazemos notícia

Feminismo, uma ideia radical....... 4 Merci Salazar................................... 5 Como melhorar a imagem profissional em 3 passos............... 6 Jovem Conservador de Direita em entrevista.................................. 7 Clássico e Robusto....................... 14 A insolvência da cultura............... 15 A Trunfa......................................... 17 Adeus FEP..................................... 18 O mês em revista.......................... 20 Será mesmo insustentável a leveza do Ser? ........................... 22 FEP League.................................... 23

Coordenação: Jorge Lobo e José Pedro Sousa Redação: Alex F. Alves; Gil Quadros Flores; Joana Fernandez; Mariana Esteves; Ricardo Fernandes; Rui Maciel; Pedro González; Tiago Meireles

Paginação: Célia César - Grupo Editorial Vida Económica, S.A. Impressão: Unicópia Morada: Rua Dr. Roberto Frias, 4200-464 (Porto, Portugal) Contacto: fepiano@fep.up.pt Facebook: www.facebook.com/fepianojornal Issuu: www.issuu.com/fepiano

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De liberal para liberal

RUI MACIEL

O

objetivo deste texto é simples. Desmistificar a ideia que todos algum dia tivemos do liberalismo e demonstrar que o liberalismo foi o maior salto que a humanidade alguma vez deu. Um pequeno passo para a Humanidade, um grande salto para o Homem. Em milhares anos de história, nunca houve uma ideia que tivesse tanto impacto na vida do homem como o liberalismo. A Glorious Revolution1 sucedeu-se, a Revolução Francesa também, o PIB per capita, a qualidade de vida do homem, os saltos tecnológicos, os saltos artísticos, a complexidade da vida humana exponenciou-se, o homem passou a ser o centro da sua própria política, e o objetivo do Estado deixou de ser subjugar, mas ao invés disso, de ser o mecanismo através do qual o Homem liberta-se e enfrenta o mundo. O Estado é um grande interveniente naquilo que é o homem. O liberalismo transformou-o e fez daquilo que antes era usado, maioritariamente pelos reis, para criar uma sociedade estática, hierarquizada em três classes sociais, nobreza, clero e povo. Esta nova ideologia destronou este conceito, dado que a partir daqui todos os cidadãos passam a ser iguais perante a lei, porque o objetivo do estado deixa de ser oprimir o homem para tomar o poder, mas sim libertá-lo, utilizar esse poder para criar a sociedade ideal para o homem poder renascer. Essa ideia vêm em si que os homens quando nascem são iguais, e não interessa de quem é o sangue que corre nas veias e que vai fazer-te nascer num berço de ouro, porque o Estado vai acabar com esse monopólio da lotaria social de determinar o fado das pessoas. O liberalismo provou que é possível construir uma sociedade melhor para o homem. O liberalismo nasceu fruto das ideias do Iluminismo. O mais disruptivo que trouxe ao Homem foi o simples facto de que o melhor instrumento para legislar é a razão.

A razão é hoje algo tão óbvio que hoje não merece ser discutido. Caiu numa espiral recessiva associada a rotulagens plebianas que deturpam a verdadeira conceção de liberalismo e que dão a única razão aos críticos do liberalismo, a de que a razão não é o instrumento certo para criar realidade porque ela não é real. O descrédito em que caiu hoje esta palavra deve-se ao facto de o próprio liberalismo ter criado o seu maior inimigo. O maior inimigo da liberdade é os homens poderem ser suficientemente livres para poderem destruir a sua liberdade. E neste caso, usaram-a para destruir semanticamente a palavra que é a raiz de todo o pensamento da época moderna. Desde o socialismo ao conservadorismo, a matriz radical é o liberalismo. Soa-nos irónico quando autores como Marx ou Mises podem ser postos na mesma balança. 3

Poderemos dizer até que o Quinto Império é o liberalismo porque ele foi lançado para o resto do mundo do seu berço e é hoje o sinónimo de globalização. O liberalismo é a força da razão empregue da maneira certa no mecanismo certo, o Estado. O liberalismo não é ser de direita ou esquerda, é ser um firme acreditador na liberdade do Homem e acreditar na capacidade transformadora do Homem da sua realidade. Ser liberal é ser radical numa posição, a de acreditar que o corpo é meramente uma prisão de carne e osso e que a mente humana pode ir até onde quiser.n 1 A Glorious Revolution foi um evento em Inglaterra, em 1688, que consagrou os direitos do parlamento, e assim dos homens, de terem poder quase equivalente ao rei e que, de certa forma, fez nascer a tradição democrática ocidental.


Feminismo, uma ideia radical

MARIANA ESTEVES

F

eminismo. Há quem tenha medo da palavra. Há ainda quem concorde com o conceito, mas discorde do termo. Há quem concorde com tudo, mas com calma – nada de radicalismos. E há ainda quem tenha colocado a lente feminista e nunca mais a tenha tirado. Por constatar esta confusão e aversão veemente e por considerar que é urgente falar mais deste tema proponho uma análise pragmática. Qual é a diferença entre feminismo liberal e radical? Fará sentido distinguir? Qual é o papel do feminismo hoje? A controvérsia à volta dos movimentos feministas começa logo na própria terminologia. Se o feminismo é a luta pela igualdade entre homens e mulheres por que é “fem” a raiz etimológica do termo? Recuemos um século até à revolução francesa e mais tarde aos movimentos sufragistas do sec. XX. Este é um movimento de mulheres, organizado por mulheres, para reivindicar direitos que os homens já tinham. Contudo, o conceito de feminismo debate-se por uma sociedade igualitária e não pela supremacia da mulher sobre o homem. A confusão continua quando chega a altura de ouvir: “feminismo sim, mas com calma!”. Efetivamente, a questão está na diferença entre feminismo liberal e radical. Quem gosta de diferenciar os dois termos baseia-se na palavra “consentimento”. Um feminista liberal não considera que há opressão quando a mulher consente. Um radical afirma que há opressão mesmo que haja consentimento, já que a “escolha” não passa de uma ilusão condicionada pela sociedade patriarcal. A ideia é que há uma internalização da opressão por parte das mulheres deste muito novas, já que sabem que se tomarem determinadas decisões vão sofrer as consequências de não seguirem a norma. Por outras palavras, a primeira é uma abordagem neoliberal - considera que há liberdade de esco-

lha e livre iniciativa individual. A segunda é radical porque vai à raiz do problema e vê as escolhas como influenciadas pelo medo da exclusão social e pelo machismo internalizado. Mas fará ainda sentido falar em feminismo? Comecemos pelos países desenvolvidos - grosso modo Europa e EUA. Estas são as zonas onde teoricamente grande parte dos direitos das mulheres já estão garantidos e, por isso, a igualdade de género predomina. Desta constatação teórica muitos tiram seguinte conclusão: aqui já não é necessário haver feminismo. É verdade que, comparando com outras partes do globo, nos países desenvolvidos a violência de género é menor, a igualdade de acesso à educação, e igualdade de direitos em geral, são maiores. Contudo, não se deixem enganar, a igualdade ainda não foi atingida. Vejamos a realidade em Portugal. Recentemente saiu a notícia de um estudo que afirma que as mulheres em Portugal ganham 16,7% menos que os homens. Por outras palavras, enquanto mulher tenho de trabalhar mais 61 dias para ganhar o mesmo que o meu homólogo masculino. Por este andar só em 2086 a igualdade salarial será atingida. Não será altura de nos questionarmos por que em 2016 isto ainda é uma realidade? As mulheres são efetivamente menos produtivas que os homens e, por 4

isso, ganham menos porque fazem menos? Isto já para não falar da tendência aborrecida para engravidar, que só as mulheres têm. De notar também o papel da igreja católica no que toca ao afastamento da mulher do espaço público. “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”. Assim disse em 2012 Manuel Monteiro de Castro, cardeal português. Ora, torna-se difícil respeitar uma igreja que considera que a mulher deve ser doce, recatada, do lar. Portanto, nem nos países mais desenvolvidos a luta pelos direitos das mulheres e a igualdade de géneros dever ser negligenciada. A igualdade de género é uma falácia que serve apenas para esconder a realidade – menorização, condescendência, assédio, objetivação e no limite atos animalescos como a violação e o casamento infantil. A luta feminista não contra os homens, é contra o patriarcado machista que mata todos os dias mulheres só por serem mulheres. O feminismo não é apenas um movimento de mulheres, mas um movimento de direitos humanos em que todos devemos participar. “O feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente!”n


