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º 71

Comunicação Social Obediente, País Eficiente, Troika Contente

O BOLETIM DO QUE POR CA´ SE FAZ QUINZENAL 2 A 16 FEV 2012 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

adopta um dog + mudar p’rá bina + desafinar com estilo + lisboa revisitada por um pseudónimo que bebia uns copos a mais + a filha de Nadine Gordiner + o azevinho não aparece só no natal + aprender a gerir o mar + uma agenda que é um brinquinho no ouvido


, Cronica

Apadrinhamento e voluntariado

AFAMA - Promove apadrinhamento de animais e voluntariado Por cá também se vai fazendo voluntariado. A Afama – Associação Faialense dos Amigos dos Animais – é uma associação sem fins lucrativos, de fracos recursos financeiros e de utilidade pública que tem por objectivo a “defesa e protecção dos animais com vista a melhorar por todas as formas ao seu alcance, as condições de vida destes.” Ao nível da Ilha do Faial, constata-se o problema social da violência sobre animais e não se perspectiva uma intervenção exacta e eficaz que controle esse problema. A AFAMA vem constatando com grande preocupação, um crescente número de animais, nomeadamente cães e gatos, abandonados e/ ou vadios na ilha do Faial. Os animais nestas condições, causam situações sociais desagradáveis e susceptíveis de configurar um grave perigo para a

ordem e saúde públicas. Neste momento a Afama tem ao seu cuidado mais de 90 animais, divididos por dois canis, um em São Lourenço e um em Santa Barbara, estes animais, para além de ajuda financeira, precisam também de atenção e cuidados, este ano de 2012 começou com um sistema de voluntariado organizado por escalas e que se destina a todos os que têm um ou dois dias disponíveis por mês para ajudar o canil nas tarefas diárias e semanais. Sendo o sábado, um dia aberto para quem quiser conhecer os animais e ajudar. Para quem gostaria de ajudar, mas não pode receber cães na sua casa, nem tem disponibilidade para ser voluntário, ser padrinho é a solução. Sendo padrinho, receberá todos os meses fotos do seu afilhado de 4 patas, assim como novidades acerca dele. Pode visitá-lo, ir buscá-lo para passeios e levá-lo às actividades da Afama, como as “cãominhadas” e o concurso de beleza e habilidade do dia do Animal.

Assim através de uma contribuição financeira de 10€ por mês, que pode ser partilhada com os seus familiares, amigos ou colegas de trabalho pode apoiar o sustento e assegurar as vacinas do animal apadrinhado. Pode conhecer estes animais através do nosso facebook (Associação afama afama), ou visitando os canis ou os eventos da Afama. Pode ainda ajudar, inscrevendo-se como sócio, doando cobertores, comedouros, ração ou arroz, e apoiando a construção da enfermaria/ sede da AFAMA através de donativos de material de construção. Para qualquer esclarecimento: www.afama-faial.org www.facebook.com/afamafaial “Pelos Amigos abandonam”

que

não

nos

e-mail: associacaoafama@gmail.com Contactos: 962824396 Afama

Capa

Obey or not obey: that is the question

Não é um apelo radical (devagar, devagar) à insubordinação mas um

2 FAZENDO + 2 A 16 FEV 2012

desafio à permanente interrogação - de modo a nos habituarmos mais a perguntar “porquê” e menos a aceitar o fatalismo até daquilo que consideramos injusto, mesmo que seja um primeiro-ministro a defendê-lo na TV; a pensar mais por nós próprios e menos a mando de interesses alheios à realidade que importa; no fundo, a sermos mais senhores de nós mesmos e conscientemente responsáveis pela nossa vida individual e colectiva, o que inevitavelmente levará a um

grau de exigência maior para com os governos e o Estado. A propósito, sugiro a leitura do livro Desobediência Civil, de Henry Thoreau, que muito resumidamente defende a desobediência civil individual como forma de oposição legítima a um Estado injusto, ou o belíssimo filme Estrada de Palha, de Rodrigo Areias, concebido a partir do livro. Renata Lima

Henry David Thoreu

Obedecer ou não obedecer, eis a questão – adaptação livre da célebre frase “to be or not to be: that is the question – ser ou não ser, eis a questão” dita por Hamlet na peça com o mesmo nome escrita por William Shakespeare, a partir de uma palavra simbólica e anonimamente deixada sobre um vaso com uma planta meia-murcha.


