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CAMPO DE BATALHA - Legislativo e Judiciário em conflito

CURA Em Transe Reconhecida pela Ciência, hipnose se populariza e conquista adeptos nos consultórios

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Olhar BH

Ă€ luz do conhecimento - Academia Mineira de Letras Foto de Lucas Alvarenga |3


eDitorial Salus populi

Carlos Viana editor executivo carlos.viana@voxobjetiva.com.br

“... O povo que conhece o seu deus se tornará forte e ativo.” (daniel 11:32)

A Vox objetiva é uma publicação mensal da Vox domini editora Ltda. Rua tupis, 204, sala 218, centro, Belo horizonte - mG ceP: 30190-060

Diz um ditado romano que “Salus populi suprema lex esto”, em português, “O bem estar do povo deve ser a lei suprema”. O problema é quando essa lei é constantemente questionada ou modificada. Em entrevista à Vox Objetiva, o ministro Luis Fux declarou que o Judiciário vem sendo criticado por conta de um Congresso que não estaria disposto a desagradar o eleitor. Em meio às discussões sobre judicialização da política brasileira, a fala demonstra claramente a animosidade existente hoje entre congressistas e ministros da Suprema Corte. Apesar de juizes não serem eleitos ou mesmo estarem dispostos a agradar uma população carente por Justiça é preciso relembrar aos ministros que leis devem sempre estar de acordo com o que pensa e deseja a população. Eleito, o Congresso Nacional já percebeu que toda e qualquer proposta legislativa precisa estar de acordo com o clamor legítimo de quem sustenta o país e vai viver as decisões no dia-a-dia. Essa legitimidade do voto dada ao Congresso Nacional, ainda que recorrentemente questionada em vários aspectos morais e éticos, não pode ser ignorada. Não está aqui nenhuma defesa ao enfraquecimento do Judiciário. Exercício democrático e salutar para o aprimoramento das instituições, os debates públicos acerca de temas de relevância nacional não devem ser balizados por conta de vaidades individuais ou disputa de espaço pelo Poder. Mas antes, devem ter com o princípio a busca do equilíbrio entre os que são autoridades, e consequentemente, pela busca da maturidade republicana. De fato, deputados e senadores têm deixado a desejar quando o assunto são leis e projetos que tornem um Brasil mais moderno. A cassação imediata de mandatários condenados é um bom exemplo de corporativismo político desnecessário e prejudicial. Mas ao se debruçar sobre uma lei como a que permite a contribuição de empresas no processo eleitoral, depois de 20 anos de vigência, o STF suscita dúvidas sobre os limites de atuação e o vazio que vai se estabelecer especialmente às vésperas de uma grande eleição majoritária. Longe de declarações retumbantes por meio da imprensa, o ideal seria que essas questões limites entre Legislativo e Judiciário fossem tratadas com mais diálogo e sempre visassem um entendimento. Não interessa ao cidadão comum opiniões dispersas e midiáticas. O sentido de autoridade é antes de tudo consenso público sobre o que deve ser feito e respeitado por todos. Se forem muitos os embates, então que no futuro se busque até mesmo uma nova Constituinte para que aprimoremos e avancemos sobre o que ainda estamos por decidir. Rusgas e críticas entre nossos mandatários mostram despreparo e desconhecimento sobre as importâncias dos cargos. Seja no Congresso Nacional ou no Supremo, as falas individuais não contribuem para o fortalecimento da nossa democracia.

Editor Adjunto: André martins l Diagramação e arte: Felipe Pereira | capa: Felipe Pereira | Fotos de capa: tomaz silva e Guilherme kardel | Reportagem : André martins, cassio teles, érica Fernandes, jáder Rezende, Lucas Alvarenga | correspondentes: Greice Rodrigues - estados unidos, ilana Rehavia - Reino unido | Diretoria comercial: solange Viana | Anúncios: comercial@ voxobjetiva.com.br / (31) 2514-0990 | Atendimento: jornalismo@voxobjetiva.com.br (31) 2514-0990 | Revisão: Versão Final | Tiragem: 30 mil exemplares | voxobjetiva.com.br

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LAURA MULLER Especialista fala de sexo para todas as idades

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Guerra dos sexos

metropolis

Aplicativo para a avaliação de homens gera polêmica e levanta discussões sobre os limites entre liberdade e invasão na web

Poderes em conflito

PODIUM

Empoderamento do Judiciário coloca em xeque o Legislativo brasileiro

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Projeto Regresso Chances de reincidência criminal são reduzidas com a reinserção social de egressos do sistema prisional de Minas por meio do trabalho

salutaris

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capa

Reconhecida

Mesmo sem regulamentação, prática da hipnose vem se difundindo na ciência

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No topo do ranking Mineiros resgatam a tradição do tênis brasileiro após a era Guga

hORIZONTES

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Uma cidade entre extremos As pretensões e os desafios da capital russa, Moscou. Cidade que funde beleza e hábitos do Ocidente com o conservadorismo Oriental


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Femme

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Coisas de madame Os auxiliares do processo de ‘reciclagem’ da pele

KULTUR

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Adeus América? Reality shows incitam americanização da MPB

Artigos

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política • Paulo Filho Sem reformas e com muito pó

justiça • Robson Sávio 2014: um ano eletrizante PSICOLOGIA • Maria Angélica Falci Criticar para crescer

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Meteorologia • Ruibran dos Reis Aquecimento global

crônica • Laura Barreto Ame e desapegue IMOBILIÁRIO • Kênio Pereira Quem não pode ser síndico

crônica • Joanita Gontijo Mentira x omissão

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RECEITA

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VINHOS • Danilo Schirmer

Carlos Pita - Rabanada Para acertar no fim de ano |7


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“Sexualidade é tabu”

Com desenvoltura e clareza, a sexóloga Laura Muller esclarece dúvidas sobre sexo “altas horas” da madrugada e abre espaço para o debate do tema na TV aberta Lucas Alvarenga Beleza, desenvoltura e talento, quando reunidos em uma mulher, são letais. Essa é uma das combinações que, inevitavelmente, despertam a curiosidade dos homens. E o que dizer quando a mulher em questão oferece respostas objetivas às dúvidas que permeiam o universo íntimo masculino e feminino? O caminhar e o olhar decididos e a espontaneidade da entrevistada de dezembro da Vox Objetiva talvez expliquem essa capacidade de aclarar assuntos delicados e arrancar sorrisos onde havia interrogações – mesmo que dos amigos. Dos conterrâneos Giovane Gávio, Leda Nagle e Rubem Fonseca, a juiz-forana herdou o talento para o vôlei, o jornalismo e a presença do sexo na sua literatura, mesmo que de forma bem distinta. Quando foi aos 16 anos para São Paulo a fim de jogar pela seleção paulista de vôlei, a entrevistada nem poderia imaginar os caminhos inexatos que a esperavam. Poucos anos depois, começaria uma carreira promissora no jornal Folha da Tarde. Mas foi um convite para trabalhar na revista Cláudia que mudou a sua vida. Hoje, quando você ouve perguntas, como “Meia-entrada conta como uma inteira”?, “Sexo anal pode engravidar?” ou “É normal a mulher chorar na hora do orgasmo?”, é automático pensar nela. Convidada do “Circuito Viver Bem”, ciclo de palestras e atividades promovido pela sétima vez pela Drogaria Araujo, Laura Muller recebeu a redação da Vox Objetiva nos bastidores de um Minascentro lotado e curioso. As conversas ao pé do ouvido e a expectativa pela palestra informal de uma das sexólogas mais badaladas do país consumiam o público naquela tarde de 25 de outubro. Minutos antes do atraente bate-papo sobre o livro “Altos Papos sobre Sexo”, Laura entrou no camarim e se sentou para ter uma prosa com a Vox. A psicóloga contou como migrou do jornalismo para a educação sexual, comentou sobre a própria carreira,

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adiantou novidades sobre a próxima publicação e, claro, falou sobre sexo em todas e para todas as idades. Você saiu das redações jornalísticas para estudar e trabalhar como educadora sexual. Como ocorreu essa transição? Foi a minha condição como editora de ‘Emoções & Sexo’ da revista Cláudia que me levou a estudar a sexualidade. Eu trabalhava como jornalista havia muitos anos. Comecei a minha carreira na editoria de Cidades dos jornais Folha de São Paulo e Folha da Tarde. Em 1997 surgiu uma vaga de editora de ‘Emoções & Sexo’ na revista Cláudia, e eu topei. Cheguei lá e achei aquilo muito difícil. Então resolvi fazer uma pós-graduação em Educação Sexual, em 2001. A ideia era que o curso me ajudasse a ter desenvoltura para tratar o tema que é um tabu na nossa cultura: a sexualidade. Depois da pós-graduação, lancei o meu primeiro livro. Hoje estou na quarta publicação. Comecei a dar palestras Brasil afora como educadora sexual. Faço isso até hoje. O público abrange jovens, adultos e pessoas da terceira idade. Ao final das palestras, as pessoas me pediam que as atendesse em consultório. Mas quem faz isso é somente um médico ou um psicólogo. Então fui estudar psicologia como segunda formação. Hoje atendo no meu consultório, em São Paulo, jovens, casais, adultos e pessoas da terceira idade. Além disso, escrevo colunas, mantenho meu site, participo de redes sociais e continuo o meu trabalho como educadora sexual. Houve preconceito quando você fez essa ponte entre o jornalismo e a sexualidade? Não... Pelo menos, em relação à minha decisão não houve. Mas o assunto é tabu. Sexualidade é algo difícil de ser abordado na sociedade em geral, seja na escola, nas empresas, em casa, seja entre os casais. Nesse


Divulgação

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sentido, nós, educadores sexuais, tivemos que desbravar espaços. Nesse evento mesmo, é a primeira vez que vem uma sexóloga. Cada vez mais, os espaços se abrem para que nós possamos falar desses assuntos de forma franca, objetiva e esclarecedora. Falando em espaço, como é marcar presença e abordar essas questões na TV aberta? É uma delícia. A TV aberta é um espaço bacana para fazer educação sexual. Além do mais, os jovens são muito divertidos! As dúvidas que eles levantam no programa nunca são questões deles. A brincadeira é sempre do amigo (risos). O clima descontraído e o bom humor que cercam o meu quadro no Altas Horas facilitam o esclarecimento de dúvidas e a assimilação do tema e permitem que eu possa abordar de forma natural esses assuntos tão difíceis e delicados. A apresentadora Fernanda Lima também se vale do clima descontraído e do humor para falar do

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assunto. O que você acha da atuação dela no programa Amor & Sexo? A Fernanda e qualquer pessoa que aborde a questão da sexualidade na mídia – seja em um programa de TV, de rádio, seja em uma matéria como essa – fazem algo muito positivo. Afinal, é assim que ampliamos as formas de tratar o tema. A Fernanda, especificamente, trata de sexo de um modo particular e muito divertido. Houve alguma situação ou pergunta que chegou a deixar você sem reação ou sem resposta? Não... Ninguém sabe tudo sobre sexo. Não somos perfeitos. Mas, em geral, as perguntas têm resposta. Até mesmo dizer ‘não sei, vamos pesquisar’. Isso eu recomendo muito para os pais. Eles não precisam saber todas as respostas. Se esses pais abrirem o campo para o diálogo e não souberem esclarecer determinadas dúvidas de seus filhos, eles podem e devem ter a atitude de buscar conhecimento.


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Em que pontos você percebe evolução no debate sobre a sexualidade? O primeiro deles é que estamos mais abertos para discutir o assunto. Tanto é assim que começamos a debatê-lo, pela mídia, em determinados espaços. Quando nós olhamos para o sexo de forma mais aberta, isso passa a nos transformar, permitindo que nós possamos viver cada vez mais uma sexualidade saudável, responsável e prazerosa. Mesmo com o maior acesso à informação, a sexualidade ainda sustenta muitos tabus entre os jovens? Sustenta e não só entre os jovens. Entre os adultos e as pessoas da terceira idade, a sexualidade ainda é cercada de mitos. Nós já estamos muito diferentes em relação à época dos nossos avós e bisavós, mas ainda temos um caminho grande a percorrer. Entre a juventude, é comum surgirem dúvidas sobre a iniciação sexual e como evitar e lidar com a gravidez precoce e as doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, a virgindade continua sendo um assunto delicado para debater, embora menos que em outras décadas. E entre os adultos, quais são as dúvidas mais frequentes?

ereção no Brasil e no mundo, a terceira idade vem promovendo uma corrida aos consultórios em busca de resgatar o prazer. Isso foi bastante positivo. Ainda há muito preconceito da sociedade com a terceira idade e das pessoas nessa faixa etária em relação a elas mesmas. Mas o idoso pode e deve viver o sexo, o amor e o afeto a vida inteira. Basta ele sentir desejo. Você tem expectativa de lançar mais um livro em breve? A minha publicação mais recente, o “Educação Sexual em 8 Lições – Como Orientar da Infância à Adolescência”, foi lançada em junho passado, em São Paulo. O livro é um guia que fala para professores e pais como fazer uma educação sexual de qualidade das crianças aos adolescentes. Aqui em Minas, o livro escolhido para o bate-papo foi o “Altos Papos sobre Sexo”, até porque a obra abrange uma maior parte da população. O livro é voltado para um público entre 18 e 80 anos. O próximo, que deve sair no ano que vem, é uma reflexão sobre como anda a sexualidade brasileira no mundo adulto.

“Adoro fazer o que eu faço. Eu me sinto realizada como educadora sexual e é nisso que pretendo seguir trabalhando”

O universo adulto tem como principais questões os problemas sexuais, como a diminuição do desejo e as dificuldades para atingir o orgasmo. Os homens dessa faixa etária geralmente se preocupam com a ejaculação precoce e as dificuldades de ereção. As mulheres sofrem com as dores durante a penetração. Talvez em função de séculos de repressão sexual, elas mantenham muitos tabus em torno da masturbação. Por exemplo: um terço das mulheres acha feio ou sujo se masturbar e enfrenta dificuldades para chegar ao orgasmo. Agora, de modo geral, há desinformação no que diz respeito à homossexualidade, que não é doença nem, muito menos, algo de errado. Ainda temos tabus em relação à prática de sexo na terceira idade, ao sexo anal, oral e a outras práticas sexuais. Como é trabalhar a sexualidade na terceira idade? Desde 1998, quando chegaram os medicamentos para

É desejo seu ter um programa próprio na televisão ou no rádio?

