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RECOM UMA RECO MPENSA INESPERADA (Adaptação livre do conto “O Enfermeiro”, de Machado de Assis)

Adaptação de Felipe Moreno (Este texto foi encenado por conta do final de curso de Dramaturgia, no Instituto Hebraico SP, em 1996) Personagens: Procópio - Enfermeiro Felisberto - Coronel Alberto - Padre de Niterói Conrado - Vigário de vila do interior Prosaico - Irmão de Procópio Dr. Muniz - Médico

Cenário:

Dividido em planos, de acordo com a necessidade da ação.

Época:

Metade do século passado.

Local:

Rio de Janeiro.


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ATO ÚNICO CAMA DE HOSPITAL ONDE JAZ PROCÓPIO, O ENFERMEIRO, MORIBUNDO. A SEU LADO, SENTADO NUM CANAPÉ, O IRMÃO FAZ-LHE COMPANHIA, COM UM AR DE DESOLAÇÃO. REQUIÉM DE MOZART É OUVIDO COMO FUNDO MUSICAL. PROCÓPIO FALA EM TOM PASTOSO AO IRMÃO, QUE TEM O OLHAR DE COMPAIXÃO VOLTADO A ELE. A MÚSICA CESSA QUANDO COMEÇAM A FALAR. FOCO DE LUZ SOBRE OS DOIS. PROCÓPIO - (ABATIDO) Estou chegando ao fim, Prosaico... Não tenho mais do que oito dias, talvez sete... Estou desenganado... Ó! Que martírio! Que dor! (BREVE PAUSA; O.T.) Quero que aproveite o seu ânimo e escreva as minhas memórias, Prosaico... PROSAICO - (COM SUAVIDADE) Pode deixar... Farei o possível para satisfazer a tua vontade... Vou usar a pena deixada por papai e... (PÁRA E MOSTRA-LHE UM GESTO DE CARINHO) Você é um homem bondoso e puro, meu caro irmão! Tenho certeza de que vai encontrar repouso com os mais nobres e retos espíritos na morada do Senhor... PROCÓPIO - Bondade tua, Prosaico! Sabe, nunca vou esquecer as palavras de papai quando você nasceu: “Prosaico será o seu nome... Para que testemunhe a vulgaridade entre os homens de Niterói!” E, agora, sinto que está por se cumprir a missão que ele profetizou em vida... (BREVE PAUSA; TEIMANDO) Então escreverá a minha biografia, Prosaico? PROSAICO - (PROCURANDO CONFORTÁ-LO COM TAPINHAS NO OMBRO) Sossegue, Procópio! Eu sei que papai sempre sonhou em ter um escritor na família... (VAIDOSO) Olhe para mim, Procópio! Pode ler nos meus olhos o meu testemunho?! (BREVE PAUSA; O.T.) Sabe, meu prezado irmão, eu estive aqui a pensar com os meus botões, enquanto me lembrava do nosso velho, que o que você fez da sua vida

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deve ter enchido ele de orgulho... Atos generosos sempre fizeram parte da história de nossa família... (NOTA A PALIDEZ DO IRMÃO; O CENHO CARREGA-SE DE PREOCUPAÇÃO, MAS NÃO SE DESESPERA) Como se sente, Procópio? Fale alguma coisa!... PROCÓPIO - (COM DIFICULDADE) Aproveite aquelas coisas que escrevi sobre teologia... PROSAICO - Deve ter aprendido muito estudando tanto tempo com padre Alberto... (EXALTANDO-SE) Ó! Mas que vida mais maravilhosa você teve, Procópio! (PROCÓPIO ABRE OS OLHOS E LHE SORRI, JUBILOSO) Amou o próximo como nenhum outro! (OLHAO COM TERNURA) Foi isso que tornou você imaculado, Procópio... PROCÓPIO - (COM SÚBITO ÂNIMO) Ah! Como me faz bem te ouvir falar assim, Prosaico! Farei questão de te abençoar do Éden! Agora estou partindo... (FRAQUEJA, PROCURANDO ERGUER A CABEÇA, NUM ÚLTIMO SUSPIRO. A VOZ VAI SUMINDO. PROSAICO APROXIMA PARA OUVIR) Não se esqueça das minhas memórias... O ENFERMEIRO MORRE. O REQUIÉM TOCA MAIS ALTO. PROSAICO SEGURA NA MÃO DELE. AOS POUCOS, A MÚSICA VAI SUMINDO; AS LUZES SE APAGAM EM RESISTÊNCIA. LUZ. PASSADO. SACRISTIA DA IGREJA DE NITERÓI. OUVESE, AO FUNDO, UMA SUAVE MÚSICA SACRA. PROCÓPIO ESTÁ JUNTO A UM PADRE. CONVERSAM RECATADAMENTE. PROCÓPIO - Então é para cuidar de alguém, padre Alberto? PADRE ALBERTO - Sim, Procópio... Numa vila não muito distante daqui... Por esses dias, recebi uma carta do vigário Conrado, pedindo alguém de confiança... Foi aí que pensei em você, Procópio... Que tal? Aqui você não ganha quase nada, lá entretanto vai ser diferente... PROCÓPIO - Não sei... PADRE ALBERTO - Afinal não é para tanto assim! Terá apenas que velar por um velho Coronel, de saúde já bem comprometida...

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PROCÓPIO - Bom, já que é assim... Aceito! É... Pensando bem, talvez eu possa agora realizar um antigo sonho... (DIVAGA) Juntar um pouco de dinheiro e quem sabe conhecer a cidade maravilhosa... PADRE ALBERTO - O sonho é o alimento vital da realidade, Procópio! Faz muito bem em sonhar... PROCÓPIO - (CORTA, ENVERGONHADO) Isso mesmo, padre! (BREVE PAUSA; O.T.) Sabe, eu sempre esperei poder lhe retribuir tudo o que tem feito por mim, e, agora, apareceu a oportunidade... PADRE ALBERTO - É a nossa amizade que conta... Já se esqueceu que somos amigos de infância, Procópio?... PROCÓPIO - Não, em absoluto... (BREVE PAUSA; OLHA-O COM UM AR SAUDOSISTA; O.T.) Tudo em nome de nossa velha amizade! PADRE ALBERTO - Assim é que se fala, Procópio! PROCÓPIO - Quando eu devo partir, padre?... PADRE ALBERTO CONTEMPLA O AMIGO, COMPLACENTE. UM SORRISO APARECE-LHE NOS LÁBIOS. MÚSICA SACRA COMEÇA A SER TOCADA NOVAMENTE. LUZ EM FOCO SOBRE ELE. PADRE ALBERTO - Amanhã, está bem?! Agora deve estar quase na hora da missa... Quer vir me ajudar? Me parece uma boa oportunidade para agradecer a Deus esse novo momento de sua vida... (BREVE PAUSA) Será a “sua” última missa, e já começo a sentir a sua falta, Procópio amigo! AS LUZES SE APAGAM. SOM TÍPICO DE MARIA-FUMAÇA INUNDA O PALCO. FOCO SOBRE PROCÓPIO SENTADO E PENSATIVO, COM UMA MALA AO PÉ. PROCÓPIO - (VOZ) Fui para a vilazinha cuidar do Coronel... Na realidade, estava tão cheio de ficar escrevendo sobre a vida clerical que o melhor era mesmo mudar de ares... (BREVE PAUSA) Estava pronto para vivenciar novas emoções em um lugar estranho... Finalmente po-

