Page 1

CONTAS DE UMA ‘VELHA GAROTA’

E

ra uma “velha garota” de 75 anos de idade. Fora uma linda mulher aos 30, mas antes e depois disso, também o fora sobretudo pelo ar eufórico de otimismo e alegria prazerosa que espalhava por onde quer que passasse. Malka Forshout nascera lituana, mas viera com a família para o Brasil quando ela ainda não tinha completado cinco anos de idade. E foi aqui que ela se constituiu como mulher, mãe, avó. Não necessariamente nesta ordem tão cronológica, diferente do estilo de pensamento que ela magnetizava com seus neurônios rápidos e descobridores de opções por prazer. Era assim que ela tramava escapar das dores que a vida reservava, ou mesmo dúvidas e percepções traiçoeiras que se avizivanham de seu espírito, tudo isso era encoberto por sua energia sorridente, que não escondia a sensação de frescor e beleza pela eterna juventude. Mas o tempo passara a jato, e hoje ela se via contando três quartos de século em seu tão delicado dorso, pequeno e fino como os ombros de uma top-model, mas tão robusto de vivacidade e frescor, que jamais poderíamos imaginar ver Malka triste sem ter ela transitado livremente pelos tipos de prazer conhecidos pelo ser humano. Por isso ela era soberba, mas no sentido de empatia e não de empáfia, já que uma luminosidade irradiava dela formando um círculo concêntrico sobre sua alma adocicada pela alegria de viver. Se Malka estava no fim da vida? De modo algum. Ela aprendera que a vida era totalitária em si mesma, que se gastava no presente das situações e nos aparatos das circunstâncias, e que não era possível reduzir a vida aos limítrofes do relógio cronológico que corria sem parar; ao invés disso, ela gostava de ampliar o prazer dos momentos eternizando-os dentro de si mesma, como uma caixa de pandora às avessas literalmente. Aos 75 anos, ela conseguira se unir a Deus, ou a algo que julgava tão grandioso quanto a própria noção de grandeza. Não deveria mais esperar um só momento para ter esse glorioso prazer da fusão, sem precisar incorporar nem mesmo um modelo de perfeição, uma vez que nada poderia ser comparável à sensação única de se fundir em um Ser maior, sensação esta, que, segundo ela, era indizível, portanto justificada até a última letra do inexplicável. O que se sabe, contudo, é que Malka tinha uma alegria que parecia destoar da maioria, e isto certamente levava a crer que houvesse uma poderosa relação dela com o Todo-Poderoso, algo que sintonizava com a sensação de onipresença. Era ela que se fundia em Deus, e não a Deus como objeto, por isso uma sensação de prazer indizível de se ver tão perto, perto de sua própria essência, e isso lhe trazia outra sensação: a de teshuvá da alma, não algo só de alma arrependida, mas de alma liberta dos grilhões e das peias do obscurecimento. Mas nem mesmo isso lhe dava a impressão de que estivesse se despedindo da vida. A sensação de fusão com o Divino não era algo que se encaixasse na ideia de experiência mística que antecede qualquer partida ou passagem para outro lugar. Em vez disso, era algo que lhe conferia mais brilho, maior luz, pois toda a família queria ficar com ela, já que ninguém deles, fosse qual fosse a idade, tinha a ideia de se desprender dela por minuto que transcorresse, guardado o devido exagero do narrador. O mundo no entanto parou quando ela ouviu de sua neta: — Vozinha, acho que vou morrer. Milena, que mal completara quatro anos, parecia ter a vidência do seu futuro para assim dizer uma coisa dessas, mas não era assim que ela percebia?