Olha: eu adoro fazer o “Altas Horas”! No rádio, às vezes faço umas pílulas e ensaios. Adoro também. Eu estou no “Altas Horas” desde 2007. O programa é um espaço muito bacana. O Serginho [Groisman] comunica maravilhosamente bem. Os jovens adoram assistir ao programa. Eu estou muito feliz de ter esse quadro por lá. Se for aliada a essa inserção no programa e se eu puder ter outra coisa, estaria aberta para analisar. Mas o “Altas Horas” é um cantinho que eu adoro fazer. Enquanto for possível trabalhar nesse quadro, eu pretendo ficar por lá. Se você não fosse sexóloga, gostaria de atuar em que área? Agora nada me ocorre. Fiz tanta coisa na vida. Fui jogadora profissional de vôlei, trabalhei com jornalismo, agora sou psicóloga e especialista em sexualidade. Adoro fazer o que eu faço. Eu me sinto realizada como educadora sexual e é nisso que pretendo seguir trabalhando. | 11


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Lucas Alvarenga

O século do Judiciário Cada vez mais incitado a julgar questões de ordem social e política, Justiça brasileira cria um embate com os demais poderes do Estado Lucas Alvarenga 12 | www.voxobjetiva.com.br


metropolis

A inércia na proposição e aprovação de leis e políticas públicas é um fenômeno que perdura, sobretudo no Brasil. A atuação do Executivo e do Legislativo nem sempre acompanha a evolução da sociedade brasileira e das demandas contemporâneas. Discussões de temas como a eutanásia, a descriminalização das drogas e o aborto do feto anencefálico foram, ano após ano, negligenciadas pelo Congresso e acabaram entrando na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF), antes menos incitado a responder questões como essas. Assim, assuntos da esfera política foram se tornando, aos poucos, habituais no dia a dia do Judiciário nacional.

não poderiam exercer mandato político eletivo. Uma posição que desagradou o Congresso, responsável por impor a perda do exercício parlamentar. No dia 24 de abril deste ano, o desentendimento entre Legislativo e Judiciário atingiu seu ápice. Na data, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou a suspensão do projeto de lei que restringia recursos e tempo de propaganda para novos partidos, caso parlamentares migrassem para legendas recém-criadas. A decisão foi uma resposta à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, que aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 33. Por meio dela, as decisões do STF sobre a inconstitucionalidade de emendas seriam submetidas ao Congresso Nacional.

“Antigamente havia uma supremacia do Parlamento, que resolvia as questões sociais por meio da lei. Hoje há uma inibição de pagar o custo social e desagradar algum eleitor”

Se por um lado as questões de ordem social encontraram ressonância em uma importante função do Estado, por outro a atuação do Judiciário além das suas O papel da Constituição atribuições vêm gerando um mal-estar quase incontorLuiz Fux, ministro do STF Pós-doutor em Ciência nável, principalmente com Política pela Universidade o Legislativo. “Enquanto o de Bolonha, na Itália, Eduardo Meira Zauli acrediCongresso segue em insana letargia, a via judicial, ta que o fortalecimento do Poder Judiciário em face a menos adequada, promove as mudanças que lhe das demais funções do Estado é um fenômeno em vêm à telha, ocupando diversas áreas, da legiscurso. “Há tempos expressões como ‘democracia lação eleitoral ao casamento homoafetivo”, dejudicial’, ‘governo dos juízes’ e ‘juristocracia’ veem clarou à imprensa o ex-ministro de Ciência e sendo utilizadas nas análises sobre o papel proTecnologia, Roberto Amaral. eminente das instituições judiciais nas democracias contemporâneas”, ilustra o também Em visita a Belo Horizonte, o ministro do STF Luiz professor do Departamento de Ciência PolíFux foi categórico ao rechaçar as críticas à atuatica da Universidade Federal de Minas Gerais ção política do Supremo e lembrou que o Judici(UFMG). ário é uma função do Estado que só atua quando é provocado. “Antigamente havia uma supremacia Com o advento da Constituição Cidadã de do Parlamento, que resolvia as questões sociais por 1988, as três funções do Estado encamparam meio da lei. Hoje há uma inibição de pagar o custo novas atribuições, segundo Eduardo Martins de social de desagradar algum eleitor. Como os juízes Lima, reitor da Faculdade Mineira de Educação e não são eleitos, nem devem satisfação a eleitores, o Cultura (Fumec). Doutor em Sociologia e Ciência Congresso transfere para uma instância que não Política pela UFMG e bacharel em Direito pela próé política um problema que é político”. pria Fumec, Lima ilustra que, desde a promulgação do novo texto constitucional, o Legislativo pôde inAs rusgas entre o Judiciário e o Legislativo se torterferir no orçamento da União, enquanto ao Exenaram evidentes com a condenação dos acusados cutivo foram conferidos direitos de emitir leis delede envolvimento com o Mensalão. Juízes como Fux gadas e criar medidas provisórias com força de lei. exteriorizaram no julgamento que, uma vez condeMas coube ao Judiciário um atributo especial: ser nados, nomes como José Genoíno (PT) deveriam ter o grande intérprete e guardião da Constituição. os direitos políticos suspensos automaticamente e | 13


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Raízes da judicialização

Político ou ativista? Indagado por parlamentares sobre uma possível atuação política do Judiciário, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, tratou de estabelecer uma separação entre semelhantes. “A judicialização e o ativismo judicial são primos. Vêm da mesma família, frequentam os mesmos lugares, mas não têm as mesmas origens”. Para o ministro, o processo da judicialização no Brasil não se trata de um exercício deliberado de vontade política. Eduardo Martins de Lima, reitor da Fumec, concorda com o magistrado. “A Constituição acaba levando assuntos de fundo político para que o Judiciário tome decisões. Diante desses fatos, o juiz tem que atuar judicialmente”. Na outra ponta aparece o ativismo judicial, atitude que advém da ineficiência do Legislativo – na produção das leis – e do Executivo – na formulação de políticas públicas sociais. De acordo com Lima, especialista na relação dos três poderes no Brasil, o ativismo gera uma atuação que não se esperava do Judiciário em todas as instâncias. “Diante de uma lei mal formulada e de uma política pública mal executada, a cidadão recorre ao Poder Judiciário como a última palavra, sobretudo, para resolver problemas de desamparo na área de saúde e da assistência social”, ressalta.

Em sua tese sobre a judicialização da política, Zauli observa que o texto constitucional de 1988 trouxe uma preocupação com o direito à jurisdição. “Trata-se de assegurar a todo cidadão brasileiro o direito de recorrer à Justiça. De pedir ao Estado brasileiro que exerça sua obrigação de dirimir eventuais conflitos de interesses por meio da aplicação do Direito”. Esta mudança permitiu ao Ministério Público – considerado por alguns juristas como o ‘quarto poder’ – e à Defensoria Pública potencializar o acesso à Justiça e garantir que os interesses do cidadão fossem protegidos por parte do Estado. 14 | www.voxobjetiva.com.br

A maior participação do Judiciário nas questões sociais revela tanto para Lima quanto Zauli um maior empoderamento dessa função do Estado. Se por um lado a Constituição Federal contribuiu fortemente para este cenário, por outro as modificações sofridas no pensamento de Montesquieu foram fundamentais para o arranjo democrático atual. “A concepção dominante da função judicial é, nos dias de hoje, profundamente distinta daquela de Montesquieu, que considerava os juízes como sendo a ‘boca da lei’. Lei esta elaborada e aprovada pelo Poder Legislativo”, distingue Zauli. A separação dos três Poderes, pensada no Iluminismo, foi mais tarde associada à doutrina dos freios e contrapesos (checks and balances), proposta pelos antigos federalistas dos Estados Unidos. A junção de ambas provocou uma complexa interação entre os órgãos integrantes de cada poder. “Com a teoria dos freios e contrapesos, a autonomia entre os poderes continuou existindo. Eles sozinhos bastavam para existir e funcionar. No entanto, cada função passou a ter o dever de fiscalizar o desempenho das outras. Um exemplo são os Tribunais de Contas, que acompanham os gastos do Executivo”, esclarece Lima.

Imparcial até quando A fusão das teorias francesa e norte-americana produziu um cenário onde o Poder Judiciário, antes mero executor das leis, tornou-se intérprete delas. “Hoje em dia, a Justiça reconhece que a aplicação das normas requer todo um esforço interpretativo por parte do juiz, admitindo-se a intervenção de sua subjetividade, ainda que submetida a certos controles”, avalia Zauli. Embora interpretativa, a Justiça não pode ser considera neutra. “Neutro é aquilo que não dá a menor importância a um lado e outro. Eu prefiro dizer que os juízes têm que ter uma postura de imparcialidade, que leva em conta não se posicionar, a priori, por essa ou aquela parte”, argumenta Lima. A fim de garantir a imparcialidade, a Justiça toma como procedimentos decidir impasses por meio de juízes independentes advindos de órgãos judiciais estabelecidos; agir conforme as normas preexistentes; assegurar a apresentação de provas e testemunhas por parte dos réus e agir somente quando for incitado a dirimir conflitos. Apesar do esforço pela imparcialidade, Zauli observa que as cortes judiciais desempenham uma


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função política, ainda que não partidária, tanto no Brasil quanto fora dele. “Por meio de uma sentença, o juiz reconhece uma das partes como portadora de um direito que é negado à outra. Portanto, a imparcialidade do juiz termina no momento em que profere uma decisão. Ainda que isso não signifique arbítrio”, pondera o cientista político da UFMG. A Constituição Federal rege que o Judiciário deve atuar sempre que provocado a se manifestar sobre a lesão ou ameaça aos direitos do cidadão. “Veja o caso do Mensalão. O STF teve uma atuação técnica diante do caso. Ainda que se diga que havia uma pressão enorme da opinião pública pelo fim da impunidade. Mas isso todos nós esperávamos há muito tempo”, avalia Lima. Segundo o reitor da Fumec, desde 1988, os julgamentos têm sido em benefício de um Estado mais social e justo e menos favoráveis ao Governo.

O papel da judicialização Enquanto os cidadãos recorrem ao Judiciário em busca de proteção, os poderes Executivo e Legislativo são vistos de forma cada vez mais negativa por parte dos brasileiros. A análise de Zauli parte do princípio de que, sobretudo o Legislativo, visto como submisso ao Executivo, não conta com representantes à altura de desempenharem adequadamente a função para a qual foram eleitos. Lima salienta que por terem um

perfil técnico, os juízes, na grande maioria das vezes, evoluem na carreira por mérito, tempo de serviço e domínio do mundo jurídico. Neste embate entre o Judiciário e os demais poderes, o conflito de interesses se torna nítido. Segundo Zauli, mesmo que um partido disponha de maioria parlamentar e ocupe a chefia do Executivo, ele não está autorizado a ignorar os preceitos constitucionais. “Observa-se que a judicialização de temas com nítido conteúdo político ocorre em virtude de uma ação ou da omissão dos poderes Executivo e/ou Legislativo, contrariando um mandamento legal. Por isso, a atuação corretiva da Justiça é vista, muitas vezes, como inconstitucional ou ilegal por desses representantes populares eleitos”. Diante deste cenário, Lima acredita que, no Brasil, este seja o século do Judiciário. Conforme o reitor da Fumec, lá fora a Justiça não entra em polêmicas como aqui. Especialmente na Europa, há tribunais específicos para assuntos constitucionais e um Supremo para o trâmite judicial comum. “No Brasil, o Judiciário tem se destacado muito e não é por opção dos magistrados que estão no STF, mas em função da atribuição constitucional e por ineficiência do Legislativo e do Executivo. Acredito que o Judiciário ainda vai dar muito o quê falar. Ele tem fortalecido o processo democrático e a proteção da sociedade”, projeta Lima.

Ministro Ricardo Lewandowski, Marco Maia (PT) e Dilma Rousseff: representantes do Judiciário, do Legislativo e do Executivo debatem na Câmara Carlos Humberto/SCO/STF

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Artigo

Política

Sem reformas e com muito pó

Paulo Filho Jornalista e consultor de Comunicação Social paulo.filho@voxobjetiva.com.br

“Se o governo do PT

não se mobilizou até aqui pela reforma política, não será num futuro (e provável) governo Dilma que o fará. Quanto aos outros candidatos e partidos que se colocam no cenário, acreditar que a bandeira da reforma política será mais do que um estandarte é como acreditar em contos da carochinha

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Perdida a “mãe” de todas as reformas —a reforma política, o que pode nos contentar são os pequenos avanços entre os sobrepassos da ainda insegura (quase incipiente) democracia brasileira. Se o governo do PT não se mobilizou até aqui pela reforma política, não será num futuro (e provável) governo Dilma que o fará. Quanto aos outros candidatos e partidos que se colocam no cenário, acreditar que a bandeira da reforma política será mais do que um estandarte é como acreditar em contos da carochinha. Assim, vamos nos contentando com o pouco que é possível para conseguirmos avançar. Enquadra-se nesse caso a posição que o Supremo Tribunal Federal (STF) pode tomar a respeito do financiamento e das doações para campanhas eleitorais (o STF, porque, mais uma vez, o congresso não deu conta). No debate, um ponto central: proibição de doações de pessoas jurídicas e o consequente financiamento público das campanhas. Mais dinheiro público para sustentar partidos e candidaturas não cabe a essa altura do campeonato e a imensa maioria da população tem se manifestado dessa forma. Além do que, o Fundo Partidário, uma montanha de dinheiro que sai do bolso do contribuinte, já é dinheiro público mais do que suficiente para que os partidos e suas campanhas existam. Quanto às doações de empresas a candidatos, essa situação é uma aberração que macula o processo democrático. Doações de empresas são sempre vinculadas a compromissos. Concessionárias de serviços públicos, bancos e grandes prestadores de serviços aos governos (empreiteiras especialmente) são, indiscutivelmente, os principais interessados e maiores doadores para “campanhas amigas”. É também praxe que as doações de pessoas jurídicas favoreçam quase sempre quem está no poder ou quem “vai ganhar” —campanhas de oposição costumam ser tratadas à míngua. É de bom alvitre, para que as disputas eleitorais não percam totalmente o sentido ideológico e busquem uma participação mais incisiva do cidadão no processo, que mantenha-se o direito às doações de pessoas físicas, obviamente que com um teto definido. Se alguém acredita em um discurso ou um projeto, que possa contribuir com ele.

O helicóptero do pó Em primeiro lugar, não é correto dizer que o helicóptero dos “Perellas” foi preso com meia tonelada de cocaína. O senador Zezé e seu filho, deputado estadual Gustavo, não são perellas. A apropriação desse sobrenome foi uma esperteza que ajudou na conquista da presidência do Cruzeiro Esporte Clube, agremiação fundada pela colônia italiana em Belo Horizonte. Deselegante e inconveniente. Quanto à situação política dos dois, mesmo que não se comprove a ligação com o tráfico de drogas, a cassação dos mandatos, ou de pelo menos o mandato do deputado, é mais do que justificável: salário do piloto e combustível da aeronave pagos pela Assembleia de Minas e a utilização do helicóptero para ‘fretes’, uma atividade rentável, sem autorização e sem recolher os impostos devidos, são motivos mais do que suficientes para a cassação.