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deria juntar uns tostões a mais, e depois estabelecer algum comércio, quem sabe uma farmácia... Crescia a minha expectativa em torno de conhecer o meu novo patrão... (BREVE PAUSA; O.T.) Ao chegar, estranhei a recomendação que partiu do vigário daquele lugar: “Seja manso e caridoso com o velho Coronel Felisberto...” (FOCO DE LUZ VAI SE APAGANDO SOBRE PROCÓPIO) Esse era o momento... MUDANÇA DE CENA. PROCÓPIO ESTÁ NA VARANDA DA CASA DO CORONEL, COM A MALA NA MÃO. ESTE O OBSERVA, CALADO. AS SUAS FACES ESTÃO DURAS. LUZ GERAL. CORONEL - (COM CERTA IRONIA) Até que enfim outro! Mas só espero que não seja mais um gatuno! PROCÓPIO - Não, senhor. CORONEL - Como se chama, rapaz? PROCÓPIO - Procópio José Gomes Vallongo. CORONEL - (ESPANTADO) Será que ouvi bem? Colombo?! PROCÓPIO - (PROCURANDO SER TOLERANTE) Não, senhor... Procópio José... CORONEL - (CORTA) Muito bem! Muito bem! Pra mim, Procópio é o bastante! Não repare, sim? PROCÓPIO - Não, senhor... Como achar melhor... CORONEL - Sabe, Colombo... (NOTA O EQUÍVOCO E PIGARREIA) Desculpe-me... É Procópio, ainda não guardei o seu nome direito... (O.T.) Eu gostaria de te pedir que tenha um pouco de paciência comigo... Estou velho, sabe... O tempo é inexorável com todos nós e... (HESITA, MAS SE DEIXA LEVAR PELO RACIOCÍNIO) Também chegará lá, Pitombo! (PERCEBE SEU EQUÍVOCO; SEM GRAÇA) Ó, está vendo?!... Ultimamente, ando assim... Essa minha cabeça! PROCÓPIO - Eu compreendo, senhor... (COM UM AR DE CONFIDÊNCIA) É... Também tive que cuidar de meu pai na velhice... Ele tinha muita dificuldade para lembrar certas coisas, coitado... CORONEL - (ENFEZANDO-SE) O que você está insinuando? Me chamando de coitado, é?

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PROCÓPIO - (SEM GRAÇA) Não, senhor!... Eu quis dizer que conseguia entender... CORONEL - (CORTA) Está bem, meu rapaz! Tratemos de nos conhecer, primeiramente... (O.T.) Percebo a sua boa índole, vejo que tem qualidades, e isso, pensou eu, é estar a um passo de uma estreita e amistosa relação... (BREVE PAUSA) Seja bem-vindo, meu jovem Procópio! (COM IRÔNICA SURPRESA) Está vendo como já guardei o seu nome?!... PROCÓPIO - (COM MEIO SORRISO) Sim, estou vendo... MUDANÇA DE CENA. LUZ. PASSAGEM DE TEMPO. SONS DE PÁSSAROS CANTANDO NO SILÊNCIO DA AURORA TÍPICA DE INTERIOR. PROCÓPIO TEM UMA EXPRESSÃO DE FELICIDADE, ENQUANTO AJUDA O CORONEL A SE LEVANTAR DE UMA POLTRONA NA SALA. PROCÓPIO - Vamos, Coronel... O café está na mesa... CORONEL - Obrigado, Procópio... (SEGURA A MÃO DESTE, TRANSMITINDO AFETO) Você me parece bem diferente dos outros que estiveram por aqui... A toda hora vem ver se preciso de alguma coisa... OUVE-SE AGORA RUÍDO DE GENTE CHEGANDO À PORTA DE ENTRADA. BATEM TRÊS VEZES. PROCÓPIO ABANDONA O CORONEL, INDO ATENDER. PROCÓPIO - (ABRINDO A PORTA) Sim?!... DR. MUNIZ - (SEM APARECER EM CENA, APRESENTANDOSE) Muito bom dia! Sou o médico da cidade, e você quem é? PROCÓPIO - Procópio, o novo enfermeiro do Coronel! (DANDO PASSAGEM) Vamos entrando, por favor... DR. MUNIZ - (INVADE A SALA, E NOTA O CORONEL SENTADO) Aí está o senhor! Como tem passado o nobre coronel? CORONEL - Ainda com altos e baixos, doutor Muniz!... Mas dou graças a Deus de ter conseguido esse bom moço aí... (APONTA A PRO-

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CÓPIO, COM UM GESTO) Venha cá, meu filho: Conte ao doutor como veio parar aqui nesse vilarejo... PROCÓPIO - (APROXIMANDO-SE, UM POUCO ENCABULADO) Eu vim de Niterói... Morava com um padre amigo de infância... Ele é conhecido do vigário daqui, e este nos relatou a necessidade que passava o Coronel... DR. MUNIZ - (CORTA) Seja muito bem-vindo à Vila Carioca, caro Procópio! Espero que você goste daqui... PROCÓPIO - Sim! Tenho certeza... (BREVE PAUSA; O.T.) Então, toma café conosco? DR. MUNIZ - Com prazer... PROCÓPIO VOLTA-SE EM AUXÍLIO DO CORONEL. O MÉDICO TAMBÉM SE MOSTRA SOLIDÁRIO COM ESTE ATO. DÃO ALGUNS PASSOS JUNTOS ATÉ A MESA, E SENTAM-SE PARA O CAFÉ. A IMPRESSÃO DE HARMONIA É PATENTEADA PELA TRANQÜILIDADE DA CENA. NÃO HÁ VESTÍGIOS DE TENSÃO. UMA ESPONTANEIDADE REINA ABSOLUTA. DR. MUNIZ - (AGORA, COMENTANDO) E dizer que o nosso Coronel já foi alvo de críticas absolutamente sem cabimento... CORONEL - Eu já até tinha me esquecido desse desagravo, doutor... DR. MUNIZ - Ah! Coronel: Antes que eu me esqueça, trouxe-lhe um novo medicamento do Rio de Janeiro... Chama-se Arcanon, de um químico bastante conceitado de lá, que tem feitos grandes descobertas na área de citologia... PROCÓPIO - (DESPRETENCIOSAMENTE, AO MÉDICO) Na verdade qual é o real estado de saúde do Coronel?... CORONEL - (PERDENDO O CONTROLE, COM GRAVE ENERGIA ) Quer dizer que também gosta de bisbilhotar a vida dos outros, seu abelhudo! PROCÓPIO - (DESCONCERTADO) Não! Imagine só uma coisas dessas!...

