Issuu on Google+

: SOMBRAS E LUZES DA DÉCADA DE 70

Jornal Laboratório do curso de Jornalismo Multimídia - UNA - No.17 - Ano I V - Setembro / Outubro de 2011 - Distribuição gratuita

Os anos 1970 marcam gerações. Em pleno regime militar,o Brasil viveu momentos de fruição intelectual, mesmo sob forte censura. A década começou na vigência do governo Médici, o mais duro de todos os 21 anos de ditadura. Porém, a virada para os anos 1980 testemunhou o renascer da sociedade civil e dos movimentos culturais. Os alunos do curso de Jornalismo da UNA foram a campo e reviveram esse período, em reportagens sobre a Copa de 70, o jornal alternativo De Fato, a trajetória de Wilson Simonal, o cartunista Henfil e o movimento punk.

Paixão Nacional Renata Batista

colorir as ruas de verde e amarelo. INVICTO! Foi assim o futebol brasileiro, longe dos fiascos vividos, ao exemplo de 2010, aquela seleção gigantesca no fazer futebol, grandiosa na disciplina como afirma Wilson Piazza: “Fomos para jogar futebol!”, em entrevista concedida em

abril de 2011, quando os colegas Igor, Luigi, Antônio Carlos, Tomás e eu elaborávamos o trabalho para a disciplina Tidir sobre este tema. A seleção mostrou a que veio e além das fronteiras mexicanas, também veio nos dar a certeza do futebol do futuro e a qual deveríamos reverenciar até hoje.

Hoje já consigo assimilar um 4/4/2, já sei o que é ser impedido. E o gandula que “catava” as bolas foras de 70 parou para admirar a seleção “Canarinha” e, no mínimo, em algum lugar, se ainda vivo, guarda uma bola autografada por Pelé na certeza de possuir as melhores recordações do bom futebol em cena. Foto Igor Coelho

Sim, estamos falando de futebol, e não em ritmo de Copa, ainda, mas falando, sim, de uma das copas mais admiradas, reconhecidas e lembradas por nós brasileiros, a Copa de 70. Copa ocorrida em meio a um regime ditatorial, mas que, ao mesmo tempo, deu voz ativa ao povo como em grito de liberdade, afinal eram 90 milhões em ação. Uma experiência inusitada, ao menos para mim, que acreditava que impedimento era o nome de algum jogador, que escanteio ou gandula deviam ser algum tipo de xingamento autorizado nos jogos. Totalmente leiga, mas curiosa, ao desvendar os caminhos de 70 e me perder nos passes de Pelé, dribles de Piazza e o grito da multidão em Guada-

lajara, aprendi a apreciar essa, por assim dizer, a oitava arte de um povo. Povo esse que se permitiu ir às ruas sobre o protesto de olhos quase hostis, pois afinal os militares, mesmo em suas fardas, também eram o povo brasileiro e também eram torcedores, mantendose na postura da farda e um coração explosivo no peito. Olhares que passavam despercebidos sob a multidão em fanfarra, afinal de contas, “o futebol seria o momento em que é possível as pessoas violentas extravasarem coletivamente, inclusive com explosões violentas, extravasando uma agressividade que não tinha outro caminho para sair” , escrevia a revista Veja em sua edição de 17 de junho de 1970. Ditadura? Que ditadura? Para os torcedores a ordem era a desordem do

Wilson Piazza recorda os grandes momentos


2 - contramão

Jornal De Fato marcou imprensa alternativa em Minas Felipe Weikman Mara Prata

Entre 1964 a 1980, surgiram e desapareceram cerca de 150 periódicos alternativos no Brasil. Estes tinham como marca a oposição ao governo militar.

Reprodução DE FATO, Belo Horizonte, nº 26, out. 1978. 1ª página

Pa r t i c u l a r m e n te, no ano de 1968, após a decretação do ato-institucional nº 5, em 13 de dezembro daquele ano, o país foi marcado pela grande opressão aos opositores do regime militar. Segundo Barros (2003), as grandes manifestações ocorridas, como do movimento estudantil, passeatas, oposição armada e a rebeldia contra o crescimento das ideias contraculturais, foram duramente reprimidas. Com ideologias contrárias ao regime, pode-se destacar neste contexto a imprensa al-

ternativa, chamada também de underground, emergente, nanica e até de não-alinhada, que recebia essas nomeações com o intuito de generalizar sua produção independente. De Fato foi um jornal alternativo fundado em Belo Horizonte em 1976. O objetivo do jornal não era fins lucrativos, pois os seus integrantes chegaram a ter prejuízo para sua divulgação. Cada participante do jornal tinha um emprego à parte para conseguir se sustentar. Na criação do De Fato, foi necessária a contribuição monetária de cada um. Os jornalistas, cansados de serem reprimidos e censurados na imprensa onde trabalhavam, se uniram e montaram um jornal que mais se identificava com seus interesses e do público alvo, como os estudantes e intelectuais. Ao longo do tem-

O Jornal De Fato abordava temas considerados tabus na época

po surgiram pessoas de outras áreas, como de direito, psicologia, economia e literatura que incorporaram ao movimento contra a ditadura militar. Além disso, não havia regularidade na entrega do jornal, pois para os próximos exemplares, a equipe precisava arrecadar o dinheiro pelas vendas do anterior, como um trabalho voluntário. Se os aliados à ditadura pegassem os exemplares antes de ir às bancas, a equipe ficaria sem o capital para a próxima edição.