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começar de novo

Programa do Instituto Minas pela Paz e do governo de Minas abre horizontes para a reinserção de egressos do sistema prisional na sociedade por meio do trabalho André Martins Fotos de Lucas Alvarenga O dia 21 de setembro de 2010 promete permanecer guardado por muito tempo na memória de Mayko Harold Moreira, de 30 anos. Após cumprir sete anos e 11 meses de prisão, de uma pena total de 13 anos e oito meses, o jovem, enfim, se deparava novamente com a liberdade. O bom comportamento ao longo do cárcere possibilitou a ele sair diretamente para o sistema de pena condicional, excluindo o período do chamado regime semiaberto – quando o detento tem de retornar à unidade prisional para passar a noite. Ao colocar os pés para fora da penitenciária Nelson Hungria, o jovem estava certo de que o seu modo de pensar e o mundo haviam mudado. Na cabeça, apenas um pensamento: retomar a vida de forma digna e honesta. Falar sobre o passado não causa desconforto em Mayko. Não que ele tenha orgulho dos delitos que o levaram a experimentar a privação de liberdade durante tanto tempo. É a possibilidade de provocar uma reflexão sobre o contraste entre o passado e o presente dele que o motiva a falar com desenvoltura sobre parte de sua história. “Comecei no crime muito novo, com apenas 18 anos de idade. As ditas ‘amizades’, as más companhias, acabaram me influenciando. Então

conheci a droga, a ostentação e, como não tinha dinheiro para manter aquela vida, comecei a roubar”, conta. Do primeiro crime até o completo acerto com a Justiça, as coisas mudaram por completo. Hoje Mayko se dedica ao trabalho na Masb Desenvolvimento Imobiliário, empresa de construção civil. Ele trabalha das 7h às 18h, atuando em diversas frentes. Aos poucos ele vai acumulando bagagem profissional, enquanto projeta um futuro cada dia melhor. “A minha intenção é me consolidar na empresa e de crescer profissionalmente”, revela. De acordo com a coordenadora de Recursos Humanos da Masb, Henriqueta Chaves, o retorno tem sido positivo. “Nesses seis meses que o Mayko está conosco, ele tem demonstrado muita vontade de aprender e crescer como profissional. Ele reforça também, a todo momento, o arrependimento pelo que aconteceu. As possibilidades dele na empresa dependem unicamente dele”, evidencia. A oportunidade na empresa surgiu com o programa Regresso, iniciativa que proporciona | 17


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a qualificação profissional e a reinserção de egressos do sistema prisional mineiro comum e das Associações de Assistência e Proteção aos Condenados (Apacs) no mercado de trabalho. O programa é uma parceria entre o Instituto Minas pela Paz, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), o Tribunal de Justiça (TJMG), a Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados, o Serviço Social da Indústria (Sesi) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), os dois últimos integrantes do Sistema Federação das Indústrias de Minas Gerais (Sistema Fiemg). A lógica de funcionamento do programa é simples, mas envolve muita gente. Equipes do Instituto Minas pela Paz e do Programa de Inclusão Social de Egressos do Sistema Prisional (PrEsp), da Seds, são os protagonistas do programa. Enquanto o primeiro trabalha sensibilizando e capitaneando empresas parceiras e postos de trabalho, o segundo recebe inscrições de interessados e tenta encaminhá-los para a oportunidade mais adequada, de acordo com as aptidões e o histórico laboral de cada um.

voltados para serviços para os quais existe demanda”, explica Maurílio Leite Pedrosa, diretor de Defesa Social do Instituto Minas pela Paz. Presente desde 2009 em 11 municípios de Minas, o programa Regresso já encaminhou mais de 750 egressos às mais de 40 empresas parceiras – a maioria delas do setor da construção civil. De acordo com Daniela, o retorno alcançado com o programa vai além dos benefícios para os egressos. “É muito bonito ver pessoas conseguindo se reerguer, abrir mão de um tempo em que elas ganhavam bem mais, por meio do crime, para receber um salário-mínimo,... tudo isso com o objetivo de se reconstruir aos poucos”, opina. “Hoje eu faço o que eu posso, dentro das minhas condições. Tudo mudou bastante. Só de saber que o que tenho e posso fazer são conquistas conseguidas com o meu suor, é algo para comemorar muito”, diz Mayko. Ele com-

“No PrEsp, o egresso é atendido por uma equipe multidisciplinar composta por advogados, psicólogos e assistentes sociais. Muitas vezes, antes de encaminhar o egresso para o trabalho, é necessário resolver algumas questões, como a dependência química de alguns. São problemas que podem dificultar a entrada em uma empresa”, revela Daniela Tiffany Prado de Carvalho, coordenadora do PrEsp. Se o encaminhamento for bem-sucedido, o indivíduo é acompanhado ao longo de um ano por equipes da Seds. Caso a contratação não aconteça, o PrEsp levanta os critérios de avaliação utilizados pela empresa na entrevista e, a partir desse retorno, o egresso é orientado para que a próxima tentativa tenha êxito. Para ampliar as possibilidades de contratação, os egressos podem passar por cursos de qualificação. “Calculamos que mais 2,5 mil pessoas fizeram curso de formação educacional no Sesi, concluíram os ensinos Fundamental e Médio por meio do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) nas Apacs ou fizeram cursos de capacitação profissional pelo Senai. São cursos para a formação de pedreiros, carpinteiros, soldadores, profissionais de informática, etc. Nós focamos em cursos

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Depois de ter várias oportunidades profissionais negadas, Mayko está empregado e desfruta da liberdade, após quase oito anos preso


metropolis

O juiz Thiago Cabral; Daniela Tiffany; o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Márcio Túlio Viana e Maurílio Pedrosa em evento do PrEsp

parece regularmente às reuniões e palestras promovidas pelo Minas pela Paz e pela Seds para encorajar jovens que estão na posição que um dia foi ocupada por ele.

Estímulo Conseguir uma oportunidade no mercado de trabalho está longe de ser tarefa fácil para egressos de sistemas prisionais. O acesso ao trabalho, um direito previsto na Constituição Federal, nunca deveria ser tolhido, independentemente de acontecimentos pregressos que marcaram a vida de um indivíduo. Mas a realidade é outra. O acesso acaba sendo prejudicado pelo preconceito. “Eu cheguei a entrar em algumas empresas quando saí da ca d e i a , m a s s e m p r e e x i g i a m um atestado de bons antecedentes para a contratação, e era aí que eu perdia”, lembra Mayko. Diante de tantas negativas, a reincidência criminal pode ser encarada como o caminho mais fácil para conseguir meios de subsistência. É por isso que Pedrosa acredita ser fundamental abrir o maior leque de oportunidades possíveis àqueles que pensam em recomeçar. “Há muitos que preferem continuar na criminalidade. Isso é livre-arbítrio. Mas existem aqueles

que querem levar uma vida correta, e nós queremos trabalhar com esses. Paralelamente a esse trabalho, queremos mudar a visão de revanche da sociedade. Ainda há muito preconceito. Queremos fazer com que esse egresso possa construir uma vida diferente”, revela. Em 2009, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou um projeto de lei para fomentar as contratações de egressos. A proposta estabelece uma subvenção com recursos da Seds paga trimestralmente às empresas contratantes. Este ano, essa subvenção passou a ser de dois salários-mínimos mensais por contratado nos primeiros 24 meses de trabalho. Nas empresas, geralmente, as informações sobre o histórico de vida dos egressos são mantidas em sigilo para preservar a imagem deles em relação aos demais empregados. Na primeira quinzena de dezembro, experiências de representantes de empresas privadas, gestores públicos e egressos ganharam destaque em um evento promovido em Belo Horizonte pelo Instituto Minas pela Paz e pela Seds, no auditório da Fiemg, no bairro Funcionários. Boas e inspiradoras histórias certificam que a recuperação é uma possibilidade real. “Quando trabalhava na Vara de Malacacheta, quis que um apenado, o Davi, assumisse uma vaga disponível por lá. Mas descobri que a Vara pedia o

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atestado de bons antecedentes. Aí fiquei sabendo da vaga em um laticínio e pedi ao dono do local que empregasse alguém da minha confiança. Quando ele ficou sabendo que era um apenado, condenado por homicídio, não quis empregá-lo. Insisti e disse que se ele comete algo, o carro da polícia apareceria por lá em minutos. Algum tempo se passou e, quando saí de lá para Governador Valadares, fiquei sabendo que o Davi foi eleito o melhor funcionário da empresa. Isso dá um orgulho danado!”, comentou o juiz da Vara de Execuções de Governador Valadares, Thiago Colnago Cabral.

Fator de transformação Projetos de auxílio a detentos ou a ex-detentos não se restringem ao programa Regresso. Também chama a atenção a iniciativa da Associação Arte pela Paz, criada há 12 anos com o objetivo de trabalhar a formação de jovens e crianças por meio da arte e da cultura. Há nove meses, a associação ampliou seus serviços, passando a contribuir com a recuperação daqueles que estão ou estiveram em conflito com a Lei. “Nossa ideia é apresentar a arte e a cultura como temas transversais à educação. Dessa forma,

estimulamos o resgate de virtudes, como o respeito e a tolerância”, explica o diretor da associação, Anderson Alves Martins. Em 45 unidades prisionais de Minas são promovidas aulas semanais de dança de rua, instrumentos musicais, artesanato, dentre outros. Cada unidade recebe uma ação, de acordo com a estrutura e a segurança locais. Podem participar das aulas homens ou mulheres que cumprem penas nos regimes fechado ou semiaberto. Eles devem apresentar bom comportamento e estar trabalhando ou estudando. A iniciativa tem dado frutos. No início de dezembro, um CD de 12 faixas foi gravado por 16 talentos descobertos dentro de unidades prisionais do estado. Cantores reconhecidos, como Paulinho Pedra Azul e o Padre Fábio de Melo, foram convidados para participar do projeto. De acordo com Martins, o programa dentro dos presídios tem despertado os detentos para o futuro. “A partir desse trabalho, esses homens e essas mulheres têm conseguido alcançar novas perspectivas de vida e planejado a inserção no mercado de trabalho assim que cumprirem suas penas”, conta. O projeto conta com a parceria da Seds.

Pinturas feitas por detentos do sistema prisional mineiro em aulas de arte e cultura promovidas pela Associação Arte pela Paz

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Artigo

Justiça

2014: um ano eletrizante Copa do Mundo, eleições e mensalões. O ano de 2014 será inesquecível. Nunca antes na história deste país uma conjunção de fatores que geram passionalidade ao extremo esteve tão próxima. O resultado dessa mistura de pura nitroglicerina é imprevisível... Comecemos com os mensalões: o julgamento da Ação Penal 470 já entrou para a história do Brasil pelas circunstâncias em que foi julgada e por ter gerado tanta polêmica, simbolismos,... O poder econômico foi utilizado perversamente pelos partidos e por operadores políticos para compor o caixa dois de campanhas e de partidos. Tomara que os desdobramentos da Ação Penal 470 sinalizem para uma possibilidade real e efetiva de punição dos financiadores ocultos de campanhas. No ano que vem teremos o julgamento dos embargos infringentes. Será que Joaquim Barbosa, o senhor das leis — como foi estampado em capa de certo folhetim nacional — vai continuar incólume a processar a ‘justiça’? Mas o fato novo e mais aguardado será o julgamento do Mensalão Tucano destas Alterosas. Será que vai valer aquele velho ditado segundo o qual ‘pau que bate em Chico, bate em Francisco’? E a Teoria do Domínio do Fato? Será aplicada indistintamente doravante ou vai se configurar em um oportunismo jurídico usado para a eleição de bodes expiatórios? O fato é que, se não houver uma reforma política que mude a lógica de financiamento das campanhas eleitorais no Brasil, os mensalões vão continuar envolvendo os partidos e os financiadores de campanhas eleitorais. E a punição de alguns, se for necessária, não será suficiente para mudar a cultura política da ladroagem. Quando se trata de corrupção, é preciso lembrar uma coisa: quando há corruptos, sempre há corruptores. A corrupção é uma engrenagem que só funciona quando vários atores se associam. Políticos, empresários, construtoras, banqueiros, geralmente contam com a omissão e/ou a conivência da Justiça e a cumplicidade da sociedade. Não sejamos ingênuos de pensar que essa engrenagem será desmontada magicamente a partir de agora. Outra pergunta que não quer calar: teremos novas ‘jornadas de junho’? Será que os eleitores e os movimentos sociais estão contentes com as respostas que as instituições republicanas processaram em relação aos clamores populares ocorridos em 2013? E a Copa do Mundo? Vai se transformar em um evento popular ou em uma festinha para os homens e as mulheres de bens? O futebol vai continuar a exercer o fascínio capaz de eclipsar as mazelas nacionais? Para quem gosta de fortes emoções, 2014 terá todos os ingredientes para se tornar um ano inesquecível na ‘república das bananas’ — para a alegria dos gringos e o deleite dos analistas de plantão.

robson Sávio Reis Souza Filósofo e cientista social robsonsavio@yahoo.com.br

“Quando se trata de

corrupção, é preciso lembrar uma coisa: quando há corruptos, sempre há corruptores. A corrupção é uma engrenagem que só funciona quando vários atores se associam

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No limiar da consciência

Empregada em várias áreas da saúde, a hipnose continua sem regulamentação. Técnicas podem auxiliar em cirurgias e em tratamentos pós-traumáticos Lucas Alvarenga Cesare é um sonâmbulo usado como acompanhante por doutor Caligari, um italiano que deseja promover um espetáculo em uma feira no montanhoso vilarejo de Holstenwall, na Alemanha. Caligari afirma que Cesare, em sono profundo há 25 anos, é capaz de prever o futuro. A história de ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ (1920), clássico do cinema expressionista alemão, traz as alucinações de Francis. O doente mental acredita que o personagem título da obra de Robert Wiene é um hipnotizador, que dá ordens para que seu paciente acorde de um transe e cometa assassinatos em série. Tratada pejorativamente no filme, a hipnose é hoje prática regulamentada pelos Conselhos Federais de Medicina, Psicologia, Odontologia e Fisioterapia e atua como auxiliar a uma série de tratamentos e solução, inclusive, para pessoas com resistência à anestesia ou que sofreram violência sexual. Mas a discussão científica da prática começou apenas em 1887, com o médico austríaco Franz Mesmer. Discípulo dele, Freud utilizou a hipnose anos depois para tratar pacientes com histeria. Mas foi com o psiquiatra norte-americano Milton Erickson que as técnicas clássicas da hipnose ganharam nova roupagem e ampla aplicação. “A hipnose é indicada para problemas de saúde mental, emocional e física. Ela é capaz de ajudar no tratamento de doenças como a Aids, o câncer, a tuberculose, os problemas cardíacos, respiratórios, digestivos, alérgicos, dermatológicos. Além disso, a prática auxilia vítimas de bullying e colabora para o combate a transtornos alimentares, vícios como o bruxismo e fobias como o medo de avião e o pânico frente ao dentista”, enumera Marco Paulo Alvim Reis, mestre em Psicoterapia Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do México. Apesar da associação à Hypnos, deusa grega do sono, hipnose é um estado alternativo da consciência, denominado transe. O fenômeno consiste na fixação da atenção 22 | www.voxobjetiva.com.br

em um ponto, deixando que o inconsciente aflore e o sujeito hipnotizado fique mais receptivo a sugestões. Com quase 40 anos de experiência com hipnose, Reis explica que a prática se baseia em preceitos científicos oriundos de pesquisas nas áreas da medicina e da psicologia, mas que transe hipnótico é um fenômeno natural. Segundo o mestre em Psicoterapia Ericksoniana, na maioria das vezes, o tratamento se estende por 12 a 30 sessões, sendo uma por semana. “Em geral, cada sessão dura uma hora e o hipnotizado se sente confortável, como se estivesse na fronteira entre o dormir e o acordar”, ilustra. Especialmente na hipnoterapia, usa-se a chamada “conversa hipnótica”. A técnica consiste em induzir o cliente ao transe por meio de uma dicção mais lenta, pausada e pela acentuação de certas palavras. Relógios e cristais são hoje em dia técnicas pouco usuais, embora remetam imediatamente à hipnose. Realizada no Brasil por médicos, psicólogos, odontólogos e fisioterapeutas especializados, com formação e treinamento específicos na área, a prática também tem contra-indicações. De acordo com Reis, crianças recémnascidas e pessoas muito idosas ou com doenças mentais e neurológicas graves, como demências, psicoses severas, Alzheimer e Parkinson não devem ser submetidas à hipnose. As técnicas também não têm valia para indivíduos céticos e enfrentadores, como pouca capacidade de criar e imaginar.

