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Página 4 - Bauru, sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

PRÊMIO NOVOS TALENTOS Foto: Felipe Vaitsman/Reprodução

Esporte e Lazer

De Luzitana a BAC O apogeu e o declínio do clube de futebol que marcou Bauru Felipe Vaitsman

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uando Charles Miller, na volta de seus estudos na Inglaterra, trouxe as primeiras bolas de futebol para o Brasil, em 1894, provavelmente não sabia que, em pouco tempo, o esporte bretão tomaria as várzeas da cidade de São Paulo. Tampouco imaginava que se popularizaria em todo o país. Talvez Miller também não fizesse ideia de que algumas pelotas, viajando nos trilhos da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cairiam em descampados bauruenses e por ali fariam tremendo sucesso. Mas foi às margens de outra ferrovia, a Noroeste do Brasil, que nasceu o primeiro time de futebol da cidade. O Esporte Clube Noroeste, vinculado à estrada de ferro, foi

fundado em 1º de setembro de 1910 e, durante seus primeiros anos, reinou na cidade. Para medir forças, a equipe dos ferroviários disputava seus matches (partidas) com outros times da região. A prática do futebol era tão recente que sequer se desvinculara das terminologias em inglês. “O escanteio era corner. Os zagueiros eram os backs. O goleiro era o goalkeeper”, relembra o historiador e memorialista Gabriel Ruiz Pelegrina. A soberania noroestina em Bauru só foi ameaçada em 1914, com a fundação do Smart Futebol Clube. A rivalidade emergente era destilada em duelos emocionantes no campo do Smart, na rua 13 de Maio, onde começava a se desenhar uma rixa entre ferroviários e a elite. Isso seria deixado de lado em meados de

maio de 1919. Havia, então, um novo time na cidade: o Luzitana Futebol Clube. Poucos dias antes, em 26 de abril, um grupo de amigos bauruenses foi a Pederneiras disputar um amistoso e venceu por 3 a 1. Na viagem de volta – ainda no vagão do trem, segundo consta na ata de fundação do Luzitana – os jovens planejaram transformar aquele combinado em um clube de futebol. Apenas quatro dias foram necessários para que tudo fosse concretizado. Encontros, convites e longas conversas foram compensados na noite de 31 de abril, quando uma reunião determinou os alicerces do clube. Os grandes nomes da primeira gestão – homens que colocariam na prática a ideia deslumbrada daqueles garotos – seriam Antonio Garcia e

Antigo Estádio Luzitana, campo do BAC, onde hoje fica o Supermercado Tauste

Pedro Bertolini, entusiastas do esporte em Bauru, nomeados, respectivamente, presidente e vice do clube. O nome da agremiação teve relação direta com o empreendimento do primeiro mandatário. “Em homenagem a ele [Antonio Garcia], puseram Luzitana, que era o mesmo nome de sua loja”, explica Nildemar Godoy, atual tesoureiro do Bauru Atlético Clube, que faz questão de ressaltar: “Luzitana com ‘z’”. Em 1º de maio, nasceu para o Brasil – e, de certa forma, para o mundo – o Luzitana Futebol Clube. Dali a poucos dias, Noroeste e Smart tomariam conhecimento dessa terceira força futebolística da cidade e logo organizariam uma partida para “testar” o novo time. O Luzitana apresentou sua camisa azul e branca pela primeira vez con-

tra um combinado Smart-Noroeste. A contagem no placar foi, na verdade, o anúncio de que aquele clube não se contentaria em ser coadjuvante na cidade: 9 a 3 para os lusos. Anos de grandes clássicos e de uma fervorosa disputa entre Noroeste e Luzitana pelo posto de maior time de Bauru levaram a um equilíbrio impressionante. Desde o primeiro Campeonato Bauruense de Futebol, em 1931, até o início dos torneios oficiais da cidade – com a Liga Bauruense de Futebol Amador, em 1946 – foram seis títulos do Luzitana contra seis do Noroeste. Muitas vezes, a final foi disputada justamente entre os dois times. Na última delas, vencida pelos ferroviários, o time azul e branco já não era homônimo da casa de comércio de Antonio Garcia.

