Issuu on Google+

A Centelha de Ox Vox Felipe Moreno Um plano perfeito. Ou quase, porque eles sequer desconfiavam que eu o houvesse descoberto. Chegava a ser enfadonho descortinar um projeto dessa monta sem grande esforço. Haviam, sim, se esquecido de uma coisa aparentemente insignificante: eu tinha desenvolvido alguns poderes espaciais de Ox Vox e por isso podia adivinhar intenções a distância que um simplório habitante de nossa pequena galáxia não podia alcançar. Seria preciso, para isso, uma percepção elevada nas associações mentais relativa aos conhecimentos superiores, atributo que conseguira não sei bem por quê. Tanto é que o caso do ‘Segredo Espacial’ envolvendo a transmissão de influências mentais dominadoras da massa de Ox Vox, massa que, sem se aperceber, seguia dócil e obediente diante do plano raso que a Cúpula julgava então perfeito, eu descobrira com o tino de um Grão-Educado. — Muito bem, A.R. Não temos o dia todo. Estamos esperando o seu depoimento. Meta G lançou um olhar faiscante para mim e eu senti a perturbação. Virei o rosto de platina para não ser atingido por aquele raio fulminante porque havia fogo ardente vindo dele e eu detestava ficar com o rosto quente daquele jeito. No entanto, senti outra presença calorífica: a do Guarda Guia o qual se prontificara a agir esperando as ordens do Glorioso Imperador Metafísico de Ox Vox. Ox Vox era uma galáxia localizada a sudeste de Andrômeda e mais ou menos próxima das principais formas de vida estelares que iluminavam o alto da cadeia planetária da Via Láctea. — Kastro: traga-o aqui – disse Meta G peremptoriamente ao guarda que estava ao meu lado. — Ele vai nos contar o que aconteceu porque ele sabe que é preciso, não é A.R.? Aquilo soou como o supra-sumo do aguilhão da perspicácia hipnotizadora que eles comumente usavam na condução de seus propósitos diante do vulgo. Eu podia estar em julgamento, mas o certo mesmo era que Meta G e sua Cúpula sabiam como mexer com todos os habitantes de Ox Vox, incluindo nós, os ‘Infermos’, como éramos chamados, e todos aqueles que transgrediam a normalidade da galáxia. Fiquei de pé quase que de modo sintomático. Passei os olhos pela mesa de acusadores e me deparei com membros da Cúpula interessados em, se possível, virar-me do avesso. Mal eles sabiam que eu sabia do Plano Perfeito. — O que quer saber, Meta G – perguntei, agora olhando firme para o Glorioso. — Respondo a uma pergunta inteligente, mas se pretende que eu responda ao que vocês querem que eu responda, sinceramente não o farei. — Traga-o já até aqui, Kastro – ordenou ele tentando perscrutar de onde vinha a minha coragem. O guarda de platina reforçada tinha os braços como lanças móveis que aumentavam de comprimento ao menor comando neural e, então, eu nem


precisei subir os degraus de uma pequena escadaria para me aproximar da grande bancada branca da Cúpula de Ox Vox, no centro da qual imperava soberana a figura de Meta G, um luminoso ser do qual se irradiavam no alto da cabeça fartos cabelos platinados de uma intensa mecha esbranquiçada. Quando estaquei na frente de Meta G senti que não havia mais nada a perder. Ao contrário, eles é que teriam uma grande surpresa quando eu estivesse pronto para denunciar o plano sórdido de tornar Ox Vox um pobre astro deficiente e repleto de seres dominados por uma imbecilidade causada através da influência magnética formulada por cabeças espertas e contida numa rubrica chamada “Segredo Espacial”. Mantive a postura reta tão logo me limpei daquelas mãos enormes e incômodas do Guarda Guia. — Muito bem, A.R. – tornou Meta G com um sorriso suspeito naquele rosto quase transparente. — Se você disser por que levou nossos dois construtores da Ordem e os deixou na Estrela Perdida, eu prometo solenemente dar a você a pena mais inteligente de nossa Constituição. — Que pena é essa? – perguntei de imediato. — Seu interesse é o mesmo que o nosso – respondeu um senhor sentado quase que no fim da bancada de acusadores. Tentei estabelecer contato com a realidade, isto é, saber quais eram as intenções que ali não apareciam mas que estavam presentes irremediavelmente. — Vocês estão invertendo as coisas – disse procurando passar os olhos pela bancada. — Eu apenas segui ordens. Arcus e Flexus queriam visitar a Estrela Perdida e eu não pude recusar. — Mentira! – gritou um dos acusadores erguendo-se