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Biodiversus Cacaueiro

Exercício de escrita criativa Uso obrigatório de termo científico

O CHOCOLATE

Pura ironia: fui chutado pelo recurso que sempre me garantira o sucesso. Inacreditável. O que me pôs as malas à porta foi exatamente o que eu considerava ser o meu melhor trunfo: a teobromina. Eu já tinha tentado declarações na rádio, poemas em plena rua, violoncelos no local de trabalho, uih…mas ela sempre irredutível: “chega. Acabou.” Então, saquei do meu às. Investi na teobromina mais cara do mercado, uma preciosidade. Ela era viciada, portanto àquela qualidade e ao requinte que punham nas entregas ao domicílio jamais resistiria. De longe, assisti. Tocaram à campainha, estenderam o embrulho e (ela identificou logo!), aconteceu! Eu vi: aquele inclinar de cabeça já a deslizar para o “volta, estás perdoado”, o sorriso renovado e depois o fechar da porta leeeento, de quem planeia “hoje ainda me faço difícil, mas amanhã…” Na mouche, portanto. No dia seguinte, o telefonema. E eu ufano: “Sim?” Pois, não. Não! Malas à porta. A teobromina deu para o torto. Não é que o raio do chihuahua dela comeu a tablete de chocolate caríssima e ainda por cima morreu?!

De facto, o chocolate contém uma série de compostos que produzem reações agradáveis a nível neurológico.

O chocolate é um alimento amplamente consumido em todo mundo, cujo componente principal são os grãos do cacau, fruto do cacaueiro (Theobroma cacao). A palavra “chocolate” deriva do azteca xocolatl. O cacau já era cultivado e consumido pela civilização Asteca e Maia na América Central, muito antes da chegada dos colonizadores europeus. O xocolatl era considerado uma bebida sagrada para estes povos, que o utilizavam em rituais religiosos e comemorações especiais. Esta bebida chegou a Espanha em 1520, pelas mãos de Hernán Cortez, após a conquista do México. Os grãos de cacau, após uma fermentação de cerca de uma semana, são lavados e secos ao sol. Posteriormente são ensacados e enviados para as principais fábricas de chocolate, a grande maioria localizada na Europa. Para a confeção do chocolate, é necessário torrar os grãos do cacau, remover a sua casca e triturá-los. Nesta fase, obtém-se o pó de cacau. Para a obtenção do cacau em pó, remove-se a matéria gorda, denominada manteiga de cacau, através da prensagem da pasta de cacau numa prensa hidráulica. O chocolate preto é confecionado através da adição de manteiga de cacau e açúcar ao cacau em pó. Se, além da manteiga de cacau e do açúcar, for adicionado leite a esta mistura, temos o chocolate de leite. O chocolate branco, por sua vez, é preparado com a manteiga de cacau, à qual se adiciona açúcar e leite.

Quem sabe, sabe

Uma das características mais agradáveis do chocolate tem a ver com a suave sensação que temos quando este derrete na boca. Isto está relacionado com o ponto de fusão dos compostos da gordura, que acontece entre os 34,4 e os 36 ºC, temperatura inferior aos 37 ºC do nosso corpo. O chocolate também está associado a momentos felizes e é o presente por excelência no dia dos namorados. De facto, o chocolate contém uma série de compostos que produzem reações agradáveis a nível neurológico. Contém cafeína e teobromina em pequenas quantidades que atuam como estimulantes. Pela sua parte, a anandamida, a qual também é produzida pelo nosso cérebro, bloqueia a sensação de dor e os sentimentos depressivos. A feniletilamina, também um composto natural do cérebro, estimula as partes cerebrais que mantêm o estado de alerta e simula sensações similares às do amor. Outros compostos importantes são os denominados polifenóis, com particular relevância para os flavanóis, que apresentam atividade antioxidante e ajudam a proteger as artérias e o coração, nomeadamente contribuindo à prevenção da aterosclerose. Sob o ponto de vista nutricional, importa consumir o chocolate escuro, com baixos teores de açúcar para obter as vantagens para a saúde. Ivonne Delgadillo Departamento de Química da Universidade de Aveiro