A Bicicleta Amesterdão, Bogotá, Copenhaga e Curitiba. Para além de cobrirem as primeiras letras do alfabeto estas quatro cidades têm algo de muito especial. Todas elas são repetidamente apresentadas como modelos de sucesso no que diz respeito à mobilidade dos cidadãos bem como à qualidade de espaços que permitem o convívio e usufruto por parte dos seus utilizadores. Como é que cidades de países com costumes e níveis de desenvolvimento tão distintos podem estar tão próximas na relação entre as mesmas e os cidadãos? A resposta é extremamente simples e reside nas políticas de transporte e de planeamento, adoptadas durante os anos 70, em todas elas. Por razões distintas verificou-se que nestas cidades havia um problema de mobilidade, estando todas elas, como qualquer cidade moderna, maioritariamente vocacionadas para o uso do automóvel como meio de transporte principal dos seus cidadãos. Tal como em todas as cidades modernas, nestas cidades existiam problemas graves de congestionamento automóvel, falta de estacionamento e dificuldades

de mobilidade por parte de não utilizadores de automóvel. Em Amesterdão, a adicionar a estes problemas surgiu igualmente um problema de aumento radical de acidentes mortais, sendo grande parte das vítimas crianças. A fim de inverter esta situação houve, há cerca de quatro décadas, uma mudança radical nas políticas de transporte. Nas duas cidades europeias essa mudança foi imposta por protestos massivos por parte dos cidadãos, enquanto nas duas cidades latino-americanas essa mudança foi introduzida por parte de governantes com visão. Em vez de se demolirem edifícios para alargamento de ruas, ou de se transformarem parques e jardins em estacionamentos automóveis, melhorando as condições para a mobilidade automóvel, nestas cidades optou-se por fazer o inverso e deixou de se privilegiar o uso deste meio de transporte. Faixas de circulação automóvel foram transformadas em faixas para transportes públicos, bem como em faixas de circulação para bicicletas. Os passeios foram aumentados através da redução do estacionamento automóvel, e nos

c e n t r o s históricos o acesso automóvel passou a ser altamente condicionado. O resultado destas medidas foi um súbito aumento do uso dos transportes públicos e principalmente da bicicleta como meio de transporte. Em Amesterdão e Copenhaga, cerca de 35% das pessoas utiliza a bicicleta como meio de transporte entre casa e trabalho, número que aumenta para 50% se se considerarem apenas as deslocações para outras actividades, como ir às compras ou a ocupação dos tempos livres. A bicicleta permite uma deslocação de porta a porta, sem problemas de estacionamento, sem custos de deslocação e baixos custos de manutenção, permitindo fazer exercício físico ao mesmo tempo que nos deslocamos. A juntar a todas estas vantagens, lembro que o uso da bicicleta não emite gases de efeito de estufa, sendo, assim, um meio de transporte ecológico. Infelizmente o uso da bicicleta está, ainda, associado a classes sociais mais baixas, devido ao seu baixo custo, contrariamente ao automóvel, que continua a ser um símbolo de estatuto económico. No

entanto, esta mentalidade está aos poucos a mudar e é possível ver, em cada vez mais cidades, tal como em Amesterdão, Bogotá, Copenhaga e Curitiba, pessoas de todas as idades, credos ou classes sociais a utilizarem a bicicleta como meio de transporte. Tal como no início do século XX, quando a bicicleta permitiu uma maior autonomia às mulheres, impulsionando em parte as lutas pela igualdade de géneros, no início do século XXI a bicicleta permitirá melhorar a mobilidade da generalidade dos cidadãos e reduzir a desigualdade social e o isolamento pessoal provocados pelo automóvel. O futuro das cidades passa pela restrição do uso do automóvel e pela implementação de meios que permitam a mobilidade pessoal não poluente e não invasiva. A mudança já começou. E tu, vais ficar a ver passar as bicicletas? Miguel Valente

Agnes Juten

Atelier Aberto Agnes Juten

28 Janeiro 2012

Agnes Juten – artista plástica Holanda – vive na Horta Free Academy of Visual Art - The Hague European Ceramics Work Centre - Den Bosch Atelier Aberto por um dia – Sábado, 28 de Janeiro, 2012 O atelier de um artista é um laboratório onde, por tentativa e erro, se desenvolve a arte. Com algum isolamento o artista desenha, re-desenha, rejeita ou forma o resultado das suas ideias. Mas a arte tem que ser vista por pessoas que estão fora do atelier. Então, de tempos a tempos o artista, com alguma relutância, abre o seu espaço privado e recebe amigos e críticos.

