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Jornal do Comércio - Porto Alegre

Viver

Edição de 10, 11 e 12 de outubro de 2008

5 GILMAR LUÍS/JC

Entrevista As crianças foram o foco da visita que Ziraldo fez a Porto Alegre nesta semana. Na Livraria Saraiva, ele autografou seu livro mais recente, O Namorado da Fada ou o Menino do Planeta Urano, como parte da programação do projeto Conversas no Praia. O escritor mineiro recusa o tratamento de “senhor” e afirma que se vê como “cúmplice” de seus leitores infantis, “porque não me esqueci do menino que fui”.

Um cúmplice das crianças Fernanda Botta, Especial para o JC Jornal do Comércio - Com o que brincavas quando criança? Ziraldo o - Quando começava a encher muito o saco da mãe dentro de casa, ela dizia “Vai brincar na rua”. A rua era lugar seguro. Eu morava numa rua de cidade de interior, sem calçamento, com cachorro no meio da rua, gato, criança. Era um parque. Quer dizer, um parque pobre. Em vez de grama tinha mato, em vez de flor tinha capim. Mas era uma liberdade muito grande. Então a gente brincava até altas horas da noite. Quer dizer, nove, nove e meia. Quando a mãe dizia “Vem lavar os pés para dormir”, a gente lavava os pés e ia dormir. JC - Foi uma infância bem solta. Ziraldo - Bem solta. Não quero dizer que é melhor que a de hoje. Troco o dia mais feliz da minha vida pelo dia mais chato dos meus netos, porque o que o mundo oferece à criança de hoje é uma loucura. Mas a gente se divertia, porque criança se diverte sempre. Não tem compromisso com nada, só brincar, e, quando chega uma hora, a gente aprende rapidamente, muito rapidamente que tem que estudar. Criança sabe que tem que estudar. JC - As crianças de hoje são mais felizes? Ziraldo - Não. Não são mais felizes, mas não são menos felizes. Agora se diz “Ah, as crianças ficam brincando no shopping, não sei o quê, tadinhas”. Tadinhas nada. Não tem isso de que era melhor naquele q q tempo p do que agora. É sempre bom

viver. Viver é um oráculo, é uma dádiva. Você tem que aproveitar a dádiva que é a vida, em vez de ficar se queixando. A Clarice Lispector dizia que “a vida até que é bastante suportável”. Essa conversa é chata. A vida é uma dádiva mesmo, então vamos usála da melhor maneira possível. JC - Cada época com as suas peculiaridades. Ziraldo - É. Cada época com as suas peculiaridades, com as suas circunstâncias. Quer dizer, não tem essa coisa de dizer “Ah, os bons tempos nunca voltarão”. Que bons tempos? Fiz umas quatro ou cinco operações que, se não fossem os tempos atuais, teria morrido. Os bons tempos são uma invenção da cabeça da gente. A gente pode ser feliz sempre, sempre. Mais feliz ontem do que hoje, mais feliz hoje do que ontem, não tem essa coisa de “ah, aproveita a sua infância”. Lembro que, na minha formatura, o professor falou “aproveitem a juventude de vocês, é a fase mais feliz da vida da gente”. Eu falei “Então vou me suicidar, professor. Vou me suicidar, porque se é isso que o senhor acha que é a maior felicidade da minha vida, o resto vai ser uma tristeza”. JC - A linguagem muda com o tempo? Ziraldo - A linguagem muda, as circunstâncias mudam. As atrações mudam, os perigos mudam, mas a reação humana permanece imutável. Você sofre pelas mesmas razões, você fica feliz pelas mesmas razões. JC - E essa mudança de linguagem, como foi no teu trabalho? Ziraldo - O que eu acho que muda são os suportes. Continuo

contando histórias como acho que contaria no começo da minha vida. Não mudei meu modo de contar. E outra coisa: você não tem que ficar procurando atualizar a sua maneira de se expressar. Você tem que acreditar no seu jeito de dizer as coisas. JC - Quando escreves para as crianças, há alguma lição por trás das histórias? Ziraldo - Nem pensar. Deus me livre! Não quero dar lição, falo do que sinto. Tudo o que transparece no meu texto é porque é o meu modo de encarar o mundo. JC - Escrever uma história de amor para crianças exige algum cuidado? Ziraldo - Nenhum. Certamente você não vai fazer uma história erótica. Mas a idéia de arranjar um namoradinho para a fada... O trabalho todo é a descrição da fada, do conceito de fada para as crianças e, de repente, a humanização dela é que ela se apaixona pelo menino. Ele é bem etéreo, porque as pessoas nascidas sob o signo de Urano são meio sonhadoras. Urano é um planeta gasoso, não tem sol. Os astrólogos descobriram que o cara de Urano não tem os pés no chão. Vive voando. Achei que esse era um bom menino para namorar a fada. Escrevi a história dele, não a história da fada. Estou fazendo uma série de meninos de planetas, de Urano, de Júpiter, de Marte... JC - Disseste que os meninos desta série estão vivos na tua imaginação. Então qual é a tua inspiração para eles? Ziraldo - Já criei a carinha de todos. Baseado em pesquisa astrológica, não astronômica.

Lendo tudo sobre como é o menino nascido sob cada influência. Na hora de escrever, me baseava no tipo de temperamento. Assim como o menino de Urano é sonhador, quando fizer a história do menino de Marte ele vai ser meio guerreiro, brigão, ousado. Quando fizer o menino de Vênus, ele vai ser doce, angelical, porque Vênus é o cupido. Quando fizer o de Júpiter, ele vai ser enorme, espaçoso, grande, como está desenhado na contracapa do livro. O menino de Netuno tem cara de peixe. Mas estou pensando porque o menino de Netuno tem a ver com o mar. Ainda não pesquisei esse planeta. Para a Terra, vou fazer um menino chinês. JC - Ele se chama Nan, não?

Ziraldo - É. Nan quer dizer menino em chinês. Por causa das Olimpíadas, eu estava vendo esse negócio daqueles meninos chineses. A China progrediu de maneira brutal, mas a poluição está acabando com o país. Acabaram com o rio Amarelo, está poluidíssimo. Não tem mais peixe. Você vê a preocupação com a poluição nas Olimpíadas, inventaram mil coisas. Então o livro vai se chamar O Último Menino. É o Nan, porque, se um pesquisador do universo viesse à Terra e se lhe perguntassem como é o menino desse planeta ele diria: “São todos amarelos”. Tem alguns morenos, alguns brancos, mas tem 600 milhões de meninos amarelos no mundo. O menino da Terra é amarelo.


Viver

Jornal do Comércio - Porto Alegre

Edição de 24, 25 e 26 de outubro de 2008

FOTOGRAFIA

Fernanda Bo!a, especial para o JC A sala espaçosa quase parece vazia. Com suas paredes muito brancas e piso de madeira, sobre o qual há nada além de duas pequenas bancadas, pareceria solitária - não fossem as fotografias expostas. Protegidas por molduras de madeira clara, elas revelam um período importante da história da fotografia e da arte. fotografia subjetiva - a contribuição alemã - 1948-1963 está aberta à visitação desde 14 de outubro, na Casa de Cultura Mario Quintana, e tem como foco a produção do movimento iniciado pelo fotógrafo Otto Steinert. São 162 obras em preto e branco que buscam a arte na fotografia através da subjetividade. fotografia subjetiva foi o termo que o fotógrafo encontrou para nomear as exposições organizadas por ele durante a década de 1950. Embora fossem internacionais, o movimento começou com os alemães, que nele mantiveram um papel central - daí a motivação para que seus trabalhos sejam expostos em separado. Através da “fotografia subjetiva”, os fotógrafos pretendiam romper laços com a objetividade. Seu desejo era não apenas reproduzir, mas interpretar a realidade, elevando a fotografia à obra de arte. Na exposição é possível observar o trabalho dos precursores que inspiraram e acompanharam o movimento, como Adolf Lazi, Carl Strüwe e Marta Hoepffner. Também estão presentes as fotografias do grupo vanguardista fotoform, de extrema importância tanto para a fotografia subjetiva quanto

para a fotografia alemã pós-guerra de maneira geral. A associação era formada por Wolfgang Reisewitz, Peter Keetman, Sigfried Lauterwasser, Toni Schneiders e Ludwig Windstosser, incluindo o próprio Otto Steinert. Por último, pode-se ver também uma seleção da obra dos alunos de Steinert e o trabalho dos fotógrafos Robert Häusser e Stefan Moses, que, por não pertencerem à escola, oferecem um contraponto e uma idéia do que acontecia paralelamente ao movimento na fotografia alemã. A mostra fotografia subjetiva - a contribuição alemã - 1948-1963 é um conjunto realmente instigante. Através de técnicas estritamente fotográficas relativamente simples, como o uso de reflexos (em espelhos ou poças d’água), junção de duas fotos e iluminação diferenciada, os participantes do movimento criaram uma arte única. Algumas obras beiram o inexplicável, como as abstrações de Peter Keetman. Parecem feitas por computador e cutucam a imaginação com suas formas perfeitas, suscitando um questionamento que pode perfeitamente definir a exposição - como isso foi feito apenas com uma câmera fotográfica? Estadunidenses, italianos, argentinos e uruguaios, como indica o livro de visitantes, já viram a mostra, que ficará aberta no Museu de Arte Contemporânea da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736) até 16 de novembro. Pode ser visitada de terças a sextas-feiras, das 10h às 21h. Nos sábados e domingos, das 12h até as 21h. Entrada franca.

De Heinz Hajek-Halke

De Peter Keetman

De Helmut Lederer

De Siegfried Lauterwasser

FOTOS CLAUDIO FACHEL/JC

Além da realidade

Elevar a foto à obra de arte através da subje"vidade foi o obje"vo dos fotógrafos alemães cujos trabalhos estão expostos na Casa de Cultura Mario Quintana, com apoio do Ins"tuto Goethe

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Jornal do Comércio - Porto Alegre

Terça-feira, 28 de outubro de 2008

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ACONTECE

À flor da pele LANÇAMENTOS CD Mi Sueño, último disco do grande vocalista cubano Ibrahim Ferrer, reúne doze boleros. Uma das estrelas do grupo Buena Vista Social Club, Ferrer morreu em 2005, aos 78 anos, enquanto o disco estava em fase de pós-produção. Gravado no Teatro Nacional de Cuba, Mi Sueño tem canções como Perfídia, de Alberto Dominguez, e Uno, de Enrique Discépolo. Destaque para Quizás, Quizás, cantada em dueto com Omara Portuondo. MCD Music.