Os olhos da vovó Malka pousaram nervosamente na menina. — Por que está dizendo isso? - Perguntou ela tentando esconder a preocupação. — Nada não - disse a menina, balançando a cabeça como se se conformasse instantaneamente. — É que a senhora, vozinha, a senhora pode, mas eu não posso... — Não pode o quê? - A “velha garota” Malka se sentia agora colocada à prova. — Morrer, ora - disse Milena. — Por que só os mais velhos podem ir primeiro do que eu? — O que deu em você para falar essas coisas! - Malka perdeu a paciência com a neta. — Pois saiba que você é uma pequena mocinha que vai alcançar as maiores alturas da vida... — Mas eu não sei voar, vozinha. — Não precisa - disse a “velha garota”. — Pega carona... — Mas asa delta papai diz que é perigoso... — O único perigo de voar é não saber onde cair - disse a velha garota. E assim Malka ficava entretendo a mente aguçada de sua netinha repleta de sensações e impressões da vida, e, por que não, da morte; uma palavra que, francamente, dava arrepios em Malka, já que ela não gostava de discutir algo pelo qual não tinha a menor atração e curiosidade. Aliás, curiosidade nunca lhe faltara, mas por coisas que aguçavam as sensações de prazer, alegria, otimismo. E, convenhamos, a morte, pelo menos para os vivos, não possuía tal apelo; ao invés, indicava o fim de tudo que uma personalidade única experimentara ao longo da vida. Hoje, no entanto, passados três quartos de século, a “velha garota” ainda estava em forma, queria mais e mais em sua vida, e o prazer físico se transformara em algo espiritual, uma sensação diferente quando se fundia ao Ser maior e ela então podia vivenciar um espetáculo único, pelo qual sua emoção se convertia em amor pela vida, pela lembrança, pela família, por tudo que lhe respondia mostrando-lhe os significados das coisas, algo que transcendia as palavras, uma realidade tão especial na qual sabedoria, amor e alegria dançavam uma dança de roda, mãos dadas e sorriso de orelha a orelha brilhando em faces infantis, como o de sua netinha, que, estranhamente, queria conhecer outros mistérios, talvez mais sombrios, os rastros sem pegadas da morte. O que mais podia reservar a vida a uma alma já tão completa como a da velha garota? Tirando a presença magnética de Milena lhe remoçando os sentidos, outra coisa atiçava seu desejo: a de ir além do seu tempo, talvez como a síntese da experiência transformada em presença espiritual viva, de maneira que pudesse mostrar ao mundo que velhice estava fora de moda, fora dos tempos por assim dizer, deslocada do que era realmente a realidade de uma senhora idosa como ela. Não, ela não estava caquética em se imaginar uma garota com pelo menos cinquenta anos mais jovem, com todas as curvas distribuídas na sensualidade, mas queria poder provar que ainda era uma velha garota boa pra dedéu. Você duvida?

VIVER É TUDO ISSO

N

ada deste mundo limitado e relativo podia se comparar ao infinito, e era por isso que a “velha garota” dizia que não havia como estabelecer sequer uma mínima medida de comparação, pois, ainda que isso fosse possível de um modo neutro, estaríamos limitando o prazer a um nível anterior ao da fusão com um Ser maior, poderosamente mais influente a qualquer forma de suscetibilidade, e por que não, exercendo uma espécie de camaradagem para com a sensibilidade. Na visão dela, Deus, único e onipotente, era impossível de ser negado sob pena de estarmos negando a nós próprios, o que era absurdo. É o que dizia à Marina, sua filha trintona, aparentemente bem resolvida, mas bastante reticente à visão da mãe: — Eu prefiro me ver de carne e osso - falava ela, afetando uma espécie de recatada distância, talvez porque temesse acreditar em algo além de seus próprios perímetros, ou porque não podia acreditar que o mundo pudesse ser sempre governado dentro de uma monarquia absolutista. — O que podemos esperar de Deus a esta altura - tornava ela a questionar —, se já temos tudo aqui a nossas mãos, mas perdemos o juízo...


