Issuu on Google+

UMA ANDORINHA QUE FEZ VERテグ Curta metragem

DE FELIPE MORENO Copyright na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro


1 UMA ANDORINHA QUE FEZ VERÃO FADE IN: PRIMEIRO PLANO DE UMA ALIANÇA – AFUNDADA NUM AQUÁRIO Ela está enterrada sob pedrinhas de praia e uma cápsula de remédio por cima das quais um PEIXINHO multicolorido passeia. Trilha musical. UMA MÃO DE IDOSO – ERGUE O AQUÁRIO PIOTER, um senhor de setenta e poucos anos, olhar distante e frio, levanta o aquário e derrama sobre ele a água de um copo. Deixa o copo na mesa e ergue o aquário na altura de seus olhos e o contempla por instantes. Ele está com um binóculo colorido pendurado sobre o peito. INT. QUARTO DE PIOTER – NOITE Ambiente pouco iluminado. Um abajur aceso sobre a mesa ilumina vagamente o retrato de um menino loiro e muito bonito sorrindo (Marinho). PIOTER Leva o aquário até a janela do quarto. Apóia-o ali no batente da janela. Instantes. Está com um ar soturno. Pega o binóculo dependurado e mira o exterior da janela e fica olhando por ele. Tempo. O BINÓCULO DE PIOTER Volta ao lugar de repouso, isto é, dependurado sobre o peito dele. PONTO DE VISTA DE PIOTER Sobre a ALIANÇA ali soterrada no fundo do aquário. Trilha continua. A MÃO DE PIOTER – DE REPENTE AFUNDA NO AQUÁRIO E num só lance é retirada para fora. A água pinga por entre a aliança e os seus dedos. PIOTER


2 Ele volta-se e olha para o retrato de MARINHO. Vai surgindo um breve sorriso de contentamento. Instantes. O velho caminha até a mesa onde está o retrato. Põe o aquário e vira-se para a cama. Olha para o retrato de Sofia por sobre um aparador ao lado da cama. PONTO DE VISTA DE PIOTER Sobre o retrato de SOFIA já idosa. Ela apresenta um ar muito luminoso. Instantes. Música continua. PIOTER - SENTANDO NA CAMA Ele tem um sorriso tímido no rosto. Pega a moldura do retrato e passa ternamente os dedos sobre o rosto de Sofia. Música. Sofia parece sorrir a ele. PIOTER traz devagar o retrato até a sua boca ao mesmo tempo em que vai fechando os olhos, bastante sensibilizado com sua lembrança. BLACK - POR INSTANTES A IMAGEM EXPLODE COMO UMA FONTE DE ÁGUA – E REVELA MARINHO Ele está abraçando PIOTER. O garoto é o mesmo do outro retrato do quarto do velho. Deve ter por volta de 10 anos, e demonstra um olhar muito vivaz de uma esperteza genuína. EXT. BANCO DE JARDIM – DIA - MANHÃ MARINHO está de pé junto de PIOTER. O lugar é bem arborizado e calmo. Há CANTORIA de passarinhos. MARINHO Ei vô, aposto que o senhor tava pensando na vovó? PIOTER Faz cara de espanto; foi pego de surpresa.


3 MARINHO (cont., sem demora) Tudo bem, vô, não precisa responder. Eu já sei. (Outro Tom) Olha lá, vô! É uma andorinha. Ela sempre ta aqui né. (Pausa) Acho que ela ta te seguindo hein... PIOTER sorri sem olhar para onde o menino olha. PIOTER Ela gosta de mim como você. MARINHO Ele sai do banco para ver a ANDORINHA mais de perto que sumiu de sua vista. OUTRO ÂNGULO – REVELA ALI PRÓXIMO Um GRUPO de idosos buscando na lembrança pequenas passagens ou significâncias de suas vidas. IDOSO 1 ... Eu fiz. É passado. Não existe mais. IDOSO 2 Como não existe? Enquanto lembrar, existe. IDOSO 3 Minha memória é uma caixa preta. Nem mesmo eu sei o seu segredo. IDOSO 4 Não no meu caso. Tudo o que conquistei do destino foi o direito de lembrar... Os fatos. Eles são música para a minha imaginação. TRILHA sobe de acordo com a fala anterior e a IMAGEM também, caindo de inesperado sobre PIOTER, que pegou o seu binóculo colorido para observar e por ele VEMOS –


