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EDUCAÇÃO DE SURDOS


PALAVRA DA PRESIDENTE

Uma resposta ao Mec

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s palavras de desvalorização da cultura surda proferidas por uma representante do Ministério da Educação no último número da Revista da Feneis foram motivo de grande indignação da comunidade surda brasileira. Esse foi o grande propulsor da produção desse número da revista. Decidimos publicar um dossiê sobre a educação de surdos, com a participação dos principais pesquisadores da área no país. Dessa maneira, a Feneis expressa o seu repúdio ao posicionamento do Mec e busca dar visibilidade às questões dos surdos, esclarecendo vários equívocos que ainda existem a respeito da nossa cultura e identidade. Não podemos deixar de registrar aqui a nossa surpresa em relação ao comentário, na medida em que o Mec tem sido um grande parceiro nas conquistas da comunidade surda. Sem dúvida, nesse momento o posicionamento do Mec se revela um paradoxo. Ao mesmo tempo que produz um discurso de desvalorização da cultura surda, apoia algumas iniciativas como o curso Letras Libras e o exame Prolibras, que preconizam o uso da Língua de Sinais e a vivência da cultura visual. Trouxemos também nesse número algumas conquistas legais como a recomendação do Conade, que garante a acessibilidade dos surdos nos concursos, e a norma da Justiça do Trabalho, que prevê a obrigatoriedade de intérpretes de Libras nas audiências. Vale a pena ler também a reportagem sobre o acampamento das crianças surdas na Venezuela e a matéria sobre a iniciativa inclusiva da Fifa na última Copa do Mundo de Futebol. Não deixem de acompanhar as realizações da

Feneis, que nesse último semestre firmou importantes parcerias e lutou, junto a órgãos públicos, pelos direitos e pela melhoria da qualidade de vida dos surdos. Desejamos a todos uma boa leitura e convidamos toda a comunidade surda brasileira para festejar o Dia do Surdo, comemorado em 26 de setembro. Procurem as associações ou escolas de sua cidade. Parabéns a todos os surdos brasileiros.

Karin Strobel Presidente da Feneis

SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 03


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Capa Rafael Motta Assessoria de Comunicação Rita Lobato – Matriz Assessor de imprensa Diogo Madeira Projeto Gráfico e Diagramação Thaís Magalhães Abreu Revisão de Textos Lourdes Nascimento Assessoria de Comunicação Rita Lobato – Matriz Assessoria de Imprensa Diogo Madeira Impressão Editora Rona

Comissão científica Gladis Perlin – Presidente – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Emiliana Rosa – Secretária – Universidade Federal da Bahia (UFBA) Flaviane Reis – Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Carolina Hessel - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Heloíse Gripp – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Mariana Campos – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)


Rafael Motta

A formação de futuras lideranças surdas pode começar bem cedo, antes do que se imagina. Dois surdos brasileiros participaram do II Acampamento Internacional de Crianças Surdas, realizado na Venezuela pela Federação Mundial dos Surdos (WFD).

CAPA

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Qual a melhor escola para as crianças surdas? Por que a Língua de Sinais deve ser o meio de instrução dos surdos? Existe cultura surda? Essas e outras questões foram discutidas pelos principais pesquisadores da área, em resposta ao posicionamento do Ministério da Educação, que afirma não existir cultura surda. Confira!

Arquivo Cefet/MG

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Uma recomendação publicada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) promete revolucionar a acessibilidade dos surdos nos concursos. A longo prazo, o documento pode trazer uma verdadeira transformação nas ferramentas de avaliação do conhecimento voltadas para os surdos. É possível prever que, num futuro talvez não muito distante, todas as escolas apliquem provas em Libras?

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Palavra da Presidente Curtas Acessibilidade Internacional Esporte Capa Legislação Biblioteca Feneis pelo País Acervo Espaço Acadêmico

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CURTAS

É criada a nova associação representante dos intérpretes de Minas Gerais

Pedagoga surda defende dissertação de mestrado sobre subjetividade dos surdos

uscar a integração entre os intérpretes de Libras do estado e promover estudos em Língua de Sinais e Língua Portuguesa. Esses são os principais objetivos da recém-criada Associação dos Profissionais Intérpretes de Língua de Sinais de Minas Gerais (Apilsemg). A reunião de fundação foi realizada no dia 17 de julho no escritório regional da Feneis em Belo Horizonte e contou com a presença de 21 sócios fundadores, sendo dois deles surdos. Segundo o presidente da entidade Juliano Salomon esse é um momento importante para os intérpretes de Libras, já que o projeto de lei que reconhece a profissão pode ser sancionado a qualquer momento pelo presidente Lula. “Vamos buscar reunir os profissionais de todo o estado e trabalhar pela legitimidade da profissão”, explica Juliano. Ao todo já são 16 associações no país. Uma das metas da Apilsemg é se juntar às outras entidades com a filiação à Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores, Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais (Febrapils). A entidade ainda está em fase de regularização legal, mas já busca o cadastramento de novos sócios. Com base nos dados do Prolibras (Exame de Certificação de Proficiência na tradução e interpretação da Libras/Português/Libras), estima-se que existam 500 intérpretes certificados no estado. Qualquer pessoa da comunidade surda pode se associar: surdos, ouvintes, intérpretes e guia-intérpretes de Libras. Basta enviar um e-mail para contatosapilsemg@gmail.com. As mensalidades custam R$ 20. Outras informações podem ser obtidas pelo site http://apilsemg.blogspot.com.

evisitar a própria história de vida à luz das teorias de Freud, Lacan, Foucault, Souza, entre outros autores. Essa foi a proposta da pedagoga surda Regiane Agrella na dissertação de mestrado defendida no final de maio deste ano pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Intitulada Língua, subjetividade e opressão linguística – Interrogações a uma pedagogia (Ab)surda, a pesquisa foi orientada pela professora Regina Souza e buscou analisar a relação da família, da medicina e da pedagogia com a língua de sinais. A partir de uma análise de fragmentos da memória, a pesquisadora traçou uma reflexão sobre o papel da educação na própria constituição das subjetividades dos surdos. A incompreensão vivida na escola, a imposição do oralismo, a chegada de um filho surdo e um ouvinte, a luta por uma educação bilíngue, a militância na comunidade surda e vários outros momentos foram relembrados e analisados sob a perspectiva da psicanálise e das teorias da educação. Segundo Regiane, cada palavra e cada situação vivida constituem o “ser surdo”. “Por isso temos que ter muito cuidado com as palavras. Elas deixam marcas eternas na subjetividade de cada um. Os profissionais da área da surdez precisam ter consciência disso”, explica a pesquisadora ao relatar experiências pessoais de descaso e opressão relacionadas à identidade surda e ao uso da língua de sinais. Além de ser a primeira aluna surda da Unicamp a apresentar a dissertação em língua de sinais, Regiane foi uma das primeiras a participar do processo seletivo do mestrado em Libras. Durante os dois anos da pesquisa a pedagoga contou com intérpretes e com a gravação das traduções das aulas em DVD.

Primeira diretoria da Apilsemg. Da esq. para a dir.: Karla Fortes (secretária geral), Ellen Garcia (2ª secretária), Tatiana Pimenta (vice-presidente), Juliano Salomon (presidente), Cristina Menezes (2ª tesoureira), Andressa Oliveira (1ª tesoureira) e Marcelo Souza (1º secretário).

06 | REVISTA DA FENEIS | JUN-AGO | 2010

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Da esquerda para a direita:Regiane Agrella, Marianne Stumpf e Regina Souza


Arquivo pessoal

II Seminário da Diversidade Bilíngue em Governador Valadares

Evento promete reunir cerca de 500 pessoas no norte de Minas Gerais

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om o objetivo de disseminar a cultura surda, as teorias e as práticas da educação bilíngue, será realizado de 3 a 6 de setembro o 2º Seminário da Diversidade Bilíngue, em Governador Valadares. Com o tema Em Busca de Caminhos: Inclusão e Bilinguismo, o evento promete repetir o sucesso da primeira edição. Com palestras e minicursos, a programação conta com os principais pesquisadores brasileiros da área. Segundo o coordenador do evento Duanne Bonfim, a iniciativa partiu da percepção de que a educação bilíngue ainda é pouco divulgada em Minas. “Há a necessidade de grandes encontros no Brasil para a discussão e articulação dessa questão junto à comunidade”, comenta Bonfim. Durante a abertura será lançado o livro Aline no mundo dos tons, da coleção Aprendendo da editora Asas, além de outros livros da área.

Encontro de jovens surdos de Minas será em Juiz de Fora

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s jovens surdos mineiros vão se reunir entre os dias 3 e 7 de setembro na cidade de Juiz de Fora para o primeiro encontro estadual. A expectativa é de que cerca de 150 pessoas entre 18 e 30 anos participem do evento, que tem como tema Motivando a Consciência Jovem e Tornando Líderes. As palestras vão tratar de assuntos como independência dos jovens, liderança, história dos surdos, sexualidade, entre outros. A inscrição é gratuita e pode ser feita no site www.jovenssurdos.org.br/ejsmg. Todas as despesas serão custeadas pela Prefeitura de Juiz de Fora, patrocinadora do evento. A Feneis Minas Gerais também apoia o encontro.

Marcelo Pedrosa e Beatriz Lonskis em Gramado

Manifestantes vão ao Festival de Cinema de Gramado

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elo sexto ano consecutivo a Campanha Legenda Nacional chegou ao Festival de Cinema de Gramado. Sob a fina garoa e baixas temperaturas, cerca de 50 manifestantes se reuniram em frente à Casa do Artista no dia 14 de agosto para difundir a causa e conscientizar a classe artística e os cinéfilos sobre a importância da legenda. Os participantes enfrentaram o frio gramadense no melhor estilo europeu. Depois da manifestação, o idealizador da campanha Marcelo Pedrosa e a coordenadora de São Paulo Beatriz Lonskis foram até a Casa do Artista para entregar a carta de solicitação ao presidente do festival. A responsável pela organização da manifestação, Carilissa Dall’Alba, que atua nessa função há cinco anos, admite ter dificuldades em convencer os produtores da importância da inclusão das legendas. Mas isso não é motivo para desistirem da causa, explica Carilissa: “Muitas promessas foram ditas, infelizmente muitas não foram cumpridas. Por isso ainda estamos na luta e fazemos manifestações. Só vamos parar quando houver legendas nos filmes brasileiros”. A legislação atual prevê a obrigatoriedade de legendas ou de intérpretes de Libras em programas artísticos, conforme consta no Decreto Federal nº 5.296/04. O coordenador nacional explica que, além de buscar o cumprimento da lei, outro motivo que levou a campanha a Gramado foi a tentativa de mobilizar os formadores de opinião. “O público do festival é formado por cineastas, produtores, artistas e jornalistas, profissionais conscientes e sensíveis que precisam conhecer e incentivar a acessibilidade”, afirma Marcelo Pedrosa. Antes do encontro com os produtores na Casa do Artista, os surdos contaram com a exibição do filme legendado “Lula, o filho do Brasil”, momento organizado pelo CPL (Centro de Produção de Legendas). Criada em 2004 em Recife, atualmente a campanha possui 14 coordenadores em todo o país. SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 07