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CORONEL - Pois eu não vou admitir ninguém aqui me controlando, entendeu bem! (AUTORITÁRIO) Você veio para cá apenas para me servir, e trate de cumprir isso! (GRITANDO) Tão-somente isso! DR. MUNIZ - (PROCURANDO ‘QUEBRAR’ O CLIMA) Bom... Eu já preciso ir... Tenho de atender ainda o Salustiano de ‘Orla do Engenho’... CORONEL - O que tem ele? DR. MUNIZ - Está tísico, o moribundo!... O seu aspecto é assustador, não dá pra fazer muita coisa, mas... São os ossos do ofício que me impelem a levar até ele algum refrigério... (TERMINA SEU CAFÉ, LEVANTANDO-SE) Obrigado pelo café delicioso... Precisando de algo, basta me chamar... O MÉDICO SAI DE CENA. UM ANGUSTIANTE SILÊNCIO ENVOLVE OS DOIS À MESA. PROSSEGUEM TOMANDO CAFÉ ASSIM. CORONEL - (DE INESPERADO) Tenho um enxame de doenças, Procópio... Era isso que queria saber? PROCÓPIO - Nem passou pela minha cabeça provocá-lo, Coronel! CORONEL - (AMOLECENDO) Ultimamente, tem aparecido toda a sorte de moléstias, e eu não sei quanto mais poderei resistir... PROCÓPIO - Mas vejo que ainda tem gente que gosta muito do Coronel!... CORONEL - (CORTA) E lá vem você com lisonjas inúteis... De que me serve um remedinho novo para as minhas juntas tão avelhentadas! (MELANCÓLICO) Estou no fim da linha mesmo... Não há reversão possível para mim... PROCÓPIO - O que é isso, Coronel?! Vim para cá também para lhe infundir ânimo, algum entusiasmo que faça o senhor renascer! CORONEL - (SEM OUVIR, EM AGONIA) Tudo acabado... A morte se aproxima para me engolir... A LUZ SE APAGA. PAUSA. A CENA SE TRANSFORMA. OUVESE SONS DIVERSOS PELA CASA. FOCO DE LUZ ACENDE-SE

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SOBRE O CORONEL, VÍTIMA DE IMPLACÁVEL IRA. PROCÓPIO ESTÁ NUM CANTO DO PALCO OBSERVANDO-O. CORONEL - (AOS ESCRAVOS FORA DE CENA) Imprestáveis! Pra que vocês me servem afinal?!... Laia desgraçada e infeliz!... Está cheirando queimado e vocês aí conversando a miúdo!... Vamos, servidão insolente, ao trabalho!... Não vou admitir uma raça inútil em minha casa!... FOCO DE LUZ SOBRE PROCÓPIO, QUE COMENTA. PROCÓPIO - (VOZ) Assim era o dia a dia... Um inferno total! Eu e ele tivemos parcos momentos de trégua, no mais... O coronel não era nada fácil... Sofria de surtos repentinos dos mais esquisitos! Parecia mais um cavalo selvagem impondo seu instinto... Tive que me desdobrar para suportar a tantos desaforos! Ele já estava contaminado por uma perversidade irreversível... Tinha se passado três meses, e agora eu podia ver quem seria o meu algoz! Ninguém em sã consciência poderia sequer suportá-lo alguns dias!... LUZ. PAUSA. MUDANÇA DE CENA. CORONEL ESTÁ SENTADO JUNTO À MESA PARA O CAFÉ. PROCÓPIO ESTÁ EM PÉ, DE COSTAS PARA ELE, VERIFICANDO A MEDICAÇÃO. CORONEL - (COM INFLEXÃO) O que você está fazendo, idiota? Por que não vem se sentar? PROCÓPIO IGNORA-O COMPLETAMENTE. COMEÇA A ASSOBIAR ALEGREMENTE. CORONEL - (INSISTE, COLÉRICO) Você não está me ouvindo, vassalo indolente?! Vem já tomar o seu café!

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PROCÓPIO - Dá pra esperar? Estou ocupado com o seu remédio... (VIRA-SE) Afinal, o senhor tem tanta coisa, que seria melhor ficar num hospital!... VÊ-SE UMA TRANSFORMAÇÃO NA EXPRESSÃO DO CORONEL, QUE PÁRA DE TOMAR O CAFÉ. CORONEL - (AOS GRITOS) Insolente! Petulante! Onde aprendeu tanta malcriação, hein?! Na igreja é que não foi... PROCÓPIO - Lá vem de novo o senhor subir as montanhas! Eu não fiz nada, Coronel! (NÃO DOMINA A RAIVA, E CHUTA VIOLENTAMENTE A CADEIRA PRÓXIMA DA MESA) Quer saber duma coisa: Não fico mais um só minuto aqui nesse lugar!... Chega! O senhor ultrapassa todos os limites possíveis! (COM REPÚDIO) Vou-me embora, Coronel ‘Moléstia’! Vai ter de providenciar outro saco para bater! CORONEL - (NUM LAMPEJO DE FRAQUEZA, ARREPENDIDO) Espera, Procópio... Não vá! (BREVE PAUSA; O.T.) Eu vivo achando que vocês, enfermeiros, vem para cá encostar o corpo... Preciso de você aqui: Você tem um grande coração... PROCÓPIO - (RENITENTE) Ficar como, Coronel?! O senhor trata todo mundo como animal, aliás, nem animal pode ser tratado assim dessa maneira! CORONEL - (COM UM AR PATERNAL) Quero que entenda, meu filho! Não fique zangado! Sou eu que ando muito amolado, sofrendo de rabugice de velho... PROCÓPIO - (AMOLECENDO) Está bem! Está bem! Mas é preciso controlar-se, meu Deus! (COM CENSURA) Até quando irá ralhar desse jeito? Desta vez ainda vou fazer vistas grossas, mas, pode ter certeza de que não haverá outra!... CORONEL - (COM SURPREENDENTE RESIGNAÇÃO) Eu não tiro a sua razão, Procópio! Mas lhe peço paciência... Logo estarei partindo para outro mundo e... (OLHA-O COM UMA EXPRESSÃO ESTRANHA) Você faria uma coisa por mim? Rezaria no meu túmulo, Procópio? Assim, protegeria você contra todos os maus augúrios...

