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ANO VII • Nº 32 • junho de 2007

ISSN 1981-4615


A Cerimônia será no dia 5 de agosto, das 14 às 20h, na Fac Senac - F 903 SEUP Sul, EQS 703/903 Lote A Brasília, DF


palavra do presidente

FENEIS ISSN 1981-4615 DIRETORIA Diretor-Presidente Antônio Mário Sousa Duarte Diretor Primeiro Vice-Presidente Marcelo Silva Lemos Diretor Segundo Vice-Presidente Shirley Vilhalva Diretora Administrativa Márcia Eliza de Pol Diretor Financeiro e de Planejamento Max Augusto Cardoso Heeren Diretora de Políticas Educacionais Marianne Rossi Stumpf DIRETORIAS REGIONAIS Rio de Janeiro – RJ Diretor Regional: Walcenir Souza Lima Porto Alegre – RS Diretor Regional: Ricardo Morand Góes Diretora Regional Administrativa: Vânia Elizabeth Chiella Diretora Regional Financeira: Denise Kras Medeiros Teófilo Otoni – MG Diretor Regional: Luciano de Sousa Gomes Diretora Regional Administrativa: Sueli Ferreira da Silva Diretora Regional Financeira: Rosenilda Oliveira Santos Recife – PE Diretor Regional: Nelson do Rego Valença Júnior Diretor Regional Administrativo: Sueli Cristina dos Santos Diretor Regional Financeiro: Thereza de Fátima Araújo Fragoso Brasília – DF Diretor Regional: Messias Ramos Costa Diretora Regional Administrativa: Edeilce Aparecida Santos Buzar Diretor Regional Financeiro: Amarildo João Espíndola Belo Horizonte – MG Diretora Regional: Rosilene Fátima Costa Rodrigues Novaes Diretor Regional Financeiro: Antônio Campos de Abreu São Paulo – SP Diretor Regional: Neivaldo Augusto Zovico Diretora Regional Administrativa: Neiva de Aquino Albres Diretor Regional Financeiro: Richard Van Den Bylaardt Curitiba – PR Diretora Regional: Karin Lílian Strobel Diretora Regional Administrativa: Iraci Elzinha Bampi Suzin Diretor Regional Financeiro: Angelo Ize Manaus – AM Diretor Regional: Marlon Jorge Silva de Azevedo Diretora Regional Financeira: Waldeth Pinto Matos Fortaleza - CE Diretora Regional: Maria Maísa Farias Jordão Diretora Regional Administrativa: Mariana Farias Lima Diretor Regional Financeiro: Rafael Nogueira Machado Florianópolis – SC Diretor Regional: Luciano Amorim Diretora Regional Administrativa: Idavania Maria de Souza Basso Diretor Regional Financeiro: Patrícia Matos Leal CONSELHO FISCAL Efetivo 1º Membro Efetivo e Presidente – José Tadeu Raynal Rocha 2º Membro Efetivo e Secretário – Carlos Eduardo Coelho Sachetto 3º Membro Efetivo – Vago Suplentes 1º Membro suplente – Luiz dinarte Farias 2º membro suplente- Antônio Carlos Cardoso 3º membro suplente- Clara Ramos Pedroza CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Carlos Alberto Góes Sílvia Sabanovaite Betiza Pinto Botelho

José Onofre de Souza Marcus Vinicius Calixto

EDITORIA Conselho Editorial Karin Liljan Strobel Shirley Vilhalva Ana Regina e Souza Campello Gladis Perlin Nádia Mello Secom – Setor de Comunicação Rita de Cássia Lobato

Editora e Jornalista responsável Nádia Mello (MT 19333) Capa e Diagramação Olga Rocha dos Santos

Feneis: 20 anos de vida nova para o surdo A Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos está completando duas décadas. No dia 16 de maio de 1987 foi instituída a FENEIS, que tem como objetivo a inserção do surdo na sociedade de forma plena e feliz. Fruto do desejo de luta e da mobilização dos surdos, a entidade mantém-se firme até hoje no propósito de reivindicar e lutar por uma vida digna para o surdo brasileiro. A Assembléia que deu origem à Feneis não imaginava a caminhada de desafios, mas também de vitórias, que os surdos teriam com o decorrer dos anos. Parcerias feitas nesses 20 anos foram de grande relevância para o reconhecimento da Federação enquanto maior representatividade brasileira da Pessoa Surda. Reconhecemos o valor e somos gratos hoje aos profissionais da área, amigos e pais de surdos, e ao apoio de órgãos governamentais e não governamentais, empresas e outras instituições que acreditaram na FENEIS. No entanto, precisamos ressaltar que o maior responsável pelas vitórias obtidas ao longo dessa caminhada foi, sem dúvida alguma, o próprio surdo. Quando parabenizamos a FENEIS e todos os seus parceiros e equipes, temos de lembrar em primeiro lugar dos surdos que, através de seus esforços e dedicação, fizeram passo-a-passo a história da entidade. Aos diretores surdos que passaram pela Feneis e toda a comunidade surda brasileira, o nosso agradecimento e toda honra. Quem nunca se afastou da luta pela integração do surdo em todas as esferas da sociedade sabe do seu papel frente às mais diferentes necessidades. Através de suas manifestações, participações em eventos, pesquisas, programações e diversas iniciativas colhemos aos poucos frutos como maior abertura no mercado de trabalho, leis que garantem direitos, acesso à informação por meio de legendas , maior procura por intérpretes, entre outros. Mas em meio a tudo isso a oficialização da Libras, que sempre foi uma das principais bandeiras da entidade, aconteceu, tendo sido regulamentada em 2002. A conquista abriu as portas para uma educação melhor para o surdo entre outras possibilidades. Parabéns a todos que fizeram parte dessa história. São 20 anos de vida nova para os surdos. Mas nossa jornada continua. Que não nos faltem forças e garra para lutar por tempos cada vez melhores. Antonio Mário Sousa Duarte Diretor-Presidente

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 De Surdo para Surdo Um vencedor

Amarildo João Espíndola, nascido em Guaratuba-PR, podia ser apenas mais um número nas estatísticas de pessoas surdas neste vasto Brasil. Mas Espíndola preferiu lutar, ter força de vontade para superar os obstáculos e se tornar alguém muito especial, apesar da surdez. Hoje ele é ator, decorador, professor e diretor regional financeiro da FENEIS no Distrito Federal. Página 12

 Notícias Regionais Sul cria Associação dos Intérpretes

O 2º Encontro Estadual dos Intérpretes da Língua de Sinais do Rio Grande do Sul, realizado no Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire, correspondeu às expectativas. Além de oficinas e palestras, foi criada a AGILS – Associação Gaúcha dos Intérpretes de Língua de Sinais. A associação tem o objetivo de ajudar os profissionais da área de tradução de Libras a se organizarem em torno dos interesses da classe, além de buscar a regulamentação profissional da atividade. Página 13

 Notícias Regionais FotoLibras: surdos se especializam em fotografia

Desde o dia 5 de fevereiro, surdos de lugares distintos de Recife vêm dedicando o seu tempo para aprender a arte de fotografar através do Projeto FotoLibras. No dia 27 de junho, o projeto, através da FENEIS/CE, participou do 4º Encontro sobre Inclusão Visual do Rio de Janeiro – Evento FotoRio 2007, realizado no Centro Cultural dos Correios. Página 15

 Mercado de Trabalho FIOCRUZ instala TDD

A Fiocruz trouxe uma inovação para os 147 trabalhadores surdos lotados no campus de Manguinhos: um telefone público especial para surdos (TDD). O parelho, doado pela empresa de telefonia Oi e que custa cerca de R$ 2 mil, foi instalado graças a idéia do coordenador de Projetos Sociais da instituição, responsável pelo contrato com a Feneis, Jorge da Hora. Página 20

Espaço Acadêmico Mulheres Surdas que fazem a História

A seção Espaço Acadêmico é a grande novidade desta Revista. São artigos especiais para pesquisas de estudantes e profissionais ligados á área. Entre o material lançado neste número está o texto de Karin Lílian Strobel, doutoranda em Educação, em que destaca mulheres surdas que fizeram história em nosso país. Página 21

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S U M Á R I O

 CAPA:

20 anos de lutas e conquistas A Feneis completa 20 anos na missão de proporcionar ao surdo conquistas a que qualquer cidadão brasileiro tem direito. “A Feneis é fruto do desejo de luta e da mobilização dos surdos. Nosso pilar é reivindicar e batalhar por uma vida digna para o surdo brasileiro”, declara Antônio Mário de Souza Duarte, diretor-presidente da entidade. Nessa caminhada, uma de suas maiores vitórias foi a oficialização e regulamentação da Língua Brasileira de Sinais. Leia mais nas páginas de 17 a 20.

SUMÁRIO SUMÁRIO  Palavra do Presidente .............................................3  Cartas ao Leitor ...................................................... 6  Comunicando ........................................................ 7  Capacitação – Intérprete ......................................... 9  Perfil .....................................................................10  Notícias Regionais ................................................14  Feneis pelo Brasil .................................................30  Infantil ..................................................................31

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cartas do leitor Literatura sobre surdez

FENEIS RESPONDE

Faço parte de um grupo de pesquisa da Universidade de Caxias do Sul que tem como enfoque a surdez. Estamos desenvolvendo uma pesquisa a respeito da inserção do surdo na universidade. Preciso das seguintes informações: Número de surdos que estão no ensino superior no Brasil, número de escolas especiais de surdos que existem no Brasil.

Em oito anos, o número de alunos surdos matriculados nas escolas de ensino básico cresceu 61%. O índice representa 27 mil estudantes surdos a mais em 2006, em relação a 1998. Há no ensino básico, tanto público quanto privado, cerca de 69 mil alunos com deficiência auditiva matriculados. Já nas instituições de ensino superior, são apenas 974. Este salto no número de surdos matriculados no ensino básico a partir de 2000 é atribuído à edição de uma legislação que trata da acessibilidade de pessoas com deficiência. A partir de 2004, entraram quatro mil alunos a mais nas escolas a cada ano. Isso mostra que as escolas estão se adequando às necessidades de todos os alunos. Para compreender a importância do assunto é preciso levar em consideração os dados da realidade brasileira. Segundo o Censo 2000 (IBGE), há no país 5.750.809 pessoas com problemas relacionados à surdez, sendo que 519.460 na faixa de 0 a 17 anos, e 276.884 na faixa de 18 a 24 anos. Estudos do UNICEF indicam que 55% das crianças e adolescentes surdos são pobres, e que a taxa de analfabetismo entre crianças e adolescentes surdos (7 a 14anos) é de 28,2%. Em 2004, segundo o Censo Escolar MEC/INEP, havia 62.325 alunos surdos ou com deficiência auditiva matriculados na Educação Básica, e desses, somente 2.791 no Ensino Médio: ou seja, apenas 3,6 % dos jovens surdos brasileiros que ingressam no sistema educacional conseguem chegar ao final da Educação Básica. Os dados do Censo da Educação Superior de 2003 MEC/INEP indicam que havia aproximadamente 600 alunos surdos ou com deficiência auditiva matriculados em Instituições de Ensino Superior no Brasil. As causas do reduzido número de alunos e a evasão escolar refletida nos dados estatísticos são indicativos de problemas socioeconômicos, de vulnerabilidade social e de barreiras na comunicação entre professores e alunos surdos e entre os colegas.

