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XXIII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE TEXTOS, DISCURSOS E HOMILIAS DO PAPA BENTO XVI SIDNEY – AUSTRÁLIA, JULHO DE 2008

 Mensagem do Papa Bento XVI para a XXIII Jornada Mundial da Juventude..............................................4  Entrevista concedida pelo Papa Bento XVI aos jornalistas durante o vôo para Sidney...............................................10  Boas-vindas..............................................................................................13  Festa de acolhimento dos jovens.............................................................15  Encontro Ecumênico................................................................................19  Encontro Inter-religioso...........................................................................21  Encontro com os jovens da comunidade de recuperação da Universidade de Notre Dame de Sidney...................23  Celebração Eucarística com bispos, seminaristas, noviços e noviças...............................................................26  Vigília com os jovens................................................................................29  Celebração Eucarística para a XXIII Jornada Mundial da Juventude........................................................34  Encontro com os benfeitores e organizadores da JMJ.............................38  Aos voluntários da JMJ.............................................................................39  Cerimônia de despedida das autoridades................................................41

Fonte dos textos: www.vatican.va

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Prezados jovens 1. A XXIII Jornada Mundial da Juventude Recordo sempre com grande alegria os vários momentos transcorridos juntos em Colônia, em Agosto de 2005. No final daquela inesquecível manifestação de fé e de entusiasmo, que permanece impressa no meu espírito e no meu coração, marquei encontro convosco para a próxima reunião que terá lugar em Sydney em 2008. Será a XXIII Jornada Mundial da Juventude e terá como tema: "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas" (At 1, 8). O fio condutor da preparação espiritual para o encontro de Sydney é o Espírito Santo e a missão. Se em 2006 paramos para meditar sobre o Espírito Santo como Espírito de verdade, em 2007 procuramos descobri-lo mais profundamente, como Espírito de amor, para nos encaminharmos depois rumo à Jornada Mundial da Juventude de 2008, refletindo acerca do Espírito de fortaleza e testemunho, que nos dá a coragem de viver o Evangelho e a audácia para o proclamar. Por isso, é fundamental que cada um de vós, jovens, na comunidade e com os educadores, possa refletir sobre este Protagonista da história da salvação, que é o Espírito Santo ou Espírito de Jesus, para alcançar estas altas finalidades: reconhecer a verdadeira identidade do Espírito, em primeiro lugar ouvindo a Palavra de Deus na Revelação da Bíblia; tomar uma consciência límpida da sua presença contínua e ativa na vida da Igreja, em particular redescobrindo que o Espírito Santo se põe como "alma", sopro vital da própria vida cristã, graças aos sacramentos da iniciação cristã Batismo, Confirmação e Eucaristia; tornar-se assim capaz de amadurecer uma compreensão de Jesus cada vez mais profunda e alegre e, contemporaneamente, de realizar uma prática eficaz do Evangelho no alvorecer do terceiro milênio. Com esta mensagem, ofereço-vos de bom grado um percurso de meditação para aprofundar ao longo deste ano de preparação, no qual verificar a qualidade da vossa fé no Espírito Santo, reencontrá-la se foi perdida, revigorá-la se está debilitada e saboreá-la como companhia do Pai e do Filho Jesus Cristo, precisamente graças à obra indispensável do Espírito Santo. Nunca esqueçais que a Igreja, aliás a própria humanidade, a que vos circunda e a que vos aguarda no futuro, espera muito de vós, jovens, porque tendes em vós o dom supremo do Pai, o Espírito de Jesus. 2. A promessa do Espírito Santo na Bíblia A escuta atenta da Palavra de Deus a respeito do mistério e da obra do Espírito Santo introduz-nos em conhecimentos vastos e estimulantes, que resumo nos seguintes pontos. Pouco antes da sua ascensão, Jesus disse aos discípulos: "Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu" (Lc 24, 49). Isto realizou-se no dia do Pentecostes, quando eles estavam reunidos em oração no Cenáculo com a Virgem Maria. A efusão do Espírito Santo na Igreja nascente foi o cumprimento de uma promessa de Deus, muito mais antiga, anunciada e preparada em todo o Antigo Testamento. Com efeito, desde as primeiras páginas a Bíblia evoca o espírito de Deus como um sopro que "se movia sobre a superfície das águas" (cf. Gn 1, 2) e especifica que Deus insuflou pelas narinas do homem um sopro de vida (cf. Gn 2, 7), infundindo-lhe assim a própria vida. Depois do pecado original, o espírito vivificador de Deus manifestar-se-á diversas vezes na história dos homens, suscitando profetas para incitar o povo eleito a voltar para Deus e a observar fielmente os seus mandamentos. Na célebre visão do profeta Ezequiel, Deus faz reviver com o seu espírito o povo de Israel, representado por "ossos dissecados" (cf. 37, 1-14). Joel profetiza uma "efusão do espírito" sobre todo o povo, sem excluir ninguém: "Depois disto escreve o Autor sagrado acontecerá que

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derramarei o meu Espírito sobre toda a carne... Naqueles dias, derramarei também o meu Espírito sobre os escravos e as escravas" (3, 1-2). Na "plenitude dos tempos" (cf. Gl 4, 4), o anjo do Senhor anuncia à Virgem de Nazaré que o Espírito Santo, "poder do Altíssimo", descerá e estenderá sobre ela a sua sombra. Aquele que Ela dará à luz será, portanto, santo e chamado Filho de Deus (cf. Lc 1, 35). Segundo a expressão do profeta Isaías, o Messias será Aquele sobre o qual se repousará o Espírito do Senhor (cf. 11, 1-2; 42, 1). Jesus retomou precisamente esta profecia no início do seu ministério público na sinagoga de Nazaré: "O Espírito do Senhor disse Ele, no meio da admiração dos presentes está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, o recobrar da vista; para mandar em liberdade os oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-19; cf. Is 61, 1-2). Dirigindo-se aos presentes, referirá a si mesmo estas palavras proféticas, afirmando: "Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabastes de ouvir" (Lc 4, 21). E antes da sua morte na cruz, ainda anunciará várias vezes aos discípulos a vinda do Espírito Santo, o "Consolador", cuja missão consistirá em dar-lhe testemunho e assistir os fiéis, ensinando-os e orientando-os para a Verdade integral (cf. Jo 14, 16-17.25-26; 15, 26; 16, 13). 3. O Pentecostes, ponto de partida da missão da Igreja À noite, no dia da sua ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos, "soprou sobre eles e disselhes: "Recebei o Espírito Santo"" (Jo 20, 22). Com força ainda maior, o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos no dia do Pentecostes: "Subitamente ressoou, vindo do Céu lê-se nos Atos dos Apóstolos um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram, então, aparecer umas línguas à maneira de fogo, que se iam dividindo, e pousou sobre cada um deles" (2, 2-3). O Espírito Santo renovou interiormente os Apóstolos, revestindo-os de uma força que os tornou audazes para anunciar sem medo: "Cristo morreu e ressuscitou!". Livres de todo o temor, eles começaram a falar com franqueza (cf. At 2, 29; 4, 13; 4, 29.31). De pescadores amedrontados, tornaram-se corajosos anunciadores do Evangelho. Nem sequer os seus inimigos conseguiam compreender como homens "iletrados e plebeus" (cf. At 4, 13) eram capazes de manifestar uma coragem como esta e suportar as contrariedades, os sofrimentos e as perseguições com alegria. Nada podia detê-los. Àqueles que procuravam reduzi-los ao silêncio, respondiam: "Quanto a nós, não podemos deixar de afirmar publicamente o que vimos e ouvimos" (At 4, 20). Assim nasceu a Igreja, que a partir do dia do Pentecostes não cessou de irradiar a Boa Nova "até aos confins do mundo" (At 1, 8). 4. O Espírito Santo alma da Igreja e princípio de comunhão Mas para compreender a missão da Igreja, temos que voltar ao Cenáculo, onde os discípulos estavam reunidos (cf. Lc 24, 49) a rezar com Maria, a "Mãe", à espera do Espírito prometido. Neste ícone da Igreja nascente devem inspirar-se constantemente todas as comunidades cristãs. A fecundidade apostólica e missionária não é principalmente o resultado de programas e métodos pastorais sabiamente elaborados e "eficazes", mas é fruto da oração comunitária incessante (cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, 75). Além disso, a eficácia da missão pressupõe que as comunidades permaneçam unidas, ou seja, tenham "um só coração e uma só alma" (cf. At 4, 32) e estejam dispostas a dar testemunho do amor e da alegria que o Espírito Santo infunde nos corações dos fiéis (cf. At 2, 42). O Servo de Deus João Paulo II pôde escrever que antes de ser ação, a missão da Igreja é testemunho e irradiação (cf. Encíclica Redemptoris missio, 26). Assim aconteceu nos primórdios do cristianismo, quando os pagãos escreve Tertuliano se convertiam ao verem o amor que reinava entre os cristãos: "Vê dizem como se amam uns aos outros" (cf. Apologético, 39 7). 5


Concluindo esta rápida consideração da Palavra de Deus na Bíblia, convido-vos a observar como o Espírito Santo é o dom mais excelso de Deus ao homem e, portanto, o testemunho supremo do seu amor por nós, um amor que se expressa concretamente como "sim à vida" que Deus deseja para cada uma das suas criaturas. Este "sim à vida" tem a sua forma plena em Jesus de Nazaré e na sua vitória sobre o mal, mediante a redenção. A este propósito, nunca esqueçamos que o Evangelho de Jesus, precisamente em virtude do Espírito, não se reduz a uma simples constatação, mas quer tornar-se "boa nova para os pobres, libertação para os prisioneiros, vista para os cegos...". É aquilo que se manifestou com vigor no dia do Pentecostes, tornando-se graça e tarefa da Igreja em favor do mundo, a sua missão prioritária. Nós somos os frutos desta missão da Igreja, por obra do Espírito Santo. Trazemos dentro de nós aquele selo do amor do Pai em Jesus Cristo, que é o Espírito Santo. Nunca o esqueçamos, porque o Espírito do Senhor se recorda sempre de cada um e quer, em particular mediante vós, jovens, suscitar no mundo o vento e o fogo de um novo Pentecostes. 5. O Espírito Santo "Mestre interior" Estimados jovens, portanto também hoje o Espírito Santo continua a agir com poder na Igreja, e os seus frutos são abundantes na medida em que se dispõem a abrir-nos à sua força renovadora. Por isso, é importante que cada um de nós O conheça, entre em relação com Ele e por Ele se deixe orientar. Mas nesta altura apresenta-se naturalmente uma pergunta: quem é para mim o Espírito Santo? Com efeito, não são poucos os cristãos para os quais Ele continua a ser o "grande desconhecido". Eis por que, ao preparar-nos para a próxima Jornada Mundial da Juventude, desejei convidar-vos a aprofundar o conhecimento pessoal do Espírito Santo. Na nossa profissão de fé, proclamamos: "Creio no Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida, e procede do Pai e do Filho" (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). Sim, o Espírito Santo, Espírito de amor do Pai e do Filho, é Fonte de vida que nos santifica, "porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi concedido" (Rm 5, 5). Todavia, não é suficiente conhecê-lo; é necessário acolhê-lo como guia das nossas almas, como o "Mestre interior" que nos introduz no Mistério trinitário, porque somente Ele pode abrir-nos à fé e permitir-nos vivê-la plenamente todos os dias. Ele impele-nos rumo aos outros, acende em nós o fogo do amor e torna-nos missionários da caridade de Deus. Bem sei como vós, jovens, tendes no coração uma grande estima e amor a Jesus, como desejais encontrá-lo e falar com Ele. Pois bem, recordai-vos que precisamente a presença do Espírito em nós atesta, constitui e constrói a nossa pessoa na própria Pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado. Portanto, tornemo-nos familiares com o Espírito Santo, para o sermos com Jesus. 6. Os Sacramentos da Confirmação e da Eucaristia Mas direis como podemos deixar-nos renovar pelo Espírito Santo e crescer na nossa vida espiritual? A resposta sabeis é: através dos sacramentos, porque a fé nasce e se fortalece em nós graças aos sacramentos, antes de tudo aos sacramentos da iniciação cristã: o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia, que são complementares e inseparáveis (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1285). Esta verdade sobre os três sacramentos que se encontram no início do nosso ser cristãos é, talvez, descuidada na vida de fé de não poucos cristãos, para os quais eles são gestos cumpridos no passado, sem incidência real no presente, como raízes desprovidas da linfa vital. Acontece que, depois de terem recebido a Confirmação, diversos jovens se afastam da vida de fé. E há também jovens que nem sequer recebem este sacramento. Contudo, é mediante os sacramentos do Batismo, da Confirmação e em seguida, de modo continuativo, da Eucaristia, que o Espírito Santo nos torna filhos do Pai, irmãos de Jesus, membros da sua Igreja, capazes de um verdadeiro testemunho do Evangelho, fruidores da alegria da fé. 6


Por isso, convido-vos a refletir sobre aquilo que vos escrevo. Hoje é particularmente importante redescobrir o sacramento da Confirmação e voltar a encontrar o seu valor para o nosso crescimento espiritual. Quem recebeu os sacramentos do Batismo e da Confirmação recorde-se que se tornou "templo do Espírito": Deus habita nele. Esteja sempre consciente disto e faça com que o tesouro que nele se encontra dê frutos de santidade. Quem é batizado, mas ainda não recebeu o sacramento da Confirmação, prepare-se para o receber, consciente de que assim há-de tornar-se um cristão "completo", porque a Confirmação aperfeiçoa a graça batismal (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1302-1304). A Confirmação dá-nos uma força especial para testemunhar e glorificar a Deus com toda a nossa vida (cf. Rm 12, 1); torna-nos intimamente conscientes da nossa pertença à Igreja, "Corpo de Cristo", de Quem todos nós somos membros vivos, solidários uns com os outros (cf. 1 Cor 12, 12-25). Deixando-se orientar pelo Espírito, cada batizado pode oferecer a sua contribuição para a edificação da Igreja, graças aos carismas que Ele infunde, porque "a manifestação do Espírito é dada a cada um, para proveito comum" (1 Cor 12, 7). E quando o Espírito age, traz na própria alma os seus frutos, que são "caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança" (Gl 5, 22). A quantos ainda não receberam o sacramento da Confirmação, dirijo o cordial convite a preparar-se para o acolher, pedindo ajuda aos seus sacerdotes. O Senhor oferecevos uma especial ocasião de graça: não a deixeis fugir! Aqui, gostaria de acrescentar uma palavra sobre a Eucaristia. Para crescer na vida cristã, é necessário alimentar-se do Corpo e Sangue de Cristo: com efeito, somos batizados e confirmados em vista da Eucaristia (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1322; Exortação Apostólica Sacramentum caritatis, 17). "Fonte e ápice" da vida eclesial, a Eucaristia é um "Pentecostes perpétuo", porque cada vez que celebramos a Santa Missa recebemos o Espírito Santo que nos une mais profundamente a Cristo e nele nos transforma. Queridos jovens, se participardes frequentemente na Celebração eucarística, se consagrardes um pouco do vosso tempo à adoração do Santíssimo Sacramento, da Fonte do amor, que é a Eucaristia, haveis de receber aquela alegre determinação de dedicar a vida ao seguimento do Evangelho. Experimentareis, ao mesmo tempo, que quando as nossas forças não são suficientes, é o Espírito Santo que nos transforma, que nos cumula com a sua força e nos torna testemunhas repletas do ardor missionário de Cristo ressuscitado. 7. A necessidade e a urgência da missão Muitos jovens refletem sobre a sua vida com apreensão e formulam muitas interrogações acerca do seu futuro. Preocupados, eles perguntam-se: como inserir-se num mundo assinalado por numerosas e graves injustiças e sofrimentos? Como reagir ao egoísmo e à violência, que por vezes parecem prevalecer? Como dar pleno sentido à vida? Como contribuir para que os frutos do Espírito, que recordamos acima, "caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança" (ponto n. 6), inundem este mundo ferido e frágil, antes de tudo o mundo dos jovens? Com que condições o Espírito vivificador da primeira criação, e sobretudo da segunda criação ou redenção, pode tornar-se a nova alma da humanidade? Não esqueçamos que quanto maior é o dom de Deus e o do Espírito de Jesus é o máximo tanto maior é a necessidade que o mundo tem de o receber e, portanto, tanto maior e mais apaixonante é a missão da Igreja de dar testemunho credível do mesmo. E vós jovens, com a Jornada Mundial da Juventude, de certo modo testemunhais a vontade de participar em tal missão. Caros amigos, a este propósito quero recordar-vos aqui algumas verdades de referência sobre as quais meditar. Mais uma vez, repito-vos que somente Cristo pode satisfazer as aspirações mais íntimas do coração do homem; só Ele é capaz de humanizar a humanidade e conduzi-la à sua "divinização". Com o poder do seu Espírito, Ele infunde em nós a caridade divina, que nos torna capazes de amar o próximo e de nos pormos com disponibilidade ao seu serviço. Revelando Cristo 7


