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ADRIANO MIRANDA

A felicidade de um ensaísmo trágico Apreciador de “westerns”, Eduardo Lourenço será sempre, no pensamento português, um “lonesome rider”, intervindo, ao sabor das circunstâncias e segundo os ditames da sua consciência, no mundo que o rodeia, mas incapaz de procurar refúgio e descanso mesmo entre os “bons da fita”, e partindo sempre, no final do filme, rumo a paragens que ele próprio ignora. A Gulbenkian acaba de lançar o primeiro volume das suas obras completas. Oportunidade para lembrar como se iniciou, há mais de 60 anos, o singular trajecto intelectual agora consagrado com o Prémio Pessoa. Luís Miguel Queirós Eduardo Lourenço acabou o ano de 2010 a receber o Prémio Pessoa e a ver sair o primeiro volume das suas obras completas na Gulbenkian. No final de 2008, a mesma fundação dedicara-lhe um colóquio internacional, cujas actas foram reunidas num número especial da revista “Colóquio Letras”. Nestes tempos de consagração e consenso, o livro agora publicado pela Gulbenkian – que recolhe “Heterodoxia I” (1949), “Heterodoxia II” (1967), ambos acrescidos de textos dispersos escritos na mesma época, e ainda um conjunto de ensaios reunidos sob o título de Heterodoxia III – vem chamar a atenção para um percurso que se iniciou há mais de 60 anos e que tardou 4 • Sexta-feira 6 Janeiro 2012 • Ípsilon

mais do que tende a ser lembrado a recolher o aplauso unânime de que hoje desfruta. Apesar de todas as reservas que o próprio Lourenço coloca a essa sua obra de juventude, publicada aos 20 e poucos anos, “Heterodoxia I” não é uma dessas estreias precipitadas que o próprio autor desejaria esquecer. Pelo contrário, Lourenço regressará a ela em 1967, quando publica “Heterodoxia II”, que já estava escrito desde o início da década. Ao “Prólogo sobre o Espírito e Heterodoxia”, que abria o volume de 1949, acrescentará então um “Segundo Prólogo sobre o Espírito de Heterodoxia”; ou, na verdade, dois segundos prólogos, já que o que virá a

aparecer na edição de 1967 não é o que originalmente tinha escrito em 1960, quando dera o livro como concluído. Só na reedição conjunta “Heterodoxia I e II” (Assírio e Alvim, 1987) será finalmente possível ler os três textos em sequência. Comparado com muito do que veio a escrever – as fulgurantes análises de “Fernando Pessoa Revisitado” (1973) ou “Fernando, Rei da Nossa Baviera” (1986), as páginas que dedicou a Antero de Quental, a identificação e crítica, em “O Labirinto da Saudade” (1978), das imagens que os portugueses foram historicamente construindo de si mesmos, ou ainda os muitos ensaios em que foi pensando a relação de Portugal com a Europa –, é possível

“Eduardo Lourenço tem um pensamento, o que é uma coisa raríssima; dizemos o pensamento deste ou daquele, mas quase não há pessoas que tenham um pensamento” José Gil


Eduardo Lourenço acabou o ano de 2010 a receber o Prémio Pessoa e a ver sair o primeiro volume das suas obras completas na Gulbenkian

que esse livro de 1949 pareça emitir um brilho mais pálido. No entanto, talvez seja útil regressar a ele para tentar encontrar um início de resposta a essa pergunta que talvez nunca venha a ter uma elucidação satisfatória: o que é, e que lugar ocupa (e face a quê?), a obra de Lourenço? O próprio género que escolheu, o ensaio, que nem se confunde com a filosofia, nem com o estudo de tipo académico, nem com a criação literária em sentido estrito, embora mantenha fonteiras difusas com todos eles, contribui para que não seja fácil definir e enquadrar a sua obra. É possível confrontá-la com a escassa tradição ensaística portuguesa – e o próprio Lourenço se encarregou disso,

