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Campinas DOMINGO 9 / 10 / 2016

CORREIO POPULAR Fenômeno mundial e um dos maiores sucessos do Cartoon Network, a série de desenho animado Steven Universo é um oásis de representatividade. Em conversa com a coluna durante a New York Comic Con, a criadora Rebecca Sugar conta como o projeto nasceu de um desejo pessoal

Fábio Trindade* DA AGÊNCIA ANHANGUERA

fabio.silveira@rac.com.br

Quando a palavra celebração é usada para descrever uma Comic Con, ela, de maneira alguma, é um exagero. O mais divertido de estar nessas convenções é ter a oportunidade de embarcar no universo geek da forma mais diversificada possível, de um jeito que não se vê em nenhum outro lugar. Quando falamos de TV, por exemplo, num único dia, dá para se esbaldar em tantos gêneros de shows que, muitas vezes, é difícil acreditar que tudo faz parte de uma mesma programação. Mas faz, porque, como dito, estamos numa grande festa do entretenimento. E que festa. A New York Comic Con, como segunda maior feira do tipo dos Estados Unidos, obviamente oferece o que há de melhor para todos os gostos. E o bacana é justamente participar de painéis e shows bastante diferentes entre si, de produções que têm em comum apenas o fato de estar na TV – sem esquecer as plataformas digitais. Dessa forma, durante os três primeiros dias da NYCC (ainda há o último, hoje, para aproveitar), foi isso que tentei fazer ao máximo: variar. E, assim, oferecer a você, caro leitor, o mesmo: pluralidade. Um conteúdo que mostrasse a essência da Comic Con. Portanto, do mesmo jeito que num dia é possível conversar com o elenco de uma das maiores séries de todos os tempos (The Walking Dead); ou sentar com um dos maiores cineastas da atualidade (Guillermo Del Toro); ver uma lenda viva diante dos seus olhos (Stan Lee); e dar risadas com o senhor do tempo (Peter Capaldi, de Doctor Who); em outros, são as crianças que ganham total atenção. Afinal, falar em diversidade sem falar em Steven Universo, um dos maiores suces-

Uma AVENTURA para DIVERTIR e fazer PENSAR Fotos: Divulgação

Desenho, que sofreu censura no Reino Unido, aborda assuntos como a homoafetividade de forma natural

sos do Cartoon Network, significa que o papo não está completo. O show está num canal infantil e é voltado para os pequenos? Sim. E é verdade que as séries de desenho animado não trazem

mais apenas conteúdo para as crianças passarem o tempo enquanto os pais precisam de descanso? Isso também não é novidade. Mas poucos funcionam quase como um tutorial para a puberdade – que pode ser, na maioria das vezes, confusa, tumultuada, inusitada e, certamente, difícil – como Steven Universo. Fenômeno mundial, Steven Universo, criado por Rebecca Sugar, é, entre outras

palavras, um oásis de representatividade. Além de misturar ação e comédia, prioriza, em diversos momentos, o amor e a amizade como não se vê em desenhos. Oferece aos pequenos – e a quem mais interessar, pois quem disse que desenho é só para crianças? – tramas riquíssimas que promovem discussões que muitas vezes as próprias pessoas fazem de tudo para fugir. Ou alguém aí está acostumado com desenhos

que abordam temáticas como relacionamentos homoafetivos ou mostram uma enorme diversidade de gênero e raças? “É um projeto muito pessoal”, explicou Rebecca à coluna durante sua passagem pela NYCC. “Quando eu era mais jovem, eu tinha muitos conflitos dentro de mim. Principalmente sobre sentimentos, sensações. E poucos falavam sobre isso comigo, o que estava acontecendo. En-

tão, de alguma forma, os desenhos foram as minhas válvulas de escape, mesmo que eu não os tenha visto deste jeito na época. Eu não notava os reflexos que eles tinham em mim, o quanto me ajudavam. Eu só queria ver os personagens serem amados, simples assim, da forma como fossem, e que seus amigos os vissem da mesma forma como sempre viram”, continua Rebecca, que se assumiu bissexual durante a San Diego Comic Con, em julho deste ano. “Eu fiz um show que eu quisesse ver. Um show que eu acredito.” O desenho, enquanto faz tanto sucesso justamente por falar, com muita sensibilidade e muitas vezes com metáforas, sobre amizades e amores livres, chegou a ser censurado no Reino Unido. Ele teve uma de suas cenas cortadas, causando revolta nos fãs, pois mostrava duas personagens femininas “dançando de forma muito íntima”. “Eu sou mãe e fico tão contente que meu filho possa assistir a um show como esse”, afirma Jennifer Paz, atriz que dá voz a Lapis. “É uma coisa normal, uma vida normal em termos dos relacionamentos apresentados. Acho incrível usar um desenho para ensinar as crianças sobre tudo o que os espera quando ficarem mais velhos. Há momentos sublimes no show. É para crianças, mas fala sobre assuntos adultos. E apenas por ele ser assim, tão dinâmico, que ele atrai um público tão diversificado”, conclui. A história do desenho é a seguinte: Há muito tempo, a Terra era habitada por humanos e por uma série de GEMS – seres mágicos com poderes incríveis que superavam os dos humanos. Os únicos Gems que restaram são as Crystal Gems — Garnet, Ametista, Pérola e o novo membro do grupo, Steven. Elas, portanto, se autoproclamaram protetoras da humanidade, viajando aos confins do mundo para encontrar os locais remanescentes da Era Mágica. Nisso, dão um exemplo de amor e amizade como poucas vezes se vê. Simples assim. *O jornalista viajou a convite da Turner

Cobertura da New York Comic Con 2016 - Série Steven Universo  

Entrevista com a criadora da série Steven Universo, do Cartoon Network, durante a Comic Con de Nova York

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