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Sumário 04

10

16

Aumentar investimentos: Meta estratégica para o Brasil

As condições Os números e as posições do favoráveis Brasil

18

21

As condições desfavoráveis

Um balanço desfavorável


Aumentar investimentos:

Meta estratĂŠgica para o Brasil


P

aís emergente de alto potencial, o Brasil reúne amplo conjunto de condições para subir no ranking das maiores economias do mundo, aspirando ser reconhecido como potência e abrindo espaços para atuação como protagonista relevante. Não lhe faltam bons fundamentos para esses propósitos: dimensão territorial, abundância de capital natural, diversidade de fontes para

produção de energia, cadeias de produção competitivas em termos mundiais, base demográfica e dimensões do mercado interno. Mas há uma falha estratégica que exige correção: o aumento substancial na relação entre investimentos e PIB, para que o país possa pelo menos acompanhar o ritmo médio com que tem crescido o conjunto dos demais países emergentes.

Aumentar investimentos

05


Nos últimos vinte anos, mudou a configuração da economia mundial quanto às expressões dos países avançados e emergentes. Foram bem distintos os desempenhos dos 25 maiores países de cada um desses dois grupos. Os emergentes cresceram expressivamente mais, ampliando de 18,3% para 37,8% sua participação no conjunto dos 50 maiores países (figura 1), segundo a magnitude de seus PIBs: no período 19912010, esse grupo cresceu, em

termos nominais acumulados por qüinqüênios, 285,3%, ou 7,4%, ao ano, enquanto o grupo dos países avançados cresceu 87,5%, ou 3,4% ao ano (figura 2). Esses números não são atribuíveis apenas à notável expansão e ao peso da economia chinesa. De forma geral, as taxas nominais de crescimento econômico são, em praticamente todos os países do grupo emergente, superiores às dos países avançados (tabelas 1 e 2).

figura 1

Expressão crescente alcançada pelos países emergentes: 1991-95

18,28%

1996-00

21,80%

81,72%

78,20%

2001-05

2006-10

23,43%

76,57%

37,56%

62,44% 25 maiores emergentes 25 maiores avançados

06

Aumentar investimentos


figura 2

Crescimento econômico dos 25 países avançados e dos 25 maiores emergentes, 1991 - 2010 Avançados

Emergentes

US$ Trilhões

US$ Trilhões

3,37%

200,0

ao ano

197,3

148,0

150,0

7,37%

80,0

ao ano 34,6

60,0 26,7

122,3

19,2

105,2 100,0

40,0

50,0

20,0

0,0

1991-95

74,1

96-2000

2001-05

A expressão crescente dos países emergentes é associável à variável-chave do processo de crescimento econômico: a relação entre os investimentos produtivos e o PIB. Em médias ponderadas, nos últimos vinte anos, essa relação atingiu 28,3% nos emergentes, enquanto nos avançados esse indicador foi de 20,9%. Mais ainda: nos países avançados mostrou discreta tendência de queda; nos emergentes, de alta, atingindo 30,7% no último qüinqüênio (tabelas 3, 4 e 5). As diferenças e tendências observadas na relação inves-

2006-10

0,0

1991-95

timentos/PIB entre os países avançados e emergentes podem ser apontadas como a causa fundamental da reconfiguração do cenário econômico mundial nos dois últimos decênios. A magnitude dos investimentos, especialmente quando estes se expandem em relação a outros indicadores macroeconômicos, é o fundamento de maior importância para a promoção de crescimento econômico acelerado e para todo um conjunto sustentável de mudanças que conduzem ao desenvolvimento sócio-econômico. A

96-2000

2001-05

2006-10

relevância dos investimentos produtivos nos processos de aceleração do crescimento decorre de seus efeitos multiplicadores sobre os níveis do emprego, da produção, da renda e da capacidade efetiva de dispêndio das nações. Não há outra variável de importância equivalente. Quando fases de crescimento acelerado são atribuíveis a outras variáveis, corre-se o risco de que sejam efêmeras e que acabarão por exigir duras medidas corretivas.