MARCO QUINTANA/JC

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Marília Fayh mostra, a par!r de hoje, as esculturas que criou em um ano e meio de trabalho

Fernanda Bo!a, especial para o JC Um ano e meio de trabalho duro resultou em esculturas que traem uma sensibilidade à flor da pele. São as obras que Marília Fayh expõe a partir de hoje, na Galeria Casa Arte. As 23 peças em bronze foram criadas entre 2007 e 2008, com dedicação intensa - a artista dedica seis horas diárias à criação. “São muito significativas para mim essas esculturas e esses dois anos. Vê-las exibidas é o final de um ciclo pessoal. Quando saem para a rua, elas se libertam”, conta a artista. As figuras que esculpe em bronze pertencem ao universo feminino, com presença recorrente de estrelas, bicicletas e pianos. Marília busca inspiração no cotidiano, sem ligação com uma tendência ou estilo específico. Possui apenas forte influência da arte clássica e um tanto do movimento Art Nouveau, que ela define como inconsciente. “Reconheço, mas não escolhi. Eu não sabia. Mais tarde vi que lembrava”, diz. Em meio à forte tendência avant-garde, ao culto da instalação que se estabeleceu nas bienais, a artista se destaca por fazer uma arte intelectual,

porém não intelectualizada. “Sou muito intuitiva, não penso muito sobre a arte. As minhas mãos fazem, e vou atrás. As mãos acompanham o trabalho do coração. Faço de cor, de coração. Respeito muito arte conceitual, mas não faço. Busco simplificar ao máximo a comunicação entre o observador e a minha obra”, explica Marília Fayh. Ela é publicitária de formação. Mas encontrou seu caminho nas artes plásticas. Desde o início, no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, onde teve suas primeiras aulas, à premiação com medalha de ouro do Comite D’honneur Du Mérite ET Dévoument Français, pela escultura em bronze A décima Lua Cheia, já se passaram mais de duas décadas. Marília tem 25 anos de trajetória artística. A escultora, que também pinta e faz gravuras, atribui a mudança à maternidade. Por ter casado cedo e logo dado à luz aos seus três filhos, ficou impossibilitada de trabalhar fora de casa. Foi então, quando as crianças ainda eram muito pequenas, que ela foi desenvolvendo seu talento para as artes. “Eu desenhava perto do bercinho, entre as papinhas e

as mamadeiras. Mostrava aqui e ali, e foi acontecendo”, conta. Também atribui aos filhos alguns de seus ícones mais freqüentes, como as estrelas e as bicicletas: “A bicicleta representa peraltice, equilíbrio, movimento. Também simboliza mudança. As estrelas também têm disso. Na bicicleta, se tu não te mexes, vais cair. A roda também é uma coisa muito simbólica, ora está em cima, ora está embaixo. Está sempre evoluindo”.

Onde e quando A exposição estará aberta à visitação na galeria Casa Arte (Cel. Bordini, 920), a partir do dia 29 de outubro, de segunda a sextafeira das 9h às 19h e aos sábados até as 13h. Entrada franca.

Encontrabanda, o elogiado projeto desenvolvido pela Banda Municipal de Porto Alegre nos anos de 2006 e 2007, chegou ao CD. O registro traz os melhores momentos dos shows em que a banda dividiu o palco com artistas da música instrumental gaúcha, como Renato Borghetti, James Liberato, Olinda Alessandrini e Plauto Cruz. O saxofonista Derico, do Programa do Jô, também esteve entre os convidados. Lançamento da Secretaria da Cultura de Porto Alegre. !

DVD Maus Hábitos, filme do mexicano Simon Bross, é uma história curiosa de mulheres com problemas alimentares, todas da mesma família. Matilde é freira e começa um jejum místico para impedir uma inundação que ela acredita estar por vir. Elena é uma mulher magra que tem vergonha do peso de sua filha e faz de tudo para que ela emagreça. Gustavo, marido de Elena, se apaixona por uma estudante de apelido Gordinha. Com Ximena Ayala e Elena de Haro. Paris Filmes. !

! Pecados Inocentes, que recém estreou nos cinemas brasileiros, gira em torno de Bárbara, uma mulher acostumada com os luxos de um bom casamento e da alta sociedade. Depois do divórcio, totalmente desequilibrada, ela aprofunda sua relação com filho até o envolvimento físico. O filme é baseado em uma história real que envolveu incesto e acabou num assassinato, em Londres, no ano de 1972. Com Julianne Moore. Califórnia Filmes.


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Edição de 6 de novembro de 2008

Restos (Bertrand Brasil, 188 páginas, R$ 29,00), de Mário Araújo, é o segundo livro de narrativas curtas do autor paranaense, que recebeu em 2006 o Jabuti na mesma categoria, por A Hora Extrema. Na história que abre a coletânea, um homem acompanha o remanejamento dos restos mortais de seus parentes, para abrir espaço no jazigo da família ao corpo do pai recém-falecido. As demais narrativas - que foram elogiadas por gente como Millôr Fernandes - são marcadas por observações sobre a morte e a solidão do ser humano. •

RECORD/DIVULGAÇÃO/JC

Almanaque Machado de Assis - Vida, Obra, Curiosidades e Bruxarias Literárias (Record, 312 páginas, R$ 50,00), de Luiz Antonio Aguiar, foi concebido para funcionar como um guia que compila “matéria recreativa” sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Se não substitui a leitura de alguns dos clássicos do mestre carioca cujo centenário de falecimento completou cem anos em 2008, é provável que estimule o desejo de desbravar um território complexo e cheio de nuances, que chega ao ápice nos contos e romances. Foi a respeito do lançamento e da admiração entusiasmada que nutre pelo “Bruxo do Cosme Velho” que Aguiar - escritor de dezenas de títulos no currículo, resenhista de cadernos literários e ministrante de oficinas de redação - falou em entrevista. Jornal do Comércio - Quanto tempo levou para reunir o que está em Almanaque Machado de Assis? Luiz Antonio Aguiar - A minha vivência de leitura de Machado vem da adolescência. Em termos de pesquisa, tem aí mais de vinte anos - cada vez mais me encantando com esse autor que desafia explicações e respostas. Machado é sempre surpreendente. JC - O que mais o fascina no autor de Dom Casmurro? Aguiar r - As possibilidades múltiplas de interpretação, dependendo do ponto de vista com que se enfoca

a obra; as estruturas ilusionistas como a de Dom Casmurro; a agudeza crítica de um conto como Idéias de Canário; a sutil ironia das crônicas; o texto envenenado, os personagens repletos de reentrâncias... Tanta coisa! JC - Você dá palestras sobre o “Bruxo do Cosme Velho” em todo o País. Como percebe a reação do público diante de um escritor cuja obra não é fácil e que não se presta a uma leitura superficial (penso, por exemplo, nos adolescentes, que muitas vezes não têm ainda capacidade de aproveitar a literatura refinada que ele faz)? Aguiar - A primeira reação é de surpresa. Dou muitas oficinas de leitura de Machado, e de repente esse público sem experiência de leitura em Machado se vê lendo o Bruxo e descobre que não é tão difícil assim, que é divertido, às vezes, encantador, instigante. Faz bem pra gente ler Machado, e noto cada vez mais gente descobrindo isso. JC - Qual seu machado preferido? Por quê? q Aguiar r - É o de algumas crônicas, o de contos como Idéias de Canário e Umas Férias, o de Dom Casmurro, por toda a polêmica que sustenta ate hoje e o de Esaú e Jacó, por guardar segredos que ainda não foram desvendados; e é enfim o autor do ensaio Instinto de Nacionalidade, fundamental momento de criação de uma nova inteligência para se entender o Brasil do seu tempo e o de ainda hoje. JC - Que dúvida sobre o escritor você se sentiu frustrado por não conseguir responder no Almanaque? Aguiar r - Não se pode falar em frustração, mas em reconhecimento de um jeito de ser desse autor que jamais quis comentar sua própria obra e quase nunca respondeu às críticas que recebeu - quando o fez, foi com economia, rapidamente. Seria interessante saber o que ele pensava sobre algumas de suas obras. Mas isso não existe e o jeito é respeitar as reservas do Bruxo. Luiz Antonio Aguiar autografa guia a respeito do criador carioca às 20h30min desta quinta-feira

Das pipocas às letras Fernanda Botta, especial para o JC Dos seus 59 anos de vida, 40 ele já dedicou à Feira do Livro. José Alves Valêncio, ou Zé da Pipoca, acompanha o evento desde que chegou à Capital, em 1958. Na época tinha apenas nove anos, trabalhava como engraxate e vendia balas. Hoje, é o dono da pipoca mais famosa da Feira e já serviu até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essas e outras histórias, além da receita que lhe deu fama, estão em Zé da Pipoca - 50 Anos na Feira do Livro, que foi lançado ontem. “O livro em si começa com a história da minha vida, depois ele vem se aprofundando sobre a Feira, o passar do tempo, mudanças de trabalho. Muda de uma história para outra, sai de um mundo novo para outro desconhecido. Agora estamos entrando em outro mundo desconhecido, que é o livro”, conta o pipoqueiro. Nascido em Lajeado, ele chegou a Porto Alegre quando ainda era pequeno. Além do trabalho em frente ao colégio La Salle Dores, desde 1975, firmou-se na Feira do livro, acompanhando todas as suas mudanças. “Eu conhecia essa praça, era muito linda. A Feira também mudou, está muito moderna e está para se tornar uma das melhores que existem. Cada ano vai aumentando o número de leitores, tem coisas

novas também”, comenta. O livro tinha que ser o próximo passo na história de José Alves Valêncio, que no ano passado ganhou o troféu na categoria Homenagem Especial no Prêmio Cultura Econômica, do Jornal do Comércio, com apoio da CaixaRS. Ele já participou também de dois longas-metragens – Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, e Sal de Prata, de Carlos Gerbase. No entanto, esse novo caminho gera ansiedade. Na terça-feira, ele previa “uma emoção muito grande, a expectativa é muito grande, porque não importa a quantidade de pessoas, a gente não sabe o que vai vir”. Ele acreditava que a emoção seria “muito maior do que estar atendendo a um cliente aqui”. E assim foi.