4 EXT. DE CAMPO ARBORIZADO – FIM DE TARDE (FLASH BACK) PIOTER e SOFIA bailam harmoniosamente por sobre um esplêndido gramado. Música. (La Valse, de Ravel). Instantes. Eles se movimentam com harmonia e leveza pelo local. De repente, esbarram em uma árvore de onde despencam alguns frutos. Tentam capturá-los, felizes, até que tropeçam e caem um sobre o outro. Eles riem felizes. Olham-se com profundidade e se beijam com muito amor. Instantes. Música continua. PIOTER Poderia dizer que te amo, mas ainda é pouco... SOFIA Um príncipe não dançaria melhor que você, meu amor. Estou tão feliz, mas tão feliz... PIOTER Peça o que quiser. Qualquer coisa. Eu faço. SOFIA Assim você me tenta e eu perco a razão... PIOTER Diante de seu príncipe, você não precisa dela. Só do meu amor... SOFIA Você nunca vai me esquecer? PIOTER Se nunca for que nem o dia que prometeu para a noite amanhecer por toda a eternidade... SOFIA sorri com graça e abraça PIOTER com ternura. O clima é de puro romantismo. CANTORIA de passarinhos.


5

MARINHO (Voz Over) Vovô! O que acontece com a Terra quando a água cai nela? O BINÓCULO – VOLTANDO AO PEITO DE PIOTER EXT. BANCO DE JARDIM - DIA MARINHO sentou-se ao lado do avô. Ele aponta na direção do céu. MARINHO (Cont.) Sabe, não to falando dessa terra daqui de baixo não, vô, mas da terra lá de cima. Aquela que fica girando no meio das estrelas. Taí uma coisa que me deixa pensando... PIOTER Você precisa escolher: geólogo ou astronauta... PIOTER Olha para o menino com ternura. Acaricia a sua cabeça e demonstra um sensível ar de satisfação. MARINHO Volta o olhar para uma árvore. PONTO DE VISTA DE MARINHO Sobre a ANDORINHA, que pousou em um galho. Ela começa a CANTAR. Parece devolver o olhar para o menino. Instantes. Seu CANTO cresce e parece contagiar a emoção do garoto.


6 UMA ENFERMEIRA Aproxima-se rapidamente e passa pelo grupo de idosos que foi visto conversando antes. Pára próxima de Pioter e de Marinho, que continua contemplando a Andorinha. ENFERMEIRA Chegou a hora, seu Pedro. Seu filho já está lá esperando. PIOTER Por que é que precisamos dessa burocracia em nossa saúde hein? Vocês não sabem que corpo de velho é que nem vinho? ENFERMEIRA Mas um bom vinho também precisa ser tratado... PIOTER Quero ficar mais um pouco com o meu neto. MARINHO Ei, enfermeira. Ta vendo aquela andorinha? Eu sei quem ela é. ENFERMEIRA É mesmo. E quem é? MARINHO Não posso dizer, é segredo. PIOTER Ele se volta para MARINHO e pega na sua mão. Volta a afagar o rosto do menino com bastante ternura. PIOTER Um dia quando eu morrer... MARINHO (Corta) Não vai morrer não, vô! Eu não vou deixar. Juro.