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PROCÓPIO - O que é isso, Coronel! CORONEL - (QUASE NUM DEBOCHE) Então não acredita na vida depois da morte, é? Pois duvide só, e virei aqui lhe puxar os pés! (EMITE UMA GARGALHADA SINISTRA) PROCÓPIO - Será que ouvi bem?!... CORONEL - Nem mais um pio, senão... (FAZ SUSPENSE ENGROSSANDO A VOZ) Virei assombrááá-looo... (APAVORA-O COM OUTRA GARGALHADA) LUZ. MUDANÇA DE CENA. OUVE-SE VOZES QUE PARECEM VIR DE FORA. CORONEL SE DESPEDE À PORTA. O RUÍDO CESSA. PROCÓPIO ARRUMA ALGUNS OBJETOS NA ESTANTE. O CORONEL AVANÇA ATÉ ELE LENTAMENTE. CORONEL - (PROVOCATIVO) Ei, orelhudo: Não está na hora do meu remédio? PROCÓPIO - (COM DESPREZO) O senhor não vai mesmo mudar nunca, Coronel! Tem um gosto especial pelo escárnio... CORONEL - Cale-se, múmia! Ninguém pediu sua infeliz opinião! Agora, vai ver o que te pedi, vai!... PROCÓPIO - (INDIGNADO) O senhor devia ter procurado um cachorro para essas funções! Não um enfermeiro como eu!... CORONEL - Quero que cumpra as suas funções direito, é isso! Ou está pensando que veio para cá ganhar dinheiro no mole?!... PROCÓPIO O OLHA COM EXTREMO ÓDIO. A LUZ SE APAGA SÓ QUANDO O CORONEL JÁ NÃO EMITE RISADA NENHUMA. A CENA SE TRANSFORMA. “CREDO IN UNUM DEUM”, DE MOZART PODE SER OUVIDO BAIXINHO. O CENÁRIO AGORA É A PARÓQUIA DO VILAREJO. LUZ GERAL. VIGÁRIO - (COM PERSUASÃO) Ele precisa muito de você, Procópio! Procure ser tolerante...

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PROCÓPIO - Não dá mais, Vigário Conrado! Vou voltar à Corte, e retomar o meu lugar com padre Alberto... Pelo menos lá eu tinha paz... Mais um pouco e esse homem me enlouquece duma vez! VIGÁRIO - (TENTANDO CONFORTÁ-LO) Tranqüilize-se filho, vamos! Não se atormente mais com tudo isso!... Eu sei que tem passado momentos indigestos, todavia pese que o homem não tem mais do que poucos meses de vida... Assim... PROCÓPIO - Vou ter que pensar mais um pouco... (BREVE PAUSA) Está bem, vigário: Será a minha última tentativa, depois... (DEIXA A FRASE EM ABERTO PROPOSITADAMENTE, E SUSPIRA) Ó, Deus! Protegei-me daquele velho rabugento! VIGÁRIO - Você será recompensado por esse ato... MUDANÇA DE CENA. SALA DE ESTAR DA CASA DO CORONEL. PROCÓPIO NERVOSO ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO. FOCO DE LUZ SOBRE ELE. OUVE-SE UM TOQUE NA PORTA DE ENTRADA. VAI ATENDER. PROCÓPIO - Ah! Dr. Muniz! Não via a hora que chegasse! Entre, por favor... ESTE ATRAVESSA A PORTA LENTAMENTE, EMPUNHANDO UMA MALETA ESCURA; ACOMODA-SE NUMA CADEIRA. DR. MUNIZ - Diga-me em que posso ajudar, Procópio! Algo aconteceu ao Coronel, ou o que... PROCÓPIO - (CORTA, INQUIETO) Não, não! Não aconteceu nada com ele... Bom, pelos menos por enquanto... É eu que estou à beira de um... (HESITA) Como posso dizer... Sim, de uma explosão de nervos! É isso... DR. MUNIZ - (PENSATIVO) Hummm... PROCÓPIO - (INCONTROLÁVEL) É que do jeito que as coisas vão, é bem capaz de eu ir primeiro que o Coronel! DR. MUNIZ - (COM OS OLHOS ARREGALADOS) Não me diga!

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PROCÓPIO - Sim! Eu ando com os nervos à flor da pele! Imagine, o senhor, que o Coronel anda impossível! Por esses dias mesmo desmontou sobre o Tabelião Moreira: Sapecou umas palavras terríveis ao homem, que eu que não tenho nada a ver com a história, quis enfiar-me terra adentro de vergonha! Desanda a ralhar com todos... Por isso pedi que viesse aqui, doutor! (O.T.) Já falei com o vigário, e ele insistiu para mim ter paciência... (BREVE PAUSA; DECIDIDO) Não obstante, resolvi partir dentro de um mês... O senhor está me compreendendo, Dr. Muniz? DR. MUNIZ - (COMPLACENTE) Claro, meu rapaz! Eu não queria estar mesmo na sua pele... Deve ser bastante sacrificado cuidar do Coronel no estado em que se encontra... (BREVE PAUSA; O.T.) Se eu entendi bem, você quer que eu mesmo fale com o vigário para lhe arranjar um substituto, não é isso?!... PROCÓPIO - É isso! Puxa vida! Obrigado pela sua compreensão, Dr. Muniz! (AO PÚBLICO, COM ALÍVIO) Ufa!... Até que enfim alguém que me entenda! LUZ. PASSAGEM DE TEMPO. PROCÓPIO E O CORONEL TOMAM SOPA SILENCIOSAMENTE. ENQUANTO ISSO, OUVE-SE SONS DIVERSOS VINDO DE FORA DA CASA. O CORONEL É O PRIMEIRO A TERMINAR. CORONEL - (AUTORITÁRIO) - Vamos! Termine logo de comer, seu molenga! PROCÓPIO - Se o senhor está pensando que eu vou reagir à sua provocação, está redondamente enganado... CORONEL - (CORTA) Cale-se, insolente! Agora vá pegar o meu remédio para depois do jantar! Vamos, moleirão, não espero nem mais um segundo! PROCÓPIO - (FAZENDO FORÇA PARA CONSERVAR A CALMA) Gostaria de saber o que é que aflige tanto o senhor... (O.T.) Talvez queira mais um prato de sopa?... CORONEL - (GRITANDO) Nãooo!... Quero o meu remédio, vagabundo, vamos!...

