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SNPC » Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

24/11/11 09:12

SNPC » Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura Entrevista a Ilda David' A sombra de Paulo projectada nos mármores brancos de Atenas A vida e a teologia de S. Paulo formam uma trama nem sempre fácil de desvelar. No caso das suas pinturas a partir das Cartas, quais foram os motivos que preferiu sublinhar? Explorou de forma indiferenciada todas as Cartas ou, com base na crítica textual bíblica, privilegiou algumas a partir da sua autenticidade paulina? Parti das sete cartas atribuídas a Paulo. Em quase todas escolhi uma passagem de grande gravidade, profunda. Uma profissão de fé baptismal (Rm 6,4); a manifestação de Cristo a Cefas, aos doze, a Tiago, a todos os Apóstolos e, por último, a Paulo como um aborto (1Cor 15); o assomo dos perigos (2Cor 11,24-34); a graça de Deus que leva Paulo a evangelizar os gentios e os Apóstolos, os circuncisos (Gl 2,9); a prisão de Paulo e a coragem para anunciar a Palavra de Deus (Flp 1,2-14); a figura da mãe que acalenta e alimenta os filhos e do pai que os trata com afecto (1 Ts 2,7-8); a ressurreição sugerida pela figura do arcanjo e do som da trombeta (1 Ts 4,4-18); o pedido de Paulo para que Onésimo, seu companheiro, fosse bem recebido (Flm 1,822). A partir destas narrativas, pintei uma imagem que evocasse cada texto, de modo que a representação traduzisse a densidade narrativa. São momentos fortemente graves, a partir dos quais se torna possível elaborar uma imagem clara do texto. Um fio vermelho liga todas as Cartas.

Nos inícios do ano 2007, a Ilda expôs no Mosteiro de Tibães as pinturas do livro do Génesis que realizou para a Bíblia d'Almeida. E, no Outono desse mesmo ano, brindou os Açores com as pinturas do Pentateuco, expostas no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada. As pinturas do corpus paulino só por si justificam outra exposição. Voltou, no entanto, aos textos e apresenta novas pinturas. Sentiuse inspirada por algum desafio? Inspirou-me o espaço do Seminário. Motivou-me pintar a partir dos textos paulinos. Construída sob ruínas romanas, a igreja faz-me lembrar que Paulo, no uso da cidadania romana e pela evangelização, acabou por sobrepor a Igreja ao Império.

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Referindo-se ao acontecimento na estrada de Damasco, Teixeira de Pascoaes dizia que se tinha consumado "o mais surpreendente dos milagres", o milagre que, como acrescenta, "deu à pessoa de Paulo um resplendor extraordinário". Na pintura que explora este acontecimento, é possível contemplar esse resplendor? É difícil responder. A luminescência desse resplendor fazia parte da estratégia do desejo. Mas evoco só a sombra dessa luz que foi S. Paulo a partir do acontecimento de Damasco.

Paulo foi, como dizia Pascoaes ao aludir à natureza quer judia quer grega do apóstolo, uma estátua de bronze sobre mármore? Li e reli o livro de Pascoaes, que me acompanhou na elaboração das pinturas. Há uma imagem que me ficou: a sombra de Paulo projectada nos mármores brancos de Atenas.

Que significado tem para a Ilda a apresentação destas pinturas numa igreja, por sinal belíssima, que está dedicada a S. Paulo? Invade-me uma responsabilidade acrescida, um temor. Embora tenha já um painel de azulejos numa outra igreja, é sempre uma sensação tremenda. Porque é um lugar dedicado, onde se reza, onde se presta culto a Deus.

O claustro do Seminário ostenta as ruínas duma casa romana da antiga Bracara Augusta, que se estende para as fundações da igreja. Que itinerário estabeleceu na disposição das pinturas nos três espaços expositivos? No claustro, ficam as pinturas dos Actos dos Apóstolos. Porque a casa sugere o lado quotidiano e familiar de S. Paulo, o carinho para com as comunidades. No corredor, coloco a pintura da conversão de Paulo. Assim isolada para ganhar os olhos de todos. Nas galerias da igreja, exponho os quadros das sete cartas autênticas que, como todas http://www.snpcultura.org/id_entrevista_ilda_david_exposicao_sao_paulo.html

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as outras, eram e continuam a ler-se no contexto das assembleias litúrgicas.