Merci Salazar

C

oncours «Mon regard sur les années 1960 dans mon pays» Program court de premier cycle en études individualisées - échange (profil trimestre) (0473). Un vendredi, en sortant de l’école, deux jeunes garçons, donnaient un pamphlet à ma mère. Ils lui ont dit de le garder dans sa poche, de ne le montrer à personne, et de le lire qu’une fois rentrée à la maison. Je n’avais aucune idée, chère maman, l’angoisse que ce pamphlet allait créer. Mais ce vendredi, irrévérencieuse et rebelle, ma mère a immédiatement mis le pamphlet dans sa poche, sous peine d’être vue. Une fois arrivée à la maison, ma mère l’a caché et a oublié la brochure révolutionnaire. Quelques années plus tard, dans les années soixante, un vent de panique soufflait sur la maison de ma mère. “ C’est la fin!” , on entendait crier dans la maison. “On va tous être déportés !” criaient les servantes pendant qu’elles pleuraient compulsivement. Ma grand-mère avait trouvé derrière une brique amovible, un pamphlet communiste. À l’époque, la simple articulation du mot provoquait la terreur. En imaginant déjà le pire, mon grand-père expliquait que, dans cette maison, cette propagande du “diable” était interdite. En sanglots, ma mère expliquait qu’elle ne savait pas quel était ce papier et qu’elle n’était pas liée à des mouvements communistes. La brochure fut brûlée par mon grand-père qui ensuite a obligé tout le monde a juré sur son âme qu’ils n’avaient rien vu et n’étaient au courant

GIL QUADROS FLORES

de rien. Des histoires semblables, il y en a des centaines enterrées dans la peur et l’oppression établies par le premier et seul régime fasciste au Portugal. A côté de Franco (en Espagne) et Mussolini (en Italie), Salazar a introduit un régime fasciste au Portugal qui a transformé le pays pour toujours. Dans le régime “Salazaris-

te”, la police politique (PIDE) persécutait, déportait, torturait et assassinait tous ceux qui s’opposaient publiquement (ou en privé) au régime. Il régnait également un climat de peur et chaos au sein des intellectuels. Débattre des idées était dangereux. Tou5

te approche (même sans substance) aux idéaux maoïstes ou marxistes-lénistes pouvait conduire à des interrogations et tout ce qui s’en suivait. 
 Pendant ces années difficiles, Salazar transmettait au peuple portugais des valeurs nationalistes et luttait pour l’isolement du Portugal, ralentissant celui-ci par rapport à ses homologues européens. Les “médias” étaient utilisés comme un moyen de propagande des valeurs Salazaristes : Dieu, la Patrie et la Famille. L’ascension et la mort de Kennedy, les batailles politiques et idéologiques du Vietnam, l’invasion soviétique de la Tchécoslovaquie, les hippies, la révolution du Pop ou Mai 68 sont arrivés au Portugal par des échos censurés et déformés qui étaient compris uniquement par de minuscules élites culturelles. Coca-Cola n’est arrivé au Portugal qu’une fois le régime tombé. Pour la sphère artistique portugaise, la liberté d’expression était presque inexistante et les artistes étaient constamment censurés et opprimés. Presque tous les grands noms sont partis vers Paris ou Londres. Et malgré cela combien de livres, films, peintures non pas été écrits, peints et filmés. Personnellement, je pense qu’il n’y a rien de plus triste que l’oppression artistique. L’art coexiste avec l’esprit libre et les idéaux avant gardistes. Dans les années 60, au Portugal, ceux-ci sont morts asphyxiés par mains sanglantes de Salazar.n 26 October 2016 QUAG14039604 Portugal
 Langue maternelle: Portugaise


Como melhorar a imagem profissional em 3 passos

JOANA FERNANDEZ

A

maioria das pessoas forma até 90% da sua opinião sobre alguém que acabou de conhecer ao fim de quatro minutos. Por isso, se estás a ponderar candidatar-te a alguma organização, estágio ou até mesmo posto de trabalho, cuidar da tua apresentação é fundamental visto que a tua imagem será o teu primeiro cartão de visita. O FEPIANO recolheu e selecionou algumas dicas práticas que te permitem escolher a opção mais indicada para ti tendo em conta o contexto em que te queres inserir e a que imagem que pretendes passar. Mais por menos

A primeira ideia que deves reter é a de adquirir peças que podem ser utilizadas não só num contexto mais formal e de trabalho como também fora deste, de forma a rentabilizares da melhor forma o teu orçamento. Less is more. Por isso, o objetivo é escolheres algo que te faça sentir confiante, que te assente bem e que seja simples, para que os focos estejam sobre as tuas competências profissionais. Por isso, antes de mais, tenta adaptar a roupa que efetivamente já tens à imagem que idealizaste. Desta forma, além de poupares ainda evitas comprar peças que apenas usarás pontualmente em casos deste género e que não representam um bom investimento. O corte é tudo

Fatos desajustados, saias exageradamente curtas ou compridas, calças muito justas ou camisas demasiado apertadas são exemplos daquilo em que não deves investir. Tal como já falamos, a sensação de conforto é fundamental para aumentar

o nível de confiança de cada um de nós. Assim, se apostaste num fato, retifica-te que este está ajustado ao teu tipo de corpo. As calças devem ser de formato clássico, a direito, por exemplo. Quanto às saias, investe numa saia lápis ou a direito que deve ficar pela medida do joelho ou ligeiramente acima deste. Relativamente às camisas, aposta em tons sólidos e neutros, não muito berrantes. No caso feminino, evita tops de alças ou blusas decotadas e transparentes. As Cores do Sucesso

As cores permitem-te adaptar um pouco à cultura organizacional da empresa ou até mesmo construir a tua imagem profissional à semelhança da tua personalidade. Os tons neutros (preto, cinzento, azul marinho ou bege) são os tons de eleição bem como os padrões de pequena dimensão, que são mais discretos (riscas finas ou xadrez Pied de Poule /Príncipe de Gales). Tenta evitar os estampados muito exuberantes e coloridos ou com flores, muito femininos, e com bonecos ou frases, 6

por serem demasiado juvenis.Se te quiseres diferenciar, aposta numa gravata ou noutro acessório da tua cor favorita ou da cor da empresa. Desta forma, poderás dar a conhecer um pouco mais de ti ou mostrar que te identificas com a organização em questão. Se esta área te interessar ou se quiseres saber um pouco mais sobre este assunto, ficam aqui algumas sugestões de livros ou blogs que podes consultar dentro deste tema. “Imagem Profissional — Guia de Estilo” —edição da Casa das Letras , reúne conselhos práticos para mulheres e homens. A autora, Rita Carvalho, é consultora de comunicação e imagem e tem um blogue, “In Styleland”, dedicado à moda, beleza e lifestyle. “O Livro Negro do Estilo”- Arte Plural Edições, dá uma visão geral de como construir o estilo próprio de cada um e de como o adaptar às diferentes situações que se enfrentam no dia-a-dia. A autora, Nina Garcia, é uma jornalista colombiana especializada em moda que tem vindo a ocupar o cargo de Diretora de Moda nas revistas Elle e Marie Claire .n


Jovem Conservador de Direita em entrevista

Um dos rostos em ascenção do humor e da política em Portugal, JCD utiliza a sua página no facebook para satirizar as grandes questões da política nacional e internacional. “A Era do Doutor - Retrato do Génio que vai salvar Portugal” obra de doutrina de direita já está nas bancas. E – Todo este sucesso é reflexo de que os portugueses estão, finalmente, a conseguir compreender os bons ideais de direita? R – Sim, a minha página funcionou como uma espécie de muro das lamentações político, em que a partir do momento que a gerigonça tomou o poder, logo a seguir às eleições de 4 de outubro de 2015, a minha página tornou-se a ponta de lança dos ideais de direita para combater a geringonça, e as

pessoas têm-na visto como uma espécie de peregrinação da direita, o último reduto para salvar o país. Nesse sentido, a página só poderia ser um sucesso, porque tem à sua frente, e humildemente digo, um génio, e por isso o livro seria o passo seguinte, pois quando vivemos num país de esquerda o acesso à internet fica limitado em algumas zonas e convém ter algum meio analógico de propagação dos ideais de direita. Deixe-me dizer que o livro, apesar de ser um reflexo da página e conter muito daquilo que lá é escrito, é maioritariamente novo. Também os desenhos são completamente novos. Em Portugal, a maior parte das pessoas lê pouco e acabam por precisar de desenhos para poder acompanhar a leitura. Inclui o fim da história do meu sobrinho, tem sonhos novos com o Dr. Nuno Melo, que não estão na página, e também muitos textos novos sobre educação, religião e 7