RAQUEL SANTANA/JC

Entrevista

Machado de Assis em almanaque

José Alves Valêncio autografou o livro em que conta suas vivências na Feira do Livro

A história da petroquímica no Brasil “A indústria petroquímica é muito segmentada e, conhecendo melhor os seus processos, pude perceber a lógica de seu crescimento”. Esta afirmação foi feita pelo jornalista Sérgio Lagranha. Ele e o também jornalista Elmar Bones estão lançando o livro A Petroquímica faz História (Já Editores) na 54ª Feira do Livro. Bones disse que hoje a petroquímica é uma das áreas de ponta das quais o Rio Grande do Sul pode se orgulhar. O livro de 160 páginas é um relato jornalístico do Pólo Petroquímico gaúcho desde sua criação na década de 1970. Passa pela privatização até os dias de hoje, momento em que o Pólo se integra a um projeto de âmbito nacional e trata com destaque a mobilização dos gaúchos em defesa do terceiro pólo petroquímico em 1975. RS 25,00.


jc Porto Alegre, segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Conversa com Ziraldo Fernanda Botta, especial para o JC

GILMAR LUÍS/JC

Um jeito de vencer a morte. É assim que o cartunista e escritor Ziraldo Alves Pinto, 76 anos, define o projeto que iniciou em 2006, com O Menino da Lua. É uma série de livros que contam a história de um grupo de garotos, habitantes dos nove planetas do Sistema Solar. Dentro desta proposta, sua obra mais recente é O Namorado da Fada ou O Menino de Urano. Ela conta as aventuras de Théo, o menino do planeta azul, que se apaixona

pela fada Anagrom. “Vou fazer um livro por ano, de cada menino. Assim estou comprometido, não posso morrer”, diz o escritor, que também falou sobre sua carreira, suas vivências durante a ditadura militar (participou do jornal O Pasquim, que fazia resistência ao regime através do humor), a educação no Brasil e o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, cujo decreto de implantação foi assinado em setembro pelo presidente do País, Luiz Inácio Lula da Silva. Sobre o Acordo, Ziraldo é enfático: “Acho um absurdo. A língua mais importante do

Hoje o autor recebe seus leitores, grandes e pequenos, no Pavilhão dos Autógrafos

mundo é o inglês. Os americanos escrevem de um jeito; os ingleses, de outro. Estados Unidos e Inglaterra jamais fizeram um acordo ortográfico”. Mas ele trata as diferenças do português com bom humor. “Não tem jeito. Camisa em Portugal é camisola, fila é bicha e menino é puto”, divertiu-se. Também brincou com a inclusão das letras K, W e Y no alfabeto brasileiro, prevista na nova reforma da língua: “Não tem um brasileiro não-escolarizado, um brasileiro operário que não ame a letra Y”. Ainda no campo das letras, Ziraldo recomenda aos pequenos leitores - quando tiverem um pouco mais de idade - que leiam a segunda metade de Os Sertões,, de Euclides da Cunha. “É a mais fantástica narrativa. Euclides da Cunha é o maior narrador da literatura mundial. Nem Homero ganha dele. É fascinante, você não pára”, afirma. Ele define o problema da leitura no País como uma questão emergencial, que deve ser resolvida rapidamente. “Os nossos estudantes, menos aqui no Sul, mas em geral, estão chegando à universidade praticamente analfabetos funcionais, incapazes de entender o que lêem plenamente, incapazes de expressar-se pela escrita e incapazes de tirar prazer da leitura”. Para o escritor, é urgente que o Brasil se torne um país de leitores. Ele busca exemplo na Coréia do Sul, onde o índice de analfabetismo é 2,2%. “As possibilidades do Brasil são muito grandes. Acho que ele acaba esse século como uma das maiores nações do mundo, mas tem que apressar o processo da educação, e é através da leitura”. Sobre a sua obra, Ziraldo conta como surgiram Flicts (1969), O Menino Maluquinho (1980), Uma Professora Muito Maluquinha (1995) e Vovó Delícia (1997). Flicts nasceu da necessidade de apresentar ao seu editor um livro infantil. Com pouco tempo para desenvolver a obra e suas ilustrações, o escritor decidiu utilizar apenas cores. Inspirado por um outdoor da extinta revista Manchete, que exibia uma foto da Lua, criou a história de “uma cor triste, cor de barro, que é a cor da Lua”. O Menino Maluquinho resultou de uma das suas palestras durante o regime militar para as senhoras cariocas que “não sabiam o que estava acontecendo no mundo”. Ziraldo ensinava às mães como criar seus filhos. Provavelmente movida pela máxima de que “criar o filho dos outros é muito fácil”, uma delas lhe sugeriu que escrevesse um livro sobre o assunto. Então se deu a criação de um dos maiores

êxitos da literatura infantil brasileira, com noventa edições. Uma Professora Muito Maluquinha e Vovó Delícia foram inspiradas em personagens da vida real. A primeira era Catarina. “Meio pirada”, ela dava aulas ao escritor no Ensino Fundamental. Dona Cati, como era chamada pelos alunos, tinha 16 anos e adorava ler. “Gibi era pecado, o padre proibia. Mas ela tinha uma coleção de gibis, distribuía para nós e fechava a porta. A gente ficava lendo gibi; ela, o romance dela. Aí resolveu ler o romance para nós. O primeiro ano virou uma novela, todo dia tinha um capítulo. No melhor da novela, a sirene tocava. As outras professoras não sabiam por que, antes de o recreio acabar, os meninos voltavam para a sala. Então quando chegou o final do ano, todo mundo tomou bomba. Ninguém passou. Mas todos sabiam e gostavam de ler”. Vovó Delícia surgiu de um encontro em uma escola em Jaraguá do Sul (SC). Ziraldo estava autografando no pátio do colégio quando chegou uma avó de moto para entregar um exemplar à sua neta. “Então comecei a prestar atenção nas avós. Elas não ficam mais fazendo crochê na cadeira de balanço”. Ziraldo nem sempre escreveu para crianças. Antes de Flicts, o primeiro livro direcionado ao leitor infantil, ele escrevia para os adultos e seu trabalho mais notável foi em O Pasquim, durante a ditadura militar. O jornal, para ele o grande celeiro de humoristas brasileiros pós-1968, contava com nomes como Jaguar, Paulo Francis e Millôr Fernandes. Apesar da polêmica em que se envolveu recentemente, por receber da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça uma indenização de R$ 1 milhão por perseguição política no regime militar, mais pensão vitalícia de R$ 4,3 mil por mês, o escritor afirma que o mérito da resistência pertence a todo o grupo de O Pasquim e a toda a sociedade brasileira: “Você repara, houve uma compreensão e uma participação de todo mundo no Brasil”. Ele descreve o período como uma época importante na história do País. “Para a minha geração, para os meus amigos, foi o privilégio de não ficar quieto, não aceitar o que estava acontecendo”, explica Ziraldo, que diz estar se preparando para a velhice. “A única pena que eu não tenho de envelhecer é que eu sei que vou ter o que fazer - ler os livros que faltam”, confidencia. Na mente das crianças, dos leitores adultos e além, o escritor já está imortalizado através de seus personagens.


Jornal do Comércio - Porto Alegre

Quinta-feira, 20 de novembro de 2008

ACONTECE

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LANÇAMENTOS

Com ares publicitários

DVD A Múmia: Tumba do Imperador Dragão, de Rob Cohen, traz o aventureiro Rick O’Connell desvendando mais um mistério. Dessa vez ele está em viagem à China, acompanhado do filho Alex, quando eles despertam a múmia de Han, o primeiro imperador do reino de Quin. Trata-se de uma entidade que foi amaldiçoada pela bruxa Zijuan, há milhares de anos, e agora ameaça transformar o mundo em abismo. O longa completa a trilogia A Múmia. Com Brendan Fraser e Jet Li. Distribuição Universal. !

A Caçada, de Richard Shepard, acompanha a trajetória de Simon, um jornalista de guerra que, ao lado do cameraman Duck, realizou grandes coberturas. Após testemunhar um massacre na Bósnia, Simon sofre um colapso que coloca fim à sua carreira. Anos mais tarde, Duck retorna à Bósnia e é procurado por Simon, que tem pistas sobre a localização do pior criminoso da guerra local. Agindo contra ordens da ONU, eles partem em sua busca. Baseado em história real. Com Richard Gere. Distribuição Europa Filmes.

CLAUDIO FACHEL/JC

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Fernanda Bo!a, especial para o JC Na manhã do dia 29 de outubro, algo inesperado ocorreu ao fotógrafo Leopoldo Plentz. Ao entrar na galeria Bolsa de Arte, que atualmente expõe a sua mostra Coisas Inúteis, ele se deparou com uma garrafa de cerveja espatifada no centro do salão principal, junto a algumas baganas de cigarro. Um buraco nas telhas da galeria indicava que a garrafa havia sido arremessada de algum prédio vizinho, atingindo com seu conteúdo algumas das 25 obras que produziu nos últimos dois anos. “Isso é a barbárie. O único antídoto contra a barbárie é a arte, por mais inútil e inócua que ela seja. Isso é muito triste”, lamentou Plentz. Curiosamente, as fotografias da mostra retratam o lixo urbano, o mesmo lixo que invadiu a galeria naquela manhã. Andando pela cidade, o fotógrafo coletou o material, levou ao seu estúdio,

escaneou e fez as adaptações que desejava, como alterações no tamanho e na saturação das imagens. Então o lixo ganhou ares publicitários. Parece um ciclo. “O objeto de consumo é anunciado via publicidade, que normalmente tem uma imagem sofisticada. Esse objeto é consumido, jogado fora, aí eu cato o detrito e o transformo em uma imagem que tem elementos publicitários - a cor saturada, o contraste”, explica Plentz. O artista também deu preferência às imagens que possuem forma similar à do corpo humano, partindo da premissa de que somos a única espécie a produzir lixo. Isso se nota no resultado, visualmente interessante. E é na estética que Plentz se foca. Apesar de reconhecer as diversas relações com o lixo, não tem uma posição sobre elas. Acredita apenas que o lixo diz muito sobre as pessoas e serve como memória - o chamado “memento”. O memento é todo tipo de souvenir que guardamos, de flores secas

Leopoldo Plentz encontra no lixo a matéria-prima e a inspiração para a fotograÞa ar"s#ca

CD A Primavera do Gato Amarelo, novo CD do roqueiro gaúcho Júlio Reny, chega às lojas nesta semana. Em 14 faixas, o disco visita estilos e temas que sempre marcaram a trajetória do compositor, principalmente o folk e a visão cinematográfica do romance. Na gravação, Júlio reuniu mais de 20 músicos, incluindo Humberto Gessinger, que canta e toca harmônica, o sax de King Jim e o acordeon de Arthur de Faria. O site novo de Reny já está no ar: www.julioreny.com.br !

a carteiras de cigarro de um momento especial. Se, por seus trabalhos passados, poderia ser facilmente relacionado à arte ecológica (no início da década, ele expôs fotos de árvores cortadas), agora o fotógrafo não deseja defender uma causa. “Acho que a arte não se relaciona com panfleto, coisas panfletárias. A minha preocupação é com o cidadão, com os aspectos urbanos, com o lixo que vejo na rua, com a educação da população”, explica. Coisas Inúteis está aberta até dia 22 de novembro, na galeria Bolsa de Arte (Quintino Bocaiúva, 1115). Pode ser visitada de segunda à sexta-feira, das 10h30min às 19h, e aos sábados, das 10h às 13h30min. Entrada franca.

! Água de Fonte é o primeiro CD do duo erudito formado pela soprano Claúdia Ricitelli e pelo pianista Nahim Marum. O registro é dedicado ao compositor Heitor Villa-Lobos e reúne três ciclos de canções para a formação de voz e piano. O CD abre com as quase desconhecidas canções Manhã na Praia e Tarde na Glória, sobre poemas de Carlos Sá. O duo também gravou as sete composições do ciclo Modinhas e Canções, feitas entre 1933 e 1940. O maestro Gil Jardim assina o encarte. Selo Clássicos.