ACESSIBILIDADE

Recomendação do Conade estabelece diretrizes para acessibilidade dos surdos nas provas |Por Regiane Lucas

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A recomendação do Conade prevê a gravação antecipada de vídeos com as traduções das provas para a Língua de Sinais, além de disponibilizar intérpretes para acompanhar os testes sempre que solicitado pelos candidatos surdos ou com deficiência auditiva. Por serem novidade ainda para muitas instituições organizadoras de concursos, as provas em vídeo devem utilizar como referência a experiência do Prolibras (Exame Nacional para Certificação de Proficiência em Libras), instituído pelo Ministério da Educação. O trabalho dos intérpretes feito com antecedência deve garantir que as provas em Libras tenham boa qualidade na tradução, já que eles terão tempo de pesquisa. Outro desafio, explica Shirley Vilhalva, é que os candidatos deverão não só conhecer o conteúdo, mas ser fluentes na leitura em Libras. “Muitos surdos produzem seus discursos em Libras, mas não conseguem fazer leituras nessa língua de assuntos que costumam cair nos concursos, como legislação ou teorias. Isso faz com que haja uma confusão e que a prova seja taxada de difícil”, explica. À direita, a representante dos surdos no Conade, Shirley Vilhalva

Arquivo pessoal

oncursos públicos com questões traduzidas para a Libras e correção diferenciada das provas discursivas, considerando o português como segunda língua. Essas são as principais diretrizes da Recomendação nº 1 do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade), de 15 de julho deste ano. O objetivo é possibilitar a igualdade de condições aos surdos nos concursos, com “a remoção de barreiras que impeçam a plena e livre concorrência, sem prejuízos aos demais participantes”. Até a publicação da recomendação foram dois anos de discussões, desencadeadas a partir da solicitação do engenheiro Adelson Ferraz, pai dos surdos Rafael e Daniella de Araújo Ferraz, de Recife. Adelson e Rafael buscaram várias fundamentações na legislação e enviaram o pedido ao Conade. A representante dos surdos no órgão, Shirley Vilhalva, comemora a publicação da recomendação: “considero uma das maiores conquistas para o surdos terem a oportunidade de se efetivarem nos órgãos públicos e ainda garantir o intérprete no local de trabalho”. Depois de tentar a aprovação em vários órgãos públicos, o analista de sistemas Rafael acredita que a recomendação vai tornar os concursos mais justos para os surdos. “As vagas são poucas e muito concorridas. Muitas vezes cheguei bem perto e a tradução para a Libras fez falta nesses momentos. Às vezes o intérprete era contratado, mas só tinha autorização para traduzir os enunciados”, conta Rafael. O analista adverte, entretanto, que não basta ter as provas em Libras. “Com certeza isso vai melhorar a pontuação e a colocação do candidato, mas ele tem que estudar. Vai melhorar para o surdo, mas não significa que ele vai passar”, lembra Rafael. No caso da estudante de design Thais Magalhães, não havia nem prova traduzida nem intérprete de Libras no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2009. Ela relata que não havia espaço para a solicitação no formulário disponibilizado e que a universidade também não se preocupou em solicitar o intérprete ao Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), organizador do exame. “Fiquei sem saber o que fazer na prova. Nem mesmo as orientações eu pude compreender com exatidão”, comenta Thais. 08 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010


“A habilidade de leitura em Libras passa a ser uma demanda que deve ser trabalhada na educação dos surdos. Isso significa que a recomendação traz desafios para outras esferas que vão além dos concursos”, defende Shirley. Ainda segundo o documento, todos os editais deverão ser disponibilizados de forma bilíngue e os surdos terão a opção de solicitar intérpretes de Libras no ato da inscrição.

Já a correção diferenciada para provas discursivas deve estar prevista no edital do concurso, assim como a recomendação do Conade, deve “valorizar o aspecto semântico e reconhecer a singularidade linguística da Libras”. Isso significa que serão observados o conteúdo e o conhecimento em detrimento da forma, fazendo-se a diferenciação entre o conhecimento e o desempenho linguístico. Além disso, as provas deverão ser avaliadas ou por professores de Língua Portuguesa que tenham conhecimento sobre a Libras ou por professores acompanhados de intérpretes. Para o gerente geral da Fundação Mariana Resende Costa (Fumarc), de Belo Horizonte, Ronaldo Ribeiro Leite, para concorrerem em pé de igualdade com os outros candidatos, os surdos devem ter um tratamento diferenciado, de acordo com a sua especificidade linguística. “A Fumarc sempre disponibilizou intérpretes de Libras e correções diferenciadas nos concursos mesmo antes da recomendação. Os professores da Língua Portuguesa que acompanham os concursos são pessoas conscientes da necessidade de valorizar o aspecto semântico e sintático em detrimento do aspecto estrutural da linguagem”, comenta Ronaldo.

A recomendação pode significar, explica Shirley Vilhalva, uma revolução na educação dos surdos. “Vai dar muito trabalho, mas tenho certeza de que a escola que receber os surdos vai ter que se estruturar para preparar provas em Libras. Uma coisa leva a outra. O bom preparo na escola vai fazer com que os surdos tenham melhores chances

nos concursos. As escolas vão ter que se adequar a essa prática”, comenta Shirley. A presença de intérpretes de Libras também no mercado de trabalho é outra demanda que pode alcançar êxito a partir da resolução. A professora de Libras da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) Emiliana Rosa foi aprovada no concurso há quase um ano e até hoje não conseguiu intérpretes de Libras. “Sou prejudicada nas reuniões, conselhos, palestras e na própria sala de aula. Já expliquei da importância do intérprete e ainda continuo sem a mediação”, reclama Emiliana. “O estudante, depois que vai para o mercado de trabalho, continua sendo surdo. Muitas vezes as instituições esquecem disso”, completa Shirley.

Para o intérprete de Libras de Belo Horizonte Marcelo Souza a recomendação é importante, pois define melhor o papel do intérprete nos concursos. Entretanto, ele acredita que a autonomia dos surdos não deve ser comprometida. “O papel do intérprete precisa visar a autonomia do sujeito. Devemos nos preocupar não só com a entrada dos surdos no mercado de trabalho, mas também com a permanência e isso deve ser feito de maneira autônoma”, defende Marcelo. Os estágios probatórios, explica Shirley Vilhalva, também vão servir como avaliação das potencialidades do surdo aprovado de permanecer no emprego e desempenhar suas funções. Marcelo acredita também que, no caso das interpretações simultâneas em Libras, pode haver o risco de o profissional colocar a sua própria interpretação. “Tanto o sucesso quanto o fracasso vai depender mais do intérprete do que mérito, podendo o surdo ser prejudicado. Há uma responsabilização maior do profissional”, aponta Marcelo. Ele acredita que as traduções preparadas com antecedência são a melhor forma de traduzir os exames.

www.mj.gov.br/conade

A recomendação tem o objetivo de explicar algum ponto da Lei que não está claro e que pode oferecer margem de dúvida. Não tem força de Lei, mas é um importante instrumento de consulta para os juízes. Como foi elaborada pela Administração Pública, por meio da Secretaria de Direitos Humanos da qual o Conade faz parte, órgãos federais assinalam positivamente para o cumprimento da recomendação.


INTERNACIONAL

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Brasileiros participam de acampamento internacional de crianças surdas na Venezuela

les chegaram tímidos à Ilha de Margarita, na Venezuela, mas bastou encontrar as outras 60 crianças surdas de 20 países diferentes que Daniel Leme e Thaís Formagio, de 11 anos, rapidamente se entrosaram. Eles foram os representantes do Brasil no II Acampamento de Crianças Surdas, realizado pelo Departamento dos Jovens da Federação Mundial dos Surdos (WFDYS) entre os dias 1º e 8 de agosto. Entusiasmados e com uma fluência admirável em Libras, Thaís e Daniel contam que se divertiram, fizeram novas amizades e conheceram pessoas e costumes variados. “As brincadeiras e os jogos em equipe foram muito animados. Aprendemos logo a nos comunicar em Gestuno. No início senti uma sensação diferente, mas depois passamos a nos entender bem com os sinais diferentes”, conta Daniel. O primeiro acampamento foi realizado em 2006 na Dinamarca. Segundo a surda norte-americana Melissa Malzkuhn, secretária da WFDYS, o objetivo é promover o intercâmbio cultural entre as crianças de 10 a 12 anos e estimular o surgimento de futuras lideranças. “O acampamento foi um lugar onde as crianças Daniel, Claudia e Thaís se despedem da Venezuela

puderam ter experiências culturais diferentes e aprender o respeito à diversidade”, explica Melissa. Thaís e Daniel são alunos da Escola para Crianças Surdas Rio Branco, de São Paulo. Os dois foram escolhidos pelos professores e pelos próprios alunos da escola, por meio de uma eleição. A Fundação de Rotarianos de São Paulo, mantenedora da instituição educacional, custeou as passagens e a WFDYS arcou com as despesas de hospedagem e alimentação. O governo venezuelano também apoiou o evento.

Entre uma brincadeira e outra

Arquivo pessoal

Foram nove dias de brincadeiras, jogos e palestras que tiveram como pano de fundo as belezas naturais da Ilha de Margarita. Entre as atividades de recreação estavam dinâmicas em equipe e passeios à praia e ao parque aquático. Todas as brincadeiras foram organizadas com o objetivo de motivar futuras lideranças por meio da diversão. Em uma delas as crianças desenharam seus sonhos e objetivos e penduraram na “árvore dos sonhos”. Na noite cultural, cada um vestiu a roupa típica do seu país e compartilhou com os colegas os seus hábitos, costumes e comidas. A professora surda Claudia Akemi, que acompanhou Daniel e Thaís na viagem explica que o entrosamento foi muito rápido. “Foi bonito ver as crianças brasileiras tão motivadas. Percebi que aflorou neles um sentimento de pertença àquela comunidade, uma identificação com os participantes e palestrantes”, comenta Claudia. Entre uma brincadeira e outra eram realizadas palestras e miniworkshops focados nos direitos humanos, na história e na identidade dos surdos. Algumas situações relacionadas aos direitos humanos foram simuladas com o objetivo de motivar as crianças a tomarem decisões. Segundo Melissa Malzkuhn, da WFDYS, havia uma preocupação em suscitar nas crianças o orgulho


de serem surdas e de usarem a língua de sinais. “Procuramos levar conhecimentos que mostrassem que eles podem realizar algo e que têm o potencial para mudar o mundo”, explica Melissa. Thaís Formagio conta que ficou impressionada com a história dos surdos no mundo. “No passado os surdos não podiam se comunicar em Libras e sofriam muitos castigos. Agora somos livres e fico aliviada por poder usar a língua de sinais. Nosso futuro vai ser diferente”, relata Thaís.