Aumentar investimentos

07


Tabela 1

PIB de 25 países avançados, 1991-2010 países

Múltiplos nominais de expansão

Valores acumulados, por qüinqüênios, em US$ trilhões correntes 1991-95

1996-2000

Estados Unidos 33.502

44.269

2001-05

2006-10

2006-10/91-95

56.577 70.607

2,11

Japão

21.674 21.798 21.401 24.112 1,11

Alemanha

10.563 10.842 11.906 16.561 1,57

França

6.854 7.266 5.817 12.973 1,89

Reino Unido 5.359 7.020 9.435 12.369 2,31 Itália

5.675 5.975 7.362 10.463 1,84

Espanha

2.803 2.999 4.361 7.159 2,55

Canadá

2.896 3.254 4.442 7.112 2,46

Austrália

1.700 2.053 2.746 5.022 2,95

Coréia do Sul 1.993 2.458 3.291 4.772 2,39 Holanda

1.740 2.007 2.630 3.919 2,25

Suíça

1.322 1.360 1.594 2.343 1,77

Bélgica

1.190 1.268 1.536 2.304 1,94

Suécia

1.194 1.290 1.526 2.207 1,85

Taiwan

1.164 1.487 1.610 1.978 1,70

Noruega

640

Áustria

995 1.057 1.242 1.871 1,88

Grécia

550 669 947 1.558 2,83

Dinamarca

763

Finlândia

556 634 810 1.204 2,17

Irlanda

276 437 774 1.174 4,25

Portugal

503 603 791 1.149 2,28

797 1.149 1.964 3,07

863 1.049 1.547 2,03

Hong Kong 593 835 833 1.047 1,77 Israel

375 559 616 925 2,47

Singapura 318 459 512 918 2,89 TOTAIS

08

105.196 122.257 147.959 197.258

Aumentar investimentos

1,88


Indicando que a reconfiguração do cenário econômico mundial não é um movimento efêmero, no grupo dos 25 maiores emergentes foram raros os que não registraram altas e crescentes taxas de investimento em relação ao PIB, nas duas últimas décadas: em média ponderada e em termos nominais, o crescimento anual dos investimentos dos emergentes nesse período foi de 11,47% ao ano, expressivamente superior aos 3,08% dos 25 maiores países avançados.

Comparando-se os números de 2010 com os de 1991, as mudanças per capita foram também distintas entre os dois grupos. Nos países emergentes, mesmo com crescimento demográfico bem superior ao dos avançados, os investimentos per capita aumentaram comparativamente bem mais. Nos avançados, cresceram 5,26% ao ano em termos nominais. Já nos emergentes, a expansão foi de 10,06%. Essa diferença refletiu-se na evolução do PIB per capita: em

1991, a média dos 25 emergentes era de US$ 911 anuais, 24 vezes inferior aos US$ 21.467 da média dos 25 avançados. Em 2010, a média do PIB per capita dos emergentes foi de US$ 4.266 anuais, reduzindo de 24 para 10 vezes a distância em relação aos US$ 41.191 anuais dos países avançados (Tabela 6 e Figura 3).

figura 3

População, PIB e investimento – 25 países avançados e 25 emergentes Indicadores

Variações anuais (%) 2010/1991

Avançados

0,67%

população

Emergentes

investimento per capita

PIB per capita

1,20%

Avançados

2,39%

Emergentes

10,06%

Avançados

3,49%

Emergentes

8,46% 0

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

Aumentar investimentos

11

12

09


Os números e as posições do Brasil Em todos esses levantamentos comparativos, os números do Brasil são superiores às médias ponderadas dos países avançados, mas inferiores às dos emergentes, tanto na expansão dos investimentos, quanto conseqüentemente na do PIB. No último qüinqüênio, comparado com o de 1991-1995, o valor acumulado do PIB multiplicou-se por 1,88 nos países avançados; nos emergentes, por 3,85; o Brasil ficou no meio do caminho, com 2,88. Estes diferentes indicadores de crescimento econômico são basicamente decorrentes dos investimentos produtivos realizados, que se multiplicaram por 1,70 nos países avançados, por 4,47 nos emergentes e por 3,12 no Brasil (tabelas 1 e 2). Estes números refletem o comportamento dos investimentos em relação ao PIB. Como já apontamos em tópico anterior, eles têm sido bem mais expressivos no bloco emergente, comparativamente aos países do bloco avançado. Mas não é o que tem historicamente ocorrido no Brasil. Aqui, este relevante indicador ficou, na média ponderada dos últimos vinte anos, bem abaixo do padrão dos emergentes. O que, porém, foge à regra é a comparação com países avançados: também em relação a estes, em todos os qüinqüênios dos últimos vin-

10

te anos, os números do Brasil foram inferiores (figura 4). A comparação que revela mais cruamente a posição do Brasil entre os 50 países listados é exatamente a importante relação investimentos/PIB. Não há nenhum país emergente, que, nas médias qüinqüenais ponderadas dos últimos vinte anos, ficou abaixo do Brasil. E, mesmo entre os avançados – que, por razões associáveis à sua maturidade econômica, têm menor propensão a investir – apenas um ficou abaixo do Brasil. Em síntese, entre as 50 maiores economias do mundo, o Brasil é a 49ª, em um dos indicadores estratégicos mais importantes que definem a marcha para a emergência econômica, a prosperidade e a ascensão à posição de potência mundial (tabela 5).

