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nº 25 • setembro/2016 • distribuição gratuita • Periodicidade: mensal www.facebook.com/fepianojornal

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de 2 a 10

de outubr o + no

ECRUTAM ENTO


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Índice

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e alguém estiver a ler este editorial, então as palavras que escrevo confirmam-se e aliviam-me. O Fepiano acaba de lançar a sua primeira edição do ano, vigésima quinta da sua existência, um número relativamente redondo, mas objetivamente simbólico. Manter um jornal em funções quando se passa de mais de vinte efetivos para uns meros (mas bons) seis é exatamente tão difícil quanto parece. Um especial e muito profundo agradecimento a todos aqueles que imediatamente se prontificaram para ajudar a construir esta edição, gastando muito do seu precioso tempo para fazer com que este mês o Fepiano fosse igual a todos os seus antecessores: rigoroso, interessante, apelativo e, essencialmente, primando sempre pela qualidade dos seus artigos. O recrutamento abrirá em breve, fiquem atentos. Ainda antes do átrio da FEP turbilhar com a típica anarquia da semana das inscrições, já um ministro do governo de António Costa vinha fazer queixas da praxe, abanando bandeiras como a “o abuso” e “a humilhação”. Onde é que já ouvimos esta história? Todos os anos. A comunicação social gosta de inflamar em nós sentimentos ardentes contra tudo o que possa ser “praxe”. Atrevo-me a fazer o contrário em algumas linhas. A praxe precisa de ser reformada? Definitivamente. Em todo o lado? Parece-me que sim. Mas a verdade singela é que num vasto número de casos, a praxe procede tácitamente dentro de limites aceitáveis e erguendo objetivos nobres, em que efetivamente se visa a integração, a interação, o convívio com alunos mais velhos e uma rápida adaptação à faculdade. Assim sendo, torna-se simples perceber que o problema só surge quando, por via das necessidades, todos são culpados pelos excessos cometidos por quem se acha na posição de poder definir os limites da praxe. Todos a pagarem pela asneira de poucos… Onde é que eu já ouvi isto?

FEPIANO Juntos fazemos notícia

Os Bloomsbury.................................... 3 You should be stronger than me........ 4 A Cura da Água.................................... 5 Bem vindos à caverna de Platão........ 6 Manuel Barros, em entrevista.... 7 a 12 Geografia III, de Elizabeth Bishop.... 13 Os Pupilos do Senhor Instrutor........ 14 Universidade e Valores Académicos: breve comparação............................. 15 Isto (não) é só um comboio.............. 17 Ensaio sobre o génio de Stanley Kubrick................................................ 18 Ad Hoc or bluntly no Hoc at all......... 20 A Máquina do Dr. Baganha............... 21 The importance of being earnest & y*....................................... 22 Em viagem......................................... 23

Coordenação: Jorge Lobo e José Pedro Sousa Redação: Mariana Esteves; Rui Maciel; Tiago Meireles; Tiago Huet Rocha Convidados: Ana Sofia Almeida; Catarina João Vieira; Gil Quadros Flores; Manuel Afonso Lança; Maria Inês Ribeiro; Pedro González

Paginação: Célia César - Grupo Editorial Vida Económica, S.A. Impressão: Unicópia Morada: Rua Dr. Roberto Frias, 4200-464 (Porto, Portugal) Contacto: fepiano@fep.up.pt Facebook: www.facebook.com/fepianojornal Issuu: www.issuu.com/fepiano

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Os Bloomsbury

MARIANA ESTEVES

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ecuemos ao ano de 1905. É quinta-feira à noite e um grupo de amigos reúne-se numa casa em Bloomsbury, Londres. A casa pertence a Virginia Stephen (nome de solteira de Virginia Woolf ) e aos irmãos. Se olharmos à nossa volta vemos John Maynard Keynes (economista), Clive Bell (crítico de arte), E. M. Forster (escritor de ficção), Lytton Strachey (biógrafo), entre outros. Estamos perante mais um encontro do “Bloomsbury group”, um grupo de artistas e intelectuais britânicos, que existiu entre 1905 e o fim da II Guerra Mundial. Na época eram apenas um grupo de amigos, alguns estudantes na Universidade – Cambridge, maioritariamente - e outros autodidatas, mas hoje são das mais importantes figuras do século XX nas respetivas áreas. Juntos criaram uma rede informal de artistas, críticos de arte, escritores e economistas. O mentor da filosofia que motivava as reuniões semanais era G.E.Moore, filósofo britânico. O seu livro “Principia Ethica” tornou-se a essência dos debates estudantis do grupo. Segundo Moore os principais aspetos da vida resumem-se ao amor, à criação, ao aproveitamento da experiência estética e à procura do conhecimento. Apesar da diversidade de áreas de interesse o grupo reunia-se todas as quintas-feiras na crença da valorização das relações pessoais e do deleite por objetos belos. Se olharmos individualmente para cada um dos membros do Bloomsbury encontramos personagens brilhantes que marcaram o século XX e cuja linha de pensamento era muito à frente da sua época. As suas obras e perspetivas pessoais influenciaram profundamente a literatura, estética, criticismo e economia, bem como posturas mo-

dernas em relação ao feminismo, pacifismo e sexualidade. Segundo Clive Bell (mais tarde, marido de Vanessa, irmã de Virginia): “Podia-se falar o que se quisesse a respeito de arte, sexo e religião. A vida era excitante, divertida, mas ao mesmo tempo terrível e era preciso agradecer por poder explorá-la livremente”. Efetivamente, foi esta exploração livre de preconceitos e tabus que permitiu um avanço civilizacional mesmo no período entre guerras. No início do século XX as mulheres não podiam votar, não podiam ser juízas, diplomatas ou exercer cargos de carreira administrativa. Frequentar o ensino superior era para os rapazes da família. Virginia Woolf experienciou essa desigualdade na pele quando viu os seus dois irmãos irem para a Universidade enquanto ficava em casa com a sua irmã, Vanessa. Em contraste, em Bloomsburry, Virginia não era menos que Keynes, nem as suas ideias eram menos válidas. Por esta razão a presença de mulheres no grupo Bloomsbury não deixou de ser notada e censurada pela sociedade. O ar de desaprovação fazia parte do pensamento popular. O círculo era uma fuga daquele mundo hostil, 3

principalmente para as mulheres. Foi nesse meio que Virginia Woolf escreveu muitas das suas obras de referência, como “Mrs. Dalloway” e “A Room of One’s Own”. Na área da Economia, Jonh M. Keynes - fundador da macroeconomia moderna - participava avidamente neste movimento modernista britânico. Antes de Bloomsbury já fazia parte dos “Apóstolos de Cambridge”, sociedade secreta da elite intelectual da Universidade de Cambridge. No que diz respeito à Arte, destacaram-se Vanessa Bell e Duncan Grant, pintores pós-impressionistas, que valorizavam a “arte pela arte”, isto é, a arte meramente estética, desligada de simbolismos e razões morais, funcionais ou pedagógicas. Bloomsbury era feminista. Era também libertário e, ao mesmo tempo, desafiava a ética de uma sociedade que encontrava no homem a fonte natural de poder e autoridade. Desafiava todo o sistema de moralidade. Bloomsbury era uma arma que abalava as esferas do poder britânico, reivindicando a não opressão de classe, gênero e orientação sexual, em prol da emancipação da mulher e da liberdade de expressão.


