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nº 30 • fevereiro/2018 • distribuição gratuita • Periodicidade: mensal

GRANDE ENTREVISTA A FRANCISCO ASSIS

“A União Europeia está em reforma desde o seu início”


A metamorfose

Índice Remate desafinado.............................. 3

A

Natureza é magnífica. Naturalistas ou não

Elizabeth Costello................................ 4

concordamos que alguns dos seus fenómenos são dignos do mais sábio Criador.

Quem iria imaginar que uma larva retorcida e entediante dá origem à mais bela das borboletas? É a metamorfose, que do velho faz novo, e o torpe em

Financiamento dos Partidos: razões de uma decisão polémica................... 6 Orçamento da UE: mitos, factos e futuro.................................................... 8

distinto se transforma. O bicho-da-seda é um dos casos mais conhecidos.

Grande entrevista a Francisco Assis.10

É do seu casulo que se extrai a fibra preciosa. O nosso casulo também já está montado mas não se anteveem grandes proveitos no horizonte. Porque enquanto o bicho-da-seda apresenta um casulo vistoso e elegante o nosso tem um aspeto sórdido, obsceno,

Oh Sousa Martins!............................. 16 Lobos em pele de cordeiro?............. 17 Prime Time......................................... 18

que causa horror só de olhar. Aqui teremos que ficar treze longos meses. Um pe-

Feminismo 101................................... 19

ríodo de sacrifícios necessário para a metamorfose ficar completa. O majestoso voo da borboleta há-de

Tanta conversa à volta da igualdade de género........................................... 20

recompensar a espera. É desagradável. É penoso. Transtorna. Mas é necessário. n

Another Day in Paradise?.................. 22 Business Trip Internacional............... 23

ALEX F. ALVES JOSÉ MÁRIO SOUSA

FEPIANO Juntos fazemos notícia

Em busca de refúgio.......................... 24

Coordenação: Alex F. Alves e José Mário Sousa Redação: Alex F. Alves; Ana Santos; Gonçalo de Sousa Tavares Pé d’Arca; Jorge Gonçalves; José Diogo Santos; José Mário Sousa; Luís Barreiros; Mariana Esteves; Nuno Sousa Revisão: Rita Barreira • Cartoon: Marta Carvalho • Fotografia: Beatriz Fróis Convidados: Beatriz Moreira; Hugo França; José Tiago Sousa; Renata Viana

Paginação: Célia César - Grupo Editorial Vida Económica, S.A. Impressão: Unicópia Morada: Rua Dr. Roberto Frias, 4200-464 (Porto, Portugal) Contacto: fepiano@fep.up.pt Facebook: www.facebook.com/fepianojornal Issuu: www.issuu.com/fepiano Blogue: fepiano.blogspot.pt

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Remate desafinado

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1 de maio de 2013 e 10 de julho de 2016. Estas datas representam dois dos dias mais felizes da minha vida. É certo que a minha vida também não é grande coisa, mas estes dias não foram para pouco, pois também representam dos momentos mais infelizes da vida de muitos benfiquistas e franceses. Para aqueles que têm o infortúnio de ser benfiquistas e franceses simultaneamente, deverão atribuir a responsabilidade ao Estado Novo, que levou milhares de benfiquistas a emigrarem para França nos anos 60. Era previsível que alguns deles fossem ter filhos e netos, e como tal, Salazar, de forma imprudente, sujeitou as segundas e terceiras gerações de emigrantes aos remates de meia distância de Kelvin e de Éder (cujos respetivos pais portugueses festejaram). Numa das suas crónicas na Visão, da boca do inferno, Ricardo Araújo Pereira insurge-se heroicamente contra os olhares sobranceiros sobre o Futebol. RAP responde-lhes citando J. B. Priesley: “Definir Futebol como 22 mercenários a correr atrás de uma bola equivale a dizer que um violino é madeira e corda de tripa, e que o Hamlet não é mais que papel e tinta.” Para ele, Futebol é alegria e Eusébio é Deus, porque, para muita gente, Eusébio é o epítome da alegria. Estas palavras, vindas de um ateu devoto, fazem adivinhar que há algo realmente mágico nos desportos competitivos, ou como se resume em Portugal, Futebol. É certo que a nona sinfonia de Beethoven, no seu realismo mais puro, são apenas conjuntos de “cordas de tripa” a vibrar, percussão a ressoar e fluxos de ar provenientes dos músicos que levam caminhos diversos pelos instrumentos de sopro. Todos eles emitem ondas sonoras que se propagam pelo ar e são descodificadas pelo nosso cérebro. Mas como português que festejou com alegria desme-

surada o golo do Éder, também vejo o Futebol como mais do que a frase supracitada o resume. Claramente, há algo quase espiritual que nos faz vibrar em êxtase quando ouvimos a marcha turca de Mozart ou vemos o Kelvin a marcar aos 92. No entanto, Mozart não leva ninguém ao desespero, a não ser Salieri, o seu arquirrival à época. Já Kelvin, por seu lado, deixou muitas pessoas com lágrimas de euforia e próximas de um enfarte agudo do miocárdio. Mas para os portistas terem atingido a felicidade plena naquele mítico 11 de maio, a maioria do país, incluindo RAP, teve de atingir a infelicidade plena. É a desvantagem do Futebol, não há vencedor sem derrotado, choro de alegria sem choro de tristeza nem filho sem prostituta. Futebol não são só 22 mercenários a correr atrás de uma bola, nem a música é só a propagação das ondas sonoras. Mas ainda está para acontecer, durante um concerto de música clássica, um membro da plateia levantar-se a meio do 3º andamento e, a plenos pulmões, acusar a progenitora do maestro de ser uma profissional do sexo. Ou o primeiro violinista, enquanto executa um solo, receber um coro de assobios e sugestões de idas para locais onde nem a pessoa mais diminuta caberia. Também ainda não foi anunciada a primeira sessão de UFC Street entre aqueles que preferem a orquestra metropolitana de Lisboa e

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JORGE GONÇALVES

os que gostam mais da orquestra sinfónica do Porto. Em semana de jornada europeia, nenhum destes senhores se envolverá em confrontos com apoiantes da orquestra filarmónica real de Liverpool. E mesmo admitindo que alguma destas situações ocorre (em 7000 milhões de pessoas, há sempre alguma que tem a capacidade para nos surpreender), nunca poderá ser com a frequência a que se assiste num estádio de Futebol. Se assim fosse, o espetáculo não passaria do primeiro minuto e a sala Suggia da Casa da Música teria de encerrar durante um mês após cada concerto para reparações extensivas e para retirarem os isqueiros do palco. Apesar de tudo, os coros são um ponto comum entre o Futebol e a música clássica. Enquanto uns estão vestidos a rigor, os outros estão despidos a rigor. A diferença nota-se apenas após o início da canção, em que nas Bodas de Fígaro se opta por um italiano erudito e os superdragões preferem um português mais terra a terra. n


Elizabeth Costello

E

m linha, junto aos microfones, dispõem-se as personagens que dão vida à peça. O palco, caótico na sua organização, denota tudo o que se seguirá. É num cenário de cortinas entreabertas, jogos de espelhos, e onde a luz e a sombra se gladiam constantemente, que “Elizabeth Costello” se desenrola. Elizabeth é uma septuagenária e mundialmente reconhecida escritora. Surge recorrentemente na obra de J.M. Coetzee – famoso romancista sul-africano e vencedor do Prémio Nobel da Literatura -, mas é o livro homónimo, “Elizabeth Costello”, de 2003, que serve de base para a produção desta peça. Envolvendo a audiência, por

“Estamos sempre a ver gente como você”.

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JOSÉ DIOGO SANTOS JOSÉ MÁRIO SOUSA

um largo momento, numa realidade alternativa onde Elizabeth se coloca em frente a um portão apenas com o intuito de o atravessar mesmo sem fazer ideia do que esperar do lado de lá. Um guarda, assertivo e experiente, com trago de quem sabe o que esperar de quem por ali passa, encarrega-se somente de fazer cumprir o regulamento: Elizabeth terá que descrever as suas crenças para que possa fazer a travessia. Assim começa e assim acaba “Elizabeth Costello”: a protagonista procura passar o portão, procura passar para o outro lado. É no entretanto que ficamos a conhecer Elizabeth, que faz uma viagem pela vida vivida em jeito de balanço.


“Eu tenho crenças, mas não acredito nelas”. Confuso? Terá a incessante busca pelo conhecimento sido infrutífera? Será que Elizabeth, confrontada com a travessia, ignora as convicções que a acompanharam e foram crescendo ao longo da vida?”