Aumentar investimentos


Tabela 2

PIB de 25 países emergentes, 1991-2010 países

Múltiplos nominais de expansão

Valores acumulados, por qüinqüênios, em US$ trilhões correntes 1991-95

1996-2000

2001-05

2006-10

2006-10/91-95

China

2.798 5.110 8.608 21.596 7,72

Brasil

2.717 3.768 3.164 7.818 2,88

Rússia

860 1.523 2.437 6.637 7,72

Índia

1.558 2.167 3.101 3.125 3,93

México

2.084 2.581 3.724 5.004 2,40

Turquia

1.060 1.284 1.606 3.265 3,08

Indonésia

887

915 1.134 2.553 2,88

Polônia

502

825 1.162 2.196 4,37

Arábia Saudita 677 Irã

819

1.153 2.039

3,01

456 516 715 1.517 3,33

Argentina 1.170 1.433 837 1.485 1,27 África do Sul 668 693 865 1.464 2,19 Emirados Árabes 277

407

666

1.367

4,94

Venezuela

309 463 556 1.336 4,32

Tailândia

640 690 723 1.309 2,05

Colômbia

411 537 556 1.123 2,73

Malásia

344 451 567 997 2,90

Nigéria

125 196 371 904 7,23

Chile

255 386 424 846 3,32

Romênia

140 186 321 823 5,88

Egito

247 417 433 807 3,27

Filipinas

292 387 413 778 2,66

Paquistão

315 375 436 771 2,45

Argélia

231 247 368 722 3,13

Peru

204 277 321 606 2,97

TOTAIS

19.227 26.653 34.662 74.089 3,85

Aumentar investimentos

11


FIGURA 3

Comportamento dos investimentos em relação ao PIB (%) 25 países avançados 30 22,1

21,9

1991-95

96-2000

20,6

20,1

2001-05

2006-10

20

10

0

25 países emergentes 30

26,5

30,7

28,3 25,4

20

10

0

1991-95

96-2000

2001-05

2006-10

Brasil 30

20

17,0

17,2

16,6

1991-95

96-2000

2001-05

18,4

10

0

12

Aumentar investimentos

2006-10

Esta realidade não é atribuível a um fator isolado, qualquer que seja a posição do país no ranking dos investimentos produtivos em relação ao PIB – tanto os do topo, como a China, quanto os da base, como Brasil. Buscando as causas que, presumivelmente, impactam este indicador, consideramos cinco fatores relevantes: 1. Posicionamento e movimentos institucionais. 2. Condições sócio-econômicas. 3. Condições estruturais da economia. 4. Potenciais e ações para inserção global. 5. Condições conjunturais. Cada um desses cinco fatores pode ser aberto em um conjunto de variáveis. As raízes históricas, a evolução e a configuração atual das variáveis agrupadas em cada um deles podem atuar em direções antagônicas, estimulando ou inibindo os investimentos produtivos. Para a análise do caso brasileiro listamos um amplo elenco de variáveis, agrupadas segundo esses fatores e abertas em dois conjuntos: as favoráveis e as desfavoráveis aos investimentos produtivos (quadro 1).


