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LANDSCAPE

CORRA SE PUDER

RUN IF YOU CAN

Uma sĂŠrie de maratonas e circuitos de rua em lugares espetaculares desafia os competidores a continuarem correndo sem se perderem nas belezas do caminho A series of marathons and street circuits in spectacular backdrops challenge competitors to keep running without getting lost amidst the allures of the path

fotos/photos: Albatros Adventure Marathons

por/by Felipe

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Seffrin


LANDSCAPE

// Merciless 5,196 degrees test the limits of the body and mind of those competing in China’s Great Wall Marathon. At the same time, the steep, sinuous and millennial terrain of one of the seven wonders of the modern world inspire runners to keep moving. During the course, it is inevitable not to be boggled by the grandeur of the construction, with its endless miles (officially 13,170), surrounded by mountains and conserved vegetation. “Competing in the Great Wall of China is indescribable,” says systems analyst Luiz Cândido, 42. Together with his wife, nutritionist Maria Matos, 40, they were the first Brazilian couple to run in all continents, including Antarctica. They passed through countries like Japan, Cuba and Myanmar. “"e Great Wall was one of the most difficult and unbelievable races we ever ran. It is almost an escalade. It is only when you get to the top that you have a real dimension of the landscape." What started

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Maratona da Muralha da China Disputada desde 1999, no mês de maio, com 2500 competidores. São 42 km nos arredores e sobre a imponente fortificação de 21.196 km de comprimento, que começou a ser construída no século 7 a.C. // China Great Wall Marathon Held since 1999, on the month of May, with 2,500 competitors. It comprises 26 miles on the outskirts and on top of the imposing fortification of 13,170 miles, which started being built on the 7th century BC.

fotos/photos: Albatros Adventure Marathons

I

mpiedosos 5.196 degraus testam os limites do corpo e da mente de quem compete na Maratona da Muralha da China. Ao mesmo tempo, o terreno íngreme, sinuoso e milenar de uma das sete maravilhas do mundo moderno inspira os corredores a seguirem em frente. No meio do caminho, é impossível não se espantar com a grandiosidade da obra, com seus quilômetros a perder de vista (oficialmente são 21.196), cercada por montanhas e vegetação conservada. “Competir na Muralha da China é indescritível”, conta o analista de sistemas Luiz Cândido, 42 anos. Com a esposa, a nutricionista Maria Matos, 40, eles foram o primeiro casal brasileiro a correr em todos os continentes, incluindo a Antártida. Passaram por países como Japão, Cuba e Myanmar. “A Muralha foi uma das provas mais difíceis e inacreditáveis que

fizemos. É quase uma escalada. Quando se chega no alto é que temos a real dimensão da paisagem." O que começou quase como uma brincadeira se tornou um vício. Hoje, o casal brasiliense organiza as férias em função das provas que pretende disputar – uma atividade que tem se di!ndido e motivado o surgimento de agências especializadas em turismo para atletas amadores. “Mudamos nosso estilo de vida e, agora, conciliamos o esporte com a possibilidade de conhecer outras culturas”, afirma Luiz. Entre as dezenas de provas disputadas pelo casal, algumas não saem da memória. Em 2014, eles disputaram a primeira maratona juntos. E escolheram começar encarando os 42 km de asfalto, dunas e estradas de chão da Maratona do Deserto do Atacama, no Chile. “Foi surreal correr em um ambiente totalmente inapropriado. Foi sofrido, mas o visual é deslumbrante”, diz. “Você olha para os lados e não vê uma planta sequer. É uma sensação de estar em outro planeta.” A paisagem inóspita e impactante da Antártida, perto do Polo Sul, foi outro destino do casal de corredores. Eles entraram em uma fila de espera de dois anos até conseguirem se juntar ao grupo de 55 pessoas que encara temperaturas na casa dos 30 graus negativos e 42 km de corrida no gelo. “Nessa prova, fiquei sozinho bastante tempo e pude contemplar a imensidão das montanhas e aquele silêncio absoluto”, conta. A popularização das corridas de rua fez surgir eventos nos lugares mais inimagináveis. Esqueça as tradicionais Maratona de Nova York e Corrida de São Silvestre, em São Paulo. Uma das competições mais curiosas e visualmente espetaculares é a Maratona Big Five, no meio da savana sul-africana. Correr com leões, leopardos, rinocerontes, elefantes e búfalos à espreita é algo de tirar o fôlego. São 42 km por vales, colinas e platôs – e a qualquer momento uma manada de girafas pode cruzar o caminho. Se os atletas amadores podem se dar ao luxo de aproveitar a paisagem, com quem compete

"É impossível enxergar o final dos muros e você até duvida de que foi o homem que construiu aquilo.” LUIZ CÂNDIDO // "It’s impossible to see the end of the walls and you even doubt that they were constructed by man