crucificado e ressuscitado, o Espírito Santo ilumina, indica-nos a vida para nos tornarmos mais semelhantes a Ele, ou seja, para sermos "expressão e instrumento do amor que dele dimana" (Encíclica Deus caritas est, 33). E quem se deixa guiar pelo Espírito, compreende que pôr-se ao serviço do Evangelho não é uma opção facultativa, porque sente como é urgente transmitir esta Boa Nova também aos outros. Todavia, é necessário voltar a recordá-lo, só podemos ser testemunhas de Cristo se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, que é "o agente principal da evangelização" (cf. Evangelii nuntiandi, 75) e "o protagonista da missão" (cf. Redemptoris missio, 21). Diletos jovens, como reiteraram várias vezes os meus venerados Predecessores Paulo VI e João Paulo II, anunciar o Evangelho e dar testemunho da fé é hoje mais necessário do que nunca (cf. Redemptoris missio, 1). Alguns pensam que apresentar o tesouro precioso da fé às pessoas que não a compartilham significa ser intolerante para com elas, mas não é assim, porque propor Cristo não significa impô-lo (cf. Evangelii nuntiandi, 80). De resto, há dois mil anos doze Apóstolos deram a vida para que Cristo fosse conhecido e amado. A partir de então, o Evangelho continua a difundir-se ao longo dos séculos, graças a homens e mulheres animados pelo seu próprio zelo missionário. Portanto, também hoje são necessários discípulos de Cristo que não poupem tempo nem energias para servir o Evangelho. São precisos jovens que deixem arder dentro de si o amor a Deus e respondam generosamente ao seu apelo urgente, como fizeram muitos jovens Beatos e Santos do passado e inclusive de épocas mais próximas a nós. Em particular, asseguro-vos que o Espírito de Jesus hoje vos convida, jovens, a serdes portadores da Boa Nova de Jesus aos vossos coetâneos. A indubitável dificuldade que os adultos têm de encontrar de maneira compreensível e convincente a classe juvenil pode ser um sinal com que o Espírito tenciona impelir-vos, jovens, a assumir esta responsabilidade. Vós conheceis os ideais, as linguagens e também as feridas, as expectativas e ao mesmo tempo o desejo de bem dos vossos coetâneos. Abre-se o vasto mundo dos afetos, do trabalho, da formação, da expectativa, do sofrimento juvenil... Cada um de vós tenha a coragem de prometer ao Espírito Santo que conduzirá um jovem para Jesus Cristo, do modo como melhor considerar, sabendo "responder com doçura a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança" (cf. 1 Pd 3, 15). Mas para alcançar esta finalidade, queridos amigos, sede santos, sede missionários, porque nunca se pode separar a santidade da missão (cf. Redemptoris missio, 90). Não tenhais medo de ser santos missionários, como São Francisco Xavier, que percorreu o Extremo Oriente para anunciar a Boa Nova até ao extremo das suas forças, ou como Santa Teresa do Menino Jesus, que foi missionária, contudo sem jamais ter deixado o Carmelo: ambos são "Padroeiros das Missões". Estai prontos a pôr em jogo a vossa vida, para iluminar o mundo com a verdade de Cristo; para responder com amor ao ódio e ao desprezo pela vida; e para proclamar em todos os cantos da terra a esperança de Cristo ressuscitado. 8. Invocar um "novo Pentecostes" sobre o mundo Prezados jovens, aguardo-vos numerosos em Julho de 2008 em Sydney. Será uma ocasião providencial para experimentar plenamente o poder do Espírito Santo. Vinde em grande número, para serdes sinal de esperança e sustento precioso para as comunidades da Igreja na Austrália, que estão a preparar-se para vos receber. Para os jovens do país que nos hospedará, será uma extraordinária oportunidade de anunciar a beleza e a alegria do Evangelho a uma sociedade sob muitos aspectos secularizada. Como toda a Oceania, a Austrália tem necessidade de descobrir novamente as suas raízes cristãs. Na Exortação pós-sinodal Ecclesia in Oceania, João Paulo II escrevia: "Com a força do Espírito Santo, a Igreja na Oceania está a preparar-se para uma nova evangelização de povos que hoje têm fome de Cristo... A nova evangelização é uma prioridade para a Igreja na Oceania" (n. 18).

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Convido-vos a dedicar tempo à oração e à vossa formação espiritual neste último trecho do caminho que nos conduz à XXIII Jornada Mundial da Juventude, a fim de que em Sydney possais renovar as promessas do vosso Batismo e da vossa Confirmação. Em conjunto, invocaremos o Espírito Santo, pedindo com confiança a Deus o dom de um renovado Pentecostes para a Igreja e para a humanidade do terceiro milênio. Maria, unida em oração aos Apóstolos no Cenáculo, vos acompanhe durante estes meses e obtenha para todos os jovens cristãos uma renovada efusão do Espírito Santo, que inflame os seus corações. Recordai: a Igreja tem confiança em vós! Nós Pastores, de modo particular, rezamos para que vos ameis e façais com que Jesus seja cada vez mais amado, e a fim de que O sigais fielmente. Com estes sentimentos, abençoo-vos a todos com grande carinho. Lorenzago, 20 de Julho de 2007.

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Vôo Papal, Sábado, 12 de Julho de 2008 Pergunta: Santidade, esta é a sua segunda JMJ, a primeira digamos assim inteiramente sua. Com que sentimentos se prepara para a viver e qual é a mensagem principal que deseja transmitir aos jovens? Depois: considera que as JMJ influenciam profundamente a vida da Igreja que as hospeda? E finalmente: pensa que a fórmula destas reuniões juvenis de massa ainda é atual? Papa Bento XVI: Vou à Austrália com sentimentos de grande alegria. Tenho boas recordações da JMJ de Colônia: não foi simplesmente um acontecimento de massa, foi sobretudo uma grande festa da fé, um encontro humano da comunhão em Cristo. Vimos como a fé abre as fronteiras e tem realmente uma capacidade de união entre as diversas culturas e cria alegria. Espero que o mesmo aconteça agora na Austrália. Por isso estou contente por ver muitos jovens, de os ver unidos no desejo de Deus e no desejo de um mundo realmente humano. A mensagem essencial é indicada pelas palavras que constituem o slogan desta JMJ: falamos do Espírito Santo que nos torna testemunhas de Cristo. Portanto, gostaria de concentrar a minha mensagem precisamente nesta realidade do Espírito Santo, que se manifesta em diversas dimensões: é o Espírito que age na Criação. A dimensão da Criação está muito presente, porque o Espírito é criador. Parece-me um tema muito importante no momento atual. Mas o Espírito é também o inspirador da Escritura: no nosso caminho, à luz da Escritura, podemos caminhar juntamente com o Espírito Santo; o Espírito Santo é Espírito de Cristo, e guia-nos portanto em comunhão com Cristo e mostra-se finalmente segundo São Paulo nos carismas, ou seja, num grande número de dons inesperados que mudam os diversos tempos e dão nova força à Igreja. E portanto, estas dimensões convidam-nos a ver os vestígios do Espírito e a tornar visível o Espírito também aos outros. Uma JMJ não é simplesmente um acontecimento deste momento: é preparada por um longo caminho com a Cruz e com o Ícone de Nossa Senhora que, além disso, é preparado do ponto de vista organizativo, mas também espiritual. Portanto, estes dias são apenas o momento culminante de um longo caminho precedente. Tudo é fruto de um caminho, de um estar juntos a caminho de Cristo. Depois, a JMJ cria uma história, ou seja, criam-se amizades, criam-se novas inspirações: assim, a JMJ continua. Isto pareceme muito importante: não ver apenas estes três ou quatro dias, mas ver todo o caminho que precede e aquele que se segue. Neste sentido, parece-me que a JMJ pelo menos para o nosso futuro próximo é uma fórmula válida que nos prepara para compreender que sob vários pontos de vista e de diversas partes da terra caminhamos na direção de Cristo e rumo à comunhão. Assim, aprendemos um novo modo de caminhar juntos. Neste sentido, espero que seja também uma fórmula para o futuro. Pergunta: Santo Padre, gostaria de formular a minha pergunta em inglês: a Austrália é uma terra muito secular, com uma débil prática religiosa e muita indiferença religiosa. Gostaria de perguntar se Vossa Santidade é otimista em relação ao futuro da Igreja na Austrália, ou está preocupado e receia que a Igreja na Austrália possa seguir o caminho europeu do declínio. Que mensagem ofereceria à Austrália, para superar a sua indiferença religiosa? Papa Bento XVI: Farei o melhor que posso em inglês, mas peço-lhe que me desculpe as minhas lacunas. Penso que a Austrália, na sua presente configuração histórica, quer econômica quer política é uma parte do "mundo ocidental", e assim é óbvio que a Austrália também compartilhe o sucesso e os problemas do mundo ocidental. Nos últimos cinqüenta anos, o mundo ocidental realizou grandes progressos econômicos e técnicos; contudo, a religião a fé cristã está num certo 10


sentido em crise. Isto é evidente porque existe a impressão de que não precisamos de Deus, que podemos fazer tudo sozinhos, que não precisamos de Deus para ser felizes, para criar um mundo melhor, que Deus não é necessário e que podemos fazer tudo sozinhos. Por outro lado, vemos que a religião está e estará sempre presente no mundo, porque Deus está presente no coração do ser humano e não pode desaparecer. Vemos como a religião é realmente a força deste mundo e dos países. Não falaria simplesmente de um declínio da religião na Europa: certamente, existe uma crise na Europa, não tanto na América, mas também lá e na Austrália. Contudo, existe sempre uma presença da fé sob novas formas, e de novas maneiras; talvez em minoria, mas sempre presente para toda a sociedade. E agora, neste momento histórico, começamos a ver que temos necessidade de Deus. Podemos fazer tantas coisas, mas não podemos criar o nosso clima. Pensávamos que podíamos fazê-lo, mas não podemos. Precisamos do dom da Terra, da dádiva da água, temos necessidade do Criador; o Criador volta a aparecer na Sua criação. E assim, também conseguimos entender que não podemos ser realmente felizes, não podemos promover verdadeiramente a justiça para o mundo inteiro, sem um critério em ação nas nossas idéias, sem um Deus que seja justo e que nos conceda a luz, a vida. Assim, penso que num certo sentido, neste "mundo ocidental", haverá uma crise da nossa fé, mas teremos sempre também um renascimento da fé, porque a fé cristã é simplesmente verdadeira, e a verdade estará sempre presente no mundo humano, e Deus será sempre verdadeiro. Neste sentido, em última análise sou otimista. Pergunta: Santo Padre, lamento mas não falo bem italiano. Assim, farei a minha pergunta em inglês. As vítimas australianas de abusos sexuais por parte do clero pediram que Vossa Santidade enfrente esta questão e faça um pedido de desculpa durante a sua visita à Austrália. O próprio Cardeal Pell disse que seria apropriado que o Papa abordasse esta questão, e Vossa Santidade fez um gesto análogo na sua recente viagem aos Estados Unidos. Vossa Santidade falará sobre o problema dos abusos sexuais e pedirá perdão? Papa Bento XVI: Sim, o problema é essencialmente o mesmo dos Estados Unidos. Senti o dever de falar sobre isto nos Estados Unidos, porque é fundamental para a Igreja reconciliar, prevenir, ajudar e também reconhecer a culpa em tais problemas; por isso, direi basicamente as mesmas coisas que disse na América. Como afirmei, temos que esclarecer três dimensões: a primeira é o nosso ensinamento moral. Ele deve ser claro; foi sempre claro desde os primeiros séculos que o sacerdócio é incompatível com este comportamento, porque o presbítero está ao serviço de nosso Senhor, e nosso Senhor é a Santidade em pessoa e sempre nos ensina: a Igreja sempre insistiu sobre isto. Temos que refletir sobre o que foi insuficiente na nossa educação, no nosso ensinamento nas recentes décadas: nos anos 50, 60 e 70 houve a idéia do proporcionalismo na ética: ele afirmava que não existe uma coisa má em si mesma, mas somente em relação às outras; com o proporcionalismo era possível pensar que determinadas realidades entre as quais podia contar-se a pedofilia eram proporcionalmente boas. Pois bem, é necessário afirmar com clareza que isto nunca fez parte da doutrina católica. Certas coisas são sempre más, e a pedofilia é sempre má. Na nossa educação, nos seminários, na formação permanente dos sacerdotes, temos que ajudar os sacerdotes a permanecer realmente próximos de Cristo, a aprender de Cristo e assim a ser cooperadores e não adversários dos nossos irmãos em humanidade, dos cristãos. Por isso, faremos tudo o que nos for possível para esclarecer qual é o ensinamento da Igreja e contribuir para a educação e a preparação dos sacerdotes, em formação permanente, e faremos tudo o que nos for 11


possível para curar e reconciliar as vítimas. Penso que este é o conteúdo fundamental da palavra "perdão". Penso que é melhor, mais importante dar um conteúdo à fórmula, e julgo que o conteúdo deve mostrar o que era insuficiente no nosso comportamento, o que temos que fazer neste momento, como podemos prevenir, curar e reconciliar. Pergunta: Um dos argumentos do último G8 no Japão foi a luta contra a mudanças climáticas. A Austrália é um país muito sensível a esta temática, pela forte estiagem e pelos dramáticos acontecimentos climáticos nesta região do mundo. Vossa Santidade pensa que as decisões tomadas neste campo estão à altura do desafio? Vossa Santidade falará sobre este tema durante a viagem? Papa Bento XVI: Como já mencionei na primeira resposta, certamente este problema estará muito presente nesta JMJ, porque falamos do Espírito Santo e, por conseguinte, falamos da Criação e das nossas responsabilidades no que se refere à Criação. Não tenciono abordar as questões técnicas, que devem ser resolvidas por políticos e especialistas, mas dar os impulsos essenciais para ver a responsabilidade, para ser capazes de enfrentar este grande desafio: redescobrir na Criação o rosto do Criador, voltar a descobrir a nossa responsabilidade diante do Criador pela Criação que Ele nos confiou, formar a capacidade ética para um estilo de vida que é necessário assumir, se quisermos enfrentar o problema desta situação e se realmente quisermos chegar a soluções positivas. Portanto, despertar as consciências e ver o grande contexto deste problema, em que depois se inserem as respostas específicas, que não devem ser dadas por nós, mas pela política e pelos especialistas. Pergunta: Enquanto Vossa Santidade está na Austrália, os Bispos da Comunhão anglicana, que é muito difundida também na Austrália, encontram-se na Conferência de Lambeth. Um dos temas principais serão os modos possíveis para revigorar a comunhão entre as províncias e encontrar um modo para assegurar que uma ou mais províncias não tomem iniciativas que outros vêem como contrárias ao Evangelho ou à tradição. Nisto há o risco de uma fragmentação da Comunhão anglicana e a possibilidade que alguns peçam para ser acolhidos na Igreja católica. Quais são os seus votos para a Conferência de Lambeth e para o Arcebispo de Cantuária? Papa Bento XVI: A minha contribuição essencial só pode ser a oração, e com a minha prece estarei muito próximo dos Bispos anglicanos que se reúnem na Conferência de Lambeth. Não podemos e não devemos intervir imediatamente nos seus debates, respeitamos a sua própria responsabilidade e o nosso desejo é que possam ser evitados cismas ou novas rupturas e que se encontre uma solução na responsabilidade diante do nosso tempo, mas também na fidelidade ao Evangelho. Estas duas coisas devem caminhar juntas. O cristianismo é sempre contemporâneo e vive neste mundo, num certo período, mas neste tempo torna presente a mensagem de Jesus Cristo e, portanto, só oferece um verdadeiro contributo para este tempo, se for fiel de modo maduro, de modo criativo mas fiel à mensagem de Cristo. Esperemos, e eu pessoalmente rezo, que juntos encontrem o caminho do Evangelho no nosso hoje. Estes são os meus bons votos para o Arcebispo de Cantuária: que a comunhão anglicana na comunhão do Evangelho de Cristo e na Palavra do Senhor encontre as respostas aos desafios contemporâneos.