Tabela 3

Investimentos de 25 países avançados, 1991-2010 países

Valores acumulados, por qüinqüênios, em US$ trilhões correntes 1991-95

1996-2000

2001-05

2006-10

Múltiplos nominais de expansão 2006-10/91-95

Estados Unidos 5.979 8.905 10.965 15.521 2,59 Japão

6.420 5.834 5.018 5.345 0,83

Alemanha

2.408 2.321 2.087 2.933 1,82

França

1.314 1.356 1.726 2.692 2,05

Itália

1.151 1.181 1.529 2.172 1,89

Reino Unido 894 1.240 1.609 2.013 2,25 Espanha

626

Canadá

534 651 908 1.601 3,99

Austrália

404 514 723 1.423 3,52

711 1.216 1.979 3,16

Coréia do Sul 742 791 975 1.386 1,87 Holanda

374 448 514 769 2,06

Bélgica

240 269 314 499 2,08

Suíça

318 310 342 485 1,53

Noruega

133 182 225 429 3,22

Taiwan

308 374 342 426 1,38

Áustria

245 261 283 419 1,71

Suécia

209 223 266 415 1,99

Dinamarca 138 176 213 313 2,27 Grécia

108 139 211 291 2,69

Finlândia

104 124 164 251 2,41

Portugal

127 164 195 247 1,94

Irlanda

46 99 189 246 4,35

Hong Kong 177 245 187 227 1,28 Singapura 108 153 110 227 2,10 Israel

87 126 113 164 1,88

TOTAIS

23.192 26.796 30.425 39.470 1,70

Aumentar investimentos

13


Tabela 4

Investimentos de 25 países emergentes, 1991-2010 países

Valores acumulados, por qüinqüênios, em US$ trilhões correntes 1991-95

1996-2000

2001-05

2006-10

Múltiplos nominais de expansão 2006-10/91-95

China

1.144 1.903 3.493 9.890 8,64

Índia

367 528 879 2.240 6,11

Brasil

463 649 526 1.445 3,12

Rússia

240 308 490 1.435 5,98

México

553 693 884 1.298 2,35

Indonésia

347 284 272 739 2,13

Turquia

246 273 296 655 2,66

Irã

168 173 248 505 3,01

Polônia

87 198 226 487 5,58

Arábia Saudita 144

161

220

471

3,28

Argentina 212 278 138 351 1,66 Tailândia

262 203 192 342 1,30

Venezuela

58 118 124 337 5,82

África do Sul 97 111 148 307 3,15 Emirados Árabes 69

98

136

293

4,24

Argélia

65 64 114 287 4,43

Colômbia

97 106 103 253 2,61

Romênia

38 37 73 233 6,15

Nigéria

28 41 92 220 7,94

Chile

64 97 91 204 3,16

Malásia

137 149 129 194 1,41

Egito

49 82 77 161 3,28

Paquistão

61 65 76 153 2,55

Peru

29 62 59 142 4,90

Filipinas

66 85 69 118 1,78

TOTAIS

14

5.092 6.766 9.156 22.765 4,47

Aumentar investimentos


Aumentar investimentos

15


As condições favoráveis Entre as condições institucionais que favorecem os investimentos produtivos no Brasil, duas saltam à vista: a importância geopolítica do país e as dimensões da sua economia. Associa-se a estas condições o sistema político aberto, de configuração democrática, estabelecido desde o final do primeiro quadriênio dos anos 80 e que se presume consolidado. Atuam também positivamente a gestão macroeconômica – pela sua previsibilidade e pela baixa probabilidade de choques heterodoxos – e a Lei de Responsabilidade Fiscal –pelo seu objetivo de frear os gastos públicos de custeio e para ampliação dos dispêndios em formação de capital. Destaca-se ainda, na mesma direção, o propósito governamental de aceleração do crescimento econômico, por induzir a compromissos do poder público com políticas que promovam a capacidade de investimento de todos os agentes econômicos, inclusive a do próprio governo. A essas condições institucionais favoráveis somam-se as sócio-econômicas. Entre as de maior relevância destaca-se a emergência de nova classe empresarial, menos atrelada à busca por políticas protecionistas e mais atenta à definição de estratégias competitivas. São visíveis, nas regiões mais dinâmicas do país,

16

o surgimento e a rápida consolidação de novas empresas, com propósitos de expansão estrategicamente orientados e com olhos voltados para alcançar e manter receitas operacionais bilionárias. São empresas abertas a processos de consolidação e a mudanças societárias, como as decorrentes do ingresso de fundos de private equity em sua estrutura de controle, geralmente com vistas à futura abertura de capital. Essa nova dinâmica empresarial é estimulada pela mobilidade sócio-econômica ascendente, que tem se observado nos últimos quinze anos, pela conjunção de dois processos históricos e de alto impacto: o fim de longo processo inflacionário, e a adoção de massivas políticas públicas includentes, focadas na redução da pobreza absoluta. A simultaneidade desses dois movimentos sócio-econômicos está levando à consolidação de um amplo mercado interno de massa, que se soma a outras condições estruturais da economia, estimulando os investimentos produtivos. Entre estas condições, destacam-se a diversidade e a abundância do capital natural do país, a conjugação de auto-suficiência em petróleo com alto potencial de geração de energia por fontes renováveis (biomassa, eólica e solar), a ocorrência de cadeias produ-