A protagonista encarna a figura do intelecto. Sobre tudo questiona. Sobre tudo tem dúvidas. Sobre tudo, sobretudo, pensa. Pensa e racionaliza. Não se inibe de falar sobre qualquer tema. Porém, quando questionada, Elizabeth é peremptória: “Eu tenho crenças, mas não acredito nelas”. Confuso? Terá a incessante busca pelo conhecimento sido infrutífera? Será que Elizabeth, confrontada com a travessia, ignora as convicções que a acompanharam e foram crescendo ao longo da vida? Certo é que estamos perante uma mulher e as suas questões. Questões que acompanham a Humanidade desde sempre. E que questões são essas? A própria humanidade é uma delas. Elizabeth coloca a condição humana em perspetiva, examina o Homem e as suas ações. A natureza humana é, para si, um mistério: “não conseguimos imaginar a morte de três milhões de pessoas como em Tre-

blinka, apesar de sabermos contar”. Do Holocausto e da fragilidade humana estabelece um paralelo com a vida dos animais. Insurge-se contra a produção de carne em massa, cuja semelhança é demais evidente com os campos de concentração, e sentencia “lá por termos tratado os judeus como gado, não quer dizer que os animais devam ser tratados como judeus”. Regressa, mais tarde, ao Homem enquanto ser da Criação, mas é Deus quem a intriga: “Tenho cada vez mais dificuldade em compreender o que significa acreditar em Deus, quanto ao Diabo não tenho dúvidas”. Estará Elizabeth a pensar no outro lado? A vida e a morte são um só. “Os deuses ao darem a morte aos humanos deram-nos vantagem. Vivemos mais intensamente”. Será mesmo assim? Elizabeth olha para trás, olha para o passado que lá ficou. Foi escritora. Terá sido algo mais? É agora, quando está “tão próxima da morte como a morte dela”, que se apercebe que a história da sua vida como mulher, mãe e irmã sempre assumiu um papel secundário. Foi escritora, “secretária do invisível” como diz, alguém a quem “não é permitido ter crenças”. “É um problema de ponte, um problema de se improvisar uma ponte. As pessoas resolvem estes problemas todos os dias. Resolvem-nos e, uma vez resolvidos, avançam”, crê J.M. Coetzee. Elizabeth também terá que o resolver. Não sabe o que a espera, não sabe o que poderá encontrar. É humana, tal como todos os que a antecederam e todos os que a ela se seguirão. Tal reconstrução duma realidade sem significado seria inútil, não fosse o teatro a representação do quotidiano do ser humano, através das suas necessidades. No palco onde os atores se tornam personagens, dão voz a ideias polémicas e as corporizam, o que seria do tea5

tro sem a crítica ao ser humano nas suas mais inexplicáveis vertentes? É que a ponte e o portão colocam ambos o mesmo problema do atravessamento. À semelhança da protagonista, também nós construímos “pontes” sem cessar, crentes em algum resultado futuro (seja ele qual for). Fazemo-lo alienando o dom da autoconsciência, sem nunca saber onde estas pontes nos irão levar. Trata-se duma questão, em primeira instância, de continuar, e só depois de começar. Como diz o guarda: “Estamos sempre a ver gente como você”. É o que fica de “Elizabeth Costello” numa versão a carne e osso recentemente recriada no Teatro Nacional de São João. Uma peça de teatro tão singular quanto a arte que lhe dá vida. Com encenação de Cristina Carvalhal e com Cucha Carvalheiro no papel principal, o elenco conta ainda com Bernardo de Almeida, Luís Gaspar, Rita Calçada Bastos e Sílvia Filipe. n

“Elizabeth olha para trás, olha para o passado que lá ficou. Foi escritora. Terá sido algo mais? É agora, quando está “tão próxima da morte como a morte dela”, que se apercebe que a história da sua vida como mulher, mãe e irmã sempre assumiu um papel secundário.”


Financiamento dos Partidos: razões de uma decisão polémica

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omo podem estar todos tão convictos da sua posição, e ainda assim nenhuma das posições partidárias servir o interesse nacional? Não são raros os assuntos em discussão na Assembleia da República que deixam a opinião pública desconfiada das reais intenções das propostas que surgem e que são posteriormente aprovadas naquela câmara. As questões recentemente levantadas com as alterações à lei do financiamento dos partidos são disso um exemplo. Estaremos a ser enganados por um conjunto de indivíduos maldosos e mal-intencionados ou estamos a ser vítimas da natureza humana e dos impulsos para o autoengano que os indivíduos revelam na altura da tomada de decisão? A questão relevante na abordagem desta temática não passa pelos custos

que a democracia acarreta (custos de financiamento dos partidos) pois, à exceção de uma parcela de indivíduos monárquicos ou de indivíduos com preferência por líderes ditatoriais, o sistema vigente contínua a ser pelo menos o menos mau. Porém, é necessário dignificá-lo. De forma tão simples quanto possível: a proposta que foi levada à Assembleia da República pretendia dar resposta às recomendações do Tribunal Constitucional no sentido de alterar o papel da ECFP (Entidade de Contas e Financiamentos Políticos), de tal forma que esta se tornasse a responsável em primeira instância pela fiscalização das contas (com competência para aplicar coimas e sanções) e a decisão apenas subiria ao plenário do Tribunal Constitucional nos casos em que os partidos decidissem recorrer. 6

HUGO FRANÇA

Contudo, e aqui surge a contestação, as alterações que foram aprovadas na Assembleia da República incluíam algumas que foram além das requisitadas pelo Tribunal Constitucional, deixando de lado outros pedidos daquela instituição. Neste conjunto de alterações adicionais estavam a possibilidade de restituição do IVA pago em todas as atividades partidárias, ou o fim do limite de verbas que poderiam ser obtidas através da angariação de fundos. Uns afirmaram que se tratavam de alterações pontuais, outros defenderam que as medidas contribuíam para acabar com a “discricionariedade de interpretações” por parte da autoridade tributária, e outros ainda apontavam para ”recomendações do próprio Tribunal Constitucional” como justificação para terem votado a favor sem concordarem com as alterações.


Quando este tema entrou em discussão na opinião pública e foi abordado por vários elementos de cada partido, pudemos ver que cada um tem uma crença (convicção) distinta relativamente à temática, e portanto todos os que aprovaram a proposta de alteração defendem-na de acordo com diferentes argumentos. Cada deputado que contribuiu para a alteração, ou que em nome do partido defendeu a alteração, não analisou a questão de forma neutra. E, mesmo que quisesse, tal não seria possível pois estavam a decidir sobre um tema do seu interesse. Como tal, da mesma forma que os partidos apresentaram uma proposta (quase) unânime, também do lado dos cidadãos (opinião pública) as expressões de repúdio e de crítica foram (quase) unânimes. Se, do ponto de vista de quem está dentro da assembleia, uma isenção mais alargada relativamente ao pagamento do IVA faz todo o sentido, para quem está fora não parece assim tão compreensível que organizações políticas estejam isentas de IVA em atividades que o comum dos mortais também realiza. Ao contrário do Homo Economicus que preenche os modelos em economia, a natureza humana é baseada no autointeresse de cada indivíduo, é desta forma que muitas das suas decisões são motivadas (ainda que em determinados contextos surjam comportamentos que contrariam a procura pelo autointeresse). A questão não está então na competência dos deputados presentes na Assembleia da República, pois quero acreditar que na maioria dos casos são indivíduos bastante capazes. O problema que se levanta, e que a psicologia identificou, é que os indivíduos mais capazes (analiticamente mais sofisticados ou mais educados) são ótimos decisores quando as questões sobre as quais devem decidir são neutras, isto é, quando estas decisões não ameaçam diretamente nenhuma convicção carregada de subjetividade (os valores de um indivíduo).

Quando os deputados são colocados a decidir sobre algo que afetará diretamente o seu partido, não pode ser expectável que estes sejam capazes de ser os melhores decisores. As crenças que estes indivíduos têm sobre a importância do seu trabalho parlamentar dão origem a reações emocionais fortes, a que frequentemente assistimos em debates televisivos ou na Assembleia da República (agitação, hostilidade), conduzindo-os para uma cognição motivada, em que a argumentação procura viabilizar a ideia através da racionalização da importância das alterações. Na opinião pública, por outro lado, a análise feita a esta questão é, neste caso, menos enviesada do que aquela que os deputados podem realizar. Assim, a opção tomada por um dos partidos que esteve na discussão (o CDS) não é uma exceção ao comportamento humano. Os deputados daquele partido funcionam exatamente da mesma forma que os restantes. A diferença é que, tanto quanto me foi possível compreender, neste partido existe uma espécie de “Código de Conduta” que rege esta temática, ou seja, uma forma de comprometimento (externo) dos deputados deste partido. Embora presumindo que possa ter existido discussão interna no partido, os deputados agiram de acordo com a forma de comprometimento a que estavam sujeitos, de tal forma que concluíram que mantendo a sua posição ficariam a ganhar perante a opinião pública e ainda poderiam retirar dividendos da alteração da lei. Os deputados afetos a outros partidos, que também se comportam como agentes imperfeitamente Bayesianos (têm uma capacidade de previdência imperfeita) e que não estavam sujeitos a qualquer forma de comprometimento externo, não anteciparam que a discussão levantada no plenário pelo CDS tivesse tamanha repercussão. Ambos os casos são exemplos de agentes que perseguem o autointeresse, mas em que num dos casos uma forma de comprometimento obriga 7

“Quando os deputados são colocados a decidir sobre algo que afetará diretamente o seu partido, não pode ser expectável que estes sejam capazes de ser os melhores decisores.”

os agentes a autocontrolarem a sua decisão/escolha. Como nós, seres humanos, que somos o primo menos “perfeito” do Homo Economicus, os deputados não conseguiram antecipar o que aconteceria quando a proposta fosse votada. Isto demonstra ainda a sua inconsistência temporal. Os deputados agiram de forma a tentar maximizar o seu retorno neste momento, ainda que intertemporalmente talvez uma alteração mais simples à lei (que os beneficiasse apenas de forma ligeira) fosse uma decisão mais assertiva. No futuro, provavelmente teriam nova oportunidade para fazer uma nova (pequena) alteração, não levantando ondas de choque desta dimensão. Portanto, os deputados e os seus respetivos partidos ficaram mal na “fotografia”, contudo ainda não se sabe em que ponto ficará a alteração da lei. A conclusão para tudo isto, do ponto de vista da moralidade e justiça, teria sido a colocação das propostas em discussão pública. Não só porque conferiria transparência ao processo, como seria submetido a uma análise menos enviesada, que provavelmente não seria má para os partidos. Credibilizariam o seu trabalho e, ao mesmo tempo, convidavam os cidadãos a contribuir para uma decisão na qual a legitimidade dos partidos para decidir é limitada. n