As Obras O trabalho de Agnes Juten é não-figurativo, na maior parte escultura, mas que também é concretizado sob a forma de desenho ou pintura. Frequentemente baseado em formas elementares, tais como círculos/ esferas, quadrados/ cubos e triângulos/ pirâmides combinados com um toque de arcaísmo. A sua inspiração vem de experiências mentais e físicas transfiguradas em objectos visíveis. Muitos dos seus trabalhos são esboços que serão ampliados noutros materiais ou transformados em metal fundido como bronze ou ferro. Outros nunca serão mostrados fora do atelier, já que consistem em etapas de pesquisa não desenvolvida e que, a seu tempo, acabarão no caixote do lixo. Neste momento está a preparar uma exposição de antigos e novos trabalhos que terá lugar na Horta, no outono de 2012. Dieter Ludwig 3 FAZENDO + 2 A 16 FEV 2012


MUSICA

O eterno desgosto da

A cantiga, que tem arremedos de crítica e alusões “revisteiras”, dá conta de um homem que é vítima de chacota e de ditos mordazes e satíricos. Canto variado e vivo, a música de “Matias Leal” é alegre e a letra é divertida e irónica, a roçar por vezes o surreal: “Matias Leal / Toda a noite andou/ Com um rato na boca / E nunca o matou”. “Matias Leal/ Toda a noite grita/ Que a filha mais velha/ É uma cabrita”. “Matias leal/ Já nã come toicinho/ Que a filha mais velha/ Quebrou-lhe o focinho”. “Matias Leal/ Tem um chafariz/ A mãe lava o rabo/ E a filha o nariz”. Não se sabe quem foi este Matias Leal. Possivelmente terá sido uma figura castiça, um popular folgazão e pantomineiro, ou um “Ratão” que animava o povo nas Danças do Entrudo. Victor Rui Dores

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Quando cantamos, utilizamos o nosso corpo como instrumento musical. Ele é um todo composto de várias partes que, funcionando em conjunto, conseguem realizar o fenómeno de nos fazer exprimir, seja em palavras ou em melodias. O processo da afinação (vocal) começa

nos nossos ouvidos. Eles captam os sons que posteriormente são analisados e classificados no nosso cérebro. Ali, os sons, que são um universo aparentemente abstracto e confuso, transformam-se em matéria-prima musical. Como as palavras, temos de dar um sentido aos sons, um significado. Os ouvidos desafinados só precisam de ser reeducados, treinados. Em vez de olharmos para os sons como abstractos, vamos aprender a dar-lhes uma personalidade; nomes, lugares, sensações ou características pessoais para os identificar. Há quem goste de olhar para as notas musicais como números; há quem goste de chamar os seus nomes originais (Fá, Sol, Dó...); eu pessoalmente vejo-os apenas como coordenadas espaciais; degraus invisíveis onde posso saltar,

descer, subir, etc. São como escadas imaginárias que tenho de manter regularmente: tenho de observar a sua estrutura e realizar alguns arranjos; tenho de ouvir muitas outras formas de cantar para proceder a alguns acrescentos e novas formas de as descer, subir ou saltar degraus. Sim, para aqueles que têm o enorme desgosto de desafinar, devo dizer que é possível. Não é fácil. É preciso um trabalho minucioso, muita paciência e treino. Afinal, estamos a ensinar o nosso cérebro a dar um sentido e uma ordem a coisas abstractas; é como aprender uma língua estrangeira. Demora tempo. É preciso ter gosto e determinação. Mas é possível e entusiasmante! Alexandra Boga alexandraboga.webs. com | www.wix.com/oficinasdevoz

NOBELiárquicos

Cantada nas ilhas do Faial e do Pico, e tendo claras afinidades com as cantigas de escárnio e maldizer, “Matias Leal” faz parte das “rodas” e não dos chamados “bailhos velhos”, pelo que deverá ser de criação local (finais do século XIX, primeiro quartel do século XX).

Toda a vida estivemos habituados a ouvir expressões de lamento acerca de “não ter ouvido”, ou “ter voz de cana rachada”. Pessoas por vezes gozadas por serem desajeitadas a cantar, ficaram com a certeza de que nunca poderão seguir o sonho de um dia cantar sem desencantar. Mas muitas vezes são essas as pessoas que mais sentem a música e por vezes, às escondidas, tentam exprimir o que vai na alma com as suas vozes catalogadas como “sem futuro”.