Rua dos Santos Mártires, 3810-171 Aveiro · tel. 234 427 053 · www.fabrica.cienciaviva.ua.pt · www.facebook.com/fccva · fabrica.cienciaviva@ua.pt

PS: A teobromina é um alcaloide extraído de plantas como a do cacau (Theobroma cacao) e a do chá (Camellia sinensis). É muito utilizada em fármacos pela sua capacidade estimulante, vasodilatadora, relaxante muscular e diurética, sendo rapidamente absorvida pelo nosso organismo. A quantidade de teobromina encontrada no chocolate permite-nos comer a guloseima com segurança (apesar de, ingerida em excesso, poder eventualmente causar insónia, ansiedade, náuseas). Em animais, como os cães e os gatos, que metabolizam lentamente a teobromina, a ingestão de uma dose de 130 mg/kg de peso vivo é tóxica, sendo fatal perto dos 250 mg/kg. O chocolate amargo tem 10 a 20 mg de teobromina por grama de chocolate.

na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro No dia 26 de outubro, pelas 16 horas, decorrerá na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro uma sessão do espetáculo “Química por Tabela 2.0”. Esta atividade, destinada a maiores de 6 anos, tem um bilhete de entrada de 2€ (crianças e estudantes), 3€ (adultos) ou gratuito na aquisição do bilhete geral, com inscrição prévia para 234 427 053 ou fabrica.cienciavia@ua.pt.

Este espetáculo de ciência procura fazer a ligação constante com a química que nos rodeia no quotidiano. Consiste numa sequência de transformações químicas curiosas e surpreendentes, onde são explorados diversos conceitos de química. As alterações de cor e de estado físico proporcionam efeitos visuais apelativos estimulando a participação do público. “Química por Tabela 2.0” mostra que “por tabela” é possível aprender química fora da sala de aula.

Ciência na Agenda 17 out - A Fábrica vai... a Dornelas do Zêzere, com o a atividade Ciências do Espaço, no âmbito do projeto Cientistas na Serra.

Nome vulgar: Cacaueiro Nome científico: Theobroma cacao L.

18 e 19 de out - A Fábrica vai... ao Encontr@rte | 2013, a decorrer

Nativa dos climas tropicais da América Central, esta árvore pode chegar a atingir 8 metros de altura. Tem preferência por ambientes bastante húmidos e com boa exposição solar, surgindo muitas vezes na margem de cursos de água. Trata-se de um espécime peculiar pelo facto das suas flores e frutos crescerem diretamente a partir do tronco. Enquanto as flores apresentam dimensões muito reduzidas e tons entre o amarelo e o cor-de-rosa pálido, os frutos são uma vagem volumosa (atingem 15 a 25 cm de comprimento) de cor vermelha acastanhada. Cada vagem contém 20 a 40 sementes no seu interior. Quando estas sementes caem podem ser dispersas por mamíferos que as comem, mas se porventura ficam caídas ao sol, fermentam, perdem a camada branca e amarga que as envolve, ganhando assim uma tonalidade mais escura e acastanhada. Neste momento chamam-se grãos de cacau.

18 out (18h00 > 23h00) – A Fábrica vai… à Noite do Professor,

no edifício da Antiga Capitania, em Aveiro.

no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, apresentar a programação do Serviço Educativo 2013-14. 19 out (15h00) – Workshop Hológrafo por um dia. 26 out (16h00) – Espetáculo Química por Tabela 2.0. 27 out (11h00) – Pai, vou ao espaço e já volto! – A conquista do ar. 3 nov (11h00) – Domingo de manhã na barriga do caracol “Um gole de sabedoria, sr. Rodrigo!”.

Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro 2013

Laboração continua  

Edição nº 343 17 de Outubro de 2013

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