Uma ajuda bem-vinda KIKI JONER/DIVULGAÇÃO/JC

O músico gaúcho Felipe Azevedo foi o vencedor do Prêmio Bolsa de Criação Artística da Funarte – Rio de Janeiro. No valor de R$ 30 mil, o prêmio vai ajudá-lo na gravação de seu próximo disco, Tamburilando Canções - Felipe Azevedo Violão com Voz. “Foi uma surpresa boa. De certa forma eu já estava esperando, torcendo para que acontecesse. Esse novo prêmio dá a possibilidade de fazer algo mais autoral”, conta o músico. Ele já foi vencedor do prêmio Petrobras Cultural, que resultou no seu terceiro disco, Percussìvé ou A Prece do Louva-Deus. O próximo trabalho deve dar continuidade a este último, com foco na dupla violão e voz. “Na verdade, o que caracteriza, o que diferencia esse disco, é a possibilidade agora de um foco maior. Estou trabalhando com canções em

Videoarte e depoimentos

Felipe Azevedo começa Prêmio Bolsa da Funarte que se estabelece um diálogo do violão com a voz”, afirma. O repertório já está sendo produzido por Azevedo, que prevê o lançamento para o segundo semestre de 2009.

A Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB) realiza, entre hoje e 9 de dezembro, o ciclo de debates Olhos Vendados, na programação paralela da mostra que pode ser visitada no Espaço 0 da instituição - Andradas, 1444/ sala 29 - até 19 de dezembro. Dos cinco encontros programados, quatro têm foco em depoimentos de artistas plásticos que usam a linguagem de vídeo em seus trabalhos. A abertura acontece às 18h30min desta quinta, na Pinacoteca do Instituto de Artes da Ufrgs (Senhor dos Passos, 248/1°

andar), com Neiva Bohns, Ana Albani de Carvalho, Glaucis de Morais, Mariana Silva da Silva e Marco Arruda, sob o tema Videoarte no Acervo da FVCB. Às 18h30min de sexta, já no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223), onde transcorrem as demais atividades, é a vez de Ricardo Carioba falar, seguido, às 11h de sábado, por Elaine Tedesco. Os outros encontros são com Lenora de Barros, às 18h30min do dia 27 de novembro, e Lucas Bambozzi, às 18h30min do dia 9 de dezembro. Entrada franca.


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Viver

22, 23 e 24 de janeiro de 2010

Jornal do Comércio - Porto Alegre

COMPORTAMENTO

Peças de personalidade

Sandro Dreher tem 300 ônibus em miniatura

Todo mundo coleciona, ou pelo menos já colecionou alguma coisa. Se a afirmação parece apressada, o hábito de colecionar é comum em todo o mundo. Na infância, faz parte do cotidiano de meninos e meninas. Figurinhas e miniaturas colecionáveis são lançadas por diversas marcas para chamar a atenção desse público para os seus produtos - geralmente com sucesso estrondoso. Na adolescência é comum que o jovem guarde todo tipo de produto relacionado ao seu artista favorito, às vezes levando esse costume para a maturidade. Já na idade adulta, as coleções de todo o tipo são cultivadas, de tampas de garrafas a obras de arte, passando por objetos mais comuns, como selos e moedas. “No Brasil existem muitos colecionadores, mas faltam ainda instituições agregadoras. Nos Estados Unidos há organizações para todo tipo de colecionável”, afirma Renata Lima, fundadora do Instituto de Pesquisa do Colecionismo. A pesquisadora, que estuda itens colecionáveis há mais de 30 anos, aponta ainda a diferença da nossa concepção do assunto para a que têm os norte-americanos e europeus. “Nos Estados Unidos, álbuns de figurinhas são um investimento. Muitos pais sabem que, se todo mês comprarem um álbum para o seu filho na banca, quando ele chegar aos 18 anos possivelmente poderá pagar a sua faculdade com a coleção”, explica.

Renata também ressalta que, embora o colecionismo ainda engatinhe como atividade organizada no Brasil, suas origens são mais antigas do que se imagina. “Na Pré-História, quando o homem juntava lascas de pedra, já fazia uma espécie de coleção”, afirma a pesquisadora. Mas reitera a importância de diferenciar o ajuntamento do colecionismo ordenado, cujas primeiras manifestações ç ocorreram no Oriente. Os livros sagrados da Índia, os conhecidos vedas, são colecionados desde sua composição, que data de 2.000 a 1.000 aC. Renata afirma ainda que, no Brasil em particular, a atividade ganhou impulso apenas no século XIX, por influência de Dom Pedro II. O grande acervo de objetos do imperador, que reunia de cartões postais a estátuas egípcias, posteriormente doado ao Museu Nacional, teria ampliado a gama de colecionáveis no País. “Já era comum juntar selos, moedas, caixas de fósforos, figurinhas. Mas outros objetos, só depois de Dom Pedro”, conclui. Na Europa, as grandes coleções remetem à Idade Média. Essa metodologia é o que distingue um ajuntador de um colecionador, como explica o psiquiatra Aristides Cordioli. Dentro da Medicina, o termo colecionismo faz referência a um sintoma do Transtorno Obssessivo Compulsivo (TOC). Apesar de as características mais conhecidas do transtorno serem as atividades repetitivas, a obsessão por limpeza, a constante

A alegria dos sapos Para a cardiologista Bernadete Medeiros Boff, o que importa é a alegria dos sapos. Há uma década ela decora a sua casa com réplicas dos anfíbios, feitas dos mais diversos tamanhos e materiais. “Eu passei a colecionar sapos porque eles são muito divertidos. A cor deles é alegre, o verde é uma cor antiestresse. Os sapos também têm aquele jeito lúdico, brincalhão. A presença deles levanta o astral. Só de olhar para o jeitão deles tu já ficas alegre, e é bom se cercar de coisas que deem alegria”, conta. A coleção não é

grande. Ela calcula que tenha cerca de dez exemplares. Mas logo explica: “O sapo precisa me encantar. Ele precisa me passar alguma coisa”. A coleção, mantida de forma casual - Bernadete nunca sai para procurar novas peças, sempre as compra de passagem por algum lugar - começou com uma aquisição curiosa: dois sapos, sentados em cadeiras de vime, que nas palavras da cardiologista lembram “espécies de versões anfíbias de O Pensador de Auguste Rodin”. Ainda assim, o preferido é um grande e sorridente sapo verde oliva.

FREDY VIEIRA/JC

GILMAR LUÍS/JC

Fernanda Bo!a, especial JC

higiene das mãos e a frequente checagem de portas e janelas, entre outras, recentemente o colecionismo tem se mostrado bastante comum. “Ele se manifesta no acúmulo de objetos inúteis, que podem ocupar muito espaço físico e inclusive causar conflito entre o paciente e a família”, afirma o psiquiatra. Cordioli, que trata pacientes com a patologia há mais de duas décadas, ressalta que manter uma coleção pode ser um hobby saudável. A atividade recreativa pouco se assemelha ao colecionismo associado ao transtorno, marcado por um apego irracional a itens sem valor estético ou prático. Os exemplos vão de eletrônicos em desuso, jornais velhos e roupas que já não servem a notas fiscais e cartões de crédito fora da validade. Há até mesmo q quem estoque q comida. “É um dos sintomas mais difíceis de tratar. O ajuntador não consegue se desfazer desses objetos e, quando é obrigado, o faz com muito sofrimento”, esclarece. As motivações também são distintas: enquanto o ajuntador se baseia numa espécie de prevenção para o futuro, quando aquele item poderá ser necessário - uma roupa que volta à moda, uma notícia que pode ser do seu interesse, uma possível escassez de alimentos - a motivação do colecionador é emocional. O produtor Sandro Dreher, por exemplo, é um aficcionado por miniaturas de ônibus. Ele já tem cerca de 300 exemplares em casa.


Viver

Jornal do Comércio - Porto Alegre

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22, 23 e 24 de janeiro de 2010

ARTES VISUAIS

Quem visitar São Paulo a partir de hoje terá uma grata surpresa: em seus 456 anos, a cidade será presenteada com a maior exposição a céu aberto do mundo. Pela segunda vez, entre esta sexta-feira e o dia 21 de março, a CowParade alegrará as ruas com um inusitado rebanho colorido e irreverente com cerca de 90 vacas em tamanho natural, feitas em fibra de vidro, criadas especialmente para o evento e assinadas por artistas plásticos, designers, grafiteiros e arquitetos que vivem na cidade. Nesta edição, a CowParade mostrará obras assinadas por Inez Saragoza, Sônia Menna Barreto, Maramgoní, Marcelo Faisal, Marcello Serpa, Hans Hossi, Morandini, Reynaldo Berto, Luciana Mariano, C. Sidoti, Antonio de Olinda, Glauco Diógenes, Lucas Pennachi, Toligadoboe, entre outros. No rebanho, uma vaca ciclista, uma grafitada, uma leitora e até uma vaca-escada ocuparão espaços da zona Norte à zona Sul. As vaquinhas estarão espalhadas em pontos de grande fluxo de público, como as avenidas Paulista, Oscar Freire, Cidade Jardim e também em estações do Metrô, rodoviárias, museus, shoppings, parques e praças. Os nomes e temas criativos das obras, em alguns casos,

Paixão pela diversidade

MAURO SCHAEFER/JC

A sobra como arte Raspas de tinta não costumam ser item de colecionador, mas a coleção exposta no apartamento do artista plástico Frantz não surpreende. Não apenas pela sua profissão: desde os anos 1980, ele abandonou a técnica para abraçar o olhar. A partir da observação do forro de seu atelier, onde dá aulas de pintura, passou a enxergar suas obras. Portanto, nada mais natural que o tubo em vidro que tem na sala de estar, repleto de raspas do seu trabalho. Ao lado delas, também estão livros repletos de bordas de telas, cores e texturas que normalmente seriam destinadas ao lixo. Frantz não se considera um colecionador. Mas, mesmo assim, não pode negar que o tubo ao lado da lareira é uma espécie de coleção. Há cerca de quinze anos, é para o objeto que vai o que ele não aproveita em sua obra. Mesmo assim, ele parece nunca encher. “A tinta pesa ali dentro, e vai comprimindo o que está embaixo”, explica o artista. E se a tinta chegar até a borda, haverá uma exposição? “Se o tubo encher, quando ele encher eu já vou estar em outra”, ri.

C p c a

Hoje expostos em um armário de vidro na casa do produtor, os ônibus de Dreher não devem sair de lá tão cedo para uma exposição. Pelo menos não sem um boa proposta. “Para levar eu preciso passar um dia embalando as peças, na volta mais um dia guardando. E não adianta, por mais que se cuide sempre se arranha alguma coisa. De graça não dá”, afirma.

010/D

também de outros veículos coletivos, como bondes, vans e micro-ônibus - ele pode se dizer satisfeito. Ou quase: Dreher está constantemente em busca de novas peças. Muitas delas ele consegue pela internet, através de lojas virtuais ou de outros colecionadores. Os preços variam. Enquanto algumas custaram menos de R$ 10,00, outras chegam perto de R$ 1.000,00.