da cadeira e borrando sua tez laminada com lágrimas de fúria. — Ninguém seria louco a ponto de escolher perder o dom de ser natural diante das coisas e se esquecer de si por completo. É muita desfaçatez desse condutor! Fiquei por instantes tentando recobrar as idéias que pareciam se desconectar de meu aparelho mental, porque aquele sujeito exalou um péssimo odor neste momento de fúria. Eu detestava presenciar esses rompantes principalmente quando vindo de um membro da Cúpula, que arrogava perfeição e sobriedade emocional. Ox Vox pode ter crescido em estatura ética, mas ainda havia raiva e desejo de punição. A Cúpula pensava em bombardear o éter do vácuo sideral com propagandas de amor, de compreensão, de tolerância e dessas baboseiras todas, investindo todas as fichas na Lei. Eles sabiam usá-la, com certeza, afinal ela funcionava com acerto de cem por cento em todos os casos. A lógica era simples: bastava propagar ondas no espaço que essas mesmas ondas tinham poder de atingir e alcançar os demais seres que habitavam não somente a nossa galáxia, mas as outras também. Não havia qualquer possibilidade de erro e esse era o ‘Segredo Espacial’. Qualquer emissão de palavra vocalizada no espaço atingiria com precisão o receptor e, assim, as inter-influências jamais cessariam e Ox Vox poderia dominar o universo com sua ladainha de harmonia perfeita.


— Você não está sozinho, A.R. – disse Meta G num tom de misericórdia. — Sabe muito bem como prezamos os nossos princípios; não temos por que punir você, mas apenas corrigir seus atos disformes. — Acha mesmo que o problema sou eu, Meta G? – ergui-me novamente. — Sei muito bem tudo o que se refere à nossa galáxia. Só não perceberam o que foi feito comigo desde então. — O que quer dizer? — O que quero dizer, o que quero dizer... – Uma nuvem de amargura se formou e deixou um travo na boca e não consegui mais o controle das palavras. — Estou dizendo que a galáxia nunca me ouviu! Não recebi a devida atenção para as minhas idéias ou até mesmo para as minhas necessidades. Também quis compreensão, mas não recebi. Agora quer que eu dê algo que não recebi? — Está confundindo essa mesa – disparou um outro senhor com complexas linhas luminosas em volta de seu corpo eterizado. — O que tem isso a ver com o que fez? Havia um ranço indisfarçável no ambiente. De todas as formas procurei defender-me e fiz relações inteligentes com o fato de me sentir ignorado em Ox Vox e a minha conduta aparentemente negativa. Eles falavam de amor e harmonia, mas estavam me cercando e mostrando as ferraduras da agressividade. Este era o problema: disseram que eu voltara à insensatez, que havia me degenerado e corrompido meu ser etéreo, o mesmo que se ocultava atrás do meu corpo de platina, ao ponto de voltar à inconstância do ser, mas não pesavam que houvesse culpa pela negação de atender aos meus apelos. — Bem, A.R., suas evasivas não têm mais razão de ser – disse Meta G com uma tranqüilidade carregada de subintenções. — Seu organismo já foi desbaratado e temos muitas informações do que estavam pretendendo. Achavam que podiam eliminar nossos dons de equilíbrio e harmonia. A sua ilusão comprova seu retrocesso. Sinceramente, eu não esperava que o nosso principal condutor intergaláctico pudesse cair na armadilha da insensatez. — Isso é crime inafiançável em nossa constituição – disse um outro membro da Cúpula com expressão dura. E prosseguiu: — Morte dos dons e retorno ao esquecimento de si próprio são sabotagens da pior espécie. Exijo pena máxima para este tipo de crime. Estremeci. Posso confessar que senti o metal duro retorcer na altura do abdômen e nem precisaria olhar e constatar que o magneto energético de meu baixo ventre havia dado um terrível nó que me fez tremer. Mas foi um estremecimento químico, digamos assim, e não havia a energia do medo. E isto então piorou quando ouvi em seguida de Meta G: — A.R, você será enviado às prisões da ressocialização. Sua conduta e de sua súcia merecem o nosso investimento de amor. — Desculpe, Glorioso – interpôs-se outro membro da Cúpula -, mas este caso é ímpar. Precisamos rever se vale a pena o Governo investir em seres que trataram os nossos princípios e valores com o mais profundo descaso. — Tem outra sugestão? – perguntou Meta G com indisfarçável ironia. — Casos extremos são terrivelmente constrangedores para nós, Glorioso.