You should be stronger than me

Saiu como o primeiro capítulo no mito romântico do poeta que se sente profundamente e acaba matando-se a si mesmo para o entretenimento do seu público”- escreve Douglas Wolk, crítico da Rolling Stone, sobre o álbum “Frank” da inigualável Amy Jade Winehouse. O álbum é, de facto, a antevisão do transtorno constante de Amy. E foi assim que começou. “Life is like a pie”, dizia ela. A frustação pela vida desencadeou-se quando conheceu os primeiros problemas emocionais, um deles a morte da sua avó. As substâncias psicoativas começaram a partir daí, culminando numa bulímia nervosa, forçando-a a uma tentativa de reabilitação. Claramente, she said no, no, no. Mesmo assim, a separação do namorado e a toma compulsiva de drogas permitiu-lhe evadir-

-se e como consequência surgiu Back to Black, onde Amy retrata a sua turbulência. Os paparazzis não lhe facilitaram a vida. Amy teve que pedir uma ordem de restrição porque a exposição a que estava sujeita tornava-se cada vez mais objeto de entretenimento para quem a seguia, o que intensificou o stress e a destruição da sua imagem. De tal forma que, em jeito de protesto (inconsciente ou não), realizou concertos embriagada. Mesmo assim, impediu que a sua voz fosse alvo de crítica, pois se há certeza maior é que Amy tinha um dom e soube usá-lo a seu favor. Ao mesmo tempo que se intensificava a sua decadência, o seu estilo acompanhava-a. Tatuagens, piercings, cabelo e eyeliner negro característicos serviam de adereço à personalidade frenética que Amy transmitia. De tal forma que 4

CATARINA JOÃO VIEIRA

Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, aproveitou-se do seu estilo desgrenhado para a promover, intitulando-a como uma nova Brigitte Bardot. Mas tudo isto será sempre uma tentiva de explicar o porquê de Amy se ter destruído. Repito: tentativa. Amy nunca possuiu controlo sobre ela própria, dependia sempre de algo para se conseguir transportar para outro tipo de dimensão, e isso levou-a à exaustão de viver. Negou-se à maquinização da sociedade, a ser mais um ser quadrado e robótico. Não aguentou o ritmo alucinante que presenciava todos os dias e a sua perfeição culminou numa despedida, de certa forma, premeditada. A sua depressão iria inevitavelmente conduzi-la a este fim... mas se o destino não tivesse sido este, a imagem de um ser tão perfeito e acabado dissipar-se-ia no tempo.


A Cura da Água

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16 de Janeiro de 1920, o congresso americano ratificou a 18ª Emenda, mais conhecida por “National Prohibition Act”, legislação que proibía “a produção, venda ou transporte de bebidas alcoólicas dentro dos EUA, bem como a sua importação ou exportação”. Esta brutal medida, que deu inicio à famosa Lei Seca, foi a resposta política a uma série de pressões que duravam há mais de 70 anos, nomeadamente de vários grupos religiosos, que repudiavam o efeito da bebida alcoólica, evocando a suposta desumanização moral a que inevitavelmente conduziria. Chamavam-lhe a “Cura da Água”. Durante 13 longos anos, o consumo de bebidas alcoólicas aumentou exponencialmente, especialmente entre mulheres e crianças, levando, inclusive, a um aumento de detenções por alcoolização. Quando, no início da grande depressão, o tráfico e consumo

JOSÉ PEDRO SOUSA

clandestino de álcool se tornou incomportável, o congresso americano revogou a 18ª emenda, pondo fim a um período em que o consumo de álcool per capita se revelou igual ou superior aos períodos imediatamente anteriores à Lei Seca. A respeito desta pequena introdução, passo a referir: falar de praxe é perigoso. Não pelo mero uso de uma palavra agora tão negativamente conotada, ou pelo receio de consequências e repercussões dos agentes visados, mas apenas porque se nunca fomos sujeitos a “praxe” é impossível formarmos uma imagem mental adequada. E, talvez por isso, a praxe vai adquirindo um tom cada vez mais suspeitoso: é um tema constante na comunicação social, mas nunca é encarado de uma maneira simultaneamente construtiva e informada. Pode isto servir para justificar a solução tão profundamente insensível e irrefletida do Sr. Ministro da Ciên5

cia e Ensino Superior para resolver o “problema” das praxes académicas. Se colocar cientistas a receber os alunos, por oposição à tradicional receção por colegas mais velhos, e deixar de reconhecer comissões de praxe, é solução para o problema, então certamente o problema não terá fim à vista. A confirmar-se esta posição, há um enorme distanciamento entre a realidade da praxe e o entendimento do Ministro Manuel Heitor, pelo que as medidas por ele propostas podem limitar-se a acentuar a constante crispação entre os órgãos de gestão universitária, a praxe académica e os próprios alunos. Tentar condicionar totalmente a tradição praxística é um erro sério a vários níveis: primeiro porque não faz sentido banir algo a nível nacional quando há várias instituições (nomeadamente dentro da UP) que praticam praxe de uma maneira relativamente saudável e controlada, garantindo que quem não vai não é sujeito a ostracização social generalizada e que quem vá não sofra de sérios abusos psicológicos ou físicos; segundo, porque só alguém profundamente ingénuo, o que não será o caso do Sr. Ministro, acreditará que é possível acabar com a praxe por “decreto”. A escolha a fazer é entre um conformismo perigoso e um consentimento saudável. Será que nos vamos permitir assistir a atos praxísticos dentro ou nas imediações das nossas Faculdades, viabilizando, assim, um controlo mínimo e um respeito aceitável entre Direção e Comissão de Praxe?; ou será que preferimos não nos sujeitar ao desconforto de ouvirmos “Sim, Sr. Doutor” nos corredores, e assim deixar que a praxe passe a operar na clandestinidade, sob moldes totalmente desconhecidos?


Bem vindos à caverna de Platão

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embro-me do primeiro dia em que entrei na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. A minha noção de Academia foi desafiada. Quando entrei, vi pessoas ressacadas a dizer “Foste ontem à noite do VR, foi tão altamente, estou de direta aqui” e perguntei a mim mesmo, estou na Academia? Lembro-me de, no outro dia, entrar na faculdade, sentir o cheiro a vómito da festa do dia anterior, e de os meus pés colarem no chão como se de uma discoteca se tratasse. E voltei a perguntar a mim mesmo, estou na Academia? A Academia foi fundada por Platão nos Jardins de Academo, herói grego (tenho a certeza de que daria voltas no seu túmulo se soubesse de algumas blasfémias cometidas nos dias de hoje). Foi erguida sobre valores de conhecimento, triunfo sobre a verdade e com uma relação aluno-professor baseada no conhecimento, em que os alunos realmente se importavam por

aquilo que aprendiam. In vino veritas, mas não exageremos. Não encontrei nada disto. Impuseram-me dogmas como se de uma igreja se tratasse, modelos micro e macroeconómicos, tecnicidades de quem não pensa e professores que despejam a matéria, dizendo “É isto que têm para o teste, não querem tirar boa nota?”, perguntando-o de uma maneira autoritária, fazendo-o parecer a única coisa importante. As aulas de pensamento crítico eram quase inexistentes e, as que havia tinham poucos alunos. Entramos todos algemados a ver sombras passar diante de nós, sem saber o que fazer. Podemos continuar assim ou questionar por quê. Lembrarmo-nos de que só estamos dois mil e poucos anos à frente dos gregos. Isto não é nada se pensarmos que apenas fazemos parte de um processo de desenvolvimento da espécie e que estamos para os Homens do futuro como os macacos estão para nós. A Odisseia ainda agora começou. Os 6

RUI MACIEL

perpetuadores da ignorância e formatação continuam por aí; é necessário lutar contra este espírito, desde conversas a atitudes. Os universitários estão descredibilizados. Quando veem um trajado na rua, as pessoas pensam “Mas que bêbedo”. A massificação da universidade em Portugal levou, de certa forma, a uma plebeização da universidade, onde valores de conhecimentos são rejeitados em detrimento da obediência cega, recompensada com largos baldes de cerveja e vinho. No início, a FEP desilude. Começamos no chão a ver sombras passar à frente. Prometem-nos os melhores anos da nossa vida. Mas eu não vos desejo isto. Desejar-vos isto é dizer que nunca serão melhor do que aquilo que são agora. Os vossos melhores anos estão para vir, aqui apenas aprenderão como chegar lá. A vida ainda agora começou. É imperativo largar as sombras e o negro e enfrentar olhos nos olhos a ignorância. Valete, Frates.