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Government House de Sidney Quinta-feira, 17 de Julho de 2008 Ilustríssimos Senhores e Senhoras, Queridos Amigos Australianos, É com grande alegria que hoje, finalmente, vos posso saudar. Desejo agradecer ao Governador Geral, General Supremo Michael Jeffersey, e ao Primeiro-Ministro Rudd a honra que me dão com a sua presença nesta cerimônia e as amáveis boas-vindas que me dirigiram. Como sabeis, pude dispor de qualquer dia de repouso desde a minha chegada à Austrália no passado Domingo. Sinto-me verdadeiramente agradecido pela hospitalidade que me proporcionaram. Aguardo agora o momento de poder participar, hoje de tarde, nas «Boas-vindas ao País» dadas pela população indígena e celebrar, depois, os grandes eventos que constituem o objetivo da minha Visita Apostólica a esta Nação: a XXIII Jornada Mundial da Juventude. Alguém poder-se-ia perguntar pela razão que impele milhares de jovens a empreenderem uma viagem – para muitos deles – longa e cansativa, a fim de poderem participar num acontecimento deste gênero. Desde a primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986, ficou patente que um grande número de jovens aprecia a oportunidade de se encontrar para juntos aprofundarem a própria fé em Cristo e partilharem uns com os outros uma jubilosa experiência de comunhão na sua Igreja. Anelam por ouvir a palavra de Deus e aumentar os conhecimentos a respeito da sua fé cristã. Anseiam por tomar parte num acontecimento que ressalta os grandes ideais que os inspiram, e voltam depois para suas casas repletos de esperança, com uma renovada decisão de construir um mundo melhor. Para mim, é uma alegria estar com eles, rezar com eles e celebrar a Eucaristia juntamente com eles. A Jornada Mundial da Juventude enche-me de confiança no futuro da Igreja e no futuro do mundo de todos nós. Revela-se particularmente oportuno celebrar aqui a Jornada Mundial da Juventude, uma vez que a Igreja na Austrália, além de ser a mais jovem de entre as Igrejas dos vários continentes, é também uma das mais cosmopolitas. Desde o primeiro aglomerado europeu aqui formado ao findar do século XVIII, este país tornou-se a habitação não só de sucessivas gerações de imigrantes da Europa mas também de pessoas vindas de todos os cantos da terra. A imensa diversidade da atual população australiana confere um vigor particular a esta que poderia, comparada com maior parte do resto do mundo, ser ainda considerada uma nação jovem. Mas, já durante milhares de anos antes da chegada dos colonos ocidentais, os únicos habitantes deste solo foram pessoas originárias do país, aborígenes e insulares do Estreito de Torres. O seu antigo patrimônio faz parte essencial do panorama cultural da Austrália moderna. Graças à corajosa decisão tomada pelo Governo australiano de reconhecer as injustiças cometidas no passado contra os povos indígenas, tem-se dado agora passos concretos para se chegar a uma reconciliação baseada no respeito recíproco. Justamente tendes procurado colmatar o desnível que existe entre australianos indígenas e não indígenas relativamente a expectativas de vida, metas educativas e oportunidades econômicas. Este exemplo de reconciliação gera esperança nos povos de todo o mundo que anelam por ver afirmados os seus direitos e reconhecida e valorizada a sua contribuição para a sociedade. Entre os colonos que aqui chegavam vindos da Europa havia sempre uma proporção significativa de católicos e deveremos justamente ser orgulhosos da contribuição que estes ofereceram para a construção da nação, particularmente nos campos da educação e da saúde. Uma das figuras eminentes da história deste país é a Beata Mary MacKillop, em cuja sepultura deter-meei a rezar ainda hoje. Sei que a sua perseverança diante das adversidades, as suas intervenções em defesa de quantos eram tratados injustamente e o exemplo prático de santidade se tornaram fonte de inspiração para todos os australianos. Gerações de australianos têm motivo para sentir-se 13


agradecidos a ela, às Irmãs de São José do Sagrado Coração e a outras congregações religiosas pela rede escolar que aqui fundaram e também pelo testemunho da sua vida consagrada. No contexto atual mais secularizado, a comunidade católica continua a prestar um contributo importante para a vida nacional, não só através da educação e da saúde mas especialmente apontando a dimensão espiritual das questões que estão mais em evidência no debate contemporâneo. Atendendo aos numerosos milhares de jovens que visitam a Austrália nestes dias, é imperioso refletir sobre o gênero de mundo que estamos a entregar às futuras gerações. Segundo palavras do vosso hino nacional, esta terra «abunda, nos dons da natureza, de uma beleza rica e rara». As maravilhas da criação de Deus recordam-nos a necessidade de proteger o ambiente, realizando uma administração responsável dos bens da terra. A tal respeito, apraz-me notar que a Austrália se empenha seriamente em assumir a responsabilidade que lhe cabe no cuidado do ambiente natural. De igual modo, relativamente ao ambiente humano, este país sustentou generosamente operações internacionais em prol da manutenção da paz, contribuindo para a resolução de conflitos no Pacífico, no sudeste da Ásia e noutros lados. Devido às numerosas tradições religiosas presentes na Austrália, esta constitui um terreno particularmente fértil para o diálogo ecumênico e inter-religioso. Aguardo ansiosamente o momento em que poderei encontrar, durante esta minha estadia, os representantes locais das diversas comunidades cristãs e das outras religiões, para encorajar este importante empenho, sinal da ação reconciliadora do Espírito que nos impele a procurar a unidade na verdade e na caridade. Mas primariamente estou aqui para me encontrar com os jovens, quer da Austrália quer das diversas partes do mundo, e para pedir uma renovada efusão do Espírito Santo sobre quantos tomarem parte nas nossas celebrações. O tema escolhido para esta Jornada Mundial da Juventude de 2008 é tomado das palavras que o próprio Jesus dirigiu aos seus discípulos, tal como aparecem registradas nos Atos dos Apóstolos: «Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas (…) até aos confins do mundo» (1, 8). Rezo para que o Espírito Santo proporcione uma renovação espiritual a este país, ao povo australiano, à Igreja na Oceania e verdadeiramente até à extremidade da terra. Atualmente os jovens têm pela sua frente uma variedade de tal modo desconcertante de opções de vida, que às vezes se lhes torna árduo saber como melhor orientar o seu idealismo e a sua força. É o Espírito que dá a sabedoria para discernir a senda justa e a coragem para a percorrer. Ele coroa os nossos pobres esforços com os seus dons divinos, tal como o vento, insuflando as velas, impele o barco para diante, superando de longe aquilo que poderiam obter os remadores com o seu fatigoso remar. É assim que o Espírito Santo torna possível a homens e mulheres de cada terra e geração serem santos. Através da ação do Espírito, possam os jovens aqui reunidos para a Jornada Mundial da Juventude ter a coragem de se tornarem santos! Mais do que qualquer outra coisa, o mundo precisa disto. Queridos amigos australianos, uma vez mais vos agradeço as calorosas boas-vindas e me preparo com alegria para transcorrer estes dias convosco e com os jovens do mundo inteiro. Que Deus vos abençoe a quantos estais aqui presentes, a todos os peregrinos e aos habitantes deste país. E sempre abençoe e proteja a Commonwealth da Austrália.

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Cais de Barangaroo de Sidney Quinta-feira, 17 de Julho de 2008 Queridos jovens, Que grande alegria é para mim poder saudar-vos aqui em Barangaroo, nas margens desta magnífica baía de Sidney, com a sua famosa ponte e a Opera House! Muitos de vós são deste país, do seu interior ou das dinâmicas comunidades multiculturais das cidades australianas. Outros chegaram das ilhas disseminadas pela Oceania, outros ainda vieram da Ásia, do Médio Oriente, da África e das Américas. Entretanto um certo número chegou de tão longe como eu, ou seja, da Europa! Seja qual for o país donde vindes, finalmente estamos aqui, em Sidney! E juntos estamos presentes neste nosso mundo como família de Deus, como discípulos de Cristo, confirmados pelo seu Espírito para sermos testemunhas do seu amor e da sua verdade diante de todos. Desejo em primeiro lugar agradecer aos Anciãos dos Aborígenes que me deram as boas-vindas antes de eu subir para o barco na Rose Bay. Sinto-me profundamente emocionado por me encontrar na vossa terra, sabendo dos sofrimentos e injustiças que esta suportou, mas ciente também da beneficiação e esperança agora em ato, de que justamente todos os cidadãos australianos podem ser orgulhosos. Aos jovens indígenas – aborígenes e habitantes das Ilhas do Estreito de Torres – e Tokelauanos, exprimo o meu obrigado pela tocantes boas-vindas. E, através de vós, envio cordiais saudações aos vossos povos. Senhor Cardeal Pell e Senhor Arcebispo D. Wilson: agradeço as vossas calorosas expressões de boas-vindas. Sei que os vossos sentimentos são o eco de quanto vai no coração dos jovens reunidos aqui nesta tarde e, por isso, a todos vos agradeço. Vejo diante de mim uma imagem vibrante da Igreja universal. A variedade de nações e culturas donde provindes demonstra que a Boa Nova de Cristo é verdadeiramente para todos e cada um; ela chegou aos confins da terra. E, no entanto, sei também que um bom número de vós ainda anda à procura duma pátria espiritual. Alguns dentre vós, sem dúvida alguma bem-vindos entre nós, não são católicos nem cristãos. Talvez outros de vós se movam na periferia da vida da paróquia e da Igreja. A vós desejo oferecer o meu encorajamento: aproximai-vos do abraço amoroso de Cristo; reconhecei a Igreja como vossa casa. Ninguém é obrigado a ficar de fora, porque desde o dia do Pentecostes a Igreja é una e universal. Nesta tarde, desejo abarcar também quantos não estão aqui presentes entre nós. Penso de modo especial nos doentes ou nos deficientes psíquicos, nos jovens encarcerados, em quantos penam à margem das nossas sociedades e naqueles que por qualquer razão se sentem alienados da Igreja. A eles digo: Jesus está perto de ti! Experimenta o seu abraço que cura, a sua compaixão, a sua misericórdia! Há quase dois mil anos, os Apóstolos, reunidos na sala superior da casa juntamente com Maria (cf. At 1, 14) e algumas mulheres fiéis, ficaram cheios de Espírito Santo (cf. At 2, 4). Naquele momento extraordinário que marcou o nascimento da Igreja, a confusão e o medo, que se tinham apoderado dos discípulos de Cristo, transformaram-se numa convicção vigorosa e na certeza de um objetivo. Sentiram-se impelidos a falar do seu encontro com Jesus ressuscitado, que afetuosamente já tratavam por Senhor. Na sua diversidade, os Apóstolos eram pessoas comuns. Nenhum podia afirmar que fosse o discípulo perfeito. Não tinham conseguido reconhecer Cristo (cf. Lc 24, 13-32), deveriam envergonhar-se da sua ambição (cf. Lc 22, 24-27), tinham-No até negado (cf. Lc 22, 54-62). E todavia, quando ficaram cheios de Espírito Santo, sentiram-se trespassados pela verdade do Evangelho de Cristo e inspirados a proclamá-lo sem medo. Revigorados, gritaram: Arrependei-vos, fazei-vos batizar, recebei o Espírito Santo (cf. At 2, 37-38)! Fundada sobre o ensino dos Apóstolos, a união fraterna, a fração do pão e a oração (cf. At 2, 42), a jovem comunidade cristã saiu a terreiro 15


para se opor à perversidade da cultura que a rodeava (cf. At 2, 40), para cuidar dos seus próprios membros (cf. At 2, 44-47), para defender a sua fé em Jesus que era hostilizada (cf. At 4, 33) e para curar os doentes (cf. At 5, 12-16). E, dando cumprimento ao mandato recebido do próprio Cristo, partiram testemunhando a maior história de todos os tempos: que Deus Se fez um de nós, que o divino entrou na história humana para poder transformá-la e que somos chamados a mergulhar no amor salvífico de Cristo que triunfa do mal e da morte. No famoso discurso feito no areópago, São Paulo introduziu a mensagem assim: Deus a todos dá a vida, a respiração e tudo o mais, para que todas as Nações procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós, porque é n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos (cf. At 17, 25-28). A partir de então, homens e mulheres partiram para contar a mesma história, testemunhando o amor e a verdade de Cristo e contribuindo para a missão da Igreja. Ao nosso pensamento vêm hoje os pioneiros – sacerdotes, freiras e frades – que chegaram a estas praias e a outras partes do Pacífico, vindos da Irlanda, da França, da Grã Bretanha e doutros lados da Europa. A maior parte deles eram jovens – alguns não tinham sequer vinte anos – e, quando se despediram para sempre dos pais, dos irmãos, das irmãs, dos amigos, bem sabiam que seria improvável o seu regresso a casa. As suas vidas foram um testemunho cristão livre de interesses egoístas. Tornaram-se construtores humildes mas tenazes duma herança social e espiritual tão grande que ainda hoje proporciona bondade, compaixão e orientação a estas nações. E foram capazes de inspirar uma geração nova. Vem à mente imediatamente a fé que sustentou a Beata Mary MacKillop na sua resoluta determinação de educar especialmente os pobres, e o Beato Peter To Rot na sua firme convicção de que o chefe duma comunidade deve pautar-se sempre pelo Evangelho. Pensai ainda nos vossos avós e nos vossos pais, os vossos primeiros mestres na fé. Também eles sacrificaram muito do seu tempo e das suas forças, movidos pelo amor que vos têm. Com o apoio dos sacerdotes e catequistas da vossa paróquia, eles têm o dever, nem sempre fácil mas altamente gratificante, de vos guiar para tudo o que é bom e verdadeiro, através do seu exemplo pessoal, do seu modo de ensinar e viver a fé cristã. Hoje é a minha vez. A alguns de nós, pode parecer que chegamos ao fim do mundo! Para as pessoas da vossa idade, qualquer vôo reveste-se sempre de uma perspectiva excitante. Mas, para mim, este vôo foi em certa medida causa de apreensão. E todavia a vista do alto sobre o nosso planeta foi verdadeiramente magnífica. As águas tremeluzentes do Mediterrâneo, a magnificência do deserto norte-africano, a floresta luxuriante da Ásia, a vastidão do Oceano Pacífico, o horizonte onde o sol se levanta e desce, o majestoso esplendor da beleza natural da Austrália de que pude gozar nos últimos dias; tudo isto gera um profundo sentido de reverente temor. É como se se captassem rápidas imagens da história da criação narrada no Gênesis: a luz e as trevas, o sol e a lua, as águas, a terra e as criaturas vivas. Tudo isto é «bom» aos olhos de Deus (cf. Gn 1, 1 – 2, 4). Imersos em tal beleza, era impossível não dar voz às palavras do Salmista que assim louva o Criador: «Como é grande o vosso nome em toda a terra!» (Sal 8, 2). Mas há mais; algo cuja percepção é difícil quando visto do alto dos céus: homens e mulheres criados nada menos que à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). No coração desta criação maravilhosa, estamos nós: vós e eu, a família humana «coroada de glória e honra» (cf. Sal 8, 6). Que maravilha! Com o Salmista, sussurramos para Deus: «Que é o homem para Vos lembrardes dele?» (cf. Sal 8, 5). Imersos no silêncio, num espírito de gratidão, na força da santidade, pomo-nos a refletir. E que descobrimos? Com relutância talvez, mas chegamos a admitir que existem também feridas que desfiguram a superfície da terra: a erosão, o desflorestamento, o esbanjamento dos recursos minerais e marítimos para alimentar um consumismo insaciável. Alguns de vós chegam das ilhas-Estado, que se vêem ameaçadas na sua própria existência pelo aumento do nível das águas; 16


outros de nações que sofrem os efeitos de secas devastadoras. Às vezes a criação maravilhosa de Deus é sentida quase como uma realidade hostil aos seus guardiões, senão mesmo como algo perigoso. Como pode o que é «bom» aparecer assim tão ameaçador? E mais… Que dizer do homem, do vértice da criação de Deus? Todos os dias deparamos com o gênio das conquistas humanas. Devido aos avanços nas ciências médicas e à sábia aplicação da tecnologia até à criatividade que se espelha nas artes, cresce de muitos modos e constantemente a qualidade de vida para satisfação das pessoas. Em vós mesmos, há uma pronta disponibilidade para acolher as abundantes oportunidades que vos são oferecidas. Alguns sobressaem nos estudos, no desporto, na música, ou na dança e no teatro; outros têm um sentido agudo da justiça social e da ética, sendo muitos os que assumem compromissos de serviço e de voluntariado. Todos nós, jovens e idosos, temos momentos em que a bondade inata da pessoa humana – perceptível talvez no gesto de uma criança ou na disponibilidade de um adulto a perdoar – nos enche de profunda alegria e gratidão. Mas tais momentos não duram muito. Por isso, levando por diante a nossa reflexão, descobrimos que não é só o ambiente natural que tem as suas cicatrizes, mas também o ambiente social, o habitat que nós mesmos criamos; feridas essas que indicam que alguma coisa não está certa. Também aqui, nas nossas vidas pessoais e nas nossas comunidades, podemos encontrar inimizades por vezes perigosas; um veneno que ameaça corroer o que é bom, plasmar de modo diferente o que somos e alterar a finalidade para a qual fomos criados. Os exemplos não faltam, como bem sabeis. Entre os mais salientes, contam-se o abuso de álcool e de drogas, a exaltação da violência e a degradação sexual, frequentemente apresentados na televisão e na internet como divertimento. Pergunto-me como alguém, colocado face a face com pessoas que estão realmente sofrendo violência e exploração sexual, poderá explicar que tais tragédias, reproduzidas de forma virtual, devem considerar-se simplesmente como «divertimento». Além disso, há algo de sinistro que nasce do fato de liberdade e tolerância serem tantas vezes separadas da verdade. Isto é alimentado pela idéia, hoje largamente espalhada, de que não há uma verdade absoluta para guiar as nossas vidas. Na prática dando indiscriminadamente valor a tudo, o relativismo fez da «experiência» a coisa mais importante. Na realidade, as experiências, desligadas de qualquer consideração do que é bom ou verdadeiro, podem conduzir, não a uma liberdade genuína, mas a uma confusão moral ou intelectual, a uma atenuação dos princípios, à perda da autoestima e mesmo ao desespero. Queridos amigos, a vida não é governada pela sorte, nem é casual. A vossa existência pessoal foi querida por Deus, abençoada por Ele, tendo-lhe dado uma finalidade (cf. Gn 1, 28). A vida não é uma mera sucessão de fatos e experiências, por mais úteis que muitos deles se possam revelar. Mas é uma busca da verdade, do bem e da beleza. É precisamente para tal fim que fazemos as nossas opções, exercemos a nossa liberdade e nisso mesmo, isto é, na verdade, no bem e na beleza, encontramos felicidade e alegria. Não vos deixeis enganar por quantos vos olham como meros consumidores num mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabanda como beleza, e a experiência subjetiva suplanta a verdade. Cristo oferece mais… antes, oferece tudo! Só Ele, que é a Verdade, pode ser o Caminho e, conseqüentemente, também a Vida. Assim, o «caminho» que os Apóstolos estenderam até aos confins da terra é a vida em Cristo. É a vida da Igreja. E a entrada nesta vida, na vida cristã, é o Batismo. Por isso, nesta tarde, desejo recordar-vos brevemente algo da nossa noção do Batismo, antes de considerar amanhã o Espírito Santo. No dia do Batismo, Deus introduziu-vos na sua santidade (cf. 2 Pd 1, 4). Adotados como filhos e filhas do Pai, fostes incorporados em Cristo. Tornastes-vos 17