Orçamento da UE: mitos, factos e futuro

NUNO SOUSA

“A União Europeia é inútil e ineficiente. A maior parte do orçamento da UE é utilizado em instituições burocráticas localizadas em Bruxelas e Estrasburgo. As instituições europeias não são democráticas…”

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stas são muitas das opiniões e críticas que ouvimos recorrentemente sobre a União Europeia. Comum a estas críticas encontra-se a ideia de uma máquina burocrática ineficiente, longínqua e tecnocrática. Sejamos sinceros, é verdade que a União Europeia possui muitas falhas, desde a falta de solidariedade entre estados-membros à lentidão na tomada de decisões (como se verificou na crise económica e das dívidas soberanas e na crise dos migrantes), passando por gastos desnecessários, como é o caso da mudança mensal do Parlamento Europeu para Estrasburgo, e por um certo distanciamento dos cidadãos em relação ao projeto europeu e às suas complexas instituições, como se verifica pela baixa participação nas eleições europeias (que em 2014, em Portugal, atingiu um mínimo histórico de 33,8%). No entanto, é preciso desmistificar muitas opiniões generalizadas sobre a UE que são erradas. Contra a imagem de uma máquina burocrática despesista está o facto de que os gastos em administração representam apenas 6% do Orçamento da UE e há muito que estabilizaram. A questão é legítima: como é repartido o Orçamento da UE, quais as suas prioridades e de que forma nos beneficia no nosso dia-a-dia? O Orçamento da UE representa apenas 1% do PIB dos estados-membros, cerca de 160 mil milhões de euros anualmente, figura irrisória se compararmos com o valor médio de

49% do PIB que representam os orçamentos nacionais. Assim, é um verdadeiro milagre que se consiga, com esta verba, num conjunto de países com mais de 500 milhões de habitantes, apoiar a agricultura, reforçar a coesão territorial, económica e social, o desenvolvimento rural e a cooperação transfronteiriça, apoiar as PME’s, incentivar a inovação e as start-ups, construir infraestruturas físicas e digitais, providenciar ajuda a refugiados e migrantes e ainda lutar contra as alterações climáticas. No que diz respeito à sua repartição, é de destacar que as principais parcelas do Orçamento da UE integram as rubricas “Crescimento Sustentável: Recursos Naturais”, que inclui a agricultura, as pescas e o desenvolvimento rural e que possui um valor de 39% do total do orçamento, e “Coesão Económica, Social e Territorial” com um valor de 34% do total. Estes investimentos, em particular na política de coesão, têm sido essenciais para o crescimento económico dos estados-membros, incluindo de Portugal, tendo permitido diminuir as disparidades entre regiões, aproximar os cidadãos e potencializar recursos económicos e humanos. 8

Este papel é claro quando analisamos os dados estatísticos: os investimentos em política de coesão, entre 2007 e 2013, levaram a um aumento adicional de 4% do PIB, sendo o efeito multiplicador de 2,74 J no PIB por cada euro investido. É preciso assinalar que mais de 80% do investimento público português, no período 2015-2017, provém dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI), demonstrando o papel essencial que o Orçamento da UE e, em particular, a política de coesão tem na economia portuguesa, possuindo um claro papel de estabilização macroeconómica em períodos em que, por constrangimentos orçamentais, o valor do investimento público se vê significativamente reduzido. Este processo de atribuição de fundos não é um processo opaco, decidido em Bruxelas. Cada quadro financeiro plurianual, no qual são definidos os objetivos e os valores a atribuir a cada fundo e área de implementação, tem uma duração de 7 anos, estando a meio o período 2014-2020, que tem sido conhecido no nosso país como Portugal 2020. A atribuição dos fundos dentro de cada programa compete a cada país e, principalmente, a


cada região, nível ao qual são tomadas a maior parte das decisões, que no caso da região Norte compete à CCDRN (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte). A sua aplicação é depois monitorizada pela Comissão Europeia que produz relatórios anuais. O impacto do Orçamento Europeu vai muito além das políticas de coesão e da agricultura, já que 21% do orçamento é utilizado em projetos que pretendem combater as alterações climáticas e tem como um dos seus principais objetivos “um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”. Dessa forma, os diversos fundos europeus procuram apoiar as PME’s através de programas como o Programa para a Competitividade das Empresas e das PME’s (COSME), incentivar a inovação através de programas como o Horizonte 2020, que apoiaram, entre outros, os vencedores dos Prémios Nobel da Química de 2016 e 2017, apoiar o emprego jovem e as qualificações laborais através do Fundo Social Europeu (FSE) e da Iniciativa Emprego Jovem, levar a que, todos os anos, mais de 570 mil Europeus participem em projetos de mobilidade no âmbito do programa Erasmus+, acolher os refugiados (ainda que de uma forma insuficiente e incompleta) através do Fundo de Segurança Interna, do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração e da Agência Europeia de Guarda de Fronteiras e Costeira, ser um dos maiores contribuintes para ajuda humanitária, ajudar as vítimas e a reconstrução em regiões afetadas por desastres naturais através do Fundo Europeu de Solidariedade e estimular o investimento através de diversos fundos e, em particular, pelo recente Fundo Europeu de Investimentos Estratégicos (FEIE), conhecido como Plano Juncker, que adota uma perspetiva diferente dos mais “clássicos” fundos estruturais (com maior foco na coesão), sendo este, na verdade, um instrumento financeiro, desenvolvido em parceria com o Banco Europeu de

“É preciso desmistificar muitas opiniões generalizadas sobre a UE que são erradas”

Investimento (BEI), que apoia projetos viáveis que não conseguem encontrar financiamento nos mercados financeiros e, em que por cada euro aplicado se espera que sejam mobilizados 15 euros de investimento total. Perguntar-se-ão, certamente, quais são as fontes de financiamento do Orçamento da UE. A maior parcela (71%), atualmente, é uma contribuição baseada no PIB de cada estado-membro, sendo que as restantes fontes de financiamento são uma contribuição baseada nas receitas de IVA de cada país e direitos alfandegários. Esta forma de financiamento é claramente limitada e insuficiente para as necessidades que a União enfrenta atualmente. Urge, por isso, diversificar as fontes de financiamento e introduzir recursos próprios da UE para financiar o seu orçamento. Neste momento, encontram-se muitas propostas em cima da mesa, tais como um imposto sobre o carbono, um imposto sobre as transações financeiras, e senhoriagem (isto é, um imposto sobre a quantidade de moeda emitida pelo BCE), sendo que se espera que, nos próximos anos, seja adotada pelo menos uma dessas soluções, permitindo cobrir o “buraco” nas receitas que certamente se verificará com a saída do Reino Unido da UE. Temos vindo a assistir, nos últimos meses, ao início da discussão a nível nacional e europeu das prioridades para o quadro financeiro plurianual pós-2020. Esta é uma discussão im9

portantíssima não só para o futuro da União Europeia, mas também para o futuro das economias dos estados-membros, para a convergência entre regiões e para o combate ao aquecimento global e o cumprimento do Acordo de Paris, que necessita, não só da participação dos políticos portugueses e europeus, mas sim de todos os cidadãos europeus, tendo as universidades um importante papel a desempenhar no incentivo ao debate e ao envolvimento de toda a comunidade académica. Assim, incentivo todos os leitores do Fepiano a envolverem-se neste debate, em refletirem de que maneira a União Europeia deve intervir de forma a maximizar os seus recursos, a incentivar a economia e a proporcionar um maior bem-estar a todos os europeus. Na minha opinião, para o período pós-2020 é necessário simplificar o processo de atribuição de fundos, tornando a sua implementação mais rápida, a sua complementaridade mais eficiente, a sua alocação mais congruente com os desafios e as prioridades da UE e a sua utilização mais acessível e compreensível para a maioria dos cidadãos. Concluindo, penso que as prioridades da ação da UE devem passar por uma maior aposta em áreas em que se possa obter maior valor acrescentado, no apoio às PME’s, à investigação e inovação, numa maior aposta na inclusão social, emprego, qualificações, saúde, infraestrutura social e digital, na diminuição das desigualdades, na convergência entre regiões e países europeus, numa ação mais clara, rápida e humana às questões das migrações e da globalização e numa estratégia ambiciosa no apoio às energias renováveis, na liderança da transição energética e ambiental, e num crescimento sustentável. Enfim, é preciso um Orçamento que capacite uma União Europeia que se deseja mais democrática, humanitária e inovadora, que ocupe o seu lugar como líder mundial e polo dinamizador do desenvolvimento económico, social e ambiental. n


Grande entrevista a Francisco Assis

Em entrevista realizada à margem da conferência “O Futuro da União Económica e Monetária”, o eurodeputado Francisco Assis recorda a sua entrada na política, analisa o processo de construção da União Europeia e comenta o momento político que se vive em Portugal. JOSÉ MÁRIO SOUSA (JM) ALEX F. ALVES (AA) BEATRIZ FRÓIS Fotografia

JM - O que é que o levou a entrar na política? Entrei na política muito cedo, quando ainda era estudante precisamente aqui na Universidade do Porto, no curso de Filosofia. Nessa altura foi uma forte vocação. A minha vocação, antes de ser pela política enquanto atividade prá-

tica, foi mais uma vocação pela reflexão política. Daí até ter escolhido esse curso de Filosofia e ter sempre muita Filosofia. Tive uma orientação para o pensamento político e social. E de alguma maneira, reconhecendo-me no conjunto de valores e de referências próprias do espaço do centro-esquerda, acabei por entrar aos vinte anos no Partido Socialista (PS) e por iniciar uma vida política. Depois, como era e sou de Amarante, acabei por muito cedo assumir funções de responsabilidade porque fui eleito Presidente da Câmara de Amarante muito cedo e, desde então, até hoje, que tenho estado permanentemente ativo na vida política.

porque é de facto uma fase decisiva da vida em que estamos a iniciar a nossa atividade. E depois porque o exercício de funções autárquicas é algo de muito interessante. Eu fui, durante quase seis anos, Presidente da Câmara de Amarante e recordo esse tempo como um tempo de grande realização do ponto de vista pessoal. Foi seguramente das experiências mais marcantes que tive. Depois disso tenho desempenhado várias funções, sobretudo de âmbito parlamentar, quer no parlamento português quer no parlamento europeu, mas a verdade é que recordo sempre com muita nostalgia esse período em que fui Presidente da Câmara de Amarante.

