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À espera de D. Sebastião

FAZENDO boletim do que por cá se faz

8 de Abril de 2010 | Quinta | Edição # 36 | Quinzenal | Agenda Cultural Faialense | Distribuição Gratuita


Opinião

Opinião Entrevista

Genuíno Madruga

Aurora Ribeiro

J

á deu duas voltas ao mundo. Encontrou algum

lugar onde achasse que as pessoas fossem especialmente felizes ou satisfeitas com a vida? Esta pergunta é muito subjectiva, há gente boa e má em toda a parte do mundo. Mas nas ilhas da Polinésia, nomeadamente

Crianças das Ilhas Marquesas | Foto: Genuíno Madruga

nas Ilhas Marquesas, a forma de vida daquelas gentes tem pouco a ver com esta daqui dos chamados países ocidentais.

voltadas para o mar, apesar de que, nos últimos anos, mesmo

oportunidade de o fazer, sou pescador, vivo no mar, nem

E perguntamo-nos afinal o que é civilização? É a nossa, que

assim, houve alguma melhoria. Fundamentalmente a mudança

sempre tenho tempo em terra disponível, mas atendo todos

está dando cabo disto tudo, do clima? Esta civilização do

na mentalidade tem que passar pela escola, o ensino têm que

que vão conversar comigo. E estes são temas que a rapaziada

plástico e das latas de coca-cola, da droga, assaltos a bancos

estar inserido na nossa realidade: pouca terra, mar e turismo.

gosta muito. O importante é lançar as sementes. Contar-lhes

e bombas? Nessas pequenas ilhas do Pacífico e do Índico não

Porque carga de água é que têm que vir estrangeiros trabalhar

sobre o primeiro barco que tive, construí-o com 12 anos, era

precisam de polícias. A maior parte delas está livre de drogas

para esses ferry boats? Porque carga de água é que quem vai

uma chata com 2,60m, incentivá-los a realizar seus sonhos,

porque têm os seus próprios meios de resolver esses

para o mar é quem não sabe ler nem escrever?

não só dar a volta ao mundo, mas estudar, comprar uma casa,

problemas. Melhor do que tudo: não há gente miserável como

Houve recentemente um debate no Parlamento onde se

formar-se numa profissão, etc.

há nos países ocidentais e lá há uma forte e importante

defendeu a construção de uma escola de pescadores nos

ligação com a Terra e com o Mar.

Açores. Mas como é que isso iria ser feito? E onde? Em São

Estamos melhor hoje que antes?

Miguel? Ir estudar para São Miguel exige quase o mesmo

Claro que sim, falando da pesca, apesar de todos os

O que é que podia ser feito para que aqui também houvesse

esforço do que ir estudar para Lisboa. Eu, por exemplo,

problemas que vão condicionando o nosso futuro na pesca,

uma maior ligação com a Terra e com o Mar?

estudei em Lisboa. Criar uma escola dessas implicaria custos

vive-se melhor do mar. A segurança é maior, as condições de

A Horta é um dos maiores portos do mundo em movimento de

enormes. Em vez disso porque não implementar-se logo de

vida a bordo são melhores. Mas também é facto que não há

iates, mas as pessoas limitam-se a vê-los passar. Mesmo assim

princípio os ensinamentos básicos sobre o mar, com o intuito

muito tempo quem vivia do mar tinha alguma qualidade de

já vai havendo um maior número de pessoal com barcos, mas

de incentivar a rapaziada a gostar e os entusiasmasse então a

vida, o que hoje já não é bem verdade. O futuro é também

a ligação da Horta com o Mar está principalmente relacionada

ir estudar para fora?

uma incógnita muito grande e as consequências já aí estão. Na exploração do nosso mar há stocks em ruptura: espécies

com a passagem dos estrangeiros, o que eu não compreendo. Só para dar um exemplo, nas Ilhas Marquesas há um dia por

Na sua função, como é que contribui para melhorar o nosso

demersais como o goraz, a boca negra e em muito pouco

semana, a sexta-feira, em que todas as crianças da escola

futuro?

também o cherne. Mas ainda se continua a aumentar o

vão aprender a nadar, remar, andar à vela, para além de que

Falando de coisas práticas, dando exemplo de vida, utilizando

esforço de pesca!!! Os rendimentos estão a diminuir e os

nos outros dias à tarde vão todos para o mar, com as suas

os conhecimentos das duas viagens de circum-navegação que

custos, como o combustível, a manutenção dos barcos, os

canoas, etc. A formação básica escolar já traz disciplinas

realizei, palestrando aos alunos das escolas, tanto os maiores

aparelhos, entre outros, continuam a aumentar. Cada vez se

sobre o estudo do mar. Aqui vivemos practicamente de costas

como os pequeninos. Não faço mais porque não tenho

ganha menos e vêm a caminho sérios problemas sociais.