por exemplo nos textos sobre António Sérgio –, ou com os mestres estrangeiros do ensaio, desde Montaigne, mas já não é tão claro, e desde logo pelas próprias características do género, que seja possível situá-lo na história do ensaísmo no mesmo sentido em que se situa um filósofo na história da filosofia, ou mesmo um poeta ou um romancista na história da literatura. Mas em 1949, não é ainda evidente o caminho que Lourenço irá seguir. Daí que o ensaísta Luís Mourão veja “Heterodoxia I” como “um livro de ruptura” – quer por romper com as duas ortodoxias então dominantes no país, quer por se “demarcar, com um certo arrojo, do que era então a

As minhas ideias são negríssimas, mas eu não sou negríssimo linguagem do meio académico de Coimbra” –, mas também “um livro de passagem”. É uma obra, argumenta Mourão, “ainda ligada à Faculdade, com referências a leituras”, mas apontando já para “um tipo de escrita que será depois muito mais livre”. Ou seja, resume, “já não era académico, mas tem marcas disso, e ainda não

era essa outra coisa que a obra de Lourenço veio a ser”. O filósofo José Gil, co-autor, com Fernando Catroga, de “O Ensaísmo Trágico de Eduardo Lourenço”, acredita que o autor “começou por ter uma pulsão filosófica” e que textos como o que dedica à dialéctica hegeliana em “Heterodoxia I” ou a Ípsilon • Sexta-feira 6 Janeiro 2012 • 5


ADRIANO MIRANDA

Kierkegaard em “Heterodoxia II”, ou ainda os vários outros em que se confronta com o existencialismo, sugerem que Lourenço teria o projecto de constituir “um corpo de pensamento próprio de tipo filosófico, conceptual”. Depois, diz Gil, “aconteceu qualquer coisa, que já está refelectida nos ensaios agora reunidos em Heterodoxia III, e que passa por uma impossibilidade de pensar o que queria pensar, como a cultura portuguesa, segundo conceitos no interior de um sistema”. Lourenço tem “uma grande capacidade especulativa” e “estava destinado a ser um filósofo”, mas “o seu apetite de real”, sugere José Gil, levou-o a “abdicar de um pensamento puramente conceptual”.

Duas querelas desiguais O próprio Lourenço lembra que o texto que encerra “Heterodoxia I”, “O Segredo de Hegel ou O Equívoco da Dialéctica” correspondia à sua tese de licenciatura, que apresentara em 1946 com o título “O Sentido da 6 • Sexta-feira 6 Janeiro 2012 • Ípsilon

“Lourenço nunca fez aquilo que depois fez a esquerda, que foi ficar com o humanismo da Igreja, tirando-lhe apenas a parte clerical” Luís Mourão

Dialéctica no Idealismo Absoluto”. E acrescenta agora: “O único que se deu conta disso foi Vitorino Nemésio, que escreveu que o livro ‘cheirava a banco de escola’; e tinha razão”. Publicado em Coimbra, quando Lourenço estava de partida para Bordéus, em cuja universidade estagiaria com uma bolsa da Fundação Fullbright, “Heterodoxia I”, di-lo o próprio autor em várias entrevistas, nasceu do seu desejo de se demarcar das duas ortodoxias que monopolizavam os meios intelectuais portugueses do tempo: o catolicismo, do qual provinha por formação – o que o levou a frequentar, já em Coimbra, o Centro Académico de Democracia Cristã –, e o marxismo, com o qual se familiarizara no convívio com alguns dos principais nomes da geração neo-realista, como Carlos de Oliveira, Rui Feijó ou Joaquim Namorado, primeiro na Faculdade de Letras coimbrã e depois na redacção da revista Vértice. “Heterodoxia I”, diz numa entrevista, foi “uma audácia” que o deixou “isola-