Entrevista a Manuel Barros, diretor regional do IPDJ

Manuel Barros, nascido e criado em Angola, foi o convidado do Fepiano para abrir o ano letivo 2016/2017. Profundo conhecedor do movimento associativo e admirador do espírito e tradição académica, fala ao Fepiano de valores académicos, associativismo e o “pós licenciatura”. De notar que após a entrevista o Dr. Manuel Barros concorreu ao cargo de Diretor dos Serviços Sociais da Universidade do Porto, tendo vencido o concurso público, tomando posse no início de outubro. E: Falar de regresso às aulas no Ensino Superior acaba por ser sinónimo de falar no regresso das

praxes académicas. Tendo em conta que o Dr. Manuel Barros teve a oportunidade de experienciar a praxe académica, certamente em moldes bastante diferentes, bem como vivenciar a tradição académica durante vários anos, nomeadamente nos pós- 25 de Abril, a pergunta que eu gostava de fazer é: quais são os valores académicos de hoje em dia? De que maneira é que eles evoluíram desde essa altura até aos dias de hoje? E, essencialmente, se, à luz de vários acontecimentos que são do conhecimento público, a praxe precisa de algum tipo de reforma? R: É um tema de facto pleno de oportunidade, numa altura em que se inicia o ano letivo. Um tema que está na or7

JOSÉ PEDRO SOUSA

dem do dia, que merece uma reflexão aprofundada e cautelosa, por ter vindo a assumir como um tema fraturante no meio académico e na sociedade. O objetivo central da praxe, e que está nas suas origens, são os rituais de iniciação dirigidos aos novos alunos, que na sua gíria se chamam “caloiros”. A praxe, tem que ser vista no contexto das tradições académicas, com uma história que têm perdurada ao longo dos tempos, entrelaçando-se com a própria história da Universidade. É na sua essência um código de conduta e de etiqueta, e as suas regras são dinâmicas inerentes às suas práticas, que devem ter uma grande capacidade de adaptação inovadora, aos sinais dos tempos, e são da responsabilidade exclusiva da sua organização interna. Quando relacionamos as tradições académicas,


com o 25 de Abril, com a nossa revolução democrática, como a pergunta sugere, estamos apenas a centrar a nossa atenção num período em que as tradições estiveram sujeitas a algumas vicissitudes e limitações, e a praxe não esteve alheia, ao processo de mudança política, social e cultural. É uma prática e um dinamismo social que remonta ao século XV, fazendo fé nos relatos sobre ao rituais e práticas eram submetidos os candidatos a essas instituições, pelos seus companheiros mais velhos, tendo a sua prática sofrido uma evolução até ao séc. XVII. Neste processo de evolução até aos nossos dias, tem vindo a ser alvo de episódios e práticas negativas, sendo visto como se fosse algo que tivesse piorado nos últimos tempos. Mas a história diz-nos que os laivos de violência, de humilhação, agressividade de linguagem e a crispação de relacionamento já remontam ao séc. XVII, XVIII… e, pelos vistos perduram até aos dias de hoje. Os exageros e os desrespeitos são maus em qualquer circunstância, e desvirtuam as práticas e os valores que sustentam a vida humana nas suas mais diversas dimensões. Os valores são perenes, e o que varia e muda é a forma como os valores são vivenciados… E, a história das tradições académicas, de onde não se pode desligar a praxe, porque é umas das suas importantes dimensões, e são um património cultural do país. E isso deve ser

entendido na sua vertente mais positiva: como o contributo que os estudantes, durante a sua vida académica, dão à comunidade onde estão inseridos, à sua cidade e ao país. Portanto, é tendenciosa a posição de alguns autores, e até alguns dirigentes associativos, quando se afirma que as academias se e limitaram a imitar Coimbra, e que a degeneração das tradições académicas tem a ver com cópias de má qualidade. Uma visão não verdadeira e sem fundamento, pela análise da história mais remota à mais recente. Avaliando até pela diversidade do “traje académico”, das festividades e até das práticas de praxe. Coimbra é a mais documentada e a mais retratada pela literatura, apesar da riqueza da sua história e la sua marca e simbologia. Mas, falando agora na Universidade do Porto, as tradições académicas do Porto são, de facto, as que são as que próximas das de Coimbra. Aliás, a própria organização territorial e a dimensão da universidade, e a estrutura organização estudantil, determina que haja diferenças em muitas dimensões da identidade cultural das duas academias. E, de facto, apesar das semelhanças na estrutura, há diferenças marcantes na vivência e na organização. Voltando ao assunto da praxe académica… Em Espanha, por exemplo, são marcantes as ‘novatadas’, onde sobressai a figura do caloiro. Mas a tradição portuguesa vai muito para além disso. E cla8

ro que, tal como tenho vindo a afirmar, não podemos ver a tradição académica de forma reducionista e muito menos centrada nos episódios menos felizes e positivos. Seria muito mau se deixássemos perder estes valores, e este contributo das tradições académicas. As formas como são desenvolvidas, a qualidade das tunas, a qualidade dos grupos corais e do orfeão académico, organizações de referência da Universidade do Porto e do País. A qualidade de todas estas organizações que, no fundo, se desenvolvem com base na responsabilidade direta dos estudantes é extremamente enriquecedora, diferenciadora e que dignifica as instituições de ensino superior, a que pertencem e onde desenvolvem a sua atividade. Sendo a praxe um conjunto

É um erro proibir a praxe

de rituais de iniciação, no que aos novos alunos diz respeito, são regras, regulamentos, que regem comportamentos de grupo. A questão é saber, se dentro da comunidade estudantil deve haver esta hierarquização tão marcada? Sem pôr em causa a autonomia das organizações estudantis, penso que desde que exista de forma equilibrada, razoável e sem radicalismos, não deve ser posta em causa de forma drástica e radical. Na minha opinião, é um erro a sua proibição. Sou contra os radicalismos e os exageros que desvirtuam as tradições e a praxe. Tenho uma sensibilidade e um carinho especial


por todas estas manifestações, porque integrei uma comissão para reimplantação das tradições académicas no fim da década de 80, onde a praxe teve o seu lugar. Uma luta grande, muitas incompreensões de carater doutrinal e ideológico. Tudo se ultrapassou. A praxe não é só a receção ao caloiro… Sem pretensiosos moralismos, estas párticas não pode ocupar tão intensamente o ano escolar, como infelizmente vai acontecendo. Numa simultaneidade prejudicial do normal funcionamento da atividade lectiva. Contribuindo para uma polémica que tem vindo a crescer, provocando um afastamento dos e estudantes de uma vivência marcante, de uma etapa importante da sua vida. O equilíbrio e o bom senso devem imperar entre os estudantes, e na sua relação com os órgãos de governo das Instituições de Ensino superior. E: Inclusive se diz que as tradições académicas são uma demonstração de luta contra o regime e a opressão. R: Precisamente. Mas, lá está, a praxe é apenas uma vertente dessas tradições académicas. E muitas vezes isto era mal interpretado, porque as tradições académicas eram conotadas com o antigo regime, quando nada disso tem a ver, muito pelo contrário… No entanto a praxe académica não é de esquerda nem de direita, nem está identificada com qualquer ideologia. E: Então acaba por defender que, sendo a praxe feita em instituições do ensino superior, deve haver um bom senso natural nas pessoas que coordenam e lideram essas práticas de praxe para que não se excedam determinados limites e para tudo se manter dentro de uma normalidade aceitável? R: Sem dúvida nenhuma. Com equilíbrio e bom senso, no respeito pelo código de conduta e ela corporiza, cujas práticas têm que ser analisadas com se-

renidade e acompanhadas para ser assegurado o seu rigor. E: Até porque se torna muito difícil, e até contraditório, à luz da natureza da praxe, vigiar as atividades de praxe, como muita gente vem defendendo. R: Claramente! O bom senso é fundamental. Neste sentido, o que esperamos da praxe é o equilíbrio, onde a adequação e a atualização dos usos e costumes, e a sua prática desprovidos de rigor, deixam bastante a desejar. A praxe por outro lado deve adotar uma atitude de proximidade inteligente com os estudantes. Adequada aos nossos tempos e aos índices de tolerância dos próprios estudantes, conseguindo-se, desta forma, incentivar uma maior participação dos estudantes. O afastamento é uma realidade, num número crescente de estudantes. Não é que tenham receio, ou discordância de princípio, mas optam por não participar, porque não gostam da forma como são tratados, e sobretudo da intensidade e da longevidade dos rituais. Os estudantes que se afastam, na sua maioria, não vezes não são “anti-praxistas”, mas mais “apraxistas”… Estou convicto que vai imperar a boa vontade e a capacidade de diálogo das partes envolvidas, para conseguirmos uma coexistência equilibrada da praxe, no contexto das Instituições de Ensino Superior. E: A FEP tem um corpo estudantil que sentiu muito a necessidade de se associar de modo a colmatar algumas falhas no âmbito dos programas curriculares, que muitas vezes são criticados por estarem algo ultrapassado e envelhecidos. De que maneira é que as associações conseguem colmatar essas falhas, nomeadamente na aproximação entre o ensino teórico e a sua vertente mais prática. R: O Associativismo Estudantil e juvenil é uma escola de educação não9

