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O Armeiro Viking Felipe Moreno Ele era bastante especial. Ou, talvez, o que ele fazia é que era: um exímio construtor de armas destinadas às guerras dos medas e dos persas. Era preciso no que fabricava: espadas, machados e facas trabalhadas com esmero e perfeição para que os guerreiros não se sentissem inferiorizados no calor da batalha. Homem de temperamento fácil, caloroso, bom ouvinte e aconselhador também. Embora, no serviço de suas tarefas, mas parecesse um escultor que ficava horas e horas lapidando cabos e esmerilhando ferros para deixar o fio das adagas no ponto certo. Trabalhava com afinco, dedicando muito de sua atenção ao trabalho, pondo de lado sua vida pessoal e íntima, porque sabia que era um dos poucos que tinha habilidade requerida para fabricar armas de guerra. E sua vida talvez até fosse uma guerra. No sentido de que não podia morrer de uma hora para outra como um valente guerreiro para o qual criava armas, mas sentia que era preciso lutar a cada dia com ainda maior resistência porque era nele que confiavam os homens e superiores do ministério da guerra. Bjorn Viltsohn era o seu nome. Louro, alto, forte, com uma pinta clara um pouco abaixo do olho de onde apareciam fiozinhos transparentes denunciando que tinha parte com os vikings, porque ainda por cima também usava um capacete pontiagudo de ferro enterrado na cabeça. Seu olhar era profundo, instigante e inteligente, mas ao mesmo tempo triste como se alguma coisa houvesse se perdido dentro dele. Por isso um ar melancólico de abandono. Talvez quisesse achar um tesouro que devia estar enterrado no fundo do mar de suas conquistas e ações de exímio armeiro. Não conseguia localizar nada que não fosse uma certa angústia por não conseguir saber onde de fato poderia encontrar o tesouro que também não lhe dava a certeza de que estava enterrado no fundo de sua alma. Muita gente dizia que ele era extremamente talentoso com suas habilidades, mas ele mesmo desconfiava disso, gostava de se comparar ao pai, que também fora armeiro e tão ou mais respeitado do que ele. Sua vida era pacata, ordeira, controlada. Lógica, por assim dizer. Tudo precisava ser estruturado em sua mente cartesiana, porque assim era melhor, mais fácil de se conduzir, pensar, falar, trabalhar, amar. Sim, até mesmo amar era preciso organizar para se sentir à vontade com a amada. Sua lógica acompanhava a do mundo, certamente. Tudo já fora ou ainda era nomeado e só fazia sentido porque admitia agir dentro da experiência, para que fosse vivenciado grande parte de seu imaginário. Bjorn Viltsohn tinha muita imaginação, mas gostava de se conduzir seguramente, dentro da lógica que o mundo lhe apresentava como sendo a mais correta, e, se possível, até menos sofrida. Poder-se-ia dizer que gostava de estabelecer os alicerces lógicos para qualquer construção, de suas precisas e afiadas adagas até as suas atitudes morais, porque não gostava de errar. Talvez fosse um pré-conceito de sua parte, alguma coisa que aprendeu do seu pai, ou mesmo da vida, mas, de todo modo, achava que era possível se manter no acerto, correndo o menos possível de riscos. E isso era coerente com a sua visão lógica, uma vez que, se a realidade se apresentava estruturada, nada mais certo do que seguir essa sensação clara e objetiva e pensar dentro da lógica cartesiana. As ações deviam acompanhar planos lógicos porque, assim, o erro quase não encontraria brechas para se fazer valer. Pensar e deduzir eram faculdades próprias do armeiro enquanto terminava de talhar o cabo de mogno de uma pequena adaga, muitas vezes lhe faltando um exercício mais flexível do pensamento para encontrar respostas fora da cartilha de sua lógica, de sua visão de mundo. Embora ele encontrasse momentos de lazer que lhe ofereciam latitude para sentir o mundo de outras maneiras, sobretudo quando ia assistir às corridas de bigas e ficava eletrizado ao ver os instintos cavalares que ali se despejavam naquelas sessões capazes de envolvê-lo sem que pudesse sentir o tempo passar. Gostava de ganhar, sim, mas também se não ganhasse nas apostas, o simples participar exercia nele um momento especial de relaxamento. E isso era correspondente ao seu mundo interior, que já fora mais hiperativo e com desejos e instintos quase que incontroláveis. Hoje, ao contrário, sentia-se mais em paz consigo mesmo, mitigado em