— Aprofunde-se na compreensão, Solarium – colocou complacente Meta G —, que paciência e tolerância são nossos mais caros dispositivos em Ox Vox. Não devemos cair no mesmo erro do condutor e de sua célula criminosa, embora estejamos afrontados com o que aconteceu. Arcus e Flexus já foram trazidos de volta da Estrela Perdida e estão em tratamento para restituir o dom. Precisamos torcer. Sabemos que é difícil, mas... Continuaremos lutando para prevalecer o amor incondicional aqui e em toda Ox Vox. Fez-se um grave silêncio. A energia daqueles membros não era boa, malgrado a dedicação de Meta G de resgatar o que aparentemente havia se perdido: a temperança e o equilíbrio. Eu dei um passo a frente e tornei a olhar para o Glorioso. Havia uma coisa que lembrara, então disse: — Antes, qualquer acusado dessa Cúpula tinha o direito de escolher sua pena, mas, agora, isso se modificou... Por que me enviam para as prisões de ressocialização? Eu tenho direito a escolher uma pena ética que não seja a de novamente me instruir no caminho daquilo que já sei de cor e salteado. Meta G franziu o cenho e ficou me olhando por instantes. Havia como que uma necessidade de refletir sobre qualquer palavra dita, até porque o “Segredo Espacial” continha o poder da Lei do verbo sobre o espaço, portanto nada de tão estranho senão esperar para ver o efeito provocado por aquelas minhas palavras. — Você está considerando erroneamente – disse Meta G olhando-me com um misto de tranqüilidade e rebeldia. Apostava todo o ouro platinado de Ox Vox que ele estava louco para romper o equilíbrio e pular no meu pescoço. — Deveria ter aprendido a lição básica número um de Ox Vox, entretanto sua preocupação é pela afronta e desobediência. A lição número um a que se referia o Glorioso Imperador Metafísico de Ox Vox era uma questão que posso considerar como a pedra sob o meu solado aerodinâmico. — Absurdo – pronunciei e senti a língua de cobre alcançar a ponta da bancada onde estavam aboletados os membros da Cúpula. Pequenas faíscas ameaçavam acender de meu corpo devido ao aumento de temperatura. — Não posso pensar sobre as coisas como vocês querem. Meu aparelho mental tem razões que a própria Razão desconhece. Não é possível interromper um trem a vapor. — Está reagindo mecanicamente como um mísero terráqueo – acusou-me um dos figurões da Cúpula. — Não senhor – reagi. — Eu já disse que tenho direito a ser eu sem a imposição do que esperam de mim. Falam que ajo como uma máquina programada, mas se o faço é para mostrar que tenho direito a ser o que sou sem ser influenciado pelo que acham que devo ser. E além do mais, nós somos máquinas, sim! Máquinas reprogramáveis, mas, antes de qualquer coisa, máquinas. Meta G fez a expressão mais sensata e dócil possível e eu vi seu pensamento voar para fora do Tribunal de Ox Vox e atingir um meteoro que


passeava no espaço. Tudo foi tão rápido quanto um ciclo de rotação de Ox Vox em torno de Andrômeda, e logo voltei a ouvir a voz do Glorioso: — Está agindo com consideração interna, A.R. Pensa e age de acordo com o que considera e não percebe que o natural se perdeu... Se chegamos a esse grau de compreensão mútua superior foi devido à evolução da vida do universo. Nosso propósito não é influenciá-lo a ponto de descaracterizar o seu ser. Essa idéia é fruto de uma consideração errônea, como são todas as considerações internas no âmbito dos julgamentos mentais. — Eu insisto que tenho agido naturalmente – tornei, mas fui interrompido por outra voz vinda da bancada: — Não disse que queria uma autopenalização? – levantou um dos membros da Cúpula, o mesmo que havia pedido a minha cabeça. — Está aí uma boa forma de exercitar sua capacidade de ofertar amor, de atender as pessoas externamente, de fazer o que tem de ser feito de modo natural. Se quiser corrigir-se é melhor pensar em como deixar de considerar internamente. — Já disse que isso é impossível – repeti, sentindo um embolo abdominal se formar ao ponto de quase vomitar. — Meu pensamento voa pelos hemisférios neurais e eu não tenho como controlá-los. Não