Janaína Lazzrotto – janasimioni@yahoo.com

(Colaborou: Celes/RJ)

Meu nome é Edith Siquerira. Sou acadêmica do curso de Serviço Social da Universidade Nilton Lins em Manaus - AM, sou finalista 2007, e venho por meio deste pedir sua colaboração, pois estou tentando fazer minha monografia. Porém, não tenho conhecimento suficiente de literatura que fale sobre esse tema, tais como a História do surgimento da Língua, autores de referência, Jornal, revistas, políticas destinadas a essa categoria, entre outros. Fiz o curso básico de Libras na Feneis/AM, e fiquei apaixonada por essa Língua. Na empresa que eu trabalho tem um deficiente auditivo atuando em um setor onde ninguém sabe Libras. Apenas eu consigo me comunicar com ele. Futuramente, quando me formar em assistente social, pretendo trabalhar e intervir de forma positiva nessa realidade Social. Edith Siqueira - AM

Resposta - FENEIS Encaminhamos sua solicitação para o setor responsável. Ele deverá estar encaminhando as informações que você precisa. No entanto, podemos adiantar que as Revistas da Feneis são excelentes fontes de pesquisas, e freqüentemente abordam temas que podem interessar. Caso precise de edições anteriores, poderemos enviar.

Surdos na Universidade

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comunicando

China: Polícia põe fim à rede de tráfico de crianças surdas Após uma longa investigação, a polícia chinesa conseguiu desarticular uma rede de venda de crianças surdas. Só no mês de abril, 10 adolescentes com idades entre 14 e 17 haviam desaparecido. A

rede de tráfico contava com a ajuda de uma dirigente de uma escola da cidade de Liupanshui, na província de Guizhou, no sudoeste da China. No local, funcionava uma escola que vendia alunos para

serem treinados para mais tarde se tornarem criminosos, segundo informações do jornal “Beijing Times”. As crianças eram compradas pelo valor de 4 mil yuanes, cerca de US$ 520.

Ribeirão Preto ganha um CAS

Curso Librasnet em Uberlândia

Foi inaugurado, em Ribeirão Preto, o Centro de Formação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS). O fato é um importante avanço, já que Ribeirão Preto é a única cidade do Estado de São Paulo – e a primeira do interior do Brasil – a sediar e administrar um CAS. Antes, o MEC só vinha contemplando capitais. O prefeito Welson Gasparini e o secretário municipal da Educação, Abib Salim Cury, estiveram presente na inauguração. O resultado da parceria entre a prefeitura e o MEC visa fortalecer o compromisso com a inclusão de pessoas com surdez, deficiência auditiva e surdos-cegos.

A Megainfo, em parceria com a da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), está ministrando o curso para o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais via Web. O curso é indicado a qualquer pessoa que tenha interesse em aprender a Libras, ou pessoas que convivem com surdos. Informações: comercial@ megainfo.inf.br ou pelo telefone: (34) 3214 1755.

Sempre sorridente, a operadora que trabalha na Michelin, Fernanda de Oliveira Diniz Vailante, está sempre disposta a ajudar. É por isso que nas horas vagas, Fernanda auxilia como intérprete as entrevistas de seleção com candidatos com deficiência auditiva. Ela se orgulha em dizer que fez parte da primeira turma de funcionários portadores de deficiência auditiva da empresa. Hoje, sente-se feliz porque pode colaborar facilitando o entendimento das demais pessoas.

Aconteceu no dia 19 de março no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, a cerimônia da posse dos novos conselheiros eleitos do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa Portadora de Deficiência de São Paulo - CEAPPD, órgão que defende os direitos dos deficientes. Estiveram presentes na cerimônia, o governador do Estado de SP, José Serra, a deputada Célia Leão, o presidente do CEAPPD, Maria Inês Francisco, entre outras autoridades. Durante toda a cerimônia, um intérprete de Libras pôde ser visto em um telão, o que facilitou o acesso dos surdos que estiveram na cerimônia. Tomaram posse o diretor regional da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos de São Paulo do Núcleo de Capital, Neivaldo Augusto Zovico e Matheus Viana Meio, do Núcleo de Ribeirão Preto.

Posse dos novos conselheiros Prazer em ajudar do CEAPPD

Exame de proficiência O 2º exame de proficiência será realizado no 2º semestre de 2007. maiores informações no site www.coperve.ufsc.br

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comunicando

Orientação e Qualificação para Tradutores e Intérpretes de Libras/Língua Portuguesa Ao longo desses 20 anos de existência, a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) tem lutado pelos direitos dos Surdos. Nessa busca por dignidade, os intérpretes profissionais possuem um valor inestimável. Nesse sentido, eles tem procurado também se aperfeiçoar para exercer sua profissão. Com o advento da Lei 10.436/02, que oficializou a Libras, e o decreto 5.626/05, que a regulamentou, a FENEIS, com seu pioneirismo em cursos de orientação e capacitação, busca cumprir a sua missão de qualificar e lança mais um Curso de Orientação e Qualificação para Tradutores e Intérpretes de Libras/Língua Portuguesa. O Curso, que está iniciando em julho, acontece todos os sábados, na sede nova da Feneis/RJ, e terá a duração de 11 meses. Os que concluírem receberão certificado. Informações pelo telefone: (21) 2567- 4800 ou emails celesrj@feneis.org.br e celesrj@msn.com 8 - Revista da FENEIS

PROGRAMA

Vivência Profissional Modalidades opcionais: Introdução: Intérprete Educacional (Ensino Fundamental - Médio - Superior) / 25 horas Introdução: Intérprete Institucional ( Feneis e Convênios: públicos e privados) / 25 horas

Oficinas • Políticas Afirmativas e Abordagem Histórica Social da Feneis • História dos Movimentos de Cidadania e Educação dos Surdos no Brasil e no Mundo • Psicologia / Inserção no Mercado de Trabalho • Intérprete Educacional • Surdez Mito Estereótipos • Laboratórios de Filmagens • Cultura da Comunidade Surda e Identidade Surda • Língua Portuguesa • Laboratório de Interpretação • Filosofias Educacionais / Introdução à Lingüística • Ética da Interpretação / Princípios Gerais da Tradução Simultânea / Diferenças entre Interpretação e Tradução • Técnicas de Interpretação para TV e Vídeo • Técnicas: Tradutores e Intérpretes Guias para Surdos-cegos


perfil

Levando a música para os surdos Entre os tantos brasileiros que acreditam na construção de um mundo melhor, onde o respeito às minorias e suas diferenças sejam reais, o sorocabano Nelson Manoel de Oliveira, o Nelsão, 40 anos, não espera a virada do ano para suas realizações. Ao contrário, planta, diariamente, sementes de bons exemplos e dedicação. Assim, colhe bons frutos de um trabalho muito especial: ele é o regente do Coral de Surdos de Sorocaba, o “Vidas Ouvidas”, que luta pela quebra dos preconceitos e dá chance para novos talentos. O coral é composto por 15 jovens e foi criado há três anos por iniciativa do professor. A divulgação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e o rompimento de barreiras do preconceito para tornar a música uma ferramenta lúdica entre os surdos são, segundo Nelson, os principais objetivos do trabalho. Ele conta que seu primeiro contato com a Língua e os surdos foi na Igreja do Evangelho Quadrangular de Vila Progresso, em 2002. “Logo de início achei muito interessante e resolvi entender melhor esse universo”.

Hoje ele é interprete da Língua e garante que é “fantástico comunicar-se com as mãos, pois através delas conseguimos chegar ao coração das pessoas que são surdas e tirá-las, por alguns momentos, do mundo do silêncio, fazendo com que não se sintam inferiores a ninguém”, comenta. O contato com a Libras foi possibilitado por uma garota na igreja que manifestou o desejo de implantar um curso. Para aprimorar o aprendizado, Nelsão pesquisou na Internet e observou a maneira de os surdos se comunicarem. Começo do Coral Em 2003, ele assumiu o desafio de levar a música ao mundo dos surdos. “Há cinco anos que trabalho como intérprete de Libras e a parte musical tem sido o grande diferencial do meu trabalho, que é feito com muito amor e profissionalismo.” O coral é formado por alunos do Senai, surdos que freqüentam a igreja e outros que fazem parte da comunidade surda de uma forma geral. Para Nelsão, é possível sim fazer música para surdos, pois eles conseguem desenvolver

outros sentidos, como visão e mãos. “Senti a necessidade de incluir os deficientes auditivos, já que, na maioria dos eventos realizados na cidade ou fora dela, os surdos praticamente ficavam de fora”. De acordo com Nelson, há uma série de fatores que entram em ação para que o surdo compreenda a música. “Há casos em que quando se tem um som de percussão muito forte a vibração é captada com mais facilidade. Tudo isso tem que ser levado em conta, mas qualquer música é capaz de ser interpretada para a Língua de Sinais.” Quebra de barreiras Para Nelsão, o grande desafio do trabalho com o coral teve foi o de poder mostrar o que os alunos sabem, a língua, cultura, diferenças e competências, com apresentações em lugares que dificilmente conseguiriam ter acesso. Para ele é quase impossível dizer que não existe preconceito e discriminação por parte de algumas pessoas que convivem com os surdos e ressalta que, às vezes, o preconceito começa dentro da própria família. Nelsão lembra que os pais de surdos são ouvintes, mas a

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grande maioria desconhece a Língua de Sinais. O preconceito parte também de colegas da escola e do trabalho. Com os surdos, ele diz que aprender o verdadeiro valor da amizade e do amor ao próximo. “Vivencio muito a superação de desafios que é preciso devido à falta de comunicação no seu dia-a-dia, diante de situações corriqueiras e simples. É um grande aprendizado”, diz.

inclusão dos surdos no ambiente de trabalho. Vida difícil A vida de Nelsão sempre foi marcada por muitas lutas. Ele perdeu o pai com 10 anos de idade e começou a trabalhar muito cedo, assim como os irmãos. A mãe, recentemente falecida, foi aconselha-

“COM OS No programa do Jô O trabalho de Nelsão já foi destaque até no programa do Jô Soares, da Rede Globo. “Era instrutor de Automação Hidráulica e Pneumática no Senai e comecei a desenvolver um trabalho voluntário, com pessoas surdas e isso despertou o interesse de profissionais da Rede Globo, que me convidaram a participar do programa.” Segundo ele, o grande mérito dele foi ter desenvolvido um curso inédito no Brasil para ensinar Mecânica Industrial para surdos no Senai, em aulas ministradas voluntariamente e hoje todos estão empregados em diferentes empresas de Sorocaba e região. Projetos de ensino e alfabetização de surdos e cursos de Informática básica foram criados e geraram um grande mercado de emprego para os surdos. Nelsão também ministra palestras para as empresas sobre a legislação e contratação de deficientes e 10 - Revista da FENEIS

SURDOS APRENDI O

VERDADEIRO VALOR

DA AMIZADE E DO AMOR AO PRÓXIMO.