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PROCÓPIO - Está bem! Está bem! Já vou pegar... PROCÓPIO ARRASTA A CADEIRA PARA TRÁS, DECIDIDO A LEVANTAR-SE DA MESA, QUANDO, DE REPENTE, O CORONEL SOFRE UM ATAQUE HISTÉRICO, COMO QUE POSSUÍDO POR UMA FÚRIA INCONTROLÁVEL, ATIRANDO-SE CONTRA ELE. PROCÓPIO - (DEFENDENDO-SE COMO PODE) - O que pensa que está fazendo, seu velho-louco?!... MÚSICA SURGE COMO FUNDO DE UMA LUTA DE “RINGUE”. ESTÃO ATRACADOS, ENVOLVIDOS EM TOTAL ANIMOSIDADE. AOS POUCOS, AS LUZES VÃO DIMINUINDO DE INTENSIDADE ATÉ A ESCURIDÃO TOTAL. SILÊNCIO AGORA. FOCO DE LUZ ACENDE-SE SOBRE AMBOS, QUE ESTÃO NO CHÃO. PROCÓPIO AINDA SEGURA O PESCOÇO DO VELHO, CUJA CABEÇA ESTÁ CAÍDA. ATORDOADO, OLHA PARA O PÚBLICO IRREFLETIDAMENTE, PARA EM SEGUIDA CERTIFICARSE DO INCIDENTE, ENQUANTO PROCURA DESFERIR REPETIDOS TAPAS NO ROSTO DO CORONEL, COMO SE ESPERASSE POR ALGUMA REAÇÃO DESTE. PROCÓPIO - (FICANDO DESESPERADO) Vamos não brinque assim, Coronel! (SACODE-O PELOS OMBROS, GRITANDO) Coronel! Coronel! Acorde, Coronel! Coronel!... (E SOLTA O CORPO, CAINDO PARA O LADO, EM PROFUNDA DESOLAÇÃO). A LUZ GERAL SE APAGA. OUVE-SE UM CHORO CONVULSIVO, SUMINDO AOS POUCOS. PAUSA. LUZ EM FOCO AGORA SOBRE PROCÓPIO. A CENA TRANSFORMOU-SE. ESTE APARECE ENVOLVIDO NUMA ALUCINAÇÃO. ESTÁ EM PÉ, PRÓXIMO AO CORPO DO CORONEL, SOB O QUAL JAZ UMA CAMA DE ALCOVA.

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PROCÓPIO - (VOZ EM DELÍRIO) Não! Não! Eu não quis fazer isso com o senhor, Coronel! Sempre fui um bom cristão, que jamais pensou em fazer mal a quem quer que fosse! Uma fatalidade, foi isso que ocorreu!... O que é que eu podia fazer? Tive que me defender, ou o senhor me estrangulava primeiro... (A VOZ DELE É COBERTA POR OUTRA DE FUNDO: “ASSASSINO! ASSASSINO! VAI SE ARREPENDER DO QUE ACABOU DE FAZER!...”) Por favor, Coronel! Não me venha com bruxarias! Eu irei rezar muito para o senhor não vir puxar os meus pés! Lembra-se de que havia me falado de bons prenúncios?... Onde está a sua palavra, Coronel?... PROCÓPIO QUEDA-SE TRANSTORNADO. O DESESPERO TOMA-LHE POR COMPLETO. ROMPE EM CHORO. FUNDO MUSICAL TÉTRICO CLIMATIZA A CENA, ATÉ CEDER NOVAMENTE À VOZ DE FUNDO: “VIREI TE DESGRAÇAR, PITOMBO IDIOTA! APERTAREI O TEU PESCOÇO ATÉ VIRAR PANO DE CHÃO...” EMITE UM RISO ASSUSTADOR, E PROSSEGUE COM SINISTRA INFLEXÃO: “ESPERE PELO INFERNO QUE FAREI DA TUA VIDA... NÃO SOSSEGAREI ATÉ VER SUA ALMA NAS TREVAS DA AMARGURA...” NOVA RISADA ENFADONHA. PROCÓPIO - Não! Não! Isso não!... AS LUZES SE APAGAM. OS ECOS DA VOZ DE PROCÓPIO VÃO DESAPARECENDO. PAUSA. AGORA ELE ESTÁ EM PÉ NUM CANTO DO PALCO, DENOTANDO UM AR DE INDIGNAÇÃO. A CENA JÁ SE TRANSFORMOU. LUZ EM FOCO SOBRE ELE. PROCÓPIO - (AO PÚBLICO) Maldita a hora em que aceitei vir para cá... (BREVE PAUSA; PROCURA REFLETIR) É... Mas talvez eu não pudesse ter recusado o convite de Padre Alberto mesmo... Ou será que quis a vontade de Deus, que eu me transformasse num violento assassino, deixando registrado no meu coração a marca tenebrosa do pecado que tanto me assusta?... (BREVE PAUSA; O.T.) Deveria ter fi-

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cado lá em Niterói morando com Padre Alberto... (EXPLORA SUA MEMÓRIA AFETIVA, COM DESPREZO) Ah, Padre Alberto! Sabe de uma coisa: Penso que é um amigo da onça, ao me arrumar esse serviço dos diabos!... E que dizer então do seu colega de ofício?... Isso! Estou falando do vigário Conrado!... No mínimo é um homem sem escrúpulos, que sabia da dificuldade que era assistir ao velho nessas condições, contudo... (EMITE UM URRO) Vigarista hipócrita!... Eis o que é!... (GESTICULA) Ah!... Mas não me esqueci do senhor não, Dr. Muniz! Sempre vem até aqui todo pomposo e meticuloso saber como andam as coisas, não é?... “Doutorzinho” cínico e imprestável! Fez pouco do meu pretexto... (SACUDIDO POR UM ÍMPETO DE IRA) Não sei quem é mais falso de todos vocês?!... (SOFRE NOVA RECAÍDA, PRODUZINDO UM CHORO CONVULSIVO) A LUZ SE APAGA EM RESISTÊNCIA. OUVE-SE UM ALVOROÇO DO LADO DE FORA. SOAM BATIDAS À PORTA DE ENTRADA. LUZ GERAL. PROCÓPIO, RESTABELECIDO, INDO ATENDER AO TOQUE. ABRE A PORTA, DANDO PASSAGEM AO VIGÁRIO ACOMPANHADO DO MÉDICO. VIGÁRIO - (INVANDINDO O PALCO) Bom dia, Procópio! Soubemos agora do acontecido e viemos imediatamente... Alguns amigos vêm vindo para cá fazer a última homenagem ao Coronel... DR. MUNIZ - (CORTA) Onde está o corpo?... PROCÓPIO - (DESAPONTADO) Está lá em cima da cama no quarto... Já amortalhei o cadáver com a ajuda de um escravo...(O MÉDICO SAI DE CENA) VIGÁRIO - Como foi que aconteceu, Procópio? Ele morreu sentado, dormindo?... PROCÓPIO - (EMENDANDO NERVOSAMENTE) Dormindo!... Quando raiou o dia, e fui levar-lhe a medicação da manhã, já estava dormindo o sono eterno, com a boca entreaberta... DR. MUNIZ - (VOLTANDO A CENA) - É... Ele já estava com a saúde bastante ruinzinha... (DIRIGE-SE À MESA, TIRA UM PAPEL DA MALETA E COMEÇA A ESCREVER O ATESTADO DE ÓBITO,