Sem memória O Brasil tem um pequeno acervo quando o tema é o resgate de sua história, sobretudo, sobre os anos da ditadura de 1964-1985. Assim, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa e no Arquivo Público Mineiro (APM) não há exemplar a respeito do jornal De Fato, é como se a publicação nunca houvesse existido. Nem mesmo há internet, o De fato mi-

neiro nao existe. O acervo que há pertence a pessoas, como ao jornalista Aloísio Morais Martins, que os coleciona em sua casa exemplares do jornal, que veiculou entre 1976 a 1978. A importância em discutir o tema é que a cidade de Belo Horizonte não tem conhecimento sobre o jornal De Fato, o que é essencial para a história regional e cultural da capital mineira.

Venda de bar em bar tempo, o jornal começou a ter uma forte tendência po Aloísio Morais foi lítica, relatando a ação vioum dos fundadores do De lenta da polícia e o desresFato. Ele fez da sua casa o peito aos direitos humanos. espaço para as reuniões de Abordavam assuntos que pauta. A diferença entre não havia na grande imo De Fato e os outros jor- prensa por causa da censura. “O jornal De Fato nais alternativos, de acor- do com a entrevista con- foi importante, pois foi cedida por Aloísio (2011), o primeiro de Belo Horiera que todos sempre par- zonte a reunir mulheres t i c i p a va m do movimento feminista, de todo o onde retratavam temas processo do que eram contra a mujornal e os lher naquela época, além vendia em de abordar temas sexuais. Nas redações, bares, portas de teatro, na era preponderantemenfeira hippie, te homens, mas as munas bancas lheres participantes era e chegou a um grupo forte e ester assinan- sencial”, conta Aloísio. Dione Maria Diniz tes no exte- rior, em sua Dutra era uma das diamaior par- gramadoras do jornal até te, exilados 1977: “O De Fato era dap o l í t i c o s . tilografado, diagramado O s e feita a arte final manua s s u n t o s almente, em papel no taa bo rd a d o s manho natural do jornal. no jornal Mas não era só a imprensa eram va- alternativa que trabalhava riados, pois com este procedimento. falavam so- Todos os grandes jornais, bre religião, como Estado de Minas h o m o s s e - e Folha, trabalhavam x u a l i s m o , com estas ferramentas”. O que era peculiar, cultura e movimento segundo Dione Dutra, “era a forma coletiva como o De feminista. C om Fato era montado: A gente o passar do assentava numa mesa na

casa do Aloísio e cada um fazia o que podia para ajudar, às vezes varamos a madrugada”, recorda Dione. “Havia muitas charges e textos longos”, diz Edson Fernandes Martins, jornalista que também participou da fundação do De Fato. Ele afirma que o jornal teve um bom debate. As cartas dos leitores eram de grande importância para o crescimento do jornal, porque diferente da grande mídia, era uma forma de manifestação que não podia passar despercebido. O jornal De Fato sofreu um atentado em meados de 1978. Arrombaram as portas e entraram na tentativa de incendiar o local. O atentado levou os seus integrantes a desanimarem com sua produção e conforme o tempo, outros jornais e movimentos opositores começaram a surgir, isso fez com que o De Fato chegasse ao seu fim. Os que lá trabalhavam recebiam ligações ameaçadoras no decorrer da sua realização, apesar de que, para Edson Martins a censura era maior para as rádios e não havia receio para as pessoas lerem.


contramão - 3

Quem se lembra de Wilson Simonal? Cenas do trailler / divulgação / Cenas documentário “Ninguém sabe o duro que dei”, dirigido por Claudio Manoel - 2009

Simonal foi um cantores mais populares de sua geração, mas a fama foi roubada após ganhar a pecha de ‘dedo duro’

Gisele Caldeira Sena Martins Tatiane Kely Ribeiro

O público que assistir o documentário musical de Wilson Simonal (2008) de Claudio Manoel, certamente não se arrependerá. Esta constatação se evidencia no desenrolar da trama que apresenta-nos um jovem cantor negro, apontado pela sociedade da época como um negro metido a branco, caracterizado por seu jeito irreverente e debochado, ostentando suas riquezas. È quando no auge do sucesso, este assiste a sua carreira sucumbir ao ser acusado pelo crime de delação e condenado ao ostracismo. O documentário desenvolve um enredo cuja trajetória de Wilson Simonal vivenciada na