Animais são comuns em coleções A coleção do estudante Guilherme Narcizo se assemelha à de Bernadete pelo foco nos animais. Mas se a cardiologista coleciona estritamente sapos, a diversidade é o que o encanta. “O quanto mais diferente, melhor. Não adianta ter vários bichos iguais. Bichos exóticos, bichos que eu ainda não tenho são o que os que eu procuro.” Aos dez anos, quando os colegas colecionavam cards e figurinhas, ele começou sua coleção de animais. “Sempre gostei de colecionar animais. Perto da minha casa havia uma loja de antiguidades, comecei olhando lá. Depois sempre aparecia uma tia que doava alguma coisa, e assim a coleção foi crescendo”, conta o estudante. Hoje com 20 anos, Guilherme já acumula mais de cem reproduções em porcelana das mais diversas espécies, de pinguins a galos. O seu favorito, não surpreendentemente, é um animal que ele nem ao menos sabe o nome.

GILMAR LUÍS/JC

De acordo com o produtor de televisão Sandro Dreher, o que motivou a sua coleção foi um desejo de infância. “Eu sempre quis ter um ônibus e nunca consegui. Isso até eu ganhar um, e depois disso abriram as fronteiras do Paraguai. Começaram a chegar muitas coisas da China, e aí a coleção foi se ampliando”, conta. Hoje dono de cerca de 300 miniaturas em ferro do veículo - e em minoria

IVUL GAÇ ÃO/J C

Parada inusitada

O desejo de infância

brincam com o termo “cow” gerando divertidos títulos que remetem à fantasia, chamam atenção para os problemas e para as belezas da cidade, homenageiam figuras pop, discutem assuntos atuais do dia-a-dia de uma das maiores metrópoles do mundo. Cowgestionamento, atenta para o calvário que é nosso trânsito; Cowçada, Vaca de Sampa, Pujança, Urbana, Vaca da Garoa estão entre as que homenageiam a cidade; Vaca Tattoo, Do Pasto à Passarela lembram as diferentes tribos que circulam incansáveis; Cicowvia, 100% Brasileira, Vá Carbono, Cowleta Seletiva falam de sustentabilidade, fazem lembrar que precisamos poluir menos e cuidar mais da cidade e do mundo; Micowjackson, Cowlorida, Cowfeína, Wooooodstock, confirmam que o bom humor persiste, mesmo dentro do caos. E é essa a proposta da CowParade, levar por onde passa a arte, beleza, integração, cultura e muita alegria. As obras em exposição foram patrocinadas por 27 empresas privadas, além das produzidas pela TopTrends, detentora dos direitos de produção do evento no Brasil, e no final da exposição, serão leiloadas. O resultado obtido vai para entidades beneficentes e ONGs.


COMPORTAMENTO

Modernas e emaranhadas Fernanda Bo!a, especial para o JC E-mails de assessores de imprensa sugerindo nomes para serem entrevistados sobre o universo feminino e suas dificuldades localizadas e planetárias não param de chegar. Faz sentido: o dia 8 de março, internacionalmente dedicado à mulher, está próximo, o que praticamente impõe a abordagem de temas como participação no mercado de trabalho, divisão das tarefas domésticas com os parceiros e, principalmente, a violência que ainda permeia as relações - mais em algumas regiões do País e menos em outras; mais em algumas regiões do planeta e menos em outras -, comprovando que a emancipação feminina ainda não se completou. Aliás, observando muito criticamente a caminhada feita até nossos dias - a partir de meados do século XX -, há quem acredite que, na realidade, o processo de libertação está vivendo um retrocesso e que um sintoma disso estaria nos jornais: o número de mulheres que são mortas por ex-companheiros inconformados com a separação. O ator Daniel Craig está entre os que afirmam que a emancipação da mulher já perdeu força. Sobre o assunto conversamos com a jornalista Claudia Aldana. Ela é autora da versão chilena de Carrie Bradshaw, personagem do seriado norteamericano Sex and the City, e seu livro 31 Profissão Solteira (Primavera Editorial, 295 páginas, RS$ 29,50) pode ser

comprado nas livrarias do Brasil. Sucesso de vendas no Chile, a obra traz uma coletânea dos principais artigos publicados na coluna semanal da escritora. Intitulada Treinta y uno, a coluna é publicada desde 2002 no jornal El Mercúrio e relata os encontros e desencontros da personagem Consuelo Aldunate, moderna, culta, com vida social intensa, um trabalho interessante, apartamento confortável e um guarda-roupa de sonho. Tudo parece perfeito, exceto pela falta do par ideal - que ela procura incessante-

mente nos bares de Santiago do Chile. A mulher moderna, independente e inserida no mercado de trabalho, não tem como prioridade buscar um compap p nheiro e constituir família. É nisso que muitos acreditam. Mas Consuelo, Carrie e Bridget Jones, personagem da escritora inglesa Helen Fielding cujo diário foi um grande

A jornalista chilena Claudia Aldana fala sobre as diÞculdades da mulher de hoje em seu país

êxito editorial e chegou às telas com Renée Zellweger no papel principal, parecem provar o contrário. O grande sucesso de público delas também sugere uma forte identificação das mulheres na faixa dos 30 anos, que é a média de idade das três personagens. Para Claudia Aldana, as manifestações das mulheres sobre o tema são dúbias. “Essa posição de independência emocional, essa arrogância do “eu não preciso de um homem” é um discurso que fomos construindo para nos mantermos na defensiva dos fracassos amorosos. Acho que as mulheres são exageradas; se temos que ser independentes vamos ao extremo absoluto de declarar que não precisamos de um homem”. Para ela, a busca pelo parceiro é natural e não define uma dependência. Nada tem a ver com a busca obsessiva, transformada em projeto de vida. “Quando conheço um homem não imagino como vão ser os nossos filhos. Uma coisa é ser solteira. Outra, muito diferente, é o estado civil de desesperada”, acredita a jornalista. No Chile, afirma Claudia Aldana, essa obsessão parece uma constante. Lá, as mulheres são muito diferentes, segundo ela, da brasileira, que “atrai (e nos intimida), porque sabe quem é - e o que tem ao seu favor. Nós, chilenas, somos mais inseguras; tentamos mais agradar do que ser agradadas. Talvez porque a nossa sociedade é mais rígida e nos ensina o que devemos ser - uma gueixa para que os homens queiram

+ con!ira Moto Cinema: bate-papo sobre o motociclismo no Cinema. Na Fnac (Diário de Notícias, 300), às 19h30min. Entrada franca. !

Dizplay e Caixa Acústica: pop rock nacional e internacional dos anos 1980. No John Bull Pub (Cristóvão Colombo, 545), às 22h. Ingresso Fem.: R$ 12,00. Ingresso Masc.: R$ 18,00. !

Oitentalha: pop rock nacional e internacional dos anos 1980. No Revolution Music Pub (Plínio Brasil Milano, 75), às 21h. Ingresso: R$ 15,00. !

Chairs Summer Lounge: festa house com os DJs Diogo Lopes e Rodrigo M. No Chairs Resto Lounge (Dr. Barcelos, 431), às 22h. Ingressos entre R$ 15,00 e R$ 45,00. !

Jueves Pa’bailar: show com a banda flamenca Tirititrá. No Tablado Andaluz (Osvaldo Aranha, 476), às 22h. !

Ingresso: R$ 8,00. Lila e Skin: show de jazz, pop e blues. No Cult Pub (Comendador Caminha, 348), às 18h. Ingresso: R$ 10,00. !

DJ Express Vibe Mix: festa de e-music em que qualquer um dos clientes pode ser o DJ. No La Bodeguita (Lima e Silva, 426), às 22h. Para participar, envie e-mail para sjayprodutora@hotmail.com e receba o regulamento. !

Make Up: festa de rock. No Cabaret do Beco (Independência, 590), às 23h. Ingresso: R$ 10, 00, ou R$ 6,00 com nome na lista do site (http://www.beco203. com.br). !

MODern Times: festa estilo mod com discotecagem do trio Bande à Part e dos DJs convidados Cabelo e B. Rock. No Películas Café (Santana, 632), às 23h. Ingresso: R$ 7,00. !

BETANIA LINS/DIVULGAÇÃO/JC

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Jornal do Comércio - Porto Alegre

Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

você. Não valorizam o que desejamos ser”, explica a escritora. Na verdade, ela acredita que as chilenas são “mais complicadas do que a maioria das mulheres. Há um monte de neuroses sobre os homens e é por isso que estamos em um estado de solteirice terminal quando completamos 25 anos”. O problema estaria na sociedade, ainda machista e conservadora. “Quem chega a essa idade solteira transforma-se em “assunto” recorrente. Acho que, no Chile, a igualdade entre os sexos está avançando no campo sociopolítico, pois temos uma mulher na presidência (Michelle Bachelet), mas no terreno sentimental segue sendo um mundo de homens”.

Sobre Consuelo Aldunate em relação às outras personagens, Claudia faz uma ressalva: não vê tanta semelhança entre sua criação e a colunista de Sex & The City: “Se você assistir à série perceberá que ela é muito mais aberta para as questões da sexualidade feminina. As colunas de Consuelo Aldunate, por seu lado, tratam da afetividade, da questão emocional, dos emaranhados que cada mulher constrói. Ela valoriza mais esses aspectos do que os pormenores da cama”. A jornalista acredita que sua personagem é mais parecida com Bridget Jones. “São mulheres mais racionais do que de ação. Ficam no planejamento e na teoria. E se perdem na ação”.

Unesco lança livro para incentivar leitura e alfabetização A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lançou ontem o livro Alfabeto da Esperança: Escritores pela Alfabetização, pelo Incentivo à Leitura. A publicação reúne textos de 15 escritores de várias nacionalidades, entre eles os brasileiros João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho e Cristovam Buarque. Ela faz parte da iniciativa Escritores pela Alfabetização, promovida pela Unesco no âmbito da Década das Nações Unidas para a Alfabetização (2003 - 2012). Durante a cerimônia, um grupo de estudantes fez uma leitura dramatizada de textos do livro que relatam experiências bemsucedidas de alfabetização.


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Jornal do Comércio - Porto Alegre

Terça-feira, 7 de abril de 2009

+ PORTO ALEGRE

Panorama !

Tórtora gosta da harmonia entre o antigo e o moderno, que podem ser comprados através do cartão de crédito

As canções têm a sonoridade andina, mas o Þgurino é dos índios norte-americanos ANA PAULA APRATO/JC

usa cartão de crédito e débito da bandeira Visa, ensaiam ares de shopping a céu aberto para a feira. De acordo com Evilázio Domingos, a implementação dos cartões fez com que as vendas subissem em 20%. Em média, o grupo de expositores tem um retorno de cerca de R$ 15 mil por domingo. Mas faz uma ressalva: “Em um domingo normal, sem chuva e fora do período de férias”. O uso do cartão é uma mudança condizente com os tempos atuais, em que andar com dinheiro vivo se tornou arriscado. É também uma demonstração da maturidade do Brique da Redenção, hoje marca gerenciada por seus maiores interessados - os comerciantes.