JOSÉ PEDRO SOUSA TIAGO MEIRELES

tem muitas revelações sobre a minha intimidade ao nível sexual, a solo. E – Então pode-se dizer que acaba por trazer mais ideologia, é um acrescento à página. R – Sim, aliás, é um objeto completamente diferente da página, porque, em primeiro lugar, é em papel, não é em bits, e depois porque não existe aquela pressão para ter likes e eu posso ser mais sincero, não tendo a pressão de querer agradar. E – Não sente, eventualmente, a pressão para vender? R – Não tem sido fácil. O livro não está a ter, ainda, muito sucesso, porque saiu exatamente no mesmo dia do arquiteto Saraiva, e foi muito chato porque o arquiteto fez revelações íntimas de políticos e de figuras públicas da nossa praça, e o meu livro acabou por


ser completamente ofuscado por isso. Foi um golpe baixo, porque o meu livro parte de bons valores deontológicos, que não os do arquiteto, e faz revelações íntimas de um grande político, que sou eu, e também do Dr. Nuno Melo. Aliás, o livro do arquiteto Saraiva não tem nenhum capítulo sobre o Dr. Nuno Melo, e o meu tem um inteiro sobre sonhos com o Dr. Nuno Melo. E – O que é que acha que, em Portugal, deve ser ensinado numa Faculdade de Economia? O que é poderia ser mudado? R – Basta traduzirem tudo o que foi ensinado na escola de Chicago e fazer uma implementação direta. Aliás, aqui devem todos saber falar inglês, por isso as aulas deviam ser todas em inglês, e podiam ser só videoconferências da escola de Chicago, que incluíssem vídeos antigos do Dr. Hayek e do Dr. Milton Freedman a debater. De resto, em termos de Economia, não há mais nada de importante a aprender. Quem estiver à frente desta Faculdade sabe que, em termos económicos, é muito mais rentável ver vídeos do YouTube do que ter professores na sala, não é? É uma regra básica de Economia. Aproveito já para propor a criação de um curso de Economia para o futuro, que incluísse o Dr. Hayek, o Dr. Milton Freedman e o Dr. Jovem Conservador de Direita. E o Dr. Samuelson, de vez em quando, vá. E – O que é que acha de uma Faculdade que produziu pessoas como o antigo Ministro das Finanças, o Dr. Teixeira dos Santos, por exemplo? R – Não deve ser fácil lidar com isso. Pessoalmente, não sei como é que a Deloitte vos vai contratar, tendo vocês esse fardo de terem estudado nesta Faculdade. E – Para somar a isso, existe ainda o Dr. Augusto Santos Silva, antigo professor nesta Faculdade.

Acho que é preferível apresentarem-se com um curso incompleto e dizer que, ideologicamente, não quiseram ir às aulas do Dr.Augusto Santos Silva

R – Pois, não deve ser fácil. O que é que vocês dizem em entrevistas de emprego quando vos confrontam com isso? Acho que é preferível apresentarem-se com um curso incompleto e dizer que, ideologicamente, não quiseram ir às aulas do Dr. Augusto Santos Silva, porque sentem que um curso de Economia feito assim é muito melhor do que se o tivessem completado com a cadeira do Dr. Augusto Santos Silva.

E – Como é evidente, a Faculdade de Economia do Porto produz várias figuras públicas, as figuras que vão alimentando “a máquina”. O Dr. Jovem já demonstrou que tem interesse de, no futuro, fazer parte dessa mesma máquina e tornar-se Primeiro-Ministro de Portugal, com uma anexação do CDS-PP por parte do PSD. O que é que é preciso para se ser Primeiro-Ministro de Portugal? Acha que reúne em si essas qualidades? R – Acho que sou sobrequalificado para ser Primeiro-Ministro. Como é óbvio, reúno várias qualidades que me permitem estar apenas a 50% para, mesmo assim, ser o melhor Primeiro-Ministro da história de Portugal. Funciona um pouco como nos cursos universitários: uma pessoa que consegue dar aulas numa faculdade, consegue, nos seus tempos livres, ser educador de infância. E é um pouco nessa lógica: se 8

eu tenho qualidade para liderar a Comissão Europeia, é normal que tenha mais do que qualificações para liderar Portugal. Existe um critério básico para se ser Primeiro-Ministro de Portugal, que é ser-se português, o que é pena, porque eu acho que conseguia acumular o cargo de ser Primeiro-Ministro de Portugal com o cargo de Primeiro-Ministro de outro país qualquer. Mesmo assim, Portugal é o meu foco principal. E – Vê alguma objeção em tornar-se Primeiro-Ministro de Portugal e diretor executivo da Goldman Sachs, ao mesmo tempo? R – Acho que era positivo, porque precisamos de estar na frente daquelas que são as linhas orientadoras do mundo. Isto permite-nos implementar, a priori, os preceitos da Goldman Sachs no país, ainda para mais, podendo a Goldman Sachs representar alguns dos nossos credores, esse acumular de funções era uma garantia que Portugal pagava. Acima de tudo, é uma questão de transparência, pois para a opinião pública é muito mais chato uma pessoa ser Primeiro-Ministro, presidente da Comissão Europeia e só depois ir para a Goldman Sachs, acabando por pensar que ali haverão interesses, do que quando, à partida, já se está na Goldman Sachs e se é o Primeiro-Ministro. Por exemplo, das 8h às 10h era o Primeiro-Ministro e durante o resto do dia focava-me na Goldman Sachs. As pessoas saberiam que este era um esforço enorme, e reconheceriam o mérito de quem faz esse esforço em estar sempre entre Lisboa e Nova Iorque. Quando necessitasse de fazer declarações, fazia questão de distinguir o que eu, enquanto Primeiro-Ministro ou Diretor Executivo da Goldman Sachs, pensaria. E- Sabemos que tem como ídolo o Dr. Nuno Melo, essa referência incontornável do estadismo português. Pode-nos falar um pouco das origens dessa fixação? Viemos


a saber que a relação se teria deteriorado com o tempo, o que é que esteve na génese dessa deterioração? R – Eu não lhe chamaria fixação. Chamar-lhe-ia uma pura e bela amizade, com um sentimento mútuo muito forte, entre duas pessoas que se ajudaram muito uma à outra numa determinada fase, com especial destaque para todo o apoio que dei ao Dr. Nuno Melo. Eu conto esta história muitas vezes para ilustrar isto mesmo: eu tinha ido ao Parlamento Europeu, numa ida que resultou de uma colaboração com a Goldman Sachs e entrei numa casa de banho todo contente, porque tinha corrido bem todo o trabalho que tinha lá feito, e ouvi um barulho que me pareceu uma espécie de balido de cabra. Comecei a perceber alguma coisa em português e fiquei preocupado, porque havia uma pessoa portuguesa que estava a sentir mal. Entrei no cubículo da casa de banho e lá estava o Dr. Nuno Melo, aninhado e a chorar, e eu só disse: “Dr. Nuno Melo, então que se passou? Está tudo bem?”, ao que ele me responde “Vai para o c******!”, porque é assim que ele fala. Eu fiquei triste também, porque ele nunca tinha falado assim comigo, e acabou por me pedir desculpa, dizendo que estava muito nervoso e que o estavam a perseguir, tudo por causa de uma notícia que alegou que ele seria o eurodeputado que menos trabalhava. E – Trabalhava menos que a Dra. Marisa Matias? R – Muito menos que todos os outros eurodeputados portugueses. Houve até um assessor do Dr. Nuno Melo que veio dizer que ele passava muito tempo no cabeleireiro e na noite, e que era como se estivesse a fazer Erasmus, e isso afetou-o. Então, partiu-me o coração ver aquele homem naquele estado tão triste, e por isso decidi “Esta pessoa tão especial nunca mais se vai sentir assim”. Numa semana, arranjei logo forma de ele fazer 300 intervenções, para que pu-

