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Anda pensando em fugir, baby, desse lugar? Você não é o único. Alguns decidiram fazer do sonho realidade, trabalho ou eficaz receita para manter a sanidade. Veja só os Kerouacs de hoje... Por Phydia de Athayde

Foto: acervo pessoal/Pepe Escobar

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Movimento Pepe Escobar (abaixo) se orgulha de conhecer toda a Ásia e o Oriente Médio. Abaixo, nas geleiras da Patagônia; o khmer na estrada; a placa na Karakoram Highway; e, ao lado, paisagem na China

“Na estrada não sinto falta de nada. Há um lado de êxtase erótico, mas acima de tudo é um mix de iluminação estética e paz existencial”

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“Quero ser Jack Kerouac”, parecem repetir sem perceber os viajantes que, nesses tempos estranhos em que nossas “atualizações de perfil” acontecem virtualmente, ainda se arriscam a cair na estrada. Sentir o sol na pele, o vento no rosto, o estrondoso silêncio da solidão sobre o asfalto, a saudade de casa ou de nada, o prazer de estar vivo. Viaje com eles.

PEPE Ao conversar com o jornalista Pepe Escobar, parece que a gente ouve, lá no fundo, ele afirmar: “Eu sou Jack Kerouac”. Pepe tem 57 anos e caiu na estrada aos 15. “É mais fácil dizer para onde não fui”, arrisca ele, que atualmente vive entre Bangcoc, Nova York e São Paulo e é correspondente do jornal Asia Times, comentarista da TV russa RT e analista da Al-Jazeera English. Se agora o faz por profissão, viajar começou como paixão mesmo. “Para onde quer que eu vá, sinto uma atração política, histórica, gastronômica, cultural e sempre sociológica e antropológica.” Com tantos quilômetros rodados – conhece a Ásia e o Oriente Médio “inteiros” –, Pepe sempre volta aos lugares de coração, como Phnom Penh e Angkor no Camboja, Bali na Indonésia, Peshawar no Paquistão, Isfahan no Irã e Kabul no Afeganistão. Sentiu o cheiro das especiarias? Entre suas rotas favoritas está a Karakoram Highway, que vai de Kashgar (oeste da China) até Islamabad, o percurso de Nova Delhi até Leh (na Índia), a Rota 40 (na Patagônia) e as (muitas) vezes que percorreu o sudoeste dos Estados Unidos. “Na estrada, não sinto falta de nada. Há um lado de êxtase erótico, mas acima de tudo é um mix de iluminação estética e paz existencial. É como se Buda tivesse feito uma piada para Sartre, e Sartre tivesse caído na gargalhada”, filosofa. Apesar

de traçados tão distintos, Pepe cumpre o mesmo ritual sempre que uma jornada chega ao fim: “Comemoro com um banquete platônico! Isso é fácil na Toscana, na Patagônia ou na China, mas, depois de semanas barras-pesadas no Iraque, o melhor que consegui foi encontrar um Burger King na Jordânia”. Hoje ele viaja menos do que gostaria, mas admite que largaria tudo para cruzar o Saara com os Touaregs ou refazer trechos da rota da seda. “Longas viagens te transportam para outra dimensão.” E o que há lá, Pepe? Mais estrada. “O verdadeiro viajante, uma vez no caminho, só a morte o detém. A vida é movimento. Nunca tive dúvida: the road goes on forever.”