morada do seu Espírito (cf. 1 Cor 6, 19). Por isso, na parte final do rito do Batismo, o sacerdote, dirigindo-se aos vossos pais e demais participantes e chamando-vos pelo nome, disse: «És nova criatura» (Rito do Batismo, 99). Queridos amigos, em casa, na escola, na universidade, nos lugares de trabalho e de diversão, recordai-vos que sois criaturas novas. Como cristãos, encontrais-vos neste mundo sabendo que Deus tem um rosto humano: Jesus Cristo, o «caminho» que satisfaz todo o anseio humano e a «vida» da qual somos chamados a dar testemunho, caminhando sempre na sua luz (cf. ibid., 100). A tarefa de testemunha não é fácil. Hoje, há muitos que pretendem que Deus deva ficar de fora e que a religião e a fé, embora aceitáveis no plano individual, devam ser excluídas da vida pública ou então utilizadas somente para alcançar determinados objetivos pragmáticos. Esta perspectiva secularizada procura explicar a vida humana e plasmar a sociedade com pouco ou nenhum referimento ao Criador. Apresenta-se como uma força neutral, imparcial e respeitadora de todos e cada um. Na realidade, porém, como qualquer ideologia, o secularismo impõe um visão global. Se Deus é irrelevante na vida pública, então a sociedade poderá ser plasmada segundo uma imagem alheada de Deus. Mas quando Deus fica eclipsado, começa a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o «bem». Aquilo que fora pomposamente exaltado como engenho humano, bem depressa se manifestou como loucura, avidez e exploração egoísta. E assim fomo-nos consciencializando cada vez mais da necessidade de humildade perante a delicada complexidade do mundo de Deus. E que dizer do nosso ambiente social? Permanecemos igualmente alerta quanto aos sinais do nosso voltar as costas à estrutura moral de que Deus dotou a humanidade (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 8)? Sabemos reconhecer que a dignidade inata de cada indivíduo assenta na sua dignidade mais profunda de imagem do Criador e que, por isso mesmo, os direitos humanos são universais, baseados sobre a lei natural, e não algo dependente de negociações ou de condescendência, e menos ainda de compromissos? Deste modo somos levados a refletir sobre o lugar que têm nas nossas sociedades os pobres, os idosos, os imigrantes, os sem voz. Como é possível que a violência doméstica atormente tantas mães e crianças? Como é possível que o espaço humano mais admirável e sagrado, o ventre materno, se tenha tornado lugar de violência indizível? Queridos amigos, a criação de Deus é única e é boa. As preocupações com a não violência, o progresso sustentável, a justiça e paz, o cuidado do nosso ambiente são de importância vital para a humanidade. Tudo isto, porém, não pode ser compreendido prescindindo duma reflexão profunda sobre a dignidade congênita de cada vida humana desde a sua concepção até à morte natural, uma dignidade que lhe é conferida pelo próprio Deus e, por conseguinte, inviolável. O nosso mundo está cansado da ambição, da exploração e da divisão, do tédio de falsos ídolos e de respostas parciais, e da mágoa de falsas promessas. O nosso coração e a nossa mente anelam por uma visão da vida onde reine o amor, onde os dons sejam partilhados, onde se construa a unidade, onde a liberdade encontre o seu próprio significado na verdade, e onde a identidade seja encontrada numa comunhão respeitosa. Esta é obra do Espírito Santo. Esta é a esperança oferecida pelo Evangelho de Jesus Cristo. Foi para dar testemunho desta realidade que fostes regenerados no Batismo e fortalecidos com os dons do Espírito no Crisma. Seja esta a mensagem que de Sidney levareis pelo mundo!

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Cripta da Catedral de Sidney Sexta-feira, 18 de Julho de 2008 Amados irmãos e irmãs em Cristo, Elevo a Deus fervorosas ações de graças por esta oportunidade de me encontrar e rezar juntamente convosco, que viestes aqui em representação de várias comunidades cristãs da Austrália. Agradecido pelas cordiais palavras de boas-vindas do Bispo Forsyth e do Cardeal Pell, é com sentimentos de alegria que vos saúdo no nome do Senhor Jesus, «a pedra angular» da «casa de Deus» (cf. Ef 2, 19-20). Desejo enviar daqui uma saudação particular ao Cardeal Edward Cassidy, Presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que se viu impedido, pela sua saúde precária, de estar hoje conosco. Recordo com gratidão o seu resoluto empenho em promover a mútua compreensão entre todos os cristãos e queria convidar-vos a todos para vos unirdes comigo na oração pelo seu rápido restabelecimento. A Austrália é um país caracterizado por grande diversidade étnica e religiosa. Os imigrantes chegam às praias desta majestosa terra com a esperança de nela encontrar felicidade e boas oportunidades de trabalho. A vossa nação reconhece a importância da liberdade religiosa. Esta é um direito fundamental que, se respeitado, permite aos cidadãos agirem tomando por base valores radicados nas suas convicções mais profundas, contribuindo assim para o bem-estar da sociedade inteira. Deste modo os cristãos contribuem, juntamente com os membros das outras religiões, para a promoção da dignidade humana e para a amizade entre as nações. Os australianos gostam da discussão franca e cordial. Isto prestou um bom serviço ao movimento ecumênico. Um exemplo que se pode dar disto mesmo é o Acordo assinado em 2004 pelos membros do Conselho Nacional das Igrejas na Austrália. Este documento reconhece um compromisso comum, indica objetivos, declara pontos de convergência, demorando-se também nas diferenças. Um tal procedimento demonstra que é possível encontrar soluções concretas para uma colaboração frutuosa no presente, e ainda que temos necessidade de continuar pacientemente as discussões sobre os pontos teológicos divergentes. Possam as deliberações, que empreendereis no Conselho das Igrejas e noutros fóruns locais, serem sustentadas pelos resultados já alcançados. Neste ano, celebramos o bimilênio do nascimento de São Paulo, trabalhador incansável em favor da unidade na Igreja primitiva. No texto da Escritura que acabamos de ouvir, Paulo recordanos a graça enorme que recebemos ao tornar-nos membros do Corpo de Cristo por meio do Batismo. Este sacramento, que é a porta de ingresso na Igreja e o «vínculo de unidade» para quantos renasceram por ele (cf. Unitatis redintegratio, 22), é conseqüentemente o ponto de partida de todo o movimento ecumênico. Mas não é o destino final. O caminho do Ecumenismo visa em definitivo chegar à celebração comum da Eucaristia (cf. Ut unum sint, 23-24.45), que Cristo confiou aos seus Apóstolos como o sacramento por excelência da unidade da Igreja. E, embora haja ainda obstáculos a superar, podemos estar certos de que uma Eucaristia comum há-de um dia selar a nossa decisão de nos amarmos e servirmos uns aos outros à imitação do Senhor nosso: com efeito, o mandato que Jesus nos deu – «fazei isto em memória de Mim» (Lc 22, 19) – está intrinsecamente ligado com a sua recomendação de «lavarmos os pés uns aos outros» (Jo 13, 14). Por esta razão, um diálogo sincero sobre o lugar da Eucaristia – estimulado por um renovado e atento estudo da Escritura, dos escritos patrísticos e dos documentos dos dois milênios da história cristã (cf. Ut unum sint, 69-70) – será útil sem dúvida para fazer avançar o movimento ecumênico e unificar o nosso testemunho diante do mundo. Queridos amigos em Cristo, penso que estareis de acordo em considerar que o movimento ecumênico chegou a um ponto crítico. Para avançar, devemos pedir continuamente a Deus que 19


renove as nossas mentes com a graça do Espírito Santo (cf. Rm 12, 2), que nos fala através das Escrituras e nos guia para a verdade total (cf. 2 Pd 1, 20-21; Jo 16, 13). Devemos precaver-nos contra toda a tentação de considerar a doutrina como fonte de divisão e, conseqüentemente, como impedimento daquilo que parece ser a tarefa mais urgente e imediata: melhorar o mundo onde vivemos. Na realidade, a história da Igreja demonstra que a praxis não só é inseparável da didaché, da doutrina, mas antes dimana dela. Quanto mais assiduamente nos dedicarmos a alcançar uma percepção comum dos mistérios divinos, tanto mais eloqüentemente hão-de as nossas obras de caridade falar da imensa bondade de Deus e do seu amor para com todos. Santo Agostinho exprimiu a recíproca ligação entre o dom do conhecimento e a virtude da caridade, quando escreveu que a mente retorna a Deus através do amor (cf. De moribus Ecclesiae catholicae, 12, 21), e que onde se vê a caridade, vê-se a Trindade ( cf. De Trinitate, 8, 8, 12). Por este motivo, o diálogo ecumênico avança não só mediante um intercâmbio de idéias, mas também partilhando dons que nos enriquecem mutuamente (cf. Ut unum sint, 28.57). Uma «idéia» tem em vista alcançar a verdade; um «dom» exprime o amor. Ambos são essenciais para o diálogo. A abertura de nós mesmos para aceitarmos dons espirituais de outros cristãos estimula a nossa capacidade de receber a luz da verdade que vem do Espírito Santo. São Paulo ensina que é na koinonia da Igreja que temos o acesso à verdade do Evangelho e os meios para a defender, porque a Igreja está edificada «sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas», tendo o próprio Cristo como pedra angular (Ef 2, 20). À luz disto, talvez possamos tomar em consideração as imagens bíblicas complementares de «corpo» e de «templo» usadas para descrever a Igreja. Quando usa a imagem do corpo (cf. 1 Cor 12, 12-31), Paulo chama a atenção para a unidade orgânica e a diversidade que permite à Igreja respirar e crescer. Todavia é igualmente significativa a imagem de um templo firme e bem estruturado, composto de pedras vivas, assentes sobre um alicerce seguro. O próprio Jesus reúne em Si mesmo, em perfeita unidade, estas imagens de «corpo» e de «templo» (cf. Jo 2, 21-22; Lc 23, 45; Ap 21, 22). Cada um dos elementos da estrutura da Igreja é importante; mas todos vacilariam e ruiriam sem a pedra angular que é Cristo. Como «concidadãos» desta «casa de Deus», os cristãos devem trabalhar juntos para fazer com que o edifício permaneça seguro de tal modo que outras pessoas sintam a inclinação para entrar nela e descobrir os abundantes tesouros de graça que se encontram no seu seio. Ao promover os valores cristãos, não devemos transcurar a proclamação da sua fonte, prestando unânime testemunho a Jesus Cristo Senhor. Foi Ele quem confiou a missão aos apóstolos, foi d’Ele que falaram os profetas, e é Ele o que oferecemos ao mundo. Queridos amigos, a vossa presença aqui hoje enche-me de ardente esperança que, se prosseguirmos juntos no caminho rumo à plena unidade, teremos a coragem de oferecer a Cristo um testemunho comum. Paulo fala da importância dos profetas na Igreja dos primórdios; também nós recebemos uma vocação profética por meio do Batismo. Confio que o Espírito Santo abra os nossos olhos para verem os dons espirituais dos outros, abra os nossos corações para receberem a sua força e abra totalmente as nossas mentes para acolherem a luz da verdade de Cristo. Exprimo a minha viva gratidão a cada um de vós pelo empenho de tempo, de ensino e de talento que prodigalizou ao serviço do «único corpo e do único espírito» (cf. Ef 4, 4; 1 Cor 12, 13), que o Senhor quis para o seu povo e pelo qual entregou a sua própria vida. Glória e poder sejam dados a Ele pelos séculos dos séculos. Amém.

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Sala Capitular da Catedral de Sidney Sexta-feira, 18 de Julho de 2008 Queridos amigos, Dirijo uma cordial saudação de paz e amizade a todos vós que aqui estais em representação de várias tradições religiosas presentes na Austrália. Sinto-me feliz por este encontro e agradeço ao Rabino Jeremy Lawrence e ao Xeque Mohamadu Saleem as palavras de boas-vindas que me formularam em nome próprio e das vossas respectivas comunidades. A Austrália é conhecida pela afabilidade dos seus habitantes para com o próximo e o turista. É uma nação que tem em grande consideração a liberdade de religião. O vosso país reconhece que o respeito deste direito fundamental dá aos homens e mulheres a possibilidade de adorarem Deus segundo a sua consciência, de educarem o espírito e de agirem conforme às convicções éticas derivadas do seu credo. A harmoniosa correlação entre religião e vida pública é ainda mais importante numa época como a nossa em que alguns chegaram a considerar a religião causa de divisão em vez de força de unidade. Num mundo ameaçado por sinistras e indiscriminadas formas de violência, a voz concorde daqueles que possuem espírito religioso incita as nações e as comunidades a resolverem os conflitos através de instrumentos pacíficos no pleno respeito da dignidade humana. Uma das várias modalidades com que a religião se coloca ao serviço da humanidade é oferecer uma visão da pessoa humana que ponha em evidência a nossa congênita aspiração a viver com magnanimidade, tecendo laços de amizade com o nosso próximo. Na sua essência íntima, as relações humanas não se podem definir em termos de poder, domínio e interesse pessoal. Pelo contrário, refletem e aperfeiçoam a inclinação natural que o homem tem de viver em comunhão e harmonia com os outros. Radicado no coração do ser humano, o sentido religioso desperta homens e mulheres para Deus, ensinando-os a descobrir que a realização pessoal não consiste na gratificação egoísta de desejos efêmeros; mas está em ir ao encontro das necessidades dos outros e procurar caminhos concretos capazes de contribuir para o bem comum. As religiões desempenham aqui um papel particular, enquanto ensinam às pessoas que o autêntico serviço exige sacrifício e autodisciplina, que por sua vez se devem cultivar através da abnegação, da temperança e do uso moderado dos bens naturais. Deste modo, homens e mulheres são levados a considerar o ambiente mais como algo maravilhoso para admirar e respeitar do que como uma coisa útil simplesmente para consumir. A quantos têm espírito religioso impõe-se o dever de demonstrarem que é possível encontrar alegria numa vida simples e modesta, partilhando generosamente o que lhes é supérfluo com quem está necessitado. Amigos, este valores – estou certo que concordais comigo – são particularmente importantes para uma adequada formação dos jovens, que muitas vezes são tentados a considerar a própria vida como um produto de consumo. E todavia eles possuem também a capacidade de autocontrole; basta vê-los no desporto, nas artes criativas, nos estudos: estão prontos a abraçar de boa vontade tais compromissos como um desafio. Porventura não é verdade que, quando se lhes apresentam ideais elevados, muitos jovens se sentem atraídos para o ascetismo e a prática da virtude moral através do respeito para com eles mesmos e da atenção aos outros? Deleitam-se na contemplação do dom da criação, e sentem-se fascinados pelo mistério do transcendente. Nesta perspectiva, as escolas tanto confessionais como estatais poderiam fazer mais para se desenvolver a dimensão espiritual de cada jovem. Na Austrália, como noutros lugares, a religião foi um fator que motivou a fundação de muitas instituições educativas e, em bom direito, continua hoje a ocupar um lugar próprio nos currículos escolares. O tema da educação surge frequentemente nas deliberações da 21