Transformarte Pedro Lucas

H

á uma nova publicação nos Açores dedicada

Cada estação do ano trará um novo número do fanzine que

às “artes e às coisas mundanas”. O fanzine Transformar.te foi

terá distribuição regional gratuita em formato físico assim

recentemente lançado pela Associação Cultural Burra de

como acesso livre na internet:

Milho, sediada na ilha Terceira, e pretende ser um espaço,

www.issuu.com/transformarte.

não temático, de intervenção e divulgação. Para a elaboração

Dos assuntos que preenchem a edição desta primavera fazem

de conteúdos a organização faz um convite aberto à

parte, entre outros, os “fanzines” (em sentido genérico), o

participação de todos os interessados em colaborar ou

trabalho plástico multidiscplinar “À prova de fogo e Bala” e a

promover o seu trabalho, que têm assim um novo meio de dar

fotografia de Pedro Duarte Jorge. De notar também a

visibilidade às suas ideias.

excelente apresentação gráfica da publicação. O

ficha técnica - fazendo - isento de registo na erc ao abrigo da lei de imprensa 2/99 de 13 de janeiro, art. 9º, nº 2 - direcção geral: jácome armas - direcção editorial: pedro lucas - coordenadores temáticos: catarina azevedo, luís menezes, luís pereira, pedro gaspar, ricardo serrão, rosa dart - colaboradores: aurora ribeiro, cláudia ávila gomes, filipe m. porteiro, genuíno madruga, parque natural do faial, sara soares, tiago vouga, tomás silva - projecto gráfico: paulo neves, elcubu, contact@elcubu.com - capa: “ecce-femina” de gil teixeira lopes - produção e paginação: aurora ribeiro - propriedade: associação cultural fazendo - sede: rua rogério gonçalves, nº 18, 9900 horta periodicidade: quinzenal - tiragem: 400 exemplares - impressão: gráfica o telégrapho - contactos: vai.sefazendo@gmail.com, http://fazendofazendo.blogspot.com - distribuição gratuita - apoio: direcção regional da cultura:

02


Música Música Música no Papel Fausto

A

pauta musical, tal como hoje a

conhecemos, é o conjunto de 5 linhas horizontais, paralelas e equidistantes que formam entre si 4 espaços onde são colocadas as notas da partitura. É também denominada de pentagrama, no sistema de notação da música ocidental, e apesar de ter sido estabelecida no séc. XI, só entrou em uso definitivo a partir do século XVII. Antes deste modelo, usava-se apenas uma linha, com o mesmo princípio deste método, ou seja, a distanciação à linha para cima (agudos) ou para baixo (graves), criava as diferentes notas. Tratava-se de um método impreciso, pelo que as linhas foram aparecendo, primeiro num esquema de quatro (tetragrama) e depois cinco com os respectivos espaços. Na idade média, através das pautas era já possível representar não só a altura das notas, como também a sua duração e os compassos das músicas. Mas apesar deste percurso lento e fungiforme da notação em

suas misturas sonoras (dub). Foi o primeiro compositor a

todos eles com conceitos diferentes, mas todos eles

pauta

utilizar fitas magnéticas e sintetizou os seus métodos de

igualmente interessantes. Músicos como John Cage, John

trabalho naquilo que chamou “música concreta”, em oposição

Bergamo, Brian Eno, John Zorn, e Emanuel Pimenta, foram e

à música clássica. O seu génio inventivo estendeu-se à

são verdadeiros experimentalistas da música e da sua

notação

tradicional,

sempre

houve

paralelamente

quem

de

representação. Emanuel Pimenta, músico, arquitecto e

representação algo bizarras. Estas técnicas, rompendo com o

escritor que já nos visitou no Faial, e com quem tive o prazer

paradigma instalado, eram difíceis de interpretar e perceber,

de conversar sobre este e outros assuntos, vai mais longe na

musical,

onde

experimentou

técnicas

representação musical, criando a pauta tridimensional, através de sistemas digitais. Essa pauta, a que Emanuel experimentasse novas formas de escrever ou representar