seus anseios, resignado com o que tinha, no entanto, isso era só um lado que contradizia a sua tristeza e aborrecimento de sentir que havia uma perda dentro dele (seria o seu presumível tesouro enterrado no fundo de sua alma como davam a entender?), algo que talvez nem reconhecesse mais, mas que fazia parte dele, ou fizera parte e fora esquecido quem sabe. Fosse como fosse, havia nele uma contradição. Por um lado, um esforço de resignação para aceitar-se como alguém que precisava de paz, contra um outro lado que lhe falava ao ouvido para encontrar o tesouro perdido em alguma parte de seu ser. E principalmente reconhecer que era diferente de seu pai, embora ambos fizessem a mesma coisa. Bjorn tinha vida própria e seguia por si mesmo o caminho. Alguns depositavam nele grandes esperanças de que ele revelasse seus grandes talentos inclusive para outros povos, que poderiam experimentar as armas que fabricava. O desejo de ser e ter estavam muito fortes nele ainda, porque ele estava bem vivo e saudável, forte e com desejos de obter grande felicidade. O amor com que se dedicava ao trabalho, sentia que, mesmo que de forma inconsciente, deveria ser recompensado. Não com o típico reconhecimento de vozes e tapinhas nas costas, mas com atitudes e manifestações calorosas de gente que amava a vida e o que os agentes dela (as pessoas) faziam de bem; gente igual a ele, com defeitos e virtudes, amores e tristezas, desejos e frustrações, gente que ganhara a vida como uma dádiva de Deus, mas que não conseguiam ver como um presente e sim como angústia, dor, carga. Ele, no entanto, sabia que a vida era especial. Só precisava encontrar o tesouro e abrir o baú onde poderia encontrar toda a sorte de pedras preciosas, jóias, ouro, prata, e tudo que de mais valioso existia. Dessa forma, então, poderia recuperar o que sentia que lhe faltava. Não bastava ser apenas um armeiro igual ou mesmo inferior a seu pai. Precisava era aproveitar o que aquele tesouro poderia lhe oferecer. E para descobri-lo, somente o encontrando para ver o que poderia fazer com tamanha riqueza. Estava lá dentro dele, diziam. Só precisava localizar e fazer uso porque era seu. Somente seu, com todo o valor que se pode deduzir de um baú repleto de tudo de que se necessita para prover uma vida inteira. O armeiro só precisava descobrir. Isto era um problema que fugia à lógica do mundo, da realidade. Pelo contrário, encontrar o próprio tesouro exigia que se desfizesse do que se tinha de lógico para se aventurar nas possibilidades do que podia se imaginar como fonte de tudo que dava sentido e calor à vida. Não era momento de construir, mas sim de desconstruir para entender que viver por si só tinha a sua própria lógica, muito diferente da lógica estrutural e cartesiana do pensamento que se tem das coisas. Experimentar uma coisa nova de forma não usual deixava Bjorn extasiado por um lado, porém, preocupado por outro – pois, e se ele estivesse errando por experimentar algo de forma diferente? Era assim que seu pensamento lhe alfinetava com uma culpa que não parecia dele, mas que fora introjetada pelo mundo, por sua família, por sua educação, pelo fato de ser o que era talvez. E o que ele era é o que representava para si, não se importava tanto com as impressões que tinham dele. Ele parecia ser um ponto fixo, uma estaca ou um pilar em torno do qual via seu próprio juiz corregedor querendo mantê-lo sob custódia, dentro de uma cerca onde pudesse assegurar que o indomável touro ficasse com os seus próprios instintos, sendo apenas um bicho do qual se pudesse prever suas reações durante todos os momentos de seus dias e noites. Ele deveria ser domesticável e manter-se assim pelo resto de seus dias. De seu próprio pasto. A lógica não admitia risco; devia ser perfeita em si só, pronta ou preparada para ser somente uma coisa ou uma realidade estudada. O risco era uma forma de estouvamento do espírito que não admitia disciplina, o contrário de Bjorn cujas ações precisavam ser planejadas porque, assim, o erro, mesmo que audacioso por aparecer, não lograria êxito em meio aos pré-concebidos acertos que o planejamento estruturado lhe oferecia. A mente jamais deveria perder o pé da situação e deveria nortear as ações dominando os impulsos desnorteadores. O armeiro sabia que para uma arma ser eficaz era preciso todas as etapas serem bem feitas, o que sugeria planejamento, lógica, precisão. Suas adagas não deixavam dúvida disso. Fio por fio, era melhor saber perfurar uma carne macia a esperar pelo ataque inesperado do imprevisível inimigo que se escondia por detrás de máscaras diversas sempre pronto a balançar o coreto das estruturas já retratadas ou conhecidas pela