Organização Interfaith Cooperation for Peace and Harmony, e encorajo vivamente quantos tomam parte nesta iniciativa a prosseguir o seu confronto sobre os valores que integram as dimensões intelectuais, humanas e religiosas duma sólida educação. As religiões do mundo debruçam-se repetidamente sobre esta maravilha que é a existência humana. Como pode alguém deixar de maravilhar-se ao ver a força da mente que compreende os segredos da natureza através das descobertas da ciência? Quem não prova entusiasmo pela possibilidade de delinear uma visão do futuro? Haverá alguém que não se impressione com a força do espírito humano que estabelece objetivos e descobre caminhos para os alcançar? Homens e mulheres são capazes não só de imaginar como poderia ser melhor a realidade, mas também de investir as suas energias para o conseguirem. Temos consciência do caráter único da nossa relação com o reino da natureza. Por isso, reconhecendo que não estamos sujeitos às leis do universo material do mesmo modo que o resto da criação, não deveremos nós também fazer da bondade, da compaixão, da liberdade, da solidariedade, do respeito por cada indivíduo uma componente essencial da nossa visão dum futuro mais humano? Entretanto, ao lembrar-nos a limitação e a fragilidade do homem, a religião impele-nos também a não fixar as nossas esperanças supremas neste mundo que passa. O homem é «semelhante a um sopro, os seus dias são como a sombra que passa» (Sal 143/144, 4). Todos nós experimentamos já quer a desilusão por não ter conseguido cumprir aquele bem que nos tínhamos proposto realizar, quer a dificuldade em fazer as opções justas no meio de situações complexas. A Igreja partilha estas considerações com as outras religiões. Movida pela caridade, entra em diálogo convencida de que a verdadeira fonte da liberdade se encontra na pessoa de Jesus de Nazaré. Os cristãos acreditam que é Ele quem nos revela plenamente as potencialidades humanas para a virtude e o bem; é Ele quem nos liberta do pecado e das trevas. A universalidade da experiência humana, que transcende qualquer fronteira geográfica e especificidade cultural, dá aos seguidores das religiões a possibilidade de se empenharem no diálogo para enfrentar o mistério das alegrias e dos sofrimentos da vida. Deste ponto de vista, é com paixão que a Igreja procura toda a oportunidade para prestar ouvidos às experiências espirituais das outras religiões. Poderemos afirmar que todas a religiões visam penetrar no significado profundo da existência humana, remetendo para uma origem ou princípio externo a elas mesmas. As religiões apresentam uma tentativa de compreensão do universo enquanto proveniente de e prosseguindo para tal origem ou princípio. Os cristãos acreditam que Deus revelou esta origem e princípio em Jesus, que a Bíblia define «Alfa e Ômega» (cf. Ap 1, 8; 22, 1). Queridos amigos, vim à Austrália como embaixador de paz. Por isso, sinto-me feliz por me encontrar convosco, que de igual modo partilhais este anseio e conjuntamente o desejo de ajudar o mundo a conseguir a paz. A nossa busca da paz procede de mãos dadas com a busca de sentido, porque é descobrindo a verdade que encontramos a estrada segura para a paz (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006). O nosso esforço para chegar à reconciliação entre os povos brota de e aponta para aquela verdade que dá uma finalidade à vida. A religião oferece a paz, mas – mais importante ainda – gera no espírito humano a sede da verdade e a fome da virtude. Possamos nós encorajar a todos, especialmente os jovens, a admirarem com assombro a beleza da vida, a procurarem o seu sentido último e a empenharem-se por realizar o seu sublime potencial. Com estes sentimentos de respeito e encorajamento, confio-vos à providência de Deus onipotente com a certeza da minha oração por vós e pelos vossos entes queridos, pelos membros das vossas comunidades e por todos os habitantes da Austrália.

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Sexta-feira, 18 de Julho de 2008 Prezados jovens amigos, É com prazer que me encontro hoje convosco, aqui em Darlinghurst, e de coração saúdo a todos aqueles que participam no programa «Alive» e ainda ao pessoal que o gere. Elevo a minha oração para que todos vós possais beneficiar deste apoio que a Social Services Agency da arquidiocese de Sidney coloca à vossa disposição, e para que o bem que aqui se está a realizar dure por muito tempo no futuro. O nome do programa que seguis leva-nos a formular esta pergunta: Que quer dizer realmente estar «vivo», viver plenamente a vida? Isto é o que todos nós queremos, especialmente na juventude, e é isto o que Cristo quer para nós. Assim falou Ele: «Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância» (Jo 10, 10). O instinto mais radicado em todo o ser vivo é conservar a vida, crescer, desenvolver-se e transmitir aos outros o dom da vida. Conseqüentemente é de todo natural questionar-se sobre o modo melhor que há para realizar tudo isto. Esta questão era tão premente para quantos viviam no Antigo Testamento com o é para nós hoje. Sem dúvida ouviam com atenção quando Moisés lhes dissera: «Coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a vida, e então viverás com toda a tua posteridade. Ama o Senhor, teu Deus, escuta a sua voz e permanece-Lhe fiel, porque Ele é a tua vida» (Dt 30, 19-20). Era claro o que tinham de fazer: deviam afastar-se dos outros deuses e adorar o verdadeiro Deus que Se tinha revelado a Moisés e deviam obedecer aos seus mandamentos. Talvez no vosso pensamento vos pareça muito improvável que, no mundo atual, as pessoas adorem outros deuses. Mas, às vezes as pessoas adoram «outros deuses» sem dar por isso. Os falsos «deuses» – independentemente do nome, da imagem ou da forma que lhes atribuamos – estão quase sempre ligados à adoração de três realidades: os bens materiais, o amor possessivo, o poder. Deixai-me explicar o que pretendo dizer. Em si mesmos, os bens materiais são bons. Não poderíamos sobreviver por muito tempo sem dinheiro, vestuário e uma casa. Para viver, temos necessidade de alimento. Mas, se formos glutões, se recusarmos partilhar o que temos com o faminto e o pobre, então transformamos estes bens numa falsa divindade. Quantas vozes se levantam na nossa sociedade materialista dizendo-nos que a felicidade se encontra dotando-se da maior quantidade possível de bens e de objetos de luxo! Mas isto significa transformar os bens em falsas divindades. Em vez de nos trazer a vida, levam-nos à morte. O amor autêntico é certamente uma coisa boa. Sem ele, a vida dificilmente seria digna de ser vivida. O amor dá satisfação à nossa carência mais profunda; e, quando amamos, tornamo-nos mais nós mesmos, tornamo-nos humanos de forma mais plena. E todavia como se pode facilmente transformar o amor numa falsa divindade! As pessoas muitas vezes pensam que estão a amar, quando na realidade procuram possuir ou manipular o outro. Por vezes tratam-se os outros mais como objetos para satisfazer as próprias necessidades do que como pessoas que se devem prezar e amar. Como é fácil ser enganado por tantas vozes que, na nossa sociedade, defendem um uso permissivo da sexualidade, sem qualquer consideração pela modéstia, pelo respeito de si mesmo e pelos valores morais que conferem qualidade às relações humanas! Isto é adorar uma falsa divindade. Em vez de nos trazer a vida, leva-nos à morte. O poder que Deus nos deu para plasmar o mundo que nos rodeia é certamente uma coisa boa. Utilizado de modo apropriado e responsável, permite-nos transformar a vida das pessoas. Todas as comunidade têm necessidade de guias capazes. Como é forte, porém, a tentação de agarrar-se ao poder por si mesmo, de procurar dominar os outros ou explorar o ambiente natural 23


para os próprios interesses egoístas! Isto é transformar o poder numa falsa divindade. Em vez de nos trazer a vida, leva-nos à morte. O culto dos bens materiais, o culto do amor possessivo e o culto do poder levam muitas vezes as pessoas a «comportar-se como se fossem Deus»: procurar assumir o controle total, sem ter qualquer consideração pela sabedoria ou pelos mandamentos que Deus nos deu a conhecer. Este é o caminho que conduz à morte. Pelo contrário, a adoração do único Deus verdadeiro significa reconhecer n’Ele a fonte de tudo o que é bem, confiarmo-nos nós mesmos a Ele, abrirmo-nos à força regeneradora da sua graça e obedecer aos seus mandamentos: este é o caminho para quem escolhe a vida. Um exemplo elucidativo do que significa afastar-se do caminho da morte para tomar o caminho da vida encontramo-lo numa página do Evangelho que todos vós – estou certo – bem conheceis: a parábola do filho pródigo. Ao início da narração, quando aquele jovem deixou a casa de seu pai, andava à procura dos prazeres ilusórios prometidos pelos falsos «deuses». Dissipou a sua herança numa vida de vícios, acabando num estado de abjeta pobreza e de miséria. Tendo tocado o fundo, esfomeado e abandonado, compreendeu como tinha sido tonto em deixar seu pai que o amava. Humildemente regressou a casa e pediu perdão. Cheio de alegria, o pai abraçou-o e exclamou: «Este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e encontrou-se» (Lc 15, 24). Muitos de vós experimentaram pessoalmente a vivência por que passou aquele jovem. Talvez tenhais feito escolhas de que agora vos lamentais, decisões essas que vos levaram por um caminho que, embora então pudesse apresentar-se como atraente, na verdade conduziu-vos apenas para um estado ainda mais profundo de miséria e solidão. A decisão de abusar de droga ou álcool, de entrar em atividades criminosas ou autolesivas pôde então aparecer como um caminho para sair duma situação de dificuldade ou de confusão. Agora sabeis que, em vez de trazer a vida, levou à morte. Reconheço de bom grado a coragem demonstrada quando decidistes regressar ao caminho da vida, precisamente como o jovem da parábola. Aceitastes a ajuda: dos amigos ou dos familiares, do pessoal do programa «Alive», de quantos têm vivamente a peito o vosso bem-estar e a vossa felicidade. Em vós, queridos amigos, vejo embaixadores de esperança para quantos se encontram em idênticas situações. Podeis convencê-los da necessidade de optar pelo caminho da vida e fugir do caminho da morte, porque falais com base na experiência. Em todos os quatro Evangelhos, vemos aqueles que tomaram decisões erradas ser particularmente amados por Jesus, porque, quando se deram conta do seu erro, abriram-se mais do que os outros à sua palavra regeneradora. Na verdade, Jesus foi frequentemente criticado por pseudo-justos, porque passava demasiado tempo em companhia de tais pessoas. «Como é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» – perguntavam. E Ele respondia: «Não são os que têm saúde que precisam do médico, mas sim os doentes; (…) não vim chamar os justos mas os pecadores» (cf. Mt 9, 11-13). Aqueles que desejavam reconstruir a sua vida eram os que se mostravam mais disponíveis para ouvir Jesus e tornar-se seus discípulos. Vós podeis seguir as suas pegadas e sentir uma particular proximidade a Jesus, precisamente porque decidistes regressar a Ele. Podeis estar certos de que Jesus, como fez o Pai na narração do filho pródigo, acolhe-vos de braços totalmente abertos. Oferece-vos o seu amor incondicional: e é na profunda amizade com Ele que se encontra a plenitude da vida. Disse atrás que, ao amarmos, damos satisfação às nossas carências mais profundas e tornamo-nos mais nós mesmos, tornamo-nos humanos de forma mais plena. Amar é aquilo para que estamos programados, aquilo para que fomos projetados pelo Criador. Naturalmente não estou a falar de relações passageiras, superficiais; falo do verdadeiro amor, que é o cerne da doutrina moral de Jesus: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças» e «amarás o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Mc 24


12, 30-31). Tal é, por assim dizer, o programa consolidado no íntimo de cada pessoa, bastando-nos ter a sabedoria e a generosidade para nos conformarmos a ele, estar dispostos a renunciar às nossas preferências para nos colocarmos ao serviço dos outros, dar a nossa vida pelo bem dos outros e, em primeiro lugar, por Jesus que nos amou e deu a sua vida por nós. Isto é o que os homens são chamados a cumprir; é o que significa estar realmente «vivo». Prezados jovens amigos, a mensagem que hoje vos dirijo é a mesma que Moisés formulou há tantos anos: «Escolhe a vida, para que possas, tu e a tua posteridade, viver amando o Senhor teu Deus». Que o seu Espírito vos guie pelo caminho da vida, obedecendo aos seus mandamentos, seguindo os seus ensinamentos, abandonando as opções erradas que só levam à morte e comprometendo-vos a ser amigos de Jesus Cristo para toda a vida. Com a força do Espírito Santo, escolhei a vida, escolhei o amor e sede diante do mundo testemunhas da alegria que daí jorra. Esta é a minha oração por cada um de vós nesta Jornada Mundial da Juventude. Deus vos abençoe a todos!

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HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI Saint Mary's Cathedral de Sidney Sábado, 19 de Julho de 2008 Amados Irmãos e Irmãs, Nesta nobre catedral, tenho a alegria de saudar os meus irmãos bispos e sacerdotes, os diáconos, as pessoas consagradas e os leigos da arquidiocese de Sidney. De forma muito especial, a minha saudação vai para os seminaristas e para os noviços e noviças presentes entre nós: são, como os jovens israelitas da primeira leitura de hoje, um sinal de esperança e de renovação para o povo de Deus; também eles, como aqueles jovens israelitas, terão a missão de edificar a casa de Deus para a próxima geração. Ao admirarmos este magnífico edifício, como não pensar às falanges de sacerdotes, religiosos e fiéis leigos que contribuíram, cada qual segundo a própria função, para construir a Igreja na Austrália? O pensamento detém-se de forma particular naquelas famílias de colonos a quem o Padre Jeremiah O’Flynn, na hora de partir, confiou o Santíssimo Sacramento; um «pequeno rebanho» que amou e preservou aquele tesouro precioso, entregando-o às gerações sucessivas que edificaram este grande tabernáculo para a glória de Deus. Alegremo-nos pela sua fidelidade e perseverança e dediquemo-nos a levar por diante as suas canseiras em prol da difusão do Evangelho, para a conversão dos corações e o crescimento da Igreja na santidade, unidade e caridade. Preparamo-nos para celebrar a dedicação do novo altar desta veneranda catedral. Como no-lo recorda vigorosamente o frontal esculpido, cada altar é símbolo de Jesus Cristo, presente no meio da sua Igreja como sacerdote, altar e vítima (cf. Prefácio Pascal V). Crucificado, sepultado e ressuscitado dentre os mortos, restituído à vida no Espírito e sentado à direita do Pai, Cristo tornouSe nosso Sumo Sacerdote, que intercede eternamente por nós. Na liturgia da Igreja, e sobretudo no sacrifício da Missa consumado sobre os altares de todo o mundo, Ele convida-nos a nós, membros do seu Corpo místico, a partilhar a sua auto-oblação. Chama-nos, enquanto povo sacerdotal da nova e eterna Aliança, a oferecer, em união com Ele, os nossos sacrifícios de cada dia pela salvação do mundo. Na liturgia de hoje, a Igreja recorda-nos que, à semelhança deste altar, também nós fomos consagrados, colocados «à parte» para o serviço de Deus e a edificação do seu Reino. Muitas vezes, porém, encontramo-nos imersos num mundo que quereria pôr Deus «de parte». Em nome da liberdade e autonomia humanas, o nome de Deus é passado em silêncio, a religião fica reduzida a devoção pessoal e a fé é banida da praça pública. Por vezes uma semelhante mentalidade, tão radicalmente contrária à essência do Evangelho, pode mesmo ofuscar a nossa própria compreensão da Igreja e da sua missão. Também nós podemos ser tentados a reduzir a vida de fé a uma questão de mero sentimento, enfraquecendo assim o seu poder de inspirar uma visão coerente do mundo e um diálogo rigoroso com tantas outras perspectivas que lutam por conquistar as mentes e os corações dos nossos contemporâneos. E todavia a história, incluindo a do nosso tempo, demonstra-nos que a questão de Deus não pode jamais ser silenciada, e também que a indiferença face à dimensão religiosa da existência humana em última análise diminui e atraiçoa o próprio homem. Porventura não é esta a mensagem proclamada pela arquitetura estupenda desta catedral? Não é porventura este o mistério da fé que é anunciado a partir deste altar em cada celebração da Eucaristia? A fé ensina-nos que em Jesus Cristo, Palavra encarnada, chegamos a compreender a grandeza da nossa própria humanidade, o mistério da nossa vida sobre a terra e o sublime destino que nos espera no céu (cf. Gaudium et spes, 24). Além disso, a fé ensina-nos que somos criaturas de Deus, feitas à sua imagem e semelhança, dotadas duma dignidade inviolável e chamadas à vida eterna. Sempre que se diminui o homem, é o mundo que nos rodeia a ficar diminuído; perde o próprio significado último e falha o seu objetivo. O 26