-formal. Os estudantes que o integram adquirem competências que o sistema formal não consegue proporcionar de maneira direta e formal. E não me parece justo reclamar isso do sistema educativo, parece-me que isso faz parte integrante da missão do movimento associativo. Uma realidade que em vindo a melhorar e a desenvolver a sua ação com uma qualidade crescente, através do “diálogo estruturado”, onde se radica a participação dos jovens nas decisões políticas e na construção das políticas públicas para a juventude. Um instrumento importante, de concerta gestão das instituições do Ensino superior. As Associações de Estudantes das Faculdades, por exemplo, acabam por desenvolver projetos e programas complementares, e cada vez mais assumem responsabilidades em concertação, de apoio aos estudantes e de prestação de serviços ás instituições de ensino e à comunidade criando oportunidades de formação prática muito importantes para os diplomados e futuros diplomados, em que a FEP é um excelente ecossistema, deste tipo de dinâmicas. E: Se calhar só está ao alcance dos estudantes corrigir determinados problemas. R: Sem dúvida nenhuma, nesta perspetiva de complementaridade e concertação de forma autónoma sem descurar o seu papel mas sindical de defesa dos estudantes, e de consciência crítica do sistema. O que o movimento associativo apresentado propostas e recomendações de mudança e melhoria que têm merecido a atenção e o respeito da tutela política e dos responsáveis pela gestão das IES.O processo de aquisição de competências transversais: os “soft skills” por parte dos estudantes ao longo do seu percurso académico, é um dos contributos mais importantes, o movimento associativo nas suas mais diversas dimensões. A Universidade e as Faculdades vindo a implementar no âmbito da sua estrutura organizacional ins-


tâncias internas vocacionadas para estas problemáticas. Mas têm-no feito de forma muito articulada com os estudantes. A própria Universidade do Porto é um grande exemplo da articulação do movimento associativo estudantil e os órgãos de gestão da universidade. A FAP com a Reitoria, as associações de estudantes enfim, não tem dúvidas disso… O próprio movimento associativo tem tido alguma evolução, no que toca à sua matriz. Um dos seus principais objetivos estratégicos é a defesa dos direitos dos estudantes. Um pouco uma força sindical dos estudantes. Por outro lado é, cada vez mais, uma estrutura representativa dos estudantes. Todos os representantes dos estudantes nas estruturas de decisão e de consulta, tem assumido cada vez mais o papel de órgão de concertação social dentro da própria universidade. Faz uma síntese do seu objetivo de representação e de reivindicação, e acaba por esbater a tensão entre os órgãos de governo e as associações estudantis, uma dinâmica de colaboração que é tem vindo a assumir uma importância crescente. As organizações juvenis dentro das universidades, e até da universidade do Porto, têm protagonizado uma autêntica revolução silenciosa. Eu passo a explicar porquê: a dinâmica associativa é cada vez mais rica. Ou seja, as associações não são apenas organizadoras de eventos culturais, recreativos ou desportivos, vão muito para além disso. Organizam feiras, eventos científicos de grande gabarito internacional, para além de eventos que testam o empreendedorismo dos jovens, e que muitas vezes acabam com grandes startups e spinoffs, que estão a assumir uma posição muito interessante no mercado. E: Aliás, a maior feira de emprego em Portugal organizada por estudantes é o Porto Emprego, liderada pela FEP Junior Consulting. R: Essa é a prova do que eu disse, exatamente. Por outro lado, a promoção do

emprego e da empregabilidade, como foi o caso do exemplo anterior. A Reitoria criou um Gabinete de Apoio ao Estudante e Empregabilidade / Employability Office , que entre muitas outras iniciativas desenvolve programa de mentoria “Acredita-te”, criado para ajudar os jovens que estão no último ano ou terminam a licenciatura a fazer um estágio e defenderem um projeto no contexto real de trabalho. E aqui o movimento associativo estudantil tem dado um grande contributo, primeiro porque também ele tem sido promotor do emprego. Mas o contributo mais importante e mais estratégico é mesmo esse, a promoção da empregabilidade – os estudantes ao participarem em toda esta panóplia de iniciativas estão a desenvolver competências que estão a construir a sua capacidade de se tornarem técnicos, licenciados ou mestres que sejam empregáveis no futuro. São competências cada vez mais valorizadas pelo mercado de trabalho. E: O Dr. Manuel Barros disse, em entrevista à [revista] SIM: “Fui presidente da AE da católica, em Braga, onde tive a honra de participar no movimento de reimplantação das tradições académicas e dos valores académicos”. Ou seja, já ocupou um cargo muito importante, líder de uma associação universitária. Em retrospetiva, que benefícios se retiram de uma experiência como essa? R: Influência fulcral no meu futuro profissional. Foi aquilo que mais marcou as minhas opções profissionais. Desde logo porque foi onde aprendi a fazer coisas que pela sua simplicidade são muito importantes para o funcionamento de qualquer organização: Escrever uma ata, fazer um orçamento, negociar um projeto, liderar uma equipa, distribuir funções… Adquirimos muito conhecimento, muita teoria, mas a prática é fundamental. Tudo competências que são cada vez mais valorizadas, sempre foram, mas cada vez mais…Apesar 10

de todas as lacunas que possamos apontar o processo educativo evoluiu muito, e o estado da arte melhorou significativamente. Claro que devemos descurar uma sólida formação académica, técnico, científico, ao que devemos acrescentar estas competências. Não chamaria uma experiência importante, mais do que isso, este tipo de experiências são muito gratificantes. E foi precisamente, nesse contexto da participação no associativismo estudantil, onde tive oportunidade de dar o meu contributo ao processo de recuperação das tradições académicas. Numa a altura, as tradições académicas em Braga praticamente não existiam. Uma cidade que sempre teve grandes tradições marcadas por uma irreverência saudável, tão marcadas e ricas como Coimbra, onde se destacavam o 1º de Dezembro e o Enterro da Gata que, em boa hora, vieram a ser revitalizados pela Universidade do Minho. O que aprendi no movimento associativo vai muito para além disto. Vivi e trabalhei de forma desinteressada, sem pensar que fosse um meio para qualquer outro fim que não fosse a vontade de fazer coisas e defender os interesses dos estudantes. Foi uma experiência fantástica e, sobretudo uma aprendizagem que marcou toda a minha vida. E: Um outro tema que gostava de abordar é algo sempre presente numa faculdade de economia, trata-se do pós-licenciatura. Como é que um aluno que sai licenciado, por exemplo, da FEP, depois de um curso de 3 anos que é tão abrangente e tão variado, consegue singrar num mercado de trabalho tão feroz e competitivo. R: A entrada no mercado de trabalho é um processo de responsabilidade repartida, e não apenas das instituições do ensino superior, porque as Universidades e os Institutos politécnicos não são centros de emprego. Este é um assunto marcado por alguma controvérsia, mas


acesso digno ao mercado de trabalho e ao emprego. Mais do que uma responsabilidade social dignificação da carreira profissional dos jovens é imperativo civilizacional. Um aspeto que é muitas vezes posto em causa. Não basta ter emprego, não chega. É preciso que dignificar empego e as condições de trabalho dos nossos diplomados. Uma questão que está para além da conjuntura socioeconómica e política, afirmando-se como uma responsabilidade civilizacional. Uma sociedade que não sabe potenciar o conhecimento gerado dentro das suas instituições de ensino não tem o seu futuro assegurado. No entanto, a responsabilidade pelo emprego começa quando o jovem entra pela primeira vez na escola. O jovem assumir progressivamente a responsabilidade pelo processo de aquisição de competências complementares. Ángel Gurría Secretário-geral da OCDE, afirmou em 2014,

a Universidade tem a sua missão muito bem definida: o ensino, a investigação e a ligação com a comunidade e com mercado de trabalho. Sendo esta dimensão de ligação com a comunidade, suportada pela atividade pedagógica e pela investigação, que vincula a sua responsabilidade na criação de condições de acesso dos seus diplomados ao exercício da atividade profissional. Sendo esta uma das formas mais importantes de transferência do conhecimento produzido para o mercado. Mas esta questão é extremamente complexa, é um processo de responsabilidade repartida. A responsabilidade está nas instituições de ensino superior, e neste caso concreto na FEP. Está no Estado, através das suas instâncias competentes, o Instituto de Emprego e Formação Profissional, o Instituto Português do Desporto e Juventude, o IAPMEI, e outras de forma mais direta ou indiretamente relacionadas com este assunto, quer como promotores de condições de emprego por parte do setor empresarial e social, quer como empregadores diretos. Cabendo o Estado, cada vez mais, induzir a cria-