LITERATURA

The morose fool em “O elogio da Loucura” de Erasmo - ilust Holbein

Matias Leal

Assurancetourix - Uderzo

desafinação

Romance inicialmente proibido na África do Sul, passa-se nos anos 70, em Joanesburgo, onde ser branco ou negro faz toda a diferença. Rose Burger, ainda menina, vê o seu pai, branco, membro do Partido Comunista e activista anti-apartheid, ser preso. O pai morre na cadeia, deixando Rose órfã de pais mas não de convicções. Sozinha, sem a companhia do irmão negro Baasie, que os seus pais tinham adoptado mas seus tios não aceitaram, Rose começa a viver com um namorado, Conrad, por quem não está apaixonada mas cuja companhia lhe é vital. É Conrad quem faz Rose questionar-se sobre a sua cega obediência à família Burger e a faz pensar qual é, realmente, a sua identidade. Rose passa a ser membro activo do Partido Comunista, amante do influente Chavalier e vive no estrangeiro durante algum tempo. Mas é difícil ser apenas Rose quando a mística de ser filha de Burger é uma constante na sua vida, para o bem e para o mal… Rose reencontra Baasie, e

fica chocada quando percebe que não só ele não quer a companhia dela como critica a atitude paternalista e burguesa de Rose e dos pais no envolvimento na luta anti-apartheid: “Baasie nunca foi o meu nome! Vocês nem sabem qual é o meu nome verdadeiro!” Rose volta a África e prossegue a sua luta – mas a maior luta da sua vida é saber quem é, na verdade, Rose… para além de ser a filha privilegiada de um mártir chamado Burger. Nadine Gordimer ganhou o Nobel da Literatura em 1991 “pela sua magnífica escrita épica da qual resultou grande benefício para a Humanidade”. Uma branca nascida na África do Sul, filha de pais contra o regime mas não particularmente activistas, embora as ideias peculiares da sua mãe a levassem a educar a filha em casa por considerar que uma sociedade tão pouco justa não

lhe formaria uma boa personalidade. Apesar da (ou por causa da) sua educação não ortodoxa, Gordimer já publicava ficção aos 15 anos. Ainda hoje vive em Joanesburgo, onde se destacou por lutar contra o apartheid e, mais recentemente, na luta contra a SIDA. As suas posições fortes levaram a que fosse atacada, mas Gordimer nunca quis viver numa situação de protecção oficial nem sair do país. Recusou ser distinguida com o famoso Orange Prize, por este premiar apenas mulheres. Acerca da sua escrita, Gordimer referiu que também ela sofria “as lânguidas evasões da culpa liberal”, mas é indiscutível que ela é muito mais que uma autora anti-regime – a sua capacidade de representar conflitos culturais, redenção e esperança dentro de células familiares bem como de nações elevam-na à universalidade. Carla Cook

A filha de Burger

Nadine Gordimer


Álvaro de Campor por Almada Negreiros

LITERATURA

Revisitando

Álvaro de Campos  

(Divagação sobre o poema Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos, 1923) Estamos no terceiro milênio e certamente as interferências desse novo mundo em nossas vidas se dá de diversas formas. Estamos numa era onde a tecnologia avança e os caminhos da internet tomam rumos cada vez maiores em nossos minutos. Fico a pensar, em Fernando Pessoa vivendo os nossos tempos de hoje. Fico a pensar em que tipo de poesia ele faria, se é que iria fazê-la! O que Fernando Pessoa seria? Um blogueiro? Um solitário internauta? Um DJ? Um roqueiro? Ou não seria nada! Apenas um cidadão, comum, perdido na Lisboa de hoje. Como ele trataria suas dores e a sua angústia? Como ele trataria os seus personagens? Quem seria, por exemplo, Álvaro de Campos? Não vejo como responder a essas divagações e desculpe caro leitor, pois não é essa a intenção, a de lhe trazer apenas questionamentos. Não, não se trata disso!