MAURO SCHAEFER/JC

MATEUS BRUXEL/JC

Em abril de 1982, ele surgiu pequeno. Com outro nome e sem apoio da prefeitura, reunia apenas 40 artesãos, duas cooperativas, duas escolas especializadas e um grupo do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Após quase três décadas, cresceu exponencialmente. O Brique da Redenção, antiga Feira do Bom Fim, hoje reúne 182 artesãos, 40 artistas plásticos e mais outros 80 expositores, dos quais 70 pertencem ao setor de antiguidades e 10 ao de alimentos. Não mais evento, tornou-se, ao longo dos anos, tradição para os porto-alegrenses e parada obrigatória de visitantes. Mas o que leva o porto-alegrense a visitar a feira, domingo após domingo? Será apenas o passeio? Para o artista plástico Osvaldo D. Tórtora,, esse é um p ponto alto. “É a liberdade de caminhar em um parque, trazer os amigos e ver antiguidades, arte e artesanato.” Mas e as vendas? Como os expositores, muito deles de longa data, fazem para se renovar e chamar a atenção dos passantes? O artesão Evilázio Domingos, que há 23 anos expõe e participa da Comissão Deliberativa da feira, explica que uma triagem de expositores é realizada periodicamente. O objetivo é a manutenção da qualidade. Ele acrescenta que, nos últimos seis anos, 40% do artesanato foram renovados. No entanto, isso não é suficiente para chamar a atenção dos visitantes. Parece haver consenso, entre os expositores, que oferecer novidades é essencial. Evilázio, como muitos de seus colegas de feira, dedica-se exclusivamente ao artesanato e diz que produz de duas a três peças por semana. “A renovação é necessária, o público é muito frequente”, afirma. Já Osvaldo, famoso por seus cartões artesanais, ampliou sua produção nos últimos anos. Hoje também vende quadros e dioramas, miniaturas de ambientes tão distintos quanto palcos musicais e oficinas mecânicas - todos feitos com materiais recicláveis.

Na mesma linha, passou a criar recentemente porta-lápis, “até para ver a reação do público”. A busca pelo novo se estende ao setor de antiguidades e alimentos. A baiana Maria Célia Santos Ribeiro é um exemplo disso. Apesar de a banca Pedacinho da Bahia, que coordena há sete anos, já ter destaque próprio - vende comidas típicas de outro estado - ela sempre busca oferecer novos quitutes. “Justamente por ser diferente, não dá para introduzir tudo de uma vez. Começamos com acarajé e cocadas, depois passamos a oferecer cuscuz, pamonha e sucos diferenciados, como os de caju, cajá, açaí, graviola e cupuaçu. Tem que ser aos poucos; e não dá para ficar na rotina”, conta. E, se alguém disser que novidade não combina com antiguidade, certamente o expositor Juan Daniel Estevez irá discordar. O antiquário dedica-se sempre a buscar itens autênticos e diferentes, em leilões e viagens ao redor do mundo. Mas já constatou que, “apesar de haver muito público, os compradores vêm mais a passeio”. Além disso, precisamente por causa de seu empenho pessoal, revolta-se por causa do que chama de política de gato por lebre e conta que, no Brique da Redenção, é frequente que se venda cópia como antiguidade. “Nada contra a reprodução, desde que se esclareça que é reprodução”, explica. E como o público percebe a feira e as novidades? As opiniões são contraditórias. Há quem a visite com assiduidade e perceba mudanças. Este é o caso de Jonathan Cavalheiro,, p paulista radicado em Porto Alegre. “É uma coisa constante, mas dependendo da época, ou da estação, você vê alguns produtos e cores diferentes”, afirma. Já a porto-alegrense Meri Luzia Boettger diz que não nota inovação. Também acha que não há variedade na oferta de produtos: “Muita porcelana, muito trabalho em arame. Tem muita coisa repetida”. Mas todos hão de concordar em um ponto. Os postos de atendimento instalados ao longo da avenida, para quem

CLAUDIO FACHEL/JC

Fernanda Bo!a, especial JC

MAURO SCHAEFER/JC

Tudo isso acontece no Brique da Redenção

Evilázio Domingos, preocupado com a qualidade e a diversidade Publicação do Jornal do Comércio de Porto Alegre

Editor-Chefe: Pedro Maciel ! Editora de Cultura: Maria Wagner

!

Editora de Imagem: Beth Bottini ! Projeto gráfico: Aluísio Pinheiro ! e-mail: cultura@jornaldocomercio.com.br ! Av. João Pessoa, nº 1282 ! Fone: 3213-1367


Viver

Jornal do Comércio - Porto Alegre

29, 30 e 31 de maio de 2009

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MERCADO DE TRABALHO

Fernanda Bo!a, especial para o JC Seja você mesmo. Esse é o conselho para quem, na busca de uma vaga no mercado, passa por exames grafológicos, de estudo da letra manuscrita, e psicológicos. De acordo com psicólogos e grafólogos, se o candidato ousa manipular os resultados, a tentativa será notada. “Traços de insinceridade são revelados dentro do estudo”, afirma a grafóloga Rosemary Gonçalves, que pesquisa, presta consultoria e ministra cursos na área. Vogais abertas para baixo ou para cima, e a escrita feita em arcos ou sinuosa, com inclinação para a esquerda, ou lenta, podem indicar falsidade. Mas Rosemary acrescenta que mais evidências são necessárias. Na psicologia, esses traços são notados tanto nos testes quanto nas entrevistas. Embora

CLAUDIO FACHEL/JC

Rosemary Gonçalves aÞrma que a grafologia é uma ciência e deve ser encarada como ferramenta que ajuda o candidato e a empresa

diga que não pode revelar como isso ocorre nos exames, exceto apontar que possuem escalas de validade que apontam a manipulação, a psicóloga Roberta Lopes do Nascimento afirma que durante a conversa algumas respostas são padrão entre os candidatos. Membro do corpo clínico do Núcleo Médico Psicológico, que atende a empresas em fase de recrutamento, avaliação e treinamento de funcionários, ela diz que aumentar qualidades para que pareçam defeitos, na hora de apontar as próprias falhas, é uma prática frequente. A artimanha, já manjada para os recrutadores,, mais p prejudica j do que ajuda o candidato. “É melhor dizer ‘sou ansioso’, do que dizer ‘sou perfeccionista’. Sempre ouvimos isso, os defeitos são sempre os mesmos”, diz Roberta. E quando a espontaneidade pode implicar perda de vaga? E se aquela particularidade, que parecia irrelevante, for decisiva para uma possível desclassificação? Para Regina M. Lopes, também psicóloga do Núcleo Médico Psicológico, os testes beneficiam ao apontar o que é

melhor não só para a empresa, mas também ao candidato. Isso inclui a possibilidade de orientação, caso algum desequilíbrio seja detectado. “Para o bem do candidato, que com um mês ou dois de tratamento já pode estar mais estruturado. Até para que não se prejudique no mercado ficando pouco tempo na empresa por não aguentar a pressão.” Rosemary afirma que é dever da grafologia indicar ao candidato a vaga que ele deve ocupar. Ela acrescenta que características normalmente vistas como negativas, como o nervosismo, podem ser positivas para alguns cargos. Tudo depende do tipo de atividade que o candidato deverá desempenhar. Nem todos concordam. Na verdade, tanto a testagem grafológica quanto a psicológica é motivo de controvérsia - por diferentes motivos. A grafologia ainda divide opiniões. Pelos grafólogos, é definida como ciência. “A grafologia revela a personalidade. Traços íntimos, atitudes, tudo o que a pessoa está buscando. Não tem a ver com o futuro. Não é adivinhação. É uma ciência e bem respeitada”, assegura Rosemary. A ferramenta é bem-vista também por profissionais de recursos humanos, por sua eficácia nas seleções de candidatos. De acordo com a União de Recursos Humanos do Brasil (UniRHBR), empresas que a usam registraram diminuição de mais de 35% na rotatividade de pessoas, mas a comunidade científica ainda a classifica como pseudociência. O psicólogo e pesquisador canadense Barry Beyerstein, um de seus maiores críticos, atribui aos grafólogos ideias que vão pouco além da magia simpática. “Acho escandaloso que um

MATEUS BRUXEL/ARQUIVO/JC

A letra diz quem somos?

método pseudocientífico como a grafologia seja usado para tomar decisões que podem afetar seriamente a perspectiva de vida e reputação das pessoas”, disse em entrevista ao programa de tevê Scientific American Frontiers. Já os testes psicológicos, normalmente associados à obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou a triagens para concursos públicos, também vêm ganhando espaço no recrutamento de empresas privadas. No entanto, geralmente são usados não apenas para detectar falhas que impeçam a ocupação do cargo, mas também para selecionar um perfil específico, que reúna

as características desejadas no futuro ocupante do cargo. A polêmica já começa nesse perfil. Luciano Augusto de Toledo Coelho, juiz federal do Trabalho do Paraná, que analisa casos de testes psicológicos e chama a atenção para possíveis critérios discriminatórios. Um caso conhecido é o de um delegado da Polícia Federal. Embora aprovado em concurso público em 1993, ele só conseguiu assumir o posto em 2007, porque foi reprovado na segunda etapa de um teste psicotécnico, em que não atingiu “determinado grau de heterossexualidade”. O teste aplicado na época foi descontinuado.

As avaliações psicológicas se dividem em três categorias: expressivas, psicométricas e de personalidade ou projetivas. Especialmente as projetivas preocupam Coelho, também bacharel em Psicologia e autor do livro Responsabilidade pré-contratual em Direito do Trabalho, porque entram na intimidade do candidato. “Nesse caso, o cuidado deve ser extremo. Não defendo a proibição de testes, sei que são importantes. Todavia, o cuidado ao aplicar e a necessidade de se dar um retorno ao candidato sobre o assunto, esclarecendo mesmo, não são observados”, aponta. Embora afirme que a devolução com os devidos esclarecimentos acerca do resultado seja procedimento padrão no Núcleo Médico Psicológico, Roberta observa que a conduta adotada pela clínica não chega a ser regra: “Tem empresas que, às vezes, pelo grande fluxo de testagens, não dão retorno em nível de competência. Apenas dão o retorno se o candidato passou ou não. As pessoas são curiosas, e isso

cria uma fantasia em torno da própria avaliação psicológica”. Para Coelho, o candidato se sujeita à exposição em função da alta competitividade do mercado e dificilmente recorre à Justiça quando tem seus direitos violados. “O candidato a emprego normalmente não aciona a empresa, até porque tem receio de ser prejudicado em outro processo seletivo. Em regra, a discussão envolve a validade do teste, geralmente em empresas públicas é mais comum aparecer p p tal demanda”, revela. É uma das diversas polêmicas acerca do tema. Coelho se diz aberto para discussão. Mas faz uma ressalva: “Divulguei meu trabalho, através do livro, para os psicólogos, o pessoal de RH, mas nunca fui chamado para um debate e também nunca fui contestado. De certa forma, a meu ver, no fundo os profissionais de recrutamento e seleção têm receio de discutir esse assunto, porque tem muita coisa errada nessa área”. Esse pode ser um começo.