“VIVENCIO

MUITO

A SUPERAÇÃO DE DESAFIOS QUE

É PRECISO DEVIDO À FALTA DE COMUNICAÇÃO NO SEU DIA-ADIA, DIANTE DE SITUAÇÕES CORRIQUEIRAS E SIMPLES.

É

Centro de Treinamento e Desenvolvimento de Pessoal, onde temos atualmente 140 jovens aprendizes que se formam no Curso de Mecânico de Usinagem Industrial.” Nelsão é casado com Maria Nilce e tem dois filhos: Vitor,16 anos, e Tainara Ani, de 12. “Todos em casa conhecem e sabem a Língua Brasileira de Sinais, me apóiam e me ajudam no trabalho com os surdos.” Aos 39 anos, ele começou o curso de Pedagogia com ênfase em Administração e Supervisão Educacional. Em novembro, recebeu o título de Cidadão Emérito na Câmara Municipal.

UM GRANDE APRENDIZADO”

da por uma senhora a colocar Nelsão no Senai e a escolha proporcionou boas oportunidades. Hoje ele trabalha em um grupo com empresas do ramo de rolamentos, guias lineares e elementos de motores. “Sou analista de RH e locado no

Luta pelos direitos dos surdos Para lutar pelos direitos, os surdos de Sorocaba, juntamente com um grupo de ouvintes, criaram em 2004, a Associação dos Surdos de Sorocaba (Asus). Ele comenta que a principal luta dos surdos é pela presença de intérpretes em locais públicos e escolas. Nelsão lembra importantes vitórias como o Congresso Nacional ter aprovado e o Presidente da República sancionado a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, que reconhece como meio legal de comunicação e expressão a Libras. A Língua foi regulamentada sob o nº 5626, de 22 de dezembro de 2005. FONTE - Carlos Oliveira/Agência BOM DIA


de surdo para surdo

Eu sou um vencedor!!! João Espíndola, embora surdo, nunca desistiu de seus sonho. O resultado disso é ser, hoje, um profissional de muitas facetas Amarildo João Espíndola, nascido em Guaratuba (Pr), podia ser apenas mais um número nas estatísticas de pessoas surdas neste vasto Brasil. Mas Espíndola preferiu lutar, ter força de vontade para superar os obstáculos e se tornar alguém muito especial, apesar da surdez. E foi assim. Virou ator, decorador, professor e diretor. Mas o início não foi fácil. Desde muito pequeno já fazia leitura labial, e por este motivo os professores achavam que ele entendia tudo, ou simplesmente, esqueciam dele. E quando não compreendia as tarefas pas-

sadas, se fechava em seu próprio mundo. Com lembranças ora boas e ora ruins, o que ficou marcado mesmo foi um período escolar muito difícil. No entanto, já corria em suas veias, o espírito de um vencedor. Amarildo não se deixava derrotar. Desinibido, começou a imitar as outras pessoas e mais tarde foi criando sua própria identidade. “Fui lutar pelo meu espaço na sociedade”, lembra. Em todas as suas conquistas, Amarildo lembra com carinho da sua família. “Devo muito de tudo o que sou principalmente a meus irmãos e meus pais. O que pesou em minha vida foi a formação”. Eu morava com minha família em Guaratuba-PR, mas mudei para Brasília há cerca de 2 anos”, conta.

Hoje, embora distante de seus pais e irmãos, ainda continua perseverando e tendo sempre como lema a coragem. “É preciso valorizar a minha vida que é igual a de um ouvinte”. Atualmente, faz Artes na Faculdade Dulcina em Brasília e é diretor regional financeiro da FENEIS-DF. “Foi com muita coragem que ajudei a fazer a decoração das salas da FENEIS. Ficou linda”! Além disso, Amarildo ajudou a organizar o primeiro site brasileiro todo em Libras: www.ok.pro.br. Produziu também um conjunto de DVDs em Libras, que está sendo comercializado em todo o Brasil. “Graça a Deus estou muito feliz por ter vencido na vida apesar das lutas. Sou um vencedor” !

notícias regionais

Feneis em Destaque na Reatech 2007 Este ano, entre os dias 12 a 15 de abril, aconteceu a VI Feira Internacional de Tecnologia em Reabilitação e Inclusão - Reatech 2007, em São Paulo. A Feneis/ SP, em parceria com a Kolier, organizou espaço para o surdo, com possibilidade de manuseio de aparelhos telefônicos, além de conhecer toda a tecnologia voltada para a comunidade surda. Houve ainda a exposição de materiais e divulgação de cursos e oficinas de Libras. Como já era esperado, a feira foi um sucesso. O stand recebeu um número grande de visitantes, principalmente da comunidade surda. Uma das novidades des-

se ano foi a participação de voluntários que a Feneis/SP pôde contar. Todos eram alunos do curso de Libras, que além de conhecerem um pouco mais de comunidade, puderam treinar a Língua de inais. Estiveram presentes na abertura do evento, Marcelo Lemos, vice-presidente da Feneis; José Henrique Reis Lobo, porta-voz do governador José Serra; Rafael Silva, deputado estadual emSão Paulo e deficiente visual; e Nilzarete Lima, da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), que salientou a importância do evento. “A

Reatech é uma ocasião única, que valoriza e dá voz para pessoas que precisam”, salientou a representante da CORDE. A feira ainda contou com mais de 66 palestras gratuitas destinadas a pessoas com deficiência, familiares, profissionais da saúde e público em geral. Além disso, fez parte da programação da Reatech trouxe eventos culturais, apresentações de dança, balé de cegos e a participação de atletas paraolímpicos. O evento foi também a segunda maior feira automobilística do País, apresentando uma grande variedade de carros adaptados.

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notícias regionais

Intérpretes organizados no Sul II Encontro Estadual desses profissionais no Rio Grande do Sul cria Associação É motivo de comemoração a realização do segundo Encontro Estadual dos Intérpretes da Língua de Sinais do Rio Grande do Sul, realizado no Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire. Isso porque durante de 13 a 15 de abril, além de oficinas e palestras, foi criada a AGILS – Associação Gaúcha dos Intérpretes de Língua de Sinais. A associação tem o objetivo de ajudar os profissionais da área de tradução de Libras a se organizarem em torno dos interesses da classe, além de buscar a regulamentação profissional da atividade. Embora mais este passo tenha sido dado, a atividade de intérprete de Libras ainda está em processo de legalização. “Ela já é considerada uma profissão. Já tem uma lei, um decreto de 2005. Só que esse decreto tem 10 anos para passar a vigorar”, explica Vinícius Martins, um dos organizadores do encontro e que trabalha como intérprete de aulas de Ensino Fundamental, na Feevale, e na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vinícius lembra que o trabalho demanda muito de cada um.”É um trabalho que exige bastante estudo, bastante concentração e dedicação, porque é preciso estar envolvido com conhecimento”,garante. E, para ser um bom profissional, esclarece: “Temos que estar sempre em busca, nos aperfeiçoando e fazendo cursos. Nunca pode-

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mos ficar parados”, completa. Já Ricardo Morand Góes, um dos diretores da Federação Nacional de Educação e Inclusão de Surdos do Rio Grande do Sul (Feneis-RS), que também esteve presente no encontro, lembrou dos problemas dos deficientes auditivos na sociedade. Para ele, “as pessoas enxergam muito as diferenças. O surdo tem capacidade, tem formação profissional, mas tem dificuldade de entrar”, lembra Ricardo, que é deficiente auditivo.

Preconceitos Góes lembra que, infelizmente, a sociedade ainda carrega uma carga grande de preconceitos com o surdo. “Por problemas familiares, por exemplo, preconceitos aparecem quando nasce um bebê, e é uma surpresa quando se diagnostica uma surdez. A família não sabe que esperança ter para o futuro deste filho. E então tem dificuldade de aceitar, colocando-o em uma escola inclusiva”, relata. Mas nem tudo está perdido. Com a nova associação, esperase que haja uma maior inclusão dos deficientes. “A Feneis estimula essa formação da associação, pra continuar a desenvolver o conhecimento da Libras. É importante essa troca, principalmente com os surdos e com outras associações”, sugere.