Trata-se de tentar entender como um homem de outra era e suas palavras nos tocam ainda hoje. Trata-se em tentar descobrir porque Fernando Pessoa ainda é o poeta que conseguiu fazer doer a fundo a alma humana, que nem sabia que estava ferida. Me peguei a pensar nessas tantas interrogações ao ler um poema de 1923, de Álvaro de Campos (um dos heterônimos mais conhecidos do poeta português Fernando Pessoa), Lisbon Rivisited (trad. Revisitei Lisboa ou Revisitando Lisboa). Onde já nos primeiros versos ele parece estar aqui, agora, presente, à frente de milhares de propagandas comerciais, que nos consume a todo o tempo, nos fazendo desejar o que não é necessário. “Não me tragam estéticas! Não me falem em moral!” A moral do início do século passado já o feria. As estéticas impostas pela sociedade da época o faziam expressar a sua indignação em favor do que já era fora do padrão. “Se têm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica

Carta Astrológica de Álvaro de Campos por Fernando Pessoa

Álvaro de Campos Lisbon Revisited (l923)

só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?” Mas essa indignação, caro leitor, não era de Pessoa, era de Álvaro de Campos. Uma máscara providencial, um esconderijo, um nickname apenas? Talvez sim, talvez não. Talvez Álvaro de Campos fosse o autor e Fernando Pessoa era o seu disfarce para os dias comuns de Lisboa. O fato é que ele mesmo no poema identifica a verdade: “Ó céu azul — o mesmo da minha infância — Eterna verdade vazia e perfeita!” E nessa constatação, encontra não só na sua cidade, revisitada, mas na sociedade que a faz, uma “mágoa”, pedindo na solidão, um alívio daquilo que não vê como sua verdade. Certamente, esse terceiro milênio ainda nos apresentará muitas fórmulas para nos adaptarmos ao sistema de cada hora. E como Pessoa, “...enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!”. Marcelo Passamai

~ INteRVENCAO

Sociedade Duas culturas diferentes, mas hábitos em comum, bons ou maus, não sei! Fiquei espantada ao ler que na Alemanha existe uma cultura de “despedidas”, descrita como um hábito difícil de entender, estupidamente alemão! O escritor fala sobre as cerimónias de despedida que duram muito tempo a seguir a uma noite maravilhosa que você passou com os amigos. Mas na hora de despedida você tem de ficar no corredor ou no hall de entrada, muitas vezes com a porta semi-aberta, direito,

tem que suportar a situação e ainda não pode ir para fora . De certeza absoluta que não é só na Alemanha! A minha experiência na ilha: eu tenho que ir muitas vezes a pé para casa (deixando o meu amigo levar o carro). O encontro com os meus amigos foi tão bonito, a comida maravilhosa, as conversas ricas em conteúdo, levantamo-nos da mesa para….. e então com o casaco vestido ou semi-vestido na entrada da casa, ao mesmo tempo surge um tema muito importante para o qual não

tivemos   tempo anteriormente, e há engarrafamento no corredor. Ninguém pode sair!  Tento manter-me firme, não quero ser mal educada!   Ou, como o meu companheiro, mas  ninguém   o leva mal…! Em princípio fico à espera até poder sair e depois ir a pé!

NÃO: Não quero nada.   Já disse que não quero nada.  Não me venham com conclusões!   A única conclusão é morrer.  Não me tragam estéticas!   Não me falem em moral!  Tirem-me daqui a metafísica!   Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas   Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —   Das ciências, das artes, da civilização moderna!  Que mal fiz eu aos deuses todos?  Se têm a verdade, guardem-na!  Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.   Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.   Com todo o direito a sê-lo, ouviram?  Não me macem, por amor de Deus!  Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?   Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?   Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.   Assim, como sou, tenham paciência!   Vão para o diabo sem mim,   Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!   Para que havemos de ir juntos?  Não me peguem no braço!   Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.    Já disse que sou sozinho!   Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!  Ó céu azul — o mesmo da minha infância —   Eterna verdade vazia e perfeita!    Ó macio Tejo ancestral e mudo,   Pequena verdade onde o céu se reflete!   Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!   Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.  Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo...   E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Eu tenho  sorte que a minha casa não tem corredor, nenhum hall, e a saída é descendo as escadas depois da porta aberta, porque muitas vezes é o dono da casa que abre a porta e se vai deitar com algum cansaço. Ulrike Alemoa

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Fichas de identificação botânica - Parque Natural do Faial ^ CIENCIA E AMBIENTE