do” e “sem família”. Lourenço soube mais tarde que o livro fora muito mal recebido pelos seus antigos camaradas de Coimbra, muitos deles já então ligados ao PCP. “Andaram por lá a chamar-me traidor”. Sintomaticamente, não há registo de que a obra tenha provocado reacções na “barricada” católica. Esta recepção da sua obra de estreia nos dois campos que nela eram visados, não deixa de ser paradoxal. Quando escreveu o livro, Lourenço acamaradava genuinamente com os seus amigos neo-realistas na oposição ao salzarismo e, sobretudo, na crítica ao discurso cultural do Estado Novo. Mas acontecera-lhe ler, ainda antes de acabar o curso, uma tradução italiana de “Assignment in Utopia”, que o jornalista americano Eugene Lyons publicara em 1937 e que, diz, “descrevia com todos os pormenores aquela tragédia que foram os processos de Moscovo”. Em meados dos anos 40 já tinha, pois, como evidente que “a revolução russa estava a


descarrilar” e que Estaline impusera “um sistema de terror”. Já a sua resistência ao catolicismo era, em certo sentido, inversa. Distanciara-se dos meios católicos portugueses e de uma Igreja que dava cobertura ao regime, mas era bastante menos óbvio que tivesse desertado definitivamente do cristianismo. Na verdade, era essa a verdadeira questão já em “Heterodoxia I”, e ainda mais claramente em “Heterodoxia II”. É o que pensa José Gil, que acredita que “a relação de Eduardo Lourenço com o cristianismo é um assunto muitíssimo por explorar e por ser compreendido”. O próprio Lourenço confirma hoje o que já deixara claro em “Heterodoxia II”: “A minha crise não era da mesma ordem num e noutro caso”. Defendendo que “o próprio conceito de heterodoxia só tem um significado preciso se for pensado na esfera religiosa”, e que “empregá-lo no domínio da ideologia já implica uma translação”, Lourenço admite que a sua

A filosofia, assim directa, não tem grande eficácia junto do público português, se os filósofos não são bons escritores, as coisas não passam; se o Antero não fosse um grande poeta, as suas elocubrações não teriam tido o mesmo eco

“querela fundamental” nesses primeiros livros “é religiosa”. Mas sugere também que não se tratava apenas de um mero debate intelectual: “se um sujeito perde uma fé profunda, fica descalço, sem alternativa”. Para quem teve “uma educação católica”, afirma, “discutir seriamente o catolicismo nos seus efeitos políticos e ideológicos era como assassinar moralmente toda a família”. É aqui que tem a sua verdadeira origem esse sentimento de “uma deserção sem fim”, para usar a expressão de que se servirá em “Heterodoxia II”. Comparada com este afastamento inicial, a sua recusa das primeiras encarnações históricas do marxismo, mais do que da doutrina, era, pelo menos no foro íntimo, uma controvérsia comparativamente menor. “Fui um bocadinho dissidente”, admite. “E, de resto, não descobri a pólvora: vendo bem, o discurso de ‘Heterodoxia I’ já estava quase implícito naquela malta da ‘presença’, e também no Torga, que eu frequentava na altura”. É provável, no entanto, que esteja a subestimar o que o livro trazia de efectivamente novo: “Não sei onde onde ele foi buscar forças para se demarcar naquela época, em termos de pensamento, de ambas as barricadas”, diz Luís Mourão, acrescentando: “mesmo dez anos mais tarde, na polémica provocada pelo romance ‘Aparição’ [1959], a grande preocupação de Vergílio Ferreira era a de mostrar que, de qualquer modo, estava na esquerda”.