O Centro O Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores

(CMET) Paulo Freire possui envolvimento particular com a causa dos deficientes. Na escola, foram abertas turmas de educação especial para surdos, numa luta que se iniciou no ano 2000. O sistema de ensino do centro também é diferenciado. A instrução é trabalhada com base nas totalidades de conhecimento , procurando incluir aqueles que estão fora do sistema normal de ensino. Os alunos pertencem a uma faixa etária a partir dos 14 anos. “Houve um engajamento muito grande por parte dos profissionais da área da educação ao abrigar essas turmas com surdos aqui, onde a gente está possibilitando o conhecimento e a cidadania”, explica Marlei Tarragó, uma das orientadoras pedagógicas do centro. No CMET, o trabalho é desenvolvido para os deficientes que evadiram do sistema normal de ensino, por apresentarem dificuldades de aprendizado, ou para os que nunca tiveram contato com a Língua de Sinais. O aluno é formado integralmente no Ensino Fundamental, sendo capacitando para o Ensino Médio. Marlei lembra também que encontros como os dos Intérpretes de Libras mostram a abertura da capital para a construção de novos conceitos. A Ícone Soluções Educacionais esteve presente no evento, prestando assessoria e apoiando a criação da nova entidade.


notícias regionais

Projetos de Lei facilitam a vida de surdos e surdocegos Mais de 100 pessoas surdas estiveram presentes na primeira audiência pública para debater o Projeto de Lei 256/2007 que propõe a criação de uma Central Municipal de Intérprete de Libras para Surdos e Guias-Intérpretes para Surdocegos na cidade de São Paulo. Segundo o último senso do IBGE, de 2000, estima-se que na capital paulista residam cerca de 250 mil pessoas com surdez. Quanto à surdocegueira, não há um número oficial de quantas pessoas tenham essa deficiência na cidade. Para a vereadora Mara Gabrilli, esse projeto facilitará a inclusão dos surdos e surdocegos, pois oferece mecanismos para que essas pessoas possam ter informações sobre os serviços da cidade e ainda contar com o pronto atendimento de intérpretes para facilitar a sua comunicação. Os surdos oralizados – que fazem à leitura labial e não usam a Libras também serão beneficiados pelo projeto. A comunidade surda é uma das que mais sofre com a exclusão, pois usa uma outra língua, a Libras (Língua Brasileira dos Sinais), que poucos conhecem. Já os surdocegos possuem um sistema de comunicação ainda mais restrito: eles usam o tadoma, um meio por onde o surdocego pode sentir as palavras proferidas pelo interlocutor colocando a mão no seu maxilar; ou a Língua de Sinais feita na mão. Como muitas pessoas

não têm conhecimento desses sistemas de comunicação (principalmente profissionais das redes públicas), diversos transtornos são e podem ser causados, como, por exemplo, alguns casos recentemente divulgados pela imprensa em que surdos foram presos porque os interlocutores não entendiam o que eles queriam comunicar. Para o diretor regional da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, Prof. Neivaldo Augusto Zovico, esse projeto representa um avanço para a inclusão da comunidade surda. Neivaldo usou a palavra – ou os gestos, pois em sua intervenção na tribuna, falou em Libras – para parabenizar a iniciativa da vereadora Mara Gabrilli e dizer da importância deste projeto e os transtornos que a falta de comunicação pode causar. Outras pessoas também usaram o direto à palavra na tribuna e ofereceram contribuições para a melhoria do projeto, que, segundo a vereadora, serão estudadas com afinco. “Vamos analisar todas as sugestões e incorporar tudo o que pudermos. Afinal, este é um projeto para os surdos e surdocegos e são eles quem devem apontar o que pode ser melhorado”, concluiu a vereadora Mara Gabrilli.

Sobre o PL 256/2004 A proposta do Projeto é que em um local determinado se-

jam disponibilizados, em quantidade suficiente, profissionais qualificados em Intérprete de Libras para surdos e Guia-Intérprete para surdocegos. Os serviços de tradução poderão ser solicitados de duas maneiras: pessoalmente ou por meio de equipamentos para transferência de imagens. Para esta segunda opção, o projeto prevê que webcams sejam implantadas em todas as repartições públicas municipais para, quando necessária a comunicação imediata, a Central seja acionada e o atendimento possa ser feito por meio deste equipamento. Nos demais casos, os intérpretes de Libras ou GuiasIntérpretes podem ser solicitados e agendados para atendimento presencial diretamente com a Central.

Processo Legislativo O PL 256/2007 já foi aprovado em primeira votação em 5 de maio, por unanimidade, pelos vereadores de São Paulo. Depois desta primeira audiência pública, uma segunda será realizada no prazo de 10 dias para, então, ser encaminhado para segunda votação. Se aprovado, o projeto de lei será enviado para sanção do Prefeito Gilberto Kassab.

Texto divulgado pela Assessoria de Imprensa da vereadora Mara Gabrilli

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notícias regionais

FotoLibras: Surdos aprendem a arte de fotografar Fotos: Valesca Otoni

Integrantes do Projeto desenvolvido pela Feneis, sinalizada por eles com as mãos

Desde o dia 5 de fevereiro, 22 jovens e outros seis adultos surdos, de lugares distintos de Recife, vêm dedicando o seu tempo para aprender a arte de fotografar. O curso começou com a fabricação de Caixas Mágicas para contar a história da fotografia e estimular o entendimento sobre a formação da foto. Depois começaram as aulas sobre a fotografia técnica, onde os participantes passaram a manipular câmeras profissionais para aprofundar seus conhecimentos sobre como regular uma câmera e ajustar a quantidade de luz, criando efeitos específicos nas fotos.

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Nas aulas, os instrutores também estimularam o olhar dos participantes através de mostras e discussões de imagens e análise das fotografias dos próprios alunos. Até o momento, já foram realizadas três aulas práticas. Assim, cada participante aprende a tirar fotos com câmeras amadoras e profissionais. Em abril, por exemplo, os alunos receberam a tarefa de elaborar seu primeiro ensaio fotográfico. Eles escolheram um tema para fotografar com o objetivo de contar uma história. As fotos que eles tiraram foram analisadas em sala de aula, estimulando a reflexão sobre a fotografia como

uma ferramenta de comunicação, além de uma forma de expressão criativa, analítica e artística. A fim de desenvolver a reflexão sobre a utilização da fotografia como uma ferramenta de comunicação e uma forma de expressão criativa, analítica e artística, em abril, o curso recebeu o primeiro fotógrafo convidado: Geyson Magno, da Agência Fotográfica Algaroba. Ele apresentou seu trabalho ‘Encourados’, uma homenagem ao povo do Nordeste do Brasil. Através da exibição dessas fotos em um datashow, Geyson conversou com o grupo sobre o processo de tirar as fotos durante 4 anos e as idéias por trás delas. Ele também debateu com o grupo sobre o que deve ser levado em consideração no desenvolvimento de um ensaio fotográfico, assim como os métodos para identificar temas para as fotos.

Novos sinais Neste curso, os alunos têm elaborado alguns novos sinais para termos técnicos da fotografia que farão, mais adiante, parte de um ‘glossário de termos fotográficos em sinais’. Robson Luiz, coordenador do setor de Cultura de FENEIS e coordenador do projeto FotoLibras, faz os


desenhos e tem elaborado as idéias para os sinais que são discutidos nas aulas.

O curso em vídeo Sob responsabilidade de Gambiarra Imagens e dois coordenadores do projeto, Hélio Neto e Robson Luiz, o grupo iniciou o monitoramento em vídeo do curso. Assim, 12 participantes foram escolhidos para responder a perguntas sobre a execução do curso e suas expectativas sobre o mesmo. Outras rodadas de monitoramento em vídeo serão realizadas para que sejam analisadas as respostas para melhorar a metodologia do curso.

Animados com o resultado do trabalho, participantes fazem o sinal do FotoLibras

Documentário

Captação de Recursos

As filmagens do documentário ‘Nossa Voz’ começaram no final de março. Durante os próximos meses, a equipe da ‘Trincheira Filmes’ acompanhará os participantes nas aulas e no seu cotidiano, a fim de captar o impacto do curso nas suas vidas. O objetivo do documentário é apresentar a realidade e cultura desses jovens surdos, acompanhar desde o desenvolvimento do olhar crítico dos participantes do curso até a exibição dos trabalhos fotográficos produzidos, e documentar a transformação de ex-alunos em agentes multiplicadores.

O grupo está à procura de financiamento para realizar uma exposição na cidade do Recife, em setembro próximo. A idéia é também desenvolver um catálogo das fotos dos alunos e finalizar o Guia do projeto e o documentário. Para ficar sabendo mais sobre o projeto, entre em contato com a FENEIS: tel: (81) 3222- 4958, ou Rachel, tel: (81) 9936-71 05. Ou envie um e-mail para: fotoLibras@gmail.com . FotoLibras - É um Projeto de Fotografia Participativa com Jovens Surdos que tem por objetivo utilizar a fotografia como

meio de expressão e comunicação, aumentando a visibilidade e inclusão da comunidade surda através da criação e divulgação de fotografias feitas por jovens surdos. Este projeto está sendo realizado pelos fotógrafos Mateus Sé, Vládía Lima e Eduardo Queiroga em parceria com o Federação de Educação e Integração de Surdos (FENEIS). O projeto esta sendo coordenado por Rachei Ellis e os dois coordenadores do setor de Cultura do FENEIS, Helio Neto e Robson Luiz. O grupo conta com o financiamento International Deaf Childrens Society (1DCS)

Feneis/CE participa de evento no Rio No dia 27 de junho, a Feneis de Recife participou do 4° Encontro sobre Inclusão Visual do Rio de Janeiro – Evento FotoRio 2007, com o tema: “FotoLibras”. O evento foi realizado no Centro Cultural Correios, com perguntas e respostas relacionadas com trabalho realizado.

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capa

Vinte anos de lutas e conquistas Feneis segue firme em defesa dos direitos da comunidade surda A Feneis completa 20 anos na missão de proporcionar ao surdo conquistas a que qualquer cidadão brasileiro tem direito. “A Feneis é fruto do desejo de luta e da mobilização dos surdos. Nosso pilar é reivindicar e batalhar por uma vida digna para o surdo brasileiro”, declara Antônio Mário de Souza Duarte, diretor-presidente da entidade. Nessa caminhada, uma de suas maiores vitórias foi a oficialização e regulamentação da Língua Brasileira de Sinais. A Libras, “reconhecida cientificamente como sistema lingüístico de comunicação gestual-visual”, trouxe avanços no que diz respeito à forma de comunicação da Comunidade Surda. Para Antônio Campos de Abreu, presidente da Feneis no período de 1993 a 2001, o caminho percorrido até aqui foi construído com muita luta. “ Como um dos fundadores da FENEIS e líder de vários movimentos surdos, acredito que seria muito difícil todas essas conquistas sem a existência de uma entidade que representasse os interesses dos Surdos. A oficialização e a regulamenta-

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ção da Libras é uma prova de que sem a Feneis a luta teria

Fernando Valverde (Feneis – 1991 - 1993)

Ana Regina e Souza Campello (Feneis – 1986 – 1991)