desse aumentar a média, e pronto, foi aí que começou a nossa amizade. Quanto à queda, é mais simples: a partir do momento em que eu criei a minha página do Facebook e me tornei, humildemente dizendo, a maior figura da direita portuguesa, o Dr. Nuno Melo viu a sua pessoa ficar ofuscada pela minha presença, quando ele teve, até, um trabalho de mentoria muito importante para comigo. Nós funcionávamos muito como parceria: ele era o carisma, a cara, e eu era o cérebro que estava por trás a controlar aquilo. Quando ele viu que eu comecei a ter mais protagonismo do que ele, sem que eu precisasse dele, sentiu-se mal, sentiu-se ultrapassado. E bloqueou-me no Facebook e no Twitter, e deixou de me responder às mensagens e e-mails, deixando-me numa posição em que parece que sou stalker dele, o que não é o caso, de todo. O que eu faço é aquilo que qualquer amigo faria, e o meu projeto de Portugal passa muito por ter o Dr. Nuno Melo ao meu lado, algo que já disse em várias intervenções. Pretendo acabar com a figura de Primeiro-Ministro, sendo que eu seria o Primeiro, o Dr. Nuno Melo seria o Ministro e o hífen seríamos nós de mão dada a liderar Portugal. A minha filosofia, em relação ao Dr. Nuno Melo, é de que vamos ser sempre melhores amigos, independentemente de ele querer ou não. Acho que é uma relação com futuro. E – O que é que sentiu quan9

do ele não foi para a liderança do CDS? R – Para mim foi uma espécie de mensagem subliminar, de uma abertura na nossa relação. Ele sempre soube que eu queria anexar o CDS e ter lá a Assunção Cristas, que agora também é candidata à Câmara Municipal de Lisboa, só serve para mostrar que o CDS está à minha espera: a líder sai para ser presidente da Câmara e conseguimos ter colocação para outro. O Joãozinho pode ser o zelador da sede do CDS, até porque vou colocar a sede do CDS no AirBnB, dado que o mercado imobiliário está bastante mau e eu preciso de verbas para financiar a Universidade de Verão do PSD, porque não podemos continuar a ter figuras como o Dr. Duarte Marques como sendo intelectuais da Universidade de Verão, precisamos de pessoas de renome, e então acho que o Joãozinho dará um ótimo porteiro para o AirBnB do CDS. Quer dizer, até pode acabar for fazer baixar as reviews, mas será um risco que teremos de tomar. E – Fazendo agora um pequeno choque ideológico, uma vez disse que para compreender os bons ideais de direita é preciso contrapô-los, numa espécie de “o bom só sabe que é bom por contraponto com o mau”. Uma das suas visitas mais interessantes e mediatizadas foi a sua ida ao Avante. O que é que aprendeu enquanto lá esteve?


R – Muito pouco. Aliás, não esperava aprender nada, porque eu já sabia tudo quando lá entrei. O Avante foi no fim-de-semana da Universidade de Verão do PSD, e eu gosto de debater com pessoas que pensam de forma diferente de mim. Estar a debater com pessoas que me dão pancadinhas nas costas não me ajuda a evoluir, e é por isso que vemos pessoas como o Dr. Pedro Passos Coelho, por exemplo, que estiveram na Universidade de Verão do PSD, e eu no Avante a levar com aqueles esquerdalhos todos. O debate de ideias é fundamental: eu posso discordar muito dos comunistas, mas preciso de debater com eles para perceber que tenho ainda mais razão do que a tinha inicialmente. A dúvida só se instala se não houver contraponto, e é por isso que a democracia é importante, porque permite que as pessoas percebam que há duas ideias: uma boa e uma má. Se só houvessem ideias boas, as pessoas podiam pensar que éramos fascistas ou qualquer coisa assim parecida, o que não é de todo verdade. Gostamos de democracia porque convém haver sempre um Dr. Batman para um Dr. Joker, sendo que o Dr. Batman representa a direita e o Dr. Joker são aqueles brincalhões de esquerda. E – Chegou a dizer, em entrevista à Visão, que “uma das desvantagens do meu brilhantismo é ter dificuldade em lidar com o fracasso”, e fiquei um pouco confuso… já alguma vez teve de lidar com o fracasso? R – Curiosamente, não. Isso é algo de que falo no meu livro, que é o facto de ter vindo a listar as minhas qualidades, de forma a que, algum dia, chegue a alguma fraqueza. Esta lista é infindável e ainda não consegui chegar ao outro lado do balanço… talvez um dia. Quer dizer, a não ser que se considere uma fraqueza o excesso de qualidades. Aliás, uma das respostas que mais gosto de ouvir das pessoas na Goldman Sachs é serem excessivamente perfecionistas.

E – O Dr. Jovem faz-se acompanhar muitas vezes pelo seu Estagiário. Nutre algum carinho especial pelo seu Estagiário e pelo conceito de “Estagiário”? R – Claro que sim. O conceito de estagiário é o óleo do Capitalismo moderno, é o que faz girar as suas engrenagens. Pelo meu Estagiário, em concreto, tenho um carinho ainda mais especial. Aliás, eu já o vacinei, porque convém tem um estagiário com antivírus. Porquê? Eu uso o meu Estagiário como Dropbox, pois tenho a mente muito ocupada, e dá-me jeito usá-lo para gravar tudo o que eu digo e tudo o que eu penso. Foi o Estagiário que escreveu o meu livro todo. Eu podia usar um gravador, mas em termos de motor de busca é mais fácil que seja um ser humano. Quando lhe pergunto o que fiz em determinado dia e a determinada hora, ele diz-me tudo, e como tem Asperger, isso acaba por ajudar. Não o demonstro, mas tenho muito apreço por ele. E – Atualmente, para se poder ser “Estagiário” é preciso ser-se licenciado. Qual é a postura do Dr. Jovem sobre este tema? R – Uma licenciatura é a nova quarta classe, por isso é legítimo que uma pessoa não contrate um estagiário que só tenha o décimo segundo ano. Dando o exemplo da FEP: as pessoas, quando acabam a licenciatura, pensam “Vou já trabalhar para uma grande empresa como a Deloitte e afins”. O que é que a Deloitte sabe do vosso trabalho? Nada, nada! Vocês têm de demonstrar, dentro da Deloitte, que merecem lá estar. E enquanto estão a demonstrar serão pagos por isso? Claro que não, estão numa fase de demonstração. Tem de haver uma demonstração de valor para poder estar ao mesmo nível de pessoas que já demonstraram esse valor. O Estagiário é a versão trial do profissional a sério. E – O Dr. Jovem tem algum amigo Dr. com quem possa falar quan10

do está com algum problema ou quando se depara momentos de alguma infelicidade? R – Sabe que esta questão da genialidade implica muito a solidão. No entanto, coisas que me atormentam, como a minha imagem, por exemplo, costumo abordar com o Dr. Lobo Xavier, pois se há pessoa que mantém uma boa imagem é ele. Já houve tempos em que para discussão de assuntos de liderança ou de como chegar a determinados objetivos, e isto agora vai parecer um elogio, mas não é, ligava muitas vezes ao Dr. Duarte Marques. E porquê? Porque achava impossível que alguém com aquela capacidade intelectual tenha chegado onde chegou, e eu perguntava-me “Como? Quem é que ele conhecia?”, e posso dizer que ele foi muito importante durante uns tempos, porque me apresentou a pessoas muito importantes e que me permitiram, também, chegar mais alto. Não pelos mesmos meios do Dr. Duarte Marques. Foram meios parecidos, mas com inteligência. Atualmente, também posso considerar o Dr. Durão Barroso como amigo. Infelizmente, tenho vindo a ser uma espécie de mentor dele na Goldman Sachs, porque ele tem aquela característica de se colar às pessoas mais populares quando chega a um sítio, para ver se consegue subir, o que é chato. É chato porque estou a fazer um trabalho valoroso e ele anda para lá só para gozar a reforma. Eu já pedi para lhe instalarem o Minesweeper no computador para ele ficar a brincar um bocadinho e não andar sempre colado em mim. Eu estou lá para trabalhar e ele está lá para se reformar, temos agendas completamente diferentes. E: Qual é a postura perante esta traição do Dr. Passos Coelho [N.R. sobre PPC ter dito ser importante taxar imóveis acima de 1 milhão de euros, tendo criado imposto de selo sobre os mesmos] R: Uma coisa é um imposto de selo, outra coisa é o IMI. O IMI é um im-