Pimenta chama máquina, é uma verdadeira construção

música, sem música. Ao longo dos tempos, vários músicos

tridimensional, onde através de ordens do compositor,

propuseram sistemas de simbologia alternativos, sendo que

determinados fenómenos musicais acontecem, alguns de

muitos deles nunca foram além do interesse estético. Outros,

carácter aleatório, outros controlados. Assim, o resultado

apesar de lógicos e intuitivos, não eram precisos, ou seja,

final é por vezes inesperado, e a representação tridimensional

eram concebidos à imagem do autor, dando lugar a variadas

da música é ao mesmo tempo o instrumento para a mesma se

interpretações por parte de intérpretes (o que também tem o

manifestar.

seu interesse).

Na música Ocidental, adoptou-se o pentagrama ou pauta

Pauta musical de Schaeffer e não seguiam uma linha condutora comum, eram “esquemas” mentais que obrigavam à interpretação emocional de cada peça através da sua representação simbólica. Ou seja,

“kepler’s vestiges emanuel dimas de melo pimenta 2007 to audrey riley” como método consensual de representação musical, o que se torna importante no sentido em que universaliza a sua compreensão. Isto não implica porém que novos sistemas não sejam experimentados, e mais importante do que isso: não pode servir de limitação a um músico. Assim como a criatividade musical não tem limites, a sua representação Um dos grandes mestres da desconstrução do sistema

também não pode ter, e cada um terá de criar os seus

tradicional foi Pierre Schaeffer, músico de Nancy nascido em

esquemas e métodos representativos, tradicionais ou não. Quem sabe um destes dias não surgirá um sistema de notação

1910. Em termos musicais experimentou em Paris técnicas pioneiras de gravação e sobreposição de sons, e com eles

Schaeffer não teve a intenção de criar um novo método que

inovador, mais simples e democrático, e que remeta o velho

compunha peças completas. O seu primeiro trabalho de 1948

substituísse o pentagrama, apenas exercia a liberdade de

pentagrama para os livros empoeirados da história. Seria

intitulou-se “Étude aux chemins de fer”, feito com

expressar a sua música como lhe apetecia.

bom, pois na minha opinião o pentagrama funciona muito

equipamentos de uma estação de rádio, onde o músico

À semelhança de Schaeffer, muitos músicos antigos e

bem, mas é chato e aborrecido, e algo limitador até (perdoe-

subverteu todas as regras até então estabelecidas com as

contemporâneos apresentaram alternativas à escrita musical,

me o reservatório de conservas). O

03


Teatro e Cinema A

Cinema

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar Tiago Vouga - Teatro de Giz

O

Espectáculo

A

Depois de “Paisagens em Trânsito” de Patrick Murys, as

o do Festival Teatralia, em Madrid.

marionetas voltam a pisar o palco do Teatro Faialense, desta

O ponto de partida para o espectáculo é a história de Luís

vez manipuladas pela arte dos actores e actrizes do Teatro

Sepúlveda com o mesmo nome, que aborda os temas da

Art’Imagem. Próxima do seu trigésimo aniversário, a

poluição ambiental e da tolerância perante diferenças/

companhia portuense exibe uma invejável vitalidade, criando

naturezas

três novos espectáculos por ano e assegurando a realização

marionetas em polioretano flexível, os actores empregam

de eventos consolidados tais como os festivais Fazer a Festa e

todo o seu talento e experiência para contar esta fábula

o Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia.

ecológica e social. O resultado é um espectáculo de grande

O espectáculo “História de Uma Gaivota e do Gato que a

beleza tanto ao nível da forma como do conteúdo, apropriado

dade àcerca do espectáculo, conhecer melhor o grupo, os

Ensinou a Voar” é certamente um dos seus espectáculos de

para qualquer público a partir dos 4 anos. O

seus actores e as marionetas que dão vida a esta história. O

aparentemente

inconciliáveis.

Através

de

maior sucesso. Estreado no ano de 2008, o espectáculo tem estado

permanentemente

em

digressão,

tendo

sido

apresentado em palcos como o do Centro Cultural de Belém e

O espectáculo é apresentado domingo, dia 11 de Abril, pelas 16h no Teatro Faialense.

À espera de Godot

C

umprida metade da programação da edição deste

também o mais audacioso. Prevaleceu o desafio sobre os

ano do Festival de Teatro do Faial, chega a hora dos grupos

escassos três meses e meio entre o início dos ensaios e a

faialenses se apresentarem. Começamos pelo Teatro de Giz,

estreia e as limitações habitualmente impostas

já no dia 17 de Abril, com “À Espera de Godot” de Samuel

profissionalização dos membros do Teatro de Giz em outras

Beckett, com encenação de João Garcia Miguel.