Antônio Mário Sousa Duarte (Feneis – 2001 até hoje) Antonio Campos de Abreu (Feneis – 1993 – 2001)


sido muito mais árdua”, afirma. Fernando de Miranda Valverde, que esteve na presidência da FENEIS de 1986 a 1991, foi também o seu primeiro tesoureiro. “Naquela época não existia nenhuma lei a respeito da Libras, os surdos eram oralizados. Fazíamos divulgação, através de palestras por todo o Brasil, para que os próprios surdos tomassem conhecimento e mais consciência da Libras. Hoje em dia os surdos estão com outra mentalidade, estão abertos para novos desafios, mudança em geral; o contato com os surdos e ouvintes também melhorou bastante. Os surdos estão sendo valorizados, estão mais independentes”, ressalta. Shirley Vilhalva, atual segunda vice-presidente da FENEIS, que iniciou sua trajetória na luta em prol dos surdos em 1986, quan-

do a comunidade surda politizada estava conquistando a presidência da FENEIDA para transformá-la em 1987 em FENEIS, contempla os excelentes resultados alcançados até hoje. Mas acrescenta que estamos dando início a uma nova fase: a conquista do espaço surdo em diversas áreas e acervo cultural da Língua de Sinais nas associações de surdos e escolas/CAS e demais instituições que atendem surdos e seus familiares. De acordo com ela, há 20 anos poucos acreditavam numa diretoria surda. “No entanto, várias associações de surdos foram surgindo no interior do Brasil, organizando encontros e chegando ao movimento nacional, elaborando metas e buscando alternativas políticas”, recorda. Como uma das maiores conquistas após a oficialização e regulamentação da Libras, Shirley

cita o Curso Letras Libras garantido pela Universidade Federal de Santa Catarina, conveniada com diversos Pólos (IES/INES e CEFETs) e que já está sendo representado em Congresso Mundial como força cientifica surda e ouvinte. “Hoje, surdos estão dentro de universidades federais cursando mestrado e doutorado em Lingüística e Educação e fazendo Pós – Graduação”, complementa. Segundo Walcenir Souza Lima, diretor regional da instituição no Rio de Janeiro, há 10 anos atuando junto à FENEIS, não foram poucas as dificuldades ao longo destes 20 anos. Mas neste percurso a Feneis não esteve sozinha. A realização de convênios com empresas que valorizam e apostam no potencial da pessoa surda foi de fundamental importância em nossa estruturação. Na opinião de Max

Como tudo começou A história da Feneis começa em 1977 com a formação da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneida), organizada por profissionais da área para oferecer suporte aos surdos. A demanda e a complexidade do trabalho levaram a diretoria a reestruturar o estatuto da instituição sob pena de comprometer a causa. Foi então que em 16 de maio de 1987, em Assembléia Geral, foi designado o novo nome da entidade, que passou a chamar-se Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis). O resultado foi a expansão e descentralização das atividades, o que proporcionou mais tarde a abertura dos Escritórios Regionais. Esse foi o passo fundamen-

tal para melhor atender as necessidades diferenciadas da comunidade. A Feneis é filiada à Federação Mundial dos Surdos (FMS/WFD). A entidade, com sede na Finlândia, tem como objetivo garantir os direitos culturais, sociais e lingüísticos da comunidade surda no mundo. Essa participação propicia o constante intercâmbio com surdos em nível mundial. A Federação Mundial dos Surdos os representa junto a entidades mundiais como a Organização das Nações Unidas (ONU); Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO); Organização dos Estados Americanos (OEA); e Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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Heeren, diretor financeiro e de planejamento, outro fator que colaborou de forma fundamental na construção da história da Feneis foi o apoio dos voluntários, funcionários e empresas contratantes. Como voluntário há doze anos na Federação, ele reforça a oficialização da Libras e, posteriormente, a sua regulamentação, como uma das grandes conquistas para a Comunidade Surda. “Tivemos outros avanços importantes, especialmente na áres de Educação, como o Programa Nacional Interiorizando Libras”, destaca Max.

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Ana Regina e Souza Campello, presidente da Feneis de 1987 a 1991, se expressou da seguinte forma com relação às duas décadas de existência da Federação: “ Desejo felicidade à FENEIS pelo seus 20 anos e que esta entidade possa trabalhar mais na comunidade e pelo povo surdo. Tanya Amara Felipe, assessora na área de Lingüística e Educação de surdos e coordenadora dos programas nacionais executados pela Feneis, acredita que nesses vinte anos, a Feneis vem cumprindo a sua missão ao reivindicar por políticas afirma-

tivas que valorizassem a Identidade Surda, a inclusão social dos Surdos, a Educação para Surdos e o fortalecimento da Libras, através de leis, decretos, eventos e execução de programas nacionais e projetos que têm permitido que a língua dos Surdos do Brasil seja difundida em todo o território nacional.” Hoje, em todos os estados, há Surdos empregados, Instrutores e Intérpretes de Libras. A sociedade, a partir de um outro olhar para os Surdos, está compreendendo que são as diferenças que fazem as pessoas serem únicas e que todos têm algo a nos mos-


trar como aprendizes nessa vida”,diz. A professora Myrna Salerno Monteiro, especialista em Lingüística na faculdade de Letras da UFRJ, destaca que o período de 1993 a 2003 foi decisivo para a entidade devido a introdução da metodologia de ensino de Libras no Brasil. “Aprendi muito com a UFRJ e apresentei a proposta para a Feneis. Antes, a entidade não possuía metodologia de ensino para ouvintes e surdos. Então, fizemos um trabalho de pesquisa com uma equipe da Feneis. O resultado foi a produção do livro Libras em Contexto, que contribuiu para o reconhecimento da Libras e, conseqüentemente, a Lei que oficializa a Libras e sua regulamentação”, explica. Myrna enfatiza o valor da metodologia na capacitação dos instrutores. “Eles se sentem mais preparados para ensinar porque possuem conhecimentos sobre a Libras como língua própria, sua estrutura lingüística e gramatical e sua identidade cultural”, reitera. O sistema lingüístico da Libras tem origem nas comunidades surdas brasileiras. Mas, ao contrário do que se pensa a língua não atende apenas aos surdos. “A Libras é acessível aos familiares, profissionais da área e todas as pessoas que convivem ou trabalham com surdos ou tenham interesse em utilizar, pesquisar e aprender esta língua”, esclarece o site da Feneis (www.feneis.org.br). O professor Neivaldo Augusto Zovico, diretor Regional da Feneis/São Paulo traduz a importância desse aprendizado. “Eu ti-

nha 21 anos quando fundaram a Feneis e não sabia quais eram os direitos dos surdos e a qual a importância da Língua de Sinais. Com o passar do tempo aprendi as coisas maravilhosas que trouxeram para o Brasil a respeito da importância de nossa comunicação, pois não escutamos e sim visualizamos”. Devido a demanda de atividades e serviços que envolvem a Libras, a Feneis criou o Centro de Estudos em Libras e Educação de Surdos (Celes), que funciona de forma regional. Entre os objetivos do Celes estão promover e realizar programas de capacitação de profissionais que atuam na área de Libras e na área de informática; realizar intercâmbio com organizações e instituições representativas dos surdos e envolvidas com a Libras; incentivar o uso da língua, através da manutenção de serviços competentes, para a preparação de leigos e profissionais, garantindo assim o uso correto da língua na comunidade; promover, realizar e divulgar estudos e pesquisas na área de Libras.

Oportunidades profissionais Educação de qualidade, direito de acessibilidade a qualquer tipo de informação e a conquista de novas oportunidades no mercado de trabalho para os surdos são as metas da Feneis. Nesse sentido, a assinatura de convênios que visam à inserção do surdo no mercado de trabalho foi um dos principais passos dados pela entidade, que percebeu a grande dificuldade para os surdos na hora de conseguir empre-

go, sendo o primeiro convênio firmado com a Dataprev/SA. Hoje, essa parceria se estende ao Instituto Vital Brasil, Fundação Oswaldo Cruz, Funlar, Ines, Diz Ferramentaria e Estamparia, IRB, Rio Luz, Rio Zôo, Seobras, Setrab e Eninco. A trajetória de conquistas inclui ainda o telefone para surdos, legenda na tevê, intérprete de Libras nas faculdades etc.

Campo de atuação A Feneis está presente de Norte ao Sul do país, através de seus onze escritórios regionais e 149 entidades filiadas. Estas, formadas por associações de Surdos, de Pais e Amigos de Surdos, Escolas e Clínicas especializadas. A entidade desponta como referência para a população surda. “A Feneis é muito importante porque é um lugar onde o surdo normalmente vem procurar informações sobre cursos e seus direitos”, ressalta Myrna Salerno Monteiro. No entanto, a demanda não se restringe apenas ao surdo, pois há profissionais qualificados para atenderem familiares, instituições, organizações governamentais e não-governamentais, professores, fonoaudiólogos e profissionais da área. Os ex-presidentes Ana Regina, Antonio de Campos, Fernando Valverde e Antonio Mario são nomes que fizeram a história da entidade. “Essas pessoas lutaram muito e viajaram por todo o país junto ao povo surdo demonstrando que somos cidadãos surdos e temos direito de acessibilidade”, destaca o professor Neivaldo Zovico.

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mercado de trabalho

Fiocruz instala telefone especial para surdos Os 147 trabalhadores que atuam no campus de Manguinhos, da Fiocruz, contam agora com uma novidade: um telefone público especial para surdos. O aparelho, também conhecido como TDD (em inglês, Telecommunications Device for the Deaf), tem um teclado e um visor que permitem enviar e receber mensagens. Na verdade, o aparelho é um orelhão comum que tem uma base de teletexto. O surdo retira o fone e coloca na base do aparelho teletexto e liga para o número 142. Feito isso, será atendido por uma operadora treinada, que intermediará a conversa entre o surdo e o ouvinte. Antes, porém, do início da conversa, a operadora escreve uma mensagem de saudação e solicita a identificação do surdo.