Aumentar investimentos

tivas com inequívocas vantagens competitivas globais e o amplo leque de oportunidades para negócios de grande porte. Em obras de infra-estrutura e em indústrias de base estão em desenvolvimento 1.200 projetos, dispersos em todas as regiões do país – um número que, seguramente, não se encontra com facilidade em outros países. Este bom conjunto de estímulos aos investimentos é complementado pelos potenciais e pelas ações para inserção global do país. Pelos seus ativos institucionais e estruturais, o Brasil se destaca por alta atratividade entre os emergentes, tanto junto a fundos de private equity em procura por negócios no país, quanto a fundos estrangeiros que aportam recursos em IPOs, quanto ainda a grupos corporativos de atuação global que instalam ou ampliam suas operações no país por investimentos diretos. A atração exercida pelo país é confirmada por duas evidências, relacionadas aos movimentos de capital e à dinâmica do mundo corporativo: 1. três quartos dos recursos captados por mais de 100 empresas nacionais que abriram o capital no último qüinqüênio são de fundos internacionais; e 2. das 7.350 fusões e aquisições que ocorreram no país nos últimos vinte anos (1991-2010), o capital es-


trangeiro participou de 3.810, 51,8% do total das transações. Estas condições estruturais são complementadas por boa situação conjuntural e por um dos traços marcantes do comportamento econômico nacional: a rapidez em encontrar caminhos para superar adversidades momentâneas. A mais recente confirmação desse atributo cultural foi a recuperação dos efeitos-contágio da crise econômica mundial de 2008-09. O indicador síntese da situação conjuntural favorável é o baixo índice de capacidade ociosa, em prati-

camente todos os setores produtivos e a variação positiva do PIB, embora moderada em relação aos potenciais do país. Outro indicador sintomático é a sustentação de mercado de crédito aberto, com operações bancárias de curto e médio prazo em escalas crescentes, interrompidas apenas por poucas semanas durante a crise financeira do final de 2008. Outra evidência do ânimo conjuntural é o índice de confiança dos consumidores: quedas pronunciadas nesse índice não se observam costumeiramente. Quando ele regride, cai menos que outros

indicadores e, ainda assim, apenas diante de cenários de riscos visíveis e altos. Por fim, acrescem-se a estas condições favoráveis a reputação internacional do país, a demanda mundial crescente por produtos básicos da pauta de exportação e a ampla dispersão das correntes de comércio exterior. Em síntese, é bom o posicionamento do Brasil entre os grandes emergentes, quanto ao conjunto de todos os pontos positivos descritos.

Tabela 6

População, PIB e investimentos total e per capita: 25 países avançados e 25 emergentes INDICADORES

2010

2010

Variações (%) 2010-1991 ACUMULADA

População

(Milhões de habitantes)

PIB

(Bilhões de US$ correntes)

Investimentos

(Bilhões de US$ correntes)

PIB

Per capita (US$ correntes)

Investimento

Per capita (US$ correntes)

Avançados

875 994 13,60

ANUAL

0,67

Emergentes

3.381 4.306 27,36

1,28

Avançados

18.784 40.944 117,97

4,19

Emergentes

3.079 18.638 496,56

9,86

Avançados

4.262 7.590 78,09

3,08

Emergentes Avançados Emergentes Avançados Emergentes

757 5.960 687,32 21.467 41.191

91,88

911 4.266 368,28 4.871 7.636 56,76 224 1.384 517,86

11,47 3,49 8,46 5,26 10,06

Aumentar investimentos

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As condições desfavoráveis Diante destes pontos, parece estranho que o Brasil apresente, em série histórica de vinte anos, a mais baixa taxa de investimentos produtivos em relação ao PIB entre os 25 maiores emergentes e que apenas um dos 25 maiores avançados esteja em posição pior. Mas esta posição, que não é circunstancial, é explicável por um amplo conjunto de razões inter-relacionadas, preponderantemente institucionais e estruturais. Assim como as favoráveis, estão também listadas segundo os cinco fatores que selecionamos. Entre as vinte e seis causas prováveis relacionadas aos baixos investimentos produtivos em relação ao PIB no Brasil, oito são de ordem institucional. A primeira é a inapetência para cinco reformas há décadas apontadas como indispensáveis para a modernização, a competitividade mundial e sustentação de altas taxas de crescimento, pois todas poderiam promover substancial elevação da taxa de investimentos: 1. a trabalhista-previdenciária, com foco em flexibilização; 2. a tributária, com focos em carga e a tolerância zero com sonegação; 3. a administrativa, com focos na redução substancial do aparato burocrático e na promoção de boas práticas de governança em todas as esferas federativas; 4. a judiciária, com foco na remoção dos institutos que

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favorecem a lentidão processual e a impunidade; e 5. a política, com foco em representatividade menos onerosa e mais eficaz. Às dificuldades para a promoção dessas reformas, somam-se outras causas institucionais que sufocam os investimentos: o provimento deficiente de serviços públicos, a superposição e a indefinição de competências entre as esferas federativas, as condições de acesso à justiça, a insegurança judiciária, a lentidão para abertura de empresas decorrente de exigências burocráticas e as resistências e dificuldades para que as parcerias público-privadas deslanchem. Todas elas têm algo a ver com a instabilidade do ambiente regulatório, com a inflexibilidade e com a morosidade da política ambiental, provavelmente as duas causas de maior peso na lentidão para o efetivo destravamento de grandes projetos nos setores de base e de infra-estrutura. No âmbito sócio-econômico, contrapõem-se aos fatores positivos que convergem para a consolidação do mercado interno de massa um conjunto de condições que não contribuem para o ânimo dos que empreendem e investem. Entre as deficiências listadas, a mais importante é a qualidade do sistema educacional e a conseqüente oferta insuficiente de pessoal qualificado para atividades produtivas competitivas.