integrar o time. “Ele estava à frente da época”, conta Fausto Gonçalves, pesquisador do futebol na cidade. Mesmo com o investimento do mandatário e com algumas passagens gloriosas da equipe – como uma goleada de 8 a 1 em cima de um time argentino –, o BAC nunca conseguiu o acesso a Primeira Divisão. O Esquadrão, montado justamente com essa finalidade, marcou época, mas jamais logrou êxito. Naquele time jogava um atacante chamado Dondinho. Estava em

Bauru desde 1943 e trouxe com ele a família. Entre os filhos, havia um menino: Dico. Dico treinava no Baquinho, infanto-juvenil do BAC. “Sempre foi craque”, afirma Lisboa. Com o fracasso do Esquadrão da Primavera e um desinteresse da diretoria em manter o futebol do clube, as atividades foram interrompidas. O acesso do Noroeste, em 55, foi emblemático para esse declínio. Dico partiu para Santos levando o futebol e o nome do BAC para o mundo – para a eternidade.

Anos de glória

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m 31 de julho daquele ano, véspera do cinquentenário de Bauru, uma reunião propôs que o clube mudasse de nome. O motivo “oficial” seria uma homenagem à cidade. Há, porém, quem defenda a existência de uma pressão política. O radialista Walter Lisboa é um dos que diz que a troca foi influenciada pela Segunda Guerra Mundial: “o Getúlio Vargas, que na época era presidente do país, obrigou todos os times que tinham nomes ‘estrangeiros’ [principalmente aqueles que faziam menção aos países do ‘Eixo’] a adotarem um nome nacionalizado”. Já o historiador João Francisco Tidei de Lima não acredita que foi uma imposição do Governo. “Era mais a atmosfera, a questão da identidade mesmo. Você tinha muitos clubes com o nome da cidade. Além disso, Portugal nem participou da Guerra. Tanto é que o Vasco da Gama e a Portuguesa de Desportos mantiveram seus nomes”, elucida. Motivos à parte, naquela noite o Luzitana deixou de existir – no seu auge. Mas na manhã seguinte, Bauru acordou com um motivo a mais para comemorar além de seu 50º aniversário. Havia um time da cidade – com o nome da cidade: Bauru Atlético Clube, que se eternizaria ao som da sigla BAC. As conquistas antigas, os associados, os jo-

gadores, o Estádio Antonio Garcia e todo o patrimônio do clube continuavam intactos. A diferença é que aquele não era mais apenas “o time dos portugueses” ou “o time dos comerciantes”. “O BAC sempre foi o time da cidade. O Noroeste era o time dos ferroviários”, lembra o jornalista Eduardo Nasralla. Ainda em 1946, o BAC atingiu as maiores conquistas de sua história. Na primeira delas, o alviceleste derrotou o Guarani de Campinas na final do Campeonato do Interior, o que deu ao time o direito de disputar o título do Campeonato Amador do Estado. A partida foi contra o SAMS, campeão amador da capital. O BAC venceu e, se fossem outros tempos, disputaria na categoria profissional no ano seguinte, mas a Lei do Acesso só foi criada em 1948. Gino Bacci, zagueiro daquela equipe e jogador ilustre do clube, recorda o ano de 1946 como uma “passagem violenta” do BAC, porque “o futebol paulista era o mais forte do Brasil” e o time conseguiu grande destaque.

Do céu ao inferno Com todo o prestígio conquistado, o clube passaria praticamente toda a década seguinte buscando se consolidar no cenário futebolístico de São Paulo. O início dos anos 50 marcou a formação de um escrete memorável do BAC: o Esquadrão da Primavera. O então presidente do clube, Nicola Avallone Júnior, o Nicolinha, trouxe grandes nomes do futebol do interior para

Fachada do Estádio Antonio Garcia

De Luzitana a BAC  

Matéria vencedora do prêmio Novos Talentos do Jornalismo. Publicada no Jornal da Cidade (Bauru) em 21 de dezembro de 2012