maioria. Não que ele gostasse de se guiar pela maioria, isto não era verdadeiro, mas gostava de pisar em terreno conhecido, onde talvez pudesse encontrar formas novas de andar ou caminhar, correr ou plantar, colher ou arrancar, isto, sim, dependia de sua criatividade, daquilo que imaginava ser inovador ou que valesse a pena ser tentado. Bjorn era o próprio pé que havia crescido no campo das idéias lógicas para ser um de seus ilustres representantes. A arma que fabricava não era para cortar-se a si mesmo, mas para alimentar uma guerra irrefreável dos instintos humanos, da luta maniqueísta entre o bem e o mal, do desejo de conquistas territoriais, políticas e sociais. Era para alimentar divisões no espírito, mas não no dele. Ali, no seio de sua plantação, nada deveria ser retirado sem antes se ter a certeza de que estava estragado ou seco. O que crescia dentro dele eram ramos, galhos e folhas que deveriam ser aparados porque passavam a tomar muito espaço. Bjorn sabia que precisaria limpar o seu terreno, mas não sabia quando e se seria tão bom quanto se poderia imaginar ter mais espaço para plantar coisas novas em sua vida. Já tinha se passado tanto tempo... e se estivesse velho para semear? Não. Não queria conceber isso. Estava crente de que tinha feito o que precisava para mostrar o seu valor de exímio armeiro; agora, no entanto, o tempo passara e talvez fosse tarde para encontrar aquilo que havia se perdido dentro dele. Mas deveria haver alguma pista do tesouro... ao menos uma pedrinha brilhando no fundo do seu oceano. Lá onde ninguém mais alcançaria a não ser ele, o armeiro paciente que ainda tinha tempo para mergulhar dentro de si e nadar... Uma coisa era certa: não daria prazo para localizar o tesouro e nem desejava interromper as buscas. Havia uma adaga cravejada de brilhantes naquele baú. Bjorn Viltsohn, o viking, intuía que não ficaria sem o seu próprio tesouro. Ele estava terminando de fabricar uma nova arma. Só que esta não era para os guerreiros da Pérsia, mas sim para ele empunhar e dar seu grito de liberdade. “O futuro está em minhas mãos; vou atravessar os umbrais do castelo”. Bjorn decidiu arrebentar o cadeado do baú que descobriu em seu castelo. Sim, ele descobriu assim logo depois que abriu a sua guarda. O baú não estava no fundo do mar, mas escondido sob paredes de rocha firme. Ou melhor, sob os pilares de sua lógica. Em meio a tantos objetos que continuariam a povoar tantos outros porões. O viking deu dois passos para fora e, coberto de poeira mas com o seu baú nas mãos, olhou a vista descampada daquele dia ensolarado. “Isso tudo um dia foi um oceano”, pensou olhando em volta. Sentia o peso do baú, mas também a leveza de um guerreiro sobrevivente no final de uma batalha. Um novo ciclo em sua vida havia de recomeçar. Bjorn estava rico. Muito rico. A disposição era a própria vida; bastava continuar seguindo em frente. Mas, antes, ele resolveu esvaziar aquele baú de pedras preciosas. A adaga cravejada estava lá, com todas as pedras nos seus devidos lugares. Ele a pegou em sua mão e percebeu sua lógica: todas as pedras haviam sido gravadas com a brasa incandescente com que se grava a persistência de lutar por um ideal. Aquela mesma adaga estava apontando um novo caminho para ele seguir. Várias trilhas foram abertas que lógica nenhuma tinha poder de apontar a mais certa. Dependia apenas de uma aposta. Risco por conta de um viking que, se não sabia para qual lado seguir agora, intuía contudo que poderia atravessar o tempo. Levando consigo o seu tesouro e sua adaga cravejada de rubis e diamantes. Ah, isso sim valia todo o seu sacrifício. Sacrifício de um armeiro-guerreiro, dono de um tesouro variado. Coisa tão lógica que, ainda bem, ele descobriu no seu tempo. Quer dizer, no tempo certo, porque, ele, como se disse antes, não gostava de errar.

O Armeiro Viking  

Conto que simboliza a batalha diária da vida, de Felipe Moreno

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