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Às condições sócio-econômicas adversas acrescentam-se outras, também de configuração estrutural. As que listamos são amplamente conhecidas e analisadas, em suas causas e conseqüências: gargalos em infra-estrutura, ônus sistêmicos, baixa oferta de crédito de longo prazo, carga tributária – que supera a média ponderada dos 50 maiores países avançados e emergentes – e, destacadamente, o alto peso dos dispêndios de custeio nos orçamentos do setor público, que comprimem a capacidade de investimento em todas as esferas do governo. Quanto a este último ponto, é inevitável a comparação entre os esforços de investimento do setor privado e os do setor público. Este, operando um sistema tributário complexo, excessivo, indireto e em cascata, reduz em 40% a renda nacional disponível do setor privado, mas investe apenas 1,6% do

PIB. Já o setor privado, com 60% de renda disponível, investe 16,8%. Esta discrepante propensão ao investimento nos setores público e privado é uma das condições que têm maior peso na baixa posição do Brasil na relação investimento/PIB e, conseqüentemente, em outros indicadores como os de competitividade, não consistentes com a posição de 8ª economia do mundo. Quanto aos potenciais para maior inserção global do país, as contrapartidas negativas são o déficit crônico na balança de serviços, a dependência de movimentos de capital para equilibrar o balanço de pagamentos e acumular reservas cambiais e a baixa competitividade com países emergentes de baixos custos estruturais, tanto no mercado interno quanto nas correntes globais de comércio de que o Brasil participa, especialmen-

te as de bens de consumo e de capital com altos coeficientes de tecnologia embarcada. Por fim, do ponto de vista da conjuntura econômica, jogam contra os fluxos de investimentos no país a apreciação cambial, as tensões inflacionárias de demanda e de custos que exigem medidas contencionistas, os riscos de “bolhas de crédito” – decorrentes do amplo acesso a financiamentos do consumo pelas classes sócio-econômicas emergentes – e, em conseqüência, a volatilidade do crescimento, produzindo trajetórias econômicas que se aproximam das historicamente caracterizadas por stop and go.

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Um balanço desfavorável Não seria fácil fazer um balanço geral das condições favoráveis e desfavoráveis e concluir sobre seus efeitos diretos e indiretos na baixa relação entre os investimentos produtivos e o PIB no Brasil. Mas os números dos últimos vinte anos praticamente dispensam esse trabalho. O balanço não é positivo: inquestionavelmente, o país está muito mal colocado nesta relação. Pela importância estratégica desta relação, especialmente diante de objetivos de aceleração do crescimento econômico interno e de fortalecimento do país em termos globais, já não se podem mais desconsiderar as condições, de raízes históricas profundas, que inibem os investimentos produtivos no Brasil. Não há dúvida de que as de maior peso são institucionais e estruturais, configuração que as caracterizam como de maior complexidade. Por isso mesmo exigem um bem fundamentado planejamento estratégico e firmeza na execução de diretrizes para sua atenuação ou remoção. Não se pode dizer que as condições adversas apontadas estejam sendo desconsideradas. Há sinais de preocupação do governo com o estímulo aos investimentos, confirmados por ações já anunciadas que visam remover condições adversas que desfavorecem as dimensões e o ritmo da formação de

capital produtivo no país. Uma delas é a desoneração tributária dos investimentos. Outra é a disposição em conciliar a política ambiental com as exigências inadiáveis de remoção de gargalos infra-estruturais. Mas há um grande elenco de outras condições, que pela sua relevância, não podem mais esperar por esforços de mudanças de alto impacto, fundamentadas em razões de alto interesse nacional. Destacamos três inter-relacionadas: as cinco grandes reformas institucionais, a abertura de espaços para dispêndios de capital nos orçamentos públicos e a viabilização de parcerias público-privadas. A despeito da reconhecida complexidade destas três condições cruciais, é possível construir, a partir delas, um novo ciclo virtuoso na história econômica do país, que compatibilize soluções institucionais e estruturais que puxem fortemente para cima a relação investimentos/PIB no Brasil. Caso contrário, esta relação estratégica continuará refém de ciclo vicioso, de aparência crônica, que se estabeleceu no país e que trava o seu crescimento – uma conseqüência perversa, não compatível com as aspirações de o conduzir, consistentemente, à posição de potência mundial.