áreas que não a do teatro.

Apontado por muitos como o melhor texto dramatúrgico do

Decorridos três meses de ensaios, estamos confiantes de que

século XX, esta obra de Beckett é uma trágicomédia em dois

tomámos uma boa decisão. Sob a exigente orientação de João

actos. Centra-se sobre a espera de duas personagens por

Garcia Miguel e de Sara Ribeiro, a assistente de encenação,

Godot (algo ou alguém que tarda em chegar) e que os obriga

desenha-se um espectáculo surpreendente e divertido, para

a criar diversões para “matar o tempo”. O resultado são

que o resultado final seja um espectáculo digno do Teatro

situações aparentemente absurdas que carregam tanto de

como João Garcia Miguel o define: “a arte do tempo, a arte

imprevisível como de familiar.

de bem saber matar o tempo”.O

De entre todos os textos equacionados pelo elenco e o

O espectáculo é apresentado Sábado, dia 17 de Abril, pelas

encenador, “À Espera de Godot” era o mais cativante mas

21h30 no Teatro Faialense

Tiago Vouga - Teatro de Giz

04

pela

Oficina

O Teatro Art’Imagem apresenta-se em tertúlia logo após o espectáculo “História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”. Uma oportunidade para satisfazer qualquer curiosi-


Arquitectura ee Artes Artes plásticas Arquitectura Plásticas Um Príncipe e um Observatório no Cabeço das Moças Filipe M. Porteiro - DOP/UAç Em boa hora, no entanto, a casa Grimaldi, com o apoio da Concelho da Horta e do Instituto de Meteorologia recuperaram o observatório, onde Alberto II do Mónaco, descerrará uma lápide onde se evoca a “contribuição [do seu trisavô] para o conhecimento científico do Mar dos Açores”.

E

ra uma vez um Príncipe marinheiro que se

sobre a história e o ensino da oceanografia biológica.

apaixonou pela vida marinha e fez do Mar dos Açores o seu

Assim sendo, não é desprezível, nem despropositado,

jardim-laboratório de águas profundas. A descoberta dos

perpetuar a sua memória e a herança que o Príncipe nos

segredos marinhos ocultos era a paixão do Príncipe Alberto I

deixou. Neste âmbito, é de referir que os açorianos

do Mónaco. Claro, que o soberano-oceanógrafo não se ficou

reconheceram este legado e desde cedo organizaram eventos

pelos prazeres da investigação e nestas ilhas cultivou

e manifestações em sua homenagem: baptizaram-se ruas com

frutíferas amizades, iniciou naturalistas interessados, registou

o seu nome (onde Alberto I esteve presente); promoveram-se

costumes locais, redescobriu sítios de interesse ecológico e

sessões e publicações temáticas comemorativas das suas

paisagístico, lançou as bases da rede regional de meteorologia

campanhas; escreveram-se livros e estudos sobre a sua

e escreveu poeticamente sobre nós e sobre a história natural

actividade cultural e científica; editaram-se gravuras alusivas

das nossas ilhas. Os Açores para o Príncipe foram um local de

às suas estadias nos Açores; lançaram-se carimbos filatélicos

eleição.

comemorativos; e baptizaram-se edifícios com o seu nome,

Sobre

os

seus

auspícios

fizeram-se

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campanhas

como o Observatório Meteorológico Príncipe Alberto I do

Criar um parque, à semelhança do belo Jardin Exotique, que

oceanográficas no Mar os Açores. Nos seus quatro navios,

Mónaco, situado estrategicamente no Cabeço das Moças, na

em socalcos enquadra a zona ribeirinha do Principado do

entre 1885 e 1914, uma equipa multidisciplinar desenvolveu

Horta.