7 MARINHO se abraça a PIOTER com força. Instantes. O momento é importante. Valorizar. PIOTER (Voltando-se à Enfermeira) Você queria o que mesmo? CORTE RÁPIDO PARA: INT. AMBULATÓRIO – DIA A ENFERMEIRA virando-se para PIOTER e respondendo da sua forma a pergunta anterior: ENFERMEIRA Muito bem, Seu Pedro. Está são e salvo para o seu último exame do dia. Nada como estar em família hein! (Sorri simpática e sai de quadro) Ali estão PIOTER ao lado de MARINHO. LUIZ, pai de Marinho e filho de Pioter, está com uma sacola na mão ao lado de uma mulher idosa, DONA VESNA, residente do asilo. Ela está de pé, bem-vestida e apoiada numa bengala terminando de falar alguma a LUIZ. DONA VESNA ... Na nossa idade não há muita escolha. Eu estou conformada. Gosto daqui. Mas um dia há de chegar a nossa hora. Só Deus sabe. Por enquanto, Ele fica olhando pelos olhos dos médicos. LUIZ Dona Vesna, fala pro meu pai aí de como foi tudo bem no seu exame. Ele não gosta daqui. Não percebe que é bem cuidado. PIOTER não responde, só o olha meio de esguelha.


8 LUIZ (continua) Trouxe frutas, pai. Vou deixar no seu quarto. PIOTER (abruptamente) Não precisa! Não quero! MARINHO Por que não quer, vô? LUIZ (afetando calma) Deixa, Marinho. Seu avô está nervoso por causa do exame. Pedimos desculpas, dona Vesna. DONA VESNA (disfarça; ao menino) Que jóia de menino! Gosta tanto do avô assim... PIOTER, de repente, beija a cabeça do menino. PIOTER (misterioso) Vou sentir saudades do meu neto... MARINHO Que nada, vô. Não saio daqui até o seu exame acabar. A ENFERMEIRA Ela abre a porta de repente e olha para PIOTER. Faz um gesto para ele entrar. PIOTER olha para MARINHO e fala como se estivesse fazendo um segredo a ele. PIOTER Tem uma máquina lá dentro que vê o futuro...


9 MARINHO Que legal! É uma máquina do tempo, vô? PIOTER (misterioso) Sim... Do tempo que resta a nós na velhice... PIOTER se encaminha para a sala de exames olhando para um MARINHO arrebatado olhando-o sumir atrás da porta. PORTA DA SALA DE EXAMES – VAI SE FECHANDO Lentamente pela ENFERMEIRA até ficar tudo escuro. FADE PARA: INT. QUARTO DE PIOTER – TARDEZINHA PIOTER deitado na cama com os olhos fechados. MARINHO está com a cabeça deitada sobre o seu peito. SUBJETIVA de MARINHO Ouvindo as BATIDAS do coração do velho. Sensação de que está quase parando. MARINHO (de repente, assusta-se) Vô! O seu coração! PIOTER Abre os olhos lentamente como que acordando. CONTRA PLANO DE LUIZ Ele entra no quarto e pára próximo da cama. Está com uns livros na mão. LUIZ Vamos, Marinho. Deixa o seu avô descansar. MARINHO Ele tem um olhar de preocupação sobre seu avô.


10 MARINHO Pode ir, pai. Vou ficar. LUIZ Então só até eu deixar esses livros na estante. MARINHO Não responde por que volta a escutar o coração de Pioter, com uma expressão bastante investigativa. LUIZ Vai deixando o quarto, mas pára à porta e volta-se. Olha MARINHO e mostra um olhar de condescendência. Sai. PIOTER Abre aquele mesmo sorriso de ternura enquanto acarinha a cabeça do menino. PIOTER No futuro, você vai ser um grande rei. MARINHO Como o senhor sabe? PIOTER O que sabemos muitas vezes não tem explicação. MARINHO Mas papai sempre me diz que tudo tem uma explicação... PIOTER Não acredite em tudo que ouve. Muita gente repete coisas que nem papagaio. MARINHO Mas, vô: o canto daquela andorinha que ouvi lá no jardim parecia falar alguma coisa diferente...


11 PIOTER Dizia para você estar atento à vida, meu pequeno rei, crescer e ver as coisas com outros olhos, ouvir com outros ouvidos. Viver a liberdade enquanto a tem. Feito uma andorinha mesmo, que voa feliz pelo céu... UMA ANDORINHA Entra de repente voando pela janela do quarto e pousa sobre a moldura do retrato de SOFIA. MARINHO Ele se vira para ela. Fica em êxtase. MARINHO Olha ela aí, vô! A andorinha! Acho que quer falar alguma coisa... PIOTER Vira-se lentamente e olha para o retrato de sua esposa, onde está a ANDORINHA, que começa a CANTAR. Mas PIOTER não a vê nem a ouve. PIOTER A sua vó, Marinho, ela continua linda! Tenho tantas saudades... Ela vai abrir o céu quando eu reencontrá-la. MARINHO (maravilhado com a andorinha) Está ouvindo, vô? Ela ta dizendo que veio ver a gente. Eu sei.