Caso seja a primeira vez que o surdo utiliza o serviço, será preciso se cadastrar. Cadastrado, ele poderá ligar para qualquer telefone fixo ou celular. Ou seja: A pessoa digita a mensagem, a intermediadora faz a leitura, liga para o número desejado e transmite o recado para a pessoa de contato do surdo. A intermediadora recebe a resposta e digita o a mensagem, que será visualizada pelo surdo no TDD. O parelho, doado pela empresa de telefonia Oi e que custa cerca de R$ 2 mil, foi instalado graças a idéia do coordenador da parceria com a Feneis, Jorge da Hora. Segundo ele, é importante fazer valer a Lei da Acessibilidade (decreto nº. 5.296/94), que obriga as concessionárias a assegurarem pelo menos 2% do total de telefones

públicos com capacidade para originar e receber chamadas de longa distância, nacional e internacional, adaptados para o uso de pessoas portadoras de deficiência auditiva e para usuários de cadeiras de rodas.

associações

Asurj:52 anos A Asurj comemorou no início deste ano 52 anos. Diversos representantes da Feneis estiveram presentes. Foi uma festa bonita, com uma programação bastante especial, que incluiu apresentações teatrais. Diversos representantes da Feneis participam da festa

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A comemoração contou com programação especial


Karin Lílian Strobel – Doutoranda em Educação

Na historia de surdos citamos atos heróicos de povo surdo, invenções de tecnologia cultural e outras ocorrências importantes. E as mulheres surdas, que sempre acompanham quietinhas compartilhando os acontecimentos ao lado do povo surdo são deixadas às margens? Não. Essas mulheres surdas, seres puramente mortais foram extraordinárias e contribuíram com suas histórias cotidianas num movimento de resgate de seus ideais. Mais do que isso, essas mulheres surdas mostraram que não é necessário ser homem para fazer parte de história, são heroínas à sua maneira, sendo simplesmente donas de casas, mães ou sendo lideres lutando em prol de povo surdo. Essas mulheres surdas foram personagens de suas épocas, que lutaram pela mudança da realidade social. Citarei algumas mulheres que perpetraram a história de surdos. A Helen Keller (1880-1968) foi uma mulher extraordinária, que é considerada hoje uma das grandes heroínas do mundo. Aos 18 meses de idade uma escarlatina deixou-a totalmente cega e surda e foi crescendo como uma selvagem sem receber orientação, num mundo escuro e silencioso. Como não conseguia entender o que acontecia ao redor, ficava irritada, gritava e esperneava até a exaustão. Quando Helen Keller tinha seis anos, foi contratada uma professora de 20 anos, a Anne Sullivan, que a ensinou a Língua de Sinais e o Braile, e, a partir daí, Helen lutou muito e foi vitoriosa ao integrar-se na sociedade. Na sua adolescência Helen Keller era alta e graciosa, atraente e dotada de um encanto que a todos conquista-

va, tornando-se uma célebre escritora. Seus livros foram traduzidos em várias línguas, recebeu diploma de bacharel em filosofa e se tornou uma líder famosa pelo trabalho incessante que desenvolveu para o bem-estar dos surdos e cegos. Em um de seus escritos, ela diz: “Várias vezes pensei que seria uma benção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no principio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som”. Outra mulher surda e que merece destaque é a Nydia Moreira Garcez, uma conceituada educadora que fundou a ‘Escola de Surdas Mudas’, em 15 de fevereiro de 1950, na cidade de Curitiba. Ela começou ensinando três meninas surdas a escrever. Esta escola, inicialmente, era um internato destinado à educação de meninas surdas. Com o tempo foi crescendo, vieram os meninos surdos,e ela acabou se tornando uma grande escola. Hoje, é chamada ‘Escola Epheta’. Nydia Moreira Garcez ensurdeceu aos seis anos de idade por um erro médico. Foi para o Rio de Janeiro em 1920 onde recebeu atendimento individual com o professor Saul Borges Carneiro. Aos 94 anos faleceu, no dia 12 de abril de 2007, uma das grandes mulheres surdas e líderes deste país, a Nydia Moreira Garcez, que deixou saudades e muitos frutos das sementes que semeou em sua vida cheia de lutas incansáveis pela expansão e aperfeiçoamento do trabalho com os surdos.

Carol Padden Emanuelle Laborit

Nydia Moreira Garcez

Marlee Matlin

Helen Keller (1880-1968)

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Espaço Acadêmico

Mulheres surdas que fazem a história


Espaço Acadêmico

A seguinte mulher surda é Ana Regina e Souza Campello, surda de nascença, maranhense, formada em Biblioteconomia e Documentação e Pedagogia. Atualmente está fazendo mestrado na área de lingüística e doutorado na área de educação em UFSC. A Ana foi uma militante política importante no Brasil. Ela desafiou e participou de movimentos na área dos surdos por mais de 30 anos e juntamente com outros surdos líderes criou a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS). Houve muitas outras mulheres líderes que contribuíram na história de surdos, dentre elas destaco a mestranda de lingüística de UFSC, Shirley Vilhalva, de Mato Grosso do Sul. A primeira diretora surda de uma escola de surdos pública no Brasil. É autora de várias publicações, entre elas o livro ‘Recortes de uma Vida: Descobrindo o Amanha’. Recebeu a Medalha Educação BPW CG do Projeto ‘O mestre que marcou minha vida’ e atualmente faz pesquisas voltadas aos índios surdos brasileiros. Tereza Prado foi outra mulher importante na história dos surdos. Ela participou da Pastoral de Surdos, lutou em prol do povo surdo de São Paulo e faleceu no ano de 2005, vítima de um derrame cerebral. Outro nome é o de Marlee Matlin, atriz surda americana que ganhou o Oscar de melhor atriz no filme “Filhos de Silêncio”, no ano de 1987, permitindo uma vitória delirante para o povo surdo. Emanuelle Laborit foi uma atriz surda francesa que escreveu um livro que teve sucesso estonteante e foi traduzido em várias línguas: “O vôo de gaivota”. Carol Padden, escritora e lingüista surda americana defendeu mestrado dando muita valorização ao propósito da chamada ‘cultura

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surda’. Ela influenciou positivamente os ‘olhares’ sobre o povo surdo. Ao longo da história, ser surdo não foi fácil, ainda mais para mulheres surdas, que sofreram muitas injustiças atrozes. Entretanto, cada uma delas buscou sua maneira de virar-se com dignidade e graça, resistiu ao machismo, à violência e à discriminação. Ao concluir este artigo quero dedicá-lo à uma mulher surda extraordinária que me fez abrir os olhos para muitas reflexões sobre o ‘Ser Surdo’ e o ‘Povo Surdo’, a Gladis Perlin, doutora e professora de UFSC. Gladis publicou muitos artigos, entre eles “As identidades surdas”, que contribuiu significativamente para a compreensão da cultura surda na construção de identidades que é um processo permanente de respeito do ‘ser surdo’, mudando a visão de história que garante o valor dos direitos culturais para mulheres surdas e o povo surdo, transformando as relações de poder, desde a vida cotidiana até os espaços mais públicos. Gladis Perlin continua contribuindo e incentivando a abertura de nossos movimentos de Mulheres Surdas em muitos Estados. Um compromisso que saiu durante o I Encontro Latino Americano de Mulheres Surdas Líderes, em 2004, teve como objetivo principal debater a realidade social da mulher surda na América Latina com ênfase na saúde, violência, educação, sexualidade, política, direitos, cidadania, e participação. O intuito principal é o de desencadear movimentos pela mulher surda nos países latino-americanos. Estiveram presentes ao encontro mulheres surdas representando o Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A Coordenação Geral foi de Gladis Perlin “No Brasil, a organização das mulheres surdas foi motivada através da FENEIS e do Curso Womens International Leadership promovi-

do pela Mobility International Development and Disability – Miusa. Foi no curso que surgiu a idéia de um encontro de líderes surdas latino-americanas, e pela primeira vez na história foi realizado o I Enconto Latino Americano de Mulheres Surdas Líderes. As reivindicações deste encontro pioneiro foi levado ao V Encontro Latino Americano de Surdos que aconteceu de 21 a 27 de novembro de 2004, em Belo Horizonte (MG)” (Vilhalva, 2005) Com este artigo, nós mulheres surdas, exímias lutadoras, cujos destinos se tocam em meio à realidade de povo surdo com os acontecimentos políticos, educacionais e culturais que estão sendo fortalecidos no nosso país, vamos refletir sobre a situação em que vivemos e levantar novos desafios. Nós, mulheres surdas, lutadoras do Movimento de Mulheres Lideres Surdas, precisamos contribuir para mudança da visão da sociedade.

Sites de referencias: http://www.intervox.nce.ufrj.br/ ~valterjr/msg7.html http://www.vertex.com.br/ users/san/ vercom_as_maos.htm http://www.effata.org.br/ ?system=news&action= read&id=371&eid=40 http://www.ges.ced.ufsc.br/ anaregi.htm http://www.tveregional.com.br/ colunistas.php?IDc=9&IDa=24 http://www.aefspr.org.br/ epheta/fundadora.htm www.voicesinc.com/Pages/ marlee_matlin.html www.tsr.ch/tsr/ index.html?siteSect=327801... www.shenandoah.k12.va.us/.../ keller.htm www.igjad.de/dhi2006/de/ programm.php


A auto-estima do intérprete de Língua de Sinais no ato interpretativo Silvana Aguiar dos Santos1

No momento atual que se vive, muito se tem discutido a respeito do intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras). Questões como a formação desse profissional, a profissionalização dos intérpretes, a criação das associações de intérpretes que visam garantir direitos e discussões políticas relacionados a esse grupo, a saúde e as conseqüências do excesso de trabalho para esse profissional, são alguns dos temas refletidos à luz de perspectivas lingüísticas, culturais e sociais. No entanto, frente a essas várias discussões, a auto-estima desse profissional no ato da interpretação raramente tem sido focalizada nesses trabalhos. É necessário frisar que a maioria dos intérpretes de Libras iniciou seus trabalhos em espaços religiosos e familiares, servindo esses contextos enquanto marcadores culturais para o grupo de intérpretes. Nesses lugares empíricos de atuação, a interpretação ocorria de maneira informal, não desencadeando o autêntico papel do intérprete de Língua de Sinais e nem as implicações de sua presença naquele espaço. Essa realidade

passa a alterar-se nas últimas décadas, nas quais estamos acompanhando um crescimento significativo por parte de intérpretes oriundos da área educacional, das mais variadas licenciaturas. No estado de Santa Catarina, a realidade evidenciada nos mostra que a maioria dos professores bilíngües, por terem fluência em ambas as línguas, Libras e Português, passam a atuar enquanto intérpretes de Língua de Sinais na área educacional no ensino fundamental (séries finais), ensino médio e, também, ensino superior, sendo este último o foco dessa reflexão. Muitas são as “desconstruções” que os intérpretes têm de enfrentar no espaço universitário, pois um novo ambiente lingüístico e cultural entra em cena para esse profissional, uma vez que esse espaço, assim como outros, oferece uma gama de desafios. A complexidade dos conteúdos apresentados, a carente formação acadêmica desse sujeito, as competências lingüísticas necessárias à interpretação e as instabilidades e os deslocamentos culturais necessários ao processo de interpre-

tação merecem ser discutidas nesse cenário atual. Se pensarmos nesse processo de formação, comprovamos que a situação dos intérpretes de Língua de Sinais assemelha-se, em determinado momento histórico, com os intérpretes de línguas orais. Pagura (2003) utiliza a expressão “método sink or swim” endereçada aos intérpretes de línguas orais, na primeira guerra mundial, quando estes ainda não tinham formação acadêmica. No entanto, essa expressão, que literalmente significa “afogue-se ou nade” é muito esclarecedora para o processo de formação também dos intérpretes de Língua de Sinais no Brasil, que vivenciam em seu cotidiano a “lapidação” do ser intérprete para uma atuação melhor qualificada. Um questionamento relevante nesse momento é quanto à auto-estima desse sujeito exposta a cada ato interpretativo. A “falta” da competência de transferir de uma língua para outra no discurso mencionado em uma aula de pós-graduação, por exemplo, gera desconforto, insegurança e baixa auto-estima para o intér-