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Tabela 5

Investimentos em relação ao PIB, em 25 países avançados e 25 emergentes, 1991-2010 Países avançados

Médias qüinqüenais ponderadas, em % 1991-95

1996-2000

2001-05

2006-10

1991/2010

Coréia do Sul 37,4 31,6 29,6 29,0 31,1 Singapura 34,0 33,2 21,7 24,5 27,1 Austrália 23,7 25,1 25,9 28,3 26,6 Espanha

22,3 23,7 27,6 27,7 26,2

Japão

29,8 26,8 23,5 22,3 25,4

Hong Kong 29,4 29,3 22,5 21,7 25,3 Portugal

25,2 27,2 25,0 21,5 24,1

Áustria

24,6 24,7 22,8 22,4 23,4

Taiwan

26,4 25,1 21,1 21,5 23,2

Suíça

24,1 22,8 21,5 20,8 22,0

Irlanda

16,8 22,4 24,0 20,5 21,8

Noruega

20,7 22,9 19,4 21,8 21,3

Bélgica

20,2 21,3 20,4 21,6 21,0

Canadá

18,4 20,0 20,3 22,5 20,9

Itália

20,2 19,8 20,8 20,8 20,5

Holanda

21,5 22,3 19,7 19,6 20,4

Finlândia 18,6 19,6 20,2 20,8 20,1 Grécia

19,7 20,8 22,4 18,7 20,1

Dinamarca 18,0 20,5 20,3 20,3 19,9 Israel

23,2 22,6 18,3 17,9 19,8

França

19,2 18,7 19,6 20,7 19,7

Alemanha 22,8 21,4 17,6 17,7 19,6 Estados Unidos 17,8 20,1 19,3 17,8 18,7 Suécia

17,4 17,3 17,5 18,7 17,9

Reino Unido 16,7 17,6 17,1 16,1 16,8 Média Ponderada

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22,1

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21,9

20,6

20,1

20,9


Tabela 5 - continuação Países emergentes

Médias qüinqüenais ponderadas, em % 1991-95

1996-2000

2001-05

2006-10

1991/2010

China

40,4 37,4 40,1 45,2 43,1

Irã

35,4 33,4 34,7 33,2 34,1

Argélia

28,1 26,0 30,5 39,4 33,8

Índia

23,4 24,4 27,6 36,4 31,0

Indonésia 39,2 29,1 23,7 28,3 29,9 Tailândia 41,0 27,9 26,2 26,2 29,8 Romênia

27,5 19,9 22,6 28,1 26,0

Malásia

39,4 32,1 23,0 19,4 25,8

México

26,0 27,1 23,7 25,9 25,6

Chile

25,0 25,0 21,5 23,9 23,9

Nigéria

23,6 21,4 25,2 24,3 23,9

Venezuela 18,7 25,1 21,7 25,5 23,9 Emirados Árabes 24,9 24,3 20,7 21,4 22,0 Rússia

31,5 19,4 20,3 21,5 21,6

Colômbia 22,7 19,4 18,3 22,6 21,3 Polônia

17,2 23,9 19,5 22,1 21,3

Arábia Saudita 21,2 19,7 19,2 23,0 21,2 Peru

20,2 22,4 18,3 23,1 20,7

Turquia

23,1 21,3 17,9 20,0 20,4

Argentina 17,9 19,4 16,0 23,6 19,9 Egito

19,9 19,6 17,7 20,0 19,4

Paquistão 19,5 17,4 17,2 20,4 18,9 Filipinas

22,5 21,8 17,0 15,1 18,1

África do Sul 14,5 16,0 16,7 21,0 18,0 Brasil

16,8 17,0 16,7 18,3 17,7

Média Ponderada

26,5 25,4 26,4 30,7 28,3

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quadro 1

Os investimentos no Brasil: registro das condições favoráveis e desfavoráveis (i) Fatores considerados

Favoráveis

DESFavoráveis

Posicionamento e movimentos institucionais

• Importância geopolítica e geoconômica do país. • Sistema político aberto, democrático. • Gestão macroeconômica: baixa probabilidade de choques heterodoxos. • Lei de Responsabilidade Fiscal: foco em frear dispêndios de custeio. • Propósito governamental de aceleração do crescimento.

