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ARAUTO SUPLEMENTO LITERARIO

Trimestral - março 2012 - edição gratuita

REFÚGIO Poemas de Svendborg Um remo sobre o telhado. Um vento médio Não levará a palha. No pátio para o baloiço das crianças Há barrotes cravados. O correio vem duas vezes Aonde as cartas seriam bem-vindas. Sund abaixo vêm as barcaças. A casa tem quatro portas, para fugir por elas. Bertold Brecht, 1939

LAVAR-SE Poemas e Fragmentos de Poemas 1913-1956 Quando há anos te mostrei Como devias lavar-te de manhã Com pedacinhos de gelo na água Da pequena caldeira de cobre Mergulhando a face, de olhos abertos Ao enxugares-te com a toalha áspera Lendo da folha na parede os versos difíceis Do papel, dizia eu: É por ti que fazes isto e fá-lo Exemplarmente. Agora dizem-me que deves estar presa. As cartas que escrevi a teu favor Ficaram sem resposta. Os amigos a quem recorri por ti Calam-se. Não posso fazer nada por ti. Como Será a tua manhã? Ainda farás alguma coisa por ti? Com esperança e responsabilidade, Com bons movimentos, exemplarmente? Bertold Brecht, sem data

POR LER

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LIDOS


Susana Vieira

Prémio Manuel de Arriaga

Ilha à Descoberta I Richard Harris estava sentado à secretária no seu escritório. Era lá que passava a maior parte dos seus dias, refugiado no meio de livros e discos de música clássica. Naquela tarde, encontrava-se debruçado sobre um mapa do continente Europeu. Mais do que qualquer sítio ele adorava a Europa. Tinha uma paixão por viajar e conhecer novas gentes e costumes. Isso reflectia-se na sua vastíssima colecção de porta-chaves que comprava sempre que visitava algum lugar. Desde que a mulher morrera, viajava com muita frequência. Essas viagens apaziguavam de certa forma a dor que sentia. Fixou-se novamente no mapa. Enquanto passava os dedos pela barba densa, apercebeu-se de que já percorrera todos aqueles países, alguns até mais do que uma vez. Posteriormente, constatou que junto a Portugal, um país lindíssimo que havia visitado há três anos, encontravam-se uns pequenos pontos - ilhas. Dirigiu-se à prateleira onde se encontravam os seus livros de Geografia meticulosamente organizados por ordem alfabética. - Açores! – Exclamou de rompante. Já tinha ouvido falar inúmeras vezes dessas primorosas ilhas e das suas características tão peculiares. Queria saber mais sobre elas. E assim, vestiu a gabardine azul-escura e caminhou até à biblioteca próxima de casa. Havia imensos livros referentes àquelas ilhas, pegou em alguns. Leu e releu atentamente todos os detalhes sobre as nove ilhas. Havia uma que para ele se sobrepunha a todas as outras. A ilha de forma quase pentagonal era sem dúvida a que mais o cativava. Aquelas imagens e descrições do vulcão, da caldeira, da marina, da cidade e de toda a flora, irradiavam raridade e beleza. Faial, a sua próxima viagem seria rumo à ilha do Faial.

No âmbito do Prémio Manuel de Arriaga, promovido pela Assembleia de Escola, foram a concurso, no ano letivo 2010/2011, 20 trabalhos. Neste concurso, cujo tema era "Ilha à descoberta" e a modalidade livre, os trabalhos agruparam-se em dois escalões - A - 3ºciclo (13) e B - Secundário (7). Dado que a modalidade era livre, houve desenhos, música, literatura, fotografia e assemblage. Foram atribuídos prémios aos 3 melhores classificados nos dois escalões. O júri destacou com o 1º lugar, do escalão A, o conto da aluna do 9º ano, Mariana Pacheco, devido não só à qualidade do conteúdo como também à qualidade da escrita, uma vez que é, sem dúvida, um exemplo da arte de bem escrever.

Ilídia Fialho Quadrado

II Eram seis em ponto e tinha que estar no aeroporto dentro de uma hora. Levantou-se, enfiou os pés nas pantufas e apressou-se para dentro do duche. Vestiu-se e certificou-se se tinha colocado tudo na mala de viagem. Estava tudo pronto. À porta de casa, em frente a um espelho redondo, penteou cuidadosamente os poucos fios de cabelo que ainda tinha. Saiu de casa e entrou rapidamente no táxi que já o esperava.

era uma paragem obrigatória para os turistas. Entrou e deparou-se com um bar cujas paredes estavam cobertas de quadros, bandeirinhas e lembranças de turistas de todo o mundo. Sempre que um iatista por lá passava, deixava uma bandeira como marca da sua paragem, tinha obtido essa informação num dos livros que consultara na biblioteca. Como não poderia deixar de ser, bebeu o emblemático gin enquanto petiscava alguns aperitivos. Quando de lá saiu deparou-se com a aprazível vista da ilha do Pico. Sentou-se num muro mergulhado nos seus pensamentos, contemplando a maravilhosa vista. Nesse plácido momento sentiu-se em casa.

