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EU UM BR AN CO


Um chinês me disse aleatoriamente que o destino do viajante é terra estrangeira e separação; um russo partilhou com o mundo que o estrangeiro é um acesso a nós mesmos como linguagem. Um francês, com sua câmera de 16mm, fez da invenção o dispositivo de conhecimento etnográfico. Uma indiana queer escreve que cada lugar refaz todas as políticas. Um veneziano cartografou seu diário de viagem entre dias e mercadorias encontradas. Um argelino coloca questões de vida ou morte como acontecimentos minoritários. Uma brasileira, parada nos sete anos e meio de uma infância, me presenteou com a imagem de que às vezes é necessário transitar duas polegadas acima do chão.


Entre espaço e sentido, Eu, um Branco é também uma aprendizagem de trajeto. Uma viagem instalativa que empiricamente tomou a incorporação como forma de conhecimento. A África parece ter muito a dizer sobre isso, mas não tão diretamente onde eu estive (e onde é sempre a forma como se pode experienciar um lugar). Uganda caracterizou em mim o desconforto da transmissão dos desejos coloniais nos corpos nativos. Branco não é só um eu, mas a cor do fantasma. Fantasma da colonização de lá, fantasma da escravidão de cá. Como buscar uma corporeidade que não mais perpetue esses fantasmas e abra pois uma outra experiência de lugar? Essa pergunta foi um dos comandos de nosso processo. Estamos cá; e cá é também o espaço cênico. Cá são os dias de imersão e


materiais desenvolvidos. Cá é a empiria que não se constrói como um momento puro, mas como convergência da inscrição histórica no sistema nervoso de todos nós. Cá é a grata indefinição entre corpo, experiência e espaço. A abertura de cada uma dessas palavras na outra e a possibilidade de partir dessa ação esburacada de sentidos para vislumbrarmos uma superfície. Cá é o fantasma da escravidão, a incorporação de Uganda, e jamais sua territorialização. Lá e cada vez mais cá é a África da Portuguesa Isabel. Cá é o processo etnográfico que se escreve na visada do corpo, no olho de quem senta na plateia; no cinema-transe de quem foi levado cidade adentro pela lente de uma câmera; no olhar de quem se ve estrangeiro e ve, nessa condição, potência de participação.


A condição de estrangeiro é fundamental para a etnografia, e penso que o estrangeiro é uma oscilação entre expurgos e assimilações do corpo. Estar atento a essa oscilação é construir sentidos, e talvez seja aí que possamos propor uma etnografia da incorporação. Uma forma de etnografia sobre a qual a África parece ter muito a dizer.


Samuel

Paes

de

Luna

Edição de Imagens:

Jeanne

Uryon

Som: Luciano

Siqueira

Assessoria de Imprensa:

Renato Mangolin Melanie Joseph you are an undescribable part of it!

de Ensaio Registro em Vídeo: Jeanne Dosse Registro em Foto:

Bianca Senna - Astrolábio Criação Gráfica: Evee Avila - Balão

Daniel

Dosse Supervisão de Movimento: Maria Alice Poppe Iluminação:

Executiva:

Isabel Martins Coordenação de Produção: Felipe Ribeiro Produção

Direção: Denise Stutz e Felipe Ribeiro Intérpretes: Felipe Ribeiro e


Produção

Apoio

Parceria

Este projeto foi contemplado com Prêmio Funarte Petrobras de Dança Klauss Vianna 2012

AGRADECIMENTOS Agnés, Alex Mukulu, Alface, Ana Cayolla, André Lepecki, Baker, Bia Radunsky, Christine, Diogo Liberano, Eleonora Fabião, Estagiárias DAC/UFRJ, Jéssica Barbosa João Braune, João Fernando Rosa, João Baptistas, João Martins, Leysa Vidal, Mama Isabel, Marcelo Evelin, Miriam Vieira, Mutange, Paulo Mattos, Ricardo Martins, Robert Saramaga, Rosa Tito Pinto, Sue, Viniciús Arneiro, Vito Paulo Martins, Zua e à Dança e suas Imagens. 2 9 / 1 1 A 9 / 1 2 , S E X TA S E S Á B A D O S , 2 0 H ; DOMINGOS, 18H; SEGUNDAS, 19H. NA SALA MULTIUSO DO ESPAÇO SESC.

W W W. D E N I S E F E L I P E . C O M . B R Rua Domingos Ferreira, 160 - Copacabana. Tel.: (21) 2547-0156 www.sescrio.org.br Não jogue este impresso em via pública. Recicle.


Eu,um Branco  

Programa do espetaculo de Denise Stutz, Felipe Ribeiro e Isabel Martins

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