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prete de Língua de Sinais, conforme presenciamos nesse depoimento2: “é verdade, estou achando uma tristeza. Nessa aula tenho dificuldade para selecionar o que deve ser dito. Tudo deve ser dito, mas tem aqueles recortes que a gente faz para deixar as coisas mais claras...às vezes faço um português sinalizado ...às vezes não sei o que faço”. Essa angústia enfrentada por alguns intérpretes de Língua de Sinais, quando se encontram aquém lingüisticamente para o público ao qual interpretam, afeta significativamente a subjetividade do profissional ILS3, diminuindo o rendimento de trabalho e ocasionando, em determinados casos, uma desestabilização subjetiva e de identidades. Woodward (2005:55) argumenta que “a subjetividade inclui as dimensões inconscientes do eu (...) a subjetividade pode ser tanto racional quanto irracional. Podemos ser – ou gostaríamos de ser – pessoas de cabeça fria, agentes racionais, mas estamos sujeitos a forças que estão além de nosso controle. O conceito de subjetividade permite uma exploração dos sentimentos que estão envolvidos no processo de produção da identidade e do investimento pessoal que fazemos em posições específicas de identidade”. Essa afirmação da autora nos auxilia a compreender o quão difícil é a posição do ILS no ato interpretativo, pois este raramente conseguirá manter a “neutralidade” entre os discursos envolvidos, ainda que a imparcialidade seja altamente necessária em qualquer processo de interpretação. Nenhum discurso se constitui de forma neu-

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tra, a própria escolha lexical que o intérprete realiza e o trânsito entre culturas diferentes no momento da interpretação demonstram que esse profissional está inserido num contexto histórico e social que não é imutável e fixo, mas, ao contrário, em constante movimento e instável. Esse contexto é parte constituinte das identidades desses profissionais e das subjetividades que se traduzem na maneira como o intérprete olha para si mesmo e para seu público alvo, seja de maneira racional ou não “racional”. Esse profissional tem suas histórias de vida, suas concepções, crenças e valores e sua interpretação ocorrerá de forma satisfatória ou não, na medida em que esses conhecimentos contribuem diretamente na compreensão dos discursos enunciados no ato interpretativo. Quando um ILS menciona “eu já nem sei mais o que estou fazendo, não consigo me concentrar porque o pensamento está longe, eu só tenho graduação..ohhh céus!!! Não sei o que é sintético, analítico, racionalismo...” precisamos (des)construir a idéia de que a culpa é somente desse profissional que está prejudicando o público alvo para o qual ele interpreta. As tramas que envolvem os ILS no momento da interpretação transcendem a carência de conhecimento lingüístico e cultural que o mesmo precisa ter para realizar tal função. Elas envolvem, também, o deslocamento subjetivo e pessoal que esse profissional experimenta. Em situações nas quais pessoas ouvintes ou surdas enunciam discursos do tipo “não entendi o que ele (referin-

do-se ao intérprete) está falando ou sinalizando; há muitos erros no que ele sinaliza, esse intérprete é fraco, entre outras atitudes” constituem exemplos que causam constrangimento, vergonha e baixa auto-estima para o profissional ILS. Finalmente, para encerrar essa reflexão, vale salientar que é necessária, sem dúvida, uma posição crítica tanto dos surdos quanto do próprio intérprete em relação à atuação no momento da interpretação. No entanto, esta precisa ser realizada de uma forma cautelosa, para que a mesma não venha ferir ou expor subjetivamente esse profissional lhe causando constrangimento ou até mesmo traumas de ordem emocional.

Referências Bibliográficas PAGURA, Reynaldo J. A interpretação de Conferências: interfaces com a tradução escrita e implicações para a formação de intérpretes e tradutores. DELTA – Revista de Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, São Paulo, v.19, 2003 WOODWARD. Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In:TOMAZ, Tadeu da S. Identidade e Diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. 4.ed/2005. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

Notas 1

2

3

Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Intérprete de Língua Brasileira de Sinais na Universidade Federal de Santa Catarina e na Universidade do Sul de Santa Catarina. Esses depoimentos foram colhidos em conversas informais com intérpretes de Língua de Sinais, onde os mesmos narraram suas experiências cotidianas. Os depoimentos foram devidamente autorizados por esses personagens. Intérpretes de Língua de Sinais.


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A Educaçao de Surdos e suas três pedagogias Densie Coutinho

As pessoas surdas e as pessoas ouvintes1 têm convivido de forma muito próxima formando pares como maridos e esposas, pais e filhos, irmãos e irmãs, etc., e em função desta proximidade, ao longo dos séculos, as sociedades passaram a acreditar que os surdos não possuíam uma língua própria, sendo esta a mesma de seus familiares, por ser estes a maioria. É possível que indivíduos vivam tão próximos e possuam línguas diferentes? Mesmo vivendo, muitas vezes, de maneira intimista com ouvintes, os surdos desenvolveram sua própria língua, no caso do Brasil, a Língua Brasileira de Sinais, doravante Libras, que difere da Língua Portuguesa (LP), sendo a primeira gestual – visual - espacial e a segunda oral-auditiva. A incompreensão secular, por parte da sociedade, do que expomos acima refletiu também em seu processo educacional. Os surdos já foram conside-

rados seres não competentes e impossibilitados de desenvolverem suas faculdades intelectu-

“DIANTE

DA MANUTENÇÃO

DE UMA IDENTIDADE PRÓPRIA , ATRAVÉS DA RESISTÊNCIA OBSERVADA NA UTILIZAÇÃO DA DE

SINAIS

LÍNGUA

ENTRE OS SURDOS

E SUAS CONSTANTES REIVINDICAÇÕES DE SEREM RECONHECIDOS ENQUANTO TAL, AS PESSOAS OUVINTES PASSARAM A SE APROXIMAR MAIS DOS SURDOS PARA, ASSIM, TENTAREM COMPREENDER ESTE FENÔMENO, QUE INSISTIA EM PERMANECER , MESMO COM TODAS AS INVESTIDAS CONTRÁRIAS DA SOCIEDADE OUVINTE ”

ais, como podemos ver em Moura (2000:16) Aristóteles considerava que a linguagem era o que dava condição de humano para o indiví-

duo. ...Para ele, também o surdo não tinha possibilidade de desenvolver as faculdades intelectuais. Posteriormente foram vistos como uma cópia, mas fiel, dos ouvintes, devendo, portanto, imitá-los em seus comportamentos sociais, educacionais e lingüísticos para garantir assim sua inserção na sociedade de maioria ouvinte. De acordo com Godfeld (1998:71) O oralismo ou Filosofia Oralista caracteriza-se principalmente pela idéia que o deficiente auditivo necessita aprender a língua oral de seus pais para só assim se integrar à comunidade ouvinte; Foi o grande período da Pedagogia oral-auditiva que teve seu início oficializado com a realização do Congresso de Milão (1880) até final do século XX, na maioria dos países. Diante da manutenção de uma identidade própria, através da resistência observada na utilização da Língua de Sinais

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notícias regionais entre os surdos e suas constantes reivindicações de serem reconhecidos enquanto tal, as pessoas ouvintes passaram a se aproximar mais dos surdos para, assim, tentarem compreender este fenômeno, que insistia em permanecer, mesmo com todas as investidas contrárias da sociedade ouvinte. Surge aí uma tentativa de comunicação com os surdos utilizando-se de todos os recursos possíveis inclusive os sinais concomitantemente com a Língua Portuguesa. Para Góes (1996:03) a corrente comunicação total propõe o uso de múltiplos meios comunicativos, através de recursos lingüísticos, combinando sinais, oralização, leitura orofacial, gestos, linguagem escrita, datilologia ..., pantomima ..., desenho etc.

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Apesar de ter tido um breve “estrelato” a Pedagogia de Aprendizagem Híbrida/Mista deixou seu registro na história da educação dos surdos como o início de uma abertura dos ouvintes para o uso, mesmo que de forma equivocada, dos sinais. A comunicação entre as pessoas surdas já foi vista como um conjunto de gestos e de mímica, com caráter sintético, sendo avaliada por muitos, como uma língua pobre e simplificada e que dificultava a aprendizagem da LP. Esta trajetória de incompreensão e negação da língua materna dos surdos começou a mudar, no Brasil, na década de 80, quando foram publicados os primeiros estudos científicos que propunham o uso da Língua de Sinais

desvinculada da LP. Sobre o surgimento desta nova perspectiva escrevem Barboza e Mello: (1997:63) Essa proposta (o Bilingüismo) tomou corpo na década de 1970, tendo sido mais divulgada e adotada ao longo da década de 1980. Em 1985 surgiram os primeiros defensores do Bilingüismo no Brasil. Com a lei 10.436 de 24 de abril de 2002, que oficializou a Comunidade Surda Brasileira como minoria lingüística, a partir do reconhecimento da Libras como a língua materna dos mesmos, houve uma mudança de foco que trouxe para o campo de pesquisa das ciências da linguagem e do ensino uma população de aproximadamente dois milhões de brasileiros2.


Surge aí a Pedagogia Bilíngüe que visa uma prática pedagógica onde os surdos sejam vistos enquanto tais, que as línguas de instrução sejam a Libras como primeira língua (L1)3 e a Língua Portuguesa como segunda língua (L2), que os profissionais surdos coordenadores, professores/instrutores, inspetores de ensino, etc., sejam valorizados como modelos de uma cultura

que deve ser estimulada e preservada, etc. Para melhor visualização das três pedagogias segue uma quadro com suas respectivas especificidades.