Aplicações da técnica Mas se a hipnose trabalha com as memórias do indivíduo e a construção de situações mentais, como apagar, por exemplo, as cenas de uma violência sexual? Para a psiquiatra Célia Martins Cortez, presidente da Associação Brasileira de Hipnose, um paciente pode ressignificar as experiências pessoais por meio da revivificação, também conhecida como a regressão. “A técnica é muito


János Balázs

mais elaborada, mas seus resultados são duradouros. A revivificação é capaz de reprogramar a memória de o indivíduo transportado por meio da regressão a situações vividas, que geraram algum trauma e precisam ser ressignificadas”, aclara Célia. Reis esclarece que para a aplicação de técnicas com a revivificação e sugestões como “de agora em diante, a fumaça do crack terá para você um cheiro terrível de esgoto” é preciso um transe profundo. O mesmo ocorre com aqueles recorrem à hipnose para se preparar para uma cirurgia ou ao fazê-la. O mestre em Psicoterapia Ericksoniana lembra que, exceto para as intervenções cirúrgicas de grande porte, a hipnose é capaz de diminuir ou mesmo desaparecer com certas dores. “Muitas cirurgias podem ser feitas com a hipnose, ficando o doente livre dos efeitos adversos da anestesia química e ganhando uma recuperação mais rápida”. Filho de uma pioneira no uso da hipnoterapia no estado, o consultor Pedro Maia nunca gostou da ideia de ser submetido a uma cirurgia. Há pouco mais de dez anos, porém, o administrador teve precisou retirar com certa urgência um siso que estava deitado e empurrava toda a arcada dentária, gerando bastante dor. A fim de ficar mais tranquilo durante a cirurgia, Maia pediu à mãe, a psicóloga Cláudia Maia, uma recomendação. “Pedi a indicação de uma ex-aluna dela e ela me passou o contato da Maria Luísa. Nós fizemos uma ou duas sessões de preparação antes da minha cirurgia”. Maria Luísa Oliveira de Paula é odontóloga pós-graduada em Análise Bioenergética e especialista em Prótese Dentária. Ela fez parte da primeira turma de hipnose aplicada à Odontologia formada por Cláudia, em 1999, e preparou Maia para a extração do siso. Uma cirurgia complicada, devido à necessidade de cortar o dente em vários pedaços. “A cirurgia foi ótima. Eu mal a vi acontecer. Deitei e ela fez todo o processo da hipnose. Foi super tranquilo. Não cheguei a sentir dor, mesmo tomando apenas metade dos preparos de anestesia”, relata o administrador. Quase 15 anos após o curso realizado com Cláudia, Maria Luísa lembra que na época ela e outras colegas de Odontologia buscavam algo que reduzisse o desconforto e a fobia dos pacientes. Cláudia, que ministrou as aulas em Belo Horizonte, tinha o domínio da técnica da hipnose, mas assim como suas alunas estava em busca da prática em consultório. “Nós caminhamos juntas na busca pela aplicação da hipnose na Odontologia e depois continuamos, junto com outras colegas de curso, em um grupo de estudo sobre o assunto durante anos”, rememora a odontóloga. | 23


As primeiras impressões de Maria Luísa ao aplicar a hipnose no consultório foram ótimas. “A técnica trouxe mais tranquilidade para os pacientes e nós passamos a trabalhar com mais segurança”, confessa. Antes de induzir o transe hipnótico e aplicar a técnica odontológica no paciente, a especialista ressalta a necessidade de se fazer uma entrevista ampla. “Nós chamamos isso de rapport. É o momento que nós esclarecemos ao paciente do que se trata a hipnose, procuramos saber o que ele busca, qual a questão o trouxe até o consultório”. Depois do rapport, o paciente é ensinado a entrar em estado de transe hipnótico, induzidas não só pelo tom de voz, mas também por meio de técnicas como o relaxamento e a respiração. Maria Luísa salienta que este processo é especial nas crianças, por elas, muitas vezes, chegarem a um consultório dentário pela primeira vez. “Quando a criança chega e é induzida à hipnose, ela acaba levando aquilo como um aprendizado e se tornando capaz de saber respirar fundo, fechar os olhos, relaxar o corpo e deixar o cirurgião-dentista

trabalhar. Isso se torna muito natural para elas”, detalha a odontóloga. No adulto, a procura se dá, normalmente, por causas mais concretas, que demandam um pouco mais de tempo. “Eles têm uma questão específica, seja ela uma fobia a ser trabalhada ou a intenção de se preparar para uma cirurgia. Tive procura também por pessoas que tinham vícios como o bruxismo, que é o apertamento dentário”, esmiúça Maria Luísa. Com o maior acesso à informação, o preconceito e os mitos com relação ao uso da hipnose vêm caindo, segundo a odontóloga, e a procura pela prática se mantém aquecida. “Por incrível que pareça ainda há muitos pacientes com fobia”, relata. Hoje, a dentista não se vê atuando sem o uso das técnicas ericksonianas. “Utilizo determinadas falas, técnicas, sugestões de modo geral com os meus pacientes. Isso independente dele ter ido buscar a hipnose ou não. Não que leve todo paciente ao transe hipnótico, mas uso a hipnose indireta para deixar o ambiente mais agradável que o normal”, admite.

7 mitos sobre a hipnose Dependência Inconsciência No transe, a consciência está presente, embora a distração com pensamentos, imagens ou sons possa dar a sensação contrária.

Hipnose é regressão Regressão é apenas um fenômeno hipnótico que pode ser usado quando necessário.

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O hipnoterapeuta sempre deve dar sugestões pós-hipnóticas de autonomia e liberdade ao paciente.

Revelar segredos Mesmo em transe, a mente conserva um sentido de vigilância que resguarda a pessoa.

Não voltar do transe Se a experiência estiver muito agradável, basta esperar algum tempo para o transe virar sono fisiológico e a pessoa acordar.

Tirar vantagem Naturalmente, as técnicas de hipnose só devem ser usadas por pessoas éticas e capacitadas.

Domínio do hipnoterapeuta O hipnoterapeuta é um facilitador que está ao lado da pessoa enquanto o inconsciente dela trabalha. Fonte: Marco Paulo Alvim Reis, hipnoterapeuta


artigo

Psicologia

Criticar para crescer Segundo alguns filósofos, a crítica serve para estimular o pensamento e levar as pessoas a reflexões. Trata-se da dúvida ou da discordância que surge antes de validar ou não certas questões. Kant descrevia a crítica como ‘a arte de discernir’ e o ‘exame aprofundado da validade e dos limites da capacidade do homem’. Sabemos que julgar ou rotular o outro é um dos atos mais instantâneos da nossa mente. Mas a verdadeira crítica vai além do ato de julgar. Deveria contribuir para o crescimento psicossocial, mas culturalmente deixou de ser assim. A crítica se tornou algo nocivo, que maltrata e faz adoecer. Por que isso ocorre? O ato de falar algo com razão, propriedade e profundidade sempre deve ser avaliado antes da exposição da própria opinião ao outro. Pessoas não preparadas para receber determinadas palavras, muitas vezes, sentem-se profundamente desconfortáveis ao perceber, por meio de terceiros, que o caminho tomado por ela eventualmente não é adequado. Mas em grande parte dos casos, mesmo não sendo bem recebida, uma crítica conduzida de forma correta pode ter um potencial incrível de produzir efeitos de muitas mudanças e novas construções. Podemos dizer que os resultados que as críticas podem produzir dependem da forma como são feitas. O sentido positivo da crítica se perde quando ela é exposta em momentos de instabilidade e sob o domínio da raiva. O que deveria ser um conselho passa a ser um xingamento, uma rotulação, um julgamento desnecessário. Portanto, até para criticar é necessário entender a motivação implicada nesse ato. Se não for para fazer o outro pensar, refletir e discernir, deixou de ser crítica. Eis a diferença: criticar é um ato de amor, não um ato de destruição. As sociedades passaram a considerar o termo ‘crítica destrutiva’, mas volto a dizer: o termo ‘criticar’ implica construção que leva a uma evolução. A crítica é capaz de produzir verdadeira interiorização analítica dos pensamentos, da conduta moral, das produções artísticas e intelectuais. Neste novo ano, deveríamos fazer críticas com amor, menos julgamentos e muito menos rótulos devastadores. Aprender a se colocar no lugar do outro e ajudar nas verdadeiras construções emocionais produz benefícios impensáveis para quem pratica. Que, em 2014, possamos produzir construções inteligentes com adequação, respeito e integridade moral. Hoje em dia faltam pessoas que verdadeiramente se preocupem com o bem-estar dos outros e tenham zelo com suas palavras e atitudes.

Maria Angélica Falci Psicóloga clínica e especialista em Sáude Mentala angelfalci@hotmail.com

A crítica é capaz de produzir verdadeira interiorização analítica dos pensamentos, da conduta moral, das produções artísticas e intelectuais

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salutaris

guerra dos sexos

Aplicativo gera polêmica ao possibilitar avaliação de perfis masculinos do facebook. Tão interessados quanto elas, homens buscam auto-afirmação André Martins Reprodução

Ela tem cabelos loiros e cacheados, estatura mediana, um belo sorriso e um hipnotizador par de olhos verdes. Não bastasse tudo isso, é simpática e articulada ao falar. Nota 10! Assim é a jamaicana Alexandra Chong, de 32 anos, responsável pela criação do polêmico aplicativo (app) Lulu. Disponível para os sistemas Android e iOS, o alardeado programa permite às usuárias do facebook avaliarem os contatos masculinos vinculados elas na rede social. O Lulu veio a calhar para muitas mulheres que enxergam nele um mecanismo de resposta àquilo que vários homens fazem quando estão juntos: avaliar pessoas do sexo oposto sobre diferentes aspectos e, digamos, ‘ângulos’. Se a explicação para o uso não parece plausível, elas guardam uma carta na manga: por meio do Lulu, a escolha por um possível parceiro pode ter a margem de erro reduzida. Uma pesquisa apurada sobre qualidades e defeitos de um affair, expostos com muito bom humor na rede, valeria como um conselho de amiga. 26 | www.voxobjetiva.com.br

Ao dar entrada no Lulu, o tom das estratégias de persuasão para angariar adeptas é de pura confidencialidade: “NUNCA postamos nada no seu facebook”, “Veja a nota daquele gatinho que você está a fim”. O sistema funciona, mas o que deveria ser restrito a elas respingou rápido demais no universo masculino, causando revolta e, por que não, curiosidade. Apesar dos rumores que davam conta do lançamento do Lulu, a auxiliar administrativa Débora de Melo, de 19 anos, começou a fazer uso do app mediante o interesse demonstrado pelo namorado dela, o estudante Hermann Viana, de 18 anos. A intenção dele era saber como andava a própria reputação na rede. “Ele me pediu o celular emprestado e instalou o aplicativo. Logo foi procurando a si e aos amigos”, conta. Segundo a jovem, à primeira vista, o app lhe pareceu cruel pela autonomia das mulheres em expor tudo em relação a um amigo, namorado ou ex sem que eles tenham o direito de resposta. “A possibilidade do anonimato dá à mulherada uma coragem absurda”, comenta.


Divulgação/Lulu

Débora tem razão. A opção de avaliar e categorizar qualquer homem sem ser descoberta vem causando muita polêmica. Conversas que eventualmente seriam consideradas apenas ‘papo de mulher’ entre amigas acaba ganhando destaque na rede. Inverídicas ou não, as informações passam a ser disponíveis a quem possa interessar. No fim de novembro, um estudante de direito paulistano entrou na justiça contra o Lulu por ter sido posto à avaliação sem o próprio consentimento. A alegação era de “invasão de privacidade”. Além de problemas de natureza jurídica, o Lulu tem tudo para impulsionar, mais uma vez, os debates sobre a liberdade e os limites na internet. Até pouco tempo, perfis masculinos do facebook eram disponibilizados automaticamente para as avaliações. Não é mais. Desde o dia 16 de dezembro, somente homens cadastrados podem ser alvos da mulherada. Os interessados devem fazer o download do app ou se inscreverem no site onlulu.com. Mas vale a pena levar o programa tão a sério? As hastags utilizadas para a conceituação dos avaliados indicam que não necessariamente. Algumas expressões, como as ousadas #ConquistouMinhaCalcinha, #TemTrêsPernas, dentre outras, levam a acreditar que tudo não passa de uma brincadeira (dependendo do ponto de vista, brincadeiras desagradáveis). A opinião é a da jornalista pós-graduada em Comunicação Organizacional e estudante de MBA em Marketing Digital, a blogueira Laís Lima Menini. “As hashtags são ‘lights’, são pura brincadeira. Se os meninos tivessem senso de humor para lidar com o aplicativo, ele geraria tantos casamentos quanto o Tinder (app recomendado para os que têm como objetivo subir ao altar). E, na boa, se você é homem e ganhou a hashtag #NãoRespeitaAsMulheres, o problema não é com o aplicativo, certo?”, sugere. Mesmo que o clima de descontração prevaleça, Laís acredita que as avaliações possam ser úteis para o aperfeiçoamento dos homens em um relacionamento. Para ela, o tempo de vida útil do Lulu não deve se estender por muito tempo. “As mulheres vão cansar do Lulu antes que meninos adquiram senso de humor para ele”, emenda a blogueira. A revanche masculina veio como um raio. Após o anúncio de que o Tubby, app para a avaliação delas, não passava de boato, uma alternativa real para homens

A criadora do Lulu, Alexandra Chong, negou em diversas ocasiões que o aplicativo tenha sido desenvolvido para promover a vingança

surgiu em solo nacional. O Clube do Bolinha tem a mesma lógica de funcionamento do Lulu. Ao responder uma série de questionamentos sobre determinada figura, o programa atribui uma nota, convertida em quantidade de estrelas. As hashtags também estão presentes. Para os que não ‘superaram’ o Lulu, amargam péssimas cotações e acham que o caso deva ser encarado com seriedade, a solução pode estar no, digamos, oportunista lulufake.com. O site oferece pacotes para a melhoria da reputação na rede. Após a efetuação do pagamento, o sistema libera avaliações positivas feitas por colaboradoras conectadas ao app. As opções de pacotes variam de R$ 24,90 a R$ 99,90. E, acredite, há quem pague pelos planos! Em entrevista a Danilo Gentili, no programa Agora é Tarde, da Rede Bandeirantes, no início de dezembro, Bruno Masi, um dos criadores do sistema, afirmou que, até então, cerca de 2 mil homens já haviam requisitado o serviço.