Na companhia dos sós Nos quase 20 anos que medeiam entre as “Heterodoxia” I e II, Lourenço, embora colabore assiduamente nos suplementos culturais da imprensa portuguesa, publica apenas um livro, mais tarde recolhido em “Tempo e Poesia”: “O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações”, de 1955. Mais ainda do que as considerações que nele tece sobre Torga e outros poetas do tempo, o que surpreende neste volume um tanto esquecido é a desconfiança com que o autor já então olha para essa grande e consensual tradição humanista na qual à época (se não hoje) quase todos afirmavam reverse. “Lourenço nunca fez aquilo que depois fez a esquerda, que foi ficar com o humanismo da Igreja, tirandolhe apenas a parte clerical”, nota Luís Mourão. A discussão sobre o humanismo, apesar do precedente de Heidegger, só chegaria realmente a Portugal, integrada na polémica sobre o estruturalismo, uma dúzia de anos mais tarde, quando é publicada a tradução de António Ramos Rosa de “As Palavras e as Coisas”, de Michel Foucault. A edição veio acompanhada de um prefácio de Vergílio Ferreira, francamente crítico do estruturalismo – texto que dará origem a uma acesa polémica com Eduardo Prado Coelho – e de outro de Eduado Lourenço, “Michel Foucault ou o Fim do Humanismo”, agora recolhido neste primeiro tomo das suas obras completas. Lourenço, diz Mourão, “fica um bocado pendurado”, uma vez que “não tinha a visão humanista de Vergílio Ferreira, mas também não era um

NADIR AFONSO INTIMIDADE(S)

Teatro Nacional São João

6-29 Jan 2012

NADIR AFONSO: INTIMIDADE(S) produção TNSJ em parceria com Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo/Instituto Politécnico do Porto, Vigília Filmes colaboração Fundação Nadir Afonso, Câmara Municipal de Boticas

NADIR AFONSO – O TEMPO NÃO EXISTE um filme de Jorge Campos 6+7 Jan 2012 sex+sáb 21:30 M/6 anos Estreia absoluta

NADIR AFONSO – NO TEMPO E NO LUGAR exposição de fotografias de Olívia Da Silva 6-29 Jan 2012 qua-sáb 14:00-20:00 dom 14:00-15:00 Salão Nobre

NADIR AFONSO CONVERSA COM AGOSTINHO SANTOS um livro de Agostinho Santos apresentação João Fernandes 7 Jan 2012 sáb 16:00 Salão Nobre

CURSOS JAN. FEV. 2012 BÍBLIA HEBRAICA: LEITURAS 21 Janeiro a 11 Fevereiro Formador: António Franco Alexandre Uma introdução aos métodos e resultados da leitura crítica da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento). As sessões serão organizadas em torno de pequenos extractos dos dois primeiros livros da Bíblia (Génese, Êxodo).

FORMAÇÃO NO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO 28 Janeiro Formadores: João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia O Museu do Oriente organiza mais um curso de formação na nova ortografia. Levar os formandos a apreenderem as modificações e alterações trazidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, é um dos objetivos deste curso de sete horas letivas.

IV ESCOLA DE GAMELÃO DA ILHA DE JAVA 4 Fevereiro a 28 Maio Formadora: Elizabeth Davis De Fevereiro a Maio, o Museu do Oriente vai acolher a IV Escola de Gamelão da Ilha de Java. Este ano, os cursos, orientados como habitualmente pela professora Elisabeth Davis, destinam-se a músicos e compositores, escolas, crianças, famílias, bebés ou adultos. O gamelão é uma orquestra de percussão ímpar. Composta por uma variedade de instrumentos de bronze e um conjunto de tambores e gonzos, entre outros. Mais informações em www.museudooriente.pt

Av. Brasília, Doca de Alcântara (Norte) | 1350-352 Lisboa | Tel.: 213 585 200 | E-mail: info@foriente.pt | www.museudooriente.pt