Movimento das crianças surdas Segundo Claudia Akemi o aprendizado foi grande não só para as crianças. “Senti que aprendi muito com as experiências de empoderamento e reconhecimento da cultura surda em outros países”, comenta. Ela afirma que essa é uma boa oportunidade para criar o movimento das crianças surdas no Brasil. Na opinião de Claudia, além da integração com outros países, o acampamento serviu também para formar crianças preocupadas com um futuro melhor. “Trouxemos da viagem boas expectativas. Queremos uma juventude surda brasileira consciente. Precisamos nos organizar para criar um movimento junto com outros jovens surdos”, afirma Claudia. Ela explica que iniciativas como palestras e encontros são boas alternativas para o pontapé inicial do movimento. Ao chegarem ao Brasil, Thaís e Daniel prepararam uma apresentação para os colegas surdos da escola, para compartilharem a experiência. Melissa Malzkuhn, da WFDYS, comentou que o resultado do acampamento foi bastante satisfatório. “Nós da organização observamos que as crianças se divertiram e aprenderam muito. Parecia que elas não queriam que o acampamento acabasse. Com isso não nos restou nenhuma dúvida: nós estávamos vendo futuros líderes bem diante dos nossos olhos”, comenta Melissa.

ível evento é poss o d te si o N os resumos m co s eo íd v ento. acessar do acampam s ia d s o s o de tod 010 mp2

Divulgação

ys.org/ca

www.wfd


ESPORTE

FIFA disponibiliza vídeos com resumos dos jogos da Copa do Mundo na Língua Internacional de Sinais |Por Aline Diniz e Regiane Lucas

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Espanha não foi a única ganhadora da Copa do Mundo de Futebol. A acessibilidade também saiu premiada. Foram disponibilizados pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) 64 vídeos com os resumos de todos os jogos traduzidos para a Língua Internacional de Sinais (Gestuno). Para o presidente da Fifa Joseph S. Blatter “o futebol é um esporte universal e deve ser acessível a todos. É com imenso prazer que a organização oferece esse serviço a cerca de 70 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva”. Para garantir a acessibilidade a outros públicos, a Fifa disponibilizou também serviços de audiodescrição durante os jogos e equipou quinze assentos em seis estádios para atender cegos e pessoas com deficiência visual . Durante a Copa, todos os dias o historiador surdo de Belo Horizonte, Antônio Campos, acessava o site para assistir às sinopses. Fanático por futebol, ele acredita que o resultado foi satisfatório: “assisti a todos os vídeos e considero que as traduções estavam perfeitas, muito claras e bem explicadas”, conta Antônio. Ele relata que não teve dificuldades em compreender o gestuno, uma vez que teve experiência com a língua quando foi integrante da WFD (World Federation of Deaf). Ainda na opinião do historiador, essa iniciativa é importante para a militância daqueles que lutam pelo direito à Língua de Sinais, já que traz uma grande visibilidade à questão. “A Fifa reúne, nos momentos de Copa, 203 países em torno da paixão pelo futebol, mais do que a ONU”, observa Antônio. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS), Marcus Vinicius Calixto, também elogia a iniciativa. “Os surdos normalmente não têm acesso aos comentários dos 12 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

cronistas e comentadores esportivos da televisão. Os resumos possibilitam um entendimento da partida com maior detalhamento, o que pode motivar a prática de esportes”, comenta. Já o historiador Antônio Campos acredita que as narrações deveriam conter comentários mais detalhados sobre as partidas. Ele explica que os vídeos traziam apenas algumas observações sobre o humor dos jogadores ou da agitação da torcida, por exemplo.

Bastidores das gravações A iniciativa inovadora e inédita da Fifa não foi nada fácil para a organização. Segundo um dos apresentadores dos vídeos, Michel Laubacher, os profissionais enfrentaram algumas dificuldades. O maior obstáculo estava em traduzir os nomes de jogadores e as expressões do mundo do futebol que ainda não existiam na Língua Internacional de Sinais. Para superar esses desafios, a equipe de quatro surdos – dois britânicos e dois suíços – se reunia diariamente e discutia a melhor maneira de adicionar novas palavras ao gestuno. Michel Laubacher revela que ao final de cada partida a equipe da Fifa que estava na África enviava ao grupo um resumo do jogo. A tarefa dos apresentadores era traduzir o texto do inglês para a Língua Internacional de Sinais. Michel lembra que “a equipe também tinha dificuldade com a gramática da língua inglesa e do gestuno, que são bem diversas.” Em seguida, os apresentadores colocavam o resumo em um aparelho chamado teleprompter, que exibe o texto a ser lido pelo apresentador, e executavam a gravação. Depois de terminado o trabalho o vídeo era disponibilizado no site. Os integrantes do grupo, que já haviam tido outras experiências em traduções para o gestuno no Congresso Mundial de Surdos e na Olimpíada para


Divulgação

Surdos, revelam que se sentiram muito realizados de serem parte de um projeto pioneiro em conjunto com a FIFA, explica Michel. Outro orgulho dos profissionais foi a resposta positiva do público. Segundo Laubacher muitas pessoas enviaram e-mails relatando a satisfação de ter acesso a um resumo na Língua Internacional de Sinais, que pode ser entendida em todas as partes do globo.

Uma língua internacional: o Gestuno Questionado sobre a compreensão do Gestuno no Brasil, o presidente da CBDS, Marcus Vinicius, explica que é verdade que “a maioria dos surdos brasileiros não sabe a Língua Internacional de Sinais, porém o Gestuno é de muito fácil compreensão e os surdos são capazes de entender os vídeos da Copa”. A professora de Libras da Universidade Federal de Uberlândia, Flaviane Reis, afirma que há muitas vantagens em aprender a Língua Internacional de Sinais. Um dos ganhos é a possibilidade de comunicação entre surdos de todo o mundo, que se comunicam por línguas diversas. Em encontros cotidianos ou em congressos internacionais, o conhecimento da língua internacional proporciona uma comunicação satisfatória. Flaviane explica que a internet tem sido uma importante ferramenta de transmissão de conhecimentos, troca de experiências e realização de discussões e que o Gestuno favorece essa comunicação. Ela cita o exemplo do site Youtube em que os surdos compartilham suas experiências de vida em Gestuno. A língua internacional também possibilita que os surdos conversem por meio da webcam com estrangeiros. Flaviane ressalta ainda que o domínio dos sinais internacionais pode ajudar aqueles, tanto surdos como ouvintes, que desejam ser intérpretes em congressos internacionais. No entanto, a professora relata que não existem muitos cursos voltados para o ensino da língua no Brasil. Para suprir essa deficiência ela aconselha que os interessados se reúnam para formar turmas ou que procurem cursos a distância, que já estão disponíveis.

A surda inglesa Philippa Merrick, de 21 anos, é uma das tradutoras dos vídeos da Fifa

O Gestuno, nome italiano que significa união de sinais, é também chamado de Língua Internacional de Sinais e é difundido pela Federação Mundial de Surdos desde 1951. Preocupados com a necessidade universal de comunicação, os integrantes do comitê selecionaram alguns sinais que pudessem ser entendidos em diferentes línguas, a fim de formatar uma língua fácil de ser entendida por surdos de várias nacionalidades. A partir dessa iniciativa, o grupo publicou um livro com cerca de 1.500 sinais. O Gestuno é usado pelos surdos em conferências, jogos mundiais para surdos ou em situações informais, como viagens.


CAPA

Educação dos surdos Em repúdio às declarações do Mec, pesquisadores defendem bilinguismo e pedagogia surda |Por Regiane Lucas e Diogo Madeira s declarações da diretora de políticas educacionais especiais do Ministério da Educação (Mec), Martinha Claret, na última Revista da Feneis causaram grande repercussão na comunidade surda e entre os pesquisadores da área. Ao defender a inclusão educacional como princípio que orientou a Conferência Nacional de Educação (Conae), a representante do Mec acusou as escolas de surdos de segregacionistas e afirmou que o Mec não acredita na existência de uma cultura surda. Para ela, as crianças surdas devem estudar nas escolas regulares, junto às outras, como forma de desenvolvimento da autonomia e do respeito à diversidade.

e desrespeita leis, documentos e convenções internacionalmente reconhecidos”, questiona. Um dos exemplos, explica Patrícia, é a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, signatária da Organização das Nações Unidas (ONU), que reconhece a identidade cultural dos surdos. (ver box). Como repúdio a Feneis vai pedir retratação ao ministério por meio de um manifesto formal e acionar as instâncias legais. Segundo Patrícia Rezende, que também é professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), “é incompreensível que o Mec, depois de apoiar tantas iniciativas que valorizam a Língua de Sinais, tenha esse posicionamento”. Com os recursos do ministério é realizado, anualmente, o exame de proficiência em Libras (Prolibras) e o curso de graduação a distância Letras Libras.

A escola bilíngue de surdos é segregacionista?

Para a diretora de políticas educacionais da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), Patrícia Luiza Rezende, a declaração não só desvaloriza o modo de vida dos surdos brasileiros como também fere a sua dignidade. “Um pronunciamento dessa natureza rebaixa a cultura surda 14 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

“Falar que a escola bilíngue de surdos é segregacionista é uma falácia”, classifica o professor Tarcísio Leite, da UFSC. Ele explica que, cada vez mais, ganha força a tese de que a segregação é promovida pelas políticas educacionais que reconhecem diferentes línguas e culturas. “O argumento é plausível, pois recorre à ideia de que, se queremos unir as pessoas, devemos colocá-las juntas e não separadas.” Apesar de ser aparentemente aceitável, esclarece o professor, essa concepção de inclusão rejeita as diferenças culturais dos surdos e as especificidades linguísticas. “Existe o imaginário de que basta colocar um intérprete na sala de aula, uma muleta para o aluno surdo, e estaremos promovendo a inclusão e o bilinguismo”, defende. O professor Tarcísio justifica que, na maioria das vezes, o conceito de unidade nacional contido na expressão “somos todos brasileiros” pode gerar um apagamento das diferenças e uma recriminação daqueles que não se enquadram plenamente nessa unidade. “Os dissidentes são facilmente colocados


Rafael Motta

contra os interesses da nação brasileira. É o que acontece com os surdos ao serem acusados de segregacionistas”, argumenta o professor. A maioria dos pesquisadores da área defende que reunir surdos em uma mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mundo ou torná-los mais dependentes. Ao contrário, os ambientes linguísticos que favorecem a vivência de uma língua de maneira espontânea fazem com que os sujeitos se tornem mais autônomos, pois eles alcançam o conhecimento de maneira mais rápida e eficaz. A experiência linguística plena faz com que as pessoas se sintam seguras nas interações sociais e na relação com seus pares. Além disso, acreditam os pesquisadores, quanto maior o desenvolvimento linguístico dos sujeitos, maior a capacidade de buscar conhecimento e de utilizá-lo livremente no seu cotidiano. Eles podem, de maneira independente, transitar no mundo e compreendê-lo. Assim, o conhecimento de mundo adquirido pelos surdos por meio uma língua natural, a Libras, seria mais eficiente. Segundo a pesquisadora Mariana Campos, da Universidade Federal de São Carlos, defender uma escola onde a cultura surda é respeitada nada mais é do que considerar o valor da comunidade linguística na construção do conhecimento. “Estar em comunidade não significa segregar ou formar guetos, mas sim cons-

truir, a partir da língua e da cultura, interações importantes para o aprendizado. Os diálogos com os colegas na escola e a troca espontânea de ideias, sem barreiras linguísticas, são essenciais”, analisa a professora. O próprio Mec, explica Mariana, defende que o desenvolvimento das crianças é feito por meio de interações, nas quais conflitos e negociações de sentimentos, ideias e soluções são elementos indispensáveis na educação.

Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência “As pessoas com deficiência deverão fazer jus, em base de igualdade com as demais pessoas, a terem reconhecida e apoiada sua identidade cultural e lingüística específica, inclusive as línguas de sinais e a cultura dos deficientes auditivos”. (Artigo 30, sobre a participação na vida cultural) “Sobre a educação, os países signatários desse documento deverão tomar medidas apropriadas, incluindo: b. Facilitação do aprendizado da língua de sinais e promoção da identidade lingüística da comunidade surda; c. Garantia de que a educação de pessoas, inclusive crianças cegas, surdocegas e surdas, seja ministrada nas línguas e nos modos e meios de comunicação mais adequados às pessoas e em ambientes que favoreçam ao máximo seu desenvolvimento acadêmico e social”. (Artigo 24, sobre a Educação)


Rafael Motta

do oralmente, a presença do intérprete, explica ela, é insuficiente para garantir a plena aquisição tanto da Libras quanto da Língua Portuguesa. “Temos que entender claramente que uma língua oral, sem audição, não se aprende espontaneamente. A exposição à uma língua oral não oferece nem um terço do input linguístico - experiências linguísticas que a criança recebe de seu meio social, se comparado ao caso dos ouvintes”, explica. Dessa maneira, para que os surdos tenham uma aquisição plena, em primeiro lugar da Libras, e depois da Língua Portuguesa, é preciso ter condições linguísticas favoráveis, explica Paula. Isso significa priorizar a Libras para os surdos da mesma maneira que priorizam o português para as crianças ouvintes. Esse seria um bilinguismo real, que vai além da coexistência de duas línguas em um ambiente de ensino. O problema apontado pela pesquisadora é se a educação brasileira está realmente disposta a promover um bilinguismo real. “Cabe questionar se as escolas regulares, as mesmas que defendem a perspectiva inclusiva, estão aptas, dispostas e equipadas para ensinar o Português como segunda língua e usar a Libras como meio de instrução. É clara a necessidade desta oferta para os surdos?”, questiona Paula.

Bilinguismo mascarado Muitos pesquisadores acreditam também que a política educacional de inclusão no Brasil comete equívocos ao levantar a bandeira do bilinguismo para surdos. Segundo a professora Gladis Perlin, da UFSC, o modelo de bilinguismo defendido nas escolas inclusivas camufla a opressão da cultura surda. Por meio da oferta de intérpretes de Libras e de alguma adaptação de conteúdo, a escola inclusiva segue se autodenominando bilíngue. Na verdade, o que caracteriza o bilinguismo é o ambiente linguístico propício. Nessas escolas, nem todos sabem Libras, as metodologias não são específicas e nem todos conhecem cultura surda e seus artefatos culturais (ver box). Segundo a pesquisadora Paula Botelho, a noção de que o português é uma língua estrangeira para os surdos ainda está distante da realidade brasileira. “Um detalhe que é fundamental, mas irônica e frequentemente esquecido é que os surdos estão adquirindo, ou adquiriram o português, sem ouvir a língua falada”, comenta. Conforme explica a pesquisadora, em uma escola onde a língua oral seja predominante, seja ela inclusiva ou não, os surdos estarão privados do aprendizado de maneira natural. Em um espaço onde tudo é media16 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

Existe cultura surda? É comum observar a surpresa e a incredulidade das pessoas quando se deparam com o termo “cultura surda”. Segundo a pesquisadora Karin Strobel, em seu livro Imagens do outro sobre a cultura surda, quando a palavra surdo é mencionada, as pessoas a associam com isolamento, incapacidade e falta. Presume-se que para se integrarem é preciso ouvir e falar. Esse imaginário, segundo Karin, faz com que a concepção de cultura surda seja quase inaceitável. A pesquisadora, que também é presidente da Feneis, define cultura surda como “uma maneira de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com suas percepções visuais”. Essa noção abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo, define a professora. Karin explica que o povo surdo que participa das comunidades compartilha algo em comum, valores, normas e comportamentos, que só são intercambiados por aqueles que acessam


Inclusão excludente Segundo a pesquisadora Gladis Perlin, a perspectiva atual de inclusão desenha um modelo que não respeita o surdo na sua diferença. “Quando se percebe que o diferente, o surdo, não consegue e não quer viver conforme o modelo inclusivo imposto, então surge um processo de considerá-lo menor, incapaz, com falta, necessitado e que precisa ser protegido”, explica Gladis. A desvalorização da cultura surda vem desse processo. A professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Maura Corcini Lopes, explica que existe uma nova roupagem para o antigo processo de normalização dos surdos, que antes impunha um modelo de pessoa ouvinte a ser seguido. O novo processo de normalização coloca os surdos como uma comunidade que vive sob risco social por estar sempre ameaçada pelas barreiras de comunicação. “Trata-se de uma invenção mundial baseada em princípios universalizantes e assimilacionistas”, afirma Maura. Ela acredita que a escola inclusiva segue um caminho sem volta, fazendo com que os surdos sejam cada vez mais excluídos do processo de aprendizagem. “As nossas pesquisas já começam a mostrar resultados negativos sobre o triste fim dos surdos incluídos sem

o mundo visualmente. Ou seja, ela enfatiza que o modo visual de apreender o mundo e a construção de uma história compartilhada são dois grandes elementos definidores da noção de cultura surda. Esse algo em comum é o responsável por construir uma identidade coletiva, conhecida como identidade surda. Esse modo de ver o mundo, assim como em qualquer outra cultura, resulta em produções de artefatos culturais materiais, como a literatura, o teatro, as artes visuais e as adaptações de tecnologias de acessibilidade. Outros artefatos imateriais são a vida esportiva nas associações de surdos, a vivência na comunidade surda, a participação política na militância, a convivência familiar, dentre outros. Segundo a pesquisa de mestrado da professora Mariana Campos, 50% dos alunos de uma escola inclusiva se sentem tristes e frustrados por não encontrarem artefatos da cultura surda na escola.

condições para isso”, demonstra a pesquisadora. “Temos certeza de que a inclusão excludente veio para ficar. Se não há volta, precisamos nos filiar a algum conceito de inclusão, de maneira a pensar a diferença surda com dignidade ética”, propõe a pesquisadora.

O politicamente correto Para a professora Maura Corcini Lopes, o respeito à diversidade disseminado no país se resume à aceitação da Língua de Sinais. Há um esforço em difundir a Libras, promover cursos de formação de professores e intérpretes e contratar tradutores para os eventos. “A visibilidade da Língua de Sinais, expressão maior de uma cultura visual, é usada como atração para aqueles que se encantam com um mundo politicamente correto e para aqueles que querem aprender Libras para concorrerem às vagas de emprego”, expõe a pesquisadora. Há uma espécie de encantamento com a diversidade e a negligência daquilo que seria, de fato, o respeito aos surdos e à sua cultura. Ao mesmo tempo que negam as escolas bilíngues para surdos, as instâncias governamentais defendem a Libras. O paradoxo, explica a pesquisadora, faz parte de uma estratégia que “usa a difusão da Língua de Sinais para incutir na alma brasileira que somos um país bilíngue e que vivemos sem barreiras de acessibilidade”. Nessa mesma direção, a pesquisadora Lucyenne Matos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aponta que as políticas de inclusão atuais apenas fazem concessões aos surdos, mas não os reconhecem de fato. Para ela, a Libras se tornou uma ferramenta política que está sendo usada contra os próprios surdos. “Essa política nos sufoca e nos massacra. Somos obrigados a escutar das instâncias estaduais e municipais comentários como Vocês não queriam a Libras nas escolas? Vocês não queriam os intérpretes? Estamos dando a vocês essa oportunidade. Estamos deixando vocês fazerem isso. Contratamos os surdos para que eles parem de reclamar, senão os contratos são rescindidos”, critica a pesquisadora. SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 17


Características da escola bilíngue de surdos - Língua de sinais como meio de instrução; - Conteúdos acessíveis visualmente; - Currículo pedagógico que leve em conta as especificidades culturais, com inserção de conteúdos como história e literatura surda; - Presença de artefatos culturais como os materiais de acessibilidade e as produções culturais surdas; - Língua Portuguesa ensinada e avaliada como segunda língua;

Segundo a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ronice Quadros, a melhor escola para educar os surdos é aquela que propicia um ambiente linguístico em que a Libras e a Língua Portuguesa compartilham espaços e onde os conteúdos sejam acessíveis visualmente. “Uma boa escola para surdos é aquela em que as pessoas sejam bilíngues e usam tanto uma como a outra língua, de acordo com quem estiver conversando. É aquela que vai garantir o encontro entre surdos para estes vivenciarem sua cultura. Esta escola que descrevo pode ser uma escola bilíngue de surdos e pode ser uma escola bilíngue pública. Vai depender de se criar um espaço que faça uma educação bilíngue”, defende a professora. A pesquisadora Flaviane Reis, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), diferencia a escola para Surdos e Escola de Surdos. Para ela, a escola bilingue se enquadra no segundo caso. Diferente da escola para surdo, que usa a Língua de Sinais apenas como ferramenta para o aprendizado do português. Ela fala

- Ambiente linguístico que propicie a vivência da cultura surda; - Ambiente linguístico em que a Libras e a Língua Portuguesa compartilhem espaços; - Atividades culturais e esportivas bilíngues; - Presença de surdos e ouvintes bilíngues, sejam eles professores, funcionários ou alunos; Com a colaboração de Ronice Quadros (UFSC) que isso não significa desprezar a importância da segunda língua. “Sempre teremos confronto com a outra língua que é o português, que é como a língua estrangeira para os surdos. Da nossa língua, passamos algum tempo, e partimos para a língua estrangeira, a língua portuguesa. É como se vivêssemos de repente entre fronteira. A segunda língua está ali e podemos usá-la no momento em que se atravessar a fronteira.Usar a língua para que a identidade não seja uma prisão, mas que mostre a identidade de que somos para o outro”, define. A professora Rita Nacajima, do Instituto Nacional de Educação dos Surdos (Ines) conta que sua experiência como professora de surdos sempre foi dentro de propostas bilíngues. “Como trabalhei com a educação infantil foi essencial a presença de profissionais surdos, o que garantiu a interação e aprendizado em Libras. As crianças aprendem naturalmente e as estratégias utilizadas em todo o processo são negociadas junto ao profissional surdo (assistente educacional em Libras). “ O Instituto Santa Inês, localizado em Belo Horizonte, foi criado em 1947 e até o ano de 2002 adotava a filosofia oralista. Com 172 alunos, a escola oferece vagas desde a educação infantil até a oitava série. A diretora Berardina Bianchi explica que a escola ainda está em transição para o bilinguismo, mas que todas as professoras já estão capacitadas para ministrarem as aulas em Libras. Rafael Motta