que daí resulta é uma cultura, não da vida, mas da morte. Como se pode considerar isto um «progresso»? Pelo contrário, é um passo para trás, uma forma de retrocesso, que em última análise seca as próprias fontes da vida seja dos indivíduos seja da sociedade inteira. Sabemos que no fim de contas, como Santo Inácio de Loyola viu de forma muito clara, o único verdadeiro padrão com que se pode aferir qualquer realidade humana é a Cruz e a sua mensagem de amor gratuito que triunfa sobre o mal, o pecado e a morte, que cria vida nova e alegria perene. A Cruz revela que só nos reencontramos a nós mesmos dando as nossas vidas, acolhendo o amor de Deus como um dom não merecido e trabalhando por conduzir todo o homem e mulher para a beleza de tal amor e para a luz da verdade, a única que traz salvação ao mundo. Nesta verdade – o mistério da fé – é que fomos consagrados (cf. Jo 17, 17-19), e é nesta verdade que somos chamados a crescer, com a ajuda da graça de Deus, na fidelidade diária à sua palavra, dentro da comunhão vivificante da Igreja. E todavia como é difícil este caminho de consagração! Exige uma contínua «conversão», um morrer sacrifical para si mesmo que é a condição para pertencer plenamente a Deus, uma mudança da mente e do coração que gera verdadeira liberdade e uma nova amplitude de visão. A liturgia de hoje oferece-nos um símbolo eloqüente daquela progressiva transformação espiritual a que é chamado cada um de nós. Desde a aspersão da água, passando pela proclamação da palavra de Deus, a invocação de todos os Santos, até à oração de consagração, à unção e à lavagem do altar, acabando este revestido de branco e adornado de luz – todos estes ritos nos convidam a reviver a nossa própria consagração no Batismo. Convidam-nos a rejeitar o pecado e suas falsas seduções, e a dessedentarmo-nos cada vez mais profundamente na fonte vivificante da graça de Deus. Queridos amigos, que esta celebração com a presença do Sucessor de Pedro seja um momento de nova consagração e de renovação para toda a Igreja na Austrália. Desejo abrir aqui um parêntesis para confessar a vergonha que todos sentimos depois dos abusos sexuais sobre menores cometidos por alguns sacerdotes e religiosos desta nação. Lamento verdadeira e profundamente as moléstias e sofrimentos que as vítimas suportaram e asseguro-lhes, como seu Pastor, que também eu compartilho o seu sofrimento. Estes agravos, que constituem tão grave traição da confiança, devem ser condenados de modo inequívoco. Causaram grande sofrimento e prejudicaram o testemunho da Igreja. Peço-vos a todos que apoieis e assistais os vossos bispos, colaborando com eles no combate contra este male. As vítimas devem receber de vós compaixão e tratamento e os responsáveis destes males devem ser levados diante da justiça. Constitui uma urgente prioridade a promoção dum ambiente mais seguro e sadio, especialmente para os jovens. Nestes dias caracterizados pela celebração da Jornada Mundial da Juventude, somos chamados a refletir quão precioso é este tesouro que nos foi confiado, ou seja, os nossos jovens, e como à sua educação e resguardo tem sido dedicada grande parte da missão da Igreja neste país. Enquanto a Igreja na Austrália continua, no espírito do Evangelho, a enfrentar eficazmente este sério desafio pastoral, uno-me a vós na oração pedindo que este tempo de purificação traga consigo cura, reconciliação e uma fidelidade cada vez maior às exigências morais do Evangelho. Desejo agora dirigir aos seminaristas e aos noviços e noviças que aqui se encontram uma especial palavra de afeto e encorajamento. Queridos amigos, com grande generosidade vos encaminhastes por uma particular senda de consagração, radicada no vosso Batismo e abraçada como resposta ao chamamento pessoal do Senhor. De variados modos, comprometestes-vos a aceitar o convite de Cristo para O seguir abandonando tudo e dedicando a vossa vida à busca da santidade e ao serviço do seu povo. No Evangelho de hoje, o Senhor chama-nos a «acreditar na luz» (cf. Jo 12, 36). Estas palavras possuem um significado especial para vós, amados jovens seminaristas e noviços. São um apelo a confiar na verdade da palavra de Deus e a esperar firmemente nas suas promessas. 27


Convidam-nos a ver, com os olhos da fé, a obra infalível da sua graça ao nosso redor, mesmo nestes tempos tenebrosos em que todos os nossos esforços parecem ser vãos. Deixai que este altar, com a sua vigorosa imagem de Cristo Servo Sofredor, vos sirva de constante inspiração. Com certeza existem momentos em que todo o discípulo fiel sente o calor e o peso da jornada (cf. Mt 20, 12), e a luta para dar testemunho profético a um mundo que pode revelar-se surdo às exigências da palavra de Deus. Mas, não tenhais medo! Acreditai na luz. Tomai a peito a verdade que ouvimos hoje na segunda leitura: «Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre» (Heb 13, 8). A luz da Páscoa continua a afugentar as trevas. O Senhor chama-nos a caminhar na luz (cf. Jo 12, 35). Cada um de vós empreendeu a maior e mais gloriosa das batalhas, ou seja, a de ser consagrados na verdade, de crescer na virtude, de alcançar a harmonia entre pensamentos e ideais, por um lado, e palavras e ações, por outro. Penetrai sincera e profundamente na disciplina e no espírito dos vossos programas de formação. Caminhai dia-a-dia na luz de Cristo mediante a fidelidade à oração pessoal e litúrgica, alimentados pela meditação da palavra inspirada de Deus. Os Padres da Igreja gostavam de ver as Escrituras como um paraíso espiritual, um jardim onde podemos caminhar livremente com Deus, admirando a beleza e a harmonia do seu plano salvífico frutificando na nossa própria vida, na vida da Igreja e no curso de toda a história. Assim, que a oração e a meditação da palavra de Deus sejam a lâmpada que ilumina, purifica e guia os vossos passos ao longo do caminho que o Senhor traçou para vós. Fazei da celebração diária da Eucaristia o centro da vossa vida. Em cada Missa, quando se ergue o Corpo e o Sangue do Senhor no final da Oração Eucarística, levantai o vosso coração e a vossa vida em Cristo, com Ele e por Ele, na unidade do Espírito Santo, como amável sacrifício a Deus nosso Pai. Desta maneira, amados jovens seminaristas e noviços, tornar-vos-eis, vós próprios, altares vivos sobre os quais se faz presente o amor sacrifical de Cristo como inspiração e fonte de alimento espiritual para quantos encontrardes. Abraçando o chamamento do Senhor a segui-Lo em castidade, pobreza e obediência, empreendestes a viagem de um discipulado radical que fará de vós «sinais de contradição» (cf. Lc 2, 34) para muitos dos vossos contemporâneos. Modelai diariamente a vossa vida segundo a amorosa auto-oblação feita pelo próprio Senhor em obediência à vontade do Pai. Deste modo, descobrireis a liberdade e a alegria que podem atrair os outros àquele Amor que está para além de todo e qualquer outro amor enquanto sua fonte e suprema realização. Nunca esqueçais que a castidade por amor do Reino significa abraçar uma vida dedicada completamente ao amor, um amor que vos torna capazes de vos consagrardes sem reservas ao serviço de Deus para estar plenamente disponíveis para os irmãos e as irmãs, especialmente se necessitados. Os tesouros maiores que partilhais com os outros jovens – o vosso idealismo, a generosidade, o tempo e as forças – são os verdadeiros sacrifícios que depondes sobre o altar do Senhor. Oxalá tenhais sempre em grande consideração este carisma maravilhoso que Deus vos concedeu para a sua glória e a edificação da Igreja! Queridos amigos, deixai-me concluir estas reflexões chamando a vossa atenção para o grande vitral no coro desta catedral, onde Nossa Senhora, Rainha do Céu, aparece representada majestosamente no trono ao lado do seu divino Filho. O artista retratou Maria como a nova Eva que oferece uma maçã a Cristo, novo Adão. Este gesto simboliza a reviravolta que Ela deu à desobediência dos nossos primeiros pais, o fruto estupendo que a graça de Deus produziu na sua própria vida, e os primeiros frutos daquela humanidade redimida e glorificada que Ela precedeu na glória do paraíso. Peçamos a Maria, Auxílio dos cristãos, que sustente a Igreja na Austrália na sua fidelidade àquela graça com que o Senhor crucificado continua a «atrair a Si» a criação inteira e todo o coração humano (cf. Jo 12, 32). Que a força do seu Santo Espírito consagre na verdade os fiéis desta terra, produza abundantes frutos de santidade e de justiça para a redenção do mundo e guie a humanidade inteira para a plenitude de vida ao redor daquele Altar onde, na glória da liturgia celeste, somos chamados a cantar os louvores de Deus por toda a eternidade. Amém.

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Hipódromo de Randwick Sábado, 19 de Julho de 2008 Caríssimos jovens, Nesta noite, ouvimos mais uma vez a grande promessa de Cristo – «ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós» – e escutamos o seu mandato – «sereis minhas testemunhas (…) até aos confins do mundo» (At 1, 8). Estas palavras foram precisamente as últimas que Jesus pronunciou antes da sua ascensão ao céu. O que é que sentiram os Apóstolos ao ouvi-las, podemos apenas imaginá-lo. Mas sabemos que o seu amor profundo a Jesus e a confiança que tinham na sua palavra os impeliu a reunirem-se e a aguardarem; não a aguardar sem um objetivo, mas juntos, unidos na oração, com as mulheres e com Maria na sala de cima (cf. At 1, 14). Nesta noite, nós fazemos o mesmo. Reunidos diante da nossa Cruz que muito peregrinou e do ícone de Maria, sob o esplendor celeste da constelação do Cruzeiro do Sul, rezamos. Nesta noite, eu rezo por vós e pelos jovens de todos os cantos do mundo. Deixai-vos inspirar pelo exemplo dos vossos Santos Patronos. Acolhei no vosso coração e na vossa mente os sete dons do Espírito Santo. Reconhecei e acreditai na força do Espírito Santo em vossa vida. Anteontem falamos da unidade e harmonia da criação de Deus e do nosso lugar nela. Recordamos como nós, que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, através do grande dom do Batismo renascemos, tornamo-nos filhos adotivos de Deus, novas criaturas. Por isso, é como filhos da luz de Cristo – aqui simbolizada pelas velas acesas que tendes na mão – que damos testemunho no nosso mundo do esplendor que treva alguma pode vencer (cf. Jo 1, 5). Nesta noite, fixamos a nossa atenção sobre «como» tornar-se testemunhas. Precisamos de conhecer a pessoa do Espírito Santo e a sua presença vivificante na nossa vida. Não é fácil! Com efeito, a variedade de imagens que encontramos na Escritura relativas ao Espírito Santo – vento, fogo, sopro – são sinal da nossa dificuldade em exprimir uma noção articulada sobre Ele. E todavia sabemos que é o Espírito Santo, silencioso e invisível, quem proporciona orientação e definição ao nosso testemunho sobre Jesus Cristo. Já sabeis que o nosso testemunho cristão é oferecido a um mundo que, sob muitos aspectos, é frágil. A unidade da criação de Deus está enfraquecida por feridas que se tornam profundas quando se quebram as relações sociais ou o espírito humano acaba quase totalmente esmagado pela exploração e o abuso das pessoas. De fato, a sociedade contemporânea está a sofrer um processo de fragmentação por causa dum modo de pensar que é, por sua natureza, de visão curta, porque transcura o horizonte inteiro da verdade – da verdade referente a Deus e relativa a nós. Por sua natureza, o relativismo não consegue ver o quadro inteiro. Ignora aqueles mesmos princípios que nos tornam capazes de viver e crescer na unidade, na ordem e na harmonia. Qual é a nossa resposta, enquanto testemunhas cristãs, a um mundo dividido e fragmentado? Como podemos oferecer a esperança de paz, cura e harmonia àquelas «estações» de conflito, sofrimento e tensão por onde escolhestes passar com esta Cruz da Jornada Mundial da Juventude? A unidade e a reconciliação não se podem alcançar apenas com os nossos esforços. Deus fez-nos uns para os outros (cf. Gn 2, 24) e, somente em Deus e na sua Igreja, podemos encontrar aquela unidade que procuramos. E todavia, apesar de vermos as imperfeições e desilusões a nível individual e institucional, às vezes somos tentados a construir artificialmente uma comunidade «perfeita». Não se trata de uma tentação nova. A história da Igreja contém muitos exemplos de tentativas para contornar ou saltar por cima das fraquezas e falimentos humanos a fim de se criar uma unidade perfeita, uma utopia espiritual.

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Na realidade, porém, tais tentativas de criar a unidade só a minam. Separar o Espírito Santo de Cristo presente na estrutura institucional da Igreja comprometeria a unidade da comunidade cristã, que é precisamente o dom do Espírito. Isto atraiçoaria a natureza da Igreja enquanto templo vivo do Espírito Santo (cf. 1 Cor 3, 16). De fato, é o Espírito que guia a Igreja pelo caminho da verdade total e a unifica na comunhão e nos atos do ministério (cf. Lumen gentium, 4). Infelizmente persiste a tentação de «seguir em frente sozinho». Alguns falam da sua comunidade local como de algo separado da chamada Igreja institucional, descrevendo a primeira como flexível e aberta ao Espírito e a segunda como rígida e privada do Espírito. A unidade pertence à essência da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, 813); é um dom que devemos agradecer e amar. Nesta noite, rezamos pelo nosso propósito de cultivar a unidade: contribuir para ela e resistir a toda a tentação de nos irmos embora. Porque é exatamente a amplitude, a perspectiva larga da nossa fé – firme e simultaneamente aberta, consistente e ao mesmo tempo dinâmica, verdadeira e no entanto propensa sempre a um conhecimento mais profundo – que podemos oferecer ao nosso mundo. Amados jovens, porventura não foi por causa da vossa fé que amigos em dificuldade ou à procura de um sentido para a sua vida vieram falar convosco? Permanecei vigilantes. Procurai saber ouvir. Conseguis vós ouvir, através das dissonâncias e divisões do mundo, a voz concorde da humanidade? Desde a criança abandonada de um campo no Darfur, a um adolescente confuso, a um pai em ânsias numa periferia qualquer, ou talvez neste preciso momento das profundezas do vosso coração eleva-se o mesmo grito humano que anela por um reconhecimento, por uma integração, pela unidade. Quem poderá satisfazer este desejo humano essencial de ser alguém, viver imerso na comunhão, ser edificado, ser guiado para a verdade? O Espírito Santo… Esta é a sua função: levar a termo a obra de Cristo. Enriquecidos pelos dons do Espírito, vós tendes a força de ultrapassar as visões parciais, a utopia vã, a precariedade fugaz e oferecer a coerência e a certeza do testemunho cristão. Amigos, quando rezamos o Credo, afirmamos: «Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida». O «Espírito criador» é a força de Deus que dá vida à criação inteira e é a fonte de vida nova e abundante em Cristo. O Espírito mantém a Igreja unida ao seu Senhor e fiel à Tradição apostólica. É o inspirador das Sagradas Escrituras e guia o povo de Deus para a plenitude da verdade (cf. Jo 16, 13). Por estes variados modos, o Espírito é o «doador de vida» que nos conduz mesmo até ao coração de Deus. Assim, quanto mais consentirmos ao Espírito Santo que nos guie, tanto maior será a nossa configuração a Cristo e mais profunda a nossa imersão na vida de Deus uno e trino. Esta participação na própria natureza de Deus (cf. 2 Pd 1, 4) verifica-se no desenrolar dos acontecimentos da vida diária, nos quais Ele sempre está presente. Há momentos, porém, em que nos podemos sentir tentados a procurar certas satisfações fora de Deus. O próprio Jesus perguntou aos Doze: «Também vós quereis retirar-vos?» (Jo 6, 67). Talvez um tal afastamento ofereça a ilusão da liberdade. Mas onde nos leva? Para quem havemos nós de ir? De fato, em nossos corações, sabemos que só o Senhor tem «palavras de vida eterna» (Jo 6, 67-69). O afastamento d’Ele é só uma tentativa vã de fugirmos de nós mesmos (cf. Santo Agostinho, Confissões, VIII, 7). Deus está conosco, não na fantasia, mas na realidade da vida. O que temos de procurar é enfrentar a realidade, não fugir dela. Por isso, o Espírito Santo atrai-nos delicada mas resolutamente para aquilo que é real, duradouro, verdadeiro. É o Espírito que nos reconduz à comunhão com a Trindade Santíssima. O Espírito Santo tem sido, de variadas maneiras, a Pessoa esquecida da Santíssima Trindade. Uma clara noção d’Ele parece estar quase fora do nosso alcance; e todavia era eu ainda pequeno quando meus pais – tal como os vossos – me ensinaram o Sinal da Cruz e, deste modo, depressa cheguei a compreender que há um Deus em três Pessoas e que a Trindade está no centro da fé e da vida cristã. Quando cresci bastante para ter uma certa compreensão de Deus Pai e de Deus Filho – os nomes já significavam muito – a minha compreensão da terceira Pessoa da Trindade continuava muito deficiente. Por isso quando, jovem sacerdote, fui encarregado de ensinar teologia, decidi 30