GABRIELA DI BELLA/JC

Uma questão delicada que gera polêmica

Roberta do Nascimento e Regina Lopes, psicólogas


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Quinta-feira, 16 de julho de 2009

Jornal do Comércio - Porto Alegre

Og gênero fantástico faz escola

FANTASPOA/DIVULGAÇÃO/JC

CINEMA

João Pedro Fleck é um dos idelizadores e produtores do Fantaspoa Fernanda Bo"a, especial para o JC

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aturidade. Esta é uma boa palavra para definir o V Fantaspoa (Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre), que encerra sua programação nesse domingo. As salas P.F. Gastal, Norberto Lubisco, CineBancários e Santander Cultural, que estão exibindo as atrações do festival, têm recebido um público considerável – o que gera certo contraste com a edição anterior, que teve algumas sessões canceladas por falta de público. Apesar da estranheza que o gênero fantástico possa causar por conta de tramas macabras, bizarras e até mesmo sangui-

nolentas, o mais comum é ver o público enchendo as salas do que abandonando o filme na metade por falta de estômago ou mero desaviso. Durante as exibições, também é possível observar um público heterogêneo, que reúne de estudantes universitários, habituais nesse tipo de evento, a aposentados, com presença tanto inusitada quanto expressiva. As razões para essa mudança são várias. A primeira provavelmente reside na redução de cinco para quatro salas de cinema, sem cortes na programação. A quinta sala, antes dedicada aos curtas-metragens, foi excluída, e esses filmes foram exibidos todos juntos no final de semana de abertura. “Foi uma ideia que eu tive logo que o festival do

ano passado acabou. Uma parte grande do nosso público gosta de ver todos os filmes”, revela João Pedro Fleck, de 26 anos, que organiza o festival desde sua primeira edição em parceria com Nicolas Tonsho, de 23. O segundo motivo está na divulgação, que nesta edição contou com um jornal próprio, com todo o programa do festival, além do bom apoio p da imprensa p em geral. g “É uma maravilha para a gente poder escolher os filmes. No outro ano, era uma confusão para conseguir se organizar”, elogia a professora aposentada Aida Wailer Ferrás, 76 anos, frequentadora assídua do Fantaspoa. Mas faz uma ressalva: sugere a distribuição de panfletos nas ruas, para que o festival se popularize, amplie seu alcance. “Se não, quem é que vai? Sempre as mesmas pessoas”, afirma. A formação de um público cativo também é considerada um dos ingredientes para o sucesso do festival. “Tem uma molecada que cresceu com o Fantaspoa. Começaram a vir aos quinze anos, e hoje estão na faculdade. Alguns que curtiam só os filmes de terror americano, no estilo Sexta-Feira Treze, hoje falam comigo sobre Mario Bava, um

mestre do terror italiano”, conta Cristian Verardi, 34 anos, curador dos curtas ao lado de Vasco Siegman. Mas isso não significa que o Fantaspoa não conquiste novos frequentadores, por diferentes motivos. Um bom exemplo é o da estudante Larissa Souza Gasparin, 18, e do jornalista Rodrigo Juste Duarte, 33. Enquanto Larissa se inicia no meio cinematográfico – exestudante de psicologia, cogita agora cursar cinema – Rodrigo já tem contato de longa data com ele, por trabalhar no meio cultural. “Eu me interesso muito por curtas-metragens”, revelou Larissa na saída de Decididamente Animados: Não Somos Máquinas. Já Rodrigo, que

veio de Curitiba para passar as férias, aproveitou para cobrir o festival de forma independente e acabou sendo chamado para o júri da mostra competitiva. “Um dos jurados me convidou, e eu gostei muito da seleção. O material está muito bom. Inclusive estamos com dificuldade para escolher”, conta. Neste ano, o festival foi dividido em seis mostras: curtas-metragens, França Fantástica (em homenagem ao Ano da França no Brasil), Kit Parker (com filmes de um distribuidor especializado no gênero), competição internacional (com 33 longas), Buenos Aires Rojo Sangre (com filmes do festival argentino) e uma seleção de documentários de vários países.

FANTASPOA/DIVULGAÇÃO/JC

GILMAR LUÍS/JC

O Þlme Os Visitantes da Noite, de Marcel Carné, é um dos clássicos franceses em exbição

The Machine Girl é uma produção de terror japonesa da mostra competitiva

Consolidação no cenário internacional Um ponto importante é o renome internacional que o festival vem conquistando. Entre outros feitos, a organização do Fantaspoa participou ativamente da criação de uma liga latino-americana de festivais de cinema fantástico, a Fantafestivales. Através da Fantafestivales, conseguiu parceria com a Méliès, federação europeia de festivais de filmes fantásticos, considerada a maior vitrine do gênero no mundo todo. Na edição deste ano, entre outros cineastas, o festival recebeu o argentino Hernan Findling e neo-zeolandês David Blyth, que além de apresentar quatro longas-metragens, entre eles o documentário Amarrados por Prazer, sobre o mundo do sadomasoquismo, e o cult oitentista Guerra Para a Morte, ministrou um workshop de roteiro, direção e produção. Ele orientou

Panorama !

os alunos na produção de três curtas-metragens, que serão exibidos ao final do festival, na sala CineBancários. Receber um diretor estrangeiro é a consolidação de um processo iniciado ainda no terceiro ano do festival, quando os organizadores decidiram incluir na programação uma mostra competitiva de curtas-metragens em nível internacional. “Foi aí que nós vimos que tínhamos uma possibilidade. Foi neste ponto que eu cheguei e falei para o Nicolas: agora, ou a gente para com isso ou tenta seguir”, afirma João Pedro. Os problemas enfrentados na edição de 2008 parecem, no máximo, proporcionais ao salto dado pelo festival, que então realizou pela primeira vez uma mostra competitiva internacional de longas-metragens - a maior em um festival de

gênero na América Latina, com um total de 42 filmes concorrentes. Se depender de paixão e força de vontade, o Fantaspoa só tem a crescer. “Essas coisas todas quem faz somos nós mesmos, e a gente faz isso porque ama o cinema, ama com toda a força que temos, e possibilitamos que outras pessoas tenham contato com filmes que até o ano passado elas não imaginavam que poderiam existir”, diz João Pedro, que ao lado de Nicolas não só assume a direção, mas realiza uma série de atividades, como legendar os filmes ou distribuir chocolates na porta do cinema. Tudo isso sem mencionar o investimento financeiro. No ano passado, a dupla chegou a conseguir o apoio da Lei Rouanet para capturar R$ 260 mil, mas nenhuma empresa manifestou interesse em patrocinar

o festival. Os R$ 18 mil gastos na edição desse ano saíram de seus próprios bolsos. O organizador não titubeia quando entra em questão todo o esforço para realizar o festival. “A gente se desgasta, a gente se mata, eu estou quase sem dormir, o Nicolas está quase sem dormir... Mas veja o que acontece: nesse momento, nesse exato momento, a gente está fazendo com que 80 pessoas vejam um filme que elas provavelmente nunca iriam ver. Não estou dizendo que elas dificilmente iriam ver, porque muitos dos filmes do festival não estão nem disponíveis na internet. Eles não seriam vistos nunca no Brasil se não fosse pela gente”, finaliza. ConÞra as atrações do Fantaspoa no site oÞcial www.fantaspoa.com

Publicação do Jornal do Comércio de Porto Alegre

Editor-Chefe: Pedro Maciel Editora-Assistente: Mônica Kanitz !Editora de Imagem: Beth Bottini !Projeto gráfico: Aluísio Pinheiro !e-mail: cultura@jornaldocomercio.com.br !Av. João Pessoa, nº 1282 ! Fone: 3213-1367 !


anorama P Porto Alegre, quarta-feira, 19 de agosto de 2009 - Nº 47

CLAUDIO FACHEL/JC

NO PALCO

A

lguns acreditam que Elvis não morreu, mas todos têm certeza de Chuck Berry está bem vivo. Se a eterna discussão acerca do título de rei do rock ainda divide os fãs do gênero – os defensores de Berry, apontado por muitos como o inventor do ritmo, alegam que Presley foi eleito por ser branco –, o roqueiro demonstra estar muito bem aos 82 anos. De volta a Porto Alegre, ele traz consigo a promessa de mais um show contagiante. Em junho do ano passado, ele apresentou com ânimo invejável clássicos como Memphis, Roll Over Beethoven, Havana Moon, Wee Wee Hours, Maybellene, Route 66 e Sweet Little Sixteen em um Pepsi On Stage lotado. Embora a crítica tenha reclamado de alguns erros em notas, solos e até mesmo letras, o público de quase três mil pessoas parecia não dar qualquer importância a estes detalhes. No máximo, reclamou a falta do duck walk, provavelmente deixado de lado em função da idade avançada. O movimento, no qual ele empunhava a guitarra pulando em uma das pernas, movendo a outra para frente e para trás, tornou-se a marca registrada de Berry. Nesta quinta-feira, ele se apresenta no Teatro do Bourbon Country ao lado dos filhos Chuck Berry Jr. (guitarra) e Ingrid Berry Clay (gaita e vocal). Na banda também estão James “Jim” Bassala (baixo), Bob Lohr (piano) e o brasileiro Maguinho Alcantara (bateria), que faz participação especial. Apesar de Berry ter excursionado largamente pela Europa em 2008, neste ano as viagens internacionais só incluem o Brasil. Depois de uma apresentação particular em Mônaco, fora dos Estados Unidos sua agenda vai se restringir a São Paulo, onde se apresenta hoje, Porto Alegre (amanhã), Belo Horizonte (sexta-feira) e Fortaleza (sábado). Ele ainda toca regularmente no Blue-

berry Hill, clube de St Louis, Missouri, sua cidade natal, reunindo fãs de todo o mundo. Apesar de não produzir material inédito há mais de 20 anos - seu último lançamento foi o disco ao vivo In Concert, em 2002 - Berry ainda atrai um grande público pelo seu caráter mitológico. Na década de 1950, ele fez negros e brancos dançarem. Em uma época em que os conflitos raciais ainda assolavam os Estados Unidos, o mestiço de negro e índio levou para o resto do país um ritmo considerado imoral. Com riffs mais rápidos que o blues caipira tocado por seus conterrâneos, criou algo novo – logo batizado de rock and roll, gíria negra para a dança e o sexo. Contemporâneo de Etta James, Muddy Waters e Little Richard, influenciou nomes como os Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e o próprio Elvis. E embora a polêmica ainda cerque o trono do rock, duas frases de John Lennon são esclarecedoras. Ao passo que o líder dos Beatles tenha dito “Antes de Elvis, não existia nada”, ele também declarou que “se o rock and roll tivesse outro nome, esse nome seria Chuck Berry”. Apesar do debate, o certo é que Elvis ditou o estilo roqueiro. Garoto branco de voz negra, ele popularizou o rock’n’roll para a classe média americana nos anos 1950. Mas se fez isso, foi porque Berry reuniu seus elementos primordiais. Ao alcançar as paradas de sucesso cantando e tocando guitarra, o que até então era uma fórmula desconhecida, o hoje octagenário mudou a história da música e da cultura popular para sempre. Chuck Berry – No Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), quinta-feira, às 21h. Os ingressos, entre R$ 90,00 e R$ 300,00, estão à venda na bilheteria do teatro (de segunda a sábado das 14h às 22h) e pela tele-entrega 8401-0555 ou 3299-0800.