2

3

Notas 1

São considerados, pelos surdos, ouvintes todos aqueles que não possuem nenhuma perda auditiva. E os que possuem uma perda, mas mantêm a capacidade de ouvir a voz humana ou conse-

guem oralizar, são considerados DA (deficientes auditivos). Não existem dados precisos sobre a quantidade de indivíduos no contexto da deficiência, apenas percentuais estimados. Os números apresentados foram estimados pelo Instituto de Audição e Terapia da Linguagem - IATEL Entre as obras publicadas estão os livros: Por uma gramática da Língua de Sinais, Brito, 1995; Problemas Lingüísticos e Cognitivos dos Surdos, Fernandes, 1999; Libras e LP – semelhanças e diferenças, Coutinho, 2000 e Língua de Sinais Brasileira: estudos lingüísticos, Quadros & Karnopp, 2004.

ESPECIFICIDADES PEDAGÓGICAS PEDAGOGIA

PEDAGOGIA ORAL-AUDITIVA

PEDAGOGIA DE APRENDIZAGEM HÍBRIDA/ MISTA

PEDAGOGIA BILÍNGÜE

ESCOLA

Regular com professor ouvinte.

Regular ou classe especial com professor ouvinte ou surdo que domine a língua oral e a língua sinalizada.

Escola Especial, Classe Especial com professor bilíngüe e classe regular com Intérprete de Libras e LP.

DENOMINAÇÃO DO ALUNO

Deficiente Auditivo

surdo

surdo ou Surdo

SURDEZ

incapacidade

uma marca com significações sociais

Especificidade / diferença

TRABALHO PEDAGÓGICO

ensinar linguagem, através de atividades estruturais sistemáticas e reeducar auditivamente a criança surda, através da amplificação dos sons juntamente com técnicas específicas de oralidade.

fala; leitura labial; da escrita; desenho; língua de sinais; alfabeto manual

Uso da Língua de Sinais e Língua Portuguesa para transmitir todos os conhecimentos pedagógicos necessários ao desenvolvimento do aluno.

PRINCIPAIS PROFISSIONAIS

Otorrinolaringologista, Fonoaudiólogo, psicólogo, professor de fala.

Professor ouvinte que se expresse através do português sinalizado.

Professor ou instrutor surdo, Professor ouvinte com ou sem domínio da Libras e o Intérprete de Língua de Sinais.

MODELO LINGÜÍSTICO

ORALISMO

COMUNICAÇÃO TOTAL

BILINGÜISMO

LÍNGUA

Português escrito e oral.

Português oral, escrito e sinalizado.

Língua Brasileira de Sinais (L1) e Língua Portuguesa (L2)

PROCESSO INTERCULTURAL

Não admite processo intercultural, pois acredita que o surdo possui a mesma cultura dos ouvintes.

Não há registro do tratamento de questões culturais, apesar de admitir a presença da Língua Portuguesa e da Língua Brasileira de Sinais.

necessidade de adquirir habilidades e competências, face à necessidde de o sujeito surdo posicionar-se frente às diferentes culturas e suas peculiaridades.

ASSOCIAÇÃO DE SURDOS

É ignorada.

É aceita.

É valorizada.

FAMÍLIA

Orientada para reforçar as terapias de fala.

Orientada para adotar qualquer tipo de comunicação (Total).

Orientada para aprender a Língua Brasileira de Sinais e utilizá-la com o surdo como também a Língua Portuguesa oral e escrita.

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notícias – Libras

Um texto escrito em Libras? Sistema Elis? Mariângela Estelita Doutoranda em Lingüística na área de Psicolingüística pela UFSC

As Línguas de Sinais são um fenômeno lingüístico relativamente recente. As propostas de sistemas de escrita para estas línguas, mais recentes ainda. Dadas às especificidades da modalidade em que se realizam as LS – viso-articulatória – as dificuldades iniciais para se criar um sistema de escrita das LS foram muitas. Algumas questões que precisamos responder foram: a) “por que escrever em LS?”, já que isso passa por discussões políticas, pedagógicas, culturais e muitas outras; (b) “o que representar por escrito?”, uma vez que nenhum sistema de escrita, seja ele usado para LO ou LS, é capaz de representar tudo de uma língua; (c) “como representar o que se quer?”. Discutindo brevemente estes três questionamentos, podemos dizer que a) escreve-se em LS por motivos semelhantes aos que se escreve em LO, que são muitos e variados, de acordo com as situações de necessidades sociais. Os usos que se pode fazer de uma escrita de LS são imprevisíveis e só serão totalmente conhecidos quando forem naturalmente explorados

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pelas comunidades usuárias de LS (principalmente surdos, mas também ouvintes); b) sendo a escrita um processo metalingüístico analítico, seria um atraso pensar em representar algo que não fossem as partes mínimas dos sinais, como os aspectos descritos por Stokoe (1965) (configuração de mão, local e movimento); c) como representar estas partes é algo que varia de acordo com a destinação do sistema (transcrever um sinal ‘foneticamente’, tornar-se escrita cotidiana, dicionarizar os sinais, representá-los visualmente...), com a orientação teórica lingüística de quem o cria, dentre outros fatores. Apresento muito brevemente a ELiS (sigla para Escrita das Línguas de Sinais), um sistema de escrita das LS criado em 1997, atualmente em fase de divulgação após experimentação em pesquisa de doutorado (UFSC) com surdos de Santa Catarina, pela lingüista Mariângela Estelita, sua criadora. A ELiS é um sistema de escrita alfabético que busca representar ‘fonemas’ das LS, ou seja, seus elementos mínimos. Sua experimentação foi feita com a

Libras, mas nada a impede de ser usada com outras LS. Sua estrutura básica consiste na representação de quatro parâmetros dos sinais: Configuração de Dedos (CD), Orientação da Palma (OP), Ponto de Articulação (PA) e Movimento (Mov.). Cada um destes parâmetros abarca um determinado grupo de ‘letras’, as quais representam os fonemas mais significativos de uma LS (pode-se acrescentar ou retirar letras do quadro do ‘alfabeto’ que desenvolvemos para a Libras de acordo com especificidades de outras LS). O que este sistema tem de mais inovador é a representação de Configurações de Dedos em vez de Configurações de Mãos, o que lhe garante maior adaptabilidade intra e interlingüisticamente. Além disto, esta sua particularidade lhe confere maior economia de símbolos/ letras, pois são dezenas de símbolos que representam globalmente as Configurações de Mão de uma LS (sempre com a possibilidade de novas criações, ou seja, são em número virtualmente infinito), contra apenas 10 Configurações de Dedos que, quando combinadas, equi-


(OP), mão próxima ao nariz movimento de abrir a (PA) e boca (Mov). (Para uma lista completa das letras da ELiS, ver www.escritadesinais.org). A seguir, mostramos uma narrativa curta escrita por um grupo de alunos surdos1, com a tradução palavra a palavra (feita por nós) e a respectiva tradução para o português (também nossa) logo a seguir.

Esperamos que a ELiS possibilite muitas produções autenticamente surdas, originalmente surdas (ou traduções), cobrindo todas as áreas de conhecimento e que alimente, em LS, a leitura nos mais variados campos de interesses dos surdos.

Notas 1

Os alunos são Christiane E. Righetto, Juliana T. Lohn, Letícia Fernandes e Rodrigo P. Pereira.

A menina (sinal-nome) conhece a tartaruga A menina (sinal-nome) foi junto com sua mãe para a praia. A menina (sinal-nome) estava brincando na areia quando viu uma tartaruga muito grande. Ela ficou muito assustada e saiu correndo e chorando para perto de sua mãe. Sua mãe explicou que não precisava chorar, porque tartaruga não morde. Disse que podia ir fazer carinho nela. A menina (sinal-nome) resolveu ir fazer carinho na tartaruga e ficou muito admirada em ver que elas eram do mesmo tamanho. Figura 1: texto com tradução palavra a palavra

Figura 2: tradução do texto original em Libras para o português

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valem a uma Configuração de Mão. Os sinais de uma LS representados em ELiS são escritos linearmente da esquerda para a direita, nesta ordem: CD, OP, PA e Mov. Um exemplo de sinal es(“admicrito em ELiS é rar”), em que se lê, polegar encostado à palma e demais dedos estendidos e separados (CD), palma para a esquerda


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infantil

Ana Luiza, a pequena notável

A pequena Ana Luiza de Souza de apenas quatro aninhos surpreende a todos com seu jeito meigo e simples de ser, sempre muito carinhosa e muito habilidosa. Apesar da pequena idade, tem grande facilidade em se comunicar em Língua de Sinais e é orgulho dos seus pais Luiz Carlos e Vivianne Shiavine (surdos). Quando os pais precisam da sua ajuda ela está pronta para colaborar e interpretar para eles sem dificuldades. Com 8 meses ela começou a aprender a

Libras e com 1 ano e 2 meses já se comunicava sem muitas dificuldades. Isso em nada atrapalhou o seu desenvolvimento escolar e como criança. Gosta muito de se maquiar, brincar de bonecas, e no futuro pretende ser professora como o papai, que dá aulas de Libras. Ela é uma criança super ativa, faz natação e balé. Em rápida apresentação para a equipe da Revista da

Feneis, Ana Luiza deu um show! A sua alegria é contagiante e por onde passa deixa um rastro de felicidade em cada coração. Verdadeiramente a educação e o amor são os segredos para um bom desenvolvimento pessoal. Colaborou Valesca Otoni

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Kit do professor livro e DVD

As novas edições de 2007 estão revisadas, ampliadas e mais ilustradas.Todos os ouvintes e surdos que forem aprovados no exame do ProLibras poderão adquirir o Livro/ DVDs do Professor para ministrar o Curso Básico de Libras nas universidades e em outras instituições.

Este ano, o MEC comprou mil exemplares do Livro/DVD do Estudante e mil exemplares do livros/DVDs do professor para distribuir para as universidades, já que a Libras será disciplina obrigatória e esse será o material utilizado pelos Instrutores/Professores nessa disciplina. Adquira também os seu material didático para o ensino da Libras!

Kit do aluno livro e DVD

Os interessados deverão depositar o valor total da compra no Banco do Brasil, agência 3010-4, c/c 30450-6. Posteriormente deverá ser enviado para a FENEIS o comprovante de depósito para a FENEIS/RJ, via fax ou correio, com a relação do material desejado. O endereço da Feneis é Rua Major Ávila, 379, Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, Cep 20511-140, tel (021) 2567-4880, fax (021) 2284-7462. A cada livro solicitado deverá ser acrescentada a quantia de R$ 5 (cinco reais) referente às despesas de correio pelo envio do material registrado.

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