Azevinho

Nome comum: Azevinho Nome científico: Ilex azorica Família: Aquifoliaceae Origem/Distribuição: Açores (excepto Graciosa) Características: árvore cuja copa pode atingir os 10 metros de altura, e os 5 metros de largura. As folhas são coriáceas (rígidas), verdes vivas brilhantes, elípticas a arredondadas, serrilhadas e espinhosas em novas, e inteiras (bordas lisas) apresentando apenas uma ponta espinhosa na sua extremidade pouco tempo depois da sua formação. A sua época de floração é normalmente entre Abril e Junho sendo a flor creme ou rosada. Os frutos, de cor vermelha, surgem Entre Novembro e Janeiro. Esta espécie é dióica, o que significa que as flores femininas se encontram numa planta e as flores masculinas numa outra planta diferente. Assim, apenas os indivíduos femininos produzirão os frutos de cor vermelha, mal as flores femininas sejam polinizadas pelo pólen da planta masculina.

Localização na ilha: exemplares muito interessantes podem ser observados na Levada, destacando-se também alguns no interior do Cabeço-dos-Trinta. O caminho que liga o Parque Florestal do Capelo ao início do trilho da Levada é também rico nesta espécie. No interior da Caldeira observam-se vários indivíduos. O azevinho-dos-Açores é frequente entre os 250 e os 750 metros de altitude, preferindo sempre zonas acima dos 500 metros. É raro em povoamentos puros, vindo geralmente associado a outras espécies características da Laurissilva açoriana, como os louros e os cedros-do-mato. Curiosidades: esta espécie essencialmente de zonas de média altitude dos Açores (300 a 1000 metros) apresenta características morfológicas diferentes das espécies parentes com origem no continente. A principal diferença do nosso para os do continente, é a de possuir folhas não espinhosas, uma vez que a ausência de herbívoros nativos (como cabras e ovelhas) levou à evolução das margens

das folhas para passarem a ser lisas e redondas, por não ter a necessidade de se proteger contra essa ameaça (só mais tarde, com o povoamento da ilha, foram introduzidos os primeiros animais domésticos). Desta forma, o nosso azevinho pode hoje ser facilmente ingerido por animais, principalmente pelo gado bovino. Na ilha do Pico, por exemplo, algumas pastagens são geridas à semelhança do montado Alentejano no continente, isto é, no Inverno, quando a produção da pastagem baixa por causa do frio, alguns agricultores do Pico complementam a alimentação dos

animais, cortando e distribuindo algumas ramagens de azevinho na pastagem; do mesmo modo, no Alentejo, os criadores de alguns animais complementam a alimentação à base de pastagem, com as bolotas que caem no chão de azinheiras e sobreiros. Também as ramagens do azevinho repletas de bagas vermelhas, no Inverno, são usadas como um símbolo do Natal, tanto nos Açores, como a nível mundial. Nuno Rodrigues - PNF

Bonitaenquanto trabalhas

Duas raparigas que trabalhavam juntas num jornal e pouco sabiam uma da outra, descobriram, certa noite numa festa, que ambas tinham um fascínio pelas imagens e textos das revistas das suas avós, o mesmo é dizer por essa época em que a Mulher era  esquizofrenicamente perfeita aos olhos e contexto da época.   Uma das raparigas, apropriadamente chamada Aurora -  o que sempre leva a novos começos  -   pensou que seria engraçado colocar o que tinham coleccionado na internet.  Pretty while you work  não  pretende ser  um ensaio académico online sobre a condição da Mulher ao longo dos tempos; é uma diversão nossa para quem quiser explorá-la connosco. Carla Cook

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Carla Cook tem dificuldade em fazer o seu perfil; preferia frente a frente. Essencialmente, é uma rapariga romântica e crente, forçada a ser irónica e “perigosa” devido a ter nascido numa dura época histórica. Foi educada pelos seus avós, aí conhecendo um mundo vintage. 

Aurora Ribeiro é uma dona de casa letrada, tendo aprendido a governar um lar através de livros e revistas. Coleccionou fascículos de culinária e auto-defesa na tentativa de suplantar algumas dificuldades. Casou já depois de ter um filho, mas não parece importar-se com isso.

Carla Cook

Aurora Ribeiro (5ª a contar da esquerda, num dia em que se esqueceu de levar a revista para o cabeleireiro)

~ INteRVENCAO

http://prettywhileyouwork.blogspot.com


Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão: uma nova aproximação ao problema da gestão das pescas.