JM - Como foi ser Presidente com 25 anos? Com 24 ainda... Foi uma experiência muito interessante. Em primeiro lugar

AA - Como é ser deputado no Parlamento Europeu? Que perspetivas? Que experiências? Que desafios enfrentou?

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Perfil Francisco Assis é eurodeputado no Parlamento Europeu, assíduo comentador político e professor universitário. Nascido a 8 de janeiro de 1965 e licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi presidente da Câmara Municipal de Amarante de 1990 a 1995. De entre os diversos cargos políticos que ocupou, foi deputado à Assembleia da República entre 1995 e 2005 e entre 2009 e 2015, sendo por duas vezes presidenÉ uma atividade muito interessante. Eu já tinha sido [deputado no Parlamento Europeu] há uns anos atrás e voltei agora a sê-lo. É uma realidade completamente diferente. O Parlamento Europeu não tem as características dos parlamentos nacionais. O grau de conflitualidade política é relativamente menor. O Parlamento Europeu, como sabem, não tem capacidade legislativa própria. Tem hoje capacidade colegislativa. Tem um grande espaço de debate político - a minha atividade é na área da política externa e é nessa área que tenho desenvolvido o essencial da minha atividade. É um parlamento onde há muito debate político, onde há muita informação, uma grande circulação de informação, onde todos os dias temos que estar atentos a tudo o que se passa não apenas na Europa mas no mundo em geral, nas suas diferentes dimensões: política, económica, cultural. E por isso, nessa perspetiva, é uma experiência política completamente singular e julgo poder dizer muito enriquecedora. Desse ponto de vista a experiência mais enriquecedora que tive até hoje do ponto de vista político talvez seja esta experiência como deputado no Parlamento Europeu. AA - Há agora um debate à volta da necessidade de reforma da Europa e das suas instituições. Qual é a sua visão acerca disto? A União Europeia está em reforma desde o seu próprio início. É um projeto político permanentemente inacaba-

te do grupo parlamentar do PS, e eurodeputado entre 2004 e 2009. Em 2014 encabeçou a lista do Partido Socialista nas eleições europeias e foi eleito para um segundo mandato como eurodeputado no Parlamento Europeu onde é atualmente Presidente da delegação para as relações com o Mercosul. Foi também Presidente da Federação Distrital do PS do Porto e candidato à Câmara Municipal do Porto nas eleições autárquicas de 2005.

“A experiência mais enriquecedora que tive até hoje do ponto de vista político talvez seja esta experiência como deputado no Parlamento Europeu.”

do. Porquê? Porque é um projeto político altamente complexo. É um projeto político muito artificial - no bom sentido da palavra “artificial” -, isto é, muito construído pela vontade política. Surge a seguir à II Guerra Mundial com dois ou três propósitos básicos. O primeiro dos quais é o de procurar evitar novas guerras no continente europeu. Muito marcados pela experiência atroz das duas guerras, os europeus, ou uma parte, entenderam que era preciso construir um novo modelo de organização política a nível europeu que, de alguma maneira, impedisse o recurso à solução bélica para a resolução dos problemas que naturalmente se colocam nas relações internacionais, intraeuropeias neste caso. Esse objetivo foi plenamente conseguido. Em segundo lugar há um 11

objetivo de promover a prosperidade económica e social. E ao longo destas várias décadas esse objetivo no essencial também foi conseguido. Hoje vivemos no continente onde, apesar de todas as dificuldades, a qualidade de vida das pessoas é a mais elevada do mundo. É também um projeto profundamente democrático e respeitador dos direitos humanos. Uma condição imprescindível para qualquer país integrar a União Europeia é a de respeitar rigorosamente o modelo de organização política democrática e respeitar os direitos humanos. Foi na altura também um projeto que visava combater o risco de expansão da União Soviética que dominava já os países do Leste Europeu. E também aí teve sucesso porque a verdade é que a União Europeia permaneceu e a União Soviética entretanto ruiu e desapareceu. Portanto é um processo desde sempre muito complexo, é um processo que tem vindo a alargar-se e a aprofundar-se. Alargou-se. Começou com seis países. Passou a nove. Neste momento somos vinte e oito. Vamos passar a ser vinte e sete. Dentro de algum tempo seremos mais porque estou convencido de que há uma dinâmica de alargamento nos países balcânicos que não pode ser interrompida. Aprofundou-se muito. Começou por ser - nós não fazíamos parte na altura -, praticamente uma União Aduaneira. Tornou-se depois num Mercado único. Evoluímos até do ponto de vista económico para uma União Económica e Monetária. Do ponto de vista político


também houve uma progressiva integração de áreas que inicialmente não eram consideradas. Portanto, este processo todo exige reformas e é um processo que se faz sempre com muitas tensões naturais. Porque são vários países que nunca estiveram todos juntos em nenhum projeto político convergente ao longo de toda a nossa história. Nós podemos dizer que temos raízes culturais ou civilizacionais relativamente próximas, mas a verdade é que nunca estivemos juntos ao longo de muitos séculos. Nunca estivemos todos juntos como estamos agora. Estamos a falar de uma realidade que incorpora países muito diferentes, com histórias diferentes e com perspetivas do mundo até bastante diferenciadas. Noto muito isso, por exemplo, na política externa. Há países que vivem obcecados com a ameaça russa. Isso a nós, portugueses, diz-nos muito pouco. Nós não percebemos muito bem, à primeira vista, por que é que a Rússia constitui uma enorme ameaça. Mas se nos lembrarmos que esses países historicamente tiveram sempre uma relação complicada com a Rússia, que tem uma vocação imperial, aí já percebemos que realmente há uma parte da Europa para quem a questão russa tem uma importância que não tem para nós. Para nós, por exemplo, a questão latino-americana tem uma importância que não tem para alguns países de leste que estão muito longe do mundo latino-americano, e que não entendem também como nós e que não percebem tão insistentemente como nós a necessidade de estabelecermos uma relação cada vez mais próxima. Portanto, se nós atendermos à complexidade, ao artificialismo - repito no bom sentido enquanto construção humana -, deste projeto, é um projeto que está sempre em tensão, em discussão e a exigir reformas. E este momento é um dos momentos em que naturalmente também [se exigem reformas]. Até porque devido à globalização, à crise económica porque passamos há alguns anos atrás, e à emergência de extremismos políticos de vários tipos, este é um momento que em estamos naturalmente a precisar de algumas reformas. n

“Portugal beneficiou profundamente com a integração europeia”

Francisco Assis assume-se como um defensor do projeto europeu que acredita ter cumprido os seus propósitos básicos. Olha para as tensões que emergem do processo de integração europeia como naturais e considera que a Europa está unida na questão do “Brexit”. AA – Acha que as maiores dificuldades vêm de dentro, como o “Brexit”, ou de fora, como os refugiados? São dificuldades comparáveis. Algumas vêm de fora e temos que também saber lidar com elas. Há uma realidade com a qual temos que saber viver que é esta: a Europa excecionalmente durante três ou quatro séculos ocupou um lugar de grande destaque na cena internacional, praticamente hegemonizou o mundo. Isso acabou. Isso acabou porque evidentemente há países que felizmente se abriram ao mundo, participam ativamente na vida internacional e têm cada vez mais peso. E, portanto, essa supremacia europeia, no sentido em que ela se manifestou durante três 12

ou quatro séculos, desapareceu e nós temos que saber conviver com isso e gerir esse processo. E a globalização de alguma maneira também nos vem lembrar diariamente isso mesmo. Mas ao mesmo tempo, portanto, há problemas que vêm de fora e ao quais nós temos que saber reagir. O caso dos refugiados é resultado de grandes convulsões que ocorrem às nossas portas e nós temos que saber conviver e gerir bem essa situação, e nem sempre o temos feito. E temos o problema das migrações, que esse vai para além das questões dos refugiados, porque é evidente que sendo a Europa um continente rico e um continente envelhecido é natural que haja uma pressão muito grande de um continente que está mesmo aqui ao lado e que é pobre e que é bastante jovem. E, portanto, vai haver, como sempre houve na história, uma tendência para grandes migrações, e nós temos que estar preparados para isso e ver também o lado positivo. Evidentemente que isto tem que ser tudo devidamente enquadrado mas o lado positivo de um continente que precisa de rejuvenescer é que se pode rejuvenescer também a


partir da integração de imigrantes. A questão do “Brexit” que referiu é uma questão que não está a causar à Europa os problemas que se antevia que pudesse até causar. Julgo que está a causar problemas muito maiores infelizmente para eles, aos próprios britânicos. Mas penso que foi um acontecimento bastante negativo. Mas aqueles que achavam que a seguir ao “Brexit” íamos ter várias réplicas e que outros países europeus iam colocar a mesma questão acabaram por não ver essa sua perspetiva concretizada ou confirmada na medida em que, na verdade, a Europa está unida e está a reagir com grande espírito de solidariedade à questão do “Brexit” e as negociações que têm estado a ser levadas a cabo revelam mesmo isso: uma Europa capaz de enfrentar um problema sério, como é a saída de um dos seus países-membros e um país com a importância política e geopolítica do Reino Unido. JM – Acha que o futuro de Portugal depende do futuro da União Europeia? Eu espero que sim. Eu sou daqueles que acredita muito no projeto europeu, que entende que Portugal benefi-