Malka a ouvia com olhos penetrantes. Adorava poder imiscuir-se à aguda visão de Marina, que a fazia lembrar de como questionara as coisas em sua juventude, por isso, dizia-lhe também, que ela tomava o mundo muito objetivamente. — E não é para tomar? - Marina inchava a jugular de inconformismo. — Sei que é mais fácil colocar as coisas nas mãos de Deus, mas o que Ele pode fazer depois de tudo que fez? — Estar Nele - respondeu a velha garota. — Estar Nele, que resposta... - E a languidez na voz de Marina dava o tom de sua descrença, ou, antes, de seu sentimento de desesperança. — Não compreendo algo que não faz sentido para mim, mãe. Me desculpe. — Não há o que desculpar - disse Malka. — Estar Nele só se alcança quando vira hábito, igualzinho ao que nos acontece no cotidiano. Precisamos saber esculpir dentro de nós um molde, filha. Um recipiente para Deus se fazer presente. Só isso. É muito? — Ah, eu não compreendo nada disso, dona Malka, me desculpe, estou atrasada agora. E, assim, Marina se levantava rapidamente, pegava a bolsa e a punha a tiracolo e saía pela porta. Era comum ela fazer isso, deixando a velha garota mais pensativa ainda, embora isto não durasse mais que alguns poucos minutos, para, em seguida, ela se ir aos preparo para pedalar pelos bosques do bairro. Sempre lhe encantara as árvores frondosas permeando as curvas e as travessas que faziam da região o cenário mais bucólico das redondezas. Por onde ela gostava de pedalar e caminhar, e de ter seus insights de fusão com o Ser maior. Sob o frescor do vento ela sentia que virava ar, e era exatamente nessa sensação que ela se entronizava, não mais querendo perder um instante sequer desse deleite. Fazia um céu cor de chumbo, e o ar estava algo pesado (pesaroso também quem sabe) e também mal cheiroso, mas isso não tirou o entusiasmo da velha garota, que sabia extrair até mesmo da eventual adversidade algo de positivo, e isto se traduzia em ver luz onde muitos viam sombra, e sorrir em vez de lamentar o que for que aborrecesse e fizesse consequentemente se sentir pior do que já estava. Isto era uma linha muito distante da adotada por Malka, que rejeitava o papel de vítima das circunstâncias, embora soubesse, porém, capitalizar sentimentos de solidariedade quando se sentia enfraquecida ou vulnerável às maledicências que imperavam por aí. As ruas estavam pacificamente arborizadas e calmas em Florença das Flores, um pacato vilarejo que ficava encrustado num vale bem nas encostas do litoral de Marujá. Fora para ali que Malka e Mordechai Berezon, seu marido, acorreram depois da aposentadoria. Mordechai, no entanto, não vivera muito mais tempo, deixando à Malka não apenas a viuvez, mas a chance de desfrutar as riquezas da sabedoria, do amor e da vida que ainda, conjuntamente, podia se dizer eram frutos que alguns poucos afortunados e privilegiados podiam colher na terceira idade. Pedalava tão absorta a sua bicicleta que nem lhe pesava os setenta e cinco anos de vida. Os pensamentos se banhavam em luz quando ela descobria uma conexão que revelava uma certeza para algum de seus pensamentos ou mesmo sensação. Tudo então passava à luz imediata e se revelava como lógica inequívoca, por mais ilógico que isso pudesse ser, afinal, uma sensação de certeza advinda do caos das percepções e das avaliações feitas na mente humana não era algo no qual se se pudesse fiar, embora o prazer experimentado nessa vivência fosse algo de outra esfera de grandeza. Só isso interessava à velha garota. O prazer máximo de se fundir ao infinito, ao atemporal. Era nesse lugar habitado apenas por sensações deleitosas que ela queria ficar, mergulhar, se esbaldar. E era justificável uma vez que não havia ser no mundo que rejeitasse se sentir bem ante os prazeres disponíveis. Por isso viver intensamente era tão importante, tão vital que a lógica era estar com Deus, pois não havia outra coisa com a qual se importar mais, mesmo que encontrasse mil razões advindas de outros prazeres, porque o prazer máximo e inigualável era imersamente se sentir no Ser Infinito, pois era Nele que se extraia A Razão de Viver, e nisso se constituía a vida. “Uma vivência privilegiadíssima”, pensava agora a velha garota. Sentir-se no regaço de Deus, abraçá-lo com a alma, sentir o seu escudo de calor, nada a isso podia se comparar qualquer coisa que experimentara na vida. E era nesse sentimento genuíno que conseguia deduzir uma real confiança para continuar a ir em frente, porque, no frigir dos ovos, ela sabia que era um ser finito recebendo o aval do infinito para seguir vivendo. Sempre. Sempre. Sempre. Quando parou de pedalar e brecou a bicicleta e encostou-se numa árvore, percebeu o quanto já havia percorrido. Estava longe de casa, mas se sentia forte e integrada com seus sentimentos e pensamentos. O


ato de pedalar uma bicicleta apenas contribuía para que essa integração ganhasse consistência, porque, no fundo, sua própria vida tinha uma lógica, assim como toda estrutura orgânica, na qual consistia em se buscar o equilíbrio entre as forças repelentes de suas partes, e assim eram com os sentimentos, com os pensamentos e com os instintos em face da psique. Mas nada se comparava ao próprio Espírito que se apossara deste corpo míudo, tipo mignon, cujos ombros pequenos nunca poderiam disfarçar a Sua presença, sobretudo quando ela os sentia pesar gostosamente, como um hálito refrescante fonte das maiores revelações sobre ela própria e sua existência, por isso também era pesaroso, a verdade sobre si mesma lhe caía como cascatas reluzentes sob os raios do sol, um prazer único do qual era também preciso equilibrar: as forças internas com a sensação de fusão com algo muito maior que ela própria, mas era assim que o sentia Malka, uma velha garota de 75 anos de idade, não parecendo sentir a gota de suor se esgueirando pela fronte. Entre seus pés, a magrela com o guidão entortado para trás. Estava na hora de voltar, talvez isso quisesse indicar. E Malka seguiu seu sábio conselho porque assim o entendeu.

Capítulo inicial do eBook "As Duas Meninas"  

Novela em formato ePub, de Felipe Moreno, e que conta a história da "velha garota" Malka Forshout, uma boa senhora do tipo 7 do Eneagrama. E...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you