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PRONUNCIANDO EM VOZ ALTA) Aneurisma cerebral, com complicações generalizadas na artéria aorta... VIGÁRIO - (A PROCÓPIO) Bom, agora você poderá retornar para Niterói... Não era por isso que ansiava tanto?... PROCÓPIO - Sim, mas não desta maneira! Não pense que vou esquecer o Coronel assim tão fácil! Malgrado toda sua velhice doentia, ele mostrou alegria em contar-me pormenores de sua vida, quando ainda tinha juventude e sanidade: Certa vez, disse ele, tomou da mão de um gatuno um leque magnífico roubado de uma respeitada dama... (NA DÚVIDA) Não me lembro bem se era a mulher do general Câmara?... Bom, mas isso não tem importância! (BREVE PAUSA) Podem fazer idéia do que aconteceu depois disso? (COM UM AR DE INCREDULIDADE) Foi-lhe concedido uma ordem, cujo galardão apenas esteve à mercê de alguns poucos heróis nacionais em todos os tempos! (ESCANDINDO AS PALAVRAS) A Ordem da Galhardia dos Republicanos Nacionalistas... DR. MUNIZ - Estou vendo que o sentimento te arrebata, Procópio! Parece que gostava muito do Coronel... (COM ALGUM SARCASMO) E pensar que queria ir embora e deixá-lo aí... (AO PÚBLICO, MEDITATIVO) Realmente, as coisas são mesmo peças de um quebracabeça... O que será que se passa no coração de um homem, quando vê que sua vida perdeu outro ponto de referência frente ao qual expiava sua culpa?... Eu é que não sei... AS LUZES SE APAGAM EM RESISTÊNCIA. OUVE-SE MÚSICA SACRA GANHANDO VOLUME. MUDANÇA DE CENA. PROCÓPIO APARECE AJOELHADO EM GENUFLEXÓRIO, SOB À LUZ DE UM SANTUÁRIO. LUZ EM FOCO SOBRE ELE. PROCÓPIO - (OLHOS CERRADOS, COM VOZ EM SÚPLICA, MAS SENDO POSSÍVEL OUVIR) Clamo ao Santíssimo Deus que dirija toda sua fonte de benignidade à alma do Coronel Felisberto de Gusmão, cuja vida foi povoada de acontecimentos marcantes e fatos inesquecíveis, e através dos quais lhe foi facultado semear grãos numa terra divina, própria para o cultivo de um bom coração... (BREVE

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PAUSA; COM FORTE EMOÇÃO) Ó, meu Redentor! Ele nos últimos tempos andava um tanto impertinente, atribuindo-me desaforos e insuportáveis grosserias!... (RECOMPÕE-SE) Mas imploro ao Senhor, que o faça ingressar em sua santa e inigualável Morada... E, por favor aceite, insisto, o meu sincero e condoído arrependimento... (ENFÁTICO) Perdão, Santíssimo!... (PERSIGNA-SE, E ABRE OS OLHOS. HÁ TENSÃO NAS FACES) O Senhor bem conhece os segredos do meu coração... Jamais pensei que um dia isso pudesse acontecer na minha vida... Dê-me o seu perdão, Senhor! (GEME) Quero me livrar desse pesadelo... PADRE ALBERTO - (ENTRANDO EM CENA ACOMPANHADO DE PROSAICO) O seu irmão desde que voltou, vive assim choroso, triste e melancólico... Até parece que... (HESITA, E FAZ O SINAL DA CRUZ) Deus que me perdoe, mas assim temo pensar numa outra espécie de fatalidade!... PROSAICO - (DESCONFIADO DO PENSAMENTO DO PADRE) Fale!... PADRE ALBERTO - (EMBARAÇADO) É... Bom... Você sabe que, a despeito de ser um homem que busca as virtudes morais nos filhos de Deus, também tenho momentos de fraqueza, fazendo com que o meu espírito se acenda com o fogo da suspeita... PROSAICO - Está querendo insinuar que ele teve alguma culpa na morte do Coronel?!... PADRE ALBERTO - Não que eu quisesse... PROSAICO - (CORTA, CHOCADO) Nossa Senhora da Glória, padre! (PERSIGNA-SE) PADRE ALBERTO - Calma! Eu... Eu não quis dizer com isso que... (INTERROMPE-SE E MUDA DE TOM NUM GESTO, APONTANDO COM A CABEÇA) Veja só, Prosaico: O seu irmão anda padecendo muito... (AGORA, AMBOS OBSERVAM PROCÓPIO, QUE AINDA PROSSEGUE SOLUÇANDO) É preciso que o ajude a sair dessa tremenda angústia... PROSAICO - Eu, padre?! Por que não o senhor que goza de enorme prestígio? Mesmo porque o senhor é amigo dele...

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NESTE INSTANTE, ELES PARAM DE CONVERSAR E NOTAM PROCÓPIO LEVANTAR-SE, FAZENDO AS ÚLTIMAS PERSIGNAÇÕES DEFRONTE DO SANTUÁRIO. UMA SUAVE MÚSICA INUNDA A CENA. PAUSA. PROSAICO - (APROXIMANDO-SE DELE, COM DELICADEZA) Ei, Procópio... (ESTE VIRA-SE A ELE) Basta de sofrimento! Pense: O que é que podia fazer? O homem já estava condenado, não estava? Portanto, trate de aliviar a consciência... A sua vida precisa continuar e, de preferência, com a antiga alegria costumeira... (APROXIMA-SE DELE E O ENVOLVE NUM ABRAÇO) Vamos, vamos! Dê aquele sorriso que conheci quando vinha me pegar na escola! Não se lembra?! (PROCÓPIO ESBOÇA UM TÍMIDO SORRISO) Isso! Assim é que eu gosto!... PADRE ALBERTO - Se eu soubesse que faria tão mal a você, Procópio, teria arranjado outra pessoa pra ir no seu lugar... PROCÓPIO - Ninguém poderia adivinhar, não é mesmo? Mas, vou me refazer... Tudo no seu tempo certo... LUZ. PASSAGEM DE TEMPO. UMA MÚSICA DE ÉPOCA ENVOLVE A CENA. PROCÓPIO ESTÁ NUM CANTO DO PALCO ABRINDO UM ENVELOPE. LÊ A CARTA EM SILÊNCIO. PROCÓPIO - (VIVENDO UM ESTADO EUFÓRICO) Fiquei rico! Fiquei rico! (PULA EM CENA, GRITANDO) Iuhúuu!... O Coronel deixou tudo pra mim! Iuhúuu... (DE REPENTE, PÁRA, CISMADO; RELÊ A CARTA) Hummm... Será mesmo? Ou é uma estratégia para descobrir o assassino do Coronel? Vai ver que o vigário desconfiou de alguma coisa e... (BREVE PAUSA) Não, não! Isso é impossível! Deve ser coisa da minha cabeça! Ele não faria isso dessa maneira, acredito... (E COMEÇA A RELER A CARTA EM VOZ ALTA: “Caro Procópio: Conforme testamento firmado pelo Coronel Felisberto de Gusmão, você foi declarado herdeiro universal de todos os bens deixados por ele. Porém, terá que voltar à vila para tratar do espólio... (INTERROMPE A LEITURA. A EUFORIA VOLTA EM SEU ROSTO;) Está aqui es-