Mónaco, seria uma ideia complementar. Diz-se que Alberto I

técnicas e equipamentos inovadores aplicados à biologia,

Este posto meteorológico, como é popularmente conhecido,

do Mónaco ao conceber o Jardin Exotique, se inspirou em

oceanografia, geomorfologia e meteorologia. Descreveram-se

inclui belas peças museológicas de equipamento científico e

outros que viu durante as suas viagens aos Açores,

centenas de espécies exóticas e bizarras e habitats

um espólio documental de inegável valor patrimonial e

nomeadamente em S. Miguel e na Horta.

desconhecidos, da superfície ao abismo; estudaram-se

histórico. Acontece que o edifício onde se registou e

Os proveitos de tais iniciativas seriam diversificados e

correntes marinhas e largaram-se balões atmosféricos;

acompanhou a maioria das crises sísmicas que abalaram esta

consideráveis:

descobriram-se bancos oceânicos (como o Princesa Alice) e

terra, durante o século XX, quase que ia sucumbindo ao

- Dignificava-se a memória de Alberto I do Mónaco;

fossas abissais (como a Hirondelle). As ciências do mar

terramoto de 1998!

- Promovia-se um centro de monitorização em áreas que para

conheceram um impulso invulgar.

Em boa hora, no entanto, a casa Grimaldi, com o apoio da

nós são fundamentais, como a meteorologia e a sismologia;

O seu legado está registado em numerosas publicações

Concelho da Horta e do Instituto de Meteorologia recuperaram

- Incentivava-se a mobilidade e a fixação de pessoas e a

científicas dadas ao prelo com a sua chancela. As instituições

o observatório, onde Alberto II do Mónaco, descerrará uma

transferência de tecnologias e de saberes;

científicas por si fundadas (Museu Oceanográfico e o Instituo

lápide onde se evoca a “contribuição [do seu trisavô] para o

- Recuperava-se património cultural e científico;

Oceanográfico do Mónaco, entre outros) projectam no tempo

conhecimento científico do Mar dos Açores”.

- Resgatava-se para a cidade uma mancha feia e com

a sua visão moderna dos estudos oceânicos. As suas memórias

Agora, após a recuperação e reabilitação do edifício, será

possibilidades de uso muito restritas;

ficaram gravadas no seu livro autobiográfico La Carrière d’un

tempo de pensar na integração funcional deste património

- Nascia um novo espaço verde, imprescindível em cidades

Navigateur, onde também descreve de forma apaixonada as

cultural,

modernas;

ilhas e as suas gentes. Escreveu milhares de cartas com

observatório, conjugada com a acção de uma equipa de

- Criava-se oferta científica, cultural e turística sustentada;

detalhes sobre as suas descobertas, projectos, sentimentos e

meteorologistas e/ou sismologistas, seria, neste contexto

- E enfim, promovia-se a qualidade de vida desta cidade.

impressões.

uma iniciativa fundamental.

Se isto acontecesse seria tão bom, não seria? As moças

Alberto I do Mónaco era um filantropo de destaque na

Por outro lado, este edifício classificado e recuperado

voltariam felizes a seu cabeço de sempre, o Príncipe seria

sociedade científica e cultural da Europa de então; hoje a sua

pontifica uma mancha claramente degradada, implantada no

mais uma vez lembrado de forma digna, a Horta valorizar-se-

obra é referência incontornável quando nos debruçamos

coração da cidade, e cujo destino não se vislumbra fácil.

-ia e a Ilha cumpria um destino. O

científico

e

paisagístico. A musealização

do

Exposição temporária de Gil Teixeira Lopes

Nota Biográfica Luís Menezes

G

portuguesa, expõe desde 1955, contando com mais de 800

il Teixeira Lopes , nasceu em Mirandela em 1936, e

exposições em diversos países, tais como: Alemanha, Angola,

de 1960 a 1995 foi Professor Catedrático da Faculdade de

Áustria, Bélgica, Brasil, Bulgária, Coreia, Dinamarca, Egipto,

Belas-Artes da Universidade de Lisboa, tendo desempenhado

Espanha, Estados Unidos da América, França, Índia, Inglaterra,

múltiplas funções de âmbito académico, e feito parte de júris

Itália, Japão, Jugoslávia, México, Noruega, Nova Zelândia,

artísticos nacionais e internacionais.

Polónia, Taiwan, Rússia.

Pintor, gravador, escultor, pedagogo, investigador, Gil Teixeira

Entre o seu vasto currículo artístico, Gil Teixeira Lopes

Lopes tem uma vasta obra de projecção internacional. É

recebeu, entre 1960 e 2005, cerca de 40 prémios e distinções,

membro honorário da Academia Nacional de Belas Artes,

quer no país, quer no estrangeiro. O

Medalha de Ouro das Cidades de Génova e Mirandela e

( Consultar Fazendo nº 35)

Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

A exposição inaugura hoje dia 8 de Abril, na sala de Exposições

Figura incontornável no panorama da arte contemporânea

da Biblioteca.