12 A ANDORINHA canta e parece olhar com carinho para MARINHO e PIOTER. Passeia pelo quarto com uma postura significativa e bem feminina. Música. Parece que está bailando, mas de inesperado ela levanta vôo e sai novamente pela janela. PONTO DE VISTA DE MARINHO Sobre a janela por onde saiu a Andorinha. A última luz do sol desapareceu agora e MARINHO tem um brilho no olhar e uma expressão de torpor. LUIZ Surge no quarto ali diante dos dois na cama. Já não tem mais os livros que carregava. LUIZ Agora já deu, Marinho. Hoje você cansou bastante o seu avô. MARINHO (saindo do transe) Pai! A vovó-andorinha veio aqui dentro! Eu vi! Eu vi! MARINHO Ele parece ter o rosto ainda mais bonito, com um brilho e uma luz toda especial. LUIZ Era uma andorinha mesmo que entrou voando ou é a sua cabeça que está? PIOTER Com que direito você estraga a fantasia do menino, Leizer? Parece um centurião do exército romano.


13 LUIZ Que é pai, vai me atacar de novo? Não tenho culpa se o senhor ficou velho. Eu também vou ficar um dia. MARINHO (ainda se refazendo da maravilha que presenciou) Ela veio aqui para ver a gente. Eu sei. Uma pena que o senhor não estava, pai... LUIZ Chega de bobagem, Marinho. Está tarde, vamos. MARINHO To falando sério, pai! A andorinha entrou aqui e pousou no retrato da vovó. Era ela, eu sei! LUIZ (no limite) Vamos, menino! Que loucura é essa! PIOTER Vá com o seu pai, vai. Deixa que eu falo com a vovóandorinha. Eu acredito em você. UMA ENFERMEIRA – CHEGA DE SURPRESA Trazendo uma bandejinha com remédios. ENFERMEIRA Ta na hora do remedinho, Seu Pedro. A visita foi boa hoje hein. Nada como família unida...


14 MARINHO Ei, enfermeira! A vovóandorinha veio aqui dentro. A ENFERMEIRA Sorri enquanto põe sobre a mesa ao lado do aquário e do retrato de Marinho um pires com uma cápsula (remédio) e um copo com água. Sai em seguida. PIOTER Volta-se e olha para o menino significativamente. Beijao na cabeça. PIOTER Você, meu neto, faz a minha alegria. LUIZ Por hoje chega, vai. Também me cansei. Vamos, Marinho. Descanse bem, pai. Tchau. MARINHO Gostei de ficar bastante tempo com o senhor viu vô. Te amo. A vovó-andorinha sabia disso e por isso veio também. PIOTER Ele segura MARINHO e puxa-o contra si, dando-lhe um abraço forte. Instantes. PIOTER (baixinho no ouvido) Lembre-se de guardar isso: nem tudo tem uma explicação...


15 MARINHO (respondendo baixinho também) Ah, como aquela história do papagaio né vô. To sabendo... Dorme bem tá. Dorme em paz. Até semana que vem vô. PIOTER Segura a cabeça do menino na sua frente e abre o mesmo sorriso terno. PIOTER Até a próxima, meu grande rei. E não tenha medo. As andorinhas sempre vão estar com você... LUIZ Ele faz uma expressão de impaciência, pega MARINHO e finalmente eles saem. Tempo. PIOTER Sentado na cama olha para tudo ao seu redor com ar de despedida. Passa lentamente o olhar pelo retrato de SOFIA até parar na mesa, onde está o aquário, o copo d’água e a cápsula de remédio. O PEIXINHO – NADANDO NO AQUÁRIO De repente afunda na água uma cápsula de remédio que se junta às outras pedrinhas no fundo, onde está soterrada uma ALIANÇA. UMA MÃO DE IDOSO – ERGUE O AQUÁRIO E PIOTER derrama sobre ele um copo de água. Deixa o copo na mesa ao lado do retrato de Marinho. Ergue ainda mais o aquário à altura de seus olhos e o contempla. Instantes. Música. Ele tem olhar distante e frio, e está com o binóculo colorido pendurado sobre o peito.