III Tinha tido uma boa viagem. Tinha aproveitado para acabar de ler um livro já pela sexta vez. Para muitos era um livro intragável e maçudo, mas para ele era um dos melhores livros que existiam. Tinha aproveitado também para se pôr a par das novidades do mundo, através do jornal que tinha trazido consigo. Fez escala em Lisboa e finalmente chegou à ilha do Faial. Estava na sala de bagagens, já era possível ouvir pessoas falarem português à sua volta. Sabia falar português fluentemente, apesar de ter nascido e vivido a sua vida inteira no Reino Unido. Vinha de uma família rica e valorizada. Desde muito jovem que lhe tinham fomentado o gosto pelas línguas, pela escrita e pela literatura. Falava inglês, francês, espanhol, italiano, português e um pouco de russo. Todo este conhecimento linguístico era agora uma mais-valia nas suas viagens pelo mundo. IV Tinha acabado de chegar ao hotel onde ficaria hospedado. A viagem apesar de calma tinha sido fatigante e naquele momento necessitava de repouso. Mas isso não se sobrepunha à sua vontade desmedida de percorrer a ilha de uma ponta à outra. Estava faminto e decidiu ir ao café Peter cujo nome não lhe era inteiramente desconhecido, já tinha ouvido falar daquele café e sabia que

V Eram oito horas em ponto, tinha descansado bastante durante a noite. Sentou-se e pegou num caderno que estava ao lado da cama. Era um caderno de capa preta dura e folhas de linhas amareladas. Aquele caderno andava sempre consigo, gostava muito de escrever os seus pensamentos fugazes e muitas vezes juntava-os, o que resultava em textos e histórias formidáveis. Sempre o tinham incitado para a escrita mas, para além disso, ele possuía um talento natural. As palavras fluíamlhe com uma naturalidade insólita. O seu maior sonho era escrever um livro. As tentativas tinham sido muitas, mas era de tal forma rigoroso e minucioso que achava sempre que não era bom o suficiente. Achava que ainda não tinha descoberto nada suficientemente interessante que resultasse num grande livro. Começou a escrevinhar algumas frases soltas. Depois de terminar, vestiuse e apressou-se a sair do quarto. Tinha muitos planos para aquele dia. Estava um óptimo dia, o céu estava azul e não havia sinal de nuvens. Passeou pelas ruas da cidade da Horta, era uma cidade pequenina, bonita e acolhedora.

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Aproveitou para visitar a marina, um dos lugares da ilha que mais intenção fazia de visitar, não só por ser uma das mais famosas do mundo, como também pelas pinturas dos iatistas de todos os cantos do globo. Diz a lenda que para garantir uma boa viagem de regresso a casa, os iatistas deveriam deixar uma pintura nos muros ou no chão da marina. Era lindíssima e a vista que obtinha do Pico era de uma beleza descomunal. Depois disso passeou mais um pouco pela cidade, passou pelo Largo do Infante, um jardim que achara muito bonito, caminhou por toda a avenida até se deparar com um parque, chamado Parque da Alagoa ao pé de uma pequenina praia. No parque havia mesas de piquenique, escorregas, baloiços e todas essas diversões para crianças. Pousou um saco que trazia consigo por cima de uma das mesas e retirou de lá dentro uma sanduíche e uma garrafa de água pequena que tinha comprado no caminho. Almoçou tranquilamente ao som de risinhos de crianças e advertências de pais preocupados. Apanhou um táxi e deu indicações para que parasse ao pé da praia na freguesia da Praia do Almoxarife. Haviam-lhe indicado aquela praia no hotel e estava desejoso por dar um mergulho. Estendeu a toalha que tinha trazido consigo na areia. Era areia preta, coisa que nunca tinha visto em lugar nenhum. Dirigiuse ao mar. Como estava tépida aquela água! Nadou um pouco e voltou para a areia para se deitar na toalha. Estava uma tarde maravilhosa. Depois de mais umas idas à água regressou à areia para se enxugar e vir-se embora. Já era tarde e a fome já começava a manifestar-se. VI Chegou ao hotel e tomou um duche para retirar a água salgada. Depois de vestido saiu novamente para ir jantar. Linguiça, morcela e inhames com batata-doce parecia-lhe bem. Gostava muito de experimentar sabores diferentes e variados. Para beber pediu