05


Literatura

Literatura de Stefan Zweig

Vinte e Quatro Horas na vida de uma mulher

Catarina Azevedo

desalento e é de uma lucidez terrível, “Antes de deixar a vida

Horas na Vida de uma Mulher é um excelente exemplo.

pela minha própria vontade e com total lucidez, sinto

Esta novela começa num quadro o mais formal possível, numa

necessidade de cumprir um último dever: agradecer ao Brasil,

pensão de família da Côte d’Azur, onde tudo parece muito

este país maravilhoso que me permitiu, bem como ao meu

banal até que um desconhecido leva consigo uma das jovens

trabalho, um repouso tão amigável e hospitaleiro. De dia para

esposas que abandona marido e filhos sem hesitação. As

dia, aprendi a gostar mais dele e em nenhuma outra parte

interrogações e os julgamentos morais que esta atitude

teria preferido edificar uma nova existência, agora que o

levanta vão levar a que o narrador e uma senhora já idosa se

S

mundo da minha linguagem desapareceu para mim e que a

arvorem em defensores da jovem o que levará a confidências

minha pátria espiritual, a Europa, se destruiu a si própria.

e à partilha de um segredo.

Mas, com mais de sessenta anos, seriam precisas forças

Num monólogo, esta conta como, já viúva, a sua vida foi

particularmente grandes para recomeçar a vida de fio a

mudada por um encontro com um homem, jovem, e como em

tefan Zweig começou por ser essencialmente

pavio. E as minhas desvaneceram-se em longos anos de

vinte e quatro horas as suas convicções, a sua alma e a sua

tradutor (com a particularidade de se ter tornado amigo

errância. Assim, penso que mais vale pôr fim a tempo, e com

vida foram destroçadas perante um encontro que nada faria

pessoal de quase todos os autores que traduziu) e biógrafo,

a cabeça erguida, a uma existência onde o trabalho

prever.

embora também fosse poeta, dramaturgo e romancista. Mas,

intelectual foi sempre a alegria mais pura e a liberdade o

Mais do que a paixão entre dois seres, Zweig evoca sobretudo

se tivéssemos de o definir, era antes do mais um viajante

bem supremo deste mundo.

a paixão do jogo, esse fogo que consome tudo e não deixa

convicto e um defensor impenitente da liberdade.

Saúdo todos os meus amigos. Que eles ainda possam ver a

lugar para mais nada, tal como já o tinha feito noutras das

Aliás, foi o seu amor pela liberdade e por uma sociedade mais

aurora depois da longa noite! Eu, eu sou demasiado

suas obras (em particular, em O Jogador de Xadrez), aliás,

justa que o fez trocar a Áustria inicialmente por Londres

impaciente, parto antes deles.”

para Zweig, a paixão é quase sempre uma febre que destrói

(onde conheceu aquela que viria a ser a sua mulher) e depois

Se não tivesse partido, três anos depois teria visto o fim do

tudo o que se atravessa no seu caminho e não é de todo um

pelo Brasil e, em última instância, o que o levou ao suicídio

domínio nazi, mas Sweig era um céptico e, em 1942, muitos

autor dado a finais felizes.

quando, em 1942, se deu conta que as trevas que cobriam a

teriam partilhado a certeza de que Hitler não seria vencido.

Por ser uma novela, Vinte e Quatro Horas na Vida de uma

Europa pareciam capazes de durar para sempre.

Dele

Mulher é uma boa forma de se descobrir este autor prolífico e

A mensagem de adeus que escreveu espelha bem o seu

personagens habituadas pela paixão de que Vinte e Quatro

resta

uma

obra

extraordinariamente

rica,

com

que tão bem retratou os meandros do espírito humano. O

Mãe, não tenho nada para ler

L

Catarina Azevedo

passado no Pulo do Lobo (nunca ouviste falar deste lugar?

cães.