ção de riqueza, deixando às empresas e à economia social o papel central na criação de emprego Sendo a responsabilidade individual de cada jovem, cada estudante e de cada diplomado o terceiro pilar deste processo, através do seu percurso de formação científica e técnica, e da sua formação humana e empreendedora na construção da sua empregabilidade, ou seja, da sua capacidade de se tornar empregável. Uma dinâmica que começa no momento em que entra na faculdade. E: Então sumamente aquilo que pretende dizer é que o emprego e a empregabilidade dependem em muito do esforço e do trabalho do estudante. R: É exatamente isso que eu pretendo dizer. E penso que a chave desse problema tão atual está aí. Claro que há problemas, aliás discute-se muito a questão dos estágios, é uma questão polémica… Esta convergência, entre as instituições de ensino e formação, o Estado e as empresas, é fundamental em todo este processo, para que os jovens tenham um 11

que “as

competências transformaram-se na moeda global do século 21”. Reforçando a este propósito, que sem um investimento adequado em competências, as pessoas permanecem à margem da sociedade, o progresso tecnológico não se traduz em crescimento económico, e os países não podem competir num contexto global, que se baseia cada vez mais no conhecimento. E: Há também a questão de tentar garantir que todo esse conhecimento permaneça no país. R: Precisamente, mas isso é outra questão complexa e de reposta muito extensa, Os jovens devem preparar o seu futuro, com atitude e de forma flexível, porque pode haver necessidade de fazer alguns desvios. A carreiras do presente e do são cada vez mais em zig-zag, com mudanças estruturantes e deslocalizações marcantes. A formação de base, apesar do grau adequado de especialização, deve ser suficientemente abrangente de forma que permita ao jovem fazer diversas opções e facultar uma diversidade de conhecimentos e competên-


cias cada vez mais diversificada e rica. E depois há u outro aspeto importante, o estudante tem que ter consciência pode ser criador do seu próprio futuro, e deve conhecer bem o catálogo das profissões está a alterar-se profundamente, independentemente da área e do grau de formação académica e profissional. E: Então terá que haver uma adaptabilidade constante, mais do estudante do que das próprias universidades? R: Claro. Porque as universidades têm o seu ritmo de adaptação, que influencia naturalmente, o ritmo de adaptação dos estudantes., mas este é processo de responsabilidade individual. A este nível, temos que ser justos, em relação ao reconhecimento da fantástica capacidade de adaptação das universidades ao longo das últimas décadas, apesar das resistências… Mas de uma forma geral a Universidade tem-se vindo a adaptar bem. Também não podemos cair na tentação de dizer, que a universidade está formar pessoas para um mercado que não existe. Isto é uma falácia. Uma visão imediatista que deve ser combatida, apesar do pragmatismo que deve caraterizar a sua ligação com o mercado d trabalho dos seus diplomados. A própria universidade é uma agente de inovação e de desenvolvimento, que induz mudança no mercado. As empresas têm que estar preparadas para a mudança, para os novos paradigmas e tendências de forma a poderem absorver as pessoas que estão sair do ensino superior. Portanto, é uma relação dialética em constante mudança. A este propósito, entendo ser oportuno referir novamente a mais-valia da participação dos estudantes no movimento estudantil e juvenil. Dizendo-nos experiência As pessoas que passam pelo movimento associativo têm a probabilidade de encontrar emprego mais rapidamente que os outros. Se calhar a média, hoje em dia, passa por ser um instrumento de avaliação primária, e a partir dessa base é que se avaliam os candidatos com base

nas outras competências, fazendo com a média final do curso, sendo importante, não é o único fator diferenciador. É diferenciador. A média sempre foi, e vai continuar a ser, o principal instrumento de avaliação das competências de um candidato. Estando nós no contexto de uma faculdade de economia penso que devemos estar conscientes que temos que lutar para termos bons resultados. Se paralelamente houver uma carreira no desporto, na cultura, no associativismo, estas competências ajudam sempre. E: Começamos a falar de primeiros-anistas e nos novos alunos e gostava de terminar precisamente com uma nota para eles. Os estudantes têm a primeira avaliação basilar, a média, depois todos os “soft skills” adquiridos em movi12

mentos associativistas, culturais e desportivos, e, finalmente, há todo um esforço prévio feito pelo aluno para, ainda no fim do 12º ano, e ao fim de tantos anos de ensino obrigatório, conseguir entrar numa faculdade com prestígio como a nossa. Como é que definiria a FEP? R: A resposta mais objetiva a esta pergunta é a vossa faculdade. A FEP é um excelente ecossistema de empreendedorismo que tem uma força muito grande na empregabilidade dos seus alunos. E que se baseia em vários fatores: um deles, quiçá o mais importante, é o seu enorme prestígio científico. Agradeço esta oportunidade e a entrevista. Desejo o maior sucesso para toda a equipa do Jornal O FEPIANO e para o seu programa editorial.


Geografia III, de Elizabeth Bishop

TIAGO HUET ROCHA

A picture of the whole, or a part, (of the Earth’s surface).” Creio que talvez possa dizer que esta frase, com a qual Bishop inicia a obra, seja o epicentro do mapa desta sua poesia. Em todo o escrito há a poética preocupada com o espaço, como direi, uma espécie de elogio subtil. Isto é: uma constatação da indissociabilidade dos sentidos e do espaço – em toda a sua amplitude. De que serviria, afinal, o ótico e óptico, sem, por exemplo, a natureza? E vice-versa.

Em todo o escrito há a poética preocupada com o espaço

Estamos perante um sucessivo e intermitente distanciamento por parte do sujeito poético, como que personificando um profissional da ciência geográfica. Mirando o mundo e as circunstâncias dum ponto de vista de geografo que, no poema “The Moose”, desta forma afastada e objectiva nos avisa e acalenta: “A man’s voice assures us/ Perfectly harmless…”,”Look at that, would you.”. Poema este que descreve magistralmente as trivialidades do quotidiano – isto é, o mundo e a vida –, redefinindo-as e parangonando-as. O poema “One Art” apresenta Elizabeth Bishop como sofredora mas sobrevivente, onde no decorrer do crescimento do poema há um subli-

nhar da parte sofredora e um esmorecimento da irónica afirmação de que a perda “is not too hard to master”, culminando na constatação de que a perda e o sofrimento são “like a disaster”, sugerindo através de um entre parênteses “write it!” que a solução deste pro-

13

blema seja a arte: uma arte. Vemo-nos ante uma obra devastadora, na maneira como as suas descrições – dissimuladas pela sua aparente inocuidade – nos atingem. (segundo o antigo acordo ortográfico)


Os Pupilos do Senhor Instrutor

O

pupilo olha para o vazio, enquanto o sargento faz questão de não se calar. O que se sucede é facilmente descrito numa palavra: desumanização. Multiplicam-se os insultos. O sargento desdobra-se para dar vazão à humilhação pessoal de cada um dos pupilos. Fala-se da mãe deste e daquele, “Sir, yes, sir”, “Sir, no, sir”, porque assim ditam as regras. Assim ditam as regras, nem acredito que escrevi isto. Engraçado como este momento se torna no filme em si mesmo. A máquina sequiosa de sangue viverá dentro de cada um dos pupilos. O gigante doce e pateta que se ria na cara do sargento enquanto este lhe falava da sua beleza abismal (“you’re

TIAGO M. FERREIRA MEIRELES

Também nos pupilos ficará o cunho da bestialidade na sua plenitude. A isto é que se chama de boa passagem de valores

so ugly you could be a modern art masterpiece”) sucumbe tal como os outros: também ele vira máquina de matar, reflexo intrínseco da submissão imposta pelo seu superior e do espancamento a que foi sujeito pelos camaradas de mente fraca e bem lavadinha. Também nos pupilos ficará o cunho da bestialidade na sua ple14

nitude. A isto é que se chama de boa passagem de valores. O sargento morre pela espingarda que ensinou a disparar: “this is my rifle”. Kubrick: o homem que assenta tijolo consegue mais uma vez. Full Metal Jacket recomenda-se. Batei palmas, porque o sargento está morto.