LUIZ CÂNDIDO

almost as a game became an addiction. Currently, the couple from Brasília organizes their vacations according to the races they want to take part in – an activi# that is spreading and has given rise to the appearance of agencies specializing in tourism for amateur athletes. “We changed our lifes#le and now we conciliate this sport with the possibili# of ge$ing to know other cultures,” affirms Luiz. Among the dozens of races the couple has taken part in, some le% a strong mark on their memory. In 2014, they ran their first marathon together. They chose as a starting point the 26 miles of asphalt, dunes and dirt roads of the Atacama Crossing, in Chile. “It was surreal running in a totally inappropriate environment. It was pain&l, but the view is astounding,” he says. “You look around and cannot see a single plant. It is this sensation of being in another planet.” "e stark and impacting landscape of Antarctica, near the South Pole, was another destination of the running couple. "ey entered a waiting line for two years until they could join a group of 55 people who face temperatures around minus 22 degrees and 26 miles of racing on the ice. “In that circuit, I was alone for a long time and could contemplate the immensi# of the mountains and that absolute silence,” he tells. The popularization of street races gave rise to events in unimaginable places. Forget the traditional New York Marathon or Saint Silvester Road Race, in São Paulo. One of the most curious and visually spectacular races is the Big Five Marathon, in the middle of the South African savannah. Running with lions, leopards, rhinos, elephants and buffalos on the prowl is breathtaking. It comprises 26 miles through valleys, hills and plateaus – and at any given moment, a tower of giraffes could cross your way. If amateur athletes can afford the luxury of enjoying the landscape, for those who compete for real it is a completely different ballgame. Marathon

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Maratona do Deserto do Atacama Realizada desde 2012, em dezembro, a partir de San Pedro do Atacama, no Chile, cruzando paisagens inóspitas por 42 km pelo deserto mais árido do mundo. A altitude ultrapassa os 2.500 metros e as temperaturas chegam facilmente aos 40°C. // Atacama Crossing Held since 2012, in December, starting in San Pedro de Atacama, in Chile, crossing stark landscapes through 26 miles of the world’s most arid desert. The altitude is higher than 8,200 feet and temperatures easily reach 104°F.

Maratona da Antártida

Disputada em dezembro, desafia 55 corredores desde 2006 em uma região onde as temperaturas alcançam - 30°C e os ventos passam dos 200 km/h. A ultramaratona no gelo, com 100 km de percurso, é considerada a prova mais difícil do mundo.

fotos/photos: Albatros Adventure Marathons

// Antarctica Marathon Held in December, it challenges 55 runners since 2006 in a region where temperatures reach minus 22 degrees and wind velocity exceeds 124 miles/h. The Ultra Marathon, with a trajectory of 62 miles, is considered the world’s most difficult race.

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Templo Bagan

exclusiva para apenas 300 competidores, é realizada no país asiático de Mianmar, entre ruínas sagradas e templos religiosos históricos construídos entre os séculos 10 e 13.

runner from Minas Gerais Franck Caldeira, 35, gold medalist in the Rio de Janeiro Pan American Games has been all around the world running professionally. However, he can rarely afford to enjoy the trip. “Our level of concentration is very high. It is as if we were running horses trained only to look forward. We can’t distract ourselves for a single second,” he explains. Franck has been to Milan seven times, for instance, and can hardly describe the landscape of the Italian ci#. His focus in on performance and, a%er arriving, he is extremely exhausted. He cites the London Olympics Marathon, the International Lap of Pampulha and the Rio de Janeiro Half Marathon as races that le% a mark on his memory. Moreover, he confesses to be envious of those who can enjoy the surroundings. “My advice is for everyone to gaze a li$le at the natural beauties and the fantastic creations by man surrounding us,” he suggests. “If you can do that while running, it’s even be$er.”

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Maratona Big Five Realizada na reserva de Entabeni, na savana da África do Sul, no mês de junho. Acontece desde 2005, levando os competidores para o habitat natural de diversas espécies selvagens, como leões, elefantes e búfalos, em um trajeto de 42 km. // Big Five Marathon Held in the Entabeni Game Reserve, in the South African savannah, on the month of June. It takes place since 2005, leading competitors into the natural habitat of many wild animal species such as lions, elephants and buffalos, in a 26-mile course.

Maratona do Templo Bagan

fotos/photos: Albatros Adventure Marathons

para valer a história é bem diferente. O maratonista mineiro Franck Caldeira, 35, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, já rodou o mundo correndo profissionalmente. Mas é raro ter tempo para aproveitar a viagem. “Nossa concentração é muito grande. É como se fôssemos cavalos de corrida treinados para olhar só para frente. Não podemos nos distrair por nenhum segundo”, explica. Franck já foi sete vezes a Milão, por exemplo, e quase não consegue descrever a paisagem da cidade italiana. O foco está na performance e, após a chegada, a exaustão é enorme. Ele cita a maratona na Olimpíada de Londres, a Volta da Pampulha e a Meia-Maratona do Rio como provas que marcaram sua memória. E revela uma pontinha de inveja de quem pode aproveitar o caminho. “Aconselho todo mundo a olhar um pouco para as belezas naturais e as criações fantásticas do homem à nossa volta”, sugere. “Se puderem fazer isso enquanto correm, é ainda melhor.”

// Templo Bagan exclusiva para apenas 300 competidores, é realizada no país asiático de Mianmar, entre ruínas sagradas e templos religiosos históricos construídos entre os séculos 10 e 13.

Exclusiva para 300 competidores, é realizada em novembro no país asiático de Myanmar, entre ruínas sagradas e templos religiosos históricos construídos entre os séculos 10 e 13. // Bagan Temple Marathon Exclusive for 300 competitors, it is held in November in the Asian country of Myanmar, amidst holy ruins and historical religious temples built between the 10th and the 13th centuries.

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Ahead #3 - Corra se puder  

Matéria sobre as corridas de rua mais espetaculares do mundo.

Ahead #3 - Corra se puder  

Matéria sobre as corridas de rua mais espetaculares do mundo.

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