embras-te do Pedro, do Chico, do João e das

Fica no Alentejo e tem este nome porque se diz que para

Uma palavrinha aos pais – Não é preciso apresentar Ana

inseparáveis gémeas, a Teresa e a Luísa? Imagina que desta

passar de uma margem para a outra basta um “pulo de lobo”,

Maria Magalhães nem Isabel Alçada, os seus livros fizeram

vez o Pedro e o Chico vão a passar por uma casa abandonada

desde que não tenhas medo dos vinte metros de altura que o

certamente as delícias de grande parte dos pais quando não

quando ouvem um grande reboliço e descobrem um telemóvel

local tem)? Se queres descobrir o que aconteceu basta leres

havia assim tantos livros que tivessem por pano de fundo

e umas cartas misteriosas. Quem será o Alcateia e quem serão

Uma aventura no Pulo do Lobo, de Ana Maria Magalhães e

Portugal ou cujos heróis se parecessem com as crianças que

Almina e Jerónimo? Qual será a sua história e o que se terá

Isabel Alçada, mais uma aventura destes amigos e dos seus

eram. Esta nova aventura não foge à regra. O

Humberto Eco

Pequenas ilhas a meio canal

Catarina Azevedo

G

Sobre a literatura

U

mberto

Eco

dispensa

apresentações,

Catarina Azevedo

o romance epistolar, visto que cada carta exige uma resposta que condiciona o próprio ritmo da escrita (desabituámo-nos

uernesey, uma das ilhas anglo-normandas, um mero

dos romances epistolares que estiveram tão em voga, talvez

ponto no Canal da Mancha, famosa por ter sido o abrigo do

porque nos desabituámos de escrever cartas, mas o género

poeta Vítor Hugo quando se viu exilado, passou quase

confere

despercebida aos olhos de todos.

mergulhássemos automaticamente num tempo ido).

ao

romance

um

certo

encanto,

como

se

autor

No entanto, um simples romance, escrito a quatro mãos,

Pelas cartas de Juliet e dos seus correspondentes descobrimos

consagrado, conhecido sobretudo pelo extraordinário O Nome

volta a pô-la no mapa e revela o quotidiano da ocupação

os que não regressaram a casa, os que sobreviveram e os que

da Rosa, professor universitário, exímio orador e ensaísta, é o

alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Sem excessos

redescobrem o seu caminho no meio dos escombros, retratos

protótipo do pensador moderno.

caricaturais

com

esboçados ou completos das transformações que a guerra

Contudo, a maior parte das pessoas centra-se na sua obra

pequenos detalhes: o racionamento, a falta de bens

trouxe a cada um e, no permeio, uma estranha sociedade

romanesca, deixando de parte os ensaios, que parecem

essenciais, a fome e a sujidade, as denúncias e os silêncios,

literária, criada num momento de urgência para evitar um

demasiado herméticos para o leitor comum. Fazê-lo é

as crianças que foi preciso mandar para Inglaterra sem que se

confronto com os alemães e que se torna uma porta de

esquecer a veia pedagógica de Eco e a sua vontade de

soubesse qual seria o seu destino (os pais “proibidos” de

evasão para um quotidiano demasiado frustrante.

explicar os bastidores daquilo que observa, seja um livro,

passar para além das portas da escola para que as despedidas

As sociedades literárias que fizeram as delícias do século XIX

uma música ou simples factos sociais, tal como fez em A Obra

fossem menos dolorosas), o “inimigo”.

e do início do século XX aparecem aqui numa outra dimensão,

Aberta.

Um caleidoscópio de momentos que constroem a imagem de

lugares de esperança e de consolo.

Sobre a Literatura é uma colectânea que se esforça sobretudo

uma ilha e dos seus habitantes num dos momentos negros da

Embora o livro ainda só exista na versão português do Brasil e

para revelar o que está por detrás de uma obra, os meandros

sua existência.

com um título que pode parecer desencorajador, A Sociedade

da construção de autores consagrados, levando-nos a

Na realidade, o romance não se debruça directamente sobre

Literária e a Torta de Casca de Batata, Mary Ann Shaffer e

compreender melhor a intenção por detrás das opções feitas

os acontecimentos, filtra-os duplamente. Primeiro, através da

Annie Barrows traçaram um retrato interessante de uma

pelos autores dos clássicos. O

distância temporal, ainda que breve, dado que retrata o pós-

comunidade isolada e das formas como o espírito humano se

-guerra. Depois, pela distância inerente à tipologia escolhida,

sobrepõe ao sofrimento.O

e

sem

contemplações

06

confronta-nos


Ciênciae eAmbiente Ambiente Ciencia A Reserva Natural do Morro de Castelo Branco Parque Natural do Faial

A

cagarro (Calonectris diomedea), garajau-comum (Sterna

englobam as Áreas de Paisagem Protegida do Monte da Guia,

hirundo) e o frulho (Puffinus assimilis baroli). Relativamente

a Reserva Natural da Caldeira e do Morro de Castelo Branco

Reserva Natural do Morro do Castelo

a esta última espécie, existem nos Açores, cerca de 800 a

e, ainda, as Áreas Protegidas para a Gestão de Habitats ou

Branco detém uma área de 15,7 hectares e é constituída por

1500 casais, representando cerca de 21% da população

Espécies da Ponta do Varadouro e do Vulcão dos Capelinhos.

um domo traquítico (estrutura rochosa resultante da

Europeia.