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A escola bilíngue de surdos na prática “Antes ele era agressivo e nada prendia a atenção dele. Agora ele tem um objetivo, ele copia, é interessado, está mais calmo e sabe esperar. Aprendeu os sinais e está sabendo se comunicar melhor, coisa que ele não sabia antes. Na escola inclusiva ele copiava sem compreender. Hoje ele sabe o que escreve. Antes ele não sabia nem o que era certo ou errado, o que pode e o que não pode”. Com essas palavras, Cléa Machado descreve as mudanças na educação do seu filho Alisson. Aos dez anos ele retornou à Escola Especial Professor Alfredo Dub, da cidade gaúcha de Pelotas, onde já havia estudado até os quatro anos. Cléa explica que na escola de ouvintes o filho passou por muitas dificuldades de alfabetização. Foi quando ela decidiu retornar à escola de surdos. A escola possui atualmente 88 anos. Fundada em 1949, a instituição filantrópica não trabalhava com a filosofia bilíngue até 1995. A diretora Marli Schulz explica que a instituição ainda está no processo de transição para o bilinguismo, mas que todas as aulas são em Libras. Dos 23 professores, seis são surdos e a escola ainda conta com um funcionário surdo também. “As vantagens no aprendizado são claras. O aluno aprende bem mais rápido com a Libras”, explica Marli. Quando os alunos terminam os estudos na escola bilíngue, na 8ª série, vão para a escola pública inclusiva de Pelotas. A professora Elisabeth Castro, quem tem 2 filhos surdos, comenta que os resultados da escola bilíngue

Diogo Madeira

são louváveis. Ela é a favor da inclusão social, já que os surdos precisam transitar no mundo, serem consumidores e terem independência. Para ela, o papel dos pais também é de extrema relevância. Elisabeth explica que uma vantagem da escola bilíngue é a presença de currículos, conteúdos e avaliações específicos, que respeitam a singularidade da língua de sinais. Além disso, na escola bilíngue os alunos têm a liberdade que de serem diferentes. “Percebemos que os alunos têm a liberdade de se exporem e admitirem algum desconhecimento na frente dos colegas. Sabemos que as crianças ouvintes, pelo fato de ouvirem, têm acesso a inúmeras informações que os surdos não têm. Diante desses colegas, os surdos se sentem constrangidos”, aponta Elisabeth. Entretanto, a professora adverte que também a escola bilíngue precisa mudar, de modo a acompanhar o novo aluno surdo, que tem acesso à internet e apreende o mundo com um outro olhar. “É preciso aproveitar essa potencialidade da tecnologia e adaptar o ensino a essa nova realidade do surdo”, explica. Já a professora Ana Marci Oliveira, que dá aulas na mesma escola e já acompanhou projetos de inclusão, explica que há uma grande dificuldade de compreensão do que é o surdo na escola inclusiva. “Inclusão não é só colocar intérprete. Não é só o professor fazer uma adequação. É respeitar linguisticamente a característica da pessoa que está lá. É pensar no surdo como alguém que pensa diferente que usa uma língua diferente”, explica.


LEGISLAÇÃO

Resolução prevê atendimento de surdos por meio da Língua de Sinais

S

vogados ou o sindicato, mas dificilmente encontram um profissional que os acompanhe para intermediar a conversa”, aponta o analista. Apesar disso, ele comemora a publicação da resolução. “Essas normas minimizam muito o problema do pleno acesso à Justiça do Trabalho, alocando instrumentos necessários para o surdo ter independência e exercer o direito constitucional de se comunicar e de ser entendido na sua própria língua”, explica. Antes da medida, Franklin era frequentemente convocado pelos juízes para exercer o papel de mediador nas audiências onde havia surdos. A boa leitura labial e a fluência em Libras fizeram com que, durante sete anos, o advogado servisse de mediador. “Como não havia a obrigatoriedade do intérprete de Libras, para não prejudicar o surdo eu acabava exercendo essa função”, comenta. A Resolução nº 64 é uma luta do desembagador cego Ricardo Tadeu do TRT no Paraná, que também é coordenador da comissão de Libras no tribunal.

O Libras em Contexto é uma das metodologias pioneiras no ensino de Língua Brasileira de Sinais como segunda língua. Publicado pela primeira vez em 1997, o livro passa por atualizações periódicas com o objetivo de tornar a metodologia sempre atual e adequada ao perfil dos professores e alunos. Em 2001, a segunda edição foi editada pelo Ministério da Educação, que adotou o livro no Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos. Foram 15 mil exemplares impressos para alunos e 5 mil para professores. O material inclui livro e DVD e está à venda também em grandes quantidades.

BIBLIOTECA

e antes a presença de intérpretes de Libras era sempre uma dúvida para os surdos, agora a mediação desse profissional é lei. Uma resolução publicada pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho em oito de julho prevê a obrigatoriedade de intérpretes nas audiências realizadas nos Tribunais Regionais do Trabalho de todo o país nos casos em que algum surdo seja parte da ação. A resolução nº 64 estabelece também que ao menos 5% dos servidores efetivos desses órgãos deverão ser capacitados para realizarem atendimentos em O analista judiciário Franklin Libras. Com a medida, Rezende comemora a decisão da os surdos também vão Justiça do Trabalho poder acompanhar os processos, obter informações e tirar dúvidas pessoalmente. Os sites dos tribunais passarão a ser mais acessíveis com a inserção de vídeos gravados em Libras e legendas para os áudios. Segundo o surdo Franklin Ferreira Rezende Júnior, que é analista judiciário do Tribunal Regional do Trabalho de Manaus, a iniciativa é um marco na acessibilidade de todos os tribunais do Brasil. “Acredito que esse instrumento legal irá conduzir outras instituições a adotarem medidas semelhantes e eficazes no sentido de melhorar a qualidade de vida dos surdos do país, pelo menos, no quesito justiça”, explica Franklin. Em Manaus, cerca de 90% dos surdos trabalham nas fábricas da Zona Franca, um dos principais parques industriais do país. Franklin Rezende acredita que a acessibilidade na Justiça do Trabalho pode levar a uma vigilância maior dos surdos quanto ao cumprimento dos direitos trabalhistas, mas ela não resolve todos os problemas. “Muitos surdos não processam as empresas ou por falta de informação ou por dificuldades de comunicação. Eles sabem que no caso de alguma irregularidade devem procurar a justiça, ad20 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

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Agenda*

Deaf Academics and Researchers Conference 2010

Balões e alfabeto manual para as crianças que tomaram uma gotinha contra a poliomelite. Esses foram os brindes distribuídos pelo stand da Feneis montado no evento Fiocruz Pra Você 2010, realizado em junho. Com 2.475 crianças vacinadas, o campus da Fundação Oswaldo Cruz em Manguinhos, no Rio de Janeiro, tornou-se, mais uma vez, o maior posto de vacinação do Brasil contra a paralisia infantil. Atividades culturais e esportivas e serviços de aquisição de carteira de identidade e CPF foram realizados simultaneamente à primeira fase da campanha nacional contra a pólio. É a quarta vez que a Feneis participa do evento, que já está na 17ª edição. Estiveram presentes o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha. Jorge da Hora, gestor de contrato Fiocruz/Feneis, ao centro, entre os funcionários da Feneis e os participantes do evento

“Conferência dos Universitários e pesquisadores surdos 2010”

Divulgação

Tema: Inclusão dos surdos na universidade Data: 21 a 24 de novembro Local: Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis Inscrições: www.deafacademics2010.com

A Feneis realizou nos meses de julho e agosto, em Brasília e em Belo Horizonte, cursos de introdução e aperfeiçoamento para instrutores de Libras. As aulas foram ministradas pela professora Elaine Bulhões com base na metodologia “Libras em Contexto”. Ela explica que cursos de aprofundamento são indispensáveis para acompanhar as novas didáticas e estratégias de ensino da Libras como segunda língua, já que a metodologia passa por aperfeiçoamento periodicamente. O material foi desenvolvido em 1997 pelo grupo de pesquisa da professora Tânia Felipe no Rio de Janeiro e difundido por todo o país. Outras regionais da Feneis devem oferecer o curso no primeiro semestre de 2011.

II Encontro Nacional de Jovens Surdos Tema: A valorização da comunidade surda e do sujeito surdo Data: 12 a 15 de novembro - Belo Horizonte-MG Inscrições: www.jovenssurdos.org.br/enjs/2 II Congresso Brasileiro de Pesquisas em Tradução e Interpretação da Língua de Sinais Data: 25 a 27 de novembro Local: Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis Inscrições: www.congressotils.cce.ufsc.br * Eventos apoiados pela Feneis

SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 21

FENEIS PELO PAÍS

Dentre os vários assuntos discutidos na 69ª Reunião Ordinária do CONADE, nos dias 15 e 16 de julho, algumas reivindicações dos surdos estiveram em pauta e foram bem-sucedidas. O encontro foi realizado na Secretaria de Direitos Humanos, em Brasília, e contou com a participação da conselheira Shirley Vilhalva, que também é diretora administrativa da Feneis. Uma das discussões girou em torno da conscientização da classe médica sobre cultura surda e língua de sinais. O assunto foi desencadeado pelo depoimento do médico Ricardo Bento, concedido à apresentadora Ana Maria Braga no programa Mais Você da Rede Globo. Ele se referiu aos surdos como “párias da sociedade”. Mesmo depois de conseguirem a retratação do médico e da apresentadora, os surdos levaram ao Conade a necessidade de mobilizar as entidades da classe médica. Foi decidido que será feita uma recomendação ao Conselho Federal de Medicina para que se amplie a temática entre os profissionais e estudantes de medicina, buscando maior respeito e promoção dos direitos humanos dos surdos e das pessoas com deficiência. Foi apontada também a necessidade de legendas e descrição em áudio no programa Mais Você. A acessibilidade dos surdos nos concursos também foi discutida. Foi elaborada uma recomendação de que os órgãos promotores de concursos ofereçam as provas em Língua de Sinais, traduzidas em vídeos ou simultaneamente (ver matéria na página 8).


FENEIS PELO PAÍS

Oficina para guias-intérpretes de surdos-cegos é realizada em Curitiba

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lhos vendados e tampões nos ouvidos: uma simulação de como é ser surdo-cego. Foi assim que os 20 participantes da oficina para guias-intérpretes de surdo-cegos começaram o curso. A experiência de serem guiados e se comunicarem em sinais com os olhos vendados fez parte da dinâmica da oficina realizada no escritório regional da Feneis em Curitiba no dia 10 de julho deste ano. O curso foi ministrado pelo professor surdo Alexandre Jurado Melendes, de São Paulo. A turma estava bastante animada, com bastante perguntas sobre o papel de guia-intérprete para surdos-cegos. Durante a aula, que durou o dia todo, foram abordados os seguintes temas: diferentes formas de comunicações, noções sobre o guia-intérprete, história de Helen Keller, noções da prática de acessibilidade e adaptações, além de dicas para o dia a dia com o surdo-cego.