Figura 1. Co-gestão inter-relacionada entre todos os intervenientes

A co-gestão assume-se hoje como o rumo certo para a gestão efectiva dos recursos marinhos. Mas o que é isso da co-gestão? Como se poderá implementar essa realidade? Será esta uma alternativa para a pesca em Portugal, à semelhança do que se passa em outros países europeus? É normal entre conversas de pescadores ouvir-se dizer que muitos gestores e governantes não sabem distinguir uma sardinha de um chicharro. Que lhes falta ir ao mar para saberem como gerir a pesca. Ou seja, que quem lhes dá a cana não sabe pescar. Por outro lado, os responsáveis pela gestão dos recursos argumentam que a sustentabilidade do sector depende da capacidade dos pescadores para rentabilizar as capturas em qualidade, em detrimento da quantidade. Neste cenário actual, a gestão do sector é então ditada por esta dicotomia: onde de um lado se encontra quem administra e gere e do outro estão os agentes da pesca (pescadores, armadores, comerciantes, estaleiros, entre outros). Este facto, pode explicar a crise no sector, reflectida socialmente no decréscimo do número de pescadores e dos seus rendimentos, e biologicamente na diminuição das capturas. Até aqui nada de novo, mas este modelo de gestão actual porém pode ter os dias contados. Durante a última década tem-se assistido a uma mudança na forma de pensar na governança do sector das pescas,

no sentido de incluir a participação dos pescadores nos processos de decisão e gestão. Desta forma, os marítimos são solicitados a tornarem-se membros activos da gestão das pescas, equilibrando direitos e responsabilidades e trabalhando em parceria com os decisores, do mesmo lado da questão. A esta nova forma de pensar chama-se co-gestão da pesca (Figura 1). Já implementado com sucesso em vários países, europeus e outros, este modelo de gestão mostrou ser o mais adequado para resolver problemas de diversas comunidades piscatórias. Tendo por base uma nova perspectiva do sector, no sentido em que valoriza a ligação das comunidades humanas locais ao ambiente e aos seus recursos, este modelo reconhece sobretudo que a gestão das pescas deverá centrar-se nas pessoas e não apenas no peixe. Dependendo das especificidades de cada local e de cada população, este tipo de modelo pode assumir normalmente cinco patamares distintos, de acordo com o papel dos intervenientes na tomada de decisões (Figura 2). A co-gestão pode ser então: Instrutiva – quando os governantes informam os intervenientes acerca das decisões que planeiam tomar; Consultiva – quando alguns tópicos são discutidos com os intervenientes, mas o governo toma todas as decisões, Cooperativa – os intervenientes e os governantes, cooperam ao mesmo

^ CIENCIA E AMBIENTE

Figura 2. Hierarquia das diferentes formas de gestão. Adaptado de Pomeroy and Berkes

nível na tomada de decisões; Participativa – os intervenientes propõem ao governo quais as decisões a ser tomadas; Informativa – os governantes são afastados da toma de decisões e são apenas informados acerca das decisões tomadas pelos intervenientes. Segundo um estudo realizado pela OCDE, existe uma relação directa entre o sucesso na gestão do recurso e a maior participação dos intervenientes, devido principalmente a três causas: •Os pescadores têm acesso a informação privilegiada, o que leva a uma gestão mais eficiente. Dada a sua participação, existe mais consenso e respeito pela gestão, uma vez que o sucesso das medidas depende dos próprios decisores; •A fiscalização é mais efectiva e barata, visto se tratar de regras propostas pelos próprios pescadores. Para além disso, os próprios grupos de pescadores podem impor sanções formais e informais aos seus membros; •A autonomia dos pescadores permite aos governantes distanciarem-se do peso político das decisões que a gestão das pescas implica, que por vezes impede a defesa dos stocks em detrimento da popularidade dos governos; Em conclusão, dada a complexidade que as reformas dos modelos de gestão acarretam, é necessário ressalvar que a co-gestão não é de todo simples, nem de implementação automática e que

nem sequer se pode garantir que a sua aplicação promova a sustentabilidade da actividade piscatória. De facto, é necessário fazer qualquer coisa. As pescas tradicionais estão em crise em quase todo o mundo e visto que os modelos de gestão actuais não se mostram capazes, talvez tentar novas formas de aproximação ao problema seja melhor do que continuar na mesma. Que poderemos fazer? Temos que aprender e pensar e operacionalizar estes novos conceitos e técnicas, apesar do trabalho que tal acarreta. Será necessário discutir e aprender com as comunidades que já experimentaram estas novas formas. Por mais difícil que possa parecer, torna-se necessário ignorar os comportamentos incorrectos dos pescadores, dos governantes e da comunidade científica. Para a mudança ocorrer torna-se imperativo a abertura de espírito a novas ideias, por mais que os velhos do Restelo se recusem a fazê-lo. O fado do mar, da pesca e dos pescadores encontra-se em risco, as vidas de pessoas estão em risco e tu podes fazer a diferença! Daniel Pereira (Aluno de Mestrado em Estudos Integrados do Oceano DOPUniversidade dos Açores)