Na Reserva Natural do Morro de Castelo Branco, na qual se

acumulação de lava traquítica, que, devido à sua elevada

Este ano procede-se também com o avanço do Plano Regional

contou com a colaboração da Junta de Freguesia de Castelo

viscosidade, solidifica na parte terminal da conduta antes de

de Erradicação e Controlo de Espécies de Flora Invasoras em

Branco, foi já efectuado o arranque e corte de cerca de 30

atingir a superfície), unido a terra por uma península, e

Áreas Sensíveis (PRECEFIAS), uma acção do Governo Regional

000 m2 de cana (Arundo donax) e algum repovoamento com

arribas com falésias verticais com fendas que formam

dos Açores, orientada pela Secretaria Regional do Ambiente e

faias e pau-branco. Espera-se, assim, reduzir os impactos

pequenas grutas, calhau rolado e blocos rochosos. Este é um

do Mar, que dará continuidade à recuperação de espécies

negativos da flora exótica sobre este magnífico local para

importante local de nidificação de aves marinhas como o

endémicas e de Áreas Naturais Protegidas, que, no Faial,

observação de flora, fauna e geologia únicas. O

Acção de Voluntariado no Monte da Guia Cláudia Ávila Gomes

E

stá em preparação uma acção de voluntariado

para erradicação de invasoras e plantação de endémicas na Paisagem Protegida do Monte da Guia, a decorrer no dia 10 de Abril. Esta acção é organizada pelo Governo dos Açores, através do Parque Natural de Ilha do Faial, e visa estimular a participação de todas as pessoas a ajudar a cuidar de um património que é de todos. A actividade decorrerá no Sábado e o ponto de encontro é à porta do Centro do Mar (antiga Fábrica da Baleia), às 9h30 e às 14h30. O objectivo é que cada voluntário proceda à

Todo o trabalho será acompanhado por técnicos, que

Guia e o seu património natural e cultural. A todos os

limpeza de canas (Arundo donax) de uma determinada área,

trabalharão com os Voluntários, e poderão esclarecer

voluntários será dado um diploma de participação. Contamos

e em seu lugar plante uma endémica, o pau-branco (Picconia

questões relacionadas com a Paisagem Protegida do Monte da

convosco, a vossa ajuda é muito importante!O

azorica).

07


fazendos

Fazendos Agenda

Teatro: “História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar” de Luís Sepúlveda

Exposição de Pintura

(seguido de tertúlia)

“A Terra do Mar”

Companhia Teatro Art’Imagem

de Fernando Avellar

Cine-teatro Faialense | 16h | M4

XF - Bar | Encerra às 2ªas feiras 13 de Abril 8 de Abril

Cinema: “O Negócio”

Inauguração da Exposição

de Steven Schachter

“Na Máquina do Tempo”

Cine-teatro Faialense | 21h30

de Gil Teixeira Lopes Biblioteca Pública | 18h

16 de Abril

Teatro: “Eu vos declaro Marido e Marido” 9 de Abril

com Chamarrir

Cinema: “Nas Nuvens”

S.F. Faialense | 21h

de Jason Reitman Cine-teatro Faialense | 21h30

17 de Abril

Teatro: “À espera de Godot” 10 de Abril

de Samuel Becket

Acção de Voluntariado “Erradicação de Invasoras da

Teatro de Giz

Paisagem Protegida do Monte da Guia”

Cine-teatro Faialense | 21h30

Ponto de Encontro | Centro do Mar | Fábrica da Baleia 9h30 | 14h30

20 de Abril

Cinema: “Estrela Cintilante” de Jane Campion PUB

Cine-teatro Faialense | 21h30

Reunião do Grupo de Apoio ao Aleitamento Materno Unidade de Obstetrícia | Hospital da Horta | 15h

Cinema: “Planeta 51” de Jorge Blanco, Javier Abad e Marcos Martinez Cine-teatro Faialense | 17h

Gatafunhos Tomás Silva

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fazendo 36  

boletim doque por cá se faz