época da ditadura militar, traz também a alusão de como era explicito o racísmo da sociedade. Contudo, o jovem negro mostra-se bem articulado ao conseguir driblar o preconceito sofrido, através de suas músicas. Este, também nos presenteia com depoimentos dos filhos Max Castro, Simoninha, e amigos de Simonal, como Pelé, Tony Tornado, Chico Anysio, bem como as declarações comprometedoras do seu ex-contador. É neste cenário que Wilson Simonal trava uma luta contra a doença que adquiriu pelo alcoolismo e comove-nos com a árdua e dramática tentativa de limpar o seu nome contra as acusações de um crime do qual jurava inocência. O filme-documentário Wilson Simonal - Ninguém sabe o

duro que dei, foi objeto do tidir3 cujo nome A Leitura de Wilson Simonal 40 Anos Depois buscou analisar a visão de alguns blogueiros e comentaristas da atualidade em contrapartida com o objetivo do diretor Claudio Manoel que idealiza o cantor como sendo inocente de uma acusação de envolvimento com o

DOPS, um braço da ditadura militar. É no blog do renomado jornalista Paulo Moreira Leite (2009) que deparamo-nos com sete posts ora a favor, ora contra a acusação sofrida pelo cantor Wilson Simonal de delator do DOPS. Este é o tema tratado no documentário,

pois aborda a vida e a carreira do artista e, sobretudo, a sua decadência artística ocorrida devido a tal acusação, visão essa defendida por seus produtores que sustentam uma posição de injustiça sofrida por Simonal, idealizando-o como vítima.

O filme revive a controvertida história de Simonal


4 - contramão

Traços e Cartas Que Esboçaram o Processo de Redemocratização do Brasil Felipe Bueno Lailiane Freitas Laiza Kertscher

Através de traços tortos, metáforas, disfarces na linguagem e muito humor, Henfil construiu uma das mais significativas formas de oposição ao regime militar. Ao dar voz ao personagem Ubaldo o paranóico e nas crônicas Cartas a mãe, o cartunista conseguiu driblar a repressão e discutir pensamentos e ideias abafadas pela ditadura. Nasce em 1944 na cidade de Ribeirão das Neves em Minas Gerais, em pleno fim do governo ditatorial de Getúlio Vargas, Henrique de Souza Filho (1944-1988).

Tendão de Aquiles: o código genético Foto Maria Nakano, livro Rebelde do Traço, de Denis de Moraes

Henfil figura entre os maiores cartunistas brasileiros – senão o maior – nome do desenho humorístico brasileiro e sua importância no processo de transição democrática do país é inegável.

Os primeiros desenhos do filho de Henrique de Souza e Maria da Conceição foram feitos ainda quando criança, quando dedicava o seu traço a desenhar santos para sua mãe. Henriquinho, como era chamado, se mudou ano depois de seu nascimento para a capital mineira, aonde deu seus primeiros passos na carreira e se engajou nas questões sócio-políticas. Cada personagem criado por Henfil retrata uma frente de luta de seu criador, que junto ao seu humor afiado, representou uma das principais manifestações da oposição do período ditatorial. Um dos mais famosos personagens do cartunista, Ubaldo o paranóico, tinha charges dedicadas e ele, veiculadas ao lado das crônicas que Henfil intitulava Cartas a mãe. Inicialmente foram publicadas no Pasquim, em 1977 passaram a ser um item semanal da revista ISTOÉ.