posto esquerdalho, o imposto de Selo não. O imposto funciona como nos automóveis, se, por exemplo, o Sr. quer ter um carro banal, por exemplo um Audi A8, tem que pagar o imposto todos os anos para ter esse caro. O que se passa com as casas é: se eu quiser ter uma casa, normal, de 1 milhão de euros tenho que pagar um imposto de selo. O que é que sucede: o IMI é aquele imposto de redistribuição esquerdalha que lhe diz que casas acima de 600 mil euros têm que pagar. E 600 mil euros não é 1 milhão. Ou seja, estamos a falar entre classe média baixa e classe média baixa (entre 600 mil euros e 1 milhão de euros). E o que se passa aqui é que o governo de esquerda que quer eliminar os ricos neste momento está a eliminar a classe média, com este imposto que foi anunciado pela Mariana Mortágua, a ministra das finanças oficiosa. E não há traição. O que o Dr. Passos Coelho fazia era criar um imposto para as pessoas mostrarem que têm uma casa de 1 milhão de €, que é diferente. É sempre diferente quando é a direita a propor impostos. Fa-lo como uma inevitabilidade e para contribuir para o desenvolvimento e competitividade do país. Quando é a esquerda fazem-no porque a missão deles é tirar dinheiro a quem tem a capacidade para o investir e tornar o país competitivo. E isso é triste. E é muito curioso ver como a esquerda tem medo da mão invisível do capitalismo mas a direita quando aplica impostos está a aplicar impostos diretos, e diz “Estamos a aplicar impostos, vocês são uns preguiçosos e estão a viver acima das vossas possiblidades”. O que a esquerda diz é “Ah, não há aqui austeridade nenhuma”. Depois aplicam austeridade em quê? Impostos indiretos, invisíveis. No fundo, a esquerda tem medo da mão invisível do capitalismo mas usa a mão invisível dos impostos, o que é muito trist para o avanço do país. E: Falavam há pouco de “viver acima das nossas possibilidades”.

Tem sido algo muito reiterado pela oposição e muitas vezes baseado no que alguns políticos nos dizem lá fora. Um dos mais iminentes a esse respeito é o ministro das finanças alemão, o Dr. Wolfgang Shäuble. Qual é a sua opinião pessoal dele, depois das suas declarações no outro dia precisamente relacionadas com iss? R: O Dr. Shäuble, nós costumamos dizer, é o professor Charles Xavier da finança mundial. Porque ele consegue visualizar o futuro da Europa. E eu tenho muita pena que ele não seja o ministro das finanças português. Poupava muito dinheiro ao Estado. A opinião do Dr. Shäuble é uma das opiniões que devemos ter em conta a governar o país. Idealmente, seria positivo se a democracia portugesa concedesse 30% dos votos ao Dr. Shäuble. Os portugueses continuavam a ter impacto, mas a opinião dele tinha mais peso. Era uma espécie de Conselho de Segurança. É claro que sou contra isso, sou bastante democrata, mas acho que as pessoas deviam votar em função da opinião do Dr. Shäuble. O problema que se coloca é que as pessoas neste momento não gostam dele, por isso quando ele diz algo, normalmente 11

é contrapruducente para a direita. Por isso, eu penso que se ele quisesse ajudar o país, o melhor que ele podia fazer era convidar a Mariana Mortágua, elogiá-la, elogiar as medidas do governos de esquerda, e assim eu, como líder da oposição, podia fazer aquele discurso soberanista e populista do “Lá estão os alemães a meter-se nos nossos assuntos, nós queremos é mais austeridade”. Ele devia apoiar o governo de esquerda, para nós governarmos contra a alemanha mas a favor da alemanha. Aliás, os interesses da alemanha são os nossos, estão completamente alinhados. E: Acha que é difícil chegar ao público português? R: Não, o povo português deu-nos [direita] a vitória nas últimas eleições. O problema que aconteceu foi: a esquerda fez um golpe de estado institucional. E na altura, infelizmente, o Dr. Cavaco estava de saída, para não defender Portugal da constituição. O governo, que governou apenas agumas semanas em 2015, foi o governo mais curto de sempre, mas um dos melhores, sem dúvida. E: Tendo em conta que estamos


no ensino superior, um dos temas mais fraturantes é sempre a praxe. O Dr. tem alguma opinião formada sobre esse assunto? R: A praxe é uma dádiva do mercado livre. As pessoas quando entram na universidade entram numa idade não propícia para ir para a universidade. Final da adolescência, início da idade adulta. E a adolescência tem muitas coisas boas, como por exemplo a descoberta pessoal da sexualidade, mas também tem muitas coisas más que tem que é o idealismo. E as pessoas entram para a universidade, muitas vezes para cursos inúteis, a pensar que vão mudar o mundo e salvar todas as baleias. O que é que a praxe faz: a praxe é uma chapada de realidade, que lhes diz “Vivemos no mundo real, o idealismo é muito bonito mas na prática só vão longe se olharem para o chão e respeitarem quem manda, para eventualmente ficarem no lugar de quem manda”. No fundo é um estágio numa empresa ao ar livre. Eu acho que a praxe, mais até do que muitas cadeiras que vocês têm, é bem mais importante e ensina-vos muitas competências que podem aplicar no mercado de trabalho. E: Acha que deveríamos substituir uma cadeira dada pelo Dr. Augusto Santos Silva em prol de uma cadeira de praxe? R: Era uma boa ideia. Aliás, até dava bom mestrado. E: O que é que é preciso para se chegar a Dr. Como é que uma pessoa da FEP, no fim dos 3 anos, com 21 anos, pode caminhar para se tornar Dr. R: A FEP não é o problema, aliás, até é grande parte da solução. A resposta simples é: para um pessoa ser Dr. tem que ganhar o meu respeito. A sociedade está montada de que forma? Há cursos de primeira necessidade: economia e alta finança. E cursos de hobbies: teatro, sociologia e letras em geral. Portanto, é óbvio que ninguém que

viva à custa de subsídios e à sombra do Boaventura Sousa Santos vai alguma vez ganhar o título de Dr. A Dr. . Marisa Matias, por exemplo, que teve um grande elogio público da minha parte. Primeiro porque apresentou o meu livro. Segundo por ter participado nas presidenciais. Porque quando se pensava que a esquerda estava tão polarizada em candidatos de esquerda, e que podia haver uma segunda volta, a Dr. . Marisa Matias aparece e curiosamente era competente, e permitiu que os votos na esquerda ficassem tão divididos que o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou à primeira. Aliás, foi a primeira vez na história da esquerda que eles não danificaram as contas públicas ao nos levarem a uma segunda volta. E: Como é que pensa gozar a sua reforma? R: Eu não acredito em reformas. Como presidente da república, claro. É um bom cargo para se gozar a reforma. Mas no fundo é trabalho. A reforma é um conceito que não enobrece a velhice. Os velhos, quando lhes dizem que têm que se reformar, deviam ficar chateados, porque na verdade o que lhes dizem é “Vocês a partir de agora são inúteis”. E ninguém gosta de se sentir inútil. E uma pessoa que se sente inútil para trabalhar é inútil, ponto. Portanto estão a retirar o propósito da existência daquelas pessoas. Uma maneira de combater isso é dar-lhe funções. Por exemplo, vemos tantos senhores idosos a falar de futebol nas tascas, podiam perfeitamente ser comentadores desportivos. Pelo que sei a diferença não é muita. Há tantas senhoras a fazer crochê, porque é que elas não vão para uma fábrica têxtil? E: O Dr. jovem para deve ser da opinião que uma das soluções para re-iniciar a economia deste país é, precisamente, baixar os salários. R: É dar salários justos. Se uma pessoa tem funções de responsabilidade 12