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crito, sem engano nenhum! (PULANDO E GRITANDO) Fiquei rico! Fiquei rico! FIQUEI RICO!... A LUZ SE APAGA. A CENA SE TRANSFORMA. PAUSA. OUVESE A VOZ DO CORONEL FALANDO À CONSCIÊNCIA DE PROCÓPIO. FOCO ACENDE-SE SOBRE ELE, AGORA SENTADO NUM BANCO DE PRAÇA. CORONEL - (VOZ) Deixei tudo pra você, Procópio, porque desde o primeiro dia em que pisou à varanda de casa, aceitou todas as minhas brincadeiras e o meu jeito severo de ver as coisas do mundo... Na verdade, teve paciência comigo por um grande período, até que não suportou mais e me esganou... Mas não faz mal!... Agora eu consegui entender a sua atitude... E é por isso que estou aqui agradecendo a você pelas preces fervorosas que têm me servido... Eu entendo que foi mais uma fatalidade do destino, cujo instrumento foram as suas mãos, Procópio... Essas suas mãos cuidadosas de enfermeiro, com as quais diligentemente me assistiu, malgrado a minha impertinência... Agora, durmo perenemente na cova aberta pelo misterioso destino de todos nós... Adeus e obrigado mais uma vez, Procópio! Sossegue que não virei mais puxar os seus pés! A luz de sua prece foi muito bem recebida pelo meu espírito... Fique em paz e faça bom uso do que lhe deixei... LUZ. PASSAGEM DE TEMPO. A CENA SE TRANSFORMA. PROCÓPIO DESCANSA NA SALA DA CASA DO CORONEL FELISBERTO. FUMA CHARUTO, METIDO NUM IMPECÁVEL TERNO CORTADO À MODA DA ÉPOCA. OUVE-SE LEVES TOQUES À PORTA DE ENTRADA. VAI ATENDER. PROCÓPIO - Ó! É o senhor, Doutor Muniz! (DÁ PASSAGEM A ESTE, DEMONSTRANDO CORTESIA) Esteja à vontade, por favor... DR. MUNIZ - (ENTRA E RETRIBUI A MESURA, INDO SENTARSE) A que devo a honra de seu convite, Procópio?...

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PROCÓPIO - (ACOMODANDO-SE) Primeiramente agradeço por têlo aceitado, doutor... (BREVE PAUSA; PROCÓPIO REACENDE O CHARUTO CALMAMENTE, E SOLTA ALGUMAS BAFORADAS) Bom... Na verdade, eu havia pensado em fazer uma espécie de surpresa, mas... (QUEDA-SE) Depois, refleti que era melhor dizer-lhe pessoalmente... DR. MUNIZ - (CORTA) Você está mesmo mudado hein, Procópio! Já tinha ouvido falar que o dinheiro repentino produz uma metamorfose nos valores do indivíduo, porém só agora tenho oportunidade para testemunhar esse fato!... PROCÓPIO - Também não é assim, doutor! Claro que houve uma transformação depois que me vi endinheirado... DR. MUNIZ - (CORTA) Que palavra bonita: Endinheirado!... Sabe, nós, médicos, não podemos pensar muito nisso, porque juramos sob as barbas de Hipócrates, não cometer nenhuma espécie de vigarice, e o dinheiro é tentador... BATEM À PORTA NOVAMENTE. DR. MUNIZ SUSPENDE O PENSAMENTO. PROCÓPIO LEVANTA-SE E ATENDE. PROCÓPIO - Ó, vigário, que bom que veio! Vamos entrando, por favor... VIGÁRIO - (ENTRA E NOTA A PRESENÇA DO MÉDICO) O senhor também por aqui, doutor Muniz! (VIRA-SE A PROCÓPIO) Bom, só espero que a reunião seja breve... Tenho muito ainda a fazer na Paróquia... DR. MUNIZ - (DESENTENDIDO) Reunião?! Que reunião é esta afinal?... PROCÓPIO - Calma, senhores: Já explico... OS DOIS CONVIDADOS ACOMODAM-SE. PROCÓPIO PROCURA ALGO NUMA CAIXA EM CIMA DA MESA. RETIRA DELA UM NOVO CHARUTO, ACENDE-O, E VEM SENTAR-SE ENTRE ELES.

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PROCÓPIO - Antes de mais nada, chamei-os aqui para revelar a minha gratidão por tudo que fizeram por mim e também pelo Coronel... (BREVE PAUSA; FAZ SUSPENSE) E, por tudo isso, irei fazer uma doação a este lugar... Quero saber se vocês têm alguma prioridade? DR. MUNIZ - Bom... Pra falar a verdade, Procópio, a Santa Casa anda mal das pernas... VIGÁRIO - (ACRESCENTA) E a Paróquia também precisa ser restaurada... PROCÓPIO - Esperem um pouco! Vocês estão achando que eu vou reformar a cidade, é? Não tenho pra tanto assim não... O VIGÁRIO E O MÉDICO ENTREOLHAM-SE COM PERPLEXIDADE. UMA MÚSICA CRESCE, PROPICIANDO UM CLIMA DE EXPECTATIVA. A LUZ SE APAGA. A CENA SE TRANSFORMA. LUZ. PASSAGEM DE TEMPO. DR. MUNIZ APARECE CONVERSANDO COM O VIGÁRIO NA PARÓQUIA. DR. MUNIZ - (APROXIMANDO-SE) Pediu que eu viesse aqui, vigário? O que é que há?... VIGÁRIO - Procópio não está mais na cidade... Deixou uma carta dizendo que precisava cuidar de um irmão doente... DR. MUNIZ - Quer dizer então que nos abandonou? E a doação? Que fim levou ela?... VIGÁRIO - Não sei dizer... Mas ele ficou de voltar um dia... DR. MUNIZ - E você acredita nisso, Vigário?! Isso não me cheira bem... VIGÁRIO - Calma!... Não é preciso subestimá-lo... Afinal foi ele próprio que se propos a fazer a doação... (HESITA, COMO SE TIVESSE TIDO UMA IDÉIA) Acho que agora começo a entender: Você está supondo que ele mudou de idéia então?... DR. MUNIZ - Exatamente!... VIGÁRIO - Hummm... OUVE-SE RUÍDO DE CARRUAGEM CHEGANDO. PAUSA. PADRE ALBERTO BATE À PORTA DA PARÓQUIA.