estão considerando também ao julgar-me? Não me peçam algo que não tenho condições de dar. A discussão esquentou bastante quando outros membros da Cúpula também se interpuseram dizendo que a consideração que faziam estava dentro do objetivo proposto por aquela comissão julgadora, e que o meu julgamento moral e ético era preciso neste caso. Mais do que considerar, eles estavam conseguindo descobrir os meus pensamentos. Só não fizeram descobrir aquilo que eu já sabia sobre o ‘Segredo Espacial’, pois, para a minha sorte, eu havia perdido contato com o tema em favor da minha defesa ali naquela tribuna. A consideração interna havia sido um problema filosófico em tempos remotos em nossa galáxia. Os habitantes de Ox Vox haviam superado os pensamentos analíticos que dizem só gastam nossas energias e atuam em prejuízo do dom de ser natural. Ser natural consistia em atribuir ao amor e a suas formas de ser a função de regular as inter-relações galácticas, de modo que, o pensamento, só era usado para compreender e resolver problemas que necessitassem de raciocínio lógico, exato e objetivo, perdendo a característica de julgar internamente questões existenciais sobre si mesmo ou sobre os outros à maneira de críticas. Com efeito, pensar por pensar sobre si e sobre os outros de modo habitual e mecânico era um mecanismo extinto de Ox Vox. Eles sabiam que eu não havia conseguido atingir esse grau, por isso se debruçaram sobre a questão até o meu esgotamento. Tudo que até então eu exteriorizara não tinha mais nenhuma serventia pois a Cúpula sabia como minimizar os efeitos de minhas palavras, e, como disse, eu sabia do segredo que eles escondiam mas não podia mais considerar internamente a respeito, pois eles tinham agora usado da habilidade mental para descortinar o que eu estava pensando. Contra a minha lucidez posso dizer que o julgamento durou vários ciclos de rotação de Ox Vox, e isto significava que durante um bom tempo eu não teria como escapar de um crivo de perguntas que acabaria desnudando tudo


aquilo que eu até então guardava no meu aparelho mental, menos, é claro, o que eu sabia que eles não sabiam: o ‘Segredo Espacial’. Tanto quanto possível, eu estava ocultando o que sabia, e isso parecia que caminhava a contento, pois ao voltar à tribuna bastante cansado em um desses dias luminosos de Ox Vox, deparei-me com Cristálida, a Mestra que me ensinara a respeito do dom natural de ser. Não posso ser tão leviano a ponto de culpá-la por eu ter naufragado no meu intento – segundo a Cúpula – de libertar-me da consideração interna e usufruir do dom de ser natural, porque ela fizera a sua parte. Agora, ela estava ali sentada junto com os membros da Cúpula e com uma expressão algo melancólica. Era visível o seu constrangimento de se passar como se fosse uma incompetente orientadora diante da Cúpula. Ela olhou-me profunda e dolorosamente e disse: — Estou morta de vergonha de você, A.R. – Balançou a cabeça e seus cabelos como feitos de filetes de diamante seguiram o movimento. — Espero que sinta a gravidade do seu ato e recupere o dom. Ox Vox era uma galáxia exemplar, é preciso reconhecer. Todos os seus habitantes tinham uma grande responsabilidade de fazer com que fôssemos reconhecidos como exemplos de conduta diante de outros planetas. Senti a profundidade do tom de voz de Cristálida e não pude deixar de ser tocado por uma espécie de sentimento mordaz, o que só comprovava que ainda não estava preparado para ser agraciado com o dom de viver em Ox Vox. — Assuma a sua culpa, Cristálida – disse algo emblemático. — Se meu desamor incomoda é porque vocês se correspondem com ele. — Infâmia! – alguém gritou de forma exasperada. — Você cometeu um ato de violência – tornou Cristálida ainda conservando um tom embargado de ternura. — E pelo visto todas aquelas nossas conversas sob os anéis de Saturno não inspiraram você a considerar externamente, mostrar amor, compreensão, tolerância... O nosso verdadeiro dom de ser natural. — Que dom! Que dom! – esbravejei. — Vocês querem que o dom seja despertado à custa do que? De minha