16 PONTO DE VISTA DE PIOTER Sobre a ALIANÇA ali soterrada no fundo do aquário. Aos poucos a música vai sendo sobreposta pelas VOZES de uma súbita lembrança: VOZ DE RAPAZ (Em Off) Não tenha medo. Eu te seguro. VOZ DE MOÇA (Em Off) Você me pede coragem... Justo o que eu não posso te dar. VOZ DE RAPAZ (Em Off) Do fundo você não passa. É só água. O RETRATO DE MARINHO - SORRINDO Sendo iluminado vagamente pela fraca luz do abajur. É o mesmo plano do começo do filme. PIOTER Pega o aquário e segue com ele até a janela. Pára por instantes, apóia o aquário ali no batente da janela. Pega o binóculo dependurado e mira o exterior da janela e por ele VEMOS EXT. DO TOPO DE UM PRÉDIO – NOITE (FLASH-BACK) Um RAPAZ (PIOTER) e uma MOÇA (SOFIA) bem jovens e felizes. SOFIA em cima da caixa de água e PIOTER num nível mais abaixo. É continuação do diálogo surgido na lembrança anterior de Pioter. PIOTER Estou dizendo, Sofia. É só água. Um salto e nada mais. SOFIA É muito alto...


17 PIOTER Feche os olhos e solte o corpo. Coragem. SOFIA Ela balança as pernas olhando para baixo algo tensa. FUSÃO PARA: PLANO DE SOFIA – BALANÇANDO AS PERNAS DENTRO DA PISCINA Ela está sentada e brinca com os pés mergulhados na água. Está grávida, com outro cabelo, mais radiosa. Valorizar seu novo visual. Olha a mão onde está sua aliança e a tira passando-a sobre sua barriga. Instantes. Distrai-se rolando a aliança em volta da barriga grávida. PIOTER Emerge de inesperado sob os pés molhados de Sofia e ela se assusta deixando cair a aliança na água. O BINÓCULO DE PIOTER Volta ao lugar de repouso, isto é, dependurado sobre o peito dele. (cortar essa imagem e fundir direto com a mão de Pioter afundando no aquário) A MÃO DE PIOTER – AFUNDA NO AQUÁRIO VOZ DE SOFIA (Em Off) Era só água eu sei, meu amor, mas também mistério, e dias eternos que vivemos juntos sob esse céu... Os sinais da vida, meu amor, são como bolhas de água cristalina: aparecem e desaparecem... (esta fala cai em favor da de cima)


18

PIOTER Pega a ALIANÇA e retira-a para fora do aquário. A água pinga por entre ela e seus dedos. Instantes. Música. Ele volta-se e olha para o retrato de MARINHO. Vai abrindo um sorriso de contentamento. A MÃO DE PIOTER ��� SEGURANDO DEBAIXO DO AQUÁRIO Enquanto a outra mão segura a aliança. Num só golpe enfia a aliança no dedo anular da outra mão ocupada onde já tem a sua aliança. Música. Valorizar. O AQUÁRIO – SENDO RECOLOCADO NA MESA Por PIOTER, que se vira e olha para o retrato de Sofia por sobre um aparador ao lado da cama. Instantes. PONTO DE VISTA DE PIOTER Sobre o retrato de SOFIA já idosa - mas que, como num passe de mágica, vai tendo o rosto rejuvenescido para a mesma época que na lembrança anterior. Ela apresenta um ar muito luminoso e jovial, ganhando vida e abrindo um lindo sorriso de ternura. VOZ DE SOFIA (Em Off) Chegou a sua vez, querido. Coragem... PIOTER – SENTANDO-SE NA CAMA Ele abre um sorriso como que percebendo o trocadilho da fala de Sofia em relação àquele momento anterior na caixa d’água. Ele pega a moldura do retrato e passa ternamente os dedos sobre o rosto de Sofia, que sorri para ele. Música. PIOTER vai trazendo devagar o retrato até a sua boca para beijá-lo ao mesmo tempo em que seus olhos vão fechando.