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VIGÁRIO - Entre... PADRE ALBERTO - Ó! Olá, Vigário Conrado! Que prazer estar aqui! VIGÁRIO - (CUMPRIMENTA-O, JUBILOSO) Há quanto tempo, padre!... Você continua o mesmo!... PADRE ALBERTO - Igualmente posso dizer de você... O MÉDICO PERMANECE SENTADO OBSERVANDO OS DOIS SACERDOTES. DEPOIS DE ALGUM TEMPO, O VIGÁRIO DIRIGE-SE O OLHAR A ELE. VIGÁRIO - Deixe eu te apresentar o único médico dessa região... DR. MUNIZ - (LEVANTANDO-SE, CORTÊS) Dr. Muniz, ao seu dispor! Já tinha ouvido falar muito bem do senhor, padre... PADRE - (CUMPRIMENTANDO-O) Se eu bem adivinho, isso é coisa do vigário, que sempre foi muito pródigo em suas palavras... VIGÁRIO - (CORTA, GENTIL) Mas sente-se, padre Alberto! O senhor deve estar cansado depois de tão longa viagem... PADRE - (SENTANDO-SE) Sim!... Foram quase quatro horas no total... (BREVE PAUSA; O.T.) Bem, agora que estou aqui, quero conhecer todo o vilarejo... DR. MUNIZ - Ele parece que nunca esteve tão pobre, padre! PADRE - Não me diga! O que ocorre? DR. MUNIZ - Não há quase verbas para os municípios cariocas, segundo o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro... Então o senhor imagine como estamos vivendo!... VIGÁRIO - (COMPLETANDO) O estado é de penúria por toda a região fluminense... PADRE - (ALARMADO) - Mas a população precisa de esperanças! (SUBITAMENTE DECIDIDO) Vou redigir um relatório minucioso sobre o problema, e enviá-lo ao governador... VIGÁRIO - Obrigado, padre Alberto! É de extrema importância contar com o seu apoio nesse momento tão delicado em que vivemos...

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AGORA, OUVE-SE APITO DE TREM. SONS TÍPICOS VINDOS DA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA. AS LUZES DIMINUEM DE INTENSIDADE. PAUSA. RESSOAM BATIDAS ENÉRGICAS À PORTA. LUZ. VIGÁRIO - Entre... A PORTA ABRE-SE E APARECE PROSAICO. PROSAICO - (SEM GRAÇA) Espero não estar atrapalhando os senhores... VIGÁRIO - (PRESTATIVO) O que deseja, meu rapaz?... PROSAICO - Sou Prosaico, o irmão de Procópio, o enfermeiro... Trago boas e más notícias dele ao mesmo tempo! VIGÁRIO, PADRE E DR. MUNIZ - (JUNTOS) Como assim?!... PROSAICO - (CANSADO) Nem sei por onde começar... DR. MUNIZ - Em tudo sempre houve um começo, meu jovem! (PUXA UMA CADEIRA) Sente-se aqui e tranqüilize-se, vamos... PROSAICO - (SENTA-SE, OFEGANTE) Bom, eu estou aqui para informar a morte de meu irmão ocorrida ontem à noite... VIGÁRIO, PADRE E MÉDICO - (JUNTOS, COM ESPANTO) Óóóó!!!... PROSAICO - Ele estava voltando de Cabo Frio quando o vagão em que viajava desprendeu-se do trem e caiu numa ribanceira... (QUEDASE, AO REPARAR QUE OS TRÊS ESTÃO CHOCADOS) E então, assim que fiquei sabendo, corri para o hospital e ele ainda estava vivo... Ouvi as derradeiras súplicas dele e aí tudo terminou... VIGÁRIO - (PERPLEXO) Que destino pregador de peça, meu Deus! PADRE ALBERTO - (BALBUCIANDO, BOQUIABERTO) O meu melhor amigo... DR. MUNIZ - Mas não era você que estava doente, meu rapaz? PROSAICO - Sim, mas isto foi antes... DR. MUNIZ - (COMENTANDO, AO PÚBLICO) A cada epísódio essa essa história fica ainda mais maluca...

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PROSAICO - De qualquer maneira, eu precisava vir até aqui! O meu irmão repartiu a herança em três partes: Comprou algumas terras pelos arredores de Niterói, me deixando uma generosa parte em dinheiro, ficando eu ainda de produzir a biografia dele... Restou uma pequena parte que fez questão de doar a esta cidade, além da casa do Coronel... VIGÁRIO - (CONVICTO) Eu sabia que poderia confiar em Procópio! DR. MUNIZ - (VIBRANDO) A Santa Casa de Misericórdia está salva! PADRE - E quando será o enterro? PROSAICO - Um momento, senhores! Procópio pediu mais uma coisa: Ser enterrado ao lado do túmulo do Coronel... VIGÁRIO - (COM INFLEXÃO) Ó! Claro! Isso não é problema! DR. MUNIZ - Sem dúvida, faremos a sua última vontade!... PADRE - E eu faço questão de rezar a sua missa... VIGÁRIO - Bem-aventurado seja ele... AS LUZES SE APAGAM. A CENA SE TRANSFORMA. MÚSICA FÚNEBRE. ENTERRO DE PROCÓPIO. PROSAICO VELA O FÉRETRO. PADRE ALBERTO APARECE CONVERSANDO COM VIGÁRIO. FOCO DE LUZ SOBRE AMBOS. PADRE ALBERTO - Tudo começou com aquela carta sua... VIGÁRIO CONRADO - E como haveria de prever que o final fosse este? Realmente estou escandalizado com a ironia do destino: Ambos no mesmo cemitério, lado a lado... PADRE - É... Ninguém podia imaginar uma coisa dessas!... VIGÁRIO - Você o conhecia bem? PADRE - Bastante.... Era um bom sujeito... Mostrei-lhe os princípios elementares da Igreja, e ele sempre me pareceu interessado, assíduo... VIGÁRIO - Um coração formidável também! Sofreu muito nas mãos daquele Coronel... PADRE - Agora o melhor é enterrá-lo junto ao jazigo da família do coronel... VIGÁRIO - Muito justo...

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A CONVERSA JÁ NÃO PODE SER MAIS OUVIDA. MÚSICA FÚNEBRE SOBREPÕE A CENA AGORA. SIMULADAMENTE, O ENTERRO É ACIONADO. OS PERSONAGENS VÃO SAINDO DE CENA, LEVANDO O CAIXÃO DE PROCÓPIO. AS LUZES COMEÇAM A PERDER A FORÇA. SILÊNCIO TOTAL.

FIM.

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Uma recompensa inesperada