Betinho (esquerda) e Henfil (direita): O sociólogo e o cartunista

Portadores de uma doença hereditária que

http://www.centrocultural.sp.gov.br/gibiteca/henfil.htm. Autor desconhecido

Henfil: traços e palavras engajados contra o regime militar

incapacita o corpo de controlar sangramentos

Propagandas e censura seria a forte campanha do governo de criar uma A censura à im- visão positiva do Brasil, prensa foi instaurada jun- um país de grande extento ao golpe de 1964 com a são, de vasta natureza e de finalidade de se autenti- diversidade étnica. Marcar o regime militar e foi tins explica esse esquema instrumento de controle de legitimação do goverdos militares para se criar no militar por meio dos uma boa imagem do país. meios de comunicação. Apesar de fazer E assim o antium retrato bonito de vestibular, palavra citauma nação, essa imagem da para caracterizar uma era ilusória. Esse pro- sociedade que está ilhada cesso de alienação da da informação, é tampopulação dava-se por bém a representação do meio de proibições aos falso sistema de seleção meios de comunicação de estudantes ao ingresem propagar o descon- so do ensino superior, tentamento e pensamen- que cobrava nas provas tos contrários à ditadura. um conhecimento sobre Além disso, tam- pontos da história proibém vetava a dissemina- bidos de serem falados. ção de filmes, livros, mú- Sem o acesso ao sicas e estudos históricos conhecimento e com a que reforçassem uma desconstrução da visão ideologia de tendência es- crítica através da represquerdista ou mesmo qual- são do governo à imprenquer possibilidade con- sa, as pessoas tinham uma testatória ou libertária. visão limitada e equivo A exemplo disso, cada sobre assuntos de Henfil, em sua crônica se- viés político e sobre tudo manal publicada na revis- o que estava acontecendo ta ISTOÉ, em 14 de setem- no mundo. bro de 1977, evidenciou a Henfil, ao final da forma como a imprensa crônica, fez uma desconstransmitia sua progra- trução das propagandas mação de teor ufanista, do governo antidemomais especificamente a crático. Ele formulou “TV Blim Blim”, forma perguntas sobre essas como o cronista gostava campanhas publicitáde chamar a Rede Globo. rias e frases de ordem do Ao citar o progra- momento, sejam a favor ma Globo Repórter, ele ou contrárias à ditadura. pretendia ilustrar o que Assim, Henfil iro-

e dificulta o processo de coagulação do sangue, a hemofilia, Henfil e seus dois irmãos, o sociólogo Herbert de Souza (Betinho) e o músico Chico Mário sofreram complicações na saúde decorrentes dessa carga genética. Mas ao mesmo tempo, isso deu a eles mais vontade de viver e reforçou outra herança, o sentimento de indignação com a injustiça, herdado de Dona Conceição.

nicamente responde com uma das campanhas do governo Geisel o que seria um povo desenvolvido. Propaganda que ficou famosa por ter criado o emblemático personagem Sujismundo, explorava a noção de que “povo desenvolvido é povo limpo”. E segue, ao dizer que a liberdade é “uma calça velha, azul e desbotada”, em alusão ao movimento Tropicália, aos Mutantes, a Caetano Veloso e a Gilberto Gil que propuseram uma difusão da cultura. Ao questionar o que seria inflação, ele cita o verso “Digo: não” da música “É proibido proibir”, de Caetano Veloso. “Quantos partidos existem no país?” foi a indagação que permitiu expor o quanto antidemocrático o regime era, isso estava expresso na frase da campanha do regime “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Ao se discutir sobre a renda per capita, a reposta não poderia deixar de ser sarcástica frente à discrepante desigualdade social que assolou o país no período de 1968-1985, “Mexa-se!” era o discurso da política nessa época para que unidos e munidos da força de trabalho os brasileiros


contramão - 5

pudessem construir um futuro promissor. O governo também tentou inculcar na cabeça das pessoas a noção de uma nação grande, de pessoas iguais, apesar da diversidade. Dessa maneira, sobre a pergunta quantas raças formaram o Brasil, Henfil responde com uma frase do jogador de futebol Pelé, que disse que “o Brasil foi feito por nós, mas nós ainda não estamos preparados para democracia”. A propriedade do futebol nas suas inúmeras vitórias e a importância para a população brasileira levou o governo a explorar e propagar valores progressistas como, “90 milhões em ação, para frente Brasil salve a seleção!”, música sobre o êxito da seleção na Copa do Mundo do México em 1970, que reforçou o poderio do país e a idoneidade dos estadistas. Esse jogo de perguntas e repostas se encerra com o trecho da música “Eu te amo, meu Brasil” , de uma propaganda do governo no objetivo de exaltar o país. O verso em questão é “Aí vão ver que ninguém segura a juventude do Brasil” e está em diálogo com a lição passada por Henfil sobre todas essa indagações lançadas por ele como forma de refutar o sistema do governo que propiciava uma desinformação em massa, que deixava estudantes sem memória histórica, soltos dentro de um tempo na qual eles não podem refletir. Lei

do

Ventre

Livre

A crônica de Henfil, publicada em 28 de dezembro de 1977 (ISTOÉ, nº 53, p. 74), na seção Cartas a mãe da revista ISTOÉ, faz uma releitura da Lei do Ventre Livre, no dia em que se comemorava 106 anos desde sua promulgação, em 1871. A Lei assinada pela Princesa Isabel previa que todos os filhos nascidos de mulheres escravas a partir daquela data estariam livres, o que possibilitaria transição gradual do regi-