vinho verdelho feito na Ilha do Pico. Adorou principalmente o inhame frito e a morcela, já para não falar do vinho que com certeza compraria uma garrafa para levar quando fosse para casa. Depois de uma boa refeição regressou ao hotel. Não estava nada entusiasmado com o facto de ter de voltar a casa dois dias depois. Gostava de estar naquela ilha, gostava das ruas, gostava de avistar sempre o mar no horizonte, gostava das pessoas, da comida e principalmente da sensação que tinha quando contemplava a ilha do Pico ao nascer do sol, era um momento tranquilo, sentia-se realmente em casa. Era uma sensação que nunca sentira em qualquer outro lugar. Tinha visitado lugares lindíssimos e muito conhecidos. A verdade é que nesta ilha sentia-se bem como se tivesse vivido aqui toda a sua vida. Tentou não desanimar, pois ainda tinha o dia seguinte e já estava tudo planeado. Iria à Caldeira e ao Vulcão dos Capelinhos. Depois de fazer os planos para o dia seguinte pegou no seu caderno e escreveu. Escreveu horas e horas, aquela

ilha inspirava-o. Quem sabe, talvez tudo isto poderia acabar num livro.

Quando lá chegou deparou-se com uma vista magnífica para a ilha do Pico e para algumas partes da ilha. Ficou maravilhado com a enorme cratera rodeada por hortênsias muito azuis, que apesar de não serem uma planta endémica, são muito características da ilha do Faial, constatando assim o porquê da designação de Ilha Azul que já tinha visto em vários folhetos turísticos. Regressou ao hotel ao fim da tarde. Estava muito cansado, precisava de dormir. Partiria no dia seguinte depois do almoço.

VII Era bem cedo e Richard estava com uma energia estonteante. Levava consigo uma mochila com uma garrafa de água e sanduíches para a viagem. Chamou um táxi e pediu-lhe que o levasse ao vulcão. Quando chegou dirigiu-se ao um Centro de Interpretação que se encontrava no subsolo. Lá dentro entrou num pequenino auditório onde visionou um vídeo a três dimensões sobre a criação da terra e de seguida dirigiu-se às salas de exposições. Enquanto ouvia algumas explicações apontou o essencial no seu caderno. Faz também parte deste Centro de Interpretação o Farol dos Capelinhos, que teve o prazer de subir e observar as consequências paisagísticas provocadas pelo vulcão. Depois de almoçar e acabar a sua visita ao vulcão, apanhou novamente um táxi para a Caldeira.

VIII Acordou cedo, aproveitou para escrever e reler tudo o que tinha escrito desde que chegara ao Faial. Vestiu-se e saiu. Não podia deixar a ilha antes de comprar um porta-chaves para juntar à sua colecção. Depois de o comprar, só havia mais uma coisa que queria fazer, queria ir ao cimo do Monte da Guia.

Recensão de Marisa Andrade António Estanqueiro nasceu em Ponte de Vagos,concelho de Vagos. É licenciado em filosofia pela faculdade de letras de Lisboa, com mais de trinta anos de experiência é professor do ensino secundário e lecciona as disciplinas de filosofia e psicologia. Por convites de instituições públicas e privadas, tem sido formador de educadores e líderes, colabora em diversos meios de comunicação social e é co-autor de manuais escolares e de um dicionário breve de filosofia.

Saber lidar com as pessoas “Saber lidar com as pessoas” é um excelente guia prático para todos aqueles que desejam melhorar as suas relações interpessoais, sejam líderes, comunicadores ou educadores, … Neste livro está reunido uma série de princípios da comunicação interpessoal a ter em conta na relação com o outro. Através de comparações, exemplos, descrições e definições extremamente simples é muito fácil compreender como um bom comunicador deve agir perante as mais diversas circunstâncias, pois saber o que dizer à pessoa certa, na proporção certa, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil. Segundo este livro a felicidade e o sucesso dependem, em grande parte da capacidade para gerar e manter boas relações, por isso este livro aborda o melhoramento das relações humanas de três perspectivas diferentes e imprescindíveis:

A primeira perspectiva é pessoal, “A relação consigo mesmo”, isto é, para o desenvolvimento pessoal e social é necessário ter autoconhecimento, autoestima, autoconfiança, auto-aceitação, segurança e pensamento positivo. A segunda perspectiva é “A relação com o outro” que aborda os grandes temas da comunicação interpessoal, o diálogo, a escuta activa, a sabedoria das perguntas e a arte de falar tendo por base as motivações humanas. A terceira perspectiva abordada diz respeito à “Liderança e relações humanas” que contém algumas orientações mais específicas para os líderes e educadores a quem é exigido uma elevada competência na arte de lidar com as pessoas. Como se pode ver “Saber lidar com as pessoas” é um livro completo que aborda todas as temáticas necessárias para manter as boas relações bem como, ajuda a corrigir o comportamento agressivo e os ataques pessoais, e no final ainda se pode encontrar uma série de testes para avaliar o estilo de comunicação do leitor.

Adalberto branco

António Estanqueiro

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Quando lá chegou ficou imenso tempo a apreciar a vista sobre toda a cidade. E escreveu durante muito tempo. Quando acabou, sentiu um enorme aperto no peito, pegou no porta-chaves que tinha guardado no bolso e apertou-o com força. Queria ficar ali para sempre. Contemplar todas as manhãs o nascer do sol atrás do Pico, ver o verde da vegetação e o azul do mar. Deitar-me na areia preta e ouvir os sons dos cagarros de noite. Queria ficar ali. Tal facto não me impediria de continuar a viajar, nem de conhecer novos lugares, apenas era para ali que queria voltar. Para o Faial, para o lugar em que me sentia em casa. E era assim que acabava o seu primeiro livro, livro a que deu o nome: A Ilha à Descoberta. Mariana Pacheco


Recensão de Beatriz Castro Soares O livro narra a história de Siddhartha, um jovem curioso e amante do saber, que viveu uma infância esplêndida. Foi educado segundo a religião Hindu e todos viam nele um futuro brâmane excepcional. Porém, os conhecimentos dos brâmanes não o preenchiam, ele necessitava de algo mais. Ele deseja alcançar a sabedoria suprema, ou seja, conhecer-se a si próprio e à essência última do mundo.

Hermann Hesse

Siddhartha Hermann Hesse (1877-1962) nasceu no seio de uma família religiosa, na Alemanha. Era filho de pais pietistas – movimento com origem no Luteranismo, no séc. XVII – e portanto, seria um futuro pastor. No entanto, Hermann Hesse recusou a religião, cortou relações com a família e emigrou para a Suíça (naturalizando-se suíço). Por volta dos 35 anos de idade, Hermann Hesse dedicou-se à literatura. Em 1946 recebeu o Prémio Goethe e, passados alguns meses, o Nobel de Literatura. Um dos romances que escreveu (publicado em 1922) foi Siddhartha. O livro que eu li.

Sabedoria encontra-se dentro de nós, no “Om” de cada um. Govinda decide seguilo e deixa Siddhartha que continua o seu percurso. Siddhartha percorre um caminho longo e doloroso, cheio de vícios, ostentação e de luxo numa cidade. Na cidade arranja emprego e aprende a arte do amor com Kamala (a cortesã). Durante a estadia na cidade, ele vicia-se no jogo e em todos os prazeres mundanos. Siddhartha após reflectir apercebeu-se que estava no mau caminho. A sua alma nunca esteve tão perdida, devastada e vazia. Assim, decide fugir da cidade. No percurso adormece debaixo de uma árvore à beira de um rio.

Contrariamente à vontade do pai, Siddhartha e o seu amigo Govinda tornam-se samanas, levando uma vida de pobreza, de austeridade, de sofrimento e de oração. Este estilo de vida em que a fome, a sede e o cansaço estavam sempre presentes, mudou a visão do mundo de Siddhartha. Tudo lhe parecia mentira e fingimento, nomeadamente o amor entre pais e filhos, amigos e casados. Siddhartha, ao aperceber-se disso, falou com Govinda e ambos decidiram parar de segui-los.

Ao acordar a sua vida renova-se, renascendo das cinzas e alcança o que procurou a vida inteira - a Sabedoria Suprema – a compreensão … a aceitação do mundo … a música harmónica que a natureza canta! A paz!