“A União Europeia está em reforma desde o seu próprio início. É um projeto político permanentemente inacabado.”

ciou profundamente com a integração europeia, e não estou a falar de benefício em termos de infraestruturas que nós hoje temos e não teríamos se não tivéssemos aderido à União Europeia. Estou a falar de termos beneficiado em termos políticos, em termos económicos em geral, e em termos culturais. Nós perdemos historicamente sempre que nos afastamos mentalmente da Europa e assumimos uma condição de uma certa periferia mental em relação ao centro da Europa. E isso penso que, neste momento, está a acabar e estas novas gerações são disso uma grande expressão. Isto é, nós hoje temos uma 13

juventude que se percebe como europeia, percebe-se portuguesa e ao mesmo tempo como europeia, no que isso significa de adesão a um conjunto de referências que identificam, do meu ponto de vista, o melhor que a Europa tem, e o melhor que a Europa tem é, em grande parte, o melhor que o mundo produziu até hoje. Portanto, eu sou dos que entende que Portugal … evidentemente pode ter outros caminhos, na democracia há sempre outras possibilidades … mas eu sou dos que entende que é dentro do quadro europeu, dentro do projeto europeu, e participando ativamente nesse processo e nesse projeto - como felizmente tem acontecido desde a adesão até hoje - que Portugal está melhor. E essa deve ser, a meu ver, a opção europeia que é uma opção que nós fizemos logo a seguir à Revolução de 74 - pouco depois quando se consolidou a nossa democracia representativa. Nós logo a partir de 1976 tomamos essa decisão, depois iniciamos as negociações, e aderimos. Até hoje, essa opção europeia é uma opção que o país fez e eu penso que essa é a melhor opção para Portugal. Haverá outras com certeza mas acho que são todas bastante piores. n


“Acho que foi uma solução errada e continuo a pensar o mesmo” O eurodeputado do PS não esconde que tem reservas em relação à atual solução governativa. Considera, no entanto, que tal não impediu o Governo de fazer opções corretas na questão europeia. JM – Disse em tempos que esta solução governativa impedia o PS de fazer algumas reformas em Portugal. Que reformas são essas? Eu tenho uma visão negativa da solução como sabe. Penso que há reformas que temos que fazer. Sérias reformas. Eu sou a favor da manutenção de um Estado Social muito ativo, mas para assegurar a manutenção desse Estado Social é preciso permanentemente reformá-lo. É preciso compreender que perante alterações demográficas e alterações económicas é preciso progres-

“Quando surgem problemas um pouco mais complexos, julgo que as divergências entre os três partidos se tendem a acentuar”

sivamente ir fazendo reformas. E eu julgo que no sector da educação, no sector da saúde e no sector da segurança social há algumas alterações que teremos que ir sempre fazendo e que uma solução desta natureza inibe a concretização dessas reformas. Mas, apesar de tudo, devo dizer que

“Há algumas alterações que teremos que ir sempre fazendo e que uma solução desta natureza inibe a concretização dessas reformas.”

há um aspeto fundamental em que este governo a meu ver acabou por fazer sempre opções corretas que é precisamente na questão europeia. Apesar de estar apoiado no parlamento por dois partidos profundamente críticos do atual modelo europeu, o governo nunca se deixou condicionar por isso e a prova disso é que nós hoje temos assegurado o cumprimento integral das nossas metas em termos orçamentais. A dívida pública vai começar a diminuir em percentagem do PIB, o que é um dado muito importante, e a prova disso mesmo foi a eleição recente do ministro das finanças português para a Presidência do Eurogrupo, o que significa que da parte dos parceiros europeus houve o reconhecimento de que Portugal não estava numa linha de afastamento da Europa. Pelo contrário, permaneceu fiel ao seu compromisso europeu de há muitas décadas até esta parte. JM – Portanto, já não olha para esta solução governativa como um erro histórico? 14

Não, não acho que tenha sido uma boa solução. Não vou insistir sempre nela. Não acho que tenha sido uma boa solução. Passou. A minha posição ficou clara. Nunca mudei de opinião sobre a solução em si mesma. Não vou estar todos os dias a insistir no mesmo. Acho que foi uma solução errada e continuo a pensar o mesmo mas fiquei solitário, isolado quase, e com poucas pessoas ao meu lado no Partido Socialista. E como eu desejo acima de tudo o bem do


país, fico satisfeito em constatar que em alguns aspetos essenciais, na verdade, o governo não se afastou daquilo que pareciam ser condições fundamentais para ter algum sucesso, e uma delas era a questão europeia. Portanto, aí eu reconheço, com satisfação aliás, que o governo em geral e o primeiro-ministro em particular não se deixou condicionar pelo apoio que tem no plano parlamentar do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Saber se a so-

lução está esgotada ou não está esgotada isso já é outra discussão que certamente se vai iniciar dentro de pouco tempo. JM – Considera que tem condições para chegar ao fim da legislatura? Vamos ver. Acho que há uma solução que funcionou razoavelmente numa época em que se tratava mais de promover devoluções de rendimentos e reversões de privatiza15

ções num contexto de crescimento económico e com folgas orçamentais que permitiam de alguma maneira praticar esse tipo de políticas. Quando surgem problemas um pouco mais complexos, julgo que as divergências entre os três partidos se tendem a acentuar. Mas também veremos. Já não falta muito tempo para avaliarmos, para podermos objetivamente e empiricamente verificar se se concretiza ou não, se vai a legislatura até ao fim ou não. n


Oh Sousa Martins!

S

intonizamos um qualquer canal televisivo em horário nobre. Ouvem-se gritos, interrupções, homens irados a apontar para documentos impressos como prova do que estão a gritar, insultos, sangue, suores nervosos e pressente-se a possibilidade de lágrimas por parte do moderador. O volume a que são feitas as interrupções torna difícil discernir qual a razão desta guerrilha verbal, na qual nos vemos agora no papel de observadores internacionais. Após alguns momentos conseguimos perceber. Aparentemente jogou-se à bola no fim de semana. E este particular trio de adeptos, tremendamente fora de forma, está reunido para tentar debater e analisar a forma como se praticou esta atividade desportiva. A abordagem que se faz ao tema não é necessariamente a mais intuitiva. De forma a esmiuçar a forma como se jogou à bola, o painel está agora debruçado sobre o processo de nomeação do fiscal de linha, depois de já terem analisado as falhas sintáticas de um email de um dirigente desportivo, e de terem filosofado sobre as falhas arquitetónicas de uma bancada de um estádio. Cada um destes três homens defende as cores do seu clube com um fervor religioso digno da mais lunática das igrejas evangélicas. É-nos muito difícil imaginar que esta sucessão de monólogos incendiários a que assistimos, possa em alguma circunstância transformar-se num diálogo racional. Adeptos fervorosos são, por definição, imunes à refutação das suas ideias. Pela sua própria natureza jamais podem tolerar que se ponham em causa os seus dogmas, que neste caso correspondem à superioridade das suas equipas. O que em princípio faria de programas de debate só com adeptos fervorosos, espetáculos frustrantes, ou no mínimo inúteis. Mas na realidade não é isto que se verifica, não conseguimos deixar de prestar atenção a estes programas. Vemo-los com o ar de superioridade com que vemos reality shows.

O que nos interessa não é perceber melhor como o 4-3-3 potenciou o jogo ofensivo, disso percebemos tão pouco ou menos do que estes senhores. O que queremos é confronto. É ver estes homens, que fora destes programas são respeitáveis jornalistas, médicos e advogados, a berrar, a jurar lealdade aos seus clubes, a negar a realidade, a fazer contorcionismos argumentativos para justificarem uma hipócrita mudança de opinião, a contradizerem-se, a dizerem que foi bola na mão, a insultarem-se, a dizer que afinal foi mão na bola, a perderem a faculdade da razão, em laivos de paixão clubística dizerem que não admitem o que acabou de ser dito sobre o seu clube, e numa espiral de insanidade a saírem em protesto do programa. A paixão desmedida que nutrem pelos seus clubes entretêm-nos, e é o que atrai audiências a este debate tão irracional. Jorge Jesus sabia do que falava quando parafraseou outro companheiro pensador [Pascal], dizendo que «a paixão tem razões que a razão não entende». Findo este circo, mudamos de canal. Vemos agora um programa, expectavelmente mais sério, de debate político, onde 5 pessoas, agora cada uma a defender o seu partido, aparentemente discutem uma qualquer alteração legislativa. Primeiro vemos uma pessoa a apontar fervorosamente para uns documentos, há algumas interrupções, berros, depois alguém a jurar lealdade ao seu partido, a negar a realidade, outro a fazer contorcionismos argumentativos para justificar uma hipócrita mudança de opinião, outra a contradizer-se, outro a perder a faculdade da razão, em laivos de paixão partidária a dizer que não admite o que acabou de ser dito sobre o seu partido, e numa espiral de insanidade a sair em protesto do programa. Estamos quase certos, mas mesmo assim verificamos: - sim, as pilhas do comando funcionam, mudamos de facto o canal, trata-se de um programa diferente. Não nos entretém tanto este segundo confronto irracionalmente apaixonado. 16