Ego ferido Para a psicóloga Maria Angélica Falci, o aplicativo requer cuidados e bom senso ao ser consultado. A qualidade da informação conseguida por meio do Lulu seria questionável, pois nas avaliações podem confluir opiniões sensatas e brincadeiras. Ela acredita ainda que as formas de lidar com as opiniões expressadas no Lulu dependam da estruturação psicológica do avaliado. | 27


André Martins

salutaris

Laís não acredita que o Lulu terá vida breve. Ëu e meu namorado nos divertimos muito, mas depois perdeu a graça. Não abro mais o app˜, conta.

“O ser humano necessita de três componentes básicos para a estruturação mental: se sentir aceito, amado e valorizado. A adolescência é uma fase de maior auto-afirmação pela consolidação narcísica. Os adolescentes precisam destes componentes mais nutridos. Com o passar do tempo, os rapazes tendem a amadurecer e a não necessitar tanto deste processo. O que chama a atenção neste aplicativo Lulu é o retrocesso maturacional, a necessidade de homens mais maduros terem uma confirmação mais realística dos seus desempenhos e atributos”, revela.

Tecnologia a serviço da polêmica A jornalista e blogueira Laís Menini tece opiniões sobre o aplicativo e analisa o mercado de desenvolvimento de apps no mundo. Quais os fatores que favorecem o boom da criação de aplicativos? Eu acho que, principalmente, o fato de, hoje, estarmos online praticamente o tempo inteiro. Nos momentos de ‘tédio’, corremos para o celular na tentativa de encontrar algum conteúdo que nos interesse. Além disso, temos mais celulares do que pessoas em alguns países. Por isso, o mercado de aplicativos é ascendente e deve ficar assim pelos próximos anos. Você acha o Lulu útil e funcional? Na minha opinião, o Lulu é um aplicativo ‘ok’. Não 28 | www.voxobjetiva.com.br

é útil, não é funcional, mas é um ótimo app para quem quer brincar, fazer o tempo passar. A polêmica toda acerca desse aplicativo mostra que, no fundo, as pessoas gostam dele – ou, no mínimo, o conhecem. O que poderia ser aperfeiçoado para reduzir as polêmicas vinculadas a esse app? Pra mim, o que poderia ser aperfeiçoado é o humor das pessoas. Com senso de humor você enxerga as críticas até como uma boa maneira de melhorar sua performance nos relacionamentos. Claro que ofensas e difamações devem ser vistas pelo rigor da lei. O desenvolvimento de aplicativos dessa natureza é o ‘filão’ de mercado dessa área da tecnologia? Não acho, porque esse é o tipo de aplicativo que vem fácil e vai embora fácil. Os ‘filões’ dessa área são, com certeza, os jogos. Às vezes, enxergo o Lulu como um jogo, mas mesmo para um jogo ele é muito limitado. Afinal, poucas são as mulheres que podem avaliar (inclusive sexualmente) todos os seus amigos de facebook, por exemplo. Chega uma hora que, pela brincadeira, as meninas avaliam homens que elas nem conhecem e isso acaba tirando do aplicativo sua credibilidade. Vira ‘zoeira’. Aí, a brincadeira acaba!


Artigo

Imobiliário

Quem não pode ser síndico

Eleger alguém para ser síndico exige vários cuidados. Caso certas situações sejam ignoradas, o condomínio pode ter problemas em decorrência de uma gestão irregular e a eleição do gestor escolhido pode ser anulada. Mesmo o artigo 1.347 do Código Civil determinado que o síndico não precisa ser necessariamente proprietário de uma unidade no prédio, o ideal é que ele seja um condômino. Afinal, o patrimônio envolvido estimula o proprietário a agir com mais interesse. A condução da administração por quem tem patrimônio gera maior segurança à coletividade, pois caso pratique atos lesivos, o gestor, como procurador, vai poder responder com seu imóvel pela indenização. É interessante que a convenção do condomínio estabeleça que somente o condômino possa exercer a função de síndico. Caso nesse instrumento não conste tal observação, qualquer pessoa natural ou jurídica pode ser eleita para o cargo. Para que o condômino possa assumir o cargo de síndico, ele deve estar em dia com suas obrigações. Seria ilógico o inadimplente ser eleito, pois ele não poderia figurar em um processo como autor (representante do condomínio) e, ao mesmo tempo, como réu em uma ação de cobrança. Seria cômico o síndico outorgar uma procuração para um advogado entrar com ação contra ele. De acordo com artigo 1.335, inciso III do Código Civil, o condômino tem o direito de “votar nas deliberações da assembleia e delas participar, estando quite”. Em respeito ao direito de propriedade, o inadimplente pode até permanecer no recinto onde ocorre a assembleia, desde fique calado. com essa pendência, ele não tem o direito de se manifestar de nenhuma maneira. Se não pode votar nem participar, não há como a pessoa ser candidata ao cargo de conselheiro nem, muito menos, de síndico. Da mesma maneira, não tem cabimento um réu ou autor de uma ação contra o condomínio se candidatar ao cargo de síndico, pois estaria configurado um choque de interesses. O síndico deve ser uma pessoa que possa defender o condomínio em qualquer situação, sem constrangimento e até contratar assessoria especializada para sanar dúvidas. É dever do síndico informar, nos balancetes e na assembleia, o nome do inadimplente, a unidade e o valor. E todos têm o direito de saber quem não cumpre com seu dever e ainda sobrecarrega os vizinhos que assumem o custo da sua inadimplência. O que a lei proíbe é expor a terceiros o inadimplente. Por exemplo: é vedado fazer constar o nome do devedor no balancete afixado na portaria ou no elevador. O condomínio também pode optar pela contratação de uma administradora para conduzir o condomínio. Mesmo assim, terá que eleger um condômino para assinar o contrato e fiscalizar quem vai exercer a função de síndico profissional.

Kênio Pereira Presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG keniopereira@caixamobiliaria.com.br

“Para que o condômino

possa assumir o cargo de síndico, ele deve estar em dia com suas obrigações. Seria ilógico o inadimplente ser eleito, pois ele não poderia figurar em um processo como autor (representante do condomínio) e, ao mesmo tempo, como réu em uma ação de cobrança

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receita

Rabanada Chef Carlos Pita

INGREDIENTES: 2 colheres de sopa de açúcar refinado 1 ovo 7 fatias de pão de sal (tipo baguete) 240 ml de leite 3 colheres de sopa de leite condensado 1 colher de sopa de manteiga 1 colher de sopa de canela em pó 50 g de frutas cristalizadas Canela em pau e figos para decorar

MODO DE PREPARO Misture o leite com as duas colheres de sopa de leite condensado. Em outro recipiente, bata o ovo. Passe as fatias de pão na mistura de leite e depois no ovo batido. Disponha as fatias de pão em um refratário untado com a manteiga e leve ao forno, a 200º C, por 6 a 8 minutos. Misture o açúcar e a canela. Polvilhe as rabanadas e coloque por cima as frutas cristalizadas. Regue os pedaços com um pouco do leite condensado. Disponha em uma travessa, decore e sirva.

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Tulio Godinho


Artigo

Vinhos

Para acertar no fim de ano Com a alta demanda de festas no final de ano, as adegas são lugares altamente frequentados. Mas, diante de inúmeras opções de rótulos, ficamos resistentes em escolher apenas vinhos que conhecemos por agradarem ao nosso paladar. Sem dúvida, essa é uma prática que minimiza a chance de ‘errar’ na hora da escolha. Mas, como já foi dito, não existe ‘erro’ na opção por um vinho, e sim a possibilidade de conhecer outros rótulos. Algumas dicas podem ajudar. Confira! Vinho tinto jovem: privilegia os aromas e sabores da terra e da fruta. São vinhos mais frutados e leves, pois geralmente não passam por barricas de carvalho. Quando passam, é por pouco tempo, uma vez que a ideia é privilegiar os aromas primários (terra e fruta) e secundários (fermentação) da bebida. Normalmente são vinhos com graduação alcoólica máxima de 12,5°gl. Harmonizam bem com petiscos, pizzas, massas e carnes leves e entradas em geral. Vinho tinto de guarda: privilegia os aromas provenientes da evolução em barricas de carvalho e nas caves. O vinho estagia nas barricas por, no mínimo, oito meses e mais 12 meses nas caves. Nesse caso, os aromas terciários (provenientes da evolução) ficam evidenciados e característicos. O tempo de evolução influencia diretamente nos aromas e no sabor da bebida. Normalmente são vinhos com graduação alcoólica mínima de 13°gl. Podem ser considerados ‘vinhos enogastronômicos’, ou seja, um vinho que ‘pede’ uma refeição para acompanhar. Vale lembrar que vinhos mais estruturados harmonizam melhor com comidas mais estruturadas. Espumante método charmat: método comercial para a elaboração da bebida. A segunda fermentação acontece em tanques de aço inox por um período de dois a três meses. Em alguns casos, pode-se chegar a seis meses (charmat longo). Na taça apresenta perlage (borbulhas) mais grossas e menos persistentes. Já no caso do charmat longo, essas características de taça melhoram um pouco. Espumante método champenoise: método tradicional da região de Champagne, onde a segunda fermentação ocorre na própria garrafa. Esse método é mais elaborado e custoso, mas traz uma qualidade superior à bebida. Na taça, tem perlage fino e persistente, proporcionando estrutura e cremosidade à bebida. O tempo mínimo de contato das leveduras com o líquido é de 12 meses, podendo ultrapassar os 60 meses. Vinho branco: a proposta do vinho branco é de ser uma bebida aromática e refrescante. Ter uma boa acidez é fundamental. No caso dos brancos mais estruturados, sugere-se o acompanhamento de uma comida igualmente mais estruturada. Tanto os brancos quanto os espumantes devem ser servidos preferencialmente gelados. Espero que essas dicas possam contribuir para que as lembranças de fim de ano sejam as melhores para todos. Um brinde a 2014!

Danilo Schirmer Sommelier daniloschirmer@hotmail.com

não existe ‘erro’ na opção por um vinho, e sim a possibilidade de conhecer outros rótulos

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podium

João Pires/Vip.Comm

Sonho e raça no saibro

Com histórias de vida distintas e unidas pelo tênis, Bruno Soares e Marcelo Melo vivem o melhor momento na carreira e sonham com uma medalha olímpica Thiago Madureira Era fevereiro deste ano. Depois de uma década, o Brasil voltava ao Grupo Mundial da Copa Davis. Os adversários eram ninguém menos que os temidos norte-americanos, maiores vencedores da competição com 32 conquistas. O resultado não fugiu à lógica: em quatro partidas, os Estados Unidos venceram três e surpreendentemente perderam uma. Nas duplas, os gêmeos Mike e Bob Bryan, considerados os maiores da história do tênis, foram batidos no tie-break. A façanha foi protagonizada pelos mineiros Bruno Soares e Marcelo Melo. O triunfo sobre a dupla número 1 do mundo, o terceiro em quatro jogos entre eles, é apenas um indicativo do sucesso desses belo-horizontinos que vivem o melhor momento na carreira. Depois da geração Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni, no início dos anos 2000, Bruno e Marcelo são donos dos melhores resultados do tênis 32 | www.voxobjetiva.com.br

brasileiro. E mais: alimentam antigo sonho de ver novamente o protagonismo do país no esporte. “Tivemos uma excelente temporada. Terminamos o ano jogando muito bem e conseguimos grandes resultados. Realmente evoluímos muito. Temos que seguir treinando firme. Sabemos onde precisamos trabalhar para conseguir outros grandes resultados”, atestou Marcelo Melo. Entre os objetivos traçados, a medalha olímpica no Rio de Janeiro, em 2016, é a prioridade. “Temos um projeto elaborado com o foco final na Olimpíada do Brasil”, admitiu. O sonho do pódio olímpico se sonha junto, contudo, na prática, é cada um por si. No circuito mundial da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), Bruno e Marcelo não atuam juntos. O primeiro joga ao lado do austríaco Alexander Peya; o último divide quadra com o sérvio Ivan Dodig.


podium

Ao lado de Peya, Bruno chegou a 11 finais, com seis títulos – Auckland, São Paulo, Barcelona, East-bourne, Montreal e Valência – nesta temporada. Dos 81 jogos disputados, venceu 61. Começou o ano como 19º do mundo e terminou em 3º. Uma evolução de dar inveja. Marcelo também não fica para trás. Com Dodig, seu parceiro na maioria dos campeonatos, conquistou o Torneio de Xangai. Levou também Brisbane, mas nesse torneio, o parceiro era Tommy Robredo. Das 60 partidas disputadas no ano, ganhou 34. Começou o ano em 18º e terminou em 5º. É a primeira vez na história que o Brasil coloca dois tenistas entre os cinco primeiros do ranking. Nem sempre foi possível projetar grandes resultados como os alcançados atualmente. No início, além da importância de ter qualidade técnica e dedicação, era preciso amar o esporte. Na infância ainda floria para os dois esportistas, em meados da década de 1980, enquanto Marcelo arriscava as primeiras jogadas nas quadras do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, Bruno acertava raquetadas na longínqua Bagdá, no Iraque. O tempo, claro, foi o responsável por uni-los. Na rua da Bahia, os corredores do Minas conhecem em detalhes a história de Marcelo Melo, 30 anos. Quando ainda nem tinha força para carregar a raquete, ele já frequentava as quadras do local. Ficava espiando os pais praticando à espera de uma oportunidade que relutava em não aparecer.

cuito (2,03 metros de altura). “A relação dele com a gente aqui do Minas é muito especial. A gente viu ele crescer. Ficamos orgulhosos. É a prova de que o trabalho é bem-feito”, completa Neneco. Marcelo ganhou notabilidade jogando duplas com outro mineiro, André Sá. Conquistou resultados importastes até 2009, quando rompeu a parceria. Depois atuou com Bruno Soares e Ivan Dodig. Diferentemente de Marcelo, foi bem distante do Brasil que Bruno Soares teve o primeiro contato com o tênis, quando o pai dele foi transferido a trabalho para o Iraque. O curioso é que o esporte sempre foi um dos mais praticados por soldados norte-americanos residentes no país asiático. Anos depois, a família de Bruno voltou ao Brasil. Rodou até se fixar novamente em Belo Horizonte. O atleta parou no Minas Tênis Clube, onde conheceu Neneco. “Na realidade, o Bruno não começou no Minas. Ele iniciou no Barroca, depois se transferiu para cá. Com a transferência do pai dele para o Rio, o Bruno teve de abandonar Belo Horizonte mais uma vez, retornando à capital mineira com 13 anos. A partir daí, ele treinou conosco até os 16, 17 anos, quando começou a estourar”, explicou. Lucas Fernandes