Fotos: acervo pessoal

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á se vai meio século desde que o escritor americano Jack Kerouac materializou, na torrente alucinante de On the Road, o sonho de largar tudo e simplesmente pegar a estrada, sair do conforto e encarar o desconhecido. Não que o homem, essa criatura inquieta e incompleta por natureza, não tivesse desde sempre o pendor a dar uma fugidinha em busca de algum sentido para a vida. Mas o livro de Kerouac embalou esse roteiro com a paisagem lisérgica do meio oeste americano, tão bem descrito no clássico que o mise-enscène está gravado na memória de milhões. Para a sorte dos viajantes, reais ou apenas sonhadores, em 2012 On the Road chega ao cinema, com a assinatura do premiado Walter Salles. Além de ser apaixonado pelo livro, o diretor brasileiro tem um caso de amor com os road-movies. “É o tipo de cinema que mais me atrai, talvez porque é também uma maneira de saber mais sobre o mundo”, costuma dizer em entrevistas. “O filme de estrada permite entender o que é diferente de você.” Para contar a saga de Kerouac, Salles usou locações fora dos Estados Unidos (como em Bariloche, na Argentina) capazes de remeter a um país que não existe mais. Ele já tinha pegado a estrada ao se preparar para filmar a viagem de Ernesto Guevara, em Diários de Motocicleta, e voltou a ela antes de rodar seu filme, o que rendeu um documentário, Searching for On the Road, e novas reflexões. “O livro de Kerouac anuncia uma revolução comportamental que acabou possibilitando muitas das transformações libertárias que afetam como vivemos hoje: a liberação sexual, a expansão da mente através das drogas, a redefinição da família, o surgimento da ecologia… E, mais do que tudo, a necessidade de experimentação”, fala o cineasta brasileiro.

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Movimento

“Ter tanta liberdade é algo muito exigente, eu tinha que fazer escolhas a todo momento”

A ema correndo na chapada dos Guimarães; Lino no monte Roraima nadando com os botos; ou na selva: ele voltou se sentindo mais brasileiro e mais paulistano

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Fotos: acervo pessoal

O chamado para a estrada veio para Antonio Lino como uma possível fonte de inspiração para a literatura. Formado em publicidade, ele tinha 26 anos e uma vida “bem confortável” em São Paulo quando ouviu o apelo. “Era muito cedo para eu me acomodar. Suspeitava que tinha outras vidas para viver”, conta, agora com 31 anos e 17 mil quilômetros rodados. Essa jornada está no livro Encaramujado – Uma Viagem de Kombi pelo Brasil (e pelos Cafundós de Mim). Lino comprou uma Kombi e a adaptou de forma simples e prática. O veículo ganhou um sofá-cama no compartimento de bagagem e itens para uma cozinha na traseira. Pronto! Tinha o meio de locomoção, que seria sua casa, tinha o tempo que quisesse, tinha algum dinheiro e o mapa do Brasil pela frente. E aí, é o paraíso? Nem tanto.

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“Ter tanta liberdade é algo muito exigente, eu tinha de fazer escolhas a todo momento”, diz. “No entanto, manter essa conversa interna me fazia ter consciência do que é realmente importante.” Ele acredita que a capacidade de manter a tal conversa é uma das grandes heranças da estrada. Além de girar o país rumo a oeste, leste, norte e depois sul, Lino passou por Bolívia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Visitou quase todos os estados brasileiros, mas listá-los é menos interessante do que aos nomes de cidades e vilas, como Ibiraçu, Piripiri, Alto Carapaó, São Mateus, Cavalcante, Poconé, Pacaraima. Ou das gentes, como seu Doca, Adeline, Romain, dona Maria, Zé, Denis, seu Raimundo, Tatá, Samuel e tantos outros, singelos, marcantes, que aparecem página a página, como retratos a sorrir na janela da Kombi. Do que sentiu saudades? “Dos amigos, de ver TV no domingo. Só quando perdemos algo é que percebemos o valor daquilo.” E isso serve para o retorno. “Nunca encarei o fim com tristeza. Voltar é parte importante, pois a viagem continua acontecendo internamente. Hoje me sinto mais brasileiro, mais paulistano também.” E decerto mais atento, apto a escutar a própria voz. A que descobriu no silêncio da estrada.

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Movimento

“Não dou notícia e não quero notícia. Minha filha fica louca. Eu desapareço, acho magnífica essa possibilidade” Enquanto Pepe tem alma de Touareg e Lino a motivação típica dos mais jovens, José Albano mais parece um velho hippie – no sentido mais puro que o rótulo possa ter. Aos 67 anos, ele exercita a paz e o amor pela estrada com uma motocicleta adquirida em 1984 para nunca mais deixar de fazer companhia ao fotojornalista. Já são 27 anos de fidelidade à motoca e incontáveis viagens pelo país, quase sempre sozinho. “Faço pelo menos duas grandes viagens por ano, que duram uns 40 dias”, diz, metódico. “Viajar é a oportunidade de me desligar dos compromissos e dos fatos da cidade. Quando me isolo tenho a chance de arejar a cabeça e me reencontrar comigo mesmo. Na estrada, é como se minha vida passasse como um filme diante de mim. E eu apenas observo, revejo situações, tomo decisões”, relata o motociclista, que vive nos arredores de Fortaleza. Para viajar, economiza ao máximo, seja nos equipamentos (adapta mochilas para servirem de coldre), seja na estada (sempre que possível, acampa embaixo de alguma árvore perto da estrada), seja na comunicação: “Não tenho celular. Não dou notícia e não quero notícia. Minha filha fica louca”, ri, e arremata: “Eu desapareço. Acho magnífica essa possibilidade”.