Posteriormente, encontram o Buda Gotama. Siddhartha e Govinda ouviram a sua doutrina. Siddhartha teve um debate com Gotama e discordou do Buda. Siddhartha acreditava que o alcance da sabedoria suprema não podia ser ensinado nem transmitido, pois a

“Siddhartha escutou [o rio]. Era agora todo atenção, todo mergulhado no escutar, totalmente vazio, impregnandose por completo; sentiu que aprendera agora a escutar. Muitas vezes já escutara tudo isto, as muitas vozes do rio, mas hoje elas tinham um sabor diferente. Já

não era capaz de distinguir as muitas vozes, as alegres das chorosas, as infantis das adultas, estavam todas juntas, lamento de saudade e sorriso do sábio, grito de iras e gemido do moribundo, tudo era uno, tudo estava interligado e combinado, enlaçado de mil maneiras diferentes. E tudo junto, todas as vozes juntas, todos os objectivos, toda a nostalgia, todo o sofrimento, todo o prazer, tudo o que é bom ou mau, tudo junto era o mundo. Tudo junto era o fluxo dos acontecimentos, era a música da vida. E quando Siddhartha escutava com atenção este rio, esta canção a mil vozes, quando não escutava apenas o lamento ou o sorriso, quando a sua alma não se prendia a apenas uma voz e entrava nela com o seu Eu, mas antes de tudo escutava a totalidade, quando acolhia a unidade, então a grande canção a mil vozes consistia apenas numa única palavra, chamada Om: a Perfeição.” Aconselho este livro a todos os alunos, professores e funcionários da escola, uma vez que é um livro de fácil leitura, de poucas páginas, inspirador e encantador.

Uma Aventura nos Açores Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Segundo a tradição, as ilhas dos Açores são os picos das montanhas de um continente chamado Atlântida que se afundou por causa de um pavoroso terramoto acompanhado de um maremoto. Há quem diga que no fundo das lagoas e no interior das furnas, onde as águas borbulham e de onde saem jactos de vapor com cheiro a enxofre, se encontram vestígios dessa fantástica e riquíssima civilização que possuía um metal mais valioso do que o ouro e a platina, o oricalco. É nesse cenário fabuloso que as gémeas, o Pedro, o Chico e o João vão viver mais uma das suas emocionantes aventuras. Excerto do livro: - Nós pertencemos a uma associação que se dedica ao estudo de civilizações desaparecidas. Por isso é que estamos aqui. Viemos procurar vestígios da Atlântida. - Vocês com certeza já ouviram contar que as ilhas dos Açores são o que resta de um antigo continente que havia a meio do oceano. Afundou-se por causa de um grande tremor de terra e só ficaram de

Ilustrações de Arlindo Fagundes

fora os cumes das montanhas. São as ilhas. Pedro conhecia a história, mas tomara-a por lenda. - Lenda? Todas as lendas têm um fundo de verdade. E neste caso até há documentos escritos. As informações mais antigas a respeito dos atlantes têm vinte e cinco séculos e foram dadas a um filósofo grego chamado Platão, que ficou famoso por ser muito inteligente e sabedor. - Você falou em atlantes? Então quer dizer que essa terra era habitada? — perguntou a Luísa, de olhos arregalados. - Habitadíssima. Os atlantes eram um povo rico e civilizado. Tinham cidades magníficas com templos, palácios, torres, jardins e ginásios. Diz-se que recobriam as muralhas e as estátuas de ouro puro e que fabricavam as jóias com um metal ainda mais precioso que só eles possuíam, o oricalco. - E desapareceu tudo com um tremor de terra? Morreram todos? - Quanto a isso, há vários teorias. Há quem diga que se adaptaram à vida no fundo do mar, o que é pouco provável. Há quem garanta que morreram afogados e que os poucos vestígios da sua existência se encontram nas lagoas

açorianas. Também há uma versão que inclui sobreviventes. Esses teriam conseguido escapar de barco. Navegando à deriva, espalharam-se pelo mundo e em toda a parte deixaram descendência. - E sabe-se quem são? Tinham algum traço físico especial? - Ainda que tivessem, já teria desaparecido com séculos e séculos de casamentos. No entanto, segundo consta, há uma coisa que se mantém. - O quê? - Um desejo imenso de voltar... - Que giro, Mário! Conte mais coisas. Ele riu-se. - Agora não dá tempo porque estamos a chegar ao nosso destino. - Mas podes dizer-lhes dos nomes — sugeriu a Sara. - Diz tudo. A descoberta pertence-te. - Não é nada de extraordinário — explicou. — Encontrei um livro onde estava escrito que na Atlântida os nomes próprios acabavam todos em "rin". - Ah! Por isso é que vocês se chamam um ao outro Marin e Sarin.» (in Uma Aventura nos Açores, pp. 62-63)

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suplemento Arauto