As referências sempre foram os de casa. Os irmãos mais velhos, Hernani e Daniel Melo, são exjogadores. Hoje o segundo é seu técnico; também é companhia e companheiro para as horas de concentração, ansiedade, alegria e tristeza antes e depois de cada torneio. “A família toda do Marcelo jogou tênis. O pai dele é funcionário do Minas, a mãe joga tênis, os irmãos jogaram. Então, desde pequeno ficava aqui o dia inteiro. É o jogador que mais tem raízes aqui no Minas. Os irmãos dele jogaram aqui também. É uma família muito tradicional dentro do tênis mineiro”, explica Roberto Carvalhaes, o Neneco, diretor de tênis no Minas e ex-técnico de Marcelo. No clube, Marcelo é conhecido pelo apelido de Girafa. Uma ‘alcunha’ de fácil compreensão quando se cruza com um dos maiores jogadores do cir-

O orgulhoso Neneco foi responsável pela formação de Soares e Melo | 33


podium

Nos torneios de base, Bruno sempre demonstrava enorme talento. Foi vice-campeão do Orange Ball, um dos mais importantes do mundo. As lesões minaram o que poderia ser uma carreira ainda mais promissora, dizem muitos nos bastidores. Bruno chegou a ficar dois anos parado. Neneco tem boas lembranças de um dos pupilos. “Foi em um torneio Cosat, em Lima, quando ele começou a se destacar. Na terceira etapa, o Bruno foi para a final com o Acassuso, tenista argentino que figurou entre os melhores do mundo. No dia em que jogou a semifinal, ele me ligou perguntando se poderia jogar a final no mesmo dia. Acassuso precisava da antecipação por causa de um problema no voo. A hipótese de ganhar por w.o nunca passou pela cabeça dele. Bruno me disse que sabia que ganharia no físico porque o jogo do Acassuso anterior havia ido para o tie-break. Eu deixei e ele ganhou o torneio no terceiro set, como havia projetado”, relembra. Adversários e lesões, um a um, foram superados. Bruno é considerado hoje o melhor tenista brasi-

leiro. Mas nem só de vitórias foi escrita a brilhante recente carreira do jogador. A vida lhe aplicou um golpe implacável. No ano passado, Bruno perdeu um dos seus maiores incentivadores. O pai dele descobriu um câncer já em grau avançado, vindo a falecer. “Foi muito difícil. Quando a ficha cai é extremamente complicado. Até hoje eu me emociono. A final do Torneio do Canadá, no ano passado, foi muito difícil para mim porque era dia dos pais. Pô, bateu aquela saudade. Chorei algumas vezes antes do jogo. Também me emocionei no fim quando conquistei o título”, revelou Bruno, que acredita que recebe a bênção do pai. “O Guga me falou um negócio muito legal: que, de algum lugar, meu pai está colocando a mão nisso aí. Depois que ele faleceu, a energia parece que é um negócio diferente. Parece que ele está me olhando de algum lugar, que eu não sei de onde é, e que está colocando a mão aqui. É uma pena ele não estar presente para depois de tanto tempo presenciar esse momento que estou vivendo”, conta emocionado. Com histórias distintas, unidas pela raquete na mão, Bruno Soares e Marcelo Melo sonham alto sem parar de fazer história.

Os números Fonte: Match Tie Break 2013 Divulgação/CTB

Robbie Saurus

Bruno Soares

Marcelo Melo

Ranking: 3º Títulos: 6 Finais: 11 (5 vices) Partidas disputadas: 81 Vitórias/Derrotas: 61/20 Premiação: US$838,956 Pontos acumulados no ano: 8040

Ranking: 6º Títulos: 2 Finais: 3 (1 vice) Partidas disputadas: 60 Vitórias/Derrotas: 34/26 Premiação: US$585,535 Pontos acumulados no ano: 5180

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artigo

Meteorologia

Aquecimento global pode inaugurar rota de turismo no Peru A geleira Pastoruri registrou uma visível redução de sua superfície nas últimas décadas. Essa geleira fica no Parque Nacional de Huascarán, no Peru. Em 2007, a geleira se quebrou em duas partes e, no ano passado, a parte ao sul se desintegrou do grandioso bloco, como informou o chefe do Parque, Gómez López. Os glaciares são regiões de reservatórios de água que abastecem os rios. A perda das geleiras pode gerar uma migração pela falta de água em poucos anos. Essa situação já é realidade em algumas comunidades do Peru e em outras regiões do mundo. O aquecimento global pode criar diferentes impactos no planeta. E um dos mais preocupantes é a diminuição das geleiras, de acordo com o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) de 2007. Em outubro passado, um novo relatório do IPCC alertava que havia 95% de probabilidade de as mudanças no clima global verificadas nos últimos cem anos terem relação direta com as atividades antrópicas (provocadas pelo homem). Em 2004, as mudanças climáticas ‘organizaram’ o primeiro furacão do Atlântico Sul. Tornados atingiram os estados das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Há que se atentar também para as cada vez mais frequentes e severas secas no Nordeste do Brasil e em Minas Gerais. Nos últimos anos, o planeta teve as temperaturas mais elevadas dos últimos 400 mil anos, como revela o IPCC. Infelizmente as catástrofes que se observam no mundo não são suficientes para sensibilizar os governantes para a criação de políticas de diminuição da emissão dos gases do efeito estufa. Alguns cientistas acreditam que a Terra esteja chegando a um ponto em que a situação se torne irreversível. O problema é que o aquecimento diminui as calotas polares. Como o albedo da água é baixo, há maior absorção de calor que é emitido para a atmosfera. As autoridades peruanas estão estudando uma forma de organizar uma rota de turismo para a geleira Pastoruri. Os turistas vão poder ver os impactos das mudanças climáticas no planeta.

Ruibran dos Reis Diretor Regional do Climatempo Professor da PUC Minas ruibrandosreis@gmail.com

“Infelizmente as catás-

trofes que se observam no mundo não são suficientes para sensibilizar os governantes para a criação de políticas de diminuição da emissão dos gases do efeito estufa

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Belezas e contradições de Moscou Entre o clássico e o moderno, capital russa conserva hábitos seculares e os defronta com os avanços das sociedades ocidentais Texto e fotos de Lorena Tárcia “Uma cidade em um país de extremos”. Assim um jovem russo define a história de Moscou e as ambições políticas da cidade em relação ao resto do mundo. De Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin, essa grandiosa autoimagem de poder parece se refletir nas ruas. A capital russa é uma cidade em permanente reconstrução. Parece uma interessante mistura entre o caótico trânsito paulista, a amplitude e a beleza de Paris e o conservadorismo do Leste Europeu. Toques de paixão e romantismo estão expressos em inumeráveis cafés da cidade e no belo costume de presentear com flores. O lugar é cativante – principalmente para os nascidos sob o pesado simbolismo da Guerra Fria. É sempre arriscado escrever sobre uma localidade ou um país sem entender sua cultura, sua 36 | www.voxobjetiva.com.br


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complexa história e seus costumes. Mas é fácil cair nos estereótipos, tão comuns quando se leem textos estrangeiros sobre o Brasil. Por isso, só é possível falar sobre impressões. Menos que uma verdade, a percepção é um ponto de vista; é a versão dada por uma brasileira flanando pelas ruas dessa admirável metrópole, cujo charme está na justaposição, ainda que um pouco desconjuntada, entre tradição e modernidade. A fama dos russos e dos moscovitas é de ser um povo frio e distante, rude com turistas e impaciente. É certo que a maioria absoluta da população não fala inglês, que o cirílico (alfabeto russo) é um desafio permanente e que os mapas em alfabeto latino são de pouca valia. Porém, na universidade, os jovens são fluentes no segundo idioma, estão conectados ao mundo e participam ativa e criticamente da produção cultural global. “Moscou é uma mistura de pessoas vindas de vários lugares, com as próprias culturas e visões de mundo”, argumenta Olga Veselova, mestranda em produção midiática. “Os moradores gostam das mudanças no país, mas acham que tudo está acontecendo muito rapidamente”, analisa. É uma comunidade viva em suas contradições. De acordo com a revista Forbes, Moscou tem o maior número de bilionários do mundo. Os superlativos não param por aí: Moscou é a mais populosa da Europa, mais setentrional megacidade da Terra, quinta maior do mundo, maior da Rússia e tem uma população de 11.503.500 habitantes.

quatro organizados aeroportos internacionais, nove terminais ferroviários e um dos mais profundos, movimentados e fascinantes sistemas de metrô do mundo. Essa modalidade, aliás, é tema para um artigo à parte. Além disso, 49 sedutoras pontes atravessam o rio e seus canais nos limites moscovitas. A vida gira em torno do Kremlin, uma cidadefortaleza medieval repleta de turistas, patrimônio mundial e sede do governo russo. Quando se fala em estrangeiros na Rússia, é preciso desconectar-se da recorrente imagem do turismo europeu. Raramente se ouvem conversas em outro idioma, que não o russo. Quando isso acontece, são línguas orientais no lugar do inglês, ao qual os brasileiros se acostumaram. Falar português nas ruas de Moscou revela-se um atrativo e fonte de questionamentos sobre sua origem. Os contrastes são compatíveis com o clima radical. Verões quentes e úmidos, contrapostos por invernos gélidos, entremeados pelas flores da primavera e o incrível espetáculo outonal. As temperaturas variam entre 25 graus e 30 graus centígrados. Na onda de calor de 2010, os termômetros chegaram a marcar 39 graus centígrados. A história arquitetônica de Moscou revela que a cidade foi dominada por igrejas ortodoxas. No entanto, a aparência geral da cidade mudou drasticamente nos tempos soviéticos, especialmente como resultado dos esforços de Joseph Stalin para modernizá-la ao estilo ocidental. Seus pla

Situada às margens do rio de mesmo nome, Moscou conta com uma extensa rede de transportes, | 37


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pelamento. Melhor e muito mais interessante é enveredar pelos labirintos subterrâneos. Nesses espaços é possível encontrar senhoras moscovitas comprando de tudo, principalmente roupas a baixo custo. Ali também é o melhor lugar para adquirir os inevitáveis souvenires, como as Matrioshkas (bonequinhas russas de diferentes tamanhos, colocadas umas dentro das outras), por preço mais razoável.

Na ponte dos beijos, casais apaixonados trancam cadeados com seus nomes e lançam as chaves no rio, simbilizando a perenidade do amor

nos incluíram largas e amplas avenidas, algumas com até dez faixas de largura, construídas à custa da demolição de um grande número de edifícios históricos e distritos tradicionais. Alguns monumentos foram reconstituídos na última década de 90, como as catedrais de Kazan e do Cristo Salvador. A contribuição mais conhecida do período stalinista são as chamadas Sete Irmãs: enormes arranha-céus equidistantes do Kremlin e espalhados pela cidade. O objetivo soviético de fornecer moradia a cada família e o rápido crescimento da população levaram à construção de grandes e monótonos edifícios habitacionais. Uma curiosidade são os elevadores. Estima-se que Moscou tenha mais que o dobro do número desses equipamentos do que Nova Iorque. São cerca de 120 mil. A empresa responsável pela manutenção mantém equipe de 1,5 mil profissionais de plantão para liberar pessoas presas nos velhos edifícios. A situação já rendeu reportagem da revista americana The New Yorker e homenagem musical da banda de rock russa Kino, presa em um elevador de hotel no final da década de 80. As largas ruas de Moscou originaram outra interessante cultura nos subsolos, onde estão as passagens para pedestres. Aliás, fica um alerta para os incautos turistas: nunca se arrisquem na travessia em meio aos carros. Poucos dias de permanência na cidade foram suficientes para presenciar vários acidentes, dentre eles, um atro38 | www.voxobjetiva.com.br

Evitar o trânsito carregado e raivoso não significa deixar de observar as curiosidades. Uma prática que serve de exemplo é estacionar em qualquer lugar, atravancando outros carros. Esse hábito vem acompanhado de um bilhete deixado no para-brisa com o número do celular, para o caso de emergência. Táxi em Moscou é artigo de luxo e representa um risco para quem não é da cidade. Para os moradores ou para aqueles capazes de se comunicar em russo, qualquer veículo pode virar carro de aluguel. Basta fazer sinal na rua e negociar distância e preço com o primeiro que parar. Para turistas, os golpes são tão comuns quanto no universo carioca. E os cuidados também se aplicam. Embora a capital russa tenha a maior renda per capita do país e a taxa de desemprego seja baixa, crime e corrupção são ameaças constantes à estabilidade dos negócios, como acontece no Brasil. Entretanto, a vida dentro dos chamados rings - grandes avenidas que circundam e englobam o centro - é tranquila e aparentemente segura. Como toda megalópole, Moscou não para. Vários supermercados e serviços funcionam 24 horas. A cidade é repleta de clubes e restaurantes. E os bares estão sempre cheios. Ainda assim, é comum encontrar críticas negativas, principalmente de turistas americanos, em comentários de sites especializados. Na Europa também há jovens brasileiros decepcionados com a aventura. Algumas dessas críticas se referem ao fato de os maiores atrativos estarem na Praça Vermelha, com seus grandiosos monumentos. Mas Moscou tem uma cultura rica em detalhes. Cada esquina pode guardar uma surpresa. Entre o moderno e o clássico, encontram-se, por exemplo, a inspiradora tradição das noivas circularem a pé, em cortejo, tirando fotos nos principais pontos turísticos. Na Ponte dos Beijos, o casal tranca um cadeado com seus nomes e joga a chave no rio. O ritual simboliza o amor eterno.