Uma lenda viva do rock


anorama P Porto Alegre, quarta-feira, 16 de setembro de 2009 - Nº 62

JERRY LEE LEWIS SMUGMUG/DIVULGAÇÃO/JC

OPINIÃO PRODUTORA/DIVULGAÇÃO/JC

Sua habilidade ao piano permanece incontestável

Fera do rock mostra seus clássicos Fernanda Bo!a, especial para o JC Agora só falta Little Richard. Porto Alegre, que há menos de um mês recebeu Chuck Berry, agora tem a chance de ver Jerry Lee Lewis de perto. O Matador, como é conhecido, ao lado de Berry e Richard compõe a santa trindade dos fundadores do rock and roll ainda vivos. E ele sabe disso. O título de seu último disco inédito, Last Man Standing g (2006), é uma clara referência à geração dos anos 1950 da Sun Studios. De Johnny Cash a Elvis Presley, todos os seus colegas de gravadora já morreram. Coube a ele ser “o último homem em pé”. Do alto de seus 73 anos, Lewis encara a tarefa com tranquilidade. O último trabalho, aclamado por público e crítica, reúne clássicos do rock em duetos do músico com outros gigantes. No time estelar que reuniu, figuram nomes como Jimmy Page, Buddy

Guy, Eric Clapton, Neil Young e o próprio Little Richard, em uma versão de I Saw Her Standing There, dos Beatles, que faria os fab fourr – crias do rockabilly e fãs assumidos – chorarem copiosamente. Aliás, Ringo Starr assume a bateria em uma versão do clássico Sweet Little Sixteen, de Berry. No entanto, para alguns o sossego pode ser traduzido como cansaço quando se fala de sua performance ao vivo. Cansaço justificado, com a idade e o tempo de trabalho que carrega, sem nunca deixar de excursionar. Mas ainda assim imperdoável para quem imagina ver um Lewis incendiário chutar o banquinho e martelar o piano de pé. Embora sua habilidade no instrumento permaneça inconteste, hoje ele toca sentado. O corpo não mais acompanha o movimento frenético das mãos, e o olhar por vezes vagueia. As músicas são executadas de forma exata, com início, meio e fim. O músico perdeu o costume de acelerar, diminuir o ritmo ou mesmo

interromper por completo suas canções. E esse é o show que a Capital gaúcha deve assistir hoje, no Pepsi on Stage. Sem expectativas, mas também sem esquecer a importância de Lewis. Embora não reafirme mais no palco, o compositor é maior que a canção. Autor de sucessos como Great Balls of Fire, Breathless e Whole Lotta Shakin’ Goin’ On, o roqueiro estadunidense marcou um capítulo importante do gênero e da história. Sua trajetória, retratada no filme Great Balls of Fire!, ((A Fera do Rock, no Brasil) foi marcada pela quebra de tabus. Nascido em Ferriday, no conservador estado de Lousiana, ele chocou o país não só por estar na linha de frente de um movimento tido como imoral. Em 1958, a imprensa descobriu seu casamento com Myra Gale Brown, sua prima de segundo grau, na época com apenas 13 anos. A relação ganhou ares de escândalo público, e ele teve uma turnê cancelada.

Lewis foi praticamente banido do cenário musical, onde já colecionava impedimentos. Muitas rádios já o boicotavam pelo forte apelo sexual de suas canções. Como Cash e, mais tarde, Richard, todos profundamente religiosos, ele mesmo desconfiou do poder possivelmente satânico do rock’n’roll. Verdade ou mito, ele não tardou a retornar ao topo das paradas e hoje reafirma seu posto como figura seminal do gênero. Afinal, apesar de ter na guitarra o seu maior símbolo, o rock não seria o mesmo sem o tresloucado piano de Lewis. Jerry Lee Lewis: hoje, às 22h, no Pepsi on Stage (avenida Severo Dullius, 1995). Ingressos: plateia A (1º lote): R$ 200,00; plateia B (1º lote): R$ 150,00; pista (1º lote) R$ 80,00, mezanino (1º lote): R$ 120,00; camarote para 6 pessoas: R$ 1500,00. Pontos de venda: Spazio Diadora (Padre Chagas, 306) e Opinião (www. opiniaoingressos.com.br).


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JCFeira do Livro

Segunda-feira, 16 de novembro de 2009

FOTOS PEDRO REVILLION/JC

ENTREVISTA

Despertando o imaginário infantil Adriana Lampert Sucesso entre a criançada, Léia Cassol lançou o 5º título da coleção Beto e Fê, pela editora Cassol. As Aventuras de Beto e Fê – O Último Guardião é seu 15º livro. Paranaense de São Miguel do Iguaçu, Léia escolheu morar em Porto Alegre há 19 anos e aqui iniciou sua carreira de contadora de histórias, em 1996. Em entrevista ao JC Feira do Livro, ela fala sobre seu trabalho e antecipa o que os leitores irão encontrar nas 119 páginas de seu mais recente título. JC Feira do Livro - Teu trabalho como contadora de histórias influencia teu estilo de escrever para as crianças? Léia Cassol - Com certeza. Meu trabalho vem bastante da oralidade, talvez seja isso que faça com que meus livros tenham uma linguagem um pouco diferente. As crianças me comentam que quando leem meus livros parece que estão me ouvindo falar, porque tem o mesmo ritmo da contação.

JC Feira do Livro - Tu passas mais tempo escrevendo ou trabalhando com contação de histórias? Léia - Escrevo por prazer, mas meu trabalho é contação de histórias - mais em escolas do que em feiras de livro de municípios. Em um ano faço em média 700 oficinas de contação de histórias para crianças e 100 oficinas para professores. JC Feira do Livro - De onde vem a inspiração para escrever para o público infantil? Léia - Muitas ideias que coloco no papel têm origem na imaginação g ç das crianças ç q que convivo durante as oficinas. Às vezes elas me dizem uma coisa “nada a ver” no meio da contação de histórias que posteriormente me dá uma ideia para p inserir nos livros. JC Feira do Livro - O Último Guardião tem como cenário as Missões. No texto encontra-se um pouco de História do Rio Grande do Sul? Léia - Exatamente, mas de História mesmo, são só pinceladas para estimular o interesse das crianças. O Rio Grande do Sul nasceu nas Missões, quando

os padres jesuítas chegaram, em torno de 1620. O gado, que até hoje serve de base econômica para o Estado, foi introduzido nas Missões. E é muito difícil contar isso para as crianças quando elas estão na 4ª série. Percebi que cada vez que eu ia em uma escola contar história para as quartas séries, essa era uma parte bastante difícil para eles. Então é exatamente sobre isso que eu acabo fazendo uma abordagem no livro, sobre as duas épocas da redução e sobre a redução de São Miguel Arcângelo - que foi a principal. Este é um pouquinho da História que se passa no livro, o nome do capítulo é “Muito além do livro do colégio”. JC Feira do Livro - Qual é a aventura que os protagonistas vivem por lá? Léia - A Fê vai passar o anonovo nas Missões, porque ela não quer ficar com o pai, que arrumou uma namorada nova. Então acontece uma porção de coisas por lá e eles protagonizam uma aventura que se passa em uma determinada época de um período reducional. JC Feira do Livro - Pode-se

Léia diz que muitas ideias vêm da imaginação das crianças dizer que inserir estas informações é um dos critérios? Léia - Sim, sempre gostei de História. O barato de escrever é saber que depois de elas lerem o livro elas vão ir além do que

está escrito ali. Em O segredo da Moeda eu cito uns túneis subterrâneos em Porto Alegre - então eles ficam curiosos,, querem q saber onde estão estes túneis... É muito gratificante.

LANÇAMENTO

Clássicos da literatura adaptados para as histórias em quadrinhos Fernanda Botta, especial para o JC Está na hora de a arte sequencial ser vista como linguagem própria e reconhecida, muito além da classificação de gênero menor que lhe é historicamente atribuída. Essa foi a conclusão do bate-papo com Sérgio Alves, editor da série Literatura Brasileira em Quadrinhos da Editora Escala. No evento, misturavamse entusiastas e curiosos. No primeiro grupo estava Carlos Francisco Morais, de Cachoeira do Sul. Historiador de formação, é roteirista da revista de quadrinhos independente Alexandria. Apesar de ter nutrido desde a infância um amor pelo desenho, nunca chegou a desenvolvê-lo. “Com a História acabei ficando nas letras”. Ele também consome e produz a literatura que muitas vezes revela preconceito com os quadrinhos. A série da Escala, lançada

em 2007, abriu portas para lançamentos. Agora já é possível encontrar títulos da literatura internacional e adaptações de momentos históricos para esse formato, como Contos de Tchekhov, e A Primeira Guerra

Mundial em Quadrinhos. De acordo com Alves, a iniciativa é um sucesso editorial graças ao que chama de “boom dos quadrinhos”. O crescimento desse nicho do mercado editorial possibilitou uma mudança de perspectiva em

Alves ressalta reconhecimento do gênero como forma de arte

relação ao gênero. Mas não apenas no que se refere ao seu uso em sala de aula, ou numa possível substituição do texto integral pela adaptação em quadrinhos pelas crianças, ainda temida por alguns educadores. Até mesmo porque o Ministério da Educação tem participação importante nesse cenário no Brasil. De 600 títulos distribuídos para o ensino público, 23 eram histórias em quadrinhos. Além de chamar a atenção para o fato de que a série publica adaptações e não reproduções – como acontece no cinema e na televisão – Alves aponta para o reconhecimento dos quadrinhos como gênero independente, dissociado da arte e da literatura. Apesar de utilizar-se de ambos, o faz com técnicas e méritos próprios. “O quadrinho trabalha com a imagem e o texto, articula os dois. E assim oferece um aspecto visual muito interessante. Um objeto não é descrito, ele está ali.

Não há uma versão minha ou sua dele”, enfatiza. Morais, por sua vez, ressalta o reconhecimento que Neil Gaiman vem conquistando junto à crítica internacional. Gaiman, autor de romances como Coraline, Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, em 1991 venceu o prêmio World Fantasy Award com uma história da série de quadrinhos que o fez famoso, Sandman. Foi a primeira e única vez que um quadrinho ganhou a premiação. O historiador também relembra Maus: A História de um Sobrevivente, sobre o holocausto judeu que rendeu um Pulitzer ao autor, o sueco Art Spiegelman. “Depois disso, os intelectuais ficaram assustados. Estão receosos de falar mal dos quadrinhos porque já é terreno comum que eles também são arte”. Será esse o momento de a arte sequencial conquistar em definitivo sua posição logo atrás da fotografia, consolidada como nona arte? Tudo indica que sim.


Fernanda Botta: Portfólio: Jornal do Comércio: 2008-2009  

Textos publicados no Jornal do Comércio (RS).

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