Voltemo-nos agora para a sua técnica pictórica e para a forma como explora os textos. Disse numa entrevista à edição online do Círculo de Leitores que quando ilustra "quero que haja uma relação muito próxima com o texto". Como é que chega aí? Como é que alcança essa máxima sintonia e afinidade? No caso do trabalho para a edição da Bíblia d'Almeida, sentiu alguma vez o risco de poder nem sempre estar a `fazer justiça' ao texto? Pois, é difícil. A proximidade com o texto é sempre muito subjectiva. Quando fixo uma imagem, é como se estivesse a querer escrever uma ideia para não me esquecer. Só que não a escrevo, desenho-a. Passados dias, podia fazer uma imagem diferente. O texto é tão subtil. Ainda que seja possível a discordância, ele permite fazer sempre inéditos. A sua riqueza pode representar-se de tantas formas. Por vezes, a mesma imagem explora-se em perspectivas várias. E o texto não é traído. Aproximo-me da eloquência do texto com uma mão cheia de possibilidades.

Na mesma ocasião, afirma que tenta reagir ao texto "e as coisas vão aparecendo". Que tipo de emoções, de sentimentos, de afectos, lhe desperta o texto bíblico, já que situa o projecto para lá do mundo da consciência? Quando se regressa ao texto há uma evolução. Pode haver pequenos ajustes. É uma tarefa inacabada. Imaginação até ao infinito. No texto bíblico encontra-se a eloquência. Como exemplo, refiro Mark Rothko com as pinturas abstractas que fez a partir do Deuteronómio. As telas têm as medidas das cortinas e as cores indicadas para a construção do templo. São muito espirituais. Embora difusas, nota-se que houve grande aproximação ao texto. As imagens demasiadamente explícitas podem tornar o texto banal. Evocar o texto de uma forma não explícita pode aproximar-nos mais dele.

Assume que antes deste projecto partilhado com Tolentino Mendonça o seu conhecimento da Bíblia não era tão profundo como é hoje. O que mudou na sua forma de encarar as histórias, as personagens, os símbolos, os espaços, enfim, o http://www.snpcultura.org/id_entrevista_ilda_david_exposicao_sao_paulo.html

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mundo bíblico e o Deus que nele se manifesta? Não sei se o meu conhecimento se tornou mais profundo. Continuar a ler enriqueceme.

Confessou que agora se sente próxima dos mais antigos ilustradores da Bíblia, pela luz, pelas cores, pelas vozes, pelas formas... Considera a Bíblia uma terra de luz ou encontra nela trevas, pausas, silêncios; João Barrento fala nos "brancos da respiração do hebraico" - quer comentar? E já agora, na sua opinião, quais são os tons da voz de Deus? É uma voz ou são várias? É uma voz e são várias. A Bíblia é um prodígio de leituras. E por isso é importante atender aquilo que os outros fizeram. Admiro imenso os frescos paleocristãos, por exemplo. Também Rembrandt fez belíssimas representações bíblicas. Tenho ainda admiração pela arte antiga e medieval.

Quais as principais dificuldades que encontra no momento de ilustrar os livros bíblicos, sendo que, como dizia Claudel, a Bíblia é "um imenso vocabulário"? Para um imenso vocabulário só um imenso imaginário. Mas pode-se voltar sempre lá. Porque as histórias são sempre sugestivas. Cresço na leitura, retenho coisas sem precedentes.

Partindo daquele princípio enunciado por Tolentino Mendonça segundo o qual, ao contrário do texto escrito, "as imagens não fixam, interpretam", as suas imagens são neste caso autónomas ou ‘apenas’ uma ilustração da palavra? O seu trabalho é, como diz Ana Marques Gastão, feito de palavras, ou situa-se para além delas? Recordo Rembrandt. Ao olhar para as gravuras podemos ler as palavras, embora autónomas. A palavra tem uma força própria. A imagem autonomiza-se. Não precisa da palavra para ser o que é. No entanto, foi inspirada por ela.

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Como lê a Bíblia? Considera a sua pintura oração policromática ou, de certo modo, uma esplêndida espiritualidade da beleza? Há nela uma ‘teologia visual’? Todas as vezes que leio os textos sagrados tenho vontade de memorizá-los. Faço isto com desenhos. Inspira-me. Tenho-a por companheira. E o seu esplendor nas minhas pinturas bíblicas pode servir a beleza da espiritualidade e da teologia. Entrevista conduzida por Miguel Miranda 30.01.2009

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