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NELSON GARRIDO

fosse um grande poeta, as suas elocubrações não teriam tido o mesmo eco”. E conclui com uma dessas sínteses tipicamente lourencianas: “Os nossos Platões são todos Homeros”. Mas as polémicas com Augusto da Costa Dias ou Victor de Sá são a periferia de “Heterodoxia II”. O ensaio central do livro é “Sören Kierkegaard”, espião de Deus”. O filósofo e teólogo dinamarquês, que ousara confrontar sem piedade os que se diziam cristãos com os fundamentos do cristianismo, e pagara o preço de uma radical solidão intelectual, terá sido o primeiro desses cavaleiros solitários do espírito que constituem os verdadeiros modelos, se não os heróis, de Lourenço. Nietzsche, Pessoa ou Antero serão outros exemplos óbvios. Gente que não nasceu para confortar, mas para desamparar. Assumido apreciador de “westerns” – e quem sabe que misteriosas influências confluem para gerar uma personalidade –, o próprio Eduardo Lourenço será sempre, no pensamento português, uma espécie de “lonesome rider”, intervindo, ao sabor das circunstâncias e segundo os ditames da sua consciência, no mundo que o rodeia, mas incapaz de procurar refúgio e descanso mesmo entre os “bons da fita”, e partindo sempre, no final do filme, rumo a paragens que ele próprio ignora.

Um pensamento paradoxal

Se um sujeito perde uma fé profunda, fica descalço, sem alternativa estruturalista”. A sua reacção, afirma, “foi a de dizer que não estávamos completamente preparados para que Foucault nos viesse dizer isto, mas sem nunca afirmar que não é assim como ele diz”. Quando publica Heterodoxia II, em 1967, Lourenço afirma que “os poucos aplausos” que o seu livro de 1949 tinha merecido de “alguns jovens leitores” ficara decerto a dever-se à “assimilação apaixonada” que nele se fazia, “num tempo de obrigados e opostos silêncios”, da “liberdade do espírito” à “heterodoxia”. Mas esse é justamente um dos aspectos que corrigirá em 1967, admitindo que heterodoxia e liberdade não são necessariamente sinónimos, ao mesmo tempo que precisa a sua crítica às duas ortodoxias então visadas, afirmando que a recusa “da imagem que Catolicismo e Marxismo assumiam sociologicamente nos anos 40” não supunham a recusa liminar dos respectivos conteúdos, que, pelo contrário, constituíam para o autor referência indispensável e fonte de permanente interrogação”. Mas o que mais o preocupava nessa obra de juventude era que ela pudesse sugerir uma heterodoxia tão racionalista e de tão boa consciência 8 • Sexta-feira 6 Janeiro 2012 • Ípsilon

consigo própria como as ortodoxias que criticava. “A segunda Heterodoxia”, diz agora Lourenço, “com os seus textos sobre Camus, e mais do que tudo com o ensaio sobre Kierkegaard, já não tem nada a ver com aquela ideia de me distanciar dos discursos ortodoxos que dominavam em Portugal”. O último texto reunido nesse volume de 1967, “Ideologia e Dogmatismo – À Margem de Quatro Livros e Uma Só Canção” será ainda dedicado àquilo a que chama a sua “guerrilha cultural” com o neo-realismo, mas logo no ano seguinte publicará “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista”, que ele próprio depois assumirá ter sido uma tentativa de se reconciliar com Carlos de Oliveira e, mais genericamente, com o grupo neo-realista de Coimbra. Lourenço precisa ainda que a sua polémica com o neo-realismo “passava sobretudo pelas coisas literárias” e que “era na ordem da crítica que rejeitava aquele maniqueísmo dos juízos culturais, literários e históricos”. De resto, acrescenta, “a filosofia, assim directa, não tem grande eficácia junto do público português, se os filósofos não são bons escritores, as coisas não passam; se o Antero não