Universidade e Valores Académicos: breve comparação

C

hegou setembro e milhares de alunos portugueses iniciam ou voltam para os respetivos estabelecimentos de ensino. Setembro é, por excelência, o mês de regresso às aulas e não poderíamos deixa-lo passar sem refletir um pouco sobre a Universidade e a sua importância. Nesse sentido, para esta edição do Fepiano, decidi perceber até que ponto o conceito e a relevância da Universidade são os mesmos em diferentes países e se podemos observar uma convergência ou não nos valores fundamentais académicos,

na organização e estrutura das universidades consideradas. Para isso, baseio-me em três perguntas básicas: primeiro, os próprios valores académicos considerados essenciais em cada universidade, seguido da organização e escolha dos cursos bem como a organização das aulas e consequente métodos de ensino adotados. O objetivo é, então, fazer uma muito breve comparação entre seis países considerando, obviamente, as limitações da mesma visto que os diferentes alunos estudam em diferentes cursos e as suas universidades podem não ser representativas do país 15

MARIA INÊS RIBEIRO

em questão. Os países considerados são Portugal, Finlândia, França, Brasil, Rússia e Japão. Quanto à primeira questão, que se foca nos valores académicos principais, as respostas são muito variáveis, notando-se, no entanto, uma resposta à partida diferente por parte do nosso país – a Universidade do Porto foca os seus valores no rigor, conhecimento científico (ancorado na investigação) e qualidade de ensino. Outras respostas focam-se mais, por exemplo, na fundamentação do espírito crítico, no caso do Japão e na independência e autonomia aca-


démica no caso do país do norte da Europa considerado, a Finlândia. As respostas sobre as universidades em França (tendo um exemplo do norte e um do sul) baseiam-se, por um lado, na inovação e introdução dos estudantes ao mundo empresarial (profissionalização e ajuda com recursos para criação de microempresas) e, por outro, na promoção de espírito crítico e importância do interesse e cultura geral. Finalmente, a universidade considerada do Brasil atribui como seus valores a tolerância, a dignidade humana, a solidariedade e o direito ao conhecimento. Seguidamente, em relação à escolha dos cursos por parte dos estudantes, pode observar-se a divisão em dois grupos: um incluindo Portugal, Rússia e França e outro o Japão, a Finlândia e Brasil. Tal como acontece em Portugal, o estudante francês não pode escolher individualmente as cadeiras, escolhe o curso por inteiro, sabendo à partida quais as cadeiras e matérias que vai aprender durante a sua formação, não havendo espaço para a mudança e/ou atualização das cadeiras aquando de uma situação anormal a estudar como a crise ou, mais recentemente, o Brexit. Em algumas universidades, pode escolher-se cadeiras opcionais se assim pretendido tal como no nosso curso (Economia e Gestão no terceiro ano da licenciatura). Na Rússia, todos os

Nas universidades consideradas do Japão e da Finlândia, participação na aula é uma das componentes de avaliação à cadeira

cursos têm um currículo definido e obrigatório definido pelo Ministério da Educação russo, sendo que não conseguir aprovação a uma ou duas cadeiras pode significar ser expulso da universidade. No segundo grupo de país, com a salvaguarda de apenas três universidades terem sido consideradas, apesar de um núcleo obrigatório de cadeiras, os estudantes tem liberdade académica para escolher grande parte das cadeiras individualmente, inclusive cadeiras de outros cursos ou faculdades. Considerando a última pergunta, como são organizadas as aulas e quais os métodos de ensino mais utilizados, surpreendentemente, praticamente o mesmo sistema foi apresentado em todos os países apresentados. Considero que se deve, principalmente, à existência de diferentes métodos de ensino que, normalmente se completam: as aulas teóricas e expositivas dos conteúdos com grande audiência e as aulas práticas, seminários, mais intensas e com menos alunos. Em Portugal bem como na Rússia, a sua junção é regular e faculdades como a FEP têm maioritariamente um meio termo: aulas teórico-práticas de exposição dos conteúdos, seguidas de alguma componente prática dos mesmos. Uma diferença para a Rússia é a existência de dois tipos de cadeiras: as que são de aprovação/reprovação e as que são avaliadas por exame. Nas primeiras, é necessário demonstrar o conhecimento (que os professores consideram) básico para aprovação, sem recorrer a uma nota numérica, enquanto no segundo exemplo, os alunos têm uma nota específica à cadeira de 2-5. Em França, um dos inquiridos faz referência a aulas teóricas com todos os alunos (250-300 estudantes) de conhecimento geral com duração de um semestre e aulas práticas, com 20 alunos, em que 16

Na Rússia não conseguir aprovação a uma ou duas cadeiras pode signicar ser expulso da Universidade

os temas são mais específicos e é enfatizada a parte oral e escrita com apresentações regulares e trabalhos escritos que duram todo o ano. Nas universidades consideradas do Japão e Finlândia, as aulas expositivas são o mais comum com grande número de alunos, mas, por vezes, a participação na aula é uma das componentes de avaliação à cadeira. No Brasil, apesar de não haver um padrão específico de método de estudo, em geral, à medida que o curso avança, é diminuido o número de horas de aula semanais e intensifica-se o estudo independente e realização de projetos. Conclui-se, então, que em alguns sentidos os países considerados convergem, nomeadamente nos métodos de ensino aplicados, mas também divergem principalmente nos valores académicos básicos que se ampliam na relevância da Universidade para os estudantes e como sentem que esta os prepara/ajuda para o seu futuro. Como nota final, é importante salvaguardar que esta breve comparação se baseia apenas na opinião e vivência dos estudantes em questão e que não deve ser generalizada a todos as universidades e países, já que isso seria ignorar a grande diversidade existente. Agradecimentos: Fumika Uchimura, Giovanna van Swaay, Maelle Barry, Nanni Hiltunen, Raphael Cros, Vlad Fedoroff


Isto (não) é só um comboio

TIAGO M. FERREIRA MEIRELES

A

cordemos para a realidade. Saibamos, primeiramente, que esta só se processa à medida que me movo no espaço e no tempo, ou que tu que me lês te moves no teu espaço e no teu tempo. A minha realidade é ampla na medida do que os meus olhos conseguem ver. Se eu acordo, vocês vêm por acréscimo metafísico. Vocês são eu, mas eu não sou vocês. Prefiro que seja assim e convenço-me a cada passo de mais cem ilusões diferentes. Sou incoerente porque é fácil ser-se incoerente. Aqui vou eu, compassado pelo balanço da fria engrenagem. 2,85€ e o meu quarto aqui ao pé. Gostava de dizer que viajo, mas a verdade é que só

me transporto. Nunca viajei, só por dentro, vá. Sou uma mercadoria muito perecível. Trouxe a mala grande por causa dos sapatos do fato e doem-me os braços. Tenho um fone no ouvido direito e ouço um gajo de Gaia a falar da sopa que vai comprar. Mais uma vez, ocupo a cabeça com um resquício da realidade, isolado e mesquinho. Mais um nesta agenda cheia de post-its e rabiscos que é a mente desorganizada do inglório Reles. A que saberá a sopa? Isto de ir aos sítios: não gosto. Sinto-me ineficiente. A cada passo, faço a minha vida depender de engrenagens. Ser de longe é complicado. Vá: complexo. Malas pesadas dão trabalho, tro17

car olhares é penoso e é horrível não ver o timbre a alguém. Tudo isto acaba por me ser indiferente e estranho às paredes da minha redoma solitária e claustrofóbica. Há pouca coisa que não me é indiferente. Não há livro hoje: a mala já pesava e os sapatos tinham que vir. Tenho saudades de Casa e pouca coisa no estômago. Deixei o resto algures num beco na noite anterior. Amanhã há aniversário da pequena dos meus tios. Mal ela sabe das responsabilidades que lhe vão exigir. Depressa começará a apanhar comboios e a estudar a teoria do consumidor. “Coitadinha”, diria a avó. Isto é um sopro e passa-se em comboios, cada um de nós a transportar-se.