19 VOZ DE SOFIA (Em Off) A nossa memória, querido... O que construímos e o que guardamos... São as marcas da nossa vida. Eu e você somos um só no meio de nossas lembranças... FADE PARA:

O BINÓCULO Sendo apertado junto ao peito de PIOTER, como se ele fosse a materialização de suas lembranças com a esposa. DETALHE PARA O PROTETOR DE LENTE DO BINÓCULO Que de repente arrebenta e se solta escorrendo pela cama. PIOTER Não percebe pois continua vivenciando o momento de sua lembrança. Segura o binóculo com firmeza e agora pega o retrato de Sofia e aperta-o por sobre o binóculo no peito. Vai deitando-se na cama, segurando os objetos firmemente. Fecha os olhos e aos poucos se aquieta. Instantes. Música. Ele fica imóvel. ENTRA CARTELA “Pioter Klauz morreu como um passarinho morre em seu ninho, nesta mesma noite, em um lar da terceira idade localizado em São Paulo, onde vivia há quatro anos e meio. Seu coração parou às dezenove horas e cinco minutos. Na autópsia realizada no dia seguinte a constatação da causa mortis: parada cardíaca”. FADE PARA:


20 EXT. JARDIM DO ASILO – DIA Manhã luminosa. A mesma ANDORINHA pousa no banco de jardim onde costumava sentar-se PIOTER. Instantes. Logo uma outra ANDORINHA também pousa a seu lado, trazendo no bico o protetor de lente do binóculo de Pioter, que se solta do seu bico. O PROTETOR DA LENTE DO BINÓCULO Rola por sobre o banco do jardim e cai pelo chão rolando devagar parecendo que vai parar mas que de repente ganha ritmo e velocidade e segue um bom trecho - até parar nos pés de – MARINHO Que se abaixa e pega o protetor do binóculo. Olha-o com a curiosidade infantil. Abre um sorriso significativo e imediatamente vem-lhe uma lembrança: VOZ DE PIOTER (Em Over) Até a próxima meu neto. E não tenha medo. As andorinhas sempre vão estar com você... MARINHO Tem um brilho novo na expressão e começa a correr. EXT. JARDIM DO ASILO – DIA. VEMOS MARINHO correndo na direção de LUIZ que está junto da ENFERMEIRA assinando um documento. MARINHO se aproxima e mostra o protetor do binóculo de Pioter. MARINHO Pai! Pai! Olha só o que eu achei. Ta vendo como era a vovó-andorinha? Ela veio buscar o vovô! LUIZ Ele pega o objeto da mão de MARINHO e olha para ENFERMEIRA, curioso. Eles se entreolham. Instantes.


21 OUTRO ÂNGULO – REVELA AS ANDORINHAS, que de um só lance saem do banco de jardim para um vôo esplendoroso contra o sol luminoso. Entra trilha musical. FICAMOS com os dois desaparecendo aos poucos na luz da manhã. VOZ DE SOFIA (Em Off) Ah, meu amor! Ainda bem que você não se esqueceu... VOZ DE PIOTER (Em Off) Devia saber que não conjugo o verbo esquecer, Sofia... VOZ DE SOFIA (Em Off) Mas eu cheguei a ficar com medo. Como aquele dia na caixa d’água. Lembra? VOZ DE PIOTER (Em Off) Sim. Mas então guarde para sempre no seu coração o seguinte: eu sou como o dia que prometeu para a noite amanhecer por toda a eternidade... A LUZ DO SOL Emite raios luminosos e coloridos. Sobe tema musical. FADE OUT SOBEM OS CRÉDITOS - ESTA HISTÓRIA É UMA OBRA DE FICÇÃO. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS E FATOS REAIS É MERA COINCIDÊNCIA. FIM


Uma andorinha que fez verão