A gente te vê por aqui Na charge do dia 21 de setembro de 1977, Henfil mostra como nem ao assistir televisão, Ubaldo conseguia se ver livre de sua mania de perseguição. Pelo contrário, para o personagem, durante um simples momento de lazer, ele poderia ser alvo de um dos meios de manipulação do regime ditatorial. Logo no primeiro quadrinho, Ubaldo sentado em frente ao aparelho televisor, se pergunta se além de assistir a televisão, ela não poderia assisti-lo também. O personagem logo se prepara para desligar o aparelho, quando surge o logotipo da Rede Globo na tela com o seu famoso “blim blim”, que instantaneamente assusta Ubaldo. O logotipo da Globo apareceu como uma metáfora, de um olho que observa quem o assiste. Desde sua fundação, em pleno regime ditatorial, a Globo já exercia grande influência sobre os brasileiros. Lemos descreve o nascimento da TV Globo Rio, em 1965, ainda aliada à companhia norte-americana Time-Life. Anos depois, a Globo é nacionalizada, mas desse período ficaram o método empresarial de direção norteamericano. Com a criação do primeiro telejornal em rede brasileiro, o Jornal Nacional, a Globo foi sintonizada por todo o país e começava a criar sua supremacia sobre as outras redes de televisão. A nova rede de TV brasileira florescia sob a influência da ditadura militar, e seguia como um auxílio na divulgação para as campanhas ufanistas do governo. me de escravidão para a mão de obra livre. Na crônica quem sanciona a Lei é a Princesa Dona Conceição, mãe de Henfil, a quem era direcionada todas as crônicas desta seção. A mãe do

Charge da revista ISTOÉ, de 21 de setembro de 1977, nº 39, p. 82

Ainda assustado, Ubaldo dialoga com a televisão, e se justifica ao dizer: “Tava brincado! Tava só brincando, Doutor! (sic)”. O “doutor” tão temido por Ubaldo era Roberto Marinho,

então diretor-presidente da Globo. Ubaldo, ao se dar conta que também estava sendo “assistido” pela Rede Globo, logo teme a força política de Roberto Marinho e de sua rede de

televisão, que assumiu um papel importante na legitimação de propostas do governo militar e foi utilizada como instrumento importante para promover idéias do governo.

cartunista ficcionalmente decreta que a partir daquele dia todos seriam livres, e teriam o direito de votar e escolher seus representantes, além de garantir e discutir vários outros direitos e temas pertinentes

ao período. Em 1977 o processo de abertura política já havia começado, mas caminhava a passos lentos, como queriam os Militares. Porém as movimentações por parte dos grupos

de esquerda e do movimento estudantil eram intensas. Na crônica o cartunista revoga todas as leis de arbítrio decretadas pelo regime militar, que impediam as pessoas de


6 - contramão

Charge da revista ISTOÉ, de 30 de novembro de 1977, nº 49, p. 82

terem uma vida livre e de exercerem os seus direitos políticos, além de criar contrapontos com a liberdade que passariam a ter. No parágrafo 1° da lei do Ventre Livre, Henfil devolveu o direito de exercício pleno da democracia, e extinguiu a Lei Falcão, que regulamentava a propaganda política da época e impedia que os candidatos falassem durante o horário eleitoral. Além de citar fatos da época, como a fala do ex-jogador de futebol Pelé, que chegou a dizer que a população brasileira não estava preparada para a democracia. No próximo parágrafo, o autor defendeu o direito dos estudantes e das organizações estudantis, que eram proibidas de existir, e pôs fim ao Decreto-Lei 477, que ficou conhecido como o “AI-5 das Universidades”, o qual

punia professores e alunos acusados de subversão. Em seguida, Henfil fala sobre os direitos trabalhistas, e incluiu a organização de sindicatos livres e das greves e critica a alta taxa de impostos e os subsídios dados às grandes multinacionais. A partir daí, nos próximos parágrafos, é garantido à liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o fim da censura, a volta do habeas corpus e do direito a um julgamento dentro da Lei, em que todos são inocentes, até que se prove o contrário. E por fim, Henfil revoga todos os “atos anticoncepcionais”, ou os Atos Institucionais. Assim, analogicamente, Henfil traça um paralelo de dois momentos autoritários da história do Brasil: um é o período escravocrata e o outro o Regime Militar. Ao fazer esta comparação são expostas as principais medidas que privavam a população do direito de liberdade.

O Punk Tupiniquim nas décadas de 70 e 80 Ana Paula de Paiva Jéssica Newman Juliana Magalhães Vilella Mauro Lúcio Amaral Torres

Quatro garotos de Nova York (Johnny, Joey, Dee Dee e Tommy), crescidos na década de 1960, em meioàexplosãodebandasderock. A maioria das bandas que os influenciou já não existia mais. O que existia, naquele momento, era um rock com acordes intermináveis. Neste cenário que os Ramones entraram em cena. O mundo nunca tinha visto nada parecido com aquilo, músicas que duravam no máximo dois minutos, tocadas do jeito mais rápido possível, um vocalista bizarro de 1,98m encarando o público com os instrumentos abaixo da cintura e emendando uma música na outra, ninguém

O Movimento que dominava Nova York e Londres, em 1974 e 1975, ao som oprimido e simplificado das bandas Ramones e Sex Pistols, chegou ao Brasil com ideais diferenciados de apenas se fazer um “novo” Rock n’ Roll.