compreensão por essa forma morna de conduzir Ox Vox? Estou aterrorizado com a ditadura do Bem imposta aqui! — Você continua na insensatez – disse Meta G com um misto de suavidade e aspereza. — Por que acusa a Cúpula assim ferinamente? O que existe em nós que o desagrada dessa maneira? — Eu sei o que o desagrada – interrompeu Solarium sem qualquer disfarce de sua indignação perante mim. Sua expressão estava carregada de repulsa, no entanto ele procurava mostrar uma compreensão, a meu ver, forçada. — Este condutor queria ser um Grão-Educado como nós, e sente inveja. Não bastasse sua violência contra nossos principais mentores da Ordem, ainda não perdeu os sentimentos que aprendeu dos humanos. — Meça as suas palavras – gritei furioso. — Vocês falam em consideração e me julgam como se fosse um alienígena terráqueo, desprovido da menor capacidade de equilíbrio. Isso eu não admito!


A atmosfera quedou-se de abrupto. Senti o peso de meu aparelho mental e voltei a sentar-se. Como é sabido, a raiva fazia exalar um cheiro insuportável no ambiente e era preciso esperar que desanuviasse tal sensação para que tudo se normalizasse. Na verdade, os sentimentos integravam os habitantes de Ox Vox, mas o que alardeavam pela galáxia era aquilo que chamavam de naturalidade essencial. Significava possuir sentimentos sem a tal da consideração interna que a tudo embebeda de razão, julgamento e crítica. Meu aparelho mental talvez ressentisse dessa naturalidade porque não admitia ser doutrinado por galácticos acomodados que nada mais poderiam querer no universo senão descansar sobre o triunfo do amor e da compreensão de ser natural. Muito sem graça para meu despudorado jeito de ser natural. Ou antinatural que seja! — Seus pensamentos, A. R. – colocou Meta G num golpe de acerto — jazem nos túmulos da ancestralidade terráquea. Sua faculdade de integração existencial o abandonou. Seu ser está fraturado e neurotizado pela consideração interna. A violência que cometeu é fruto disso. Imagina que a rebeldia de contrariar a Ordem pode trazer algum benefício. Um pobre e arcaico devaneio que Ox Vox se orgulha de ter extinguido de nossa galáxia. Cristálida também disse algumas palavras sobre o meu estado e não pude deixar de reconhecer que fiquei profundamente abatido. A curvatura da minha espinha platinada mudou de cor e revelou meu abatimento. Palavras vindas de Meta G até que era possível resistir, mas, de minha orientadora, que foi a única que havia se importado realmente comigo em toda Ox Vox, confesso ter sido atingido em minha profundidade etérica. — Sua capacidade interior de equilíbrio e harmonia para agir livre e de acordo com o que se é de fato não implica em responder ao mundo exterior na mesma medida. Está me compreendendo, A.R.? – A voz de Cristálida soou como um bálsamo para meus nervos auditivos. — Quero dizer que não precisa reagir mecanicamente em resposta ao que sua voz interior determina ou como alguém de fora gostaria. Você é um ser de Ox Vox. Um ser onipresente que deve prezar o amor, a espontaneidade, a inocência, a manifestação sincera sem qualquer consideração interna, porque enquanto houver razão para julgar sua conduta, seu amor será justificado e amor justificado é amor impuro. Ganhei coragem com as palavras de Cristálida. Afinal de contas, o ‘Segredo Espacial’ dizia exatamente isto: que as palavras eram ondas magnéticas que não se pulverizavam no espaço simplesmente, mas que atingiam feito míssil nosso aparelho mental. De forma que era assim mesmo que a Cúpula de Ox Vox pretendia dominar o universo sideral: pregando suas palavras de compreensão e tolerância no espaço e influenciando pessoas para o domínio do Bem ad eternum. A Lei Universal se utilizava do espaço físico para funcionar. E a estratégia da Cúpula era dominar todo o espaço cósmico e difundir sua filosofia, a meu ver, entediante. — Ah! Então é isso! – exclamou Meta G lendo meus pensamentos. — Pensa que conseguiu encontrar a chave do nosso mistério... Sua consideração interna o sabotou, A.R. Asseguro que perdeu. — Perdi? – Assustei-me.