22 | REVISTA DA FENEIS | JUN-AGO | 2010

Segundo a diretora administrativa da regional da Feneis, Iraci Suzin, observa-se que muitos surdos têm perda da visão e que a desinformação nessa área é muito grande, seja por parte dos pais, profissionais e até mesmo dos próprios surdos. Iraci explica que eventos como esse podem ajudar a encontrar melhores alternativas para o cotidiano dos surdoscegos. “Diante dessa realidade percebeu-se a importância de a Feneis realizar um encontro com o objetivo de oferecer espaço para o aprendizado de princípios básicos da área, discussões sobre o assunto, trocas de experiências e coleta de dados”, explica Iraci. A diretora, que também vive essa situação em casa, defende que é preciso lutar para a valorização dos surdocegos, de modo a incentivar neles o valor da sua dignidade humana. “Minha filha além de surda vem perdendo gradativamente também a visão. Agora, com

|Por Diogo Madeira a oficina, temos certeza que podemos ajudar, aliviando algumas incompreensões dos próprios surdos a respeito dos surdos que possuem cegueira noturna e visão túnel”, conta Iraci. Por fim, Iraci defende que a família deve ser a primeira a compreender os filhos surdos-cegos. “Nós pais temos que participar mais da vida de nossos filhos, mas infelizmente isso não acontece. Com muito amor e sensibilidade ajudo minha filha a enfrentar o problema de visão que vem enfrentando. Afirmo com toda segurança que a pior surdez ou cegueira é aquela que se trava na alma”, conta a mãe emocionada. Segundo a presidente da Feneis, Karin Strobel, vai haver um trabalho para que todas as regionais promovam cursos como esse. Em Curitiba, a demanda dos próprios participantes foi de que houvesse oferta periódica de cursos de aprofundamento no assunto.


Já começa a dar frutos a parceria entre Feneis e Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda. O primeiro passo foi a realização do curso de introdução ao Linux para surdos no mês de agosto, com carga horária de 28 horas/aula. Uma turma de 14 funcionários da Feneis, Dataprev e Serpro participou das aulas, realizadas no prédio do Ministério da Fazenda, no centro do Rio de Janeiro. Segundo a pesquisadora de Libras Tanya Felipe, que participa do convênio, a partir dessa primeira experiência é possível desenvolver melhor o material para a interpretação em Libras, criar sinais específicos e futuramente oferecer cursos a distância. Já estão previstos cursos de BROffice e Gimp. Por meio da parceria, qualquer um dos 300 cursos oferecidos pelo Serpro poderá ser adaptado para a Libras e oferecido presencialmente ou a distância. Os cursos serão realizados no telecentro inaugurado em abril deste ano na matriz da Feneis. Tanya Felipe explica que essa é uma oportunidade para que os surdos aprendam a utilizar o software livre. “É uma forma de socializar a informática, já que o software livre barateia a usabilidade, que hoje em dia é cara por causa dos softwares proprietários”, explica a pesquisadora. Os cursos podem significar também mais oportunidades no mercado

de trabalho, já que os alunos surdos podem ser futuros técnicos ou mesmo instrutores de informática. Nova infraestrutura, novas pesquisas A iniciativa é a primeira das muitas que estão previstas na parceria. Além do telecentro, que conta com 10 computadores instalados pelo Serpro, a Feneis inaugurou recentemente um estúdio. O espaço está sendo utilizado para as pesquisas do dicionário on line de Libras, que faz parte do convênio com o Serpro, e para as gravações e fotos da décima edição do livro Libras em Contexto. Tanya Felipe explica que o projeto traz duas contribuições inéditas para o campo de estudos da Língua de Sinais. Serão explorados os regionalismos e o material será disponibilizado gratuitamente para todo o país, por meio do site da Feneis e do site do Serpro. Uma sala com seis computadores também foi criada para dar espaço para o curso de manutenção, também ministrado pela equipe do Serpro e traduzido pelos intérpretes da Feneis.

Divulgação

Abertura do curso, realizada no Ministério da Fazenda

-Telecentro -Sala de aulas de manutenção -Estúdio com equipamentos -Dicionário de Libras on line -300 cursos na área de informática -Cursos de Libras para funcionários da Serpro

5th DEAF ACADEMICS AND REASEARCHERES CONFERENCE 2010 “Conferência dos Universitários e pesquisadores surdos 2010” Inclusão dos surdos na universidade - 21 a 24 de novembro Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis www.deafacademics2010.com

FENEIS PELO PAÍS

Feneis realiza primeiro curso de informática em parceria com a Serpro


do Instituto Nacional de Educação de Surdos: breves considerações

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atual Instituto Nacional de Educação de Surdos foi criado em meados do século XIX por iniciativa do surdo francês E. Huet. Em junho de 1855 Huet apresenta ao Imperador D. Pedro II um relatório cujo conteúdo revela a intenção de fundar uma escola para surdos no Brasil. Neste documento também informa sobre a sua experiência anterior como diretor de uma instituição para surdos na França: o Instituto dos Surdos-Mudos de Bourges. Era comum que surdos formados pelos Institutos especializados europeus fossem contratados a fim de ajudar a fundar estabelecimentos para a educação de seus semelhantes. Em 1815, por exemplo, o norteamericano Thomas Hopkins Gallaudet (1781-1851), realizou estudos no Instituto Nacional dos Surdos de Paris. Ao concluí-los convidou o ex-aluno dessa instituição, Laurent Clérc, surdo, que já atuava como professor, para fundar o que seria a primeira escola para surdos na América. Portanto, podemos compreender que a proposta de Huet correspondia a essa tendência. O governo imperial apoia a iniciativa de Huet e destaca o Marquês de Abrantes para acompanhar de perto o processo de criação da primeira escola para surdos no Brasil. O novo estabelecimento começa a funcionar em 1º de janeiro de 1856, mesma data em que foi publicado o programa de ensino, apresentado por Huet, o qual compreen-

dia as disciplinas de língua portuguesa, aritmética, geografia, história do Brasil, escrituração mercantil, linguagem articulada, doutrina cristã e leitura sobre os lábios. Até o ano de 1908 era considerada a data de fundação do Instituto o dia 1º de janeiro de 1856. A mudança deu-se através do artigo 7º do Decreto nº 6.892 de 19 de março de 1908, que transferiu a data de fundação para a da promulgação da Lei nº 939 de 26 de setembro de 1857 em cujo artigo 16, inciso 10, consta que o Império passa a subvencionar o Instituto. Antes desse decreto os alunos eram subvencionados por entidades particulares ou públicas e até mesmo pelo Imperador. No seu percurso de quase dois séculos o Instituto respondeu pelas seguintes denominações: 1856/1857 – Collégio Nacional para Surdos-Mudos; 1857/1858 – Instituto Imperial para Surdos-Mudos; 1858/1865 – Imperial Instituto para Surdos-Mudos; 1865/1874 – Imperial Instituto dos Surdos-Mudos; 1874/1890 – Instituto dos Surdos-Mudos; 1890/1957 – Instituto Nacional de Surdos-Mudos; 1857/atual – Instituto Nacional de Educação de Surdos. No ano de 1957 foi realizada a mudança mais significativa de suas denominações: a substituição da palavra Mudo pela palavra Educação. Essa mudança refletia o ideário de modernização da década de 50, no Brasil, no qual o Instituto e suas discussões sobre educação de surdos também estavam inscritos. Em razão de ser a única Instituição de educação de surdos em território brasileiro e mesmo em países vizinhos, por muito tempo, o INES recebeu alunos de todo o Brasil e do exterior, configurando-se numa Instituição de referência para os assuntos de educação, profissionalização e socialização de surdos. A língua de sinais praticada pelos surdos no Instituto, de forte influência francesa, em função da nacionalidade de Huet, foi espalhada por todo Brasil pelos alunos que regressavam aos seus Estados quando do término do curso. Outra ação importante para a difusão dessa língua em território brasileiro deu-se no ano de 1875, ocasião na qual o ex-aluno do Instituto, Flausino José da Gama, desenha o livro Iconographia


Atualmente, com o reconhecimento legal da Libras, o debate segue aberto. As discussões avançam em direção ao novo desafio que trazem as atuais políticas públicas educacionais para surdos. Por um lado, a proposta de inclusão, que é o acesso a qualquer ambiente escolar sem nenhuma restrição aos alunos surdos que podem ser matriculados em classes regulares junto com ouvintes. Por outro lado, a regulamentação da lei da LIBRAS indica que o ensino de português deve ser oferecido como segunda língua e a língua de sinais como língua de instrução. O Instituto, único em âmbito federal, ocupa importante centralidade nessas discussões, promovendo fóruns de debates, publicações, seminários, pesquisas e assessorias em todo território nacional. Possui uma vasta produção de material pedagógico, fonoaudiológico e de vídeos em língua de sinais, distribuídos para os sistemas de ensino. Atualmente, além de oferecer, no seu Colégio de Aplicação, educação precoce (de zero a três anos), ensino fundamental e médio, oferece também a possibilidade de formar profissionais da educação, surdos e ouvintes, no Instituto Superior Bilíngüe inaugurado no ano de 2005, experiência essa pioneira na América Latina.

ROCHA, Solange M. O INES e a Educação de Surdos no Brasil. Rio de Janeiro: MEC/INES, 2007.

ACERVO

dos Signaes dos Surdos-Mudos com cópias distribuídas para várias localidades do Brasil. A intenção principal era a de divulgar o meio pelo qual os surdos se comunicavam. Nas décadas iniciais do século XX, o Instituto oferecia, além da instrução literária, o ensino profissionalizante. A terminalidade dos estudos estava condicionada à aprendizagem de um ofício. Os alunos frequentavam, de acordo com suas aptidões, oficinas de sapataria, alfaiataria, gráfica, marcenaria e também artes plásticas. As oficinas de bordado eram oferecidas às meninas que freqüentavam a instituição em regime de externato. Por muito tempo o trabalho realizado na gráfica do Instituto, pelos surdos, foi referência no Rio de Janeiro recebendo encomenda de encadernação de quase todas as instituições públicas e particulares nas primeiras décadas da República. As questões relativas ao ensino para alunos surdos sempre foram objeto de muita polêmica, situação essa agravada pelos resultados do Congresso realizado em Milão em 1880, os quais indicaram a aquisição de linguagem oral pelo surdo como o modo mais adequado de educá-lo, procurando evitar a utilização dos sinais no processo de ensino. Essa indicação foi muito criticada por alguns professores e alunos que reconheciam a importância e a legitimidade da comunicação sinalizada. A principal crítica que se fazia aos processos de aquisição de linguagem oral era de que ela demandava um tempo enorme de treinamento da fala e dos resíduos auditivos, concorrendo com a escolarização formal que ia sendo abandonada pela importância que era dada à expressão pela palavra oral. Essa perspectiva de escolarização não tinha como prioridade o ensino e sim o desenvolvimento da fala. Os incipientes resultados dessa perspectiva para a educação dos surdos, que demandavam ensino público de massa, estimularam o surgimento, em meados da década de 80, do século XX, de um movimento transnacional, contando com acadêmicos, profissionais da área da surdez e dos próprios surdos no sentido de apontar outros caminhos para a sua escolarização e socialização. Com apoio de pesquisas realizadas na área da linguística que conferiu status de língua à comunicação gestual entre surdos, esse movimento ganha corpo. Já no final dos anos 80, no Brasil, os surdos lideram o movimento de oficialização da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Em 1993, um projeto de Lei da então senadora Benedita da Silva deu início a uma longa batalha de legalização (Lei nº 10.436/2002) e regulamentação (Lei n.º 5626/2005) da Libras, em âmbito federal.