entendia nada, mas tinha um sentimento de que tudo aquilo que estava acontecendo era legal e de atitude. Estas são de cenas do filme “Garotos do Subúrbio”, que tem a direção do estreante Fernando Meirelles, de 1983. Os Ramones lançaram seu primeiro disco, homônimo, pela Sire Records, em 1976. O LP tinha 14 músicas e 29 minutos de duração (Idem). As músicas e as letras eram simplíssimas. O álbum recebeu poucas, porém boas críticas, mas acabou não sendo um grande sucesso de vendas, mas os jovens que compraram formariam suas bandas posteriormente. Depois de uma turnê que pas-

sou pela Inglaterra, os Ramones deixaram uma legião de fãs no “velho mundo” e inspiraram a maioria dos jovens a formar uma banda. Dentre essas estava o Sex Pistols, inspirado pelo lema Do it yourself (Faça você mesmo), levou um novo apelo político ao Punk e as causas sociais. A Londres da década de 70 vivia uma recessão violenta. Desemprego, protesto e desânimo conviviam em desarmonia absoluta, numa provocação imediata para chamar o caos. De acordo com o historiador inglês Tony Judy, no Reino Unido, “o nível de desemprego excedia 1,6 milhão e continuava a crescer”.

Em seu livro “Pós-Guerra- uma historia da Europa desde 1945, Judt analisa que “ no final dos anos 70, discutia-se muito a suposta ‘ingovernabilidade’ do Grã-bretanha, a percepção generalizada de que a classe política perdera o controle, não apenas da política econômica, mas do local de trabalho e até das ruas . O Estado de Bem-Estar no Reino Unido estava em xeque. Judt explica que, na segunda metade da década de 70, o programa de reestruturação econômica “reconhecia a inevitabilidade de certos níveis de desemprego; reduzia os repasses financeiros e os custos de mãode-obra, pois protegia os ope-


contramão - 7

rários especializados, enquanto permitia o surgimento de uma periferia desfavorecida de empregos contratados em regime de meio expediente, desprotegidos e não sindicalizados e que visava a controlar e reduzir a inflação e os gastos do governo, mesmo à custa da austeridade econômica e crescimento desacelerado”. Nesse contexto econômico e social, gritavam: “Anarquia já!”. O Punk estava nas ruas, lutando por melhores condições. Eles cantavam sua indignação com tudo que estava acontecendo, como por exemplo, em Anarchy in UK, onde a letra diz: “I’m antichrist, I’m anarchist; Don’t know what I want; But I know how to get it; I wanna destroy the passerby; Cause I want to be anarchy; No dog’s body […]” e God save the Queen, que relata uma provocação ao governo britânico, a rainha, e a toda sociedade conservadora na época. “God Save the Queen; Her fascist regime; It made you a moron; A potential H bomb [. . .]” Logo o estilo se popularizou rapidamente pelo mundo e, no Brasil, o movimento contava com várias bandas de punk rock como Olho Seco, Inocentes, Ratos de Porão, e outras. E assim como na Inglaterra, aqui também se usava um visual agressivo e de atitude para gerar uma mudança radical do sistema social. O nascer do Punk no Brasil Foi ainda nos anos 1970 que surgiu mais uma tentativa de rebeldia contra a sociedade que negava ao jovem a possibilidade de realizar-se como pessoa: o punkismo gerado no ventre do proletário inglês, no caldo do desemprego e de crise do Reino Unido – um horror visual, a violência [. . .] Avessos à política, sujos, segregacionistas, eles cantavam as canções do meteórico conjunto musical Sex Pistols, repetindo que, se a sociedade esta podre, e se ninguém, nem eles, pode salvá-la, o negócio é destruí-la de vez, conta o jornalista Luiz Fernando Emediato, em seu livro “Geração Abandonada”. Durante a política recessiva e monetarista da ditadura militar, o movimento punk nasce para os brasileiros, em meados de 1976 e 1977, coincidindo