estudar as testemunhas eminentes do Espírito na história da Igreja. E foi ao longo deste itinerário que dei comigo a ler, entre outros, o grande Santo Agostinho. A sua compreensão do Espírito Santo foi-se desenvolvendo de maneira gradual; foi uma luta. Na sua juventude, tinha seguido o maniqueísmo – uma daquelas tentativas supramencionadas de criar uma utopia espiritual separando as coisas do espírito das da carne. Daí que Agostinho, ao princípio, olhasse com suspeita para a doutrina cristã da encarnação de Deus; mas, a sua experiência do amor de Deus presente na Igreja levou-o a procurar a sua fonte na vida de Deus uno e trino. Isto fê-lo chegar a três intuições particulares relativas ao Espírito Santo enquanto vínculo de unidade no seio da Santíssima Trindade: unidade como comunhão, unidade como amor duradouro, unidade como doador e dom. Estas três intuições não são meramente teóricas; ajudam a explicar como age o Espírito. Num mundo em que tanto os indivíduos como as comunidades sofrem muitas vezes por falta de unidade e coesão, tais intuições ajudam-nos a permanecer sintonizados com o Espírito e a alargar e esclarecer o âmbito do nosso testemunho. Por isso, com a ajuda de Santo Agostinho, procuremos ilustrar um pouco da obra do Espírito Santo. Observa ele que as duas palavras «Espírito» e «Santo» dizem respeito àquilo que pertence à natureza divina; por outras palavras, àquilo que é compartilhado pelo Pai e pelo Filho na sua comunhão. Ora se a característica própria do Espírito é ser o que é compartilhado pelo Pai e pelo Filho, então – conclui Agostinho – a qualidade peculiar do Espírito é a unidade. Uma unidade de comunhão existencial: uma unidade de pessoas em recíproca relação de dom constante; o Pai e o Filho que Se dão um ao outro. Deste modo, começamos a entrever – penso eu – quão iluminadora pode ser esta compreensão do Espírito Santo como unidade, como comunhão. Uma verdadeira unidade nunca pode estar fundada sobre relações que neguem igual dignidade às outras pessoas; nem a unidade é simplesmente a soma total dos grupos com que às vezes procuramos «definir-nos» a nós mesmos. De fato, só na vida de comunhão é que a unidade subsiste e a identidade humana se realiza plenamente: reconhecemos a necessidade comum de Deus, correspondemos à presença unificadora do Espírito Santo e damo-nos reciprocamente servindo uns aos outros. A segunda intuição de Agostinho – o Espírito Santo como amor que permanece – deriva do estudo que ele fez da Primeira Carta de São João, no ponto onde o autor nos diz que «Deus é amor» (1 Jo 4, 16). Agostinho sugere que estas palavras, embora referindo-se à Trindade no seu todo, também se devem entender como expressão duma característica particular do Espírito Santo. Refletindo sobre a natureza permanente do amor – «quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo 4, 16) – Agostinho interroga-se: é o amor ou o Espírito que garante o dom duradouro? E a conclusão a que chega é esta: «O Espírito Santo faz-nos habitar em Deus e Deus em nós; mas é o amor que causa tudo isto. Portanto, o Espírito é Deus enquanto amor» (De Trinitate, 15, 17, 31). É uma explicação magnífica: Deus compartilha-Se como amor no Espírito Santo. Que mais poderemos saber partindo desta intuição? O amor é o sinal da presença do Espírito Santo. As idéias ou as palavras que carecem de amor – ainda que se apresentem sofisticadas ou sagazes – não podem ser «do Espírito». Além disso, o amor apresenta um traço particular: longe de ser permissivo ou volúvel, tem uma missão ou um objetivo a realizar que é o de permanecer. Por sua natureza, o amor é duradouro. Mais uma vez, queridos amigos, podemos dar uma vista de olhos àquilo que o Espírito Santo oferece ao mundo: amor que dissolve a incerteza; amor que supera o medo da traição; amor que traz em si a eternidade; o verdadeiro amor que nos introduz numa unidade que permanece. A terceira intuição – o Espírito Santo como dom – Agostinho deduz-la da reflexão sobre uma passagem evangélica que todos conhecemos e apreciamos: o diálogo de Cristo com a samaritana junto do poço. Aqui Jesus revela-Se como o doador de água viva (cf. Jo 4, 10), que em seguida será especificada como sendo o Espírito (cf. Jo 7, 39; 1 Cor 12, 13). O Espírito é «o dom de Deus» (Jo 4, 10) – a fonte interior (cf. Jo 4, 14) – que sacia verdadeiramente a nossa sede mais profunda e nos 31


conduz ao Pai. A partir desta observação, Agostinho conclui que o Deus que Se concede a nós como dom é o Espírito Santo (cf. De Trinitate, 15, 18, 32). Amigos, uma vez mais lancemos um olhar sobre a Trindade em ação: o Espírito Santo é Deus que eternamente Se dá; como uma nascente perene, Ele oferece-Se precisamente a Si mesmo. Observando este dom incessante, chegamos a ver os limites de tudo o que perece, a loucura duma mentalidade consumista. De forma particular, começamos a compreender por que motivo a busca de novidade nos deixa insatisfeitos e desejosos de algo diferente. Porventura não andamos nós à procura de um dom eterno? À procura da fonte que jamais se exaurirá? Com a samaritana exclamemos: Dá-me desta água, para que eu não sinta mais sede (cf. Jo 4, 15). Jovens caríssimos, vimos que é o Espírito Santo quem realiza a maravilhosa comunhão dos crentes em Cristo Jesus. Fiel à sua natureza de doador e simultaneamente de dom, agora Ele está a atuar por meio de vós. Inspirados pelas intuições de Santo Agostinho, fazei com que o amor unificante seja a vossa medida; o amor duradouro seja o vosso desafio; o amor que se dá a vossa missão. Amanhã o próprio dom do Espírito será solenemente conferido aos nossos candidatos ao Crisma. Assim rezarei: «Dai-lhes o espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade e enchei-os do espírito do vosso santo temor». Estes dons do Espírito –cada um deles, como nos recorda São Francisco de Sales, é um modo de participar no único amor de Deus – não são um prêmio nem um agradecimento. São simplesmente dados (cf. 1 Cor 12, 11); e exigem da parte de quem os recebe apenas uma resposta: «Aceito». Enxergamos aqui algo do mistério profundo que é ser cristão. O que constitui a nossa fé não é primariamente aquilo que fazemos, mas o que recebemos. Aliás, muitas pessoas generosas que não são cristãs podem realizar muito mais do que fazemos nós. Amigos, aceitais vós ser introduzidos na vida trinitária de Deus? Aceitais ser introduzidos na sua comunhão de amor? Os dons do Espírito que atuam em nós imprimem a direção e dão a definição do nosso testemunho. Orientados por sua natureza para a unidade, os dons do Espírito ligam-nos ainda mais estreitamente ao conjunto do Corpo de Cristo (cf. Lumen gentium, 11), colocando-nos em melhores condições para edificar a Igreja e, assim, servir o mundo (cf. Ef 4, 13). Chamam-nos a uma ativa e jubilosa participação na vida da Igreja: nas paróquias e nos movimentos eclesiais, nas aulas de religião na escola, nas capelanias universitárias e nas outras organizações católicas. Sim, a Igreja deve crescer na unidade, deve revigorar-se na santidade, rejuvenescer e renovar-se constantemente (cf. Lumen gentium, 4). Mas com que critérios? – Os do Espírito Santo. Voltai-vos para Ele, amados jovens, e descobrireis o verdadeiro sentido da renovação. Nesta noite, reunidos aqui sob a beleza deste céu noturno, os nossos corações e as nossas mentes estão repletas de gratidão a Deus pelo grande dom da nossa fé na Trindade. Recordamos os nossos pais e avós que caminharam ao nosso lado quando – éramos nós crianças – sustentaram os primeiros passos do nosso caminho de fé. Agora, passados muitos anos, eis-vos aqui reunidos como jovens adultos ao redor do Sucessor de Pedro. Inunda-me uma profunda alegria por estar convosco. Invoquemos o Espírito Santo: é Ele o artífice das obras de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 741). Deixai que os seus dons vos plasmem. Assim como a Igreja realiza a sua viagem juntamente com a humanidade inteira, assim também vós sois chamados a exercitar os dons do Espírito nos altos e baixos da vida diária. Fazei com que a vossa fé amadureça através dos vossos estudos, trabalho, desporto, música, arte. Procurai que seja sustentada por meio da oração e alimentada através dos sacramentos, para deste modo se tornar fonte de inspiração e de ajuda para quantos vivem ao vosso redor. No fim de contas, a vida não é simplesmente acumular, e é muito mais do que ter sucesso. Estar verdadeiramente vivos é ser transformados a partir de dentro, permanecer abertos à força do amor de Deus. Acolhendo a força do Espírito Santo, podereis também vós

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transformar as vossas famílias, as comunidades, as nações. Libertai estes dons. Fazei com que a sabedoria, o entendimento, a fortaleza, a ciência e a piedade sejam os sinais da vossa grandeza. E agora, enquanto nos preparamos para a adoração do Santíssimo Sacramento, em espera silenciosa repito-vos as palavras pronunciadas pela Beata Mary MacKillop quando tinha precisamente vinte e seis anos: «Acredita naquilo que Deus sussurra ao teu coração!» Acreditai n’Ele! Acreditai na força do Espírito do amor!

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HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI Hipódromo de Randwick Domingo, 20 de Julho de 2008 Queridos amigos, «Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós» (At 1, 8). Vimos hoje cumprida esta promessa. No dia de Pentecostes, como ouvimos na primeira leitura, o Senhor ressuscitado, sentado à direita do Pai, enviou o Espírito sobre os discípulos reunidos no Cenáculo. Com a força deste Espírito, Pedro e os Apóstolos foram pregar o Evangelho até aos confins da terra. Em cada idade e nas mais diversas línguas, a Igreja continua a proclamar pelo mundo inteiro as maravilhas de Deus, convidando todas as nações e povos a abraçar a fé, a esperança e a nova vida em Cristo. Nestes dias, vim também eu como Sucessor de Pedro a esta maravilhosa terra da Austrália. Vim para confirmar-vos, meus jovens irmãos e irmãs, na vossa fé e abrir os vossos corações ao poder do Espírito de Cristo e à riqueza dos seus dons. Rezo para que esta grande assembléia, que congrega jovens «de todas as nações que há debaixo do céu» (At 2, 5), se torne um novo Cenáculo. Que o fogo do amor de Deus desça sobre os vossos corações e os encha, a fim de vos unir cada vez mais ao Senhor e à sua Igreja e enviar-vos, como nova geração de apóstolos, para levar o mundo a Cristo. «Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós». Estas palavras do Senhor ressuscitado revestem-se de um significado particular para os jovens que vão ser confirmados, marcados com o dom do Espírito Santo, durante esta Santa Missa. Mas, tais palavras são dirigidas também a cada um de nós, isto é, a todos aqueles que receberam o dom do Espírito de reconciliação e da nova vida no Batismo, que O acolheram nos seus corações como sua força e guia na Confirmação e que crescem diariamente nos seus dons de graça por meio da Sagrada Eucaristia. De fato, em cada Missa o Espírito Santo, invocado na oração solene da Igreja, desce novamente não só para transformar os nossos dons do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, mas também para transformar as nossas vidas fazendo de nós, com a sua força, «um só corpo e um só espírito em Cristo». Mas, o que é este «poder» do Espírito Santo? É o poder da vida de Deus. É o poder do mesmo Espírito que pairou sobre as águas na alvorada da criação e que, na plenitude dos tempos, levantou Jesus da morte. É o poder que nos conduz, a nós e ao nosso mundo, para a vinda do Reino de Deus. No Evangelho de hoje, Jesus anuncia que começou uma nova era, na qual o Espírito Santo será derramado sobre a humanidade inteira (cf. Lc 4, 21). Ele próprio, concebido por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, veio habitar entre nós para nos trazer este Espírito. Como fonte da nossa vida nova em Cristo, o Espírito Santo é também, de modo profundamente verdadeiro, a alma da Igreja, o amor que nos une ao Senhor e entre nós e a luz que abre os nossos olhos para verem as maravilhas da graça de Deus ao nosso redor. Aqui na Austrália, nesta grande «Terra Austral do Espírito Santo», tivemos todos uma inesquecível experiência da presença e da força do Espírito na beleza da natureza. Os nossos olhos abriram-se para contemplar o mundo circundante tal como verdadeiramente é: «repleto – como disse o poeta – da grandeza de Deus», cheio da glória do seu amor criador. Também aqui, nesta grande assembléia de jovens cristãos vindos de todo o mundo, tivemos uma experiência concreta da presença e da força do Espírito na vida da Igreja. Vimos a Igreja na profunda verdade do seu ser: Corpo de Cristo, comunidade viva de amor, que engloba pessoas de toda a raça, nação e língua, de todos os tempos e lugares, na unidade que brota da nossa fé no Senhor ressuscitado.

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A força do Espírito não cessa jamais de encher de vida a Igreja. Através da graça dos sacramentos dela, esta força flui também no nosso íntimo como um rio subterrâneo que alimenta o espírito e nos atrai e aproxima cada vez mais da fonte da nossa verdadeira vida, que é Cristo. Santo Inácio de Antioquia, que foi martirizado no início do século II, deixou-nos uma esplêndida descrição desta força do Espírito que habita dentro de nós. Falou do Espírito como de uma nascente de água viva que brotava no seu coração e lhe sussurrava: «Vem, vem para o Pai!» (cf. Aos Romanos 6, 1-9). No entanto esta força, a graça do Espírito, não é algo que possamos merecer ou conquistar; podemos apenas recebê-la como puro dom. O amor de Deus pode propagar a sua força, somente quando lhe permitimos que nos mude a partir de dentro. Temos de O deixar penetrar na crosta dura da nossa indiferença, do nosso cansaço espiritual, do nosso cego conformismo com o espírito deste nosso tempo. Só então nos será possível consentir-Lhe que acenda a nossa imaginação e plasme os nossos desejos mais profundos. Eis o motivo por que é tão importante a oração: a oração diária, a oração privada no recolhimento dos nossos corações e diante do Santíssimo Sacramento e a oração litúrgica no coração da Igreja. A oração é pura receptividade à graça de Deus, amor em ato, comunhão com o Espírito que habita em nós e nos conduz através de Jesus, na Igreja, ao nosso Pai celeste. Na força do seu Espírito, Jesus está sempre presente nos nossos corações, esperando serenamente que nos acomodemos em silêncio junto d’Ele para ouvir a sua voz, permanecer no seu amor e receber a «força que vem do Alto», uma força que nos habilita a ser sal e luz para o nosso mundo. Na sua Ascensão, o Senhor ressuscitado disse aos seus discípulos: «Sereis minhas testemunhas (…) até aos confins do mundo» (At 1, 8). Aqui, na Austrália, damos graças ao Senhor pelo dom da fé que chegou até nós como um tesouro transmitido de geração em geração na comunhão da Igreja. Aqui, na Oceania, damos graças de modo especial por todos os heróicos missionários, sacerdotes e religiosos diligentes, pais e avós cristãos, professores e catequistas que edificaram a Igreja nestas terras. Testemunhas como a Beata Mary MacKillop, São Peter Chanel, o Beato Peter To Rot e muitos outros. A força do Espírito, que se revelou nas suas vidas, está ainda em ação nas beneméritas iniciativas que deixaram, na sociedade que plasmaram e que agora é entregue a vós. Amados jovens, permiti que vos ponha agora uma questão. E vós o que é que deixareis à próxima geração? Estais a construir as vossas vidas sobre alicerces firmes, estais a construir algo que há-de durar? Estais a viver a vossa existência de modo a dar espaço ao Espírito no meio dum mundo que quer esquecer Deus ou mesmo rejeitá-Lo em nome de uma falsa noção de liberdade? Como estais a usar os dons que vos foram dados, a «força» que o Espírito Santo está pronto, mesmo agora, a derramar sobre vós? Que herança deixareis aos jovens que virão? Qual será a diferença impressa por vós? A força do Espírito Santo não se limita a iluminar-nos e a consolar-nos; orienta-nos também para o futuro, para a vinda do Reino de Deus. Que magnífica visão duma humanidade redimida e renovada entrevemos na nova era prometida pelo Evangelho de hoje! São Lucas diz-nos que Jesus Cristo é o cumprimento de todas as promessas de Deus, o Messias que possui em plenitude o Espírito Santo para comunicá-Lo à humanidade inteira. A efusão do Espírito de Cristo sobre a humanidade é um penhor de esperança e de libertação contra tudo aquilo que nos depaupera. Tal efusão dá nova vista ao cego, manda livres os oprimidos, e cria unidade na e com a diversidade (cf. Lc 4, 18-19; Is 61, 1-2). Esta força pode criar um mundo novo, pode «renovar a face da terra» (cf. Sal 104, 30). Uma nova geração de cristãos, revigorada pelo Espírito e inspirando-se a uma rica visão de fé, é chamada a contribuir para a edificação dum mundo onde a vida seja acolhida, respeitada e cuidada amorosamente, e não rejeitada nem temida como uma ameaça e, conseqüentemente, destruída. 35