e gere um banco, por exemplo, merece um bom salário. Se uma pessoa tem uma função menor, então tem que ter um salário correspondente. O que podíamos era arranjar uma fórmula em Excel para medir a importância dos trabalhos, e, a partir daí, calcular salários. Por exemplo: Médico, uma função média. Os médicos são importantes, sem dúvida, mas hoje em dia está tudo na wikipédia, e quem é que precisa de recorrer a um médico quando pode simplesmente escrever os seus sintomas no Google e o Google vai dizer o que temos? As tecnologias estão a tornar todas estas profissões obsoletas. As únicas que se mantêm são as funções de alta gestão e finança. E: Qual é a perspectiva do Dr. em relação à crescente onda de empreendedorismo em Portugal? R: O empreendedorismo é o capitalismo dos pobres. E é uma excelente solução a todas as pessoas inúteis a quem ninguém quer dar emprego. Por exemplo, se uma pessoa tem valor, então tem emprego. Para quem não tem, a única solução é recorrer ao empreendedorismo. Por exemplo, eu já converti muitos “sem-abrigo” ao empreendedorismo. Pediam-me moedas para comer e eu dava-lhes panfletos sobre pós-graduações na católica. É a única solução. Se eu não tivesse emprego, por muito absurdo que isto possa soar, claro que me ia tornar empreendedor. Ia para a garagem, como o Dr. Steve Jobs, e inventava um novo computador, um novo leitor de MP3, ou uma coisa assim. Claro que eu não tenho necessidade, porque tenho emprego. Logo, o empreendedorismo serve para aqueles a quem o mercado de trabalho não dava oportunidades, como o Dr. Steve Jobs que cheirava mal, andava descalço e gostava de droga. Fez o que tinha que fazer. E: O que acha da reposição do ministério da cultura pelo novo governo de esquerda?


R: É um acessório. A cultura só faz sentido num secretário de estado. O que é cultura? Cultura é entretenimento. Entretenimento é mercado. Por exemplo, vocês quando saírem da universidade vão para um trabalho a sério, e depois disso? Têm como hobbie o que? Gosto de ler, ou gosto de escrever, ou gosto de fazer esqui, ou malabarismo, ou fazer instalações de arte moderna. São tudo hobbies. Ou seja, os hobbies só podem fazer parte de um ministério de forem rentáveis. Por exemplo, em termo de teatro só faz sentido quem: Dr. Felipe La Féria. Porquê? Salas cheias, é rentável. Livros? Dr. José Rodrigues dos Santos, Dr. Chagas Freitas e Dr. Gustavo Santos. Ou seja, se o mercado pede, faz sentido. Agora, fazer coisas para três críticos dizerem que foi muito bom mas ninguém gastar dinheiro naquilo não faz sentido. Se o mercado não exige não faz sentido. O único ministro da cultura que é necessário é o mercado livre.

E: Então não faz sentido haver cultura se não houver rentabilidade? R: Claro que não. O mercado serve para tirar as ervas daninhas da cultura e recompensar aquilo que tem qualidade. Por exemplo, se há sucesso naqueles reality shows da TVI, porque é que não fazem isso no MEO Arena durante 3 meses? As pessoas iam rodando, tipo jardim zoológico. Casa dos SegredosLive. Isso era uma instalação aceitável. O voyeurismo vende. E: A imprensa portuguesa está enviesada para a direita? R: Claro que não! A imprensa é o mal menor da democracia. Hoje em dia já está amestrada. Porquê? A imprensa se quer informação tem que se dar bem com as pessoas que lhes dão informação. Logo, se me pergunta se está enviesada à direita tem lógica. Porque se querem vender jornais têm que falar bem das pessoas de quem falam, e só faz sentido dizer bem de pessoas de direita.

Mas eu vejo sempre a imprensa como leitura de ficção com alguns factos verídicos. Eu fui no outro dia à Sic Notícias comentar a imprensa e tive oportunidade de dizer à jornalista que não leio jornais, porque como estou nos corredores do poder eu sei o que é verdade e o que não é verdade. Mas a imprensa claramente que não é de direita, basta ler o livro do arquiteto Saraiva e ele diz lá há muito poucos jornalistas de direita. Ele quando diz que é isento diz, isentamente, que não gosta de ninguém que esteve à esquerda no governo, mas de forma isenta, e que o Dr. Cavaco Silva é o nosso Churchill. Mas isto de forma isenta. E: Falando no ex-Presidente da República, Dr. Cavaco Silva, gostava de saber quem é, para si, o maior estadista universal de sempre. R: Dr. . Margaret Thatcher, Dr. Ronald Reagan são as minhas duas grandes referências políticas. E: Qual é que deve ser o papel da economia na sociedade? R: Eu costumo fazer essa pergunta ao 13

contrário: qual é o papel da sociedade na economia? E essa é a pergunta que deve ser feita, porque esse, sim, é o caminho. A sociedade tem que se ajustar à economia, e não o contrário. E: O Dr. Jovem chegou a dizer “Só a Economia nos salvará. E depois o Dr. Jesus”. Pode esclarecer essa frase? R: A Economia foi a ferramenta que Deus criou para coordenar todo o mundo. Nesse sentido, as regras da Economia são regras divinas. Por isso não é bem uma hierarquia… Quando falam da mão invisível acham que é a mão de quem? E depois convém vivermos bem na nossa forma terrena até à salvação do Dr. Jesus. Seria muito chato se o Dr. Jesus chegasse, na segunda vinda dele, e todos os países tivessem déficit, por exemplo. Era uma vergonha… Diz-se, acho que foi o Dr. José Rodrigues dos Santos, que “os números são a linguagem de Deus”. [Foi o Dr. José Rodrigues dos Santos ou o Pitágoras?]. n FOTOGRAFIA: ANA MARTA FERREIRA


Clássico e Robusto

TIAGO M.FERREIRA MEIRELES

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e mansinho, e de modo a causar o menor aparato para com a minha curiosidade saliventa, abro a porta da cozinha e tenho a oportunidade de a contemplar: ali, no canto da mesa de mármore, barulhenta e pingona, trabalha a todo o gás a nova máquina de café cá do lar. Meu pai revelara que esta se encontrava em promoção e que a sua aquisição custara uns míseros 28 euros, o que se pode considerar como sendo “coisinha pouca”. Por este montante, é-se presenteado com o dito engenho e com 8 sacos de 16 cápsulas de café/cada, o que, para meu espanto aritmético, totaliza umas incríveis 128 utilizações. “Hm, mas é bom?” pergunto eu de testa franzida (pffff, como se eu lá soubesse o que é bom ou não). Em resposta à minha dúvida, obtenho um mero “É café, pelo preço não está mau!”. Há uma verdade absoluta que importa desde já revelar: não sou, de todo, apreciador de café. Reconheço-lhe o travo e o efeito que me causa, pouco mais. Aliás, não considero que tenha o mínimo tato para poder distinguir o “robusto” do “delicado”. É-me extremamente difícil atribuir personalidade ao que me aparece na chávena. Após uma análise exaustiva ao aparelho, viro-me agora para os sacos. Para meu encanto, deparo-me com 3 sacos de cápsulas com três sabores distintos, devidamente rotulados e adaptados a uma cor diferenciadora: roxo, azul e castanho. Em letras gordas, e porque nestas coisas “bigger is always better”, estão 2 adjetivos a descrever o sabor e a sensação experimentada por aquela “cor” específica de café. “Quantos sabores havia, pai?” nova pergunta. “Não reparei, mas haviam várias! Des-

ta vez só trouxe 3, assim só para experimentar”. Irrompe em mim, mais uma vez, uma curiosidade estúpida: vejamos a que é que sabe o ciano e as amigas. Começo pela embalagem roxa: “equilibrado“ e “aromático“, parece-me uma boa opção para dar o mote. Dois cliques e vejo pingar. Bebo e traço o meu singelo veredito: sabe a café, “não está mau para o preço”. Contudo, e apoquentado com a mestria da adjetivação impingida, falho, novamente, em julgar o carácter ao café. É triste isto: não lhe sinto a tal “robustez”. Segue-se o azul, depois o castanho. Termino como comecei: sem tato. Não obstante, e inebriado pela fantástica promoção que me fora colocada na frente, dou por mim a cuspir o seguinte: “Bem, uma destas é que me dava jeito lá no Porto”. Nova verdade, e sendo o mais mesquinho possível: agrada-me a ideia de “só” ter de 14

pagar cerca de 21 cêntimos por café e tudo isto à distância de um clique caseiro. Certamente será melhor do que os 45 cêntimos que que me exigem por aquela água tingida que brota da máquina azul em frente à AE. Decidi-me: quero isto no covil do guerreiro. Obrigado, pais, por me alimentarem o devaneio. Estou mais feliz do que nunca. Comprarei 3 novos sabores, diferentes dos outros 3 que já experimentei anteriormente. Espero encontrar “robustez” nesta demanda pelo conhecimento do bom café. Quer dizer, pelo menos daquele que me verei obrigado a comprar, dada a especificidade do engenho vendido. Para já, isso não me preocupa. O meu critério, apesar de limitado, é suficiente para distinguir o “não está mau para o preço” do péssimo. Concluo, dizendo: o café é o óleo do óleo do capitalismo moderno. Está tranquilo, está aceitável.n