— Não é nosso o plano de difusão do Bem, mas do Grande Arquiteto. — Meta G levantou-se da bancada e passou os olhos sobre todos os membros da Cúpula, como se quisesse reiterar qualquer coisa que ainda pairava ali. — Nosso dever é colaborar com o Plano Perfeito que visa edificar o Bem Universal em todas as esferas celestiais. A Lei se cumpre no espaço através das ondas emitidas, para o Bem ou para o Mal. – Ele voltou a fitar-me com um brilho que poderia lembrar o lusco-fusco da manhã em Ox Vox. — Então, A.R., você não descobriu o “nosso plano”, mas sim o Plano Perfeito do Grande Arquiteto do Universo. E Ox Vox saiu na frente de outras galáxias. Somos a centelha que brilha sobre a Lei. E você ainda tem a chance de se regenerar e voltar a ser o nosso Condutor Intergaláctico. Basta querer. — Eu quero – disse num rompante. — Quero sim, admito. Mas gostaria de fazer um pedido. - Meta G olhou-me complacente. — Quero voltar a ter a dedicação de Cristálida em minha reorientação. O ambiente ganhou nova luz. Cristálida abriu um sorriso e deixou à mostra uma fileira de filetes de platina dourada que contagiou todos os presentes. Assim, finalmente, o meu julgamento terminou, e eu fui com Cristálida para um trabalho de ressocialização. Ao norte de Ox Vox é que ficavam as prisões que auxiliavam o trabalho de correção de conduta. Minha orientadora, com um gesto de amor incondicional, ficou comigo durante os vários ciclos de rotação que duraram provavelmente o tempo para que eu pudesse restabelecer meu dom de ser natural. Não me lembro de nada, contudo, já que tive que esvaziar o meu aparelho mental repleto de considerações internas. Cristálida demonstrara, de outro modo, sua consideração externa, sem mesmo procurar tocar nas minhas faltas. Amou simplesmente. Mostrou-se inteira como tem de ser. E eu descobri de quem obtivera uma ampla noção do significado da percepção elevada. Daí em diante fora um passo ter o dom de perceber que em minhas associações mentais havia certo alcance sobre os conhecimentos superiores, coisa que esquecera por completo antes, já que vivia imerso na consideração interior e esquecido de meu dom de ser natural. Depois desse novo envolvimento com Cristálida, resumo no ato que vi de minha amada orientadora: ela retirou uma caixinha de memória que carregava no seu aparelho mental e deu-me de presente. Como robóides de platina, tínhamos microchips instalados em nosso cérebro. Em cada um desses microchips, havia uma carga de experiência positiva que poderia ser transferida a outro robóide. No meu caso, Cristálida me deu todo o processo do meu acompanhamento de ressocialização em Ox Vox. Talvez foi ali que eu recuperei de vez o meu dom. Hoje posso dizer com segurança, enquanto vôo em nosso supersônico de fibra ótica por milhares de galáxias colonizadas por Ox Voz: Recuperei o meu D.O.M : Duvide de Ox e Mude! De repente, meu supersônico levantou poeira cósmica e desapareceu de vista. Estava indo dar as minhas palavras para o Bem de Cásper, um obediente astro sobre o qual a Centelha pairava.


A Centelha de Ox Vox