Uma nova era em que o amor não seja ambicioso nem egoísta, mas puro, fiel e sinceramente livre, aberto aos outros, respeitador da sua dignidade, um amor que promova o bem de todos e irradie alegria e beleza. Uma nova era na qual a esperança nos liberte da superficialidade, apatia e egoísmo que mortificam as nossas almas e envenenam as relações humanas. Prezados jovens amigos, o Senhor está a pedir-vos que sejais profetas desta nova era, mensageiros do seu amor, capazes de atrair as pessoas para o Pai e construir um futuro de esperança para toda a humanidade. O mundo tem necessidade desta renovação. Em muitas das nossas sociedades, ao lado da prosperidade material vai crescendo o deserto espiritual: um vazio interior, um medo indefinível, uma oculta sensação de desespero. Quantos dos nossos contemporâneos escavaram para si mesmos cisternas rotas e vazias (cf. Jr 2, 13) à procura desesperada de sentido, daquele sentido último que só o amor pode dar!? Este é o dom grande e libertador que o Evangelho traz consigo: revela a nossa dignidade de mulheres e homens criados à imagem e semelhança de Deus; revela a sublime vocação da humanidade, que é a de encontrar a própria plenitude no amor; desvenda a verdade sobre o homem, a verdade sobre a vida. Também a Igreja tem necessidade desta renovação. Precisa da vossa fé, do vosso idealismo e da vossa generosidade, para poder ser sempre jovem no Espírito (cf. Lumen gentium, 4). Na segunda leitura de hoje, o apóstolo Paulo recorda-nos que todo o indivíduo cristão recebeu um dom, que deve ser usado para edificar o Corpo de Cristo. A Igreja tem uma especial necessidade do dom dos jovens, de todos os jovens. Ela precisa de crescer na força do Espírito, que agora mesmo vos enche de alegria a vós, jovens, e vos inspira a servir o Senhor com entusiasmo. Abri o vosso coração a esta força. Dirijo este apelo de forma especial àqueles que o Senhor chama à vida sacerdotal e consagrada. Não tenhais medo de dizer o vosso «sim» a Jesus, de encontrar a vossa alegria na realização da sua vontade, entregando-vos completamente para chegardes à santidade e pondo os vossos talentos a render para o serviço dos outros. Daqui a pouco celebraremos o sacramento da Confirmação. O Espírito Santo descerá sobre os candidatos; estes serão «marcados» com o dom do Espírito e enviados para ser testemunhas de Cristo. Que significa receber o «selo» do Espírito Santo? Significa ficar indelevelmente marcados, inalteravelmente mudados, significa ser novas criaturas. Para aqueles que receberam este dom, nada mais pode ser como antes. Ser «batizados» no Espírito significa ser incendiados pelo amor de Deus. «Beber» do Espírito (cf. 1 Cor 12, 13) significa ser refrescado pela beleza do plano de Deus sobre nós e o mundo, e tornar-se por sua vez uma fonte de refrigério para os outros. Ser «selados com o Espírito» significa além disso não ter medo de defender Cristo, deixando que a verdade do Evangelho permeie a nossa maneira de ver, pensar e agir, enquanto trabalhamos para o triunfo da civilização do amor. Ao elevar a nossa oração pelos confirmandos, pedimos também que a força do Espírito Santo reavive a graça da Confirmação em cada um de nós. Oxalá o Espírito derrame os seus dons em abundância sobre todos os presentes, sobre a cidade de Sidney, sobre esta terra da Austrália e sobre todo o seu povo. Que cada um de nós seja renovado no espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, espírito de santo temor de Deus. Pela amorosa intercessão de Maria, Mãe da Igreja, que esta 23.ª Jornada Mundial da Juventude seja vivida como um novo Cenáculo, para que todos nós, inflamados no fogo do amor do Espírito Santo, possamos continuar a proclamar o Senhor ressuscitado atraindo para Ele todos os corações. Amém.

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ANGELUS Prezados jovens amigos, Preparamo-nos agora para rezar juntos a oração encantadora do Angelus. Nela refletiremos sobre Maria, jovem mulher em diálogo com o Anjo que, em nome de Deus, A convida a uma particular doação de Si mesma, da sua vida, do seu próprio futuro de mulher e mãe. Podemos imaginar como deveria sentir-Se Maria naquele momento: cheia de trepidação, totalmente baralhada com a perspectiva que Lhe foi apresentada. O Anjo compreendeu a sua ansiedade e logo procurou tranquilizá-La: «Não tenhas receio, Maria (…). O Espírito Santo virá sobre Ti e a força do Altíssimo estenderá sobre Ti a sua sombra» (Lc 1, 30.35). Foi o Espírito que Lhe deu a força e a coragem para responder ao chamamento do Senhor. Foi o Espírito que A ajudou a compreender o grande mistério que estava para se realizar por meio d’Ela. Foi o Espírito que A envolveu com o seu amor, tornando-A capaz de conceber no seu ventre o Filho de Deus. Esta cena constitui talvez o momento cardinal na história do relacionamento de Deus com o seu povo. Ao longo do Antigo Testamento, Deus fora-Se revelando de forma parcial mas gradual, como todos fazemos nas nossas relações pessoais. Foi preciso tempo para que o povo eleito aprofundasse a sua relação com Deus. A Aliança com Israel foi uma espécie de período de galanteio, um longo namoro. Chegou depois o momento definitivo, o momento do matrimônio, a realização duma nova e eterna aliança. Naquele momento, Maria, diante do Senhor, representava toda a humanidade: na mensagem do Anjo, era Deus que fazia uma proposta de matrimônio à humanidade; e Maria, em nosso nome, disse sim. Nas fábulas, a narração termina aqui: e todos, «desde então, viveram felizes e contentes». Na vida real, não é tão fácil… Foram muitas as dificuldades com que Maria Se debateu ao enfrentar as conseqüências daquele «sim» dito ao Senhor. Simeão profetizou que uma espada haveria de trespassar-Lhe o coração. Quando Jesus tinha doze anos, Ela experimentou os piores íncubos que um progenitor pode viver: durante três dias, teve de agüentar o extravio do Filho. E, depois da atividade pública de Jesus, Ela sofreu a agonia de presenciar a sua crucifixão e morte. Através das várias provações, manteve-Se sempre fiel à sua promessa, sustentada pelo Espírito de fortaleza. E foi por isso mesmo recompensada com a glória. Queridos jovens, também nós devemos permanecer fiéis ao «sim» com que acolhemos a oferta de amizade feita pelo Senhor. Sabemos que Ele nunca nos abandonará. Sabemos que sempre nos apoiará com os dons do Espírito. A «proposta » do Senhor, Maria acolheu-a em nosso nome. E agora, voltemo-nos para Ela e peçamos-Lhe que nos guie no meio das dificuldades para permanecermos fiéis àquele relacionamento vital que Deus estabeleceu com cada um de nós. Maria é o nosso exemplo e a nossa inspiração. Que Ela interceda por nós junto do seu Filho e, com amor materno, nos proteja dos perigos! DEPOIS DO ANGELUS Queridos amigos, Chegou agora o momento de dizermos «Adeus», ou melhor, «Até à próxima». A todos vos agradeço por terdes participado na Jornada Mundial da Juventude 2008, aqui em Sidney, e espero voltar a ver-vos daqui a três anos. A Jornada Mundial da Juventude de 2011 terá lugar em Madrid, Espanha. Até lá, rezemos uns pelos outros, e prestemos a Cristo o nosso jubiloso testemunho diante do mundo. Que Deus vos abençoe a todos!

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Catedral de Sidney Domingo, 20 de Julho de 2008 Senhor Cardeal, Queridos Amigos, Aproximando-se do seu termo a minha visita, desejo expressar a minha gratidão a todos aqueles que contribuíram para o bom êxito desta Jornada Mundial da Juventude. Nesta tarde, o meu agradecimento vai de modo particular para vós que, com tanta generosidade, prestastes a vossa ajuda quer material quer espiritual para a concretização deste evento. O Cardeal Pell acenou aos grandes sacrifícios que enfrentastes durante a organização desta jornada maravilhosa para a vida da Igreja. Quero agradecer-vos a todos e a cada um não só por tais sacrifícios mas ainda mais pela confiança que demonstrastes para com os nossos jovens e pela confiança na graça de Deus que actua nos seus corações. Rezemos para que o investimento, que muitos de vós depositaram neles, frutifique nas suas vidas em prol da vida da Igreja de Cristo e do futuro deste nosso mundo. Nestes dias, graças ao trabalho da comissão organizadora e à cooperação de tantas pessoas privadas, empresas, associações e autoridades locais, os jovens vindos das várias partes do mundo tiveram oportunidade de experimentar a beleza deste país e a calorosa hospitalidade do povo australiano. Eles, por sua vez, enriqueceram esta terra com o testemunho que deram do amor de Cristo e da força do seu Espírito operante na Igreja. Estou certo, queridos amigos, de que a vossa participação nos preparativos para esta Jornada Mundial da Juventude vos permitiu fazer uma particular experiência da força do Espírito Santo. Sem dúvida que, na preparação deste grande encontro internacional e no esforço para fazer face a qualquer possível eventualidade, tivestes momentos de temor e preocupação, e mesmo instantes de medo e trepidação quanto ao resultado final deste acontecimento! Agora, olhando para trás, podeis constatar a colheita abundante que o Espírito Santo suscitou através das vossas orações, da vossa perseverança e do vosso duro trabalho. Quantas sementes boas foram semeadas nestes poucos dias! Queridos amigos, São Paulo, que gastou toda a sua vida ao serviço do Evangelho, recorda-nos que «a felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35). A vossa generosidade e o vosso sacrifício foram um contributo essencial, ainda que freqüentemente escondido, para o bom sucesso desta Jornada Mundial da Juventude. Possam a alegria espiritual, a satisfação e a felicidade que todos experimentamos nestes dias, constituir uma fonte inexaurível de bênçãos para as vossas vidas. Não duvideis jamais da verdade da promessa de Nosso Senhor, segundo a qual todas as vezes que oferecermos a nossa criatividade, a nossa energia, os nossos recursos, nós mesmos… tudo nos é restituído superabundantemente (cf. Mt 16, 26). Com estes sentimentos, renovo a expressão da minha profunda gratidão a cada um de vós. Confio-vos, vós e vossas famílias, à amorosa intercessão de Nossa Senhora do Cruzeiro do Sul, Auxílio dos Cristãos, e como penhor de força e paz em Jesus, seu divino Filho, de coração vos concedo a Bênção Apostólica.

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SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE BENTO XVI Domain Segunda-feira, 21 de Julho de 2008 Queridos amigos em Cristo, Agradeço ao Bispo Fisher e ao Cardeal Pell as suas amáveis palavras e alegro-me por esta oportunidade de poder despedir-me de todos vós e dizer-vos que a experiência desta semana foi esplêndida. Nestes dias, fomos testemunhas diretas da alegria que encontram na própria fé tantos milhares de jovens, e pudemos exprimir o nosso louvor e gratidão a Deus pela sua bondade para connosco. Pudemos saborear o calor e a generosidade da hospitalidade australiana e simultaneamente dar um olhar à estupenda paisagem deste belo continente. Foi uma semana verdadeiramente memorável. De tudo isto, porém, nada teria sido possível sem um grande esforço de preparação e solícito trabalho durante o período que precedeu a Jornada Mundial da Juventude. Desejo agradecer-vos a todos pelo generoso empenho de tempo e de energia, gastos para permitir a realização sem percalços de cada um dos acontecimentos que celebramos juntos. Tais acontecimentos necessitaram de cuidadosa coordenação, uma vez que envolveram as autoridades civis, a polícia e os serviços de emergência, e também pessoal eclesiástico e um vasto conjunto de voluntários, responsáveis e auxiliares. Os vossos esforços prepararam o terreno para que o Espírito descesse impetuosamente, plasmando vínculos de unidade e amizade entre jovens originários de ambientes culturais profundamente diversos e revigorando o seu amor a Cristo e à sua Igreja. Nas multidões que se juntaram aqui em Sidney vimos uma expressão concreta da unidade na diversidade da Igreja universal, vimos uma perspectiva em miniatura daquela família humana unida por que anelamos. Na força do Espírito, possam estes jovens tornar realidade no mundo de amanhã uma tal visão. No aeroporto, terei ocasião de agradecer aos representantes das autoridades civis. Aqui quero exprimir a minha profunda gratidão a todos os bispos, aos sacerdotes, aos consagrados e consagradas, aos capelães, aos professores, às associações laicais, aos movimentos eclesiais, às famílias que ofereceram hospedagem, às escolas e às comunidades paroquiais que contribuíram com grande eficácia para o êxito da Jornada Mundial da Juventude. Lemos nos Actos dos Apóstolos que «a felicidade está mais em dar do que em receber» (20, 35), mas eu estou certo de que vós também recebestes muito daqueles que tão generosamente servistes ao longo das nossas celebrações. A todos vós, um sincero e sentido «obrigado»! Aproxima-se o momento de regressar a Roma, mas levo comigo, como se fosse um tesouro, a recordação dos numerosos eventos cheios de graça que juntos experimentamos: desde o meu primeiro encontro com os jovens em Barangaroo, passando pelos sucessivos encontros em Darlinghurst e na Catedral de Santa Maria, até à Vigília da Juventude no Recinto do Cruzeiro do Sul e depois na Missa conclusiva de ontem. Rezo para que também vós leveis impressas no espírito muitas recordações preciosas e intuições espirituais, voltando às vossas casas e famílias com novo ardor para difundir o Evangelho de Jesus Cristo. Na força do Espírito Santo, ide agora renovar a face da terra!

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Neste momento cordial em que me despeço de todos vós, entrego-vos à amorosa intercessão de Nossa Senhora do Cruzeiro do Sul, Auxílio dos Cristãos, invoco sobre vós os sete dons do Espírito Santo e asseguro uma recordação vossa na minha constante oração. Deus abençoe os jovens do mundo e abençoe o povo da Austrália!

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DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI Aeroporto Internacional de Sidney Segunda-feira, 21 de Julho de 2008 Queridos amigos, Antes de me despedir de vós, desejo dizer àqueles que me hospedaram que gostei imenso da visita e sinto-me muito reconhecido pela hospitalidade recebida. Agradeço ao Primeiro-Ministro, Senhor Kevin Rudd, a gentileza que demonstrou para comigo e para com todos os participantes na Jornada Mundial da Juventude. Agradeço também ao Governador Geral, Major General Michael Jeffery, a sua presença aqui e a gentil recepção que me fez no Almirantado Geral ao início dos meus compromissos públicos. O Governo Federal e o Governo do Estado de Novo Gales do Sul, bem como os habitantes e a comunidade empresarial de Sidney colaboraram generosamente no apoio à Jornada Mundial da Juventude. Um acontecimento deste gênero requer um trabalho imenso de preparação e organização, e estou certo de falar em nome de muitos milhares de jovens quando exprimo o meu apreço e a minha gratidão a todos vós. Como é característico do estilo australiano, destes-me calorosas boas-vindas a mim e aos inumeráveis jovens peregrinos que chegaram aqui de todas as partes do mundo. Sinto-me especialmente reconhecido às famílias hospitaleiras da Austrália e da Nova Zelândia que ofereceram aos jovens um lugar nas suas casas. Abristes as vossas portas e os vossos corações à juventude do mundo, e, em nome destes jovens, eu vos agradeço. Nos dias passados, os atores principais no palco foram obviamente os próprios jovens. A Jornada Mundial da Juventude pertence-lhes. Foram eles que fizeram desta Jornada um acontecimento eclesial de caráter global, uma grande celebração da juventude, uma grande celebração daquilo que significa ser Igreja, Povo de Deus no meio do mundo, unido na fé e no amor e habilitado pelo Espírito a levar o testemunho de Cristo ressuscitado até aos confins da terra. Agradeço-lhes por terem vindo, agradeço-lhes pela sua participação e peço a Deus que tenham uma viagem segura de regresso. Sei que os jovens, as suas famílias e as pessoas amigas, em muitos casos, fizeram grandes sacrifícios para lhes permitir chegar à Austrália. Por tudo isso, a Igreja inteira estálhes reconhecida. Repassando com o olhar estes dias impressionantes, afloram-me à mente cenas significativas. Tocou-me muito a visita ao Túmulo de Mary MacKillop, e agradeço às Irmãs de São José a oportunidade que tive de rezar no Santuário da sua Co-fundadora. As estações da Via-Sacra pelas estradas de Sidney recordaram-nos eficazmente que Cristo nos amou «até ao fim» e compartilhou os nossos sofrimentos para que nós pudéssemos partilhar da sua glória. O encontro com os jovens em Darlinghurst foi um momento de alegria e de grande esperança, um sinal de que Cristo pode levantar-nos das situações mais difíceis, restituindo-nos a nossa dignidade e permitindo-nos olhar em frente para um futuro melhor. O encontro com os responsáveis ecumênicos e inter-religiosos foi marcado por um espírito de genuína fraternidade e um profundo desejo de maior colaboração no empenho de construir um mundo mais justo e pacífico. Mas, sem dúvida, os encontros de Barangaroo e do Cruzeiro do Sul foram os pontos culminantes da minha visita. Aquelas experiências de oração, a nossa jubilosa celebração da Eucaristia foram um testemunho eloqüente da obra vivificante do Espírito Santo, presente e ativo no coração dos nossos jovens. A Jornada Mundial da Juventude mostrou-nos que a Igreja pode alegrar-se com os jovens de hoje e sentir-se repleta de esperança quanto ao mundo de amanhã. 41


Queridos amigos, neste momento da minha despedida de Sidney, peço a Deus que pouse o seu amoroso olhar sobre esta cidade, sobre este país e os seus habitantes. Peço que muitos deles possam sentir-se inspirados pelo exemplo de compaixão e serviço da Beata Mary MacKillop. E ao despedir-me de vós, levando no coração sentimentos de profunda gratidão, digo uma vez mais: Deus abençoe o povo da Austrália!

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XXIII JMJ - Discursos do Papa Bento XVI  

Discursos do Papa Bento XVI por ocasião da 28a. Jornada Mundial da Juventude, na Austrália

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