A Insolvência da cultura

A

noite do dia 20 de agosto tardava em cair, fruto de um verão que ainda se mostrava vivo e bem-disposto. O sol, também ele, brilhava por entre os ramos que densamente preenchem o ‘habitat natural da música’. O palco está prometido aos Capitão Fausto, banda por demais conhecida do revigorado público de ‘Paredes’. Voltando a uma casa que já lhes foi muito querida, quando, em 2012, partilharam palco com os intemporais Ornatos Violeta, a banda lisboeta volta mais madura a um festival que, entre 4 anos, acabou por seguir o percurso inverso... Em mãos têm “Capitão Fausto têm os dias contados”, álbum de afirmação que veio subitamente alterar as bases sobre as quais a banda tinha prevalecido junto de um público mais novo. Fortemente baseado num ins-

trumentalismo à la Beach Boys, com constantes tentativas de sobreposição e arranjos instrumentais, “Os Dias Contados” são todo um reflexo de um processo de crescimento e maturação musical, deixando para trás a altura em que uma transição num concerto se podia resolver com uma palete de efeitos e um solo de guitarra que muitos nem percebiam, mas que quase todos (diziam que) gostavam. O concerto, note-se, começou morno, com um dos êxitos do novo álbum (‘Morro na Praia’) a não ser suficiente para acordar os fans das frontlines. Mas tudo rapidamente mudou quando chegaram os ritmos alucinantes e os acordes cortantes de “Célebre Batalha de Formariz” e o pó, finalmente, começou-se a soltar. Durante 50 minutos o moshe não parou, o crowdsurf era uma constante e 15

JOSÉ PEDRO SOUSA

os aplausos seguiam-se, fortes e genuínos. Ninguém lhes ficou indiferente: nenhuma falha de som, nenhum momento de dasafino ou nenhum acorde em falta serviram para não fazer valer, àqueles 5 jovens, o esforço claramente empregue naquele concerto. E por isso o digo: só quem não esteve naquele fim de tarde a observar o que acontecia na colina do recinto do Vodafone Paredes de Coura, é que não pode constatar que o incrível ambiente e a euforia desmesurada que ali se viveu, graças à criatividade e ao talento de 5 jovens músicos portugueses, espelha a triste e desesperada realidade que a cultura portuguesa enfrenta. Uma banda que é exatamente aquilo que aparenta ser, apresentando um pop influenciado por bases altamente respeitadas, com uma música bem produzida e que fica no ouvido, mas


perfeitamente ciente da sua incapacidade crónica de se impor num patamar de importância a nível mundial (europeu, vá…). Ainda mais difícil se torna quando se vem de Portugal, um país que pouco ou nada deu à música, provavelmente fruto da ditadura de 50 anos que nos privou impiedosamente de qualquer tentativa de desenvolvimento social ou cultural. É doloroso acharmos que pertencemos ao lote dos ‘países desenvolvidos’ quando, em 40 anos de democracia, governos atrás de governos foram esbanjando milhares de milhões de euros europeus para satisfazer autarquias corruptas, pagar favores eleitorais e construir autoestradas inacreditavelmente desnecessárias. Foram-se acumulando líderes perfeitamente desprovidos de visão a longo prazo, “estadistas” incapazes de concluir que parte da solução para os 50 anos em que fomos a cova da Europa passava, precisamente, por fazer renascer o de-

“Estadistas” incapazes de concluir que parte da solução para os 50 anos em que fomos a cova da Europa passava, precisamente, por fazer renascer o desejo e a procura da cultura

sejo e a procura da cultura. E apesar de ainda hoje andarmos a correr atrás desse prejuízo, houve recentemente quem considerasse acessória a existência de um ministério para a cultura, alegando restrições orçamentais, tendo criado, em sua “substituição”, um cargo de “Vice-Primeiro-Ministro” com o propósito único de amenizar 16

quizílias políticas, desacreditanto, simultâneamente, a política e a cultura portuguesa. E é assim que os Capitão Fausto refletem o que tem vindo a ser o nosso esforço cultural nos últimos anos: bandas, músicos, pintores, escultores ou demais artistas que são constantemente obrigados a esolher entre uma emigração forçada ou uma luta luta titânica contra um sistema desinteressado, a falta de uma educação cultural (e subsequente inexistência de mercados), a falta de oportunidades e o desprendimento do estado, que muitas vezes prefere assobiar para o lado e ignorar a existência clara de um problema. A cultura portuguesa atual resume-se, portanto, às palavras de Pedro Mexia, célebre poeta, cronista e crítico português, numa análise à sua obra: “Não sou tão máu que nunca me venham a ler em vida mas não sou suficientemente bom para imaginar que me possam ler depois de morto”. n


A Trunfa

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ão se fala aqui de interpretação, mas da maneira como é apreendido: o cinema não exige imaginação. Existe independentemente do espetador, tem a sua dinâmica própria plasmada na celulóide e é apresentado de igual forma a todos que o querem ver, da mesma forma que a vida quotidiana se lhes apresenta, enquadrada numa janela rectangular. É a forma artísitca democrática, aquela que não exige conceito nem experiência. Na sua forma mais perfeita (Aurora), nem exige linguagem. Como a vida, não exige pré-requisitos, e é sabido que é o cinema o refúgio dos que querem viver as vidas dos outros. Como tudo o resto, o cinema peca também pela vaidade. Nunca diz que não a olhar-se ao espelho, e deste amor próprio nascem exemplos vários: dos melhores (8 ½) aos piores (A Noite Americana), todos esbatem a linha de um autor que quer criar num meio onde quer continuar a ver inocência. Os melhores (Fellini), sabem que não

PEDRO GONZÁLEZ

é possível e criam na fronteira, no contraste. Os outros (Truffaut), fingem que sim. E há ainda os que não dizem que sim ou não, pois continuam e continuarão sempre crianças para quem a inocência não é algo que se perca ou ganha. E destes nascem filmes como A Rosa Púrpura do Cairo, onde uma Mia Farrow pré-atribulações matrimoniais apaixonado por uma personagem do filme da semana vê o seu amor correspondido. Digo correspondido porque a personagem por quem se apaixona efectivamente salta da tela para ficar com ela: algo que não deixa o ator que o desempenha muito contente. Segue-se o interminável cortejar, por parte de ator e personagem, ora por amor ora por interesse, de uma mulher que se vê chagada a um final amargo: afinal de contas, não está num filme. E está de volta a um ponto de partida pouco ou nada auspicioso, com um trabalho monótono e um marido que não ama. Os 17

próximos anos não lhe serão fáceis, mas até lá tem o cinema. O de Fred Astaire e Ginger Rogers, o de Lauren Bacall e Humphrey Bogart, o de Audrey Hepburn e Rex Harrison. Ou o de Max von Sydow e Bibi Andersson, porque se a vida não tem finais felizes, o cinema também não tem que os ter. Não é bonito o que nos mostra O Demónio de Néon, nem é bonito o que nos mostra Roma, Cidade Aberta. Mas quer o plasticismo de uma quer o realismo da outra mostram uma visão autónoma e sincera do mundo, ou de um outro. Entretanto, Mia Farrow vê cinema. Ao jeito do carro que abranda e vira os faróis para ver melhor o acidente, o bom cinema absorve. O que nada tem a ver com ritmos frenéticos ou rótulos de cinema contemplativo, tão absorvente que pode ser o último e tão pouco o primeiro. Diz respeito a nada mais que à verdade. E entretanto, pode ser que os maus anos passem mais rápido.n


Adeus

Adeus extensões.