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Contradições e lutas diárias O discurso moscovita está repleto de conceitos ocidentais e existe um esforço de internacionalização da economia e da educação da metrópole. No entanto, os conflitos nacionalistas ganham força em um ambiente resistente aos estrangeiros e ainda bastante preconceituoso. Alugar apartamento é um processo especialmente difícil para quem é de fora, inclusive professores universitários. Não há negros nas ruas. Vários protestos aconteceram nos últimos meses, alguns violentos, nos quais o nacionalismo radical aflorou como bandeira principal. Uma pesquisa realizada recentemente entre os moscovitas revelou descontentamento de mais de 50% da população com migrantes da Ásia Central e do Cáucaso do Norte (região da Eurásia, situada entre o mar Negro e o mar Cáspio). “Não temos uma política de migração. Isso tem causado tensão e requer uma regulamentação urgente”, alerta o estudante de pós-graduação e promotor de eventos, Sergei Medvedev. A polêmica lei russa que proíbe a apologia à homossexualidade correu o mundo ante os protestos de atletas e ativistas. A situação levou os patrocinadores das Olimpíadas de Inverno de Sochi de 2014 a enfrentar o desafio de divulgar sua marca sem se associar negativamente à situação dos direitos humanos na Rússia. E os descontentamentos se multiplicam não apenas na política e nos esportes. De acordo com informações de um jornal local, Moscou é a cidade onde os cidadãos têm muito do que reclamar. Uma das polêmicas mais recentes gerou página no fa-

cebook: “Pela grama. Contra os antiverdes”. Nesse espaço virtual, muitos cidadãos combatem o hábito da prefeitura de coletar as folhas de outono, em vez de deixá-las em seu processo natural de maturação e adubação de árvores e jardins. Porém, segundo relata Medvedev, apenas uma parte dos moradores se engaja nesse tipo de movimento. A maioria depende financeiramente da ajuda governamental e prefere não questionar nada por temer pela perda dos ganhos. “É o que podemos chamar de ‘compra de lealdade’”, critica o jovem estudante. Enfim, essa é a controversa Moscou: capital de um país liderado por Vladimir Putin, ex-agente e ex-chefe do serviço secreto soviético, a temida KGB, e considerado a pessoa mais influente do mundo, em 2013, pela revista Forbes. Figura polêmica como o país que governa, Putin goza de considerável popularidade. O chefe de governo é respaldado por altas taxas de aprovação geral, ao mesmo tempo em que é criticado por seus posicionamentos antidemocráticos. Moscou é um lugar para ser vivido em suas contradições e belezas. Como bem resumiu um crítico: “Poderíamos consertar todas as estradas esburacadas, multar os motoristas de táxi por abuso de preço e, até mesmo, introduzir na mente dos funcionários do hotel o estranho conceito conhecido no Ocidente como ‘serviço ao cliente’. Mas aí Moscou não seria mais Moscou”.

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femme

coisas de madame Texto e fotos de Karina Novy

Os sabonetes esfoliantes são ótimos para o verão. Também são indispensáveis para quem faz ou vai fazer algum tipo de bronzeamento artificial, principalmente os caseiros, com a utilização de autobronzeadores em spray, creme ou gel. Esses produtos da Farmax e da O Boticário são verdinhos e têm a mesma função: remover as células mortas e as impurezas, limpar e esfoliar a pele. O ideal é que sejam espalhados pelo corpo com o auxílio de uma esponja. Nos joelhos, nos cotovelos e nas partes do corpo que têm maior tendência ao ressecamento, a aplicação pode ser feita com as mãos.

O sabonete da linha Nativa Spa da O Boticário é composto de verbena e aloe vera, contém pró-vitamina B5 e propriedades adstringentes e calmantes. O produto tem fragrância bem suave, e as partículas do esfoliante são muito finas. O preço e mais informações do produto estão no site boticario.com.br. Já o sabonete da linha Hidraderm da Farmax tem fragrância de kiwi. O cheiro é gostoso e mais marcante do que o do produto da O Boticário. O produto é muito consistente. As microesferas do sabonete da Farmax são maiores que as contidas no do concorrente. Esse sabonete pode ser usado no corpo e no rosto e é indicado para a prevenção de cravos. A pele fica bem suave e hidratada. Veja outras informações sobre o produto no site farmax.ind.br.

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CrôniCa

Comportamento

ame e desapegue “Eles se amam. Todo mundo sabe, mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossível. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada, e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias-palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer a ela. Todas as noites ela pensa nele e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que com os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um há um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por aí, cada um sabe a falta que o outro faz…” - Tati Bernardi. Recebi esse texto de uma amiga querida, a Mariana, como se fosse a tia dela que tivesse escrito. Gostei tanto que pedi permissão para publicá-lo no meu blog. Depois de meses do texto publicado, uma leitora comentou, alertando que o texto era de autoria da Tati Bernardi. Cometi um equívoco. De qualquer jeito, foi por meio desse texto que cheguei à conclusão de que só existem três tipos de relacionamentos amorosos: ele apaixonado por você, e você não quer nada com ele; você apaixonada por ele, mas é ele que não quer nada com você; por último, a pessoa com quem você está agora. Ponto. E que atire a primeira pedra aquele que nunca esteve nas duas primeiras situações por, pelo menos, uma vez na vida. Mas pega uma pedra grande e joga com força porque sou boa de corrida. Para chegar à terceira e tão almejada posição de equilíbrio, é preciso baixar a guarda. Amar é para os fortes. Pede coragem e dá trabalho sim. Amar é praticar o desapego diariamente; é querer mais a felicidade do outro do que a própria. Por isso às vezes é preciso deixá-lo ir… É paradoxal. Ama tanto que desapega. Voltemos então à estaca zero: alguém vai se apaixonar pela gente e não necessariamente será correspondido. E vice-versa. Vai assim até o dia em que, com paciência, carinho e muito desapego, descobre-se que amar vai muito além de se apaixonar. Apaixonar é bom, mas passa. O amor fica, mesmo quando a pessoa se vai. E elas se vão. Todos nós iremos um dia. Por isso, não tenha medo. Arrisque-se. Simplifique sua vida. Apaixone-se e ame o máximo que puder. Ame em um relacionamento de uma única noite; ame você; ame seu trabalho, seus amigos, seus filhos, sua família, sua casa, as pessoas que você não conhece e até seus inimigos. Não. Não fui eu quem disse isso; foi um cara muito inteligente e desapegado há alguns milhares de anos. Infelizmente esquecemos da lição no decorrer da vida. Amo você!

Laura Barreto Autora do site ociodooficio. com.br laubarreto11@hotmail.com

“apaixOnar é BOm, mas

passa. O amOr fiCa, mesmO quandO a pessOa se vai. e elas se vãO. tOdOs nós iremOs um dia

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Kultur

Os sóis de Venturini Em álbum contemplativo, ex-14 Bis dialoga com a Bahia, Caetano e Piaf, sem deixar o Clube da Esquina Lucas Alvarenga Olhos azuis da cor do mar, cabelos ao vento e um coração aquecido por canções solares estampam o 14º álbum de Flávio Venturini. A capa ilustrada por Marcelo Mendonça é como um cartão-postal, e o trabalho, uma viagem sinestésica e impressionista. Resultado de dois anos entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, o CD ‘Venturini’ transborda poesia ao tomar o sol como alegoria para um amor que nunca fenece. Pelo contrário: renasce a cada ciclo. Ao retomar a parceria com Márcio Borges em ‘Sol interior’, o ex-integrante do 14 Bis e O Terço convida o fruidor a mergulhar no universo do Clube da Esquina. A sensação se intensifica com a inédita ‘Um dia de verão’, rock rural de Venturini, rico em falsetes, hiatos e recursos percussivos. A faixa discorre sobre um romance em Salvador, candidato a hit.

rini, entoada pelo mineiro em duo com o também carioca Ivan Lins. ‘Saiba’, de Maurício Oliveira e Barbara Mendes, e ‘Me leva’, dele com Aggeu Marques, carregam a atitude roqueira do belo-horizontino e a sonoridade típica das antigas parcerias, marcada pelas guitarras distorcidas, pelos agudos do intérprete e pelo enlace do pop e do rock com o regional, a World Music. Na 11ª faixa, Flávio executa essa proposta com a suave ‘Beijo solar’, letra e melodia próprias. Já ‘Idos Janeiros’, samba-reggae à moda mineira, marca a parceria com Vander Lee e evidencia a versatilidade do autor. A regravação de ‘Até outro dia’, composta com Cacá Raymundo em 1991, traz mudanças no andamento da faixa e o acompanhamento de músicos, como Cláudio Venturini na guitarra, Paulo Carvalho no baixo e Neném na bateria.

A releitura mais intimista de ‘Leãozinho’, de Caetano Veloso, Álbum: Venturini (2013) ‘Todo azul do mar’, de Ventue ‘Hino ao amor’, de Édith Piaf e rini e Ronaldo Bastos, faz jus Marguerite Monnot, encerram o Intérprete: Flávio Venturini aos quase 30 anos da canção álbum. A releitura mais percusNúmero de faixas: 13 Distribuição: Universal Music e abre caminho para ‘Enquansiva da badalada faixa de ‘Bicho’ Preço médio: R$ 28 to você não vem’. Nela, o piano (1977), de Caê, referencia o Cludo compositor André Mehrami be da Esquina e renova a parceria redimensiona as sensações criadas pela letra do com o baiano, marcada por ‘Céu de Santo Amaro’, outro autor, Murilo Antunes, sussurrando versos uma adaptação da Arioso Cantata 156, de Bach. tais como o vento embala o enlace na canção. A versão de Odair Manzano para a francesa ‘Hino Composta por Venturini e Antunes, ‘Fotografia ao amor’ (1950) recebe em ‘Venturini’ a orquestrade um amor’ apresenta um conjunto de cordas, ção de Keco Brandão, que respeita a clássica chantrompas e oboé, além de um solo acústico em que son e reforça os sentimentos evocados pela canção prevalece a contemplação. Na sequência, a boscom um conjunto de cordas e acordeon. Ao fim, sa ‘Tarde solar’ presenteia todos com um arrané como se Flávio dissesse um até breve, à espera jo solar e bela poesia de Alexandre Blasifera. O de que sua obra volte a aquecer os corações de compositor carioca divide a canção com Ventuquem a frui. 42 | www.voxobjetiva.com.br


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Houston Hall Greice Rodrigues de Nova Iorque

Benny Wong

Para acompanhar esse superdrink, a casa oferece uma variedade de queijos grelhados - especialidades do Houston Hall. Outra particularidade do bar são os longos bancos e as mesas de madeira que acomodam pelo menos dez pessoas cada. Essa característica torna o bar uma opção ideal para um encontro de amigos e aniversários. A visita vale também para quem estiver somente a passeio pela cidade, desde que o visitante não se incomode em dividir a mesa com pessoas desconhecidas. O único ponto fraco do local é que a casa costuma lotar rapidamente. O tempo de espera por uma mesa pode ultrapassar os 60 minutos. O bar fica em West Village - uma região cercada por ótimas opções de bares e restaurantes. Vale a pena conferir!

O destino certo para uma noite regada a cervejas artesanais e uma variedade de saborosos aperitivos. Assim é o Houston Hall - o endereço mais frequentado por americanos e turistas que visitam Nova Iorque.

DIvulgação

Inaugurado há pouco mais de seis meses, o bar virou uma febre, principalmente para o público entre 30 e 40 anos. Localizado em um antigo galpão, o espaçoso ambiente tem paredes e tetos rústicos e gigantescas janelas. A capacidade é para 500 pessoas. Para não fugir à regra, drinques e porções também seguem o tradicional estilo ‘big size’ americano. Algumas cervejas, por exemplo, são servidas em enormes taças que comportam um litro.

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Reprodução

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Mostrar o que é nosso Crescente espaço dado à música estrangeira em shows de calouros importados da TV levanta polêmica sobre o processo de americanização da música nacional Cassio Teles

Globo/Divulgação

Eles invadiram a televisão aberta no Brasil e ao redor do mundo. Embora, eventualmente, sejam responsáveis por boas surpresas, os modelos importados de shows de calouros e reality shows musicais, como The Voice e Ídolos, levantam discussões sérias. Muitas vezes, o que se vê é uma americanização do canto nacional e a incapacidade dessas atrações de renovar a música brasileira. Recentemente, o The Voice Brasil trouxe um exemplo clássico desse processo de busca por um ídolo brasileiro com os padrões americanos. Dois jovens cantores, que duelavam entre si, cantaram ‘Adeus 44 | www.voxobjetiva.com.br

América’, conhecida na voz de João Gilberto, inserindo elementos do R&B à canção original, um samba-bossa. O problema é que o eu-lírico da música fala justamente da vontade de deixar os Estados Unidos e voltar para o Brasil. Este fato tornou contraditória a associação melódica feita pelos candidatos e reforçou a discussão sobre o que vem a ser a essência da música brasileira, se é que ela ainda existe no mundo contemporâneo. “A alma brasileira existiu, mas não sabemos mais onde exatamente ela está. A globalização chegou e modificou tudo. Mexeram até no folclore. Mudaram


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a forma como se faz música. Tudo se misturou. A essência da música brasileira se perdeu e se transformou num produto para conquistar mercados. A música é feita pra vender, seja seguindo ritmos tradicionais brasileiros ou não”, explica Guida Borghoff, professora da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do grupo de pesquisa Resgate da Canção Brasileira.

nas redes sociais, onde cada espectador é promovido a crítico musical da noite para o dia. Na maioria das vezes, o programa segue o mesmo roteiro: termina a temporada, alguém vence com a chancela do público, e o artista fica à deriva no cenário musical. Basta constatar que os vencedores de programas e concursos musicais atuais não renderam nenhuma contribuição palpável para a música.

O crítico e músico de Belo Horizonte Maurício Guilherme Silva Jr. também concorda que atualmente seja difícil dizer qual é a essência do canto e da música brasileira. “Não é fácil dizer se ela existe. Os gêneros tradicionais brasileiros são frutos da relação entre a música negra, a música europeia e a dos índios. Não existe a música pura brasileira. O samba, por exemplo, é de raiz negra. É fruto do negro escravizado, mas também miscigenado. A música também passa pela miscigenação espontânea”, explica o músico da banda Cinco Rios.

Curiosamente, dentre os participantes, são os artistas eliminados no transcorrer das atrações que costumam alcançar o sucesso. É o caso da cantora e compositora Roberta Sá, que participou do programa Fama, da Rede Globo, em 2002. A potiguar não ficou entre os finalistas, mas hoje tem carreira sólida. Com mais de 200 mil discos vendidos, Roberta conquistou espaço cantando música brasileira, o samba e suas vertentes.

Na década de 60, a TV Record transmitia o Festival da Música Popular Brasileira. A atração serviu como porta de entrada para músicos, compositores e intérpretes que, de tão importantes, criaram conceitos e se tornaram referência. Elis Regina, Jair Rodrigues, Elza Soares, Wilson Simonal e Caetano Veloso foram alguns nomes apresentados ao sucesso por meio dos festivais, também transmitidos pelo rádio. A plateia, enlouquecida, ovacionava aqueles que logo na primeira apresentação já demonstravam enorme talento, ousadia e identificação com o espírito nacional daquele tempo.