LUÍS BARREIROS

Ao contrário do que acontece com o 4-33, até queríamos e precisávamos de ver debatidas estas alterações legislativas que nos podem afetar. Enquanto que no mundo do futebol certas hipocrisias e paixões são perdoáveis, na política partidária o tipo de lealdade que faz com que as posições dos apoiantes de um partido mudem de acordo com o que lhe convém, ganha contornos um pouco mais preocupantes. Neste campo é crucial que os jogadores tenham ideias próprias, e um certo nível de consistência e de independência intelectual para que não sejam meros porta vozes das instituições monolíticas e dogmaticamente inquestionáveis que defendem. Como – se não por estes clubismos partidários – se explica que deputados euro-céticos do BE agora citem os elogios de Bruxelas para defender o caminho que se está a seguir? Que deputados do CDS que acreditavam na austeridade, sejam na oposição os principais críticos aos cortes no investimento público? Ou que, na corrida para a presidência do PSD, um candidato acuse o outro da traição ao partido que foi ter ousado colaborar civilizadamente com o atual secretário geral do PS? As condutas dos partidos não devem ser vistas como um dogma ao qual se deve ser fiel, devem ser questionadas não só pelos seus opositores, mas principalmente pelos seus apoiantes. A atitude cada vez mais comum de olhar para o próprio partido sem espírito crítico, como um clube de futebol pelo qual torcer, põe em causa um debate político que se quer franco e aberto; e cria adeptos fervorosos que são inúteis para qualquer tipo de discussão que almeje algum consenso. Até isto mudar, fazemos zapping entre estes programas, e ao jeito de Orwell na «Quinta dos Animais», olhamos de debate político para debate futebolístico, e de debate futebolístico para debate politico, e já não conseguimos distinguir quem defende um clube de futebol e quem defende um partido político. n


Lobos em pele de cordeiro?

GONÇALO DE SOUSA TAVARES PÉ D´ARCA

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de janeiro de 2018. O até ali impensável acontece. Pyongyang propõe enviar uma delegação de alto nível, composta por atletas e dirigentes, aos Jogos Olímpicos de Inverno que este ano se realizarão na vizinha PyeongChang, Coreia do Sul. Desde 2016 que as duas “irmãs” não encetavam diálogos oficiais e, aliás, esta abertura diplomática poderá até causar alguma estranheza se tivermos em conta que em 1988, quando Seul recebeu os Jogos Olímpicos – de verão – Kim Il-sung – avô de Kim Jong-un – decretou o boicote ao evento e, além disso, provocou a queda de um avião comercial dias antes do evento, vitimando cerca de 100 pessoas. Alicerçada no desporto, esta aproximação sempre foi sobejamente desejada pela vizinha do Sul, que, entre outros fatores, e segundo o seu ministro para a Unificação, tem como objetivo diminuir a tensão militar entre as duas nações e, também, voltar a juntar muitas das famílias que se viram separadas pela guerra da Coreia, conflito extremamente sangrento – os mortos estimam-se em 1,2 milhões - que terminou no já longínquo ano de 1953. Desde então, a península coreana tem vivido numa constante tensão latente, com episódios de maior acutilância, como é o caso do de 1988. Porém, e de forma algo surpreendente, esta aproximação é, agora, em grande parte, também muito desejada pelo Norte. Através da agência noticiosa estatal – KCNA – Pyongyang fez um apelo à unificação, sem intervenção de terceiros, incentivando todos os coreanos a contactar, viajar e cooperar entre si, reiterando ainda que irá, de forma convicta, “esmagar” todos os obstáculos que se interponham no caminho da reunificação. Neste comunicado, os norte-coreanos aproveitaram

ainda para criticar os “pró-americanos” e atacar as forças japonesas que, supostamente, levam a cabo “manobras internas e externas” com o intuito de “arruinar os embaixadores” da nação coreana. Este volte-face na postura do governo norte-coreano poderá parecer completamente contraditório e incongruente à primeira vista, especialmente tendo em conta o recente escalar de clivagens resultante dos testes do programa nuclear que, entretanto, foram suspensos – contudo, e ironicamente, os especialistas preveem que tais testes sejam retomados após os Jogos Olímpicos de Inverno. No entanto, o desejo de reunificação não é novidade. Para os coreanos a reunificação da Península afigura-se como algo mítico, um “Santo Graal”, um regresso às origens após a divisão causada pela guerra e pelo colonialismo japonês. Em 2015, 80% (!) dos sul coreanos eram a favor da reunificação. Na Coreia do Norte, 95 dos 100 indivíduos inquiridos num estudo com o mesmo propósito encarava com extrema importância a reunificação, sobretudo a nível económi17

co. O grande entrave, continua a ser, no entanto, a maneira como esse processo seria conduzido. Seria o Norte a controlar a ordem dos acontecimentos? Iria a Coreia do Sul “absorver” o Norte? Será necessário aguardar pelo o colapso do regime de Kim Jong-un? O líder norte-coreano já demonstrou ser irascível e colérico o suficiente para não se deixar domar, o que, por si só, exclui muitas das hipóteses. Uma reunificação à maneira do Norte apresenta-se ainda como muito menos provável, senão, absolutamente impossível. Deste modo, é bastante pertinente tomar outro ponto de vista na análise dos recentes acontecimentos. Poderá tudo isto ser apenas um jogo de espelhos, “para inglês ver”, com o intuito de afastar a atenção de mais algum plano do regime? Estará algo de maiores e maquiavélicas proporções a ser congeminado em Pyongyang? Talvez nunca saibamos, ou, por outro lado, talvez saibamos tarde de mais. A verdade é que do homem que enviou o próprio irmão e o tio para a morte podemos, infelizmente, esperar tudo. n


Prime Time

ANA SANTOS

N

as últimas semanas muita tinta tem sido gasta com o programa das noites de domingo da SIC: “Super Nanny”. Com origem britânica, o famoso “reality show” tem um conceito simples: apresenta-se o caso de uma criança problemática cujos pais não conseguem educar convenientemente, a “super ama” dirige-se à respetiva casa, assiste à dinâmica pais-filhos e com a sua fórmula mágica e novas regras recupera a calma e alegria familiar em apenas alguns dias. Na prática, Teresa Paula Marques assume o papel de Cesar Millan, o conhecido encantador de cães, só que no lugar de cães estão crianças. Na ótica da estação televisiva, o objetivo do programa “é sempre o de auxiliar pais e educadores a melhorarem a relação com os seus filhos, ajudando-os a estabelecer regras e limites e melhorando a comunicação entre todos” e até aqui não existe qualquer problema. O problema surge quando se fazem valer da exposição pública de crianças para esse fim e os pais ainda recebem dinheiro por isso, supostamente “como forma de compensar algumas despesas inerentes à gravação do programa”, menciona a produtora Warner Bros.TV Portugal. Não digo com isto que os conselhos da psicóloga clínica não sejam válidos ou inúteis, mas a verdade é que, primeiramente, não existe uma fórmula única para educar crianças porque estas possuem características diferentes; por outro lado, não me parece que o ambiente gerado pela entrada de duas pessoas desconhecidas, uma delas com uma câmara ao ombro, sempre a seguir os pais e os filhos em todas as suas tarefas diárias, seja propriamente propício à educação; e por último, os pais fingirem que não sabem que os filhos possuem direitos próprios e deixarem que estes sejam humilhados por todos os que tenham assistido ao programa, é uma situação muito grave.

Não me interpretem mal. Eu sei perfeitamente que os pais apenas procuram uma solução, mas, assim como a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens mencionou, existe um “elevado risco” de este tipo de solução “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”. Para além disso, o conteúdo do programa é “manifestamente contrário ao superior interesse da criança, podendo produzir efeitos nefastos na sua personalidade, imediatos e a prazo”. Segundo a Ordem dos Advogados, a transmissão televisiva da privacidade familiar, “ainda que consentida por quem exerce legitimamente as responsabilidades parentais, representa uma violação desproporcionada dos direitos de personalidade dos menores, em especial 18

do seu direito à reserva da intimidade da vida privada”. Já para não falar das artimanhas utilizadas pela sonoplastia e pela pós-produção que procuram fazer do programa a típica novela “mexicana” com vista ao aumento das audiências. No fundo, o “Super Nanny” acaba por ser tão pedagógico como o “Secret Story” é um jogo de adivinhas. Em suma, apesar de ter sido líder de audiências no seu horário, este programa acabou por se tornar uma grande dor de cabeça para a SIC que, ao não pensar se o formato respeitaria não só os direitos das crianças, mas também a cultura e os costumes portugueses, manchou parte da sua imagem e encontra-se hoje em processo judicial, assim como as famílias participantes. É verdade que já foi emitido em 21 países e resultou, mas isso não implica que em Portugal aconteça o mesmo. n


Feminismo 101

É

s a favor da igualdade e dos direitos humanos? Não te revês num mundo que inferioriza física e intelectualmente a mulher? Se sim, bem-vindo ao movimento feminista! Nesta edição o Fepiano colaborou com o HeForShe para ajudar a esclarecer o que é afinal o feminismo e porque é que ainda precisamos dele. Feminista

Aquele que acredita e luta pela igualdade de género. Homem ou Mulher. Feminista é aquele que olha para os dois sexos e vê força e poder nos dois, vê sensibilidade e emoção nos dois. O feminismo não é um movimento contra os homens, mas sim um movimento que conta com a colaboração dos mesmos. Feminista é aquele que defende os direitos humanos, não aquele que defende a superioridade da mulher. A isso chama-se “femismo”, o antónimo de machismo. Muitos apontam que a desigualdade do movimento começa no próprio nome, mas verdade é que feminismo é só outra palavra para igualdade. Ondas feministas:

Tal como todos os movimentos o feminismo também tem uma história e passou por várias fases de reivindicação. É comum chamar a estas fases “ondas feministas”, termo que pode ter ligação com a mitologia grega. Segundo a lenda, aquando a formação de Atenas, a mulher podia votar. Para escolher o nome da cidade foram convocadas eleições. Todos os homens votaram em Posídeon, enquanto todas as mulheres elegeram Atena, que venceu. Irritado, Posídeon, deus do mar, atacou a cidade com as suas ondas. Para salvar a cidade as mulheres aceitaram perder o direito ao voto. Quando falamos de ondas de feminismo talvez devêssemos falar de contra-ondas, prontas a lutar pelos direitos que lhes foram retirados ao longo de séculos de História. É no século XX que a viragem acontece e feminismo ganha nome. Atualmente contam-se quatro ondas: a primeira em

MARIANA ESTEVES (HeForShe) BEATRIZ MOREIRA

1910, com o movimento sufragista; a segunda em 1960 contra a desigualdade económica e a hipersexualização do corpo feminino; a terceira data de 1990 com mulheres de todas as raças, gênero, classe, orientação sexual, ideais políticos e estilo de vida a juntam-se ao movimento; a mais recente onda combate o assédio sexual e temos hoje a honra de a presenciar em movimentos como o #MeToo. Note-se que estas fases não são iguais em todo o mundo e o movimento feminista ainda tem frentes de batalha que passam reivindicação de diretos básicos em muitos países. Para além disso, direitos conquistados não são direitos garantidos. O exemplo de Israel caracteriza bem esta realidade, já que o combate pela emancipação feminina parou e regrediu perante os graves problemas de segurança que se vivem no território. Nos países ocidentais, ditos desenvolvidos, o feminismo continua vivo e com muitas razões para continuar a fazer parte do nosso quotidiano, pois, apesar de globalmente a condição das mulheres estar a melhorar, progressos legislativos tardam a produzir efeitos concretos. A “rape culture”, o assédio, a desigualdade no acesso a cargos de poder e a espaços de opinião são apenas algumas das dificuldades ainda por resolver. Igualdade

Por definição “A igualdade ocorre quando todas as partes estão nas mesmas condições, possuem o mesmo valor ou são interpretadas a partir do mesmo ponto de vista”. A igualdade mede-se à partida. Se o ponto de partida entre homens e mulheres não é o mesmo, os resultados esperados dos dois não podem ser os mesmos. O HeForShe luta por dar os mesmos inícios aos dois sexos. As mesmas oportunidades. Os mesmos sonhos. As mesmas hipóteses. “Man up”

A expressão “man up” ou em português, “faz-te homem” é, de acordo com o Cambridge Dictonary, uma expressão 19

utilizada com objetivo de pedir a alguém para crescer, ser corajoso e cumprir as suas funções. Por outras palavras, diz respeito a estereótipos antigos sobre o que significa ser um homem. Um homem é forte, não mostra fraqueza, assume com bravura as suas responsabilidades e providencia a sua família. A ideia que a masculinidade não pode estar associada à fragilidade ou à sentimentalidade faz parte de uma cultura que se limita a pôr os géneros em caixas, ignorando o facto de a problemática do género ser um espetro onde pouco é preto e branco (ou deveria dizer azul e cor-de-rosa?). O feminismo é também um movimento de libertação para os homens. Acabar com a narrativa destrutiva que diz aos rapazes para “se fazerem homens”, mostrar que os sentimentos são válidos independentemente do género. HeForShe

O movimento fundado pela ONU Mulheres, é um esforço global para envolver homens na remoção das barreiras sociais e culturais que impedem as mulheres de atingir o seu potencial, e ajudar homens e mulheres a modelarem juntos uma nova sociedade. Tem um carácter inclusivo, convocando e reconhecendo o papel fundamental dos homens como partes igualitárias na elaboração, promoção e implementação de uma visão comum de igualdade de gênero. Emma Watson, embaixadora deste movimento, concentra-se em sensibilizar as audiências para este problema. O que pretendemos, é que te juntes a nós, e te tornes tu próprio um embaixador desta causa. O HeForShe Portugal concentra-se agora em diversos núcleos universitários, entre eles o núcleo da FEP. Com o objetivo de sensibilizar os jovens adultos que se preparam para ingressar no mercado de trabalho, o HeForShe FEP tem com intuito abordar temas como a desigualdade entre os sexos no mundo empresarial. Entra em contacto com heforshe.porto@gmail. com para mais informações. If not me, who? If not now, when? n


Tanta conversa à volta da igualdade de género

A

quele que seguir no Facebook as páginas do World Economic Forum, The Economist — só para dar alguns exemplos — constata que a igualdade de género é um tema bem proeminente na agenda política e institucional. Diversas iniciativas recentes, de entre as quais a He for She, instigam a discussão, a difusão de mensagens de acordo com os seus interesses. Contudo, numa perspetiva pessoal, considero que os movimentos feministas atuais carecem de contextualização. Se queremos uma reforma social que elimine por completo sistemas sociais que serviram a sociedade ocidental até agora (o patriarcado, e.g.) temos que incluir no nosso discurso

o contexto histórico e socioeconómico em que as sociedades evoluíram. Okay, vamos acabar com a discriminação entre géneros, vamos idealizar um mundo utópico, vamos concretizar a visão de, um dia, homens e mulheres, de mãos dadas, caminhem no caminho do progresso em pé de igualdade… mas ninguém pára para pensar um pouco e refletir na evolução da nossa civilização atual sofisticada e perceber que os papéis de género, muito provavelmente, derivaram da aplicação implícita do conceito económico de vantagens comparativas e que, nesse sentido, fazem sentido. Serve o presente artigo para explicitar a minha visão pessoal com o único objetivo de incidir um novo 20

ALEX F. ALVES

feixe de luz ao fenómeno que se nos apresenta. A civilização, como hoje a conhecemos, desenvolveu-se muito recentemente no quadro da história evolutiva do Homem (it’s not my fault). As primeiras civilizações (Sumérios e Egípcios) emergiram há cerca de 5.000 anos a.C. Anteriormente, as unidades sociais mais extensas eram tribos (caçadores-recolectores) constituídas por 150 almas vivas, nómadas e cujo sistema económico rudimentar era o da subsistência. O que permitiu, portanto, de entre outros fatores, a transição de errantes caçadores-recolectores para os cosmopolitas e admiradores de arte civilizados foi a agricultura. No cenário em que consideramos a


vida humana antes do desenvolvimento agrícola e civilizacional, será que a diferenciação entre géneros não faria sentido? Haveria feminismo no tempo dos homens das cavernas? Ou, melhor, havia necessidade de ativismo feminista no tempo das cavernas? Segundo David Buss (1999), no âmbito da Psicologia Evolucionária, observamos uma realidade que se designa por investimento parental. Esta teoria postula que o sexo que investe mais recursos na procriação é o que é mais exigente na escolha de potenciais parceiros, por entre as opções que tem. Ora, como na generalidade dos mamíferos, é sobre o sexo feminino que recai o maior nível de investimento. Para além da gestação de 9 meses, há um período de lactação posterior ao parto. Trata-se de um período da vida das mulheres mais vulnerável pela natureza do papel que desempenha por imperativos biológicos (talvez Deus fosse machista, não se sabe!). Soma-se a esta equação, a ausência de contracetivos eficazes no cenário dos primórdios da civilização que estamos a considerar e vêem-se os pressupostos racionais para alocação diferenciada de tarefas entre os géneros baseado nas vantagens comparativas. Os homens, em média, são mais fortes fisicamente que as mulheres. Talvez, por tal razão, e possivelmente por outras também, os homens foram encarregues da caça e da proteção da tribo contra forças externas adversas como predadores animais assim como outras tribos que pretendiam possuir os recursos em sua posse. Por outro lado, as mulheres estariam encarregues, na maioria das vezes, da vida doméstica e da educação dos filhos. Tal decisão era prática. O género que fosse relativamente mais produtivo e eficiente na prossecução de uma dada tarefa, era o que seria responsabilizado por tal tarefa. Faz sentido neste contexto que foi o nosso, durante milhares de anos antes da criação da agricultura e da pecuária! Como referido por Jack Donovan (2012), o feminismo e a equidade so-

cioecónomica entre géneros estão alicerçados em três aspetos: segurança, globalismo e tecnologia. Sem estes três pilares, o feminismo esmorecia perante a realidade em estado bruto. Com a terceirização da economia nas nações mais desenvolvidas, com a automatização dos processos produtivos repetitivos, com a existência de um Estado de Direito assegurado por forças militares profissionais que apliquem a coerção física aquando do incumprimento da lei, com a invenção e proliferação a preços acessíveis dos contracetivos, as mulheres encontram-se num contexto em que podem e devem reivindicar equidade no acesso às diferentes profissões, decidindo-se montantes das remunerações e promoções profissionais de acordo com a competência, exclusivamente. Hoje em dia, por causa destes fatores supracitados assim como outros, não faz sentido a alocação por géneros aos diversos setores de economia. Em competências intelectuais e sociais, não há quaisquer diferenças entre homens e mulheres, creio eu. Aliás, como patente em Pink (2006), enfrentaremos nos próximos anos uma transição de uma economia do conhecimento/informação para uma Era Concetual, na qual as competências sociais, empatia, procura de sentido, bem-estar emocional serão valorizadas e que, preponderantemente, são expressas e detidas pelas mulheres. Constitui, portanto, até uma vantagem para o sexo feminino. Contudo, não significa que lá por as grandes empresas e elites políticas terem defendido publicamente a igualdade de género que seja algo que genuinamente apoiem. Possivelmente, tal como referido por Chomsky (2016), haver eventuais diferenças de diversa natureza (como etnia e género) são fatores de ineficiência numa dada empresa, sendo do interesse corporativo que os cidadãos sejam despojados das suas identidades originais culturais e sejam não mais que unidades do fator trabalho substitutos perfeitos entre si e identidades consumidoras. 21