Ensaio sobre o génio de Stanley Kubrick

E

stou indecisa entre classificar 2001: A Space Odyssey como pretensioso, verdadeira obra-prima, ou os dois. Esforço-me durante alguns minutos por estruturar e recuperar relações lógicas que acalmem o meu ego ferido e evitem o inevitável desgosto de me rever no humano retratado na tela. Eventualmente percebo que esta odisseia não precisa de ser estruturada ou cronologicamente adequada para cumprir o seu propósito: demonstrar, de forma clara e distintamente perturbadora, que o controlo é uma ilusão, o homem um mero de-

grau na evolução e o tempo o único deus reconhecível. Experimento alguma deceção e até frustração por Kubrick me ter relembrado subitamente da minha condição humana falível. O controlo é uma ilusão. Esta é a primeira e mais clara conclusão que retiro de 2001. Vejo a pequenez do Homem espelhada desde o início e ao longo de todo o filme nos planos grandiosos do planeta terra há 4 milhões de anos atrás e do espaço ultraterrestre que SK exibe. O monólito faz a sua primeira aparição e observo a impotência dos 18

ANA SOFIA ALMEIDA

primatas perante o desconhecido. Observo também, e de forma mais comovente, a sua curiosidade. Associado à aparição do monólito está também o salto de consciência do macaco, que se apercebe do poder físico da ferramenta (o osso) e da intimidação. Creio que, num primeiro instante, a curiosidade pelo monólito tenha servido para acelerar a evolução da espécie. Esta, por sua vez, rápida e fatalmente acabará por se encarregar de demonstrar a sua irremediável falha. Vejo nesta cena uma representação cínica do homem que, à seme-


lhança do macaco, peca por este viés de otimismo. O desconhecimento tão grande que tem de si e dos outros (por “outros”, entenda-se tudo o que virtualmente está lá, todas as formas de vida possíveis, a observar-nos do espaço) leva-o a crer numa superioridade ilusória, que conduz a transcendência nenhuma. Por outro lado, se o homem não se sobrevalorizasse a ele mesmo e à sua capacidade de se elevar, veria a sua evolução significativamente atrasada. O leap of faith da humanidade é crer que alguma vez conseguirá transcender coisa alguma (e SK supõe que talvez o consiga mesmo, mas só no final e num futuro longínquo, já sob a forma da starchild, representando o übermensch de Nietzsche). O homem como o conhecemos é irremediavelmente falível e erra. Aceito esse fardo. Segue-se que nada que possa criar à imagem daquilo que conhece (isto é, um mundo seu, igualmente falível) estará alguma vez livre de errar – pelo contrário, tende para tal. Tentativa e erro. Repetição. Eventual progresso. 18 meses depois da descoberta do monólito na lua, que Floyd tocou com a mesma admiração que o seu antecessor primata, estamos dentro da nave espacial Discovery. A ima-

Experimento alguma deceção e até frustração por Kubrick me ter relembrado subitamente da minha condição humana falível

ginação de Kubrick não tem limites. David, no ecrã, apresenta-me HAL. O que se segue é um desfile de diálogos inócuos e ausência de qualquer tipo de emoção entre os passageiros humanos a bordo. Ironicamente, HAL parece ser o mais carismático e estimulante de todos. Estará o homem tão aprisionado nas condições impostas pelas máquinas que ele próprio criou, que perdeu a sua humanidade? Os comportamentos suspeitos de HAL, e a sua eventual tentativa de sabotar a missão fazem-me questionar se haverá uma diferença fundamental entre mente e matéria. Será possível isolar os dois? Será HAL possuidor de mente, para além de matéria? Isto é, poderá ele ter intuição e agir com base nela? Prendo-me principalmente na justificação que o computador dá a David para tentar eliminá-lo a ele e a Pool da missão. “This mission is too important for me to allow you to jeopardize it.” O homem, criador, passa agora a ser descartável. De facto, a sua existência pode até colocar a missão em risco. Pode dizer-se que o homem teve sucesso, na medida em que a sua criação se tornou independente dele, mas a sua utilidade agora chegou ao fim. O homem é um mero degrau na evolução. Relativizo a questão. Engulo o meu orgulho para reconhecer o génio de Kubrick: olhou a fugacidade da sua espécie de perto e materializou-a. Penso no quão transitório o homem é e no quão breve, repentina até, é a sua existência. David entra na órbita de Júpiter, naquela que é a cena mais hipnotizante de 2001. Surge uma força que até aí ainda não se tinha imposto: o tempo. Observo David a contemplar a sua imagem envelhecida, naquilo que pode simbolizar tanto 19

O tempo é o único deus recon hecível, a única dimensão que concentra todas as outras dimensões

o fim de David, como, num sentido mais lato, o da humanidade. É o momento em que Kubrick expande infinitamente o horizonte de interpretações possíveis da sua obra. Apercebo-me agora de que a única cronologia que importa no filme é a da evolução do universo. O tempo – na terra, no espaço, decomposto em momentos – é omnipresente. O tempo é incontrolável e incontornável. O tempo do desenvolvimento dos primatas. O tempo do aparecimento do monólito. O tempo da viagem na Discovery. O tempo que dita o fim da humanidade. No ecrã, a starchild que simboliza uma nova era, de uma inteligência e espírito superiores que desconheço. O tempo é o único deus reconhecível, a única dimensão que concentra todas as outras dimensões. Ocorre-me a triste relação entre o homem e o tempo – a felicidade, a dependência, a sede de controlo e conhecimento. A felicidade em ter tempo, a dependência do tempo que é sempre pouco, a ambição de poder no seu tão curto espaço de tempo conhecer um pouco daquilo que está tão longe de poder sequer delimitar.


Ad Hoc or bluntly no Hoc at all

P

ays de Cocagne representa a utopia da abundância. Fica num spot onírico onde estão pelo menos uma dúzia de virgens. E não representa apenas o lugar. Também o caráter de um certo indivíduo-tipo. Aquele que tudo tem. Este bro ostenta o Breitling a condizer com o Aston Martin. Tudo em conformidade com a premium king suite e a dama loira de lábios carnudos. Os plebeus muito invejam Jean. Como se a vida de Jean tivesse um puto dum propósito! O que é que o Jean ambiciona? Nada. Absolutamente nada. Ter experenciado tudo é completamente atrofiante. É como esgotar todas as musicas de um artista que já morreu, e que nunca mais vai lançar algo de novo. Não há mais! O desespero! Que desassossego a tranquilidade de uma vida feita! Desafortunados os beatos deste lindo retrato de Bruegel. Cambada

de pardais. Vocês que tudo têm, que bruto destino! Sempre queremos tudo. E mais. E melhor. E corremos atrás disso. Mas é de certa forma irracional, porque é positivo sentir a falta. Enquanto nos falta algo, temos a estranha ilusão de que, conseguindo xyz, chegaremos a algum nível de concretização (ou felicidade). Corremos atrás de dinheiro, de experiências novas, de uma cara-metade! A falta incita à luta. E sorrimos caminhando atrás do propósito. Então, porque ansiamos tanto a meta, se, após a reta final, não estamos metafisicamente superiores? Como é que não deixamos simplesmente de querer mais, quando já temos tudo? Caídos num paradoxo. Atraídos e repelidos por ele. Quem cresce pobre e morre rico, poderá vir a sentir algum tipo de concretização e quiçá, felicidade, do novo estatuto económico. Quem já nasceu rico, 20

GIL QUADROS FLORES

nunca sentirá essa diferença. Foi estreitada a possibilidade de ter uma sensação tão nobre que é aquela de enriquecer. Ah, humanos, como nos deixamos cair nesta armadilha. Esforçamo-nos tanto, enquanto espécie, para evoluir, que tontaria! Estreitamos eternamente o infinito caminho que temos por percorrer. Palermas! Resta-nos uma virtude: a sorte de sermos uma espécie necessitada. Ainda bem que nos falta sempre algo. Caso contrário, estaríamos para sempre condenados a encontrar o propósito da vida. Assim, quando menos, continuamos distraídos com futilidades como o amor ou a riqueza. Julgamo-nos evolvidos mas somos básicos. Tão bonito pensar quão imaturos parecemos arrastando preocupações mundanas. São meia dúzia de paragens irrelevantes até ao inevitável fim. Sex, drugs and rock and roll. Ah, a fatal insignificância do ser!


A Máquina do Dr. Baganha

D

iz com um sorriso, “O fenómeno de causa e efeito mantém-se na indústria, nenhuma máquina interrompe o circuito habitual para se afastar em direcção a acontecimentos como milagres ou explosões.” Somos recebidos de braços abertos, braços arqueados, metálicos, oblongos. Petroquímicos, diria Laurie Anderson. Os braços têm voz, também ela petroquímica e metálica e arqueada numa inflexão que não está bem lá. Dá-nos as boas vindas. Diz que somos, para o melhor e para o pior, os melhores da colheita, e que estamos no melhor forno do país. Depois a voz, voz de Alpha 60, diz-nos que estudar é massada, ler é nada. Os mercados, todos-poderosas na sua benevolência, permitem outros caminhos. Soft skills, muitas. Contactos, os certos. O currículo, paradoxal: vasto mas curto. Que é como quem diz, fácil de ver

PEDRO GONZÁLEZ

que tem muita coisa. Bem vistas as coisas, o que interessa é a personalidade que se quer economizada, contabilisticamente equilibrada e macroeconomicamente dona de si. Depois a voz, voz de Wellington, diz-nos que nos portámos bem, seguimos o caminho da virtude, do empreendedorismo e da inovação e renunciámos ao pecado de uma conta de LinkedIn mal gerida. Os mercados, justos, recompensam-nos com um lugar no seu exército auditorial de reserva. As é-ípsilons, capa-pê-éme-gês e outras siglas que tais mal podem esperar por nos ter a nós e a nós apenas a preencher as suas sapientíssimos folhas de Excel. O reconhecimento sabe bem, mesmo que não precisássemos de ter o ego massajado. Afinal de contas somos bons, os melhores! e os mercados sabem reconhecer isso. Depois a voz, voz de Laurie Anderson, recebe-nos de braços abertos. Os 21

mesmos braços oblongos e arqueados e petroquímicos, desta vez à saída. Dá-nos um forte aperto de mão (mais que isso é pornográfico) e na coloração viva do seu betão armado parece-nos distinguir uma pontada de orgulho. – Obrigado, volte sempre, e divirta-se! Agora não posso ficar muto tempo sim? Uma colheita a receber, sabe como é…o futuro? Ah, não se preocupe muito com isso, há-de ser mais ou menos igual ao presente. Já dizia o poeta, “Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro.” Tornámos redondante o futuro! Que bem que nos portámos. Citações retiradas d’A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares.