Formatação e as exceções

“Tudo se misturou. A

É possível que haja um interesse comercial nos shows de calouros de modelos americanos transmitidos no Brasil, além de uma definição sobre quais os gêneros devem sobressair nas apresentações, como defende Silva Jr. “Trata-se de um programa que pretende se tornar palatável ao grande público. Existe também uma reelaboração de clássicos, dentro de um padrão comercial. Há vozes interessantes interpreGuida Borghoff, professora e pesquisadora tando clássicos e há jurados de diferentes vertentes musicais para tentar garantir uma pluralidade de opiniões sobre os participantes”, analisa.

essência da música

brasileira se perdeu e se transformou

num produto para

conquistar mercados”

De acordo com Guida, o sucesso dos artistas consagrados nos festivais de música popular dos anos 60 se deu não só pela estética criada, mas pelo momento histórico. “Naquele momento, era aquilo que a indústria queria. O que se produzia e fazia sucesso era o que estava mais próximo da população. Naquela época, a TV ajudava a difundir o estilo e era aquilo que vendia. A indústria fonográfica mudou. Hoje a diversidade de estilos é muito grande”, salienta. Antes as pessoas compareciam e cantavam com os cantores nos grandes festivais. Atualmente a reação do público, diante das apresentações nos reality show de música, só faz barulho mesmo nos trending topics e

Nas competições televisivas, o que se observa é um crescimento do espaço dado às apresentações em inglês e um esforço contínuo, por parte dos candidatos, para alcançar notas altas e explorar, ao máximo, a extensão vocal numa competição de agudos e melismas (variações de sons na mesma nota). É a técnica versus a emoção – oposição que faz parte do espírito competitivo norte-americano. Apesar disso, há aqueles cujas apresentações parecem reviver a alma da música nacional, trazendo o samba, a bossa-nova e o baião. Nesta edição do The Voice Brasil, por exemplo, há uma representante de João Pessoa, na Paraíba, que chama a atenção. Lucy Al | 45


Kultur

ves é conhecida por não se separar da sanfona em suas releituras de clássicos dos ritmos nordestinos e da MPB. “O que é válido discutir é se as releituras feitas pelos artistas do programa trazem alguma contribuição para a música. Se trouxerem, é um sinal de que podem surgir artistas da resistência, que trazem uma nova significação para a música em vez de apenas torná-la palatável, agregando elementos da música americana para conferi-la uma roupagem comercial. Mas há também estilos brasileiros convencionais, sem muito experimentalismo, sem novidades”, enfatiza o crítico. O que vai sinalizar se os artistas revelados pelos reality shows podem somar para a música brasileira parece ser o conjunto da performance, da escolha da música e a interpretação à mensagem que a canção pode oferecer ao público. Na primeira edição do The Voice Brasil, a vencedora Ellen Oléria, em uma de suas apresentações, cantou a pouco conhecida ‘Zumbi’, de Jorge Ben Jor, dando uma nova vida à música. Ela se destacou e venceu, mesmo com seus concorrentes apostando em músicas comerciais. Foi uma vitória sobre a americanização.

Embora não tenha sido uma das finalistas do Fama Bis, Roberta Sá foi uma das poucas candidatas a emplacar uma carreira de sucesso

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“Algumas apresentações têm falta de significado estético. É interessante observar se os novos artistas conseguem ressignificar a música, trazendo sua roupagem, sua nova interpretação, ou se vão apenas adaptá-la aos moldes comerciais. A resistência pode nascer dentro de um programa comercial, como o The Voice Brasil. Isso vai depender do artista, quando ele decide transmitir o clima e a proposta dele”, comenta Silva Jr.

Bastidores Em 2009 e 2011, a cantora belo-horizontina Dani Mota participou das etapas iniciais do programa Ídolos, da Record. Segundo ela, participaram dos processos artistas de todos os estilos. Por mais que ninguém tenha sido privado de disputar o programa, a cantora revela que os participantes são advertidos para o fato de que o programa não procura um ícone da música gospel. “Eu sou cantora gospel, mas não cantei para manter as chances de prosseguir”, conta. Segundo Dani, os critérios para chegar aos vencedores do concurso seriam talento e desenvoltura e técnica especial. No entanto, há a necessidade, por parte dos organizadores, de garantir o sucesso em gêneros mais populares e de fácil vendagem. “No final das contas, o que importa é se o candidato vai conseguir vender CDs e shows. Obviamente o programa procura manter um padrão de qualidade para não banalizar”, acredita. Ainda segundo a cantora independente, mesmo não Divulgação sendo aprovados, alguns candidatos são indicados por produtores para gravadoras e assim são apresentados ao sucesso.

Divulgação


vox literária

70 dias ao lado dela

Dedé e os tubarões

Belo Horizonte Do arraial à metrópole

Autora: Joanita Gontijo Editora: KBR Páginas: 178 Preço: R$ 39

Autores: Alessandra Roscoe e Leo Cunha

Autor: José Maria Rabêlo Editora: Graphar Páginas: 375 Preço: R$ 65

Com leveza e sensibilidade, Joanita Gontijo estreia no mercado editorial ao relatar as nuances do universo feminino contemporâneo em 70 histórias. A escritora e jornalista, mãe de três filhos, traduz sensações e torna suas crônicas um instrumento de descoberta para inúmeras mulheres, transformando momentos aparentemente banais em reflexões necessárias e envolventes. Temas como amizades, amores, desafios, filhos, maternidade, medos, separações e questões domésticas, serviram de matéria-prima para a criação da autora.

Lelê tem que tomar conta do irmão mais novo, Dedé, enquanto seus pais prepararam um prato misterioso. O menino decide brincar com o aplicativo Google Maps instalado no tablet do pai. Lelê, que não queria cuidar dele, mas entra na brincadeira com o irmão e o ajuda a procurar tubarões na costa da Austrália. É nesse universo tecnológico que Alessandra Roscoe e Leo Cunha lançaram “Dedé e os tubarões”. Voltada para crianças a partir de 8 anos, a obra foi escrita durante seis meses, após dezenas de e-mails trocados entre os autores.

Oito anos de pesquisa para remontar três séculos de história. Assim o escritor e jornalista José Maria Rabêlo concluiu o mais completo registro sobre a evolução belo-horizontina, desde as versões de “Memória Histórica e Descriptiva de Belo Horizonte” (1928 e 1936), de Abílio Barreto. O autor remonta histórias sobre a fundação do Curral del-Rei, a escolha pela nova capital mineira, a construção e expansão da cidade, a criação dos três grandes do futebol do estado, os modernistas, o período JK, a ditadura e a transformação da cidade em metrópole.

A obra traz na linguagem direta, coloquial, universal e imagética a marca das experiências profissionais da autora, repórter de TV há 19 anos, blogueira e cronista da Vox Objetiva. Com prefácio da escritora paulistana Stella Florence, admiradora da cronista mineira, “70 dias ao lado dela” chega ao mercado pelo Amazon, nas versões impresso e e-book.

Editora: Escarlate Páginas: 72 Preço: R$ 27,30

Segundo Leo, o livro nasceu da curiosidade do seu filho, Dedé. “Mostrei para ele Paris, São Paulo, a casa do avô. Uma hora pediu pra ver o mar e, em seguida: ‘agora eu quero ver o tubarão’”. O pai explicou que não tinha jeito, mas o menino insistiu. “Joga uma comidinha na tela que ele aparece!”. O diálogo virou post no Facebook e o começo dessa divertida história.

Fatos e personagens cotidianos de cada época – em especial, negros, mulheres e imigrantes – ocupam lugar de destaque na obra. “Rabêlo quer nos dar a história de Belo Ho-rizonte e o fez muito bem”, resume João Antônio de Paula, vice-reitor de Planejamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). | 47


terra Brasilis

divulgação

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divulgação

os chicos

teatro e dança

barroco mineiro

O resultado da peregrinação do jornalista Gustavo Nolasco e do fotógrafo Leo Drumond por mais de 2,7 mil quilômetros nas margens do rio São Francisco, entre 2007 e 2011, é apresentada de forma diferente ao público do Espaço Oi Futuro, em Belo Horizonte. O lançamento da obra ‘Os Chicos - Prosa e Fotografia’ já havia revelado a história do maior rio de Minas sob a ótica dos moradores ribeirinhos. Agora os autores lançam a exposição multimídia ‘Os Chicos – O Rio São Francisco me contou…’ uma revisita ao material coletado e documentado. É a oportunidade única de transformar a fotografia e a prosa de suas obras numa nova e arrojada instalação no Oi Futuro.

Em 2014, a já tradicional Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte chega à sua 40ª edição. O evento oferece shows diversificados espalhados por diferentes espaços culturais da cidade a um preço acessível. Este ano, a campanha faz parte do projeto ‘BH espera por você’, promovido pela Secretaria Convenções e Visitantes, com a intenção de atrair mais turistas para a cidade nesse período de férias. Durante o período, serão apresentados espetáculos infantis, adultos e de dança em teatros e em espaços alternativos. Os ingressos podem ser adquiridos pelo site do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais.

Com mais de 115 peças datadas do século XVII ao XX, a exposição ‘Relíquias do Barroco Mineiro’ pode ser apreciada pelos admiradores de arte sacra, em Belo Horizonte. O acervo pertence ao Museu do Oratório, instalado em Ouro Preto e visitado por mais de 1,5 milhão de pessoas. A exposição já passou pela capital equatoriana, Quito, e pelo Rio de Janeiro, fazendo parte da programação oficial da Jornada Mundial da Juventude. As peças revelam parte da história do ciclo do ouro e dos diamantes em Minas e da história da arte e arquitetura, por meio da influência barroca, rococó e neoclássica. A importância do Museu do Oratório é reconhecida mundialmente.

Galeria 2 do Espaço Oi Futuro Até 2 de fevereiro de 2014 Entrada gratuita oifuturo.org.br

Diversos locais da cidade 3 de janeiro a 4 de março de 2014 Preços variados sinparc.com.br

Museu de Artes e Ofícios Até 30 de março de 2014 Entrada gratuita mao.org.br

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BHZ

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atrações internacionais O Brasil recebe, no primeiro semestre de 2014, grandes astros e uma estrela da música mundial para apresentações imperdíveis. Para os que desejam prestigiar os shows de Hugh Laurie, da cantora Demi Lovato e da boyband One Direction, a dica é não se descuidar do fator ‘tempo’ além de preparar o bolso. O preço dos ingressos pode chegar a R$ 600. As entradas estão sendo vendidas pelo site ticketsforfun.com.br. Na capital mineira, Laurie e Demi se apresentam no palco do Chevrolet Hall. Além do show em Belo Horizonte, no dia 21 de março, Hugh Laurie se apresenta no Rio de Janeiro (20), em Curitiba (25), Porto Alegre (27) e em São Paulo (29). As apresentações vão trazer os singles do álbum “Didn’t rain’, embalado pelo bom e velho blues. Comandando o piano e a guitarra, Laurie interpreta sucessos modernos e grandes clássicos. Com apresentações confirmadas para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre, a americana Demi Lovato vem ao Brasil para a turnê ‘The Neon Lights’, com músicas do álbum Demi, lançado este ano. Na capital mineira, a jovem sobe ao palco do Chevrolet Hall no feriado de 1º de maio. Os ingressos estào esgotados. A partir do dia 15 de janeiro, lotes de dois shows adicionais previstos para São Paulo e Rio de Janeiro vão ser vendidos pela Time For Fun. A simpática cantora, que começou a carreira na TV americana aos 9 anos de idade, é, pela segunda vez, uma das juradas do programa The X Factor USA, exibido no Brasil pelo canal Sony. Sucesso avassalador, a boyband britânica One Direction, composta pelos ingleses Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Zayn Malik e pelo irlandês Niall Horan se apresenta no Brasil também em maio. No Rio de Janeiro o show acontece no dia 8, e em São Paulo, nos dias 10 e 11 de maio. O grupo foi descoberto por meio do programa The X Factor, do Reino Unido. Os integrantes da banda competiam entre si e foram unidos na segunda fase da temporada 2010 da atração musical. O One Direction já vendeu mais de 10 milhões de discos ao redor do mundo e sempre arrebata multidões em shows.

Você descansa e não cansa ninguém. Partidas a cada 15, 20 e 30 minutos. Valor da passagem: R$ 19,70.

3224-1002 Av. Álvares Cabral, 387 - Lourdes conexaoaeroporto.com.br

Ônibus executivos, Confins-BH-Confins.

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crônica

Cotidiano

Mentira X omissão: quem é o verdadeiro inimigo da verdade? Imaginem as seguintes situações:

Joanita Gontijo Jornalista e autora da facenovela Do Rivotril ao Redbull joanitagontijo@gmail.com

“Já fiz o papel da vilã

e da vítima várias vezes. Por isso, eu me arrisco a dar um palpite sobre uma boa estratégia para escolher o caminho a seguir. A regra é simples e vale para diversas circunstâncias: coloque-se no lugar do outro!

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- O vendedor de um carro omite do comprador que o óleo do motor está queimando e que essa é a verdadeira razão pela qual ele está querendo se ver livre de uma ‘roubada’. A rápida avaliação mecânica e a volta no quarteirão não revelam o problema. Negócio fechado! - A mãe vai levar o filho de 3 anos para tomar vacina. Ele pergunta: - “É a do Zé Gotinha?” Ela responde: “Sim, querido...” Quando chegam ao posto de saúde... uma surpresa: a mãe deixou de dizer que também estavam previstas vacinas que exigiam agulhadas no bumbum. - A namorada pergunta ao namorado se a noite anterior em que ele saiu só com os amigos foi legal. Ele diz apenas que sim. Mas esconde um detalhe: passou boa parte da noite conversando com sua ex. Essas situações são fictícias, mas poderiam acontecer e, provavelmente, acontecem na vida real. Continuo, então, a especular... Se perguntássemos aos protagonistas dessas histórias se consideram errado o que fizeram, acredito que quase todos responderiam: - Não! Eu não menti. Eu apenas omiti. E esse é o principal motivo por que abomino mais a omissão do que a mentira. É porque omitir fatos tem um quê de inocência. Não pesa a consciência do autor. É quase um ato de ingenuidade. Enquanto os mentirosos merecem a pena máxima, os omissos são absolvidos. Não refletem sobre o erro simplesmente porque não há erro! Mas será que omitir fatos não é tão ou mais leviano do que mentir? Como você se sentiria no lugar do comprador do carro, da criança e da namorada nas situações acima? Respondo por mim: eu me sentiria passada pra trás, enganada! O silêncio do outro escondeu de mim informações de que eu gostaria de saber. E até mais: de que eu tinha o direito de saber! Mas calma lá! Não acho prudente nem recomendável viver como se estivéssemos, o tempo todo, ajoelhados em um confessionário. Entendo que há situações em que não dizer exatamente tudo o que aconteceu ou o que se sabe é a escolha mais acertada. Mas, então, como agir? Até que ponto manipular a verdade pode ameaçar a confiança de uma relação, seja ela qual for? Já fiz o papel da vilã e da vítima várias vezes. Por isso, eu me arrisco a dar um palpite sobre uma boa estratégia para escolher o caminho a seguir. A regra é simples e vale para diversas circunstâncias: coloque-se no lugar do outro! Não se iluda achando que isso é fácil. Temos uma enorme tendência a amenizar nossos erros. E, quando nos consideramos omissos inocentes, aí é que nossas boas intenções se fazem mais convictas. - Fraude? Dissimulação? Traição? Que exagero! Apenas não achei importante dizer isso. Vá por mim... Só há uma coisa pior do que omitir fatos importantes: justificar essa omissão! Se errou, assuma. E não faça pouco-caso da revolta alheia. Pense antes: e se fosse com você?

Vox 54  

Revista Vox Objetiva 54

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