“Os papéis de género, muito provavelmente, derivaram da aplicação implícita do conceito económico de vantagens comparativas”

Para além de todas estas considerações, há que entender que os fenómenos sociais não são lineares. Ponto. Vejamos, por exemplo, o sucesso de vendas da trilogia 50 Shades of Grey assim como o sucesso de bilheteiras da sua adaptação cinematográfica. Como se explica que, numa sociedade em que há tanta conversa à volta da igualdade de género, a grande maioria do público feminino consuma uma história de amor sadomasoquista na qual as mulheres são indubitavelmente as submissas? Não será o dossier do senhor Grey no qual tem registado, como um catálogo de produtos, as informações das suas submissas um crime humanitário, machista, retrógrado, desprezável segundo as nossas conterrâneas feministas? Todavia, as mulheres, em geral, por todo o mundo (nem todas, eu sei) deliciam-se e fantasiam com este género de enredo que proliferou imenso nas livrarias… expliquem-me isto, por favor! Basicamente, o que trago aqui é que o contexto socioeconómico modela o sistema social mais adequado para a maximização do bem-estar das pessoas. Não podemos apagar simplesmente o passado a partir do qual crescemos como Humanidade, não podemos simplesmente atacar e menosprezar estruturas sociais já vigentes (como o patriarcado) e os papéis de géneros sem questionarmos o porquê de terem surgido, mesmo sabendo que são meros constructos sociais. n


Another Day in Paradise? She calls out to the man on the street ‘Sir, can you help me? It’s cold and I´ve nowhere to sleep Is there somewhere you can tell me?’ (…)

W

ashington. Inverno de 1988. Um táxi pára junto ao maior hotel da cidade. Um homem sai. Atónito não quer acreditar no que vê. Milhares de sem-abrigo amontoam-se pelas ruas da capital daquele que é o país mais rico do mundo. A fome e o frio prostram-nos no chão. O desprezo e a indiferença levam-lhes a pouca esperança que têm. A dignidade há muito que a perderam. Esboçam um grito silencioso, um gemido tímido, um olhar vazio. Mas ninguém os ouve. Ninguém os escuta. Ninguém os vê. Resistir, para quê? A doce, serena e inevitável morte chama mais alto do que a fria e miserável vida de animal. Indiferente, o mundo continua. A vida, a vida que é vivida, não pára. Prossegue. A vida suga-nos, numa rotina de indiferença brutal. Mas há sempre alguém que olha para o lado. Há alguém que se não se acostuma. Aquilo que Phil Collins sentiu, naquele dia, naquela rua, abalou o paraíso em que vivia. O Sol nasce para todos, mas a Lua só alguns a veem. Não era Inverno, nem era Washington, mas o sentimento foi semelhante. Há muito a fazer pelo mundo. Fui para Norcia. O arrepio gela e paralisa? A mim não. Tinha medo, admito. Mas era a melhor de todas as lutas! Fiz o sinal da cruz e avancei. Não é fácil deixar uma pátria, uma família, amigos,… para ajudar outra terra. Mas era ali que era mais preciso. Só estando lá é que percebemos o arrepio de quem vê a terra a tremer, de quem não sabe dos seus e procura em desespero, de quem vê uma vida de trabalho desmoronar em segundos. Vale a pena olhar o sorriso da criança

(Solidarity Soul) JOSÉ TIAGO SOUSA (Solidarity Soul) RENATA VIANA

que nos agradece dia a após dia e que grita: “Grande Tiago!”. Mas éramos também heróis com as telhas e os tijolos. É que as dores de esforço, não podiam fazer parar a reconstrução. Ajudar é isto. É sacrifício. Mas no final, não somos os mesmos. Quem seria eu se tivesse deixado a inércia tomar conta de mim? Passou Norcia. Voltei. “Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já o seu ramo se torna tenro e brota folhas, sabeis que está próximo o Verão” (Mateus, 24:32). É um importante passo, o de transpor uma ideia altruísta para a realidade: “Uma ajuda para a inclusão e respeito pela diversidade”. Assim foi, porque há outros que também não se acostumam. Juntamos um grupo plural. Criamos a “Solidarity Soul”. A diversidade de contextos que se conseguiu reunir para esta causa foi deveras interessante. A pluralidade em idade, origem, formação, e até mesmo de condição de saúde que a pequena “Solidarity Soul” de então reunia, fazia jus àquela que era sua missão. Uma missão que não seria a mesma sem a Renata, alguém que apesar da sua condição personifica, com grande força e coragem, uma causa que é de todos! Nesta associação convergem as mais variadas e importantes artes do saber: a Economia, as Letras, o Direito e as Artes, que aparecem generosamente ao dispor das pessoas e de várias causas nobres. Houve, desde o início, o compromisso de explorar as potencialidades de cada um, trabalhando no sentido de adaptar e juntar estas capacidades a soluções que se possam implementar no terreno, reduzindo ao máximo as lacunas que se foram encontrando. Somos Missão, Visão e Valores. Valores humanistas, de tolerância e respeito pela diferença. O voluntariado e o apelo a causas sociais podem abordar variadas atividades dentro do âmbito solidário. Por isso, a missão da “Solidarity Soul” 22

passa por reconstruir o ideal da solidariedade, ultrapassando os limites da ajuda convencional. Reforçamos o sentimento comunitário pela união na pluralidade das diferenças dos vários grupos de pertença, até agora, limitativos. Como vos disse: “Quem seria eu se tivesse deixado a inércia tomar conta de mim?”. Muitos de nós abraçaram este projeto por terem sentido na primeira pessoa a falta de ajuda por parte da sociedade. Sentiram a necessidade de fazer parte de algo que se propunha a preencher o vazio que evidenciaram. A vertente de inclusão está sempre presente. Procuramos abrir portas a quem busca um refúgio. A integração faz-se não só com quem nos procura, mas também com quem se junta a nós. É um processo cíclico e vantajoso para ambas as partes. A associação tenciona trabalhar para o futuro. Junta-te a nós. Procuramos almas caridosas que se juntem a nós e deem o seu contributo. O requisito é simples: ser capaz e ter vontade de dar o seu tempo a fim de melhorar a vida de alguém. Os valores deste grupo salientam o forte Humanismo que tanto se quer, mas que se vai perdendo nos dias de hoje. É neste sentido que se desenvolve esta missão e é daqui que partimos. Acreditamos na solidariedade e no poder que as pessoas têm para melhorar o mundo. A lágrima seca, o arrepio fortalece! Porque o Paraíso é a promesa de um futuro melhor, um “além na Terra”. Nós somos Solidarity Soul. (…) Oh think twice, it’s another day for You and me in paradise Oh think twice, it’s just another day for you You and me in paradise Just think about it n


Madrid Business Trip

C

om um mundo cada vez mais globalizado e, consequentemente, com uma crescente facilidade de mobilidade do fator trabalho, surge a necessidade de mostrar aos futuros trabalhadores - atuais estudantes - as condições que lhes serão oferecidas para lá do ambiente nacional. Para que possam ter uma visão transparente das suas possibilidades futuras, não há melhor método do que conhecer “in loco” as condições oferecidas em diferentes empresas sediadas em diferentes cidades. E é com esse mesmo intuito que a FFC teve o prazer, no ano passado, de criar as “International Business Trips (IBT)”. Tendo como objetivo dar uma visão geral do mercado de trabalho internacional, estas viagens visam dar a conhecer, todos os anos, uma cidade diferente aos estudantes, começando por aquelas que nos estão mais próximas e cuja barreira linguística é mais fácil de superar: as grandes cidades do

nosso país vizinho, Espanha. A primeira edição, realizada em 2017, focou-se em Barcelona e teve uma enorme adesão por parte dos estudantes, o que assegurou a sustentabilidade do projeto e incentivou a sua continuação. E é este incentivo que nos leva a organizar a 2ª edição das IBT que decorre em Madrid, nos dias 28 de fevereiro, 1 e 2 de março. Madrid é uma grande metrópole, a maior da Península Ibérica. Alberga um elevado número de empresas, de várias dimensões e setores distintos, oferecendo assim um variadíssimo leque de carreiras profissionais. Não obstante, o “modus operandi” das empresas madrilenas é diferente do das empresas portuguesas devido às diferenças culturais que, ainda que não sejam assim tão acentuadas, são visíveis. Esta questão será certamente mencionada em todas as visitas realizadas pois é o que diverge das empresas com que estamos mais habituados 23

FFC

a lidar, isto é, empresas sediadas em Portugal. No primeiro dia, 28 de fevereiro, serão visitadas as instalações do Banco Santander Totta - grupo bancário liderado pelo Banco Santander S.A., o maior banco da zona euro -, e as instalações da Designit - empresa dinamarquesa dedicada ao design que opera no mercado global. No segundo dia, 1 de março, os estudantes terão a oportunidade de visitar a IBM que constitui a maior empresa da área de informática do mundo. Esta edição da IBT termina no dia 2 de março com a visita às instalações da Google, empresa multinacional de software e serviços online. Se estás interessado em expandir horizontes e conhecer empresas multinacionais com sede em Espanha, conhecer a sua cultura e de que maneira divergem os seus métodos e o dia-a-dia das empresas portuguesas, esta é a atividade certa para ti. n


Em busca de refúgio

MARTA CARVALHO

APOIOS: TIRAGEM 200

Este projecto é apoiado pela U. Porto e pelo Banco Santander ao abrigo do programa "Santander Universidades".

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Fepiano XXX  
Fepiano XXX  
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