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Enquanto alguns viajam para conhecer gente e experimentar outras vidas, Albano faz o tipo solitário. “Não me hospedo em pousadas e não procuro o turismo. Minha viagem é comigo mesmo”, delimita. Se não quer ser visto nem notado na estrada, Albano é generoso ao compartilhar a própria história, como fez no livro Manual do Viajante Solitário – Rodando de 125cc nas Estradas do Brasil (Terra da Luz Editorial), que traz dicas práticas para motociclistas, mas, especialmente, reflexões simples e puras, quase hippies, do que é viajar para Albano. “Quando estou na estrada, sinto que me irmano com gerações e gerações de viajantes que já sentiram o mesmo vento no rosto que estou sentindo”, conclui o easy rider que nunca saiu do Brasil, e nem pretende. Para a viagem que faz, cujo destino é o vasto e infinito universo interior, o asfalto nacional está de excelente tamanho.  

Fotos: acervo pessoal

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José Albano e suas escapadas solitárias na moto 125cc: ele acampa em qualquer canto, não faz questão de conhecer ninguém – sua viagem é com ele mesmo

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Movimento

Fotos: acervo pessoal

Emílio (à esquerda) já se confinou no Big Brother Brasil, mas gosta mesmo de pegar estrada. Desta vez, irá na companhia do novato Felipe, e a bordo da Kombi Caipirinha

EMÍLIO e FELIPE Para encerrar, vamos falar de uma grande viagem que está por vir. A partir de janeiro, dois amigos vão percorrer 17 países da América Central e do Sul dentro de uma Kombi – uma icônica Westfalia Camper 1971. “Nossa proposta é sentir in loco o índice de Felicidade Interna Bruta das comunidades visitadas”, diz o jornalista gaúcho Felipe Costa, 24 anos, entusiasmado com o seu batismo na estrada. A seu lado, terá um viajante experiente, o mergulhador Emílio Zagaia, que em 2003 topou confinar-se diante das câmeras do Big Brother Brasil, a despeito de sua alma itinerante. “Viajar está no meu sangue”, define-se o paranaense, que elege três viagens favoritas. Um giro pelo Sudeste Asiático – Cingapura, Malásia e Tailândia –, outro pela Europa – Bruxelas, Amsterdã, Portugal – e um ainda mais extenso, de carro pelos Estados Unidos – Chicago, Seattle, San Diego, Vegas, Aspen, Miami.

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Quando não está na estrada, está planejando a próxima viagem. É o que Emílio fez, com ajuda de Felipe, no projeto “O mundo é uma Kombi”, que é colaborativo e aceita doações pela plataforma Catarse.me. Além de fazer um documentário, eles vão transmitir as etapas via satélite. “O que me fascina nessa viagem é conhecer a América Central. Não que seja uma regra, mas onde as pessoas são menos abastadas costumam ser mais autênticas. O essencial fica mais acessível”, reflete Emílio. “Será uma forma de diminuir nosso preconceito. Acredito que vá abrir a minha cabeça”, vislumbra Felipe. Para ele, há o sabor da novidade. Para Emílio, a sensação de permanência em movimento.

Emílio, aos 39 anos, é do tipo que sente agonia de imaginar “o mundo girando lá fora” quando está parado. “Parece que abandonei minha vida cotidiana, que é a estrada”, explica a paixão, que não considera uma fuga. “Só se for a fuga de uma vida convencional. Sempre achei uma furada juntar-juntar-juntar para depois poder viver. Prefiro viver-viverviver para depois juntar.” Depois do quê? Depois do fim da longa estrada. 47

Revista V - Volkswagen  

Matéria de Phydia de Athayde

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