P

assados 63 anos da primeira pedra, a FEP vai finalmente sofrer as tão ansiadas melhorias. Depois de sucessivas tentativas por parte da Direção, a estrutura permanecerá praticamente intocada devido aos entraves legalmente impostos. Como Monumento de Interesse, a obra de Viana de Lima não pode perder as suas caraterísticas diferenciadoras e será alvo de intervenções que afetarão sobretudo a funcionalidade do espaço sem nunca pôr em causa o desenho original. Qualquer olho

Adeus andaimes. Adeus frio. Adeus aperto. Adeus baratas.

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FEP destreinado consegue perceber que o Edifício Principal foi construído para tempos diferentes. As reabilitações previstas têm como como finalidade não só devolver o monumento aos seus tempos áureos, mas também dota-lo de novas caraterísticas que o adaptem às necessidades de hoje. Uma das deficiências mais prementes é a incapacidade do edifício de acolher a quantidade de dispositivos eletrónicos que atualmente usamos. Neste sentido todas as cablagens serão reinstaladas de forma a aumentar o número de tomadas, bem como melhorar a iluminação. Adeus extensões! Também as caixilharias serão

JORGE LOBO RICARDO FERNANDES

alvo de uma intervenção baseada no restauro/limpeza total dos seus componentes, sem nunca abdicar dos “pormenorizados” originais. Com a melhoria do isolamento térmico em portas e janelas subjacente, Adeus frio. A revolução está, no entanto, guardada para os auditórios. Nestes, as filas vão ser demolidas alternadamente de forma a incluir mesas metálicas fixas adequadas para a escrita que, imagine-se, vão incluir um espaço para esticar as pernas. Adeus aperto! Quanto aos assentos em PVC, ficarão até a uma próxima remodelação. Um outro tópico relevante é a Cantina: a sua manutenção não está garantida. Procuramos ainda esclarecer a situação da Lady e foi-nos adiantado pelo Sr. Jorge do bar que os seus aposentos poderão ser no espaço deixado vago pelos rastejantes. Infere-se um adeus às baratas. E o que vai ser feito dos alunos enquanto estiverem a decorrer as obras? Dito de uma maneira muito simples, a nossa querida faculdade vai ser transformada nos Contentores de Economia da Universidade do Porto. As construções vão ser iniciadas no fim da época de exames do segundo semestre deste ano letivo e prevê-se o seu término em setembro 2018 ou dezembro 2018. Ou seja, o ano 2017/2018 será passado na in19

tegra fora da FEP. No entanto, não se deixem enganar quanto às condições que teremos visto que a Direção vai garantir as mesmas condições temos agora. Todos os contentores terão, por exemplo, ar condicionado. Esta nossa faculdade alternativa terá um bar com esplanada, mas não vai ter cantina (ou seja, vamos ver muitos menos engenheiros), vai ter salas de aula, gabinetes de professores e até mesmo salas de estudo e contentores para a associação de estudantes e para as diferentes organizações da FEP, incluindo espaço de arrumos para os grupos académicos. Quanto aos dois salões mais icónicos da FEP, bem, fontes seguras afirmam que há uma forte possibilidade de haver um contentor com uma capacidade próxima da dos 70 metros(268 lugares) que servirá o mesmo propósito. O segundo e mais emblemático salão nobre não terá qualquer tipo de “substituto”. Algo a considerar é o facto de que um projeto destes exige inúmeros recursos e imenso espaço. Aqui está o motivo de já não se pagar parque a partir de Abril. O parque de estacionamento dos alunos será a sede de todos estes contentores. O parque de estacionamento dos professores servirá de zona de apoio às obras. Portanto, não vamos sair da faculdade a meio do semestre, não vamos para a Portucalense ter aulas no próximo ano e quem estudo na FEP não vai ser impedido de o continuar a fazer. Por isso: “A carga pronta e metida nos contentores Adeus aos meus amores que me vou” n


O mês em revista

“O conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para tornar a indústria americana nãocompetitiva”

“Apesar da história de cada refugiado ser diferente, todos partilham uma linha em comum: a coragem de preserverar e a vontade de sobreviver” 20


“Se soubesse de onde vêm as boas músicas, ia lá mais vezes”

Um ano depois dos atentados do Bataclan. Ao todo, 89 pessoas morreram dentro da sala de espetáculos

27 anos desde a queda do muro de Berlim. O último suspiro da União Soviética

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Será mesmo insustentável a leveza do Ser?

ALEX F. ALVES

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os livros que lemos, de um modo geral, recordamos somente os fragmentos que ressoam com a nossa existência e empírica realidade. Tudo o mais, mesmo que insightful será obliterado pela nossa selectiva perceção. Em certa medida, procuramos proactivamente a corroboração do que já sabemos… Milan Kundera em “A Insustentável Leveza do Ser” explora através da trama de relações entre as personagens (Tomás, Tereza, Sabina, etc.) muitas questões, conceitos e pressupostos. Aliás, esse emaranhado de reflexões, interrogações suscitadas por um aspeto específico do tecido do enredo é o que dá à literatura a beleza, a nobreza e selvagem penetração intelectual pelo obscuro mundo de incertezas da nossa existência. De facto, uma das problemáticas exploradas é a liberdade absoluta do ser humano preconizada por outros filósofos como Sartre e Kierkegaard. Contemplemos as palavras do autor: “Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total

de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?” Será que a maldição do ser humano é a liberdade? Os restantes seres vivos respondem indiscriminadamente aos instintos, não usufruem da consciência enquanto nós não temos um guião, um mapa ou manual de instruções para caminharmos no mundo, para nos compreendermos e para integrarmos a realidade subjectiva dos outros. Basicamente, somos uma entidade isolada neste vasto universo e ninguém nos diz nada. Qual o propósito? Para onde vamos? A escolha é nossa, irrevogavelmente nossa. Milan Kundera interroga-nos “O peso ou a leveza?”, apesar de a leveza do Ser (a consciência livre humana) que produz a Arte, por exemplo, constituir igualmente um fardo visto que nos impõe uma assoladora responsabilidade. A responsabilidade da escolha, da decisão, da quase ubíqua necessidade de tomar boas decisões. Mas a que critérios objetivos responderão, que algoritmo por detrás da tomada de decisões cor22

retas? “Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.” A partir de um certo momento, apresenta-se-nos claro que a sabedoria existencial é fulcral. O poeta predileto português afirmou algures nos seus poemas soturnos que a inconsciência equivale a felicidade, a infantilidade da ignorância e da ingenuidade providenciam a verdadeira felicidade… Não concordo… Como em qualquer modelo macroeconómico, a qualidade e relevância de um modelo reside, por entre outros fatores, da qualidade e perspicácia dos pressupostos… Kundera ao afirmar “Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação” instiga-nos à procura, à plena aceitação da leveza do nosso ser, ao poder subjacente, à conquista da transcendência — até certo ponto, instiga-nos ao percurso espiritual… n


FEP League

JORGE LOBO

O campeonato ainda está a começar, ainda há muito a decidir e há muitas equipas preparadas para surpreender. CTT perdeu alguns jogadores, TAFEP teve novas contratações, Atlético Atum quer defender o título e Montanelas United continuam com uma equipa coesa e bem organizada com o objetivo de roubar o título. Que comece a época. n

Pela primeira vez desde a sua existência a FEP League tem uma equipa constituída inteiramente por raparigas. E dentro desta equipa, de seu nome 100Eles FC, destaca-se uma jogadora que conta com 11 dos 12 golos da sua equipa sendo neste momento a melhor marcadora do campeonato. Chama-se Cláudia Lima, tem 20 anos e é do curso de Gestão: Fepiano: O que te fez ir para a FEP League? Cláudia: Surgiu um convite para participar numa equipa equipa composta por raparigas e achei uma proposta interessante e divertida, portanto acabei por aceitar. e visto que o futebol feminino está a evoluir já estava na altura de existir uma equipa feminina na fep league. F: Achas que os rapazes facilitam?

C: Sim, facilitam no sentido de terem cuidado ao jogar contra nós mas não no de nos deixarem ganhar. F: Já jogas futebol há quanto tempo? C: Jogo futebol há 6 anos. F: Por que equipas já passaste fora da FEP League? C: Joguei apenas em duas equipas. Estive 4 anos no Leixões SC e estou na segunda época no Boavista FC 23


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Fepiano XXVI