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ESPAÇO ACADEMICO

| Itamar Lopes dos Santos¹ | Jocimara Paiva Grillo² | Perpétua Aparecida A. Dutra³

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o longo dos anos trabalhando como intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e inseridos nos movimentos da comunidade surda de Campo Grande, estado do Mato Grosso do Sul, onde realizamos nossa pesquisa, notamos que o tradutor intérprete possui papel de grande valor, pois ele é o elo entre as culturas dos ouvintes e dos surdos. Percebemos também a escassez de profissionais capacitados, as dificuldades enfrentadas por eles e o despreparo das escolas. Sendo assim, foi necessário buscar mais informações a respeito do tradutor intérprete e, para a nossa surpresa, encontramos literatura escassa sobre o assunto. Para melhor apresentar a discussão, os assuntos foram distribuídos por tópicos onde serão discutidos desde a definição até a atuação dos tradutores/intérpretes de Libras (TILS).

Para iniciarmos a discussão, usaremos a definição de Quadros (2004, p. 07), para quem o TILS é como “uma pessoa que interpreta de uma dada língua de sinais para outra língua, ou desta outra língua para uma determinada língua de sinais”. Segundo Pereira (2008): O intérprete de Língua de Sinais é a pessoa que, além de proficiência em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e em Língua Portuguesa, exerce a profissão de: traduzir/verter, em tempo real (interpretação simultânea) ou com pequeno lapso de tempo (interpretação consecutiva), uma língua sinalizada para uma língua oral (vocal) ou vice-versa, ou então, para outra língua sinalizada.

No Brasil, esse trabalho se iniciou com atividades voluntárias, por volta da década de 1980, e foi valorizado ao longo dos anos. O advento da inclusão dos surdos fez este profissional aparecer em vários lugares, tais como consultas médicas, palestras, assistência social, televisão, ações judiciárias, escolas e universidades, entre outros. O tradutor intérprete educacional vem conquistando seu espaço desde o reconhecimento da Libras através da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, regulamentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Mas quem é esse profissional? Quadros (2004, p. 59) explica que “o intérprete educacional é aquele 26 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

que atua como profissional intérprete de língua de sinais na educação”. Lacerda (2004, p. 01) não o define, mas salienta que: O intérprete de Língua de Sinais é uma figura pouco conhecida no âmbito acadêmico. Os estudos existentes no Brasil e no cenário mundial são escassos, tanto no que diz respeito ao intérprete de maneira ampla, quanto a pesquisas que remetam ao intérprete educacional especificamente.

Analisando estes dados podemos entender que este profissional deve ter domínio das línguas envolvidas no processo de tradução e interpretação além de ter um bom relacionamento com a comunidade surda, o que facilita sua atuação. Ressaltamos, porém, que a formação pedagógica é extremamente relevante para o desempenho de sua função. Uma vez que atua na educação, deve ter os conhecimentos básicos de um bom professor e assim seguir em conjunto com a equipe pedagógica da escola em prol do sucesso cognitivo dos alunos surdos. Segundo Albres e Vilhalva (2005, p. 07), em Campo Grande o intérprete educacional atua desde 1995, através de um projeto elaborado pela professora Shirley Vilhalva, que no ato era diretora da escola para surdos (CEADA). O início do atendimento deu-se primeiramente na rede estadual, nas escolas Lúcia Martins Coelho e Adventor Divino de Almeida, e em 1999 na rede municipal, nas escolas Arlindo Lima e Bernardo Franco Baís. Desde então, o atendimento aos surdos é crescente. Antes era apenas exigida desse profissional a fluência em Língua de Sinais. Hoje é necessário ter formação de nível superior com habilitação em licenciaturas e ter certificação de proficiência em Libras (PROLIBRAS/MEC) ou ser aprovado em avaliações realizadas por órgãos específicos de atendimento aos surdos.

O intérprete de Língua de Sinais é uma figura pouco conheAlém do domínio das línguas envolvidas no processo de tradução e interpretação, o profissional precisa ter qualificação específica para atuar como tal. Isso significa ter domínio dos processos, dos modelos, das estratégias e técnicas de tradução e interpretação. O profissional intérprete também deve ter formação específica na área de sua atuação (por exemplo, a área da educação). (QUADROS, 2004, p. 28)

Aqui encontramos os primeiros entraves desse profissional tão questionado no mundo acadêmico. Aqueles que são contratados como professores deveriam ter os mesmos direitos e deveres destes profissionais, mas não é isso que acontece na realidade.


Fator este que nos leva a indagar sobre o verdadeiro papel do TILS educacional.

Algumas pessoas acreditam que ser intérprete educacional significa apenas traduzir o que os professores falam em sala de aula e que não é preciso planejar suas atuações e preparar as aulas. De fato, elaborar atividades é responsabilidade do professor, mas o TILS deve ter contato com o planejamento para se preparar para a interpretação na aula. Caso haja dúvidas do conteúdo, elas deverão ser sanadas com antecedência para que não se prejudique o processo cognitivo do aluno surdo. Não sabendo como mediar a explicação do professor, é preciso entender para interpretar. A falta de conhecimento da equipe pedagógica da escola sobre o papel do TILS faz com que alguns equívocos aconteçam. Às vezes lhes é delegado o papel de professor dos alunos surdos, quando deveria ser visto apenas como instrumento de comunicação. Nossa experiência em sala de aula nos remete a uma realidade cada vez mais diferente. Atuamos com alunos em níveis linguísticos totalmente diferentes, sendo que uns sabem ler e escrever, outros, nem sempre. O professor confia a nós a responsabilidade de ensinar os alunos surdos, quando na realidade somos apenas mediadores do ensino. Para isso estudamos muito, estamos em constante aperfeiçoamento linguístico e, principalmente, buscando meios de facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos surdos. Ainda há casos em que a escola acredita que a responsabilidade do ensino é apenas do intérprete. Quadros (2004, p. 28) considera ser antiético exigir que o intérprete tutore os alunos surdos em qualquer circunstância ou realize atividades que não façam parte de suas atribuições. A autora também destaca algumas de suas atribuições observando preceitos éticos: a) confiabilidade (sigilo profissional); b) imparcialidade (o intérprete deve ser neutro e não interferir com opiniões próprias); c) discrição (o intérprete deve estabelecer limites no seu envolvimento durante a atuação); d) distância profissional (o profissional intérprete e sua vida pessoal são separados); e) fidelidade (a interpretação deve ser fiel, o intérprete não pode alterar a informação por querer ajudar ou ter opiniões a respeito de algum assunto, o objetivo da interpretação é passar o que realmente foi dito).

Para que a atuação profissional seja adequada, é necessário mais informação a respeito das atribuições

dos intérpretes educacionais. Eles precisam conhecer o seu verdadeiro papel na escola para não ficarem alheios aos problemas cognitivos dos surdos em meio ao total despreparo do corpo docente quanto à elaboração das atividades e à metodologia de ensino. Lacerda (2004, p. 03) destaca: Em relação ao papel do intérprete em sala de aula, se verifica que ele assume uma série de funções (ensinar língua de sinais, atender a demandas pessoais do aluno, cuidados com aparelho auditivo, atuar frente ao comportamento do aluno, estabelecer uma posição adequada em sala de aula, atuar como educador frente a dificuldades de aprendizagem do aluno) que o aproximam muito de um educador. [...] ele deve integrar a equipe educacional, todavia isso o distancia de seu papel tradicional de intérprete gerando polêmicas.

O intérprete deve ter bem clara a dicotomia entre uma interpretação meramente automática, ou seja, o professor fala e ele interpreta, e uma significativa, onde o ensino-aprendizagem é levado em consideração.

O primeiro e um dos maiores desafios que enfrentam os TILS é a aceitação da equipe escolar em ter um novo profissional em seu quadro docente. Muitas escolas apenas os aceitam pelo simples fato de cumprirem SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 27


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a lei, para evitarem conflitos que prejudiquem a imagem da instituição. Assim delegam aos TILS a tutela dos alunos surdos. O correto seria que todos os professores saíssem das universidades preparados para essa inclusão, sabendo pelo menos o básico de Libras, mas a realidade é que a maioria dos educadores não tem interesse em buscar informações ou se aprofundar no mundo da Libras; prefere deixar tudo nas mãos dos intérpretes. Isso acaba por sobrecarregá-los, pois precisam aprofundar seus conhecimentos para atenderem adequadamente os surdos. Para amenizar os problemas, são necessárias capacitações onde todos possam aprender Libras e assim compreender os alunos com surdez. O intérprete deve seguir as orientações do Decreto nº 5.626/2005, que exige a certificação de proficiência em Libras para atuar como TILS. O professor deve buscar informações para não prejudicar o aluno. As universidades devem oferecer a disciplina de Libras para que os futuros professores possam ter o conhecimento necessário para atuar nas escolas. O projeto pedagógico da escola deve ser adaptado para o atendimento especializado, adequando o currículo e as metodologias que facilitem o aprendizado do aluno surdo. É relevante ser flexível na correção das provas, uma vez que são feitas na língua portuguesa, e o surdos não têm domínio necessário, pois sua língua materna é a Libras. Outro desafio é a falta de sinais específicos para os conteúdos. Nas disciplinas de química, física e biologia, por exemplo, enfrentamos os maiores problemas pela falta de acesso aos conteúdos específicos em Libras, dificultando a criação de sinais para serem usados nas aulas. Isso se reflete no aprendizado e faz com que os surdos tenham mais dificuldades nessas disciplinas e, em alguns casos, continuem defasados se comparados aos alunos ouvintes. Dessa forma, fazse relevante a presença de um grupo de pesquisa em Libras para desenvolver sinais específicos para o uso em sala de aula. Assim os TILS devem ter habilidades linguísticas compatíveis para conseguirem adequar a explicação destes conteúdos, o que muitas vezes acontece sem o apoio do professor regente e acaba deixando o aluno surdo um passo atrás da turma. Muitos surdos chegam às escolas com grande defasagem cognitiva, e recai sobre o intérprete o resgate desse atraso. A falta de conceitos e de contato com as informações nos períodos certos de sua aprendizagem faz com que os surdos percam muitas informações. A falta de conhecimento e de domínio da Libras também é fator relevante para que isso aconteça. Alunos surdos filhos de pais ouvintes, não usuários da língua de sinais, sempre apresentam mais dificuldades devido 28 | REVISTA DA FENEIS | SET-NOV | 2010