The importance of being earnest & y*

N

ão há nada mais importante na vida do que ter um bom currículo e fumar socialmente. Eis as pedras de toque de uma vida normal e feliz. Ser caridoso ajuda, e não é boa ideia fumar tabaco de cachimbo. Cuidado com as questões que se colocam, que a arrogância é uma coisa muito feia. Talvez já não seja o casamento, caricaturado por Wilde há mais de um século, uma orgia de virtudes; deixou de estar em voga como meio de escalada social por excelência. Há contudo novas instituições a que prestar vassalagem: a Apple, por exemplo. E há maneiras evidentes de fazer bem as coisas: se o currículo de Barroso fosse um Europass, nem sequer lhe teriam passado a vista. Dizem que a educação serve para formar bem-pensantes. Mas o que faz hoje a universidade? Enfia uma gravata em cada fato-macaco e mete o pessoal todo no mesmo saco. A FEP tem um perfume característico. Sempre as mesmas empresas a pregar o mesmo paradigma (até há uma sala PwC, que não é um professors’ water closet), o ethos laboral do século: sair do trabalho depois dos nossos colegas é modelo de virtude. Se nos cruzamos com o chefe no corredor, tiramos uma piada do bolso, usando o maior número possível de anglicismos em cada frase; previne-se o esquecimento e potencia-se a carreira. Almoçamos uma sande, mais trabalho, e vamos dormir sem pensar que talvez haja algo mais interessante nesse mundo laboral. O processo culmina numa vida de monge, casto porque resignado e obediente porque desconhecedor. [A apologia da individualidade em On Liberty é tão relevante hoje como em 1859. Convido em particular à leitura da passagem apresentada.] In a passage already quoted from Wi-

lhelm von Humboldt, he points out two things as necessary conditions of human development, because necessary to render people unlike one another; namely, freedom, and variety of situations. The second of these two conditions is in this country every day diminishing. The circumstances which surround different classes and individuals, and shape their characters, are daily becoming more assimilated. Formerly different ranks, different neighbourhoods, different trades and professions, lived in what might be called different worlds; at present to a great degree in the same. Comparatively speaking, they now read the same things, listen to the same things, see the same things, go to the same places, have their hopes and fears directed to the same objects, have the same rights and liberties, and the same means of asserting them. Great as are the differences of position which remain, they are nothing to those which have ceased. And the assimilation is still proceeding. All the political changes of the age promote it, since they all tend to raise the low and to lower the high. Every extension of education promotes it, because education brings people under common influences, and gives them access to the general stock of facts and sentiments. Improvement in the means of communication promotes it, by bringing the inhabitants of distant places into personal contact, and keeping up a rapid flow of changes of residence between one place and another. The increase of commerce and manufactures promotes it, by diffusing more widely the advantages of easy circumstances, and opening all objects of ambition, even the highest, to general competition, whereby the desire of rising becomes no longer the character of a particular class, but of all classes. A more powerful agency than even all these, in bringing about a general similarity among mankind, is the 22

MANUEL AFONSO LANÇA

complete establishment, in this and other free countries, of the ascendancy of public opinion in the State. As the various social eminences which enabled persons entrenched on them to disregard the opinion of the multitude gradually become levelled; as the very idea of resisting the will of the public, when it is positively known that they have a will, disappears more and more from the minds of practical politicians; there ceases to be any social support for nonconformity—any substantive power in society which, itself opposed to the ascendancy of numbers, is interested in taking under its protection opinions and tendencies at variance with those of the public. The combination of all these causes forms so great a mass of influences hostile to Individuality, that it is not easy to see how it can stand its ground. It will do so with increasing difficulty, unless the intelligent part of the public can be made to feel its value—to see that it is good there should be differences, even though not for the better, even though, as it may appear to them, some should be for the worse. If the claims of Individuality are ever to be asserted, the time is now, while much is still wanting to complete the enforced assimilation. It is only in the earlier stages that any stand can be successfully made against the encroachment. The demand that all other people shall resemble ourselves grows by what it feeds on. If resistance waits till life is reduced nearly to one uniform type, all deviations from that type will come to be considered impious, immoral, even monstrous and contrary to nature. Mankind speedily become unable to conceive diversity, when they have been for some time unaccustomed to see it. John Stuart Mill, On Liberty *reedição de artigo antigo


Em viagem

JORGE LOBO

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ortugal a 57 horas. Do incrível e exótico país, príncipe do café e das praias tropicais que é a Costa Rica a Portugal são x horas a pé, y horas de barco e 10 horas de avião. 10 horas mas não 100% das vezes e eu tive a sorte de fazer parte dessa ínfima percentagem que não dura o tempo previsto. 16:30 de segunda feira era a hora e dia previstos do voo. As 15:40, dez minutos antes de embarcar, ouve se uma voz no altifalante do aeroporto: “o voo com destino a Madrid está atrasado porque o avião está preso no Panamá”. Sendo isto tão vago toda a gente se dirige violentamente para o posto de ajuda até que se ouve outro comunicado passado uns longos minutos: “Informa se que este aeroporto está fechado porque o vulcão Irazú entrou em erupção pela terceira vez hoje”. Voos cancelados e o ar da cidade de San José irrespirável porque pairava cinza inflamável pelo ar que se tornou cinzento. Hotel a 10 min do aeroporto e refeições foram oferecidos pela companhia(um estupendo 4 estrelas) e no dia seguinte 6 autocarros estavam prontos para levar toda a gente. O que não sabíamos é que era para um remoto e minúsculo aeroporto a 5 horas de distância. Mas como isso era garantia que íamos voar pouca gente se importou. 14:00 horas de terça feira era a hora e dia oficial do segundo voo, que passou para 13:00, depois para 15:00 e por fim para 16:00. Já dentro do avião já eram 17:00 e não descolávamos porque a policia federal de migração assim o proibiu. Duas pessoas cancelaram a viagem, receberam o dinheiro do bilhete e entraram na mesma no voo de terça com o bilhete de segunda. Um deles fugiu e o outro não se acusou fazendo expirar o tempo permitido em que a tripulação pode estar no avião e

o voo é assim cancelado. De um hotel 4 estrelas para um Resort 5 estrelas e a promessa de que o voo seria as 11:00 de quarta feira. Recebemos então uma mensagem da Ibéria a dizer: “Informa-se que o voo será atrasado para as 15:00” A tensão no pequeno almoço cortava-se com uma faca, toda a gente com os seus motivos para estar enervada, tanto que até com a comida se chateavam. Até que chegua mais uma mensagem da Ibéria a dizer que o voo tinha sido antecipado para a 13:00. Num aeroporto sem base tecnológica em que tudo tem de ser manual, nada preparado para receber voos com mais de 150 pessoas, chegam assim pela se23

gunda vez 400 pessoas para o seu voo para Madrid. Ninguém sorria, ninguém falava, ninguém acreditava que o avião ia sair e ouve-se então o temível altifalante: “Informa-se que o voo será atrasado porque estamos à espera que o catering chegue de San José” Aí, a mentalidade das pessoas passou de “À terceira é de vez” para “Não há duas sem três” mas a verdade é que as 14:30 descolamos e foi como tirar dos ombros um peso que se estava a tornar pesado demais. Amizades novas, muitas novas primeiras vezes e uma história para contar e a aterragem mais entusiasta e descontrolada que alguma vez presenciei 


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Fepiano XXV