O livros de charneira entre o período das “Heterodoxias” – para usar o plural que o volume agora lançado pela Gulbenkian, organizado por João Tiago Pedroso de Lima, consagra no título de capa – e a obra que Lourenço irá desenolver após o 25 de Abril de 1974 é “Pessoa Revisitado”, uma obra a vários títulos singular. “Foi um momento muito especial da minha vida”, reconhece Lourenço, que afirma ter escrito o livro em 23 dias, durante uma estadia que passou com a mulher, Annie Salamon, numas termas nos Pirinéus. “Entrei em transe com essa ideia de que o centro daquela maquinaria era uma espécie de troca de personagens entre o Caeiro e o Whitman, e escrevi o livro como se fosse um policial, para resolver o enigma”. É também, até pelo breve intervalo de tempo em que foi escrito, o livro de Lourenço que mais se afasta do modelo da recolha de ensaios unidos por fios temáticos. Uma característica da sua obra que coloca o leitor que queira ler a sua obra completa perante duas opções, ambas com desvantagens: ou se dá ao trabalho de ler o que Lourenço escreveu por ordem cronólogica, e vê-se forçado a um permanente ziguezague entre os seus livros, e a saltar de assunto para assunto, ou lê-os por núcleos temáticos, e os constantes saltos cronológicos, às vezes bastante significativos, entre um texto e o seguinte podem dificultar uma correcta apreensão do modo como o seu pensamento se foi desenvolvendo. Mas este “saltar de assunto” é justamente uma das marcas do ensaísmo. “Montaigne”, diz Lourenço, “dissertava sobre tudo, falava de livros, do que se passava à sua volta, dos animais, de qualquer assunto – o ensaio não tem objecto, se não o prazer de

“A relação de Eduardo Lourenço com o cristianismo é um assunto muitíssimo por explorar e por ser compreendido” José Gil

dialogar com tudo o que parece interessante ou que suscita espanto”. No entanto, o que distingue o ensaísmo de Lourenço não é tanto a multiplicidade dos tópicos que indaga, mas uma unidade que ultrapassa a mera posse de um estilo próprio. “Eduardo Lourenço”, diz José Gil, “tem um pensamento, o que é uma coisa raríssima; dizemos o pensamento deste ou daquele, mas quase não há pessoas que tenham um pensamento”. E precisa que, ao falar de pensamento, quer “designar uma coerência, essa sim sistemática, que faz com que a perspectiva lançada, por exemplo, sobre o romance português da década de 70, ou o ensaísmo de Montaige, ou a atitude dos militares no 25 de Abril ou a obra de Kierkegaard, seja fundamentalmente a mesma”. E pergunta: “Quem é que faz isto em Portugal? Ninguém.” O que o singulariza, diz Gil, é “uma certa maneira de desenolver o pensamento”. E acrescenta que, “como todo o grande pensamento”, o de Lourenço é “um pensamento paradoxal por excelência”. E também “um pensamento auto-proliferante, que se auto-cria a si próprio, sempre o mesmo e sempre diferente, único e ao mesmo tempo plural”. Daí que, argumente, com “tanto que se passou desde o tempo das ‘Heterodoxias’, com tanto novo pensamento filosófico, o pensamento de Eduardo Lourenço se mantenha pertinente”. Gil reconhece que “há quem ache que Lourenço está datado, que as coisas já não se fazem assim”, mas argumenta que o seu pensamento “tem uma virtude que lhe dá uma actualidade extraordinária, que é a de, ao mesmo tempo que se auto-cria, ir criando novos campos”. A própria “lógica do seu pensamento”, diz, “produz necessariamente o novo”, e a sua obra “fervilha de novos campos que ele não explorou, e que em alguns casos nem saberá que abriu, mas que podem depois ser explorados”. José Gil defende, como se sabe, que este é um pensamento trágico. Num texto originalmente escrito para o congresso que a Gulbenkian dedicou a Eduardo Lourenço, João Barrento, sem negar estes pressupostos trágicos, sugere que “o júbilo do pensar a fazer-se e a euforia da linguagem que se lhe ajusta” dão a este ensaísmo um “dizer” feliz. Uma contradição talvez apenas aparente, que o próprio Lourenço resolve assim. “As minhas ideias são negríssimas, mas eu não sou negríssimo”.


A felicidade de um ensaísmo trágico | Eduardo Lourenço