7 FAZENDO + 2 A 16 FEV 2012


musica e video com Tiago Pereira portugal shake Septimus dj set

Fazendo Barulho 3

Festa dia 10 Fevereiro no café internacional

Agenda FAIAL

PICO

Qua_1 Fev. a Qua_30 Mai.

Sab_4 Fev. e Dom_5 Fev.

Ter_31 Jan. a Qua_29 Fev.

9h30 às 12h30 / 14h às 16h30 (sob marcação) Fábrica da Baleia e Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos “VER O CLIMA… NOS OMBROS DOS GIGANTES” exposição

21h30 Teatro Faialense KILLER ELITE - O CONFRONTO filme de Gary McKendry

20h30 Museu dos Baleeiros “PAULO GOUVEIA: A REINVENÇÃO DO VERNÁCULO” exposição

Qua_1 Fev. a Ter_21 Fev. 9h às 12h30 / 14h às 17h30 Museu da Horta VAMOS FAZER UMA MÁSCARA?

Sáb_4 _11 e _18 Fev. 10h às 12h Museu da Horta - OFICINA DA FANTASIA – FANTOCHES, MÁSCARAS E CABELEIRAS Inscrições até 3 de Fevereiro Atelier de expressão plástica

Sab_4 Fev. 10h00 (ponto de encontro) Jardim Botânico do Faial PLANTAÇÃO DE ENDÉMICAS NOS CHARCOS DE PEDRO MIGUEL inscrições limitadas _292207382 parque.natural.faial@azores.gov.pt

Sex_10 Fev. 23h00 Café Internacional FAZENDO BARULHO 3 com Tiago Pereira (portugal shake) com Septimus (dj set)

Sex_3 e Sáb_4 Fev. 20h às 12h Gruta das Torres UMA AVENTURA NA GRUTA actividade Parque Aberto

Ficha Técnica FAZENDO - DIRECÇÃO Jácome Armas Pedro Lucas Aurora Ribeiro Tomás Melo

COORDENADORES TEMÁTICOS Albino, Anabela Morais, Carla Cook, Fernando Nunes, Filipe Porteiro, Helena Krug, Luís Menezes, Pedro Gaspar, Pedro Afonso, Rosa Dart, Tomás Melo CAPA Renata Lima COLABORADORES Afama, Alexandra Boga, Daniel Pereira, Dieter Ludwig, Marcelo Passamai, Miguel Valente Nuno Rodrigues, Victor Rui Dores

Sex_10 Fev. e Sáb_11 Fev.

Sáb_4 Fev.

21h30 Teatro Faialense AMOR, ESTÚPIDO E LOUCO filme de Glenn Ficarra

22h Casa do Povo da Calheta do Nesquim NOITE DE FADOS Patrocínio da Humanidade

Sáb_11 Fev. e Sáb_17 Mar.

Sex_10 Fev.

SEDE Rua Rogério Gonçalves, nº 18 9900 Horta

15h Hospital da Horta APOIO AO ALEITAMENTO MATERNO reuniões

21h Centro de Artes e de Ciências do Mar Ciclo de Cinema Português FANTASIA LUSITANA filme de João Canijo

PERIODICIDADE Quinzenal

Dom_12 Fev. 17h Teatro Faialense HAPPY FEET 2 (legendado) filme de George Miller

Sab_18 Fev. 17h São Roque do Pico LANÇAMENTO DO FAZENDO N.72 EDIÇÃO ESPECIAL / ILHA DO PICO

O Tempo

Gatafunhos- Tomás Melo

Previsão meteorológica para esta quinzena céu de pouco a muito nublado com possibilidade de aguaceiros

REVISÃO E AGENDA Sara Soares PROJECTO GRÁFICO Lia Goulart PROPRIEDADE Associação Cultural Fazendo

TIRAGEM 500 exemplares IMPRESSÃO Gráfica O Telégrapho CONTACTOS vai.se.fazendo@gmail.com fazendofazendo.blogspot.com 967567254


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