com o retorno do Movimento Estudantil. Em 1977, ao movimento estudantil somavam-se mais de um milhão e meio de universitários, e a qualidade do ensino naquele momento havia crescido inversamente a quantidade. As verbas naquela época eram escassas e apenas 5% do orçamento da União estavam destinados à educação. Nesse período, devido à grande censura, poucos periódicos eram publicados no Brasil, mas as poucas publicações que chegavam às mãos dos jovens, e novo estilo musical que ouviam, eram reproduzidos em seus comportamentos como se isso preenchesse o inconformismo da época. O punkismo foi incorporado pela indústria, que passou a produzir discos, livros, objetos de adorno, roupas e tudo mais que expressasse esse horror aparentemente inconseqüente, conforme explica Emediato. “Quando li na revista ‘Pop’ uma reportagem sobre os Pistols, pensei: ‘Meu, isso é tudo o que estava procurando’. Descobri que era punk”, disse Zorro, ex-integrante da banda M-I9, hoje da banda Invasores de Cérebros, à Folha de S. Paulo, em entrevista de 1996. Entre 1977 e 1980, os punks eram considerados gangues de ruas que se identificavam pelas formas de vestir e pelo som estridente. “Em plena ditadura militar nós rompemos com tudo, rompemos com uma estética visual, estética musical, e uma estética comportamental”, relata o músico Zorro, no documentário de Gastão Moreira, “Botinada: A origem do punk no Brasil!”, de 2007. No começo, o Movimento Punk era apolítico, mas foi no início de 1980 que alguns adeptos passaram a colaborar com os anarquistas tomando um rumo totalmente direcionado à militância política, com discussões e ações mais ativas, opondo-se à mídia tradicional, ao Estado, às instituições religiosas e grandes corporações capitalistas, conforme explica Diego Assis, na reportagem “Festival punk ganha reedição 20 nos depois”, publicada no Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 2002. Em 1982, com o intuito de unir as gangues de São Paulo com as do ABC, bandas punks brasileiras como Ino-

Callegari, baixista dos Inocentes e um dos organizadores do “Começo”. (Arq. Ariel Uliana - Extraído Revista Trip)

centes e Cólera decidem organizar o festival “Começo do Fim do Mundo”, no Sesc Pompéia.  O festival, que tinha o intuito de unir os jovens, acabou em pancadaria entre polícia e Punks e ficou registrado com um dos maiores e históricos festivais de punk do Brasil. Somente em 1988, oficialmente, alguns Punks se uniram a grupos anarquistas, criando assim um novo grupo os Anarcopunks. Em geral, o movimento defende valores como o antimachismo, anti-homofobia, antifascismo, liberdade individual, autodidatismo, etc. Nesse período de repressões, os Punks buscavam uma revolução, com a quebra da superioridade imposta pelos burgueses. Os jovens divulgavam suas ideias por meio das músicas, de mídias alternativas – como os fanzines, revista alternativa, destinada aos fãs de determinada manifestação cultural. Em geral, evitavam a mídia de massa, como a televisão, para difundir suas ideias, por acreditarem que esses meios de comunicação eram manipuladores e que distorciam os fatos para benefício próprio. Dentre os meios de comunicação destaca-se o jornal “O Estado de São Paulo”, onde o jornalista e escritor Luiz Fernando Emediato acompanhou o cotidiano dos jovens da época. Guiado pelo jovem Renato (Caco) ex-traficante e usuário de drogas, o jornalista escreveu várias crônicas, que mais tarde se transformaram no livro: Geração Abandonada. Os relatos do livro, segundo Emediato, eram as histórias que os jovens o contavam. O jornalista recebeu, pela sua audácia de se inserir no meio deles, o prêmio Esso de Jornalismo, em 1982. Em resposta à matéria “Geração Abandonada”, o vocalis-

ta e baixista da banda punk Inocentes, Clemente Tadeu Nascimento, disse que o Punk era um movimento sócio-cultural. “Ele é a revolta dos jovens da classe menos privilegiada, transportada por meio da música”. Para entender como essa “nova filosofia” influenciou as atitudes dos jovens brasileiros no período de recessão, antes, torna-se necessário entender quais os requisitos eram necessários para se enquadrar no movimento. Este é o tema do próximo tópico Nova ideologia O que era necessário para ser e representar o “Ser Punk” naquela década? “Era uma disputa para ver quem era mais Punk, de um jeito muito juvenil, coisa de molecada”, diz Zorro. A tentativa foi a de relacionar a cultura vivida por eles a um estilo imposto por revistas como a POP – um cabelo moicano ou cortado por si próprio, jaqueta cheia de arrebites ou rolas tingidas e a excitação pela música punk rock. Na maioria dos casos, as publicações jornalísticas e a televisão traziam algumas informações equivocas e preconceituosas na hora de identificar o que é ser Punk, em textos opinativos, os jornalistas transformam os jovens seguidores deste movimento em seres desprezíveis e baderneiros. O “ser Punk” não está relacionado somente à identidade visual. O jovem punk define o termo “Punk” como uma manifestação cultural e ideologicamente independente, fundamentando essa ideologia na subversão não coativa dos costumes cotidianos , analisa Cecília D’avila, em seu artigo “Punk: cultura e arte”.