• Dificuldades para promoção de reformas institucionais: trabalhista-previdenciária, tributária, administrativa, judiciária e política. • Provimento deficiente de serviços públicos, particularmente educação e segurança. • Superposição e indefinição de competências entre as esferas federativas. • Acesso à justiça e insegurança judiciária: complexidade e lentidão processual. • Burocracia e lentidão para abertura de novas empresas. • Resistências e dificuldades para PPPs – Parcerias Público Privadas. • Ambiente regulatório instável. • Inflexibilidade e morosidade da política ambiental.

Condições sócioeconômicas

• Nova classe empresarial emergente: - Menos atrelada a políticas protecionistas e mais atenta ao desenvolvimento de diferenciais competitivos. - Aberta a processos de consolidação – fusões e aquisições. - Atenta às oportunidades de mudanças societárias: ingresso de fundos de private equity e abertura de capital. - Propósitos expansionistas: olhos voltados para alcançar e manter receitas operacionais bilionárias. • Redução dos índices de concentração da renda e da riqueza: - Superação, há quinze anos, de longo período de alta e crônica inflação. - Políticas públicas includentes. - Acesso a base da pirâmide sócio econômica aos mercados básicos. - Expressão econômica crescente da classe C. • Consolidação e expansão de mercado interno de massa.

• Níveis ainda altos de pobreza absoluta: 15,5% da população com renda mensal abaixo de US$ 1/dia. • Qualidade do sistema educacional: baixas posições em rankings mundiais. • Recursos humanos: oferta insuficiente de pessoal qualificado, em todos os níveis funcionais. • Segurança pessoal e patrimonial: garantias insatisfatórias. • Programas assistencialistas e previdenciários: afetam disposição para o trabalho produtivo.

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quadro 1 - continuação Fatores considerados

Favoráveis

DESFavoráveis

Condições estruturais da economia

• Diversidade e abundância de capital natural. • Dimensões da economia: 8ª do mundo, 2ª das Américas. • Auto-suficiência em petróleo e alto potencial de fontes renováveis de energia. • Cadeias produtivas com inequívocas vantagens competitivas globais. • Amplo leque de oportunidades para negócios de grande porte – 1.200 projetos em desenvolvimento: - Infra-estrutura (energia, telecomunicações, transportes em todos os modais e saneamento básico). - Indústria de base: mineração, óleo e gás, petroquímica, siderurgia e celulose. • Mercado financeiro sólido, sofisticado, bem regulamentado e com avançada tecnologia operacional.

• Gargalos em infra-estrutura, especialmente em todos os modais de transporte. • Ônus sistêmicos: custo Brasil: - Transportes, energia, encargos sociais e spread bancário. • Oferta de crédito de longo prazo: - Baixa, em relação ao PIB. - Custos comparativos em termos mundiais. • Carga tributária: - Excessiva, em comparação com países emergentes. - Preponderância de impostos indiretos. - Impostos em cascata. - Oneração dos investimentos. • Dispêndios públicos: alto peso do orçamento de custeio, comprimindo capacidade de investimento. • Dispêndios e pessoal dedicado a P&D. • Posicionamento nos fatores de competitividade mundial.

Potenciais e ações para inserção global

• Bom posicionamento entre os grandes emergentes. • Reputação internacional: - Visibilidade em alta. - Sede de jogos de repercussão mundial. - Presença marcante no G-20. - Apoio a propósitos de maior representatividade. • Demanda mundial crescente de produtos básicos, originários da diversidade e abundância do capital natural do país. • Dispersão das correntes do comércio exterior: por países, empresas e produtos. • Alta atratividade para investimentos estrangeiros: - Fundos de private equity e em busca por negócios no país. - IPOs de empresas nacionais bem aceitos mundialmente. - Altos e firmes fluxos de investimentos estrangeiros diretos.

• Déficit crônico da conta de serviços, superior ao superávit comercial: déficit em transações correntes. • Dependência de ingressos de capital para equilibrar o balanço de pagamentos. • Concorrência de países emergentes com baixos custos estruturais, tanto no mercado interno quanto nas correntes globais de comércio.

Condições conjunturais

• Recuperação dos efeitos-contágio da crise econômica mundial de 2008-09. • PIB em expansão, embora moderada em relação aos potenciais do país. • Baixo índice de capacidade ociosa, em praticamente todos os setores. • Mercado de crédito aberto: operações bancárias de curto-médio prazos em escalas crescentes. • Consumidores ávidos e confiantes.

• Apreciação cambial: na contra-mão da maior parte dos emergentes. • Tensões inflacionárias: - De demanda, puxada por crédito (oneroso) ao consumidor. - De custos, movida a tributos e a reajustes reais da massa salarial. • Volatilidade do crescimento: trajetória típica stop and go.

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Robson Braga de Andrade

é presidente da Confederação Nacional da Indústria.

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Investimentos CNI