à ausência de estímulos na família. Por outro lado, os surdos filhos de pais surdos também têm dificuldade devido à falta de conhecimento da família. Assim, a educação dos surdos é como uma faca de dois gumes, e geralmente recairá sobre a escola a responsabilidade de educá-los. Mas, se o trabalho não for feito em conjunto, possivelmente nada será aproveitado. O certo a fazer é encarar a realidade e chamar as famílias para, em conjunto, resolver os problemas apresentados e para que não fique apenas com os intérpretes a função de educar os alunos surdos que se tornam limitados, devido à falta de apoio e de informação em casa. Apesar de ser bem requisitado no meio acadêmico, o TILS ainda enfrenta um grande desafio quanto a sua contratação. É um profissional que não se enquadra nos concursos públicos, e, por isso, seu papel se confunde, muitas vezes, com o de professor, e assim é contratado. Há várias entidades representativas que lutam pelo reconhecimento da profissão, e em alguns estados já podemos encontrar concursos para TILS, em universidades com um quadro de funcionários públicos da educação. No caso específico da educação, o intérprete deve ter consciência de sua atuação e lutar pela qualidade de trabalho. Uma vez contratado como professor, deve seguir as atribuições dessa função, o que acaba sobrecarregando-o de responsabilidades e lesando o seu direito ao descanso. Para uma língua que exige de seu usuário esforço físico e mental, é extremamente relevante um tempo de descanso. Salientamos que o fato de o aluno não estar na escola não significa que o intérprete deva fazer outros serviços, mas sim aproveitar a folga para procurar os professores para esclarecer dúvidas e até mesmo pesquisar sinais para facilitar seu trabalho na sala de aula. Destacamos que existe o código de ética que orienta os intérpretes e assegura seus direitos e deveres. Vamos analisar o que diz Quadros (2004, p. 61) referente à ética e à atuação dos intérpretes educacionais: “Em qualquer sala de aula, o professor é a figura que tem autoridade absoluta.” Na verdade a figura do intérprete muitas vezes confunde os alunos, como se fossem dois “professores”. É necessário deixar bem claro que o professor regente da disciplina é o responsável pela sala toda, inclusive pelos alunos surdos. O intérprete é um canal de comunicação que tem sua responsabilidade apenas com os alunos surdos. Os professores, por falta de conhecimento, delegam ao intérprete toda a responsabilidade desses alunos, e é comum ouvirmos “seus alunos”, quando na realidade os surdos são alunos da escola. “Considerando as questões éticas, os intérpretes devem manter-se neutros e garantirem o direito dos


alunos de manter as informações confidenciais.” Por passarem muito tempo com os alunos em sala de aula, é comum que procurem o intérprete como amigo para contar confidências e até pedir conselhos, quando isso acontecer, jamais ele deve contar a alguém o que se passou mesmo quando questionado, mas, em casos em que a integridade moral e física de alguém esteja envolvida, ele deve buscar orientação da equipe pedagógica da escola.

Na verdade a figura do intér-

prete muitas vezes confunde os alunos, como se fossem dois “professores”. É necessário deixar bem claro que o professor regente da disciplina é o responsável pela sala toda, inclusive pelos alunos surdos. O

intérprete é um canal de comunicação que tem sua responsabilidade apenas com os alunos surdos. a

“Os intérpretes têm o direito de serem auxiliados pelo professor através da revisão e preparação das aulas que garantem a qualidade da sua atuação durante as aulas.” Quando o professor oportuniza o contato com o planejamento das aulas, a atuação do TILS é facilitada, uma vez que ele terá a oportunidade de se preparar para a explicação do professor. Além disso, ele também poderá interagir e até mesmo sugerir se as atividades são adequadas ou não para os surdos e juntos podem encontrar uma solução para que os surdos sejam contemplados com o conteúdo. Quando o professor não antecipa o conteúdo ao intérprete, certamente este terá mais dificuldades para realizar um bom trabalho. “As aulas devem prever intervalos que garantem ao intérprete descansar, pois isso garantirá uma melhor performance e evitará problemas de saúde para o intérprete.” Este pode-se dizer que está sendo o maior problema para as escolas. Os professores, em geral, têm horas de planejamento que lhes permitem certo descanso, além de trocarem de turma com mais frequên-

cia. Já os intérpretes ficam em sala de aula durante os cinco tempos, e isso acaba por sobrecarregá-los. Sendo assim deve-se acordar com a direção algumas adaptações, como, por exemplo, “não exigir” que os intérpretes participem de reuniões aos sábados, ou até mesmo daquelas nas quais serão discutidos problemas específicos que não envolvam diretamente os surdos. Da mesma forma, nos dias em que o aluno não estiver na escola, o TILS poderia ser liberado mais cedo, não sendo obrigado a cumprir horário. Também durante as aulas o professor deve dar um tempo para que o intérprete descanse pelo menos dez minutos de uma aula para outra. Nas escolas municipais de Campo Grande, já é garantido o direito ao TILS de cumprir seu planejamento livre de duas horas/aula, bem como duas horas/aula com o professor, cumpridas preferencialmente nas aulas de educação física e artes, ou conforme a possibilidade de ausentar-se em outras disciplinas, tudo depende de se o professor vai ou não precisar do auxílio do tradutor. Todos esses casos resolvem-se com conversas, mas, infelizmente, ainda existe a ideia de que os intérpretes não precisam de planejamento e que o serviço é “leve e fácil” e não exige muito esforço físico e mental do profissional. Para concluir esta análise, citamos o último item que, de tão completo em informações, dispensa mais comentários, apenas afirmamos que não é isso que acontece em sala de aula, mas sim seu oposto: Deve-se também considerar que o intérprete é apenas um dos elementos que garantirá a acessibilidade. Os alunos surdos participam das aulas visualmente e precisam de tempo para olhar para o intérprete, olhar para as anotações no quadro, olhar para os materiais que o professor estiver utilizando em aula. Também, deve ser resolvido como serão feitas as anotações referentes ao conteúdo, uma vez que o aluno surdo manterá sua atenção na aula e não disporá de tempo para realizá-las. Outro aspecto importante é a garantia da participação do aluno surdo no desenvolvimento da aula através de perguntas e respostas que exigem tempo dos colegas e professores para que a interação se dê. A questão da iluminação também deve sempre ser considerada, uma vez que sessões de vídeo e o uso de retro projetor podem ser recursos utilizados em sala de aula. (QUADROS, 2004, p. 61)

Para que a inclusão dos surdos seja real, é preciso considerar todos os tópicos discutidos acima. Um profissional completo será aquele que souber unir teoria e prática, ou melhor, aquele que tiver domínio da língua de sinais e souber defendê-la teoricamente além de ter uma formação pedagógica adequada à sua atuação. Ser um intérprete educacional exige ter muita disciplina e coragem para realizar uma tarefa árdua de preparação tanto dos alunos quanto da própria equipe da escola, envolver-se nas atividades da escola, estar SET-NOV | 2010 | REVISTA DA FENEIS | 29


em constante estudo e aprimoramento de técnicas de interpretação e, acima de tudo, respeitar as regras da escola e lutar para que seja respeitado em seus direitos.

O respeito ao sujeito surdo, sua

cultura e sua língua, é necessário para o TILS ser aceito pela comu-

Atualmente, no Mato Grosso do Sul existem várias escolas e universidades, públicas e privadas, com pelo menos um intérprete em seu quadro funcional. Nas escolas públicas, ele é confundido com o professor, por ser contratado como tal; nas particulares, como funcionário administrativo da empresa, uma vez que também é registrado assim. Na verdade, está mais próximo de professor do que administrativo. A diferença está em que não necessita de elaborar atividades para o aluno nem preencher diários de classe, mas precisa planejar suas ações juntamente com o professor de cada disciplina, para melhor adequar a interpretação. Não basta apenas saber a língua de sinais e, muito menos, entrar em sala de aula despreparado, contando apenas com o que o professor vai falar; para o aluno surdo, isso é insuficiente. O intérprete deve sim assumir seu papel de educador em conjunto com a equipe pedagógica da escola. A avaliação é de responsabilidade do professor, mas o TILS precisa acompanhar a correção, para que o aluno não seja prejudicado. O domínio da língua de sinais é o requisito principal para ser um bom intérprete, sendo que para a educação se faz relevante o conhecimento pedagógico. Uma vez educador, proficiente no uso e interpretação da Libras, o intérprete educacional pode ser contratado como professor que exerce a função de intérprete educacional, tendo os mesmos direitos e deveres. O correto seria a regulamentação da profissão, para que o TILS possa ser contratado conforme sua função, TILS educador de surdos, não o único responsável, mas um mediador ativo na educação dos surdos. O primeiro passo para resolver o impasse profissional do intérprete já foi dado. O Projeto de Lei nº 4.673/2004, de autoria da deputada Maria do Rosário (PT-RS), que reconhece a profissão de intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), já foi deliberado pelo Senado e agora aguarda a sanção presidencial. Uma grande conquista para os profissionais que há anos lutam pelo seu reconhecimento e respeito. Aos poucos, os TILS estão conquistando seu espaço, mas ainda há muitas barreiras à frente para serem derrubadas, por isso muito esforço é necessário. Para alcançar o sucesso, as forças devem ser unidas em prol da educação para todos declarada em Salamanca.

nidade surda e, acima de tudo ser respeitado como profissional......

¹Pós-graduando em “Libras e a prática da educação inclusiva na formação do intérprete”. E-mail: <itamar.interprete@gmail.com>. ²Pós-graduanda em “Libras e a prática da educação inclusiva na formação do intérprete”. E-mail: <jojopaiva@hotmail.com>. ³Pedagoga, Especialista em Educação Especial, Formação Generalista, Mestra em Educação pela UCDB. Professora do Curso de Pedagogia da UNIDERP, da UNIASSELVI. Professora orientadora deste artigo e coordenadora do Instituto LIBERA LIMES. E-mail: <perpetuadutra@yahoo.com.br>.

REFERENCIAS: ALBRES, Neiva de A. História da Língua Brasileira de Sinais em Campo Grande – MS. Campo Grande, 2004. Disponível em: <http://www.editora-arara-azul.com.br> Acesso em: 20 maio 2009. BRASIL. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Acessibilidade. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2005. CÂMARA reconhece profissão de intérprete da língua de sinais. Disponível em: <http://www.apilms.org>. Acesso em: 15 nov. 2009. LACERDA, Cristina B. F. de; POLETTI, Juliana E. A escola inclusiva para surdos: a situação singular do intérprete de língua de sinais. FAPESP/ANPED, 2004. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt15/t151. pdf>. Aceso em: 20 maio 2009. PEREIRA, Maria Cristina Pires. Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais. Disponível em: <http://geocities.yahoo. com.br/macripiper/tils.htm>. Acesso em: 3 jan. 2009. [Última atualização em dez. 2008]. QUADROS, Ronice M. O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa. Secretaria de Educação Especial; Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos. Brasília: MEC; SEESP, 2004. VILHALVA, Shirley. Histórico da LIBRAS de Mato Grosso do Sul. Campo Grande MS. [Enviado por e-mail pela autora, em 15 jul. 2009, para <jojopaiva@hotmail.com>, da aluna Jocimara Paiva Grillo].


Ilustrações de Sérgio Lopes, ilustrador surdo da cidade de Goiânia. Atualmente é proprietário de uma empresa de arte e propaganda e cursa Letras Libras pela UFSC. E-mail: pegaip@hotmail.com Texto da pedagoga surda e estudante de Letras Libras Débora Campos, da cidade de Manaus. Mestranda em linguística pela UFSC, atualmente trabalha como tradutora da escrita de sinais e como atriz. E-mail: deboracamposw@hotmail.com


Governador Valadares - MG

http://www.cafes.org.br

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