8 - contramão

Fazem o que tem vontade e não se importam com as consequências ou com o que os outros vão dizer, seja no seu vestir ou no vocabulário, eles simplesmente não são adeptos ao caráter politicamente correto. Não seguem as normas impostas pelo Estado, seguem a vida com suas causas e vontades de ser, e não se importam com a sociedade ao seu redor. “SerPunk”

Em novembro de 1982, foi realizado no Sesc Pompéia de São Paulo, o festival O Começo do Fim do Mundo, com a presença de 19 bandas e “foi considerado o pontapé inicial da cena punk”, explica Assis. O evento acirrou as rivalidades entres os grupos Punks do estado Paulista e a Polícia. O Festival, que pregava pela união dos grupos, acabou deixando ainda maior as rivalidades entres eles e se tornou famoso pela mídia devido a sua desordem e violência. Por volta das 17h, a polícia invade o salão, acaba com o que classifica “desordem” e leva para a delegacia parte da platéia – na maioria, adolescentes de 14 a 19 anos, roupas negras e cabelos coloridos e pontiagudos, conta Sallum na Folhateen. O jornal norte-americano The Washington Post e a revista Maximmum Rock’n’Roll, da Califórnia, mostravam em suas matérias, pouco o som produzido pelas bandas e dava ênfase às brigas entre

os jovens. Segundo Sallun, a partir deste evento, os punks foram “perdendo espaço e voltando para os guetos”. Além das divisões internas e da pressão policial, parte da imprensa publicou reportagens ressaltando a violência e os perigos do movimento, aumentando o preconceito em relação a eles. Após uma fase de dispersão no meio dos anos 1980 e o fim da ditadura militar, o movimento punk retornou mais diluído, porém mais organizado. Pós-Punk: Existe vida após “O começo do fim do mundo” ? Não se pode dizer que o punk brasileiro morreu. Após a grande repercussão da mídia, a onda punk ainda resistiria por mais alguns anos. Os exemplos

disso são os músicos Zorro e Ariel, eles se recusam até hoje a assinar contratos com produtoras e gravadoras. Os músicos já lançaram discos independentes e conservam até nos dias atuais o estilo Punk dos anos 1970. Nenhum movimento musical conseguiu superar a força do Punk. Incorporando a rebeldia primal do rock n’ roll, um bando de garotos eternamente inconformados conseguiu transformar os padrões de comportamento em todos os segmentos do mundo pop. Não é exagero nenhum dizer que o punk mudou tudo – e não apenas no setor musical. Desde os primórdios, o estilo sustentou-se graças à sua multiplicidade. Ser punk sempre foi algo maior do que ser mais um fã de uma banda. Foto João Pires. Reprodução livro Geração Abandonada de Luiz Fernando Emediato

Em entrevistas com músicos que vivenciaram o nascer do Punk neste período histórico, apontamos que a censura, a repressão e a violência existiam, porém, não para todos. Em entrevista com o jornalista, escritor e musico Antonio Carlos, conhecido como Kid Vinil, nem todos foram afetados diretamente pela Ditadura Militar, de acordo com Kid, a repressão existia, porém ela não os atingiu diretamente, “a Ditadura Militar necessariamente não influenciou e nem atrapalhou o movimento, as pessoas conviviam com o Governo Militar, protestavam de certa forma, pois neste movimento diferentemente de outros as pessoas tinham a liberdade de falar, não dependiam tanto da censura, como outros artistas. O Punk circulava numa área mais independente”. Em contrapartida ao jornalista e músico, o também musico Alexandre Dota, da banda Os Contras, afirma que em Minas Gerais, precisamente na cidade de Belo Horizonte, ele sofreu com a repressão militar e diz que: “Ser Punk naquela época e naquela região (região Centro Sul-Savassi) se resumia em tomar geral toda hora da polícia e ser preso em shows”. Imprensa e violência Com um perfil público, muitas vezes, violentos, os jovens adeptos e simpatizantes do Movimento Punk eram, na maioria das vezes, alvos da mídia sensacionalista, “Cuidado com eles – Suburbano e Pobre, o agressivo ‘Punk’ ganha as rua”, diz no documentário “Bontinada”. Os punks, assim como toda a população, desejavam

viver em paz, porém, para conquistar isso, eles provocaram a “desordem” para contrapor à falsa paz que os governantes pregavam, pois, os ideais e as ações do movimento punk sempre estiveram diretamente ligados à mudança radical do sistema social, a quebra de valores sociais e morais. “Claro que existiam os punks violentos, mas as pessoas generalizaram, pensando que todos nós éramos assim”, desabafa Clemente Tadeu, da banda Inocentes, no documentário “Botinada”.

Milhares de jovens aderiram ao estilo punk em todo o mundo

Os trabalhos foram orientados pelos professores Cândida Borges Lemos (coord. da disciplina Trabalho Interdisciplinar Dirigido – TIDIR do 3 módulo do curso de Jornalismo), Aurélio Silva, Elisângela Dias, Magda Santiago, Nelma Costa e Pedro Vilela. Os artigos estão disponíveis na íntegra em http://sombraseluzes